A cura Quântica



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A resposta está ao nível dos receptores. Os corticosteróides repõem certas secreções do córtex das supra-renais, uma camada fofa e amarelada que se deposita sobre elas. Ao mesmo tempo, eles suprimem outros hormônios das supra-renais, como as se­creções da glândula pituitária, que se localiza no cérebro. Logo ao ser ministrado, o esteróide percorre o corpo e inunda todos os receptores que estão “ouvindo” certa mensagem. Quando um deles é ocupado, o que vem a seguir não é uma ação simples. A célula pode interpretar a mensagem de várias formas, depen­dendo do tempo que esses pontos continuem repletos. Nesse ca­so, o receptor fica ocupado indefinidamente. (O fato de outras mensagens não serem recebidas é importante, assim como a per­da de inúmeras ligações com outras glândulas endócrinas.)

A célula pode apresentar reações agudas ao preencher um receptor. Por analogia, basta observar uma mariposa pousada no beiral do telhado numa noite de verão. No inseto macho, as an­tenas peludas da cabeça são, na realidade, pontos receptores que se desenvolveram para fora do corpo. Quando o sol se põe, a ma­riposa espera um sinal emitido por uma fêmea na vizinhança, através de uma molécula chamada feromônio. Como são criatu­ras pequenas, o número de feromônios que enviam pelo ar é in­finitesimal, se comparado ao volume total do ar e sua imensa carga de pólen, poeira, água e outros feromônios secretados por ani­mais de todas as espécies, inclusive o homem. É difícil imaginar que duas mariposas possam se comunicar a longa distância.

Mas, quando uma única molécula de feromônio toca a antena do macho, seu comportamento se transforma. Ele persegue a fê­mea e inicia um complicado ritual de conquista pelo ar, que precede a cobertura. Biologicamente falando, o que causa esse com­portamento tão complexo é uma única molécula.

Quando receito esteróides a uma paciente que sofre de artrite, trilhões de moléculas e pontos receptores estão envolvidos nisso. Assim, os vasos sanguíneos, a pele, o cérebro, as células de gor­dura etc. apresentam diferentes reações. Em meu guia médico, as conseqüências do uso de esteróides por longo prazo incluem diabete, osteoporose, supressão do sistema imunológico (a pes­soa fica mais suscetível às infecções e ao câncer), úlceras pépticas, hemorragia interna, elevação do colesterol e muito mais. Até a morte pode ser incluída entre os efeitos colaterais, porque o uso de esteróides por muito tempo força o córtex das supra-renais a se contrair (exemplo de como um órgão pode se atrofiar por falta de uso). Se o esteróide for retirado muito rapidamente, as glândulas supra-renais não têm tempo de se regenerar. A paciente fica sem uma defesa adequada ao estresse, que os hormônios for­necidos pelas supra-renais ajudam a debelar. Ela pode ir ao den­tista para extrair um dente do siso — uma tensão geralmente den­tro dos limites normais —, mas, sem os hormônios ad-renais, pode entrar em estado de choque. Uma extração de dente pode até matá-la.

Reunindo todos esses sintomas, podemos perceber que os esteróides são capazes de causar, literalmente, qualquer reação. Eles podem ser a causa imediata ou apenas a primeira peça do jogo — a diferença não importa à paciente. Para ela, não há diferença entre a osteoporose causada por esteróides ou “o mal em si”. O mesmo se aplica à depressão, à diabete ou à morte. Um único mensageiro causou todas elas. Na verdade, não existe esse único mensageiro — cada qual é um fio na rede de inteligência do cor­po. Tocando um deles, toda a rede estremece.

Compreendo que isso faz com que as drogas pareçam muito mais perigosas do que pensávamos, mesmo em uma época obce­cada em catalogar desastres médicos. Estamos habituados a uma idéia mais limitada do que são os efeitos colaterais — um toque amargo aliado à doçura, como o espinho na rosa ou a ressaca após uma garrafa de vinho. Em vez disso, um efeito colateral se ex­pande e se transforma em alguma coisa que o corpo pode pen­sar. Estamos geralmente protegidos de danos mais sérios, por­que o corpo reage obedecendo a certas regras estreitas. Um pa­ciente que toma aspirina pode provocar uma hemorragia da pa­rede do estômago, mas não um ataque cardíaco. No entanto, ca­da célula do corpo tem uma ampla área de ação — é um ser cons­ciente, que percebe o mundo a sua volta. Os efeitos colaterais descritos por meu guia médico são apenas os observados até agora.

Li recentemente a história de um médico, membro de uma equi­pe hospitalar, que ficou aflito quando um de seus pacientes, ho­mem de 70 e tantos anos, subitamente passou a agir de modo paranóico. Obcecado pela idéia de que sua casa ia ser assaltada por ladrões, comprou uma arma para guardar sob o travesseiro. Certa noite, aterrorizou a esposa ao saltar da cama e correr esca­da abaixo com a pistola, começando a procurar furiosamente os assaltantes atrás das poltronas. Sabendo que a alucinação do ma­rido era perigosa, a mulher o levou imediatamente ao médico. O paciente não tinha nenhum antecedente de doença mental nem estava tomando nenhum remédio além do digitálico para estabilizar o ritmo de seu coração. Considerando sua idade, o médico concluiu que seu diagnóstico era o mal de Alzheimer.

No entanto, ele encaminhou o paciente a um neurologista pa­ra fazer uma tomografia que não acusou nada de anormal.

— Aposto que esse homem está tendo alucinações por causa do uso do digitálico — comentou o neurologista.

O médico, também professor de medicina em Nova York, nunca vira esse efeito colateral em seus trinta anos de prática, embora se lembrasse de algum comentário vago sobre o assunto. Ele re­duziu a dosagem do digitálico e, dez dias depois, o paciente vol­tou ao normal. Parecia um fato muito estranho que a medicação, tão específica para o coração, levasse à insanidade. Se esse pa­ciente tivesse sofrido alucinações décadas atrás, quando o guia médico ainda não registrava esse efeito colateral, nenhum médi­co acreditaria. Mais recentemente, o próprio médico em questão só acreditou depois de uma série dispendiosa de exames que afas­taram qualquer outra possibilidade.

O que este caso nos ensina é que nunca podemos saber o que o corpo está pensando, ou em que parte dele. E perfeitamente possível que o coração do homem tenha enlouquecido, ou me­lhor, tenha movimentado o gatilho que desencadeou a paranóia. O cérebro e o coração têm muitos pontos receptores em comum; e, o que é mais importante, compartilham o mesmo DNA, o que significa que a célula do coração pode se comportar como uma célula cerebral, uma célula do fígado ou qualquer outra do orga­nismo. Após cirurgias cardíacas em que é feito o corte do tórax, é comum pacientes sofrerem crises psicóticas e começarem a ter alucinações. A explicação para isso é que eles, subitamente, co­meçam a ver homenzinhos verdes passeando pelo lençol, por­que ficam deitados de costas no vazio estéril da unidade de trata­mento intensivo, embriagados pela falta de oxigênio no cérebro. Mas, por acaso, não seria possível responsabilizar o coração por essas alucinações? Simplesmente, o trauma da cirurgia poderia fazer o coração pensar que a realidade enlouqueceu, comunican­do tal notícia ao cérebro.

A descoberta de neurotransmissores, neuropeptídios e molé­culas mensageiras de todos os tipos ampliou enormemente nosso conceito de inteligência. Mas, se cada célula tem um número in­finito de mensagens que pode enviar e receber, é também evi­dente que apenas um pequeno número delas pode ser ativado em determinado momento. Quem ou o que controla tais mensa­gens? O fato é que essa é uma pergunta explosiva. Em qualquer laboratório de pesquisas, as reações surgem automaticamente após o início da experiência: basta apenas misturar uma substância química a outra. Mas alguém precisa escolher essas substâncias na prateleira e iniciar a experiência.

Tradicionalmente, a medicina vem preferindo ignorar esse fa­to quando se aplica ao corpo humano. Vemos agora que, com milhares de substâncias químicas em sua prateleira, uma célula não é obrigada apenas a escolhê-las, misturá-las e analisar os re­sultados; em primeiro lugar, precisa fabricar essas substâncias quí­micas, descobrindo milhares de fórmulas para criar novas molé­culas de poucos elementos básicos — carbono, hidrogênio, oxi­gênio e nitrogênio. Para isso, é preciso uma inteligência. Portan­to, acompanhando a história dos neuropeptídios, acabamos che­gando a uma radical mudança de ponto de vista. Porque, pela primeira vez na história da ciência, a mente tem uma base visí­vel para se posicionar. Antes, a ciência declarava que somos má­quinas físicas que, de alguma forma, aprenderam a pensar. Ago­ra, desponta a idéia de que somos pensamentos que aprenderam a criar uma máquina física.

5
Fantasmas da Memória

Recentemente, recebi em meu consultório de Boston uma jo­vem de 20 e tantos anos, que trabalha parte do tempo como mo­delo. Depois de esconder, durante anos, que sofria de um pro­blema alimentar, sua família conseguiu persuadi-la a procurar tra­tamento. A jovem era obcecada pelo corpo desde a adolescência. Com o tempo, essa preocupação tornou-se excessiva e acabou aflo­rando como uma dupla doença: anorexia nervosa e bulimia.

Observando essa moça atraente e vistosa, aparentemente nor­mal, fui levado a pensar que seu problema teria solução fácil. Mesmo com extensa pesquisa e grande publicidade nos últimos tempos, a anorexia e a bulimia continuam a ser doenças muito enigmáticas. Por que certas moças, entre as quais muitas bem-educadas e de posses, passam a cultivar uma incontrolável ob­sessão por regimes e perda de peso? As anoréxicas criam medo dos alimentos e horror ao ato de comer. Vivem confinadas a um ritual padronizado de comportamento, que acaba por levá-las à inanição voluntária (ainda sem admitir que estão magras demais) e, às vezes, até a morte.

A bulimia, doença companheira da anorexia, pode surgir separadamente ou coexistir com ela, como no caso dessa moça. Na bulimia, o horror aos alimentos assume a estranha forma de ingestão exagerada de comida. Geralmente, a quantidade de ali­mentos que um bulímico consome pode ser enorme — cerca de 2 mil a 50 mil calorias de uma vez (2 mil calorias diárias são sufi­cientes para sustentar um homem vigoroso de 70 quilos). Essa grande quantidade de alimento é devolvida pelo vômito, o que gera tremenda tensão no aparelho digestivo e em todo o corpo.

A doença dessa moça, em particular, tinha avançado a tal pon­to que ela se obrigava a vomitar todos os dias para manter o peso um pouco abaixo do normal, como seu trabalho exigia. Contou-me que só de olhar uma sobremesa começava a suar e o coração disparava. Ela era muito inteligente e ouviu atenta minha expli­cação de que a raiz de seu mal estava no fato de se enganar com sua auto-imagem. Como nossa sociedade vive obcecada pelo ideal da magreza, muitas mulheres procuram viver com a imagem ín­tima que fazem de seus corpos e que não combina com sua apa­rência física. No entanto, no caso dela, tal imagem não dizia “pre­ciso ser magra”, mas afirmava “nunca serei magra o suficiente”.

Para explicar essa doença paradoxal, é necessário que se abandone a distinção entre mente e corpo, pensando em um único sistema corpo-mente. Isso se deve ao feto de se tratar de uma doen­ça holística, o oposto cruel da saúde holística. Nas mulheres anoréxicas, a idéia distorcida “preciso ser mais magra” domina a mente como um fantasma malvado e enganador. Mesmo depois de longa hospitalização e de exaustivo tratamento psiquiátrico, raramente a paciente volta a comer como uma pessoa normal. A pessoa normal teria de lutar para não comer e, quando o cor­po chegasse ao estado de inanição, seus sinais de fome suplanta­riam todos os outros no corpo-mente, até o desejo pelo alimento sair vencedor. Para alguém que sofre de anorexia, a relação é exa­tamente inversa — a compulsão de evitar a comida é irresistível.

