A cura Quântica



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Um médico cético poderia negar que a angina tem, geralmen­te, duas causas. Uma é o espasmo das artérias coronárias, os vasos sanguíneos que alimentam o coração de oxigênio. Se elas se contraem durante um espasmo, o músculo cardíaco não recebe oxigênio e grita de dor. Minha paciente deve ter sofrido esse tipo de angina, diria o cético. A outra causa é o bloqueio de gordura nas artérias coronárias, o que não poderia ser curado por uma técnica mental. Eu seria forçado a responder que ambos os casos envolvem a memória. Os bloqueios de gordura não são tão subs­tanciais quanto parecem. Se alguém se submeter a uma revascularização do coração e trocar as artérias velhas e entupidas por outras desobstruídas, as novas frequentemente se entopem em questão de meses. Isso acontece porque o vaso sanguíneo foi mu­dado, mas não o fantasma da memória — ele ainda quer acumu­lar placas gordurosas nas artérias.

Em contrapartida, muitos pacientes que se submetem a essa cirurgia não voltam a sentir as dores fortes e assustadoras no pei­to, mesmo com as artérias entupidas, porque estão certos de que a cirurgia os curou. Os cirurgiões já experimentaram até operações-placebo, simplesmente abrindo e fechando o peito, e em boa por­centagem dos casos os pacientes sentiram alívio da angina. Mi­nha paciente, na realidade, não tinha as artérias coronárias blo­queadas, mas o mecanismo oculto na angina era igualmente real; seu cérebro não fazia um exame prévio dos vasos sanguíneos com raios X, antes de reagir com dor.

Se tenho uma paciente que sente medo, posso apertar sua mão e garantir-lhe que vai se sentir melhor; isso acontece até mesmo sob anestesia. Você pode segurar a mão de um paciente em um momento difícil da cirurgia e ver o efeito calmante nos monito­res que medem a pressão sanguínea e o registro das batidas car­díacas. O coração e o cérebro, ao que parece, estão ligados bem mais profundamente do que as células. Constatamos essa verda­de sempre que um bebê está aninhado nos braços da mãe. Em poucos minutos os dois respiram no mesmo ritmo, mesmo que a criança esteja dormindo, e começam a sincronizar-se as batidas dos corações (não batem em uníssono, batida por batida, já que as do coração do bebê são bem mais rápidas que as da mãe). Essa ligação corpo-mente é invisível, mas quem poderia chamá-la de irreal? Tem passado silenciosamente de geração a geração. Tal­vez nos envolva a todos em um grande laço de afinidade. Vindo de seres humanos distintos, preocupados com seus problemas pes­soais, ela ajuda a moldar a espécie humana.

Assim que a ciência tenha se recobrado do choque da expe­riência IgE, um novo domínio precisa ser explorado: o domínio do vazio. A física quântica descobriu algo misteriosamente rico a respeito do espaço vazio. Agora estamos chegando ao ponto de estender essa riqueza a uma dimensão humana.

O universo em seu estado primordial foi comparado a uma so­pa de energia que se transformou em partículas de matéria. Eu nos comparo, portanto, a uma sopa de inteligência — só que não sopa, absolutamente, mas inteligência que aprendeu a cristalizar-se em partículas orgânicas, belas, precisas e poderosas, a que cha­mamos pensamentos. Isso faz com que o vazio em nosso interior seja muito mais entusiasmante que o outro, o que criou o universo.

8
Testemunha Silenciosa

Penso que a necessidade premente de uma medicina quântica fica devidamente demonstrada pelo estudo do seguinte caso: um jovem israelita chamado Aaron, de 24 anos, ligou para meu con­sultório.

— Sinto-me perfeitamente saudável — disse ele —, mas meu médico só me deu noventa dias de vida. Ele me pediu alguns exames e descobriu que tenho uma doença incurável no sangue. Isso aconteceu exatamente há vinte e três dias.

Mal conseguindo conter a emoção, ele contou toda a história, cheia de estranhas passagens. Seu diagnóstico surgiu de modo inteiramente acidental. Devido a um antigo ferimento, ficara com um desvio no septo e respirava com dificuldade. Aaron tinha che­gado aos Estados Unidos diversos anos antes, para estudar co­mércio. Afinal, resolveu procurar um cirurgião em Chicago para corrigir o defeito do nariz, e ele pediu-lhe exames de sangue de rotina.

Quando os resultados chegaram do laboratório, o médico fi­cou muito perturbado. Eles mostravam que Aaron estava com grave anemia: sua contagem de hemoglobina — componente do sangue que transporta oxigênio pelo corpo todo — tinha caído de 14, normal, para 6 (uma contagem de 12 seria considerada o limite de anemia). Seu hematócrito tinha caído para 16; isso significa que seu sangue fora centrifugado para separar as célu­las vermelhas do plasma, e elas ocupavam apenas 16 por cento do volume total. No sangue normal esse volume estaria próximo dos 40 por cento.

Aaron procurou imediatamente um hematologista, que lhe fez uma série de perguntas.

— Tem sentido falta de ar ultimamente?

— Não — respondeu Aaron.

— Acorda sufocado no meio da noite?

— Não.


— Seus tornozelos têm inchado? — O hematologista observou-o seriamente. — Você sente cansaço o tempo todo, não é?

Aaron sacudiu negativamente a cabeça.

— Isso é impressionante! — exclamou o médico. — Com sua contagem de hemoglobina você poderia ter uma crise de insufi­ciência cardíaca congestiva a qualquer momento.

