A cura Quântica



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Se você pudesse ver seu corpo como realmente é, nunca o ve­ria repetir-se. Noventa por cento dos átomos de nosso corpo não estavam nele há três meses. De certa forma, a configuração das células ósseas permanece a mesma; no entanto, átomos de todos os tipos atravessam livremente as paredes celulares, o que signi­fica que adquirimos um novo esqueleto a cada três meses.

A pele se renova a cada mês; adquirimos novo revestimento no estômago a cada quatro dias com a renovação constante da superfície que entra em contato com os alimentos a cada cinco minutos; as células do fígado se renovam de modo mais lento, mas novos átomos flutuam tranquilamente através delas, como a água no leito de um rio, fabricando um fígado a cada seis se­manas. Mesmo no interior do cérebro, cujas células não são subs­tituídas depois que morrem, o teor do carbono, nitrogênio, oxi­gênio etc. é hoje inteiramente diverso do de um ano atrás.

É como se vivêssemos num edifício cujos tijolos fossem sistematicamente trocados a cada ano. Se for seguida a planta origi­nal, ele continuará parecendo o mesmo prédio.

O corpo humano também continua parecendo o mesmo, dia a dia, mas através dos processos de respiração, eliminação e ou­tros vive em constante sistema de troca com o resto do mundo. Certos átomos — de carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio — percorrem o corpo muito rapidamente, como parte essencial do que nos servimos de modo mais imediato: os alimentos, o ar e a água. Se apenas existissem esses quatro elementos, estaríamos literalmente criando novos corpos todos os meses. Mas o ritmo de renovação é retardado por outros elementos que não nos per­correm tão depressa. O cálcio ligado a nossos ossos pode levar um ano inteiro para ser reposto — algumas autoridades ampliam esse prazo a vários anos. O ferro, componente que fabrica as cé­lulas vermelhas do sangue, mantém-se no organismo com muita tenacidade, sendo perdido principalmente através do descarte das células mortas da pele ou da própria perda de sangue.

Mesmo que os índices de mudança possam diferir, ela sempre está presente. Isso a que chamo “inteligência” assume o contro­le de todas essas mudanças para não virarmos simples pilhas de tijolos. Esse é um dos fatos mais evidentes da fisiologia, mas a inteligência é tão mutável, de movimento tão rápido — tão viva, em outras palavras — que os livros de medicina não lhe dedicam quase nenhum espaço.

Para se ter uma idéia de como é limitado nosso conhecimento atual sobre o assunto, basta considerar a estrutura de um neurô­nio. Os neurônios que compõem o cérebro e o sistema nervoso central “falam” entre si através de aberturas chamadas sinapses. Essas aberturas separam filamentos estreitos como galhos, as dendrites, que crescem nas pontas de cada célula nervosa. To­do mundo possui bilhões dessas células, divididas entre o cére­bro e o sistema nervoso central, e, como vimos, cada uma gera dúzias ou mesmo centenas de dendrites (o total é estimado em 100 trilhões). Isso significa que, a qualquer momento, as possí­veis combinações de sinais saltando através das sinapses do cérebro excederão o número de átomos do universo conhecido. Os sinais também se intercomunicam à velocidade do raio. Nosso cérebro leva poucos milionésimos de segundo para ler esta frase, organizando um padrão exato de milhões de sinais que logo em seguida se dissolvem e jamais voltam a se repetir exatamente da mesma forma.

Quando eu estava na faculdade, aprendemos um modelo sim­ples de comunicação de carga elétrica entre neurônios: a carga de eletricidade forma-se de um lado da sinapse e, quando cresce o suficiente, salta como uma faísca através da abertura, dando sinal a outra célula nervosa. Mesmo considerando esse mecanis­mo correto (o que na realidade não é), a descrição de nosso livro de neurologia, em 1966, não ensinava quase nada sobre o modo de agir dos neurônios na vida real; o modelo descrito no livro faz sentido apenas para uma única célula nervosa, isolada e pa­rada no tempo, afastada do contexto. Na verdade, a ação que ocorre nas aberturas, pelo sistema nervoso, é comparável a um compu­tador cósmico reduzido a uma escala microscópica. Esse fantás­tico computador funciona continuamente, operando centenas de programas ao mesmo tempo, distribuindo-se em múltiplos bi­lhões de bits de informação a cada segundo e, o que é ainda mais miraculoso, sabe como se conduzir.