Enquanto eu discorria sobre o assunto, a moça me olhou tristemente e murmurou:

— Então, os fantasmas existem realmente, não é?

Fiquei atônito e respondi, depois de um momento:

— É verdade, mas esse fantasma pode ser exorcizado.

Falávamos do fantasma da memória, uma certa lembrança escolhida e armazenada no corpo. A memória parece uma coisa mui­to abstrata, enquanto os alimentos são bem concretos. Mas, nes­te caso, a memória é muito mais real. Se uma pessoa é compulsivamente magra ou gorda demais, isso não depende, em princí­pio, do que ela come. Essa é a verdade para condições menos estranhas que a anorexia. Durante séculos, a obesidade tem sido considerada uma falha de caráter, o que em épocas religiosas chamava-se pecado da gula. Com isso, afirmava-se que os gor­dos, usando mais energia e suficiente autodisciplina, poderiam ser magros como os outros; bastava comer menos.

Agora, tornou-se reconhecido que os regimes não resolvem o problema dos doentes crônicos (como também não resolvem o caso contrário, enchendo de alimentos os anoréxicos), porque o cérebro de um gordo manda sinais irresistíveis para que se ali­mente em excesso. Como são emitidas essas mensagens e como transformá-las no oposto é uma questão em aberto. A menos que se atinja algum tipo de controle em um nível muito profundo, as pessoas obesas podem passar a vida toda forçadas a fazer regi­mes, numa tática autoderrotista que só piora a distorção mental. A perda de 2,5 quilos é registrada no cérebro como fome. Na próxima vez em que oferecerem comida ao obeso, seu cérebro não vai querer de volta apenas os 2,5 quilos, mas 4 quilos — pa­ra se garantir contra a fome seguinte. Sabe-se de casos em que obesos até ganharam peso com regimes, apenas com as calorias necessárias para sustentar o metabolismo basal. Isso aconteceu porque o cérebro é capaz de alterar o metabolismo de tal forma que as calorias passam a ser estocadas como gordura, em vez de serem queimadas como combustível.

Ninguém sabe por que a inteligência é tão incapaz de trans­formar essas distorções da auto-imagem. Os fantasmas ficam mais fortalecidos à medida que lutamos contra eles. Apesar de os ano­réxicos desmentirem que têm um problema, quando o médico consegue vencer essa barreira de defesa fica evidente que existe uma profunda lacuna no corpo-mente, com parte do sistema lutando para manter a racionalidade, e outra enviando furiosos im­pulsos irracionais.

Certa vez, passei horas aconselhando outra vítima de anore­xia, uma mulher de 30 e alguns anos, que, embora pesasse me­nos de 40 quilos, acabara de ter um filho. Seu declínio físico era rápido (10 por cento dos anoréxicos morrem de inanição delibe­rada ou de causas ligadas à má nutrição). Seu caso era especial­mente estranho, porque o que ela mais apreciava era ir para casa e cozinhar para a grande família italiana, servindo pratos de massa a dúzias de irmãos, irmãs, primos, tias e tios.

Nossa conversa prosseguia razoável, apesar da natural dificuldade, até que ela me fez uma pergunta repentina:

— Você acha, realmente, que vai conseguir me afastar disso com essa conversa? Compreendo tudo perfeitamente, sabe? O que não adiantou nada. Deixe-me em paz. É assim que preciso me alimentar. — Diga-me — ela prosseguiu, olhando-me com indisfarçada hostilidade —, quantas pessoas deixaram de fumar por­que você conversou com elas? Todas sabem o que a nicotina po­de causar, o perigo de câncer no pulmão e tudo o mais. Mas não adianta falar com elas nem comigo.

Encostei-me na poltrona, sentindo ondas geladas de ódio enquanto ela falava. Como conseguia conviver com tudo aquilo, na­quele emaranhado confuso de idéias?

— A verdadeira questão não é se posso ajudá-la, não é mes­mo? — comentei, quando se acalmou. — Trata-se de saber se você é capaz de se ajudar. — Ela pareceu ligeiramente mais amigável e continuei: — Sabe, você não está me ferindo por não comer. Não está ferindo ninguém, mas apenas algo que não passa de uma imagem. Tudo está em seu interior, e essa é a parte mais difícil, tanto para você, como pessoa, quanto para mim, como seu médico.

Essa história não tem um final rápido e feliz. Sem dúvida, mi­nha paciente estava certa quanto à inutilidade de conversarmos sobre a doença. Ela continua sendo uma pessoa muito hostil e confusa, mas tenho esperança de que, no grupo de discussão de problemas que passará a freqüentar, outros anoréxicos e bulímicos poderão ajudá-la. Para exorcizar seu fantasma da memória, ela terá de chegar ao nível em que ele vive. Até o fantasma desa­parecer, pacientes como ela não sentem que sofrem de uma doença — eles são a doença.

Afirmo isso de modo categórico. O que acontece quando você vê uma cobra e dá um salto para se desviar dela? O pensamento gerado pelo medo — “Cuidado, uma cobra!” — vem a sua men­te no mesmo instante em que a adrenalina o leva a saltar. Geral­mente, a idéia e a ação estão ligadas a tal ponto que o pensamen­to consciente nem encontra tempo para formar palavras. Você apenas vê a cobra e salta. Portanto, não existe espaço para erguer uma divisão entre eles. No caso de um anoréxico, a simples vi­são do alimento desperta uma onda de revolta. Talvez a vista e o cheiro de pão fresco enviem o pensamento “Oh, não posso co­mer isso”, enquanto o estômago se contorce, as glândulas saliva­res secam e todo o trato digestivo é alertado e deixa de funcionar.

Claro que essa é uma reação distorcida, mas ocorre junto com o pensamento, e não há espaço para se erguer uma divisão entre ambos. O que funciona, neste caso, é algo que podemos deno­minar “impulso de inteligência”, o que significa um pensamen­to e uma molécula ligados como os dois lados de uma moeda. Assim que surge o impulso, não há mais volta. O pensamento é a molécula, a molécula é o pensamento. No instante em que acontece, o impulso de inteligência constitui toda a realidade in­terior do paciente. Quando uma pessoa anoréxica sente repulsa pela comida, sua reação (pelo menos, naquele momento) é a de ser sua própria doença. O mesmo é verdade para um obeso que procura resistir à comida, ao fumante que procura não fumar outro cigarro, e assim por diante.

Você não pode mudar um pensamento depois de tê-lo formu­lado — todo o esforço interno de tais pacientes é uma tentativa inútil. Mas existe outro componente no impulso de inteligência, além do pensamento e da molécula. O terceiro componente é o silêncio; esse é o componente que não se vê. Como todos nós, os anoréxicos precisam arrancar esses pensamentos da região mais profunda que a das idéias, porque é ali que a cura pode surgir.

A compreensão horrível do anoréxico “eu sou minha doença” pode ser verdadeira, mas não é definitiva. Se a pessoa conseguisse transcender suas compulsões, observando-as sem se envolver, a doença terminaria. Sendo apenas uma testemunha silenciosa, fi­caria livre do fantasma. Arquimedes declarou que se tivesse uma alavanca longa o suficiente e um local para apoiá-la poderia mo­ver a Terra — presume-se que teria de ficar em pé no espaço ex­terior. A anoréxica precisa desse local; infelizmente, o ser huma­no é confinado ao espaço interior. Ninguém tem um sistema ner­voso extra pendurado no armário, no caso de o primeiro ficar com idéias estranhas. É triste mas inevitável: não há lugar lá fora para ficarmos em pé.

Sem nos apercebermos, confiamos muito no fato de nossos pensamentos desencadearem as substâncias químicas adequadas pa­ra nossos corpos; a mente e suas moléculas mensageiras são com­binadas de um modo automático e perfeito. Mas esse processo pode ser interrompido e, então, a convulsão resultante será co­mo acionarmos dois programas diferentes no mesmo computa­dor — quando o input está avariado, não é de se estranhar que o printout, seu corpo, fique em desordem. Por exemplo, uma das drogas mais ambíguas já descobertas é o Valium.

Ele pertence a uma classe de substâncias químicas chamadas benzodiazepinas, usadas tanto como tranquilizantes quanto co­mo soníferos. Quando surgiram, essas substâncias foram consi­deradas revolucionárias. Suas predecessoras, os barbituratos, apre­sentavam efeitos notórios: provocavam grande dependência; in­duziam ao sono de má qualidade, porque bloqueavam os sonhos, e uma overdose poderia ser fatal. Em contrapartida, o Valium e seus similares davam mais sono, provocavam menos ressaca e era mais difícil ocorrer uma overdose; no início, ainda, pareciam não criar dependência. No auge de sua popularidade, calculava-se que ele representava uma quarta parte de todas as receitas fornecidas nos Estados Unidos.

Agora, já se sabe que o Valium provoca dependência e produz irregularidades no sono (interferindo com o terceiro e quarto es­tágios do sono profundo e sem sonhos) e que também ocorrem sérios sintomas de reabsorção, depois de uso prolongado. Se ob­servarmos no plano dos receptores da parede celular, nada disso é surpreendente, porque o Valium vence a competição das subs­tâncias neuroquímicas do organismo e ocupa seus pontos recep­tores. Esse tipo de interferência talvez fosse vantajoso, se ele ape­nas competisse com os neuropeptídios responsáveis pela causa das sensações de ansiedade (chamados octadecaneuropeptídios). Mas o efeito calmante da droga não vem sozinho; o Valium con­funde todo o sistema nervoso. Além disso, descobriu-se recente­mente que os monócitos do sistema imunológico também são agre­didos por ele. Portanto, quando um médico receita o que consi­dera um sonífera ou tranquilizante, está afetando ao mesmo tempo o sistema imunológico, criando grande confusão entre os receptores celulares.

Ninguém sabe se isso tem causado algum mal, principalmen­te porque as descobertas sobre o sistema imunológico são recen­tes demais. Talvez se descubra que a natureza já dotou nossos corpos de alguma substância interna semelhante ao Valium, o que significa que estamos reproduzindo mal alguma coisa que já existe de forma quase perfeita. Se me perguntarem se gosto da idéia de introduzir diariamente a mesma substância química em mi­nhas células imunológicas, de um modo tão indiscriminado co­mo aconteceu com o Valium a milhões de pacientes, principal­mente mulheres, durante trinta anos, a resposta é óbvia.

As células imunológicas têm uma razão para cada receptor. Usam-nos para pensar, agir, compreender e responder com pre­cisão. Uma pessoa utiliza os mesmos dois olhos para ver o mun­do todo; uma célula, no entanto, tem um olho diferente para ca­da coisa. Em outras palavras, um receptor Constantemente ocu­pado deixa a célula cega para determinada coisa. Numa época em que a incidência de casos de câncer na mama continua aumentando, enviar mensagens desconhecidas para dentro do sis­tema imunológico parece uma medida muito arriscada.

Atualmente, está acontecendo no tratamento das doenças mentais uma “revolução química”, de aparência tão milagrosa quan­to a do Valium, trinta anos atrás. Os médicos têm receitado a seus doentes mentais certas substâncias que alteram a mente, os psicotrópicos. São drogas que afastam os sintomas evidentes da doença, principalmente a depressão, a mania e as alucinações. Os sintomas geralmente são aliviados, algumas vezes até de mo­do súbito e dramático, pois muitos pacientes não toleram o em­botamento mental nem a fadiga, que são os efeitos colaterais mais comuns. Não que tais efeitos sejam simples: certos antidepressivos podem piorar a depressão do paciente durante as primeiras semanas, ou transformá-la no oposto, tornando-a uma mania furiosa.

