A cura Quântica



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Que tipos de mensagens as células nervosas trocam entre si? A resposta é espantosa, porque certos segmentos de nosso voca­bulário químico parecem tão específicos quanto a conversa nor­mal, enquanto outros são muito ambíguos. Nossa tolerância pa­ra a dor, como a do camelo, depende da classe de substâncias químicas descobertas nos anos 70, chamadas endorfinas e encefalinas, que agem naturalmente no corpo, como analgésicos. A palavra endorfina significa “morfina interna” e encefalina, “den­tro do cérebro”. E essa é a história delas: são uma versão da mor­fina produzida pelo próprio cérebro.

Tal capacidade, desconhecida até então, de fabricar opiáceos internos despertou muito entusiasmo. Já se suspeitava de que o corpo deveria ser capaz de regular a sensação de dor. Apesar de insistente, ela nem sempre desperta nossa plena atenção. Emo­ções fortes, por exemplo, podem suplantar os sinais de dor do corpo, como acontece com a mãe que entra correndo para salvar o filho numa casa incendiada, ou um soldado ferido que conti­nua lutando, ignorando a dor dos ferimentos. Em circunstâncias mais comuns, todos somos capazes de desviar nossa atenção de pequenas dores — não reparamos numa dor de garganta, por exemplo, quando estamos conversando interessadamente com alguém.

Mesmo sendo comum a dor atingir um patamar e depois diminuir, nenhum mecanismo justificava esse fato. Agora, a medi­cina já pode encontrar a explicação, no uso desses analgésicos in­ternos — as endorfinas e encefalinas —, de que qualquer neurônio é capaz de produzir à vontade. O público em geral logo ficou sabendo que o cérebro produz narcóticos até duzentas vezes mais fortes que qualquer produto que se possa comprar na rua, com a grande vantagem de que nossos próprios anestésicos não são cumulativos. Talvez, no futuro, um médico venha a anestesiar seus pacientes estimulando alguma região de seus cérebros, pro­porcionando à medicina ocidental uma forma científica da acu­puntura chinesa.

A morfina e as endorfinas bloqueiam a dor preenchendo determinado receptor nos neurônios e impedindo a entrada de ou­tras substâncias químicas que trazem a mensagem da dor. Sem essas substâncias não pode haver sensação de dor, independen­temente do motivo físico que a provoque. Segundo esse modelo, uma molécula de endorfina é como uma palavra específica, a pa­lavra “anestésico”. Podemos imaginar que, quando a palavra “dor” chama a atenção do cérebro, ele tem a opção de respon­der com a palavra “anestésico”. Infelizmente, essa imagem sim­ples foi toldada por pesquisas recentes.

Descobriu-se que os níveis de endorfina no corpo não correspondem na base de um-para-um à dor que se sente. Isso pode ser provado pelo emprego de placebos, ou drogas falsas. Pacien­tes com muita dor frequentemente sentem-se aliviados ao rece­ber um placebo, em geral uma pílula de açúcar, com o aviso de que é um poderoso anestésico. Nem todos reagem assim, mas geralmente entre 30 e 60 por cento dos pacientes declaram que a dor passou. Esse resultado, chamado efeito placebo, é conheci­do há séculos, mas é altamente imprevisível. O médico não pode avaliar previamente que pacientes serão beneficiados nem o quanto.

Em primeiro lugar, por que uma pílula inofensiva de açúcar pode aliviar a dor, mesmo a mais aguda, de úlcera péptica ou de cirurgia traumática? As endorfinas devem ser a resposta, se­gundo foi descoberto. Uma droga chamada naloxone age como antagonista químico da morfina, o que significa possuir a capa­cidade de expulsar as moléculas de morfina de um ponto recep­tor. Quando o naloxone é administrado depois de um anestésico, a sensação de dor volta instantaneamente. Quando é eliminado, a mesma coisa acontecerá com o placebo. Os pacientes que fica­ram livres da dor com a pílula de açúcar declararam que ela vol­tou depois que tomaram naloxone. Isso significa que as endorfi­nas e a morfina devem ser basicamente a mesma droga, com a única diferença de que as primeiras são fabricadas pelo corpo e a outra, do ópio da papoula.