Aaron ficou chocado, mas o médico tinha o direito de se ad­mirar, observando aqueles exames. No caso de uma anemia gra­ve, o coração precisa trabalhar muito mais que o normal para su­prir todo o oxigênio necessário para o resto do corpo. Isso, alia­do à falta de oxigênio que ele também sente, leva o músculo car­díaco a inchar e a sofrer uma insuficiência congestiva. O pacien­te começa a acordar à noite, sentindo-se sufocado até a morte, e isso pode finalmente acontecer.

O hematologista, espantado, pediu o exame de uma amostra da medula óssea de Aaron. O corpo contém normalmente ape­nas 280 gramas de medula óssea, mas isso é suficiente para pro­duzir nosso suprimento total de glóbulos vermelhos do sangue, numa média de 200 bilhões de novas células por dia. No exame, a medula de Aaron não mostrou sinais dos precursores das célu­las vermelhas que deviam estar presentes. O hematologista per­cebeu, então, que a raiz do problema de Aaron estava na parali­sia da medula óssea (chamada anemia aplástica), mas não podia determinar a causa. Mesmo sem apresentar sintomas, Aaron estava gravemente doente.

— Ninguém sabe ao certo qual o tempo de vida de uma célu­la vermelha do sangue — disse o médico. — O cálculo aceito é de cento e vinte dias, mas poderia ser um mês. Já que as células vermelhas de seu organismo não estão sendo repostas, sinto muito, mas você não deve ter mais que noventa dias de vida.

Enquanto Aaron o ouvia atordoado, o médico explicou que a medicina tinha pouco a fazer por ele. O tratamento possível se­ria um transplante da medula óssea, mas era uma grande inter­venção cirúrgica que, se ele sobrevivesse, provavelmente não o salvaria. Ele podia tomar uma transfusão de sangue para aumentar a contagem das células vermelhas, mas a súbita injeção do san­gue de outra pessoa acabaria lesando a medula óssea; além dis­so, quando a medula percebesse que a contagem estava novamente elevada, poderia interpretar como sinal para reduzir ainda mais sua função.

Como não sentia nenhum sintoma, Aaron hesitou em se sub­meter a um transplante. O hematologista deu-lhe duas semanas para se decidir. Também declarou que tinha o dever legal de aconselhá-lo a colocar seus negócios em ordem o mais rápido pos­sível. (Aaron não foi propriamente tratado com compaixão em nenhuma dessas etapas. Durante a conversa, ele contou ao mé­dico que sua irmã mais velha tinha morrido de repente, de um modo trágico, na Faculdade de Direito. A causa da morte não ficou muito clara, mas foi atribuída a uma doença, provavelmente hereditária, do sangue. Ouvindo isso, o hematologista ficou en­tusiasmado e pediu a Aaron que descobrisse a causa precisa da morte da irmã, porque os dois casos juntos dariam um Ótimo ar­tigo para os jornais. Quando Aaron me contou esse incidente mais tarde, fiquei tomado pela fúria.)

No dia seguinte ao diagnóstico, Aaron começou a sentir falta de ar e não conseguia dormir. Procurava desesperadamente um meio de se curar. Quase por acaso, começou a fazer meditação e soube de nossa clínica aiurvédica. Um mês depois, era meu paciente em Lancaster.

— O que me deixa mais esperançoso — disse eu — é você ter se sentido saudável até descobrir que havia algo errado. Vamos supor que esteja controlando esse mal, portanto faremos tudo o que pudermos para permitir que seu organismo se cure.

Eu desconhecia a causa de sua doença, mas enquanto entrevistava Aaron fui descobrindo que existiam vários motivos de preocupação. O primeiro era o próprio diagnóstico assustador que o deixara em pânico. Nessas condições, é difícil observar como o corpo-mente pode descobrir um caminho para a cura. Além disso, Aaron parecia uma pessoa tensa e muito esforçada. Tinha trabalhado em quatro empregos ao mesmo tempo, enquanto es­tudava, esforçando-se ao máximo para comprar um carro e pa­gar as despesas da faculdade. A pressão do estudo também era enorme. Ele tomava vitaminas Constantemente, além de uma me­dicação contra úlcera, que acalmava a dor crônica no estômago. Poucos meses antes, havia sofrido uma tendinite quando jogava tênis e tomou um agente antiinflamatório para diminuir o incha­ço. É sabido que tais drogas suprimem as funções da medula ós­sea. Pedi-lhe que interrompesse toda a medicação.

Ele ficou duas semanas na clínica e, pela primeira vez, encon­trou um ambiente livre do estresse “normal”. Continuou a me­ditar, comia obedecendo a uma simples dieta vegetariana de acordo com seu tipo físico e recebeu uma série de massagens que o Ayur­veda prescreve para purificar o organismo. Ensinei-lhe também a técnica do som primordial, aconselhável para suas condições. Uma noite, a enfermeira o apanhou andando pelo corredor com o cabelo molhado, e ele confessou que tinha saído para nadar. Fiquei muito feliz ao saber disso, pois outro paciente com a con­tagem do sangue de Aaron estaria tomando oxigênio ou transfu­sões de sangue. Aquele sinal era mais que encorajador.

Quando ele saiu da clínica, pedi-lhe que não fizesse novos exa­mes de sangue, pelo menos por duas semanas. Uma amostra exa­minada em Lancaster mostrou que seu suprimento de células ver­melhas imaturas, chamadas reticulócitos, estava quatro vezes mais elevado do que no momento em que ele chegou à clínica. Como são essas as células que mais tarde se transformam nos glóbulos vermelhos, achei que sua doença tinha cedido. Aaron acaba de ultrapassar o prazo de vida prognosticado pelo médico. Ele ain­da tem uma grave anemia, mas, em contrapartida, não apresen­tou sinais de enfraquecimento físico. Na verdade, sua anemia até diminuiu um pouco.