Os críticos dessas terapias à base de drogas costumam chamá-las de “lobotomias químicas” e as acusam de destruir a digni­dade humana do paciente. Sem dúvida, ocorrem muitos abusos, principalmente nos grandes hospitais públicos para doentes men­tais, que possuem poucos funcionários para o atendimento. É ne­cessária uma percepção aguda para se estabelecer a dosagem cor­reta de qualquer droga psicotrópica, e contam-se muitas histó­rias sobre pacientes deprimidos que reagiram de modo tão nega­tivo aos medicamentos que acabaram se suicidando em vez de se curarem. Mesmo assim, o sucesso nesse campo está representado pelo momento em que o uso de determinadas drogas possa curar a esquizofrenia e a depressão ao mesmo tempo; não hoje, mas no futuro.

Ainda não existe nenhum esquizofrênico curado por proces­sos químicos. Isso acontece simplesmente porque é mais difícil ser uma pessoa normal do que não ter alucinações. Quando você interrompe as visões e as vozes que enchem a cabeça e os ouvi­dos de um paciente, não encontra uma pessoa normal, mas uma verdadeira concha. Alterar o nível químico de dopamina, mes­mo que fosse um processo mil vezes superior ao atual, não bastaria para levar à cura. A razão está contida na lição que apren­demos com os próprios neurotransmissores: para cada avanço quí­mico surge também uma barreira química.

A boa notícia sobre os neurotransmissores é que eles são ma­téria. Um pensamento saudável ou louco é difícil de ser apreen­dido por ser inatingível; não é nada que se possa tocar ou sentir. Mas os neurotransmissores são tangíveis, sem dúvida, apesar de tão minúsculos e com vida tão curta. O papel do neurotransmis­sor é combinar-se a um pensamento. Para isso precisa ter molé­culas tão flexíveis quanto as idéias, igualmente fugazes, vagas, mutantes e leves.

Tal flexibilidade é uma espécie de milagre e ao mesmo tempo uma maldição, já que ela cria uma barreira quase intransponí­vel. Nenhuma droga fabricada pelo homem pode imitar essa fle­xibilidade, tanto atualmente quanto num futuro previsível. De fato, nenhuma droga se equipara a um pensamento. Basta exa­minar a estrutura de um receptor para isso ficar evidente. Os re­ceptores não são fixos; eles foram apropriadamente descritos co­mo semelhantes a folhas flutuantes do lírio aquático que emer­gem do núcleo da célula. Como as folhas desses lírios, suas raí­zes penetram até o centro, onde fica o DNA. Muitos tipos de mensagens entram em comunicação com o DNA, e seu número é potencialmente infinito. Portanto, durante todo o tempo, ele fa­brica novos receptores e faz com que flutuem até a parede celu­lar. Não existe um número fixo nem uma disposição determina­da dos receptores na parede celular. Provavelmente, nem mesmo deve existir limite para sua sintonia. A parede de uma célula po­de ter tão poucas folhas de lírios aquáticos quanto um tanque no inverno, ou pode ficar tão cheia delas como o tanque na épo­ca de seu florescimento, em junho.

O único fato constante sobre um receptor é sua imprevisibilidade. Por exemplo, pesquisadores descobriram recentemente que um neurotransmissor chamado imipramina é anormalmente pro­duzido no cérebro de pessoas deprimidas. Enquanto localizavam a distribuição dos receptores de imipramina, eles se surpreenderam ao encontrá-los não apenas nas células cerebrais como nas da pele. Por que a pele criaria receptores para uma “molécula mental”? O que esses receptores da pele teriam a ver com a de­pressão?

Uma resposta plausível é que a pessoa fica deprimida por in­teiro — está com o cérebro triste, a pele triste, o fígado triste e assim por diante. Do mesmo modo, os pesquisadores examina­ram pacientes que se queixavam de aflição o tempo todo e des­cobriram níveis anormalmente altos das substâncias químicas epinefrina e norepinefrina em seus cérebros e nas glândulas supra-renais. Mas também foram encontradas grandes concentrações nas plaquetas do sangue, o que demonstrava que eles também tinham “células sanguíneas aflitas”.

Os médicos sentiram-se frustrados ao perceberem a complexi­dade desse assunto em termos gerais. As esperanças de cura da esquizofrenia, depressão, alcoolismo, dependência de drogas e ou­tros males foram afastadas em meados dos anos 70, pouco de­pois de serem isoladas as primeiras endorfinas, em 1973. Agora, a barreira química está mais forte do que nunca, enquanto a con­firmada flexibilidade das moléculas mensageiras vem sendo di­vinizada.

Ao pensar nesse problema, tive de me colocar uma questão mais profunda: uma droga pode realmente exorcizar o fantasma da me­mória? Minha experiência médica responde que não — já vi por demais pacientes “curados” por drogas e que, ainda assim, trans­mitiam uma doentia sensação de vazio. Para começar, em vez de se confiar nas drogas, é preciso que se descubra como a memó­ria doentia do paciente entrou em seu sistema químico. Porque é mais do que evidente que a memória imaterial está ali. Talvez valha a pena colocá-la numa molécula, mas a vida da memória não depende disso. O caso seguinte serve como exemplo.

Walter cresceu nas ruas do sul de Boston, no fim da década de 70; sentia o mesmo ódio violento que nutriam todas as pes­soas negras que vinham morar naquele bairro. Para escapar disso e da pobreza que o perseguira a vida toda, entrou para o Exér­cito ao completar 18 anos. Seis meses depois estava no Vietnã. Participou de combates e sobreviveu, mas dois anos depois, quan­do voltou às ruas, estava viciado em heroína, usada por muitos soldados para tornar a guerra menos traumática.

Ao contrário da maioria, Walter não tinha motivo para sair do Exército quando voltou. Finalmente, a polícia acabou prendendo-o e, por ordem do tribunal, ficou sob meus cuidados no hospital de veteranos, especializado em drogas.

Nossa maior preocupação era simplesmente a de desintoxicar o organismo de Walter. Se fosse um caso comum, sairia pela porta giratória depois disso e estaria de volta às ruas. Mas, enquanto ficou no hospital, passei a visitá-lo regularmente. Ele era, sem dúvida, uma pessoa excepcional. Apesar de seu desespero, não parecia corroído pela violência interior e lutava corajosamente con­tra o vício. Walter ficou meu amigo. Seu progresso clínico foi rá­pido; um ano depois da desintoxicação, mantinha seu emprego e falava animadamente sobre a vida normal que desejava levar.

Foi quando aconteceu um estranho incidente. Um dia, o carro de Walter enguiçou e ele foi obrigado a ir para o trabalho de me­trô, o que não fazia desde muitos meses. Pegou o trem para Dorchester, uma linha muito antiga, com velhos trilhos barulhentos. Detestou o ruído do trem e não conseguiu ignorá-lo. O ventila­dor estava quebrado em pleno calor de julho. Poucos minutos depois de ficar fechado naquele compartimento quente, abafa­do, passou a achar o vagão insuportável. A sensação desagradá­vel se transformou em extrema agitação e, quando saiu do me­trô, estava completamente louco, irracional. Nada do que foi fei­to acalmou sua agitação. Quando o vi, dois dias depois, Walter tinha voltado à heroína e dessa vez não demonstrava desejo de se recuperar.

O que aconteceu a esse homem? Uma explicação química não é suficiente para o incidente do trem. Continuo me lembrando dele com seu terno riscadinho de trabalho, confiante e prepara­do para a nova vida, mas obrigado a voltar ao mesmo trem que usava quando tinha problemas e era dependente de heroína. Em algum meandro traiçoeiro da memória, o passado voltou e com ele seu anseio pela droga. Onde se escondera aquela ânsia du­rante um ano inteiro antes de voltar? De certo modo, é isso o que a medicina começa a elucidar: a memória de uma célula é capaz de viver mais tempo que a própria célula.

Em qualquer ponto do corpo-mente duas coisas se aliam — uma partícula de informação e uma partícula de matéria. Das duas, a informação tem vida mais longa que sua matéria sólida correspondente. Enquanto os átomos de carbono, oxigênio, hi­drogênio e nitrogênio giram por nosso DNA como pássaros de passagem, que descansam um pouco e continuam a migrar, a par­tícula de matéria se modifica, mas sempre existe uma estrutura à espera dos próximos átomos. O DNA nunca movimenta mais que um milésimo de milímetro de sua estrutura precisa, só por­que os genômios, partículas de informação no DNA (eles são 3 bilhões), lembram para onde tudo vai. Esse fato nos leva a compreender que a memória deve ser mais permanente que a maté­ria. Então, o que é uma célula? É uma memória que construiu um pouco de matéria a sua volta, formando um modelo específi­co. Nosso organismo, portanto, é apenas o lugar que nossas me­mórias chamam de lar.

É difícil discutir essa conclusão à luz de tudo o que sabemos até agora sobre as formas de inteligência química, e a medicina resiste teimosamente em aceitar tais implicações. Por exemplo, em geral se acredita que as pessoas dependentes de álcool, cigar­ros ou drogas adquirem uma dependência “química”, o que sig­nifica que suas células ficam viciadas em nicotina, em álcool, he­roína etc.; porém, se as estudarmos no plano da química do or­ganismo, vamos descobrir que a heroína ou a nicotina colam-se aos mesmos receptores das paredes celulares que todos possuem. Um dependente não tem receptores que exibam anseios anormais.

Por analogia, a parede do estômago de um homem gordo não é viciada em comida — apenas aceita o que lhe dão. Na verdade, parece que a memória das células é que se vicia com a substância que provoca o hábito e ela continua criando células distorci­das que refletem sua fraqueza. Em outras palavras, um vício é uma memória distorcida. É apenas nossa inclinação material que continua atendendo à célula. (Essas memórias perniciosas podem ser herdadas, quando um vício se espalha por famílias inteiras, mas, mesmo que seja um “gene de dependência” específico, so­mos forçados a considerar as condições imateriais que levaram o DNA a enviar esse gene. Nossos ouvidos são formados porque um gene os codificou; no entanto, em primeiro lugar, a razão de terem se desenvolvido há milhões de anos certamente foi imate­rial — algum organismo começou a responder ao som.)

Quando se cuida de um dependente, desintoxicando seu organismo e mantendo-o afastado do álcool e das drogas durante muitos anos, todas as células antigas que haviam ficado “quimica­mente dependentes” se acabarão. Mas sua memória permanece­rá, e, se lhe dermos uma chance, ela o levará de volta às substân­cias que provocaram a dependência. Um cardiologista colombiano, meu amigo, deixou de fumar há quinze anos. Nesta primavera foi visitar sua terra natal e resolveu ir ao cinema, um aconteci­mento raro em sua vida. Ele é um homem muito ocupado, mais do que os cardiologistas em geral, e nem se lembrava mais do último filme a que tinha assistido. Havia um intervalo na sessão e, ao chegar à sala de espera, ele sentiu uma vontade incontrolá­vel de fumar.

— Sabe, passei a adolescência em Bogotá — contou-me de­pois — e costumávamos fumar nos intervalos dos filmes. Eu vol­tei ao mesmo cenário e a necessidade de fumar foi imediata. Achei-me diante da máquina automática de cigarros, procurando moe­das no bolso. Só consegui me controlar repetindo: “Isso é uma loucura, você é um cardiologista”. Foi o único modo de resistir. Mesmo assim, saí correndo do cinema e até hoje fico imaginan­do como o filme acabou.

O que torna o vício tão assustador é que os receptores do cére­bro estão sempre dispostos a cooperar com as instruções da mente. Lembre-se de sua reação de tensão ao ouvir o motor de um carro a suas costas, quando, então, a adrenalina é infiltrada em seu sangue. Sabemos que parte da reação geral é o estômago e os in­testinos interromperem o processo de digestão. Mas, como a rea­ção do estresse é temporária, essa é uma atividade correta do or­ganismo e acontece automaticamente.