No entanto, mais uma vez, apenas certa porcentagem dos pacientes apresentou esse resultado. Naloxone fez a dor voltar com toda a força em determinados pacientes; em outros, o efeito pla­cebo continuou agindo totalmente; e em outros, ainda, voltou apenas uma dor mais fraca. Os pesquisadores ficaram ainda mais confusos, e assim continuam até hoje. As endorfinas são, sem dúvida, os anestésicos internos, mas descobrir essas novas molé­culas não foi a resposta completa.

Estudos sobre a dor já demonstraram que a morfina não é quimicamente idêntica às endorfinas, que estas interagem de um mo­do mais completo que as drogas narcóticas e que qualquer for­ma de tratamento para alívio da dor — morfina, endorfinas, acu­puntura ou hipnose — tem efeito muito variável. Também foi des­coberto que as endorfinas não podem se transformar em produ­tos farmacêuticos satisfatórios, porque nossos anestésicos inter­nos causam tanto vício quanto a heroína, se injetados.

Em pouco tempo, as mesmas complicações frustrantes que os cientistas enfrentaram com as endorfinas e encefalinas abrange­ram todos os outros neurotransmissores. Acontece que um neurônio não se limita, simplesmente, a captar o sinal de uma célula nervosa vizinha e passá-la incólume à sinapse seguinte. Essa é apenas uma escolha entre outras. Mesmo não sendo possível des­crever exatamente como os neurônios recebem suas mensagens químicas, ou como as transportam pelos próprios axônios (ou tron­cos), sabe-se que o processo deve ser muito flexível. A célula ner­vosa pode mudar a mensagem no trajeto, transformando a subs­tância química que recebeu no ponto A em outra diferente no ponto B. Os pontos receptores nas pontas das células nervosas também podem se modificar para receber diferentes tipos de men­sagens; a estação expedidora do outro lado da sinapse é igual­mente versátil.

Na verdade, essa confusão é altamente encorajadora para nos­sos propósitos, porque prova que o corpo não pode ser compreen­dido sem o ingrediente perdido da inteligência. A aparência físi­ca das endorfinas ou de qualquer outra substância neuroquímica não tem a mesma importância de seu know-how — como es­colhem seus pontos de contato, o que as impele a agir, como “fa­lam” com o resto do corpo numa coordenação exata, e assim por diante. Mesmo no meio de uma verdadeira revolução química, a mente é superior à matéria. De fato, a estrutura molecular de qualquer neurotransmissor é hoje considerada completamente se­cundária diante da capacidade do cérebro em empregá-la.

Os biologistas celulares constataram com enorme surpresa que, no que diz respeito às moléculas, os neurotransmissores não têm nada de especial. Toda a proteína de nossos corpos é construída por cadeias de vinte aminoácidos básicos, e essas cadeias formam novos arranjos em alongamentos chamados peptídios. Os neuropeptídios têm assinatura própria, diferindo de outras cadeias de peptídios do corpo, mas a mesma fábrica, nosso DNA, produz todos eles. O DNA é o manancial para todas as proteínas que refazem as células, produzem outras, repõem peças defeituosas do código genético, curam cortes e arranhões etc.

Sem se preocupar em inventar uma nova classe de substâncias químicas, o DNA descobriu novo uso para suas matérias-primas familiares, os aminos, aminoácidos e peptídios. E, mais uma vez, apenas a capacidade de fazer esses diferentes produtos é crucial. Não há nada de especial nas moléculas em si, mesmo que sua descoberta por um biologista molecular seja especial para a ciência.

Então, de onde vem a capacidade de fazer os neurotransmissores? Talvez devêssemos procurar a contribuição vinda da men­te. Afinal, não é realmente a molécula de adrenalina que leva a mãe a entrar em um prédio em chamas para salvar o filho, ou uma molécula de endorfina que a protege de sentir as labaredas? O amor a impulsiona, a determinação cega protege-a da dor. O que acontece, apenas, é que esses atributos de sua mente encon­traram um caminho químico que o cérebro pode seguir para fa­lar com o corpo.