Em meu modo de pensar, Aaron está na linha divisória entre dois tipos de medicina. A primeira é a comum, científica, a cujos métodos estou profundamente habituado, mas que já não me inspira uma confiança tão absoluta. Não foi a medicina co­mum que falhou no caso de Aaron. Os médicos descobriram a presença de seu mal nos diversos níveis do organismo, dos teci­dos às células e às moléculas. Em seu caso, o tecido era a medula óssea, as células eram os glóbulos vermelhos do sangue e a mo­lécula era a hemoglobina. Para um médico treinado na medicina convencional, esse é o fim do caminho; um caminho que levou dois séculos de profunda investigação racional para ser encon­trado. O que há mais para se descobrir, quando se sabe até o que existe de errado com as moléculas de uma pessoa?

Essa lógica é impecavelmente científica, mas perigosamente des­ligada da carga normal de vida. Por “carga normal” refiro-me a como uma pessoa come, dorme, os pensamentos que transitam em sua mente, o que ela vê, cheira, ouve e o que penetra em seu organismo através de todos os seus sentidos. Você pode di­zer que o corpo é feito de moléculas, mas dirá com a mesma jus­tiça que ele é feito de experiências. Essa definição combina com nossa auto-imagem, o que não é científico, mas é fluido, mutá­vel e vivo. Dessas experiências comuns é que se origina a segun­da medicina, a do quantum.

Às vezes podemos pensar que a vida diária é simples demais para despertar o interesse da ciência. Na verdade, ela é comple­xa demais. Apesar de uma molécula de hemoglobina ser estru­turada de 10 mil átomos, pode ser isolada e mapeada — feito que mereceu vários prêmios Nobel. No entanto, é impossível saber o que a hemoglobina está fazendo enquanto você inspira o ar, porque cada célula vermelha contém 280 milhões de moléculas de hemoglobina, cada qual colhendo oito átomos de oxigênio. Considerando que os pulmões expõem ao ar em cada inspiração cerca de um quarto de sangue, contendo 5 trilhões de células ver­melhas, o número total de trocas químicas é astronômico. Todo o processo se desintegra rapidamente em um torvelinho caótico de atividades.

Quando se abre um corpo humano durante uma cirurgia, o que se vê não é o traçado bem definido dos livros de anatomia, com os nervos na cor azul, os vasos sanguíneos vermelhos, o fí­gado verde bem separado da vesícula biliar amarela. Em vez dis­so, o olhar não treinado enxerga uma confusão de tecidos quase indistintos, avermelhados e molhados; um órgão esconde-se im­perceptivelmente sob outro. A grande maravilha é a ciência mé­dica ter aprendido tanto sobre esse caos pulsante. Mas, em troca do conhecimento, a ciência pagou um alto preço por ter de aban­donar a experiência comum. Afinal, enchermos o pulmão de ar não representa o caos, a não ser para um biólogo molecular. A respiração é o ritmo fundamental da vida, em que se baseiam todos os outros ritmos.

Eric Cassell, um professor de fisiologia de Cornell (EUA), es­clarece ironicamente que um médico, ao fazer perguntas ao pa­ciente, não está tentando descobrir o que há de errado com ele; procura, sim, saber quais sintomas podem estar ligados a uma doença conhecida e classificada. A diferença é sutil, mas muito importante, pois nos lembra que todo o sistema de órgãos, teci­dos etc. foi organizado intelectualmente para facilitar a classifi­cação do corpo. Devem existir outros pontos de vista que são mais verdadeiros por natureza, já que estão baseados na experiência comum, e desafiam a aparente desordem exterior para compreen­der seu verdadeiro significado.

O caos é apenas uma aparência, uma máscara, e sob um olhar diferente metamorfoseia-se em pura ordem. Até a descoberta de seu código, a dança da abelha parecia um caos, uma confusão de voltas e guinadas. Agora, sabemos que é um conjunto preciso de direções para indicar às outras onde existe uma fonte de néc­tar. Isso não significa que a dança tenha mudado do caos à or­dem, e sim sua aparência mudou para nossos olhos. Do mesmo modo, se você examinar a pressão sanguínea de um paciente car­díaco algumas vezes, os dados dificilmente formarão algum pa­drão; porém, se ele ficar Constantemente ligado ao monitor, sur­girá um padrão bem definido, com picos e vales que ocorrem no espaço de um ou dois dias. Esse feto só foi descoberto recen­temente e permitiu que os cardiologistas descobrissem a hipertensão em pacientes que costumam apresentar pressão normal no consultório médico, porque os picos só ocorrem à noite. Sente-se claramente a mudança de maré, mas ninguém sabe ainda seu significado. A máscara do caos apenas começa a ser rompida.

As duas medicinas não precisam ser antagônicas, mas por enquanto estão claramente voltadas em direções opostas. Para um hematologista, é irrelevante que Aaron esteja tenso, excitado, cheio de substâncias dúbias no organismo, apavorado com a idéia de morrer. Para um médico védico, essas são as cargas primárias da doença — entraram no nível quântico, onde ele se transforma na pessoa que é. O hematologista não está sendo desapiedado; po­de sentir profundamente o que está acontecendo com Aaron, mas não consegue provar a ligação entre a disfunção da medula óssea e os quatro empregos ao mesmo tempo. Esse é o limite da noção newtoniana de causa e efeito, onde se desfaz a base da medicina científica comum.