Porém, se você prefere viver em um ambiente que cria estres­se constante, chegará um momento em que seu organismo vai querer voltar a digerir os alimentos. Surgirá, então, um conflito profundo, porque a reação ao estresse será de dizer “não” ao es­tômago, enquanto outra parte do cérebro (o hipotálamo, prova­velmente) dirá “sim”. A desordem resultante criará contrações no estômago e cólicas nos intestinos. Esses órgãos começam a per­der seu ritmo natural e, se você não lhes der chance de recuperá-lo, acabarão se transformando em vítimas de memória errônea, tão certamente quanto alguém contrai um vício. O estômago vai co­meçar a produzir suco gástrico nas horas erradas, o cólon entra­rá em espasmos e a suave articulação do sistema gastrintestinal entrará em colapso. Disso resultam as úlceras e a irritação per­manente do cólon, que afetam tanta gente sob tensão.

No caso de um dependente, uma das reações bloqueadas pela droga é a capacidade de pensar racionalmente e perceber as coi­sas com nitidez. Enquanto seus receptores estão cheios, o vicia­do sente-se eufórico e sua percepção fica suavemente embotada, uma condição que pode ser agradável a curto prazo, mas devas­tadora se continuar por longo tempo — sem a clara percepção das coisas, o cérebro não pode emitir as instruções básicas para pensar, comer, trabalhar, relacionar-se com outras pessoas e tu­do o mais. Todas as atividades da vida exigem pensamento claro, e ele precisa de grande quantidade de neurotransmissores dife­rentes, mas o viciado restringe-se apenas a alguns e prende-se a eles desesperadamente.

Do mesmo modo, uma explicação estritamente física para o câncer também não é convincente. Ela precisa estar ligada a al­guma distorção mais abstrata; talvez possa ocorrer uma memória distorcida ao nível celular. Digamos que um médico mande um paciente submeter-se a um exame de raios X e descubra um tu­mor maligno. Um ano depois, o mesmo tumor aparecerá em ou­tra chapa. O médico não pode se referir a ele com precisão como o mesmo câncer, porque as células que viu um ano antes foram inteiramente substituídas.

O que ele está vendo, de fato, é o resultado de uma memória que persistiu, reencarnando uma, duas e mais vezes em novo tu­mor. O câncer não é tanto uma célula louca e transviada como a planta básica distorcida dessa célula, um conjunto de instru­ções errôneas que transformam o comportamento celular normal numa mania suicida de câncer. Quando temos sorte, o organis­mo enfrenta essa situação em nível primário. O DNA percebe qualquer desvio da memória, inclusive tumores incipientes, e os elimina rapidamente.

Sendo assim, não sabemos como apagar as memórias cancero­sas no plano celular, porque não podemos penetrar na parede da célula e “falar” com o DNA. No entanto, já se sabe que esse passo importante é dado quando o sistema imunológico segrega certos agentes contra o câncer, chamados interleucinas — uma classe de proteínas que se assemelha aos hormônios. Nossas cé­lulas imunológicas produzem interleucinas em muitas situações — cortes, arranhões, infecções, ferimento nos tecidos internos e alergias são capazes de provocá-las. (O nome “interleucinas” foi escolhido porque os pesquisadores primeiro descobriram que essas substâncias químicas enviam sinais entre leucócitos, ou células brancas do sangue.)

Como surgem naturalmente, as interleucinas existem em quantidades mínimas; portanto, ficam proibitivamente dispendiosas se forem imitadas em escala comercial. Apesar desse obstáculo, os pesquisadores extraíram recentemente grande quantidade de interleucina-2 (IL-2) e fizeram transfusões em 450 pacientes em estado avançado de câncer de pele e do fígado (o custo atual de uma série simples de tratamento chega a 80 mil dólares). Com essa terapia, entre 5 e 10 por cento dos pacientes tiveram rápida regressão de seus tumores, mas sofreram sérios efeitos colaterais que chegaram a matar alguns deles. A questão de que a IL-2 po­de influenciar o resto do corpo a longo prazo continua sem resposta.

Apesar dos recuos, as interleucinas estão chegando ao ponto de serem transformadas na nova promessa de cura do câncer, co­mo o interferon, uma substância química bem próxima dela que foi a esperança de cura nos anos 70. Grupos de engenheiros geneticistas já estão competindo nos cálculos de fabricação dessa substância em escala comercial. Com desapontamento, percebe-se que nasce mais uma falsa esperança. Por que a promessa nun­ca é cumprida? A medicina conhece centenas de fatos sobre as interleucinas, como o seguinte: “As cadeias alfa e beta da interleucina-1 são apenas 26 por cento homólogas no nível aminoácido de seus genes”; ou seja, ambas se prendem aos recepto­res “com grande afinidade no raio molar de 10-10”. Quando compreendemos tal jargão, esses fatos não são insignificantes.

Mas literalmente eles não declaram nada sobre a inteligência das interleucinas, que é o ponto mais importante. Se as interleu­cinas “sabem” quando e onde devem lutar contra o câncer, não são suas moléculas que devem nos interessar, mas algo invisível — a capacidade das células em reconhecer que a memória can­cerosa está presente e precisa ser erradicada. Isso não pode ser injetado no corpo. A guerra do organismo contra o câncer é uma briga de inteligência contra inteligência. As manifestações físicas — interferon, interleucina, hormônios, peptídios etc. — podem ser consideradas como armas, se assim o desejarmos, mas pri­meiro é necessário um bom alvo.

No sentido mais profundo, é por isso que não tenho fé no en­foque de um “projétil mágico”. A penicilina foi um tiro certo porque não era necessário que o alvo desejado fosse tão preciso, uma vez que o antibiótico entra na corrente sanguínea, ataca au­tomaticamente as paredes celulares da bactéria e as destrói. Da mesma forma, a quimioterapia primitiva contra o câncer era uma bala grosseira, semelhante à batalha química da Primeira Guerra Mundial. (De fato, as drogas mais tóxicas usadas contra o câncer eram chamadas agentes alquilantes, criados com mostarda de ni­trogênio, o infame gás de mostarda que tanto aterrorizou os sol­dados naquela guerra.) Tipos mais recentes de quimioterapia, co­mo os vários hormônios das supra-renais e o estrógeno, deriva­dos do próprio corpo, tinham um alvo menos aproximado; mas agora vemos que esse avanço, na realidade, pode ser o último sus­piro da teoria de um projétil mágico.

Em determinado ponto, as substâncias químicas que se quer usar são tão precisas que sua ação só é eficiente dentro de limites mínimos. Quando se tem um hormônio como alvo, é preciso atin­gir seu receptor e não apenas as amplas avenidas da corrente san­guínea que a penicilina percorre. Se o receptor que se pretende atingir está envolvido num processo complexo, como no caso das interleucinas, nenhum alvo será suficientemente preciso, porque a vida ou a morte da célula implica uma perfeita correspondên­cia de cada um dos elementos químicos dela. Por analogia, quando se desafina uma corda de um piano, todo o instrumento ficará desafinado; uma sonata não soará corretamente se uma nota es­tiver fora do tom.

Não pretendo fazer com que isto pareça uma afirmação sentenciosa. Milhões de pacientes foram bem-sucedidos no tratamento com drogas contra o câncer. A toxicidade da quimioterapia tem sido Constantemente reduzida e, em muitos casos, os indesejados efeitos colaterais, que davam tão má reputação ao tratamento, di­minuíram muito; em especial, se considerarmos o risco de dei­xar um câncer sem tratamento. E, ainda assim, é verdade que o câncer é incurável se não for percebido no início. Se um pa­ciente com câncer no pulmão vem me procurar, nem a desco­berta prematura adianta. Posso submetê-lo à radiação e dar a is­so o nome de terapia, mas em 95 por cento dos casos trata-se apenas de um breve alívio — talvez seja um meio que ele e eu encontramos de afastar o desespero por não existir nenhum tra­tamento para o caso. Outros tipos comuns de câncer, como os melanomas, pertencem à mesma categoria.

Precisamos desesperadamente de uma medicina sem projéteis. Se observarmos as interleucinas sem nos influenciarmos por seu aspecto material, perceberemos que seus maiores atributos são invisíveis. As interleucinas são produzidas pelo DNA das célu­las imunológicas em dosagens, combinações e prazos exatos — fatores mais importantes que a própria molécula.

Uma célula branca engolfando um invasor, como um micró­bio ou uma célula cancerosa, é de uma simplicidade decepcionante quando visto em microscópio. Parece uma gota de âmbar envolvendo uma mosca. Na realidade, não existe processo mais complicado no corpo humano. Uma interleucina entra no cená­rio em um ponto bem determinado, numa manobra exata. Pode­mos chamar a isso de “caça ao câncer”, mas grande parte do pro­cesso imunológico é altamente abstrata. Ele é quase todo condu­zido por troca de informações. Atingir o alvo não é um dos maiores objetivos da campanha.

Antes que um macrófago, ou célula imunológica, chegue a segregar qualquer agente anticâncer, o sistema imunológico toma várias outras providências. Primeiro, precisa notar que o proble­ma existe e identificá-lo exatamente; uma célula cancerosa não é um vírus, e nenhum dos dois é um micróbio. Usando uma classe de mensageiros chamados células-T ajudantes, o corpo avisa o resto do sistema imunológico para se ativar e começar a produzir células assassinas naturais. Para se certificar de que as assassinas não vão destruir o alvo errado, o corpo coloca um rótulo quími­co nos macrófagos com a identidade do inimigo, e eles o mostra­rão às outras células que encontrarem. Isto é apenas um simples esboço da sequência inicial de ação do sistema imunológico, que tem muitas ramificações, justaposições e desdobramentos inexplicados.

Tendo apenas sondado a grande complexidade do sistema imunológico durante os últimos cinco anos, os pesquisadores gostam de compará-lo ao cérebro sob tal aspecto. Como o cérebro, esse sistema tem uma capacidade fenomenal de absorver novas infor­mações, percebendo e gravando na memória a identidade de qualquer nova doença no organismo, escolhendo bilhões de partícu­las de conhecimento. Com a mesma facilidade, poderíamos di­zer que o cérebro e o sistema imunológico não são iguais — eles são o mesmo sistema, porque operam na mesma rede química.

A única diferença entre uma célula imunológica e uma cere­bral é que o DNA de cada uma preferiu enfatizar alguns e supri­mir outros aspectos de seu conhecimento total. A interleucina tem uma estrutura aproximada à de um neuropeptídio (a literatura de pesquisa a denomina “polipeptídio semelhante ao hormônio”). Isso significa que, quando nossas emoções se unem a moléculas, como um cavaleiro e sua montaria, elas escolhem montarias quase idênticas à da interleucina. Seria falso chamá-las de mensagens de cura, ou mesmo dividir as células entre as que levam tais men­sagens e as receptoras, porque, apesar de certas células imunoló­gicas segregarem interleucinas como parte de seu papel específi­co, qualquer célula do corpo é virtualmente capaz de recebê-las e, portanto, de fabricá-las. Talvez essa capacidade “silenciosa” seja ativada em recuperações espontâneas.

Ou serão os níveis de pensamento que travam uma luta corpo a corpo com os fantasmas da memória, e essas células físicas que vemos não passam de cápsulas das balas detonadas e espalhadas pelo campo de batalha? Para que essa última possibilidade seja verdadeira, a mente precisaria ser diretamente conscientizada de que há a ameaça de uma memória cancerosa. É certo que o vi­ciado e o anoréxico sabem que esse fantasma está ali. E já men­cionei certos tumores, como o do pâncreas, que primeiro tornam o paciente instável e deprimido, para só depois de algum tempo o médico descobrir fisicamente o tumor maligno. Esse aviso prévio depende da efetiva presença de uma célula cancerosa. No entan­to, isso não exclui um aviso ainda mais prematuro.