Realmente, não foi nosso estudo de medicina que falhou neste caso. Como é possível a qualquer livro descrever todo esse pro­cesso? Pensar é formar dentro de nós padrões tão complexos, rá­pidos e de uma riqueza tão variada quanto a própria realidade. O pensamento é o espelho do mundo, nada menos do que isso. A ciência simplesmente não tem os instrumentos para observar tal fenômeno, que é, ao mesmo tempo, vivo e infinito. O corpo humano não interrompe seu movimento para que o estudem, pelo menos não como um todo. Portanto, quando causa impacto à ciên­cia, como no caso de uma cura espontânea de câncer, a medicina vacila em seu caminho, espantada por descobrir que a vida não se comporta de modo tão simples quanto o modelo de laboratório.

Em 1986, um impacto abalou todo o campo da pesquisa cere­bral: o neurocirurgião mexicano dr. Ignacio Madrazo implantou com sucesso células saudáveis no cérebro de um paciente que so­fria de mal de Parkinson.

Não só se realizou o transplante, que antes era considerado impossível, como o paciente demonstrou impressionante melhora, recuperando 85 por cento de suas funções normais. Antes da ci­rurgia, esse paciente, um fazendeiro mexicano de trinta e tantos anos, tornara-se quase incapaz por causa da doença. O mal de Parkinson atinge cerca de 1 por cento das pessoas com mais de 50 anos. Começa com tremores nos músculos, rigidez dos mem­bros ou uma tendência a mover-se muito lentamente. A causa imediata desses sintomas é a deficiência de dopamina, a mesma substância química cerebral que causa a esquizofrenia, quando produzida em excesso. Por razões ainda desconhecidas, as célu­las nervosas que produzem dopamina, localizadas em uma parte da base do cérebro chamada substantia nigra, começam a mor­rer, gerando a deficiência. Sem dopamina suficiente, a capacidade do cérebro em regular os movimentos dos músculos diminui e finalmente desaparece.

Qualquer dos sintomas do mal de Parkinson, ou todos eles, agrava-se com o tempo até o paciente ficar totalmente incapaz. O dramaturgo Eugene O’Neill contraiu o mal de Parkinson de­pois dos 50 anos. Ele sentia cada vez mais dificuldade em escre­ver, porque o tremor das mãos aumentava. Havia planejado um ciclo de quatro peças que seria sua obra-prima, mas a doença destruiu tudo: um simples olhar aos manuscritos revela que O’Neill mal conseguia desenhar garranchos e riscos, patéticas le­tras ilegíveis. Com heróica resistência ele transferiu suas palavras ao papel, mas até hoje ninguém foi capaz de decifrar o que elas querem dizer.

No México, o paciente de Madrazo, embora bem mais jovem que a média dos doentes de Parkinson, estava preso ao leito por­que sofria tremores rítmicos e constantes que o impediam de an­dar sem ajuda. Depois da cirurgia ele voltou a andar, correr, alimentar-se, trabalhar no jardim e, como mostrou um filme a seu respeito, foi capaz de carregar novamente seus filhos no colo.

A operação do dr. Madrazo abriu novos horizontes a outros doentes de Parkinson, que apenas nos Estados Unidos ultrapas­sam 1 milhão de casos. Em fins de 1987, realizaram-se no mun­do duzentas operações semelhantes. Madrazo executou mais vinte intervenções com sucesso considerável. (As tentativas anteriores a essa cirurgia tinham falhado, assim como iriam falhar as ou­tras, posteriores. Madrazo acredita que seu sucesso se deve à es­colha da exata localização dos implantes.) Mas só agora começam a ser consideradas as conseqüências a longo prazo — subi­tamente, quase sem aviso, os neuropesquisadores viram-se dian­te de algo até então só possível em ficção científica: um “trans­plante cerebral”.