Não se pode fazer perguntas para descobrir o que realmente causa a doença do paciente. No caso de Aaron, eu gostaria de saber como ele se sentiu com a morte da irmã, o que ele come no café da manhã, quem são seus amigos, como ele costuma fi­car quando perde uma partida de tênis — na verdade, quero sa­ber sobre qualquer experiência importante. Isso é praticamente impossível. São tantas as influências que nos pressionam todos os dias que a idéia de casualidade desaparece. Eu consideraria absurdo dissecar o cérebro de um poeta para se descobrir a causa de seus sonetos; seu córtex não poderia ter deixado de exibir padrões específicos de ondas cerebrais para produzir um soneto, mas elas se evaporaram e foram levadas a um domínio além do tempo. Começa a parecer igualmente absurdo considerar que uma causa física isolada se oculte na disfunção da medula óssea de Aaron. A vida dele também seguiu no tempo, e quero descobrir o que já se evaporou.

Sei que isso pode parecer chocante. Como podemos descobrir a cura sem uma causa? Mas todas as causas físicas são, no máxi­mo, parciais. Se você quiser que alguém fique resfriado, vai pre­cisar de muito mais que um vírus. Pesquisadores incubaram ví­rus de resfriado e os depositaram diretamente na parede da mu­cosa do nariz de seus pacientes, descobrindo que, com o tempo, só 12 por cento adoeceram. Esse resultado seria maior se as pes­soas em teste fossem expostas a golpes de ar, ficassem com os pés em água gelada para ter arrepios, ou a qualquer outro recurso puramente físico. A experiência comum, um jogo complexo de forças internas e externas, desafia as regras de causalidade que funcionam como as bolas de bilhar.

A medicina convencional já reconhece que a experiência co­mum pode exercer um papel complexo na doença. Por exemplo, as estatísticas mostram que solteiros e viúvos são mais suscetíveis ao câncer que os casados. Sua solidão é chamada de fator de risco — também poderia ser chamada de carcinógeno. Então, por que a cura da solidão não é cura para o câncer? Pode ser, mas em um tipo de medicina diferente da que praticamos agora. Um médico védico está mais interessado no paciente que tem à frente do que em sua doença. Ele reconhece que o que faz a pes­soa é a experiência — as tristezas, as alegrias, os rápidos momentos traumáticos, as longas horas sem fazer nada em especial. Os mi­nutos de vida se acumulam silenciosamente e, como grãos de areia depositados por um rio, podem finalmente se empilhar numa for­mação oculta que irrompe como uma doença.

É impossível ver e interromper o processo de acumulação. Posso ficar sentado no meio de um engarrafamento de trânsito e pen­sar “Bem, agora não está acontecendo nada comigo”, mas, de fato, estou recebendo, ou ingerindo, todo o mundo a minha vol­ta. Meu corpo vai metabolizando tudo o que vejo, ouço, cheiro e toco, transformando tudo isso em mim. É tão certo que faz isso quanto ingere meu suco de laranja.

A carga que se transforma no que sou é constante e moldada antecipadamente na forma final, A ciência não será capaz de medir esse processo porque não pode organizar meus sentidos e emo­ções em uma escala. Quanta solidão é necessária para ser trans­formada em câncer? Essa é uma pergunta sem sentido. O carcinógeno é invisível. Lembro-me de uma noite que passei no setor de emergência de um hospital de subúrbio, atendendo um gran­de número de pacientes. Houve um acidente com um trem tar­dio e tive de trabalhar quase freneticamente ao lado de um cole­ga para ajudar as dezenas de pacientes que poderiam estar em estado de choque. Fizemos curativos e pequenas cirurgias, acal­mamos seus nervos e entalamos ossos quebrados. Nosso traba­lho parecia sem fim, mas depois de cinco horas havíamos dado conta de tudo e nos sentíamos como heróis.

Então, a ambulância chegou novamente, e o motorista nos avisou:

— Estamos com uma menininha de dois meses, inconsciente. Ela não dá sinais de respirar, está sem pulso e começando a ficar azul.

Eu gelei e reparei no olhar de desespero do outro médico. Sabíamos o que nos esperava. A maca saiu da ambulância com a criancinha perdida no meio dos lençóis brancos. Colocar o tubo endotraqueal em sua garganta e começar a massagem cardíaca eram providências terríveis, mas foi o que fizemos. Desde o pri­meiro momento, sabíamos que seria inútil; era o que a medicina chama de caso súbito de síndrome mortal infantil. Ela afeta be­bês aparentemente normais e não existe causa conhecida. O aten­dimento de emergência geralmente não adianta, por mais rápido que seja.

Depois de um tempo que nos pareceu razoável, tiramos nos­sos instrumentos e fechamos os olhos da menininha. Fui falar com os pais, um casal jovem e bem de vida, que parecia arrasa­do. Só pude aconselhá-los a freqüentar um grupo de apoio for­mado por outros pais que haviam perdido filhos nas mesmas con­dições. Eles saíram ainda em estado de choque e nunca mais voltei a vê-los. Quem pode medir o que aconteceu comigo? Não me lembro do rosto de nenhuma vítima daquele acidente de trem, embora tenha passado horas cuidando delas. Mas o cabelo loiro e os olhos azuis da criancinha permanecem tão vivos em minha mente quanto no primeiro minuto em que a vi. Ela penetrou em mim. Não sei onde vive dentro de mim — é realmente um míni­mo de matéria cinzenta em meu córtex? Seria ridículo procurar em que lugar. O importante é que todo meu ser é feito de expe­riências como essa. Metabolizei centenas de milhares de coisas assim a cada dia, e, se você quiser vê-las em detalhes, basta olhar para mim.