Para descobrirmos de onde ele pode vir, teremos de nos aprofundar ainda mais na questão da afinidade entre a inteligência e a matéria. Acredito na necessidade imperiosa de que isso seja feito antes que a teoria do projétil mágico entre em colapso. A interleucina não é uma bala, mas uma partícula de vida em movimento com a inteligência do cavaleiro invisível. A própria vida é inteligência que está em toda a parte, montada em substâncias químicas. Não devemos cometer o engano de pensar que cava­leiro e cavalo são um só. A inteligência é livre para ir aonde de­sejar, mesmo até onde as moléculas não conseguem.

6
O Corpo Mecânico Quântico

do Homem

Noventa anos depois de começarem a surgir, os insights da físi­ca quântica continuam sendo um mistério para a maioria das pes­soas. Mesmo assim, quando se compreende o significado da des­coberta dos neuropeptídios, a compreensão do quantum exige apenas mais um passo. Essa descoberta foi muito importante por ter mostrado que o corpo é suficientemente fluido para se mis­turar à mente. Graças às moléculas mensageiras, eventos que apa­rentemente não têm nenhuma ligação — como um pensamento e uma reação do corpo — agora mostram-se mais consistentes. O neuropeptídio não é um pensamento, mas move-se como ele e serve como ponto de transformação. O quantum faz exatamen­te a mesma coisa, só que o corpo estudado nessa questão é o uni­verso, ou a natureza como um todo.

Precisamos estudar o quantum de uma molécula. Um neuro­peptídio aflora na existência ao toque de um pensamento, mas de onde vem esse afloramento? Um pensamento de medo e a subs­tância em que ele se transforma estão de algum modo ligados a um processo oculto na transformação da não-matéria em matéria.

A mesma coisa acontece em toda a natureza, só que não costumamos chamar esse processo de pensar. Quando você chega até o nível dos átomos, a paisagem não é mais feita de objetos sólidos movendo-se à volta de outros, como parceiros de dança que seguem passos previsíveis. As partículas subatômicas são sepa­radas por enormes espaços, numa proporção, para cada átomo, de 99,999 por cento de vazio. Isso é verdade quando se trata de átomos de hidrogênio do ar, de átomos da madeira de que são feitas as mesas, assim como de todos os átomos “sólidos” em nossas células. Portanto, tudo o que consideramos sólido é tão vazio quanto o espaço intergaláctico.

Como essas tão vastas extensões de vazio, salpicadas de longe em longe por partículas de matéria, podem se transformar em seres humanos? Para responder a essa questão é necessária uma perspectiva quântica. Com a compreensão do quantum, entra­mos numa vasta realidade que abrange desde os quarks às galá­xias. Ao mesmo tempo, o comportamento da realidade quântica acaba ficando muito íntimo — de fato, ela é a linha mais tênue que separa o corpo humano do corpo cósmico.

Em seu projeto monumental para convencer todos os físicos a seguirem certas leis consistentes e racionais, Isaac Newton ex­plicava as obras da natureza em termos de corpos sólidos, movi­mento em linhas retas e constantes fixas que regulavam todos os eventos físicos. Este é o modelo da natureza como um complica­do jogo de bilhar, sendo Newton o principal jogador. Como a ma­téria e a energia permaneceram dentro dessas regras estabeleci­das, não havia necessidade de teorizar sobre um mundo oculto; tudo acontecia às claras. Podemos expressar essa idéia com um simples diagrama:



Aqui, A é uma causa e B, um efeito. Estão ligados por uma linha reta, demonstrando que causa e efeito estão ligados logica­mente no mundo que nos é familiar, o mundo dos sentidos. Se A e B são duas bolas de bilhar, fazer com que uma bata na outra é um evento previsível.

No entanto, se A for um pensamento e B, um neuropeptídio, esse diagrama já não serve. Não existe uma linha reta de ligação entre um pensamento imaterial e um objeto material, mesmo que seja minúsculo como uma molécula-peptídio. Em vez desse, é necessário um diagrama que tenha uma curva:



O formato em U mostra que o processo que deve acontecer não se realiza acima da linha, no mundo racional de Newton. Existe uma transformação oculta em andamento, a de um pen­samento em molécula. Essa transformação não leva nenhum tempo nem acontece em algum lugar — realiza-se apenas por impulso do sistema nervoso. Quando você pensa na palavra rosa, muitas células nervosas precisam ser acionadas (ninguém sabe quantas, mas digamos 1 milhão, o que talvez seja absurdamente pouco), mas essas células não se comunicam umas com as outras passan­do a mensagem de A a B, a C, e assim por diante, até todo o milhão tê-la recebido. O pensamento apenas acontece, localizando-se subitamente no espaço e no tempo, e com ele todas as células do cérebro mudam sincronicamente. A perfeita coordenação desse pensamento-evento com 1 milhão de células cerebrais que fazem os neurotransmissores certamente aconteceu abaixo da linha.

Toda a área abaixo da linha não é uma região para ser visitada no espaço nem no tempo; ela apenas está presente aonde quer que você vá, quando seus pensamentos se transformam em mo­léculas. Ela poderia ser imaginada como uma sala de controle que relaciona qualquer impulso mental com o corpo. Em qual­quer tempo, os 15 bilhões de neurônios do sistema nervoso po­dem ser coordenados com perfeita precisão pelo comando abai­xo dessa linha.

A mesma mudança de causas e efeitos, de linhas retas em cur­vas, em formato de U, ocorreu ao nascer a física quântica. Mes­mo quando tudo na natureza parecia acontecer acima da mesa de jogo, de acordo com a teoria clássica newtoniana — obviamente os físicos deixam os eventos mentais fora do quadro —, umas pou­cas coisas não podiam ser explicadas sem uma curva. A mais evi­dente era a luz. A luz pode se comportar como A, uma onda, ou B, uma partícula. As duas são totalmente diferentes na física newtoniana, já que as ondas são imateriais e as partículas, con­cretas. Mas a luz, de algum modo, atua como uma ou outra, de­pendendo das circunstâncias. Nesse caso, deve ter feito uma curva abaixo da linha:

É fácil ver a luz como uma onda ou vibração. Um prisma divi­de a luz branca nas várias cores do arco-íris, e isso ocorre porque ela se compõe de diferentes comprimentos de ondas luminosas; tal fato se torna aparente quando as ondas são separadas em um espectro. A luz de uma lâmpada incandescente tem seu próprio espectro de comprimentos de ondas, que é gerado quando a ele­tricidade atravessa o filamento de tungstênio. Mas, quando se diminui sua luminosidade gradativamente até que reste um mí­nimo de luz, ela não se irradiará como uma onda e sim como uma partícula. (Ainda não existe nenhum interruptor com dimmer que seja tão sensível e exato, mas os físicos difundiram a luz de tal forma que ela expôs sua “granulosidade”.) A natureza tam­bém equipou nossos olhos para reagirem fisicamente à luz nesse nível quântico — se apenas um fóton penetra na retina, um lampejo é transmitido pelo nervo óptico. Mas nossos cérebros não processam apenas esse lampejo.

A palavra “quantum” — do latim, que significa “quanto” — descreve a menor unidade a ser chamada de partícula. Um fóton é um quantum de luz, porque não se pode dividi-lo em partícu­las menores. O fóton se manifesta quando um jorro de elétrons atinge um átomo de tungstênio; os elétrons em movimento na eletricidade colidem com os elétrons que giram na órbita exte­rior do átomo de tungstênio, e dessa colisão precipita-se um fó­ton, um quantum de luz. Esse quantum é uma partícula muito estranha, porque não tem massa, mas para nossos propósitos o que importa nele é sua capacidade de se transformar em uma onda de luz, tendo de fazer a curva abaixo da mesa. A transformação ocorre em um domínio desconhecido, que escapa às leis de Newton.

Já que não estamos procurando estudar física, não vou entrar em maiores detalhes. Basta saber que depois de Einstein, quan­do Max Planck e outros físicos pioneiros foram capazes de, na virada do século, demonstrar a natureza quântica da luz, disso resultaram muitas conclusões bastante curiosas. Fatos considera­dos evidentes no mundo dos sentidos precisaram ser conciliados com estranhas distorções de tempo e espaço — e o foram. Como no caso do neuropeptídio, o quantum é capaz de deixar a natu­reza tão flexível que se torna possível a inexplicável transforma­ção de não-matéria em matéria, de tempo em espaço, de massa em energia.

Este modelo para um evento quântico básico mostra a curva que sempre sai fora do alcance dos eventos comuns:



Como o pensamento e o neuropeptídio, a luz não pode ser uma onda e um fóton ao mesmo tempo; é uma coisa ou outra. E é claro que a lâmpada de tungstênio não passa a uma outra reali­dade quando é desligada. Mas, de algum modo, a natureza esta­belece suas leis para que a luz possa ser A ou B, enquanto ambas são mantidas dentro da mesma realidade, construindo um ponto de transformação. (Ainda hoje muitas pessoas acreditam que Eins­tein destruiu a teoria de Newton quando, de fato, ele salvou e expandiu a crença do próprio Newton na ordem perfeita.)

Uma visão surpreendentemente elegante da mente e do corpo pode surgir desse evento básico; para isso, basta um diagrama:



A mente e o corpo ficam acima da linha. A é um evento men­tal, um pensamento; todas as outras letras correspondem a processos físicos que se seguem a A. Se você fica com medo (A), as outras letras são os sinais enviados às glândulas supra-renais, a produção de adrenalina, o batimento cardíaco rápido, a pres­são do sangue elevada, e assim por diante, correspondendo a B, C, D etc. Todas as mudanças físicas no organismo podem estar ligadas a uma cadeia natural de causa e efeito, exceto o espaço depois de A. Esse é o ponto em que primeiro ocorre a transfor­mação do pensamento em matéria — e precisa ocorrer, ou os ou­tros eventos não acontecerão.

É preciso haver uma curva em algum ponto da linha — e nes­se ponto ela se rompe, porque a mente não toca a matéria acima da mesa. Se quisermos erguer o dedo mínimo (A), um médico pode acompanhar o neurotransmissor (B) que ativa o impulso que percorre o axônio do nervo (C), fazendo uma célula muscu­lar responder (D), o que resulta no dedo se erguendo (E). Mas nada do que o médico possa descrever explicará o que acontece de A a B — isso exige uma curva. A imagem assemelha-se a uma fila de pessoas passando baldes umas às outras, onde todas o apa­nham da anterior, menos a primeira, que o pega não sabendo de onde. De lugar nenhum.

“Lugar nenhum” é um termo quase exato neste caso, porque não se pode descobrir o ponto em que os fótons se transformam em ondas de luz. O que acontece exatamente nessa zona “?” não é conhecido pelos físicos, tampouco pela medicina. As curas mi­lagrosas parecem exemplos de mergulho na zona “?”, porque, em tais casos, a cooperação da mente com a matéria provoca um inesperado salto quântico; mas, como outros episódios mente-corpo, realiza-se de modo misterioso.

Muitos anos atrás, um bombeiro de Boston, com bem mais de 40 anos, chegou certa noite ao pronto-socorro de um hospi­tal suburbano, queixando-se de súbitas e violentas dores no peito. O médico interno o examinou e não encontrou nada de anor­mal no funcionamento de seu coração. O paciente partiu pou­co convencido e logo voltou com os mesmos sintomas. Foi enviado para que eu, como médico da equipe principal, o examinasse, mas também não encontrei nada de errado em seu coração.