Agora chegamos ao âmago da questão. A mente, em qualquer definição, é imaterial, mas desenvolveu uma forma de trabalhar em parceria com essas complicadas moléculas comunicadoras. São tão intimamente associadas que, como vimos, a mente não pode ser projetada no corpo sem tais substâncias químicas. Mas essas substâncias não são a mente. Ou são?

Toda essa situação paradoxal foi resumida de modo inteligente há vários anos pelo eminente fisiologista australiano Sir John Eccles, ganhador de um Prêmio Nobel, durante uma conferência aos parapsicólogos que debatiam assuntos rotineiros da PES (Per­cepção Extra-Sensorial), como telecinésia — a capacidade de mo­ver objetos físicos com a mente.

— Se vocês querem ver um caso real de telecinésia — disse ele à audiência —, considerem as proezas da mente sobre a ma­téria realizadas pelo cérebro.

É espantoso que, a cada pensamento, a mente consiga mover átomos de hidrogênio, carbono, oxigênio e outras partículas das células cerebrais. Aparentemente, nada estaria mais distante do pensamento insubstancial do que a sólida matéria cinzenta do cérebro. Toda essa façanha é realizada sem nenhuma ligação evidente.

O mistério do domínio da mente sobre o corpo ainda não foi bem explicado pela biologia, que prefere continuar estudando estruturas químicas sempre mais complexas, operando em níveis mais refinados da fisiologia. Mas permanece evidente que nin­guém encontrará uma partícula, por menor que seja, intitulada “inteligência”. Tal evidência se acentua quando compreendemos que toda matéria de nossos corpos, pequena ou grande, foi dota­da de inteligência ao ser modelada. O próprio DNA, apesar de reconhecido como o dirigente mental-químico do corpo, é essen­cialmente formado pelos mesmos blocos básicos de construção que os neurotransmissores que ele fabrica e controla. O DNA é como uma fábrica feita de tijolos que também os fabrica. (O grande matemático austríaco Erich Von Neumann, além de ser um dos inventores-descobridores do moderno computador, tam­bém se interessava por todos os tipos de robôs. Uma vez inven­tou, no papel, uma máquina verdadeiramente engenhosa, um robô capaz de fabricar robôs iguais a ele — em outras palavras, uma máquina auto-reprodutora. Nosso DNA conseguiu a mesma coisa em grande escala, já que o corpo humano nada mais é que va­riantes de DNA fabricados pelo DNA.)

Pode parecer fácil pensar no DNA, com seus bilhões de bits genéticos, como uma molécula inteligente; sem dúvida, ele é bem mais esperto que uma molécula simples como a de açúcar. Que esperteza o açúcar pode ter? Mas o DNA, na verdade, não passa de fios de açúcar, aminos e outros componentes simples. Se eles não são “espertos” a princípio, o DNA não poderia vir a sê-lo apenas por reuni-los. Seguindo essa linha de raciocínio, por que o átomo de carbono ou de hidrogênio no açúcar também não é esperto? Talvez seja. Como vimos, se a inteligência está presente no corpo, deve vir de algum lugar e esse lugar pode estar em qual­quer canto.

Ao seguir o próximo passo da história do neurotransmissor, estaremos diante de outro salto quântico no que diz respeito a complicações, mas, surpreendentemente, a relação entre mente e matéria começa de fato a ficar mais clara. Descobriu-se que as áreas do cérebro mediadoras de nossas emoções — as amígdalas e o hipotálamo, também conhecido como “cérebro do cérebro” — são especialmente ricas em todas as substâncias do gru­po neurotransmissor. Isso significa, portanto, que onde os pro­cessos de pensamento são abundantes (o que quer dizer que muitos neurônios estão fortemente agrupados) também estão as substân­cias químicas associadas ao pensamento. Nesse momento, ainda havia uma divisão mais ou menos definida entre as substâncias químicas que saltavam o espaço entre as células cerebrais e as que partiam do cérebro pela corrente sanguínea. (Em meu cam­po, a endocrinologia, uma das qualidades definidoras do hormônio é que ele flui pela corrente sanguínea, um processo geralmente bem mais lento que o da transmissão de uma célula nervosa, que registrou uma velocidade superior a 360 quilômetros por hora; um sinal enviado da cabeça ao dedo do pé leva menos de um qüinquagésimo de segundo.)