Enquanto estou cercado pela carga da vida, não há pausa na corrida dos acontecimentos que me fazem ser o que sou. Em contrapartida, minha natureza pode se aprofundar mais nas coisas que vejo e ouço. Pode ser que eu tenha um ponto zero, como o ponto zero da vibração que dá início ao espectro da luz.

Se você saísse de meus pensamentos, sentidos e emoções, sobraria o espaço vazio equivalente. Mas, como o espaço vazio da física quântica, meu “espaço interior” pode não ser vazio; eu argumentaria que nosso espaço interior é um campo rico de in­teligência silenciosa que exerce poderosa influência sobre nós.

A inteligência é facilmente localizada e ao mesmo tempo impossível de ser encontrada. O know-how do corpo parece o re­sultado de uma complexidade de partes diferentes separadas de acordo com as próprias funções — digestão, respiração, metabo­lismo etc. Apesar dessa divisão de trabalho bastante real, a inte­ligência continua igualmente em toda a parte, como uma gota do mar compartilha o sal de todo o oceano. O fluido no corpo tem o gosto salgado do oceano e é igualmente rico em magnésio, ouro e outros vestígios de elementos. A vida começou no mar e só estamos vivos fora dele porque carregamos em nós um ocea­no interno.

A sensação de sede é estimulada pelo hipotálamo, um pedaci­nho do cérebro do tamanho do nó de um dedo, que se liga aos rins pelos nervos e mensageiros químicos. Os rins monitoram Constantemente a necessidade de água do corpo “ouvindo” os sinais do sangue. Esses sinais são químicos, como os neuropep­tídios, mas nesse caso as moléculas envolvidas são os sais, as pro­teínas e o açúcar do sangue, além dos mensageiros específicos. O sangue, por sua vez, recebe esses sinais de todas as células do corpo, cada qual cuidando da própria necessidade de água. Em outras palavras, quando você bebe água, não está apenas obede­cendo a um impulso do cérebro, mas ouve um pedido de todas as células do corpo.

Se você beber um pequeno copo de água, estará repondo ape­nas 1/400 do total de líquido corporal, mas satisfará as necessi­dades precisas de 50 trilhões de células diferentes. Uma admi­nistração tão exata é frequentemente atribuída só aos rins, mas já vimos que eles trabalham consultando Constantemente o cor­po mecânico quântico — todo o campo da inteligência. O nive­lamento da inteligência não é aparente no aspecto físico das cé­lulas; ela coexiste com a extensa especialização do corpo. O neu­rônio, cuja parede celular é equipada com um milhão de bom­bas de sódio-potássio, não se parece nem um pouco com uma célula do coração ou do estômago. Mas a integridade da mensa­gem “hora de tomar água” é constante em toda a parte.

Na física, um campo é tudo aquilo que propaga uma influên­cia sobre uma expansão do espaço muito vasta ou até infinita. Um magneto cria um campo magnético a sua volta; pequenos magnetos têm um campo fraco que se estende por poucos centí­metros, enquanto os pólos magnéticos da Terra são suficiente­mente poderosos para cobrir todo o globo. Qualquer coisa que caia dentro de um campo sentirá seu efeito; é por isso que as agulhas magnéticas das bússolas se alinham automaticamente com a polaridade magnética da Terra. Localizada no campo de inteli­gência do corpo, cada célula está alinhada com o cérebro, que se mantém como pólo norte magnético.

Uma célula é um pequeno afloramento no campo, enquanto o cérebro é imensamente maior. Mas a célula, quando “fala” com o resto do corpo, não é inferior a ele na qualidade do que diz. Como ele, ela precisa correlacionar sua mensagem com trilhões de outras; precisa participar de milhares de trocas químicas a cada segundo; e, o que é mais importante, seu DNA é igual ao de qualquer neurônio. Além disso, o menor impulso de inteligên­cia é tão inteligente quanto o maior. De fato, não há sentido falar em porções importantes ou insignificantes de inteligência. Preci­samos apenas nos lembrar do encadeamento que constrói a do­pamina: a incapacidade de transformar a proteína serina em um metabólito igualmente pobre chamado glicina leva a uma ligeira elevação do nível de dopamina, com o catastrófico aparecimento da esquizofrenia que invade a mente.

Cada célula é um pequeno ser sensitivo. Estando no fígado, no coração ou no rim, ela “sabe” tudo o que você sabe, mas à moda dela. Naturalmente, estamos acostumados com a idéia de que somos mais espertos que nossos rins. O próprio conceito de “bloco de construção” significa que o tijolo é mais simples que o edifício. Isso é verdade em uma estrutura sem vida, mas não em nós. Por exemplo, o impulso nervoso de preocupação pode surgir no estômago, como uma úlcera, no cólon, como um es­pasmo, ou na mente, como uma obsessão; no entanto, são as vá­rias manifestações dele apenas. A preocupação vai se transfor­mando de órgão em órgão, mas cada ponto do corpo sabe que ela existe e cada célula se lembra disso. Você pode se esquecer conscientemente, só que a sensação da preocupação está presen­te e o obriga a se lembrar, porque parece estar em toda a parte.