Apesar do exame completo, o bombeiro voltava repetidamente ao hospital, quase sempre tarde da noite. A cada vez que che­gava, sempre agitado, ele insistia com absoluta certeza de que estava sofrendo do coração. Mas nenhum exame, inclusive os mais sofisticados ecocardiogramas e angiogramas, registrou o menor problema. Finalmente, diante da crescente ansiedade do homem, fiz-lhe uma recomendação para aposentadoria, não por incapacidade física, mas puramente por motivos psicológicos. A diretoria do setor médico do Departamento de Bombeiros re­cusou o pedido por não ter provas materiais do caso. Dois me­ses depois, o homem apareceu pela última vez no pronto-socorro. Dessa vez viera estendido na maca, porque sofrera um enfarte violento. O ataque cardíaco destruiu 90 por cento do músculo do coração; dez minutos depois, o paciente estava morto. Mas, antes, ele teve energia suficiente para virar a cabeça em minha direção e murmurar:

— Agora o senhor acredita que eu sofria do coração?

O que esse caso atesta de modo tão dramático é que a curva da zona “?” é de tal forma poderosa que pode mudar qualquer realidade física no organismo. Acho que devo chamar o ocorri­do de efeito quântico, porque não seguiu as regras de causa e efeito observadas pela medicina e estabelecidas como reações normais do corpo. Muitas pessoas cultivam receio de ter um ataque cardíaco, mas não morrem dele; no caso oposto, muitos ataques do coração ocorrem sem o menor aviso da mente. Mes­mo se afirmássemos, de acordo com a medicina mente-corpo, que um pensamento causou o ataque do coração, como ele en­controu o meio de levar avante sua intenção fatal?

Ao programar o conceito de “ataque do coração” em um computador, saberemos exatamente o que estamos fazendo. Para obter os dados processados, os circuitos poderão ser ativados para levá-los à tela e os manipulamos segundo o método opera­cional de seu sistema. Mas o pensamento “ataque do coração” não agiu desse modo com meu paciente. Ele não sabia de onde viera o pensamento; quando este surgiu, ele não conseguiu es­capar; em vez de ficar em seu lugar, o pensamento invadiu o corpo todo com resultados desastrosos. Essa é apenas a metade do mistério de um evento quântico — a metade negativa; a via­gem à zona “?” também pode ter resultados positivos admi­ráveis.

Outra paciente minha, uma senhora tímida de mais de 50 anos, veio me procurar há dez anos queixando-se de fortes dores ab­dominais e de icterícia. Imaginando que ela sofresse de cálcu­los biliares, encaminhei-a imediatamente à cirurgia; porém, quando estava na mesa, revelou-se um grande tumor maligno que lhe invadira o fígado, com ramificações por toda a cavida­de abdominal. Julgando o caso inoperável, os cirurgiões fecha­ram a incisão sem tocar em nada. Como a filha pediu para não contarmos nada à mãe, disse-lhe que os cálculos biliares haviam sido removidos e que a operação fora bem-sucedida. Imaginei que a família contaria a verdade depois de algum tempo, porque provavelmente a mulher tinha poucos meses de vida — pe­lo menos poderia vivê-los com tranqüilidade.

Oito meses depois, espantei-me ao vê-la de volta a meu consultório. Vinha fazer exames de rotina, que não revelaram icte­rícia nem dores, ou qualquer sinal de câncer. Só um ano de­pois ela me fez um comentário estranho.

— Doutor — disse ela —, há dois anos eu tinha certeza de que estava com câncer, e eram apenas cálculos biliares; então, jurei a mim mesma que nunca mais ficaria nem um dia doente na vida.

O câncer dessa senhora nunca reapareceu. Ela não usou nenhuma técnica e aparentemente se curou a partir de uma pro­funda resolução, o que lhe bastou. Também devo chamar esse caso de evento quântico, devido à transformação fundamental em nível mais profundo que o dos órgãos, tecidos, células e até do DNA, ocorrida diretamente na fonte de existência do corpo, no tempo e no espaço. Meus dois pacientes — uma, com pensamentos positivos, e outro, com negativos — consegui­ram mergulhar no domínio “?” e dali ditaram a própria realidade.

Casos tão misteriosos como esses serão, realmente, exemplos de eventos quânticos? Um médico poderia criar objeções, con­siderando que estamos apenas fazendo metáforas, que o mun­do oculto das partículas elementares e das forças fundamentais exploradas pelos físicos quânticos é muito diferente do mundo oculto da mente. Ainda assim, pode-se argumentar que a re­gião inconcebível de onde tiramos o pensamento de uma rosa é a mesma de onde emerge um fóton — ou o cosmos. A inteli­gência, como vamos descobrir, tem muitas propriedades quân­ticas. Para deixar isso claro, começaremos com o esquema fa­miliar exposto nos livros de estudo, que apresenta o corpo hu­mano verticalmente, com uma hierarquia de sistemas, órgãos, tecidos e células:
Sistema

Órgão


Tecidos

Células


DNA


Nesse quadro, cada nível do corpo está logicamente relacio­nado ao seguinte — enquanto nos mantemos acima da linha, os processos que se assemelham à vida acontecem numa sequên­cia definida. Isso pode ser demonstrado pelo feto no útero: um bebê começa como partícula de DNA situada no centro do óvulo (célula) fertilizado; com o tempo, a célula se multiplica até for­mar uma bola de células suficientemente grande para começar a se dividir em tecidos e finalmente em órgãos, como o cora­ção, o estômago, a espinha dorsal e assim por diante; então surge todo o sistema nervoso, o aparelho digestivo e o respiratório; por fim, no exato momento do nascimento, os trilhões de célu­las do recém-nascido estão coordenados para manter a vida de todo o organismo, sem o auxílio da mãe.

Mas se o DNA é o degrau inicial dessa escadinha organiza­da, o que o faz se expandir, em primeiro lugar? Por que ele inicialmente se divide, no segundo dia da concepção, e começa a formar o sistema nervoso no décimo oitavo? Como todos os eventos quânticos, algo inexplicável acontece abaixo da super­fície, para formar a inteligência onisciente do DNA. O que nos importa não é o DNA ser complexo demais para ser compreen­dido nem tratar-se de uma molécula supergenial; o que torna o DNA tão misterioso é que ele vive no ponto exato da trans­formação, como um quantum. Ele passa toda sua vida gerando mais vida, o que definimos como a “inteligência ligada às substâncias químicas”. O DNA está Constantemente transferindo mensagens do mundo quântico para o nosso, ligando novas par­tículas de inteligência e novas partículas de matéria.

Localizado no meio de cada célula, completamente fora de cena, o DNA consegue coreografar tudo o que acontece no palco. Pode soltar pedacinhos de si mesmo, que viajam pela cor­rente sanguínea como neuropeptídios, hormônios e enzimas, en­quanto faz aflorar outros, até a parede da célula, como recepto­res, instalando antenas para ouvir as respostas a um turbilhão de perguntas. Como o DNA consegue ser simultaneamente a pergunta, a resposta e o observador silencioso de todo o processo?

A resposta não está no plano da matéria. Há muito tempo os biólogos moleculares subdividiram o DNA em componen­tes menores, mas toda a operação continua acima da linha do inundo newtoniano:


DNA

Submoléculas Orgânicas

Átomos

Partículas Subatômicas




Como já vimos, o DNA não é feito de nada em especial. Seus filamentos de material genético podem ser subdivididos em mo­léculas mais simples, como açúcares e aminas, e essas, em áto­mos de carbono, hidrogênio, oxigênio etc. Quando não está no DNA, um átomo de hidrogênio ou de carbono não tem nenhum tipo de aparelho de controle do tempo em si. Em bilhões de com­binações diferentes, o hidrogênio e o carbono simplesmente exis­tem; mas no DNA eles contribuem para um controle do tempo, uma habilidade de produzir algo novo a cada dia, que perdura nos seres humanos por mais de setenta anos — cada estágio da vida se desenvolve de acordo com o prazo estabelecido pelo DNA. (Em certas árvores, o DNA tem programação para mais de dois mil anos.)

Não importa de que distância seja visto, o terreno em que se apóia a escadinha não é muito firme. Quando se observa além dos átomos e se começa a subdividir o DNA em elétrons, pró-tons e partículas ainda menores, deve ocorrer um evento quânti­co. De outro modo, ficaremos na situação embaraçosa de afir­mar que a vida é feita do nada — espaço vazio, sem matéria nem energia —, que é tudo o que se consegue quando se continua dividindo as partículas sólidas além de certo ponto.

No nível quântico, matéria e energia tornam-se algo que não é matéria nem energia. Os físicos, às vezes, referem-se a esse es­tado primordial como “singularidade”, uma construção abstrata e sem limite no tempo e no espaço, mas que representa a com­pressão de todas as dimensões expandidas do universo. No Big Bang, o universo surgiu de uma grande explosão a partir da sin­gularidade — assim é a teoria —, que, por analogia, devemos cal­cular como um ponto menor que a menor coisa que existe. Ain­da assim, esse estupendo evento da criação acontece em outra escala todas as vezes que se pensa, por exemplo, na palavra “rosa”.

Não existe nenhum pedacinho de matéria em um local defini­do guardando essa palavra para nós — ela surge na existência vinda de uma região que simplesmente sabe como organizar matéria e inteligência, mente e forma. Os átomos surgem e se vão em nosso cérebro, mas a palavra “rosa” não desaparece. Agora che­gamos a um ponto muito interessante. A singularidade é muito explorável hoje em dia; ela não existia antes do Big Bang, já que fica fora do tempo e do espaço; portanto, tem de estar aqui e agora — de fato, está em toda a parte e não se confina ao passado, ao presente nem ao futuro. A física quântica usa gigantescos acele­radores de partículas e outros equipamentos misteriosos para ar­rancar da zona “?” ainda que um lampejo desse mundo oculto. A trilha de uma nova partícula elementar que passe girando à velocidade de um milionésimo de segundo será uma grande des­coberta, porque significa que a zona desconhecida foi alcançada e um lampejo de sua realidade trazido para a nossa. Haveria pos­sibilidade de estarmos fazendo a mesma coisa enquanto pensa­mos, sentimos, sonhamos ou desejamos?

Como seria o nível quântico em nosso interior? Poderia ser, simplesmente, a extensão lógica de algo a que já estamos muito familiarizados, o neuropeptídio. A grande capacidade do neuro­peptídio é a de obedecer aos comandos da mente com a veloci­dade da luz. Acredito que ele seja capaz disso porque está na fron­teira da zona quântica. A ciência já descobriu que centenas de neuropeptídios existem e são criados pelo corpo todo. É necessá­rio apenas mais um passo para descobrirmos que todas as nossas células são capazes de fabricar qualquer dessas substâncias. Se isso for confirmado, o corpo todo será um “corpo pensante”, a criação e expressão da inteligência. Eis um outro diagrama que demonstra a situação:

Já sabemos que a inteligência pode assumir a forma de um pensamento ou de uma molécula; isso está representado no diagra­ma como “mente” e “corpo”, as duas escolhas possíveis da in­teligência. As duas, porém, estão sempre unidas, mesmo que apa­rentem estar separadas. Para coordená-las, inseri um nível quân­tico, chamado “corpo mecânico quântico”. Não se trata de algo físico, mas de uma camada de inteligência, a camada em que o corpo se estrutura e se organiza como um todo. Dela vem o know-how que torna as moléculas “vivas”, em vez de inertes.

Não devemos assumir que os pensamentos se transformem em mensageiros químicos, um de cada vez. É bem sabido que, de algum modo, todos os bilhões de partículas de nosso organismo atuam como uma grande molécula de DNA, como acontece no desenvolvimento incrivelmente complexo de um feto, bem coor­denado no útero da mãe — do primeiro dia ao nono mês, todo o DNA de seu organismo atua como um só. O mesmo se verifi­ca conosco hoje.