O que torna um enxerto de tecido cerebral tão surpreendente é que a medicina sempre acreditou que o cérebro não fosse ca­paz de se curar — por esse motivo, quase todos os danos cere­brais causados por doenças ou acidentes eram considerados irre­versíveis. Somente em 1969 um pesquisador em Cambridge, Godfrey Raisman, provou através de um microscópio eletrônico que as células nervosas danificadas podem induzir novo crescimen­to. Recentemente, Madrazo demonstrou que o cérebro não só é capaz de se curar como aceita tecidos de outros órgãos. No caso da doença de Parkinson, ele usou células da glândula supra-renal, que também produz dopamina; a cirurgia também pode ser rea­lizada usando-se o tecido cerebral de outra pessoa ou até de um feto de porco.

Atualmente os neurocientistas estudam a hipótese de que o cérebro seja dotado de um complexo sistema químico de restaura­ção, quase totalmente desconhecido até poucos anos atrás. Um grupo de pesquisa sueco demonstrou que a perda de memória em ratos pode ser revertida injetando-se neles uma das mais im­portantes substâncias químicas de reparo no cérebro, a proteína-chave chamada NGF, ou fator de crescimento nervoso. Por ana­logia, os danos cerebrais associados ao mal de Alzheimer, que também envolve perda de memória, podem ser tratados da mes­ma forma. Além disso, a experiência sueca indica um avanço so­bre o enxerto de tecidos cerebrais porque não usou tecidos vivos nem cirurgia.

Um após outro, os princípios básicos da fisiologia do cérebro vêm sendo reconsiderados e drasticamente modificados. Os avan­ços continuam a ser revolucionários: outra equipe sueca mostrou-nos que as células nervosas podem ser implantadas na retina, cuja superfície é apenas uma extensão e alargamento do nervo óptico. Depois do implante, as células começam a desenvolver novos ra­mos, confirmando a tese de que a regeneração do cérebro é pos­sível e normal. Novamente, essa pesquisa envolveu animais de laboratório em vez de seres humanos, mas a aplicação no trata­mento de cegos é evidente; do mesmo modo, outros enxertos po­dem beneficiar vítimas de traumatismo craniano, derrame e ou­tros males cerebrais.

Quero enfatizar que nenhum desses avanços seria possível sem a mudança de conceito por parte da ciência. É estranho pensar que os mesmos médicos que, em 1989, falam confiantemente da cura do cérebro demonstravam essa mesma confiança ao declará-la impossível, em 1985. Na verdade, as bases do enxerto cerebral são bem antigas: datam de 1912, quando Elizabeth Dunn, a pes­quisadora do Instituto Rockefeller, implantou células nervosas no cérebro de um rato e foi bem-sucedida. Sua pesquisa foi recebi­da com total indiferença. (Isso me faz lembrar que, segundo re­gistros da literatura médica, observou-se por mais de 140 vezes o mofo da penicilina matar bactérias, antes que Alexandre Fle­ming “descobrisse” o fato. Antes dele, todos os pesquisadores haviam se aborrecido porque suas culturas de laboratório, tão cui­dadosamente desenvolvidas, ficavam estragadas pela invasão do mofo verde. O próprio Fleming jogou fora suas culturas infesta­das de bactérias, e só mais tarde compreendeu que havia descoberto a fabricação de uma droga maravilhosa.)

Outro pioneiro no campo do enxerto de cérebro, Don M. Gash, agora na Universidade de Rochester, foi desencorajado no início da carreira por um catedrático que lhe disse:

— Doutor Gash, o senhor é um jovem com uma brilhante car­reira pela frente. Não perca seu tempo com essa idéia boba que não pode ser verdadeira.

A simples noção de que um transplante foi realizado desperta grande ceticismo. Críticos do processo de Madrazo ressaltaram que o prazo de convalescença de seus pacientes, iniciado poucas semanas após o implante das células cerebrais, era muito rápido para dar tempo ao novo tecido de “pegar”. Pode ser que o cérebro sare totalmente por si mesmo, segregando, em resposta ao corte cirúrgico, substâncias químicas que não são produzidas pelas novas células (assim como uma ostra expele madrepérola em res­posta a um grão de areia em sua concha).