Já comentamos que, se você visse seu corpo como realmente é, observaria uma constante mudança aliada a uma complexa au­sência dela. Seria como um prédio com os tijolos constantemente mudados ou uma escultura que é, ao mesmo tempo, um rio. O obstáculo que a medicina tem enfrentado até agora é um as­pecto de nossa natureza — o fluir e mudar — que foi sacrificado em favor do outro — o estável e fixo. Agora, tendo observado no nível quântico, talvez consigamos reunir os dois numa unida­de que englobe nossa verdadeira dupla essência — o impulso da inteligência. Esse impulso é a menor unidade que se preserva intacta (sem mudança) enquanto passa pela transformação (mu­dança). Se os impulsos de inteligência não tivessem essa propriedade peculiar, não poderiam ser o bloco básico de construção do corpo; um impulso puramente mental ou uma partícula pu­ramente física teria essa característica.

Mas nenhum dos dois pode sobreviver à mudança. As molé­culas que formavam seu cérebro no primeiro dia em que pensou na palavra “rosa” não estão mais presentes, mas o conceito ain­da está. Ao mesmo tempo, você não precisa pensar sempre na palavra “rosa” para recordá-la; pode ter milhões de pensamen­tos diferentes, literalmente, sem nunca se referir a ela. Mas na próxima vez em que quiser usá-la estará ali, sem confusão. Ela retém sua integridade porque o impulso de inteligência contém mente, matéria e o silêncio que une as duas.

A estrutura física do corpo reflete a inteligência e lhe dá uma forma projetada, mas ela não fica presa numa moldura de carne e osso. Uma espantosa confirmação desse fato está no cérebro. Karl Lashley, um pioneiro da neurofisiologia, procurou locali­zar a memória no cérebro e realizou uma experiência simples com ratos de laboratório. Ele os ensinou a correr pelo labirinto, uma habilidade que lembram e guardam em seus cérebros do mesmo modo que adquirimos nossas habilidades. A seguir, ele removeu sistematicamente uma pequena porção de tecido cerebral. Lash­ley supunha que, se os ratos ainda se lembrassem de correr pelo labirinto (medindo a velocidade e precisão), os centros de me­mória ainda estariam intactos. Pouco a pouco, ele foi retirando a massa cerebral; no entanto, os ratos, curiosamente, continua­vam lembrando como correr pelo labirinto. Finalmente, com mais de 90 por cento do córtex retirado, ficou apenas um pedacinho do tecido cerebral. Mas os ratos continuavam lembrando como correr pelo labirinto, tendo perdido apenas um pouco da preci­são e rapidez.

Essa experiência, entre outras, sugere a revolucionária idéia de que cada célula do cérebro pode armazenar todo o cérebro en­quanto, ao mesmo tempo, conserva sua tarefa específica. Isso é exatamente o que descobrimos: todo impulso de inteligência é igualmente inteligente, abrindo infinitas projeções possíveis da mente no corpo.

John Lorber, um neurologista britânico, especializou-se no exa­me de pacientes hidrocefálicos — suas cavidades cranianas são cheias de líquido, em lugar do tecido cerebral. Geralmente, essa doença é perigosa e pode levar a um sério dano mental.

Um dos pacientes de Lorber, no entanto, era um estudante universitário muito bem-dotado, que estava para se formar em matemática. Seu QI era próximo a 130. Foi encaminhado a Lorber pelo médico da família, ao notar que a cabeça de seu paciente estava inchada. O estudante se submeteu a uma tomografia cujo resultado revelou um córtex de apenas 1 milímetro de espessura, em vez dos 4,5 centímetros normais. Em outras palavras, o flui­do havia substituído 98 por cento dos neurônios necessários pa­ra pensar, lembrar e realizar todas as outras funções mais eleva­das do cérebro, que estão centralizadas no córtex cerebral. Com 2 por cento do córtex normal, esse homem estava fisiologicamente na mesma situação dos ratos de Lashley, e ainda assim era infi­nitamente mais capaz — na verdade, era normal ou acima da mé­dia em todos os aspectos.

Cada vez mais, vamos sendo atraídos para perto do campo silencioso da inteligência como nossa realidade fundamental. No entanto, mais uma vez coloca-se o problema de uma mente si­lenciosa que, na aparência, nada contém em si. Se retroceder­mos quase cem anos, encontraremos um dilema semelhante. Es­tava para nascer uma nova ciência chamada psicologia, mas havia dificuldade em qualificá-la como tal, porque precisava de um objeto de estudo. Obviamente, todas as pessoas possuem uma psi­que, mas ninguém tinha visto ou tocado uma. As perguntas mais simples sobre ela haviam ficado sem resposta durante séculos. A psique era a alma, a mente, a personalidade, ou as três juntas? Ninguém poderia fazer a primeira experiência de psicologia an­tes de resolver essas dúvidas.

O momento decisivo chegou quando William James, um bri­lhante filósofo de Harvard que também se formara em medici­na, estabeleceu que a psicologia tinha, realmente, um objeto de estudo. Ou melhor, milhares de objetos — todos os pensamen­tos, emoções, desejos e impressões que passavam pela mente. Ja­mes chamou-os de “fluxo da consciência”. Se havia uma essên­cia mental, ou alma, como afirmavam os pré-psicólogos desde a época de Platão, a ciência não poderia descobri-la. James não afirmou que essa essência invisível não existia, mas não via for­ma de comprová-la cientificamente.