Talvez os efeitos quânticos não estejam exclusivamente “lá fo­ra”, no espaço, mas “aqui” também. Não temos “buracos ne­gros” onde a matéria e a energia desaparecem para sempre? Cha­mamos a isso de “esquecimento”. Não aumentamos e diminuímos a velocidade do tempo como acontece com um viajante es­pacial, quando seu foguete acelera até quase a velocidade da luz? E, ainda, quando um escritor é capaz de pensar uma história to­da em um instante, mesmo que leve horas para escrevê-la? Em compensação, podemos passar meia hora nos esforçando para lem­brar o nome de alguém, o que surgirá instantaneamente no mo­mento em que encontrarmos a zona intemporal chamada memó­ria, de onde o tal nome será recuperado.

Sempre que um evento mental precisa encontrar uma contrapartida física, trabalha por meio do mecanismo quântico do cor­po humano. Esse é o segredo da forma como se associam sem erros os dois universos: o da mente e o da matéria. Não importa que possam parecer diferentes, a mente e o corpo estão embebi­dos de inteligência. A ciência tende ao ceticismo diante de qual­quer argumento de que é a inteligência que trabalha na natureza (essa é uma estranha anomalia histórica, já que todas as gerações que nos precederam aceitavam sem questionar algum tipo de or­dem universal). No entanto, se não existe nada fora da realidade comum que possa unir coisas e acontecimentos, somos levados a um conjunto de impossibilidades.

Podemos observar esse fato na lei da gravidade. O bom senso nos diz que dois objetos separados por um espaço vazio não de­vem ter qualquer ligação entre si; no jargão dos físicos, eles ocu­pam sua “realidade local”. Mas a Terra gira em torno do Sol, a cuja órbita é presa pela gravidade, mesmo que ambos sejam dois corpos separados por um espaço vazio de 150 milhões de quilômetros. Ao descobrir essa violação da realidade local, New­ton ficou chocado e recusou-se a especular como isso acontecia. Desde então, a realidade local tem levado um golpe após outro. A luz, as ondas de rádio, os raios laser e todas as outras forças eletromagnéticas viajam pelo espaço vazio; matéria e antimatéria parecem existir em universos paralelos, sem contato físico; as partículas subatômicas possuem rotações que combinam com outras, não importando o quanto estejam distantes no tempo e no espaço — a rotação combina até extremos opostos do univer­so. O que significa, portanto, que a idéia ditada pelo bom senso da realidade local verdadeira só é válida em determinado nível.

A realidade global, como é explicada pelos físicos quânticos, é mais profunda. Uma famosa formula matemática, conhecida como teorema de Bell (seu autor foi o físico John Bell), estabele­ce que a realidade do universo deve ser “não-local”; em outras palavras, todos os objetos e eventos no cosmos estão interligados e reagem às mudanças de estado dos outros. O teorema de Bell foi formulado em 1964, mas, algumas décadas antes, o grande astrônomo inglês Sir Arthur Eddington havia antecipado essa in­terligação ao dizer: “Quando o elétron vibra, o universo estre­mece”. Os físicos agora aceitam a interconexão como um princí­pio normativo, junto a muitas formas de simetria que se esten­dem pelo universo — por exemplo, existe a teoria de que cada buraco negro pode ser ligado, em algum lugar, a um “buraco branco” correspondente, mas nenhum foi observado até hoje.

Que tipo de explicação conseguiria satisfazer a exigência de Bell, de uma realidade não-local, totalmente interligada? Teria de ser uma explicação quântica, porque, se a gravidade está presente em toda a parte ao mesmo tempo, se os buracos negros sabem o que os buracos brancos estão fazendo e se a mudança da rota­ção de uma partícula causa mudança igual, mas oposta, em qual­quer ponto do espaço exterior, é evidente que essa informação está viajando de um lado a outro, mais rápida que a luz. Isso não é explicado na realidade comum, nem por Newton nem por Einstein.

Teóricos contemporâneos como o físico britânico David Bohm, que trabalhou profundamente com as implicações do teorema de Bell, tiveram de supor a existência de um “campo invisível” que mantém toda a realidade unida, um campo que possui a proprie­dade de saber o que está acontecendo em qualquer lugar ao mesmo tempo. (A palavra “invisível”, aqui, significa que, além de não ser visto pelos olhos, é também imperceptível para qualquer ins­trumento.) Sem nos aprofundarmos mais nessas especulações, podemos perceber que o campo invisível é muito semelhante à in­teligência oculta do DNA e que ambos se parecem muito com a mente.

A mente tem a propriedade de manter todas as nossas idéias armazenadas, digamos, em um reservatório silencioso, onde são organizadas com exatidão em conceitos e categorias.

Sem definirmos o processo como “pensamento”, talvez veja­mos a natureza pensar através de muitos canais diferentes, dos quais nossas mentes estão entre os mais privilegiados; ela pode criar sua realidade quântica e, ao mesmo tempo, experimentá-la. Um evento quântico no campo das ondas de luz pode ser muito objetivo, mas e se a realidade quântica estiver presente apenas no campo de nossos pensamentos, emoções e desejos? Eddington disse claramente que, como físico, acreditava que “a matéria-prima do mundo era matéria presente”. Portanto, o corpo mecâ­nico quântico, como uma forma de inteligência, tem seu lugar plausível em uma realidade não-local.

A beleza de uma imagem tão simples reside no fato de que a inteligência é simples; as complicações surgem quando alguém procura detalhar toda a maquinaria incrivelmente complexa do sistema mente-corpo. Os padrões das ondas cerebrais de um psi­cótico, na longa tira de papel do encefalógrafo, são semelhantes aos de um poeta, não importando a sofisticação da análise poste­rior. Ao pensar nos milhares de horas necessárias para a descri­ção científica das consequências químicas de um dia na vida de uma célula, um neurocientista meu amigo comentou:

— Somos obrigados a concluir que a natureza é inteligente por­que é complicada demais para ser chamada de qualquer outra coisa.

Ele poderia, do mesmo modo, ter dito “simples demais”. Um cérebro humano que muda seus pensamentos em milhares de substâncias químicas a cada segundo não é, afinal, tão compli­cado quanto inconcebível. Na Índia antiga, acreditava-se que a inteligência se espalha por toda a parte; era chamada de Brahman, palavra sânscrita que significa “grande”. Consideravam-na um campo invisível. Um ditado de milhares de anos atrás afirma que o homem que não encontrou Brahman é como um peixe se­dento que não encontrou água.

Toda nossa fisiologia pode se transformar tão rapidamente quan­to um neuropeptídio, que é parte do corpo mecânico quântico. Porque podemos mudar assim como o mercúrio, a qualidade flui­da da vida é natural em nós. O corpo material é um rio de áto­mos; a mente, um rio de pensamentos; e o que os mantém uni­dos é um rio de inteligência.

Pode parecer que o corpo mecânico quântico só se envolva em questões de vida ou morte, mas isso não é verdade. Vivemos ne­le sem pensar, naturalmente, como um todo. Tenho uma pacien­te que percebeu esse fato enquanto estava sentada na grama, co­mendo pão francês e ouvindo Mozart. Durante dois anos seu ca­so tinha sido muito frustrante. Ela sofria e se queixava de vários sintomas desagradáveis, inclusive irritação nos intestinos, dores de cabeça, fadiga, insônia e depressão, que resistiam a qualquer tentativa de cura. Nenhum desses males era fatal, mas ela vivia muito infeliz. O tratamento convencional com antidepressivos e tranquilizantes ajudou pouco e também não consegui nada com o uso do Ayurveda.

Então, certo dia, ela foi a Tanglewood, a sede de verão da Sinfônica de Boston e lugar ideal para um piquenique. Ela estendeu a toalha xadrez no gramado e deitou-se ao sol, ouvindo música, enquanto comia seu lanche em paz. Ficou muito feliz com aqui­lo tudo e dormiu tranquilamente naquela noite, como não acon­tecia há anos. Mas estava tão habituada a ser doente que não no­tou a nova situação. Passou-se outro ano de sofrimentos e che­gou a época de voltar a Tanglewood, quando a mesma coisa acon­teceu — todos os sintomas desapareceram durante o dia e ela dor­miu maravilhosamente bem à noite.

Mas dessa vez ela reparou no que acontecia. Veio me procurar alegremente, sacudindo o recorte de um jornal médico com um artigo sobre a síndrome de SAD (desordem afetiva sazonal), que descrevia o mal que costuma provocar séria depressão durante o inverno, sem causa aparente. Agora, sabemos que a causa está ligada ao órgão pineal, no interior do cérebro; essa glândula endócrina, oval e achatada, embora cercada de massa cerebral, rea­ge às mudanças da luz do sol como se fosse uma espécie de “ter­ceiro olho”, o que todos querem desenvolver na Nova Era (al­guns animais menos evoluídos, como a lampreia, realmente pos­suem um terceiro olho). Em certas pessoas, a exposição insufi­ciente ao sol, no inverno, dispara suas secreções pineais; a glân­dula passa a produzir em excesso um hormônio chamado melatonina, que provoca depressão.

— Veja — disse ela —, tenho sofrido essa síndrome o tempo todo e bastou que me sentasse ao sol para ficar novamente com a glândula pineal normal.

— Sinto muito — respondi —, mas essa doença costuma apa­recer no inverno. — O rosto dela demonstrou desapontamento e logo prossegui: — No entanto, você colocou o dedo num ponto muito importante; agora sabemos que sofre de uma deficiência que tem tratamento.

— E qual é? — ela perguntou.

— Deficiência de piquenique — disse eu e, pela primeira vez, vi seu rosto se iluminar em um verdadeiro sorriso.

Ela prossegue seu autotratamento. Regularmente foge da paisagem cinzenta do escritório e vai sentar-se ao sol para almoçar na companhia dos amigos, ouvindo Mozart. Isso não pode pare­cer um remédio muito evoluído e, em certo sentido, não é; mas funciona, porque precisamos da Natureza para libertar nossa na­tureza. Vivemos cercados pela melhor influência de cura — ar puro, luz do sol e beleza. Na Índia, o Hipócrates do Ayurveda, um grande médico e sábio chamado Charaka, prescrevia um pouco de luz solar para todas as doenças, além de uma caminhada pela manhã; seu conselho jamais perderá o valor.

Se encontro uma campina verdejante, salpicada de margaridas, e sento-me à beira de um regato de águas cristalinas, descobri um remédio. Ele suaviza meus sofrimentos como o colo de minha mãe, quando eu era pequeno, porque a Terra é realmente minha mãe e a campina verde, seu colo. Você e eu somos estra­nhos um ao outro, mas o “ritmo” interno de nossos corpos ouve as mesmas ondas do oceano que nos embalavam em época ante­rior à memória.

A Natureza é a cura do homem, porque ela é o homem. Quando o Ayurveda diz que a lua é nosso olho direito e o sol, nosso olho esquerdo, não devemos zombar. Foi banhando-nos à luz da lua, ao sol e no mar que a Natureza formou os corpos que habita­mos. Esses foram os ingredientes que nos proveram, a cada um, de nossa parte da Natureza — uma concha, um sistema de sus­tentação de vida, um companheiro íntimo, um lar por sete déca­das ou mais.

A descoberta do domínio quântico abriu caminho para se perceber a influência do sol, da lua e do mar no fundo de nós mes­mos. Só estou me reportando a isso na esperança de que aí exista mais possibilidades de cura. Já sabemos que um feto humano se desenvolve lembrando-se das formas e imitando um peixe, anfí­bios e mamíferos primordiais. As descobertas quânticas nos per­mitem penetrar em nossos próprios átomos e relembrar o univer­so primordial. Em eras passadas, surgiram no universo a luz e o calor para durar 20 bilhões de anos; mas cada ser humano é uma nova centelha iluminando o fogo que irradia a vida. Na Ín­dia védica, o mesmo fogo sagrado que havia na Terra, Agni, ser­via para nomear o calor digestivo do estômago e o fogo solar no céu.