Talvez essas descobertas não nos informem tanto sobre o mo­do de se conduzir um transplante, mas sirvam de estímulo à busca de novas capacidades do cérebro como órgão vivo e dinâmico. Por mais que venha sendo glorificado pela medicina moderna, ele é a parte mais petrificada do petrificado modelo escultural do corpo, já que nem era capaz de se recuperar. Diante disso, esta é uma afirmação suspeita. Todas as células de nosso corpo, desde um folículo capilar, um neurônio ou uma célula do cora­ção, surgem de um filamento duplo de DNA no momento da concepção. Tudo o que você pode fazer — pensar, falar, correr, tocar violão ou dirigir um país — desenvolve-se de uma capaci­dade programada dentro dessa molécula inicial. Sendo assim, dizer que um neurônio não pode se curar é o mesmo que afirmar que seu DNA ficou aleijado. Seria uma proposta razoável? Sem dú­vida, o DNA decidiu ser uma célula cerebral em vez de cardía­ca, o que acarreta a manifestação de determinadas partes de seu potencial em detrimento de outras.

Mas isso difere totalmente da afirmação de que qualquer capacidade do DNA tenha sido perdida. Nada é perdido no DNA. Cada célula do corpo contém, o tempo todo, todas as infinitas possibilidades do DNA, desde o momento da concepção até a morte. A prova disso está no procedimento a que chamamos clone: teoricamente, alguém pode pegar uma célula do interior da maçã do rosto e, mediante certas condições, produzir uma cópia idêntica a você, ou um milhão delas. O genial na natureza é que ela não fabricou 1 milhão de clones iguais; na verdade, apenas os organismos mais primários consistem em células idênticas, e a maior parte deles é feita de uma só célula, como a ameba. Ain­da assim, nesse sentido, a diferença entre a ameba e o ser huma­no se desfaz no nível do DNA: tudo o que a ameba é está contido em seu pequeno pacote de DNA, e tudo o que você é está contido no seu. Portanto, não deve ser tão surpreendente que um neurônio realmente se decida (em circunstâncias que não compreendemos muito bem) desobedecer à própria norma de não se recuperar e, de repente, comece a fazer exatamente isso.

A verdade, neste assunto, é que o cérebro é complexo demais para se transformar em modelo, e a ciência, por definição, tra­balha com modelos. Eles são úteis, mas todos, sem exceção, pos­suem pontos cegos em seu interior. Para observar um cérebro em funcionamento, ou qualquer função do corpo, sem a pre­sença de um modelo, teríamos de vê-los como algo abstrato e aparentemente contraditório, preservando o aspecto imutável em meio à mudança dinâmica.

No aspecto imutável, o corpo é sólido, estável, como uma escultura congelada. No mutável, ele é móvel e fluente como um rio. Segundo o ponto de vista científico herdado de Newton, tem sido mentalmente impossível unir esses dois aspectos ao mesmo tempo. Lembro-me de um físico ter comentado que Newton comparava a natureza a um jogo de bilhar. Com isso, ele queria dizer que os físicos clássicos estudam coleções de ob­jetos sólidos — as bolas de bilhar — movendo-se em linhas re­tas, impulsionados por leis fixas de movimento. O jogo consis­te em predizer em cada caso a direção, a velocidade, a força ci­nética etc., como um cavalheiro inglês, à tarde, em seu jogo de sinuca. Mas para fazer esses cálculos você precisa parar o jogo e desenhar-lhe um modelo, completando-o com fórmulas para os ângulos e trajetórias apropriados, e assim por diante.

A ciência aceitou, em princípio, um sistema petrificado para mapear tudo o que acontece no mundo material; foi, portanto, natural que a idéia da escultura precedesse a idéia do rio. Mas o rio não parou de correr para satisfazer a ciência — a beleza do corpo humano está em se renovar a cada momento. Sendo assim, como fazer um mapa do corpo humano a cada instante? Esse é o novo dilema que teremos de enfrentar. Se pudermos resolvê-lo, chegaremos bem mais perto daquilo que procura-mos; não mais o conhecimento para ser guardado em bibliote­cas, mas novas capacidades de programar nosso computador cósmico.