Ele defendeu o fluxo da consciência em um plano puramente pragmático, ponderando que nada na mente poderia ser consi­derado tangível, a não ser os objetos (pensamentos) que passa­vam por ela. Se alguém está sempre pensando ou sonhando — ninguém sabe o que se faz mentalmente no sono profundo e sem sonhos —, a realidade da mente tem de ser esse contínuo fluir de pensamentos e sonhos. James era um observador arguto; e devia ser mesmo, considerando-se que, basicamente, fundou o campo da psicologia com dados colhidos na própria cabeça (como Freud, ampliando esses dados no campo dos sonhos e do inconsciente). Mas James deixou de perceber um aspecto mínimo da mente que parecia irrelevante: o fluxo da consciência não é feito apenas de objetos flutuando ininterruptamente; entre cada pensamento existe um lapso de silêncio.

Pode ser pequeno, quase imperceptível, mas esta lacuna está ali e é absolutamente necessária. Sem ela, pensaríamos assim: “Eugostodestealmoçoedasobremesamassecomerdemaisprecisoverquantotenhoeondeestáminhacarteira...”, e assim por diante. Essa ligeira pausa, como é intangível, ainda não tem um papel na psicologia moderna, completamente orientada para os conteúdos da mente e a mecânica do cérebro. Mas essa pausa se transforma no elemento principal, se estamos interessados no que fica além do pensamento. A cada fração de segundo, temos o lampejo de um outro mundo que está em nós e, ao mesmo tempo, obscura­mente fora do alcance. Um verso do antigo Upanishad indiano descreve lindamente essa idéia: “Um homem é como dois pom­bos pousados numa cerejeira. Um pássaro está comendo o fruto, enquanto o outro olha em silêncio”. O pássaro que é a testemu­nha silenciosa é esse profundo silêncio que existe em todos nós e que aparenta não ser nada, quando, na realidade, é a origem da inteligência.

O fascinante na inteligência é ser como uma flecha com uma única direção: você pode usar sua inteligência para moldar uma molécula e, ao olhá-la, não pode tomar a inteligência de volta. Quando o poeta Keats escreveu seu soneto To an Evening Star (A uma Estrela do Anoitecer), começou com o verso melancóli­co “Ó suave embalsamadora da silenciosa meia-noite”. Se ele ti­vesse sido submetido a um eletroencefalograma enquanto escre­via, a leitura das ondas cerebrais teria formado um padrão típi­co; mas, por mais que examinassem, jamais encontrariam uma estrofe de poesia.

Do mesmo modo, todas nossas moléculas são dotadas de uma pequena parcela de inteligência que influencia tudo o que fazem, mas que não enxergamos ao observá-las. O DNA nos dá um bom exemplo disso. Localizado no núcleo de cada célula, está Cons­tantemente banhado num torvelinho de moléculas orgânicas flu­tuantes, os blocos básicos de construção do corpo material. Sempre que quer se ativar, o DNA atrai essas substâncias químicas e as usa para formar um novo DNA. Essa é uma parte essencial da divisão celular — um filamento duplo de DNA precisa se divi­dir ao meio, como um zíper, e depois cada metade se transfor­mar em novo DNA, completo, atraindo em si as moléculas apro­priadas. No banho de torvelinho, as moléculas vagam cercando o DNA e lhe fornecem as “letras” para combinar — existem só quatro: A, T, C e G, respectivamente adenina, timina, citosina e guanina. O DNA combina essas quatro letras em uma infini­dade de arranjos diferentes, alguns curtos (são necessárias três letras para codificar um aminoácido básico), outros muito lon­gos, como as cadeias de polipeptídios, que podem ser vistas saindo do DNA como pequenos ramos.

O DNA sabe exatamente que informação escolher e como reunir tudo para cada coisa que quer “dizer” quimicamente. Além de se formar, ele sabe como formar um RNA, ou ácido ribonucléico, que é seu gêmeo quase idêntico e seu correspondente ativo. A missão do RNA é afastar-se do DNA para produzir proteínas, mais de 2 milhões, que constroem e reparam nosso corpo. O RNA é como conhecimento ativo, em comparação com a inteligência silenciosa do DNA.

O DNA não trabalha apenas pela memória rotineira. Pode inventar novas substâncias químicas à vontade (como um novo anticorpo, quando apanhamos um novo tipo de gripe). Não se sa­be exatamente como isso se processa, embora alguns biologistas moleculares tenham descoberto espaçadores que separam as di­ferentes palavras genéticas, ou genômios. Também é fato seguro que apenas 1 por cento do material genético do DNA é usado em sua complicada codificação, no auto-reparo e na fabricação do RNA, ficando os 99 por cento restantes dedicados a algo que a ciência médica desconhece.

Esse silêncio enigmático tem estimulado grande curiosidade, especialmente entre pessoas que acreditam que o ser humano não usa sua plena inteligência. William James aventurou o cálculo de que usamos apenas 5 por cento de nossa inteligência — referia-se à capacidade mental —, enquanto uma pessoa como Einstein, por exemplo, utiliza até 15 a 20 por cento. Não se sabe como essa porcentagem pode ser traduzida em DNA útil, mas pode­mos calcular que o DNA mantém armazenado em silêncio um grande vocabulário — um geneticista calculou que o número de “palavras” moleculares produzidas em uma única célula, se traduzidas para o inglês, encheriam uma biblioteca de mil volumes. E esse é o produto de apenas 1 por cento ativo que conseguimos compreender. Graças à descoberta do DNA recombinado (peças de material genético que podem ser embaralhadas dentro e fora da sequência, nos filamentos do DNA), o vocabulário potencial pode ser infinitamente maior do que suspeitamos; as combina­ções de “letras” codificadas no DNA já são suficientes para criar todas as formas de vida sobre a Terra, desde a bactéria e o bolor a todas as plantas, insetos, mamíferos e pessoas.