Sir Arthur Eddington afirmou certa vez que duas realidades deviam ser conhecidas em seus próprios termos: uma trivial e outra de suma importância. A trivial era a realidade mecanicista investigada pela ciência; a importante era a realidade humana da experiência comum. Na realidade científica, afirmou ele, a Ter­ra é uma partícula de matéria girando em volta de uma estrela medíocre, perdidas ambas entre bilhões de objetos estelares mais importantes. Mas, na realidade humana, ela continua sendo o centro do universo, porque a vida que abriga é a única coisa im­portante, pelo menos para nós.

A expressão mais pungente dessa idéia surgiu de uma paciente que tinha muitos problemas de saúde, inclusive câncer. Para read­quirir sua perspectiva, ela resolveu escrever algumas experiên­cias importantes do passado. Uma das que lhe ocorreu foi de quan­do era ainda bem mocinha; deu-lhe o título “Mas Como Eu Posso Ser a Lua? — 16 anos de idade”.
Estou deitada a sós no pasto escuro, exceto pela magnéti­ca lua cheia. Há uma completa sensação de quietude. Meu ser é parte da Terra e, ao mesmo tempo, parte da pura luz branca da lua. Nada mais importa. Por um segundo imagino: “Estou morta?” Não tem importância — estou passan­do uma hora nas mãos de Deus e Ele se transformará em parte de mim.
Um número surpreendente de pessoas teve experiências como essa, a que Eddington denominava “o contato místico com a Ter­ra”. Minha paciente, tempos depois, afastou-se de sua experiên­cia e foi-se habituando gradualmente ao desgaste do trabalho e das preocupações familiares que nos separam a todos da Nature­za; no caso dela, o acúmulo de estresse fez com que adoecesse frequentemente. (Sua vida mais recente recebeu um título cáus­tico: “Ir Contra a Natureza — Isso é a Vida Adulta?”)

O estranho é que, no momento em que deixou de contrariar a Natureza, o velho sentimento de ligação voltou com a mesma força. Quase aos 30 anos, ela foi visitar uma praia no Pacífico e escreveu:


Durante horas, sozinha na praia, voltei a ficar com Deus. Eu era a onda que crescia e arrebentava, seu ruído, sua for­ça. Eu era a areia morna e vibrante, viva. Eu era a brisa suave, livre. Eu era o céu puro e sem fim... Sentia apenas um amor enorme. Eu era mais que meu corpo e sabia dis­so. Esse momento foi absolutamente belo e purificador.
Também como médico acredito no que ela descreve. Nosso mecanismo interno de cura combina perfeitamente com o externo. O corpo humano não se parece com uma colina verde, mas suas cinzas, sua água cantante, a luz do sol e a terra não foram esque­cidas; foram simplesmente transformadas em nós. (Existe um bom motivo para todas as medicinas antigas afirmarem que o homem é feito de terra, ar, fogo e água.) Como o corpo é inteligente e conhece esse fato, sente-se livre quando volta ao lar da Natureza. É com enorme alegria que reconhece a mãe. Essa sensação de liberdade é vital — permite que as naturezas interna e externa se misturem. O mesmo é verdade para o corpo mecânico quân­tico: ele é apenas uma porta de volta à Natureza. Não há neces­sidade de explicá-lo, a não ser por um triste fato: o intelecto, in­do contra a Natureza, fez um Ótimo trabalho de bloqueio dessa porta.

Existem outras coisas para se dizer a respeito do corpo mecâ­nico quântico, mas não consigo pensar em mais nada que seja necessário saber. A medicina de hoje quer dar um salto além dos problemas atuais, só que esse desejo se transformou em espera. Um colega meu de faculdade, em Nova Délhi, teve ascensão me­teórica nos Estados Unidos como pesquisador e, antes de com­pletar 45 anos, já lecionava na Faculdade de Medicina de Har­vard. Recentemente, jantamos juntos em um restaurante de Bos­ton e depois, durante a conversa, ele fez uma previsão:

— Houve uma reunião com os principais pesquisadores de medicina em Washington — comentou sombriamente — e todos concordamos que até 2010, aproximadamente, ainda não haverá cura para os casos mais graves de câncer e nenhum avanço na compreensão da AIDS.

Esse sombrio prognóstico deve ser evitado a qualquer preço. Pode ser impecável do ponto de vista científico, mas não faz sen­tido na perspectiva quântica. Somos todos eficientes navegado­res nos domínios da zona “?”, onde a ciência ainda tateia com uma réstia de luz. Isso não sugere uma solução? Os misteriosos colapsos da inteligência do corpo, que ocorrem no câncer e na AIDS, podem ser devidos a uma única distorção — uma curva errada nas regiões ocultas da inteligência do DNA. Para ver co­mo o problema mente-corpo pode ser resolvido, precisamos exa­minar mais de perto essas curvas e sua origem invisível.2

7
Em Lugar Nenhum e

em Toda a Parte

Ninguém jamais verá o corpo mecânico quântico. Isso pode ser um problema para muita gente. Além dos cientistas, todos nós ficamos mais à vontade com coisas que podemos ver e tocar. De um modo geral, a história da medicina moderna consiste na busca dos objetos sólidos causadores das doenças, embora quase todas elas ajam no domínio do invisível, além de qualquer coisa que o olho humano pode perceber.

Um observador atento do século 15, na Europa, poderia ter conjeturado que um rato em casa representava o perigo da peste bubônica (na realidade, os ratos eram tão comuns que essa liga­ção nunca foi feita); uma pulga no pêlo do rato estaria mais pró­xima da verdadeira causa, mas só quando o sangue do rato é exa­minado no microscópio é que a bactéria Pasteurella pestis se tor­na visível. É assim que se descobriu o enigma da Peste Negra, um castigo tão antigo da raça humana que, acredita-se, dizi­mou o exército persa quando marchava contra a Grécia, no sécu­lo V a.C.

Sem o microscópio, o que seria uma bactéria? Algo invisível a olho nu, e, ao mesmo tempo, tão grande quanto o mundo, já que alcança todos os lugares da Terra, até os pólos. Chegaria e sairia como a fumaça, penetrando pelas portas e janelas bem seladas. Se acreditássemos apenas em nossos sentidos, a capa­cidade de um organismo de estar por toda a parte e em nenhum lugar ao mesmo tempo pareceria uma coisa fantástica. O mun­do quântico é, em essência, apenas mais um passo na escala des­cendente do invisível. Ao contrário de bactérias menores, ou vírus, um único fóton, elétron ou qualquer outro objeto do mun­do quântico não pode ser percebido por intermédio de nenhum meio que amplie a capacidade de visão ou tato. Eles estão, realmente, em toda a parte e em nenhum lugar ao mesmo tempo.

Até recentemente não havia a menor ligação entre esse fato e a medicina, porque o menor vírus é ainda milhões e milhões de vezes maior que uma partícula elementar. Os germes tam­bém não são muito estáveis no tempo e no espaço, mas os obje­tos quânticos lampejam dentro e fora da existência previsível. Se a Pasteurella pestis penetrar em seu sangue, ficará ali de mo­do absoluto e definitivo, ao contrário dos mésons, simples fan­tasmas que deixam traços luminosos numa chapa fotográfica, durante poucos milionésimos de segundo, e desaparecem da exis­tência material; e muito diferente do neutrino, que atravessa todo nosso planeta sem ser percebido e sem que nada obstrua seu caminho.

Essa ampla diferença na escala entre médicos e físicos quân­ticos manteve as duas ciências a salvo e afastadas até 1987, quan­do um imunologista francês, Jacques Benveniste, realizou uma experiência considerada ultrajante por todas as visões não-quânticas do mundo. À primeira vista, o início da experiência pareceu inócuo. O dr. Benveniste pegou um tipo comum de anticorpo chamado IgE (imunoglobina do tipo E) e o expôs a certas células brancas do sangue, chamadas basófilos. É bem conhecida a reação provocada pela interação desses dois elemen­tos — o anticorpo IgE firma-se nos locais receptores específi­cos e espera. Ele aguarda uma molécula invasora flutuando na corrente sanguínea, da qual precisa se defender. Nesse caso, o invasor não é um germe, mas um antígeno, uma substância que causa alergias.

Se você é alérgico a ferroadas de abelhas, as moléculas do ve­neno desse inseto, quando inoculadas em seu sangue, atraem o anticorpo IgE em poucos segundos. Ele, por sua vez, desen­cadeia uma complexa cadeia de reações na célula, que ativa ao máximo a resposta alérgica do corpo; o basófilo solta uma subs­tância química chamada histamina, que provoca inchaço, ver­melhidão, coceira e falta de ar, típicos de um ataque alérgico. O mistério nas alergias está no fato de o antígeno (substância agressora que entra no organismo) ser geralmente inofensivo — lã, pólen, poeira —, só que é tratado pelo sistema imunológico como um inimigo mortal. Para se descobrir a causa dessas alergias, elas foram profundamente estudadas no plano celu­lar, e um dos resultados revelou um domínio maior do IgE.

Esses dados são suficientes para compreendermos a experiên­cia do dr. Benveniste. Ele coletou um pouco de soro de sangue humano, repleto de células brancas e IgE, e o misturou a uma solução preparada com sangue de cabra que, sem dúvida, acionaria a liberação de histamina. Essa segunda solução continha um anticorpo anti-IgE, que representa o veneno da abelha, o pólen ou outro antígeno. Quando o IgE e o anti-IgE se encon­traram, a reação no tubo de teste foi exatamente igual à de uma pessoa gravemente alérgica, com alta produção de histamina.

Então, Benveniste diluiu o anti-IgE dez vezes mais e tornou a adicioná-lo, seguindo-se a mesma reação. Ele continuou di­luindo, seguidas vezes, e, como antes, cerca da metade do IgE continuava reagindo (40 a 60 por cento). Isso o surpreendeu, porque a solução estava muito além do limite em que seria qui­micamente ativa. Então, o dr. Benveniste decidiu diluir o IgE ainda mais, tornando a solução dez vezes mais fraca a cada pro­va, até ter certeza de que não havia mais nenhum anti-IgE. A última diluição continha uma parte de anticorpo para 10120 par­tes de água; esse número, escrito por inteiro, seria 10 seguido de 119 zeros. Usando uma constante chamada número de Avogadro, ele confirmou matematicamente que era impossível a água conter uma só molécula de anticorpo. Quando adicionou essa “solução”, que já era apenas água destilada, desencadeou-se a reação de histamina com a mesma força anterior. (No filme clássico de Humphrey Bogart, Uma Aventura na Martinica, há uma frase capciosa: “Você já recebeu a ferroada de uma abelha morta?” Neste caso, a abelha também é invisível.)

Apesar do resultado absurdo, Benveniste repetiu a experiên­cia setenta vezes e pediu a outros grupos de pesquisadores que a repetissem em Israel, no Canadá e na Itália, e todos chega­ram ao mesmo resultado: descobriram que se pode acionar o próprio sistema imunológico com um anticorpo que não está presente no organismo. Em nosso vocabulário, Benveniste ha­via descoberto o fantasma da memória — ele mesmo se pergunta se a água não contém o fantasma gravado de moléculas que an­tes estavam ali. Seus resultados foram publicados, com relu­tância, na prestigiosa revista britânica Nature, em junho de 1988. Os editores expressaram francamente seu desgosto pelo resultado, afirmando, com absoluta razão, que ele não apresentava “base física”. As células brancas humanas agiam como se o anti-IgE as atacasse por todos os lados, quando, na realidade, não estavam em lugar nenhum.

A medicina reluta em atravessar a porta quântica, mesmo que tenha sido claramente aberta por essa experiência.



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