Foi só quando a ciência pensou que podia isolar as substân­cias químicas cerebrais e categorizar suas posições que, inespe­radamente, o corpo mostrou o quanto é complicado. Pesquisa­dores do National Institute of Mental Health descobriram recep­tores igualmente abundantes em outros pontos fora do cérebro. Desde o início da década de 80, foram descobertos receptores para neurotransmissores e neuropeptídios nas células do sistema imu­nológico chamadas monócitos.

Receptores “cerebrais” em células brancas do sangue? Não se poderia exagerar o significado dessa descoberta. No passado, pensava-se que o sistema nervoso central fosse o único capaz de enviar mensagens ao corpo, assim como um complicado sistema telefônico, ligando o cérebro a todos os órgãos com quem queria “falar”. Nesse esquema, a função dos neurônios seria como a das linhas telefônicas: transmitir os sinais do cérebro. Era essa sua única função, e não havia outra similar na fisiologia.

Soube-se, então, que o cérebro não se limita a mandar impul­sos que viajam em linhas retas pelos axônios, ou ramos, dos neu­rônios; eles circulam “inteligência” livremente, através de todo o espaço interior do corpo. Ao contrário dos neurônios, que estão fixos num ponto do sistema nervoso, os monócitos do siste­ma imunológico viajam pela corrente sanguínea, o que lhes dá livre acesso a todas as outras células do corpo. Dotado de um vocabulário cuja complexidade espelha o do sistema nervoso, o sistema imunológico evidentemente manda e recebe mensagens com a mesma variedade. Se o fato de estarmos felizes, tristes, pen­sativos, animados etc. obriga nossas células cerebrais a produzi­rem neuropeptídios e neurotransmissores, as células imunológicas também devem ser felizes, tristes, pensativas e animadas — devem, enfim, ser capazes de expressar toda a gama de “pala­vras” que os neurônios empregam. Os monócitos podem ser con­siderados, então, como neurônios circulantes.

Com essa descoberta, o conceito de célula inteligente tornou-se uma realidade possível. Um tipo de inteligência localizada já era conhecido: a que o DNA possui em cada célula. Desde o início de 1950, quando Watson e Crick delinearam a estrutura do DNA, a pesquisa provou que essa molécula notável, quase infinitamente complexa, codificava toda a informação necessária para criar e sustentar a vida humana. Mas a inteligência dos ge­nes foi vista inicialmente como fixa, porque o DNA é a substân­cia química mais estável do corpo e, graças a essa estabilidade, cada um de nós pode herdar os traços genéticos de nossos pais — olhos azuis, cabelos crespos, traços do rosto etc. — e preservá-los intactos para transmiti-los a nossos filhos.

O know-how transportado pelos neurotransmissores e neuro­peptídios representava algo muito diferente: a alada e fugaz inte­ligência da mente. A maravilha é que essas substâncias químicas “inteligentes” não estão apenas no cérebro, cuja função é pen­sar, mas no sistema imunológico, cujo papel principal é nos de­fender das doenças. Do ponto de vista de um químico do cére­bro, essa súbita expansão das moléculas mensageiras torna seu trabalho mais complexo. Mas, para nós, a descoberta de uma in­teligência “fluente” confirma o modelo do corpo comparado a um rio. Precisávamos de um material básico para afirmar que essa inteligência flui por todo nosso corpo, e agora o temos.