4
Mensageiros do

Espaço Interior

Subir até Machu Picchu, a cidade-fortaleza dos incas, é uma tarefa difícil. Depois de cruzar uma passagem no alto dos An­des, a quase 5 mil metros de altura, onde o oxigênio é rarefeito a ponto de causar tontura, a cidade surge acima das nuvens, e seus muros só são atingidos por meio de 3 mil degraus de pedra. Essa foi a última fortaleza tomada por Pizarro quando conquis­tou o Peru, em 1532. É espantoso pensar nos atletas corredores que faziam a ligação entre Machu Picchu e todos os vilarejos es­palhados pelos quase 4 mil quilômetros que formavam o impé­rio inca. Esses corredores eram mensageiros velozes, donos de uma resistência quase sobre-humana. Corriam descalços, cobrindo imensas distâncias a cada dia — o equivalente a duas ou três ma­ratonas olímpicas. Algumas de suas trilhas saíam do cume das montanhas rochosas do Colorado e subiam ainda mais de 1,5 quilômetro.

Devem ter sido esses corredores — olhos e ouvidos do impera­dor Atahualpa — que o avisaram da aproximação dos espanhóis. Agindo traiçoeiramente, Pizarro apoderou-se de uma fortuna quando sequestrou (e depois matou) Atahualpa. Espero que a lenda seja verdadeira quando diz que a maior parte do incalculá­vel tesouro dos incas foi escondida a tempo em local secreto. (Pizarro, que era excepcionalmente ganancioso, mesmo para um con­quistador, foi assassinado por rivais invejosos em 1541.)

Se pensarmos no cérebro humano qual uma fortaleza como Machu Picchu, ele também deve ter mensageiros para transmitir seu comando aos pontos mais distantes do império — neste caso, o dedão do pé. As trilhas físicas são bem visíveis — o sistema ner­voso central percorre a coluna vertebral, ramificando-se para os lados a cada vértebra da espinha dorsal; esses nervos principais depois se subdividem em milhões de outros, mais finos, que se comunicam com todas as partes do corpo. Os primeiros anato­mistas viram os nervos maiores no século 16, mas o sistema ner­voso continuava um segredo. Quem eram os mensageiros que le­vavam as mensagens do cérebro e as traziam de volta a ele?

Muitas pessoas ainda pensam que os nervos trabalham eletricamente, como um sistema telegráfico, porque até quinze anos atrás era o que os compêndios médicos ensinavam. No entanto, na década de 70, iniciou-se uma série de importantes descober­tas, centralizada numa nova classe de substâncias químicas ins­tantâneas, chamadas neurotransmissores. Como o próprio nome diz, essas substâncias transmitem impulsos nervosos; atuam em nosso corpo como “moléculas comunicadoras” através das quais os neurônios podem falar com o resto do corpo.

Os neurotransmissores são os corredores que partem do cére­bro e voltam a ele, informando a todos os órgãos nossas emoções, desejos, lembranças, intuições e sonhos. Nenhum desses even­tos fica apenas no cérebro. Do mesmo modo, nenhum deles é estritamente mental, já que podem ser codificados em mensa­gens químicas. Os neurotransmissores tocam a vida de cada cé­lula. Sempre que um pensamento quer se formar, essas substân­cias químicas também precisam agir, porque ele não pode existir sem elas. Pensar é praticar química cerebral, promovendo uma cascata de respostas através do corpo. Já vimos que essa inteli­gência, como know-how, invade a fisiologia — e agora adquiriu uma base material.

Isso tira o mistério do nome deste capítulo, mas não sua dramaticidade. Na verdade, nenhum acontecimento recente na biomedicina foi tão revolucionário quanto essas descobertas. A che­gada dos neurotransmissores em cena torna a interação da mente e da matéria mais móvel e fluente do que nunca — muito mais próxima do modelo do rio. Os neurotransmissores também aju­dam a preencher o espaço que aparentemente separa a mente do corpo, um dos mistérios mais profundos que o homem tem en­frentado desde que começou a pensar no que ele é.

No início, em 1973, só dois neurotransmissores pareciam necessários: um, para ativar uma célula distante, como um múscu­lo, e outro, para diminuir a atividade. Duas substâncias quími­cas do cérebro, a acetilcolina e a norepinefrina, fazem exatamen­te isso — são os sinais de “partida” e “parada” do sistema ner­voso. Foram consideradas revolucionárias na época, porque se pro­vava que o impulso enviado por uma célula nervosa a outra não era elétrico, mas de natureza química. Imediatamente, a noção aceita de pequenas faíscas saltando de neurônio a neurônio ficou obsoleta. Mas o novo modelo químico continuou, no início, a pre­servar a teoria básica de que apenas dois sinais eram necessários. Os computadores feitos pelo homem operam usando esse tipo de ligação binária, e o cérebro aparentemente fazia o mesmo.