Qualquer indivíduo percebe que sua mente está cheia de um confuso fluir de impressões, amorfas demais para serem fixadas, para descrevê-las, a psicologia as reduziu a termos igualmente amorfos, como a famosa frase livre associação de idéias (experiên­cia individual considerada como uma série contínua de ocorrên­cias). Hoje, como se fosse um fluxo de água que você realmente pode ver e tocar, os pesquisadores do cérebro descobriram cas­catas de substâncias químicas cerebrais. Mas, ao contrário do flu­xo, essas cascatas não seguem um leito, mas fluem por toda a parte. Não deixam de fluir nem por uma fração de segundo. Um cientista do cérebro realmente pára o tempo ao examinar os com­ponentes da cascata. As substâncias químicas que ele quer en­contrar são mínimas — foram necessários os cérebros de 300 mil carneiros para formar um miligrama da molécula que o cérebro usa para estimular a tireóide. As células receptoras também não são fáceis de se captar. Dançam continuamente na superfície das paredes celulares e mudam de forma ao receber novas mensa­gens; qualquer célula pode contar com centenas ou até milhares de pontos de contato, mas apenas um ou dois podem ser analisa­dos ao mesmo tempo. A ciência aprendeu mais sobre a química do cérebro nos últimos quinze anos do que em toda a história anterior, mas ainda somos como estrangeiros que tentam apren­der o idioma da nova terra lendo rabiscos em papéis apanhados na rua.

Até agora ninguém foi capaz de captar exatamente como a cas­cata de substâncias químicas se modela, para fazer tudo o que a mente consegue. Lembranças, sonhos e todas as atividades diá­rias da mente permanecem um profundo mistério no que diz res­peito a seu mecanismo físico. Mas agora sabemos que a mente e o corpo são como universos paralelos. Tudo o que acontece no universo mental necessariamente deixa sinais no físico.

Recentemente, os pesquisadores do cérebro conseguiram uma forma de fotografar o percurso dos pensamentos em 3D, como um holograma. O processo, conhecido como PET (tomografia por emissão de pósitron), consiste em injetar-se na corrente san­guínea glicose, cujas moléculas de carbono foram marcadas com radioisótopos. A glicose é o único alimento do cérebro que a uti­liza muito mais depressa que os tecidos comuns. Conseqüente-mente, quando a glicose injetada atinge o cérebro, as moléculas marcadas de carbono são detectadas, enquanto ele as utiliza, e registradas em três dimensões pelo monitor, mais ou menos co­mo ocorre numa tomografia. Observando essas moléculas girarem enquanto o cérebro pensa, os cientistas viram que cada acontecimento distinto no universo da mente — como a sensação de dor ou de uma intensa lembrança — desencadeia novo modelo químico do cérebro, não apenas em um ponto, mas em muitos. A imagem se modifica a cada pensamento e, se fosse possível am­pliar a imagem para o corpo todo, não restaria dúvida: ele tam­bém se modifica ao mesmo tempo, graças às cascatas de neuro-transmissores e moléculas mensageiras afins.

Como se pode ver agora, nosso corpo é a imagem física, em 3D, do que estamos pensando. Esse fato notável escapa de nossa observação por vários motivos. Um deles é que o contorno físico de nosso corpo não muda tão drasticamente a cada pensamento. Mesmo assim, é evidente que o corpo projeta os pensamentos. Literalmente, podemos ler a mente de outras pessoas pela mu­dança constante de suas expressões faciais; quanto a nós mesmos, ainda que sem notar, também registramos os milhares de gestos da linguagem do corpo como um sinal de nosso estado de espíri­to e das intenções das pessoas para conosco. Filmes realizados em laboratórios que estudam o sono demonstraram que muda­mos de posição dúzias de vezes durante a noite, obedecendo a comandos do cérebro de que não temos consciência.

Em segundo lugar, não vemos nossos corpos como pensamen­tos projetados, porque muitas mudanças físicas que eles causam são imperceptíveis. Elas envolvem alterações mínimas da quími­ca celular, da temperatura do corpo, da carga elétrica, da pressão sanguínea e assim por diante — e nada disso é registrado por nossa observação. No entanto, podemos ter certeza de que nosso corpo é suficientemente fluido para espelhar qualquer evento mental. Nada se move sem movimentar o todo.

As últimas descobertas da neurobiologia reforçaram ainda mais a idéia dos universos paralelos da mente e do corpo. Quando os pesquisadores prosseguiram, indo além do sistema nervoso e do imunológico, começaram a descobrir os mesmos neuropeptídios e seus receptores em outros órgãos, como os intestinos, rins, es­tômago e coração. Existe a expectativa de que também possam ser encontrados em outras partes do corpo. Isso significa que nos­sos rins podem “pensar”, no sentido de que podem produzir neu­ropeptídios idênticos aos encontrados no cérebro. Esses pontos receptores não são apenas manchas viscosas. São questões à es­pera de respostas na linguagem do universo químico. É muito provável que, se em vez dos poucos rabiscos em papéis tivésse­mos um dicionário completo, conseguiríamos descobrir que ca­da célula fala tão fluentemente quanto nós.

Em nosso corpo, as perguntas e respostas prosseguem sem fim. Apenas uma pequena glândula, como a tireóide, tem tanto a di­zer ao cérebro e a suas companheiras, as glândulas endócrinas, e através delas a todo o corpo, que essa cascata de conversas in­fluencia dezenas de funções vitais como o crescimento, o índice metabólico e muito mais. A rapidez de nosso pensamento, nossa estatura, o tamanho de nossos olhos, por exemplo, dependem em parte do conselho da tireóide. Portanto, podemos concluir com segurança que a mente não fica confinada ao cérebro como nu­ma divisão precisa, que serve a nossa conveniência. A mente se projeta a qualquer ponto do universo interior.

Um dos pesquisadores mais avançados e competentes no cam­po da química cerebral, dr. Candace Pert, diretor da divisão de bioquímica cerebral do National Institute of Mental Health, sa­lientou que é muito arbitrário afirmar que o DNA ou um neuro-transmissor pertença ao corpo, em vez de à mente. O DNA é quase tão puro conhecimento quanto é matéria. O dr. Pert se refere a todo o sistema mente-corpo como uma “rede de informações”, e dá menor ênfase ao nível grosseiro da matéria e maior ao nível sutil do conhecimento.

Na realidade, existe algum motivo para se manter a mente e o corpo afastados? Pert, ao escrever, prefere englobá-lo em uma palavra — bodymind (corpo-mente). Se esse termo for adotado, isso indicará claramente que um muro caiu. Ele ainda não rece­beu apoio da ciência médica, mas isso pode mudar muito rapi­damente. A cada dia fica mais claro que o corpo e a mente são espantosamente semelhantes. Já se sabe que a insulina, um hor­mônio sempre identificado ao pâncreas, também é produzida pelo cérebro, enquanto substâncias químicas cerebrais como o transferon e o CCK são produzidas pelo estômago.

Isso mostra que nossa divisão organizada do corpo em siste­mas nervoso, endócrino, digestivo e assim por diante é apenas parcialmente certa e, em breve, poderá ser ultrapassada. Há pouco tempo, ficou absolutamente comprovado que as mesmas subs­tâncias neuroquímicas influenciam todo o conjunto corpo-mente. Ao nível dos neuropeptídios tudo é interligado; portanto, ao se­parar essas áreas, estamos simplesmente fazendo o mau uso da ciência.

Um corpo que pode “pensar” é muito diferente daquele que a medicina considera atualmente. Digamos que, ao menos, ele sabe o que lhe acontece não apenas no cérebro, mas em todos os pontos receptores das moléculas mensageiras, o que significa cada célula. Isso explica, em grande parte, os efeitos colaterais das drogas até então desconhecidos. Algumas delas têm um nú­mero incrível desses efeitos. Se eu consultar meu Physicians Desk Reference, o índice médico de todos os remédios que podemos receitar, vou encontrar páginas e páginas sobre corticosteróides. O corticosteróide (ou apenas esteróide) mais comum é a cortisona, mas todo o grupo é muito receitado no tratamento de queimaduras, alergias, artrite, inflamações pós-operatórias e dúzias de outros males.

Se não conhecêssemos a existência dos pontos receptores, os esteróides pareceriam muito estranhos. Digamos que eu receite esteróides a uma mulher que sofre de um caso difícil de artrite. Eles acabariam com as inflamações das juntas de um modo dra­mático, pois uma série de coisas estranhas poderia ocorrer. Ela começaria a se queixar de cansaço e depressão; depósitos anor­mais de gordura surgiriam sob a pele; e os vasos sanguíneos fica­riam tão frágeis que começariam a surgir grandes manchas, difí­ceis de desaparecer. O que pode ligar sintomas tão diferentes?



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