Então, quando os biologistas moleculares de todo o mundo começaram a investigar o assunto mais a fundo, surgiram vários ou­tros neurotransmissores, cada qual com uma estrutura molecu­lar diferente e, aparentemente, com uma diferente mensagem a transmitir. Em termos estruturais, muitos deles foram se relacio­nando e ligando; como os peptídios, complexas cadeias de ami­noácidos do mesmo tipo, existentes nas proteínas que formam cada célula, inclusive as cerebrais.

À medida que essas descobertas emergiam, direta ou indiretamente, muitos e muitos enigmas começaram a ser solucionados. Se você puder pegar um gato adormecido, retirar um pouquinho de seu líquido espinhal e injetar em um gato acordado, este cairá imediatamente no sono. Isso acontece porque o cérebro do gato faz com que o corpo adormeça quimicamente, com sua pró­pria poção sonífera. Para que o animal torne a acordar, é preciso ser injetado seu oposto químico, um sinal de despertar, na colu­na vertebral.

Nos humanos, onde se opera o mesmo mecanismo químico, o corpo não é acordado de manhã por um grosseiro alarme in­terno, mas por uma série de sinais espaçados, leves de início e progressivamente mais fortes, que nos tiram do sono em vários estágios. Todo o processo envolve uma transição gradual, em qua­tro ou cinco ondas, da bioquímica do sono à bioquímica do esta­do de vigília. Se esse processo é interrompido, você não desperta tão completamente como deveria — a bioquímica de duas fases distintas se mistura. É por isso que os pais de recém-nascidos, obrigados a levantar várias vezes durante a noite, não se sentem muito normais durante o dia. Os relógios despertadores também nos arrancam de nosso padrão natural de despertar, provocando uma espécie de embriaguez que pode persistir o dia todo, até que novo período de sono e despertar reajuste a química mente-corpo.

Eis um exemplo que se aplica a esse tema: todos os camelos demonstram grande tolerância a altos índices de dor — são capa­zes de mascar um ramo de espinheiro, enquanto apanham de va­ra do homem furioso que carregam às costas. Pesquisadores curiosos examinaram as células cerebrais do camelo e descobri­ram que elas produzem grande quantidade de uma substância química específica que, ao ser injetada em outros animais, faz com que também ignorem a dor. Portanto, o sono e a tolerância à dor, como já se sabe, dependem de mensageiros químicos precisos, produzidos no cérebro.

Uma a uma, várias outras funções que antes estavam “na ca­beça” agora são ligadas a neurotransmissores específicos. Os es­quizofrênicos que sofrem de alucinações e pensamentos psicóti­cos geralmente melhoram muito se forem submetidos a uma má­quina de diálise renal, que filtra as impurezas do sangue. Como vimos, os pesquisadores do cérebro estabeleceram o fato de que um neurotransmissor chamado dopamina existe em níveis anormalmente elevados no cérebro dos esquizofrênicos. O tratamen­to normal dessa doença impõe o uso de drogas psicoativas que suprimam a dopamina; talvez a máquina de diálise possa real­mente removê-la ou retirar qualquer subproduto do fluxo san­guíneo.

Em meados dos anos 80, pouco mais de dez anos depois do primeiro avanço, mais de cinquenta desses neurotransmissores e neuropeptídios já eram conhecidos. Todos os cinquenta podem ser produzidos de um lado das sinapses entre nossos neurônios e, quando as cruzam, podem ser recebidos pelos pontos recepto­res do outro lado. Existe, assim, uma incrível flexibilidade de co­municação entre uma célula e outra. O neurônio, em si, passou a ser visto como um produtor de mensagens que não diziam ape­nas “sim” ou “não”, como um computador. O vocabulário do cérebro é bem mais vasto, englobando milhares de combinações de sinais diferentes, a perder de* vista, já que novos neurotrans­missores continuam a ser rapidamente descobertos.



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