Alguém poderia supor que, se o organismo for mais comple­xo, maior será a quota de DNA; na realidade, porém, uma mar­garida tem cem vezes mais DNA que um ser humano. A conta­gem dos genes não é muito esclarecedora: a diferença entre o DNA de um homem e o dos chimpanzés e gorilas é de cerca de 1,1 por cento. Essa diferença parece surpreendentemente pequena e altamente suspeita. É possível que essa fração mínima englobe todas as diferenças entre um primata da selva e o Homo sapiens, com nossos cérebros tão superiores? Os evolucionistas que her­daram a fé de Darwin no materialismo insistem em que sim. O assunto fica um pouco confuso quando se compreende, mais uma vez, que a contagem de genes não é importante — dois tipos di­ferentes de moscas-das-frutas (drosófilas) são muito mais aparen­tados do que os homens e os chimpanzés, mas seus DNAs dife­rem bem mais.

Outro modo de demonstrar que nosso silêncio interior está vi­vo e inteligente é compará-lo ao de uma máquina. Quando um computador tem um problema a resolver, usa seus impulsos elétricos, que precisam ser separados por intervalos, formando uma série complexa de dados codificados em 1 e 0. Isso permite que o computador resolva qualquer problema que possa ser transfor­mado em informação, já que toda informação pode ser codifica­da em 1 e 0, como nossa linguagem pode ser transformada em pontos e traços no código Morse. O cérebro humano também se aproveita da informação codificada mecanicamente, mas os intervalos de separação não são vazios; são agentes que permitem à mente tomar a direção que desejar. Em outras palavras, um computador tem espaços finitos feitos de vazio e nós temos inter­valos infinitos cheios de inteligência.

Podemos tirar qualquer coisa do intervalo. Mozart tirou sinfo­nias inteiras de uma só vez, e não nota por nota. Como ele mes­mo descreveu, cada linha musical estava composta e orquestrada em sua mente. A matemática, assim como a música, tem muitos mistérios. Uma indiana chamada Shakuntala Devi multiplicava números de treze algarismos de cabeça, chegando a soluções de 23 algarismos em 26 segundos (menos tempo do que levamos para ler em voz alta esses números: 7.686.369.774.870 X 2.465.099.745.779 = 18.947.668.177.995.426.773.730).

Se você mandar um computador somar 2 mais 2, a resposta pode estar certa ou errada; se você perguntar a um menino de 5 anos de idade a mesma coisa, ele pode responder algum nú­mero, ou dizer “Quero sorvete de baunilha”. Podemos deduzir que está aborrecido ou talvez muito cansado para uma lição de aritmética. Sendo assim, não é correto dizer que a resposta dele é um erro de computação; simplesmente, a mente do garoto não está sob nosso controle. Não se pode criar um programa que in­clua todas as reações possíveis de um ser humano enquanto ele interage com o mundo a sua volta.

A meu ver, isso tudo justifica a complexidade da experiência comum, que, na verdade, está bem distante de qualquer modelo científico que procura descrevê-la. A antiga visão de que o cére­bro é um computador estável no tempo e no espaço, com várias funções localizadas, e restrito a sua flexibilidade, é injustificada. O dr. Gerald Edelman, um neurocientista vencedor do Prêmio Nobel, definiu o cérebro muito mais como um processo do que uma coisa, e um processo em contínua evolução. Por exemplo, é verdade que a memória depende de duas pequenas peças de hardware de cada lado do cérebro, chamadas hipocampo; se os dois lados são danificados (por derrame ou doença), a capacida­de de lembrar é destruída.

Ainda assim, dentro dessa limitação física, o cérebro de cada um é único, tanto na estrutura como no conteúdo. Não existe ninguém com as mesmas ligações de neurônios, e em cada um desenvolvem-se Constantemente outras novas ligações a partir do momento do nascimento, dando origem a todas as memórias, que tornam você completamente diferente de mim. (Uma ligação não precisa ser física; os sinais faiscantes do cérebro estão sempre crian­do novos padrões e reformando-os em novos modelos.)

Edelman afirma que ninguém repete uma lembrança literal­mente. Quando você se recorda de um rosto familiar, alguma coisa é diferente; se não o próprio rosto, o contexto que o levou a lembrar-se, que agora pode ser triste, quando antes era alegre. A memória é, portanto, um ato criativo. Cria novas imagens e um novo cérebro ao mesmo tempo. Edelman concorda com a teo­ria de que toda experiência que alguém tem na vida muda a ana­tomia do cérebro. Além disso, não é tão verdadeiro afirmar que o hipocampo seja a sede da memória, porque qualquer recorda­ção — o primeiro dia em que você viu uma plantação de narcisos — salta e tremula por todo o córtex, tocando outras memórias aqui e ali, passando a novas interpretações e necessitando ser re­criada a cada vez que se deseja lembrá-la. Ao contrário de qualquer computador, nós lembramos, reconsideramos e mudamos nossas mentes. O universo foi criado uma vez, mas nós nos re­criamos a cada pensamento.

Em suma, tudo depende de como se constrói em silêncio. Qualquer coisa que possa ser experimentada à luz da existência — amor ou ódio, doença ou morte — brota de um nível mais pro­fundo e flutua acima, pouco mais que uma bolha. Alguém pode procurar furar as bolhas, uma a uma, mas elas flutuam e sobem interminavelmente. Se quisermos navegar pelo campo da inteli­gência, precisamos aprender a mergulhar até as profundezas, onde a testemunha silenciosa em nosso interior nos aguarda. Este é nosso próximo passo: seguir o silêncio interior e conhecer seus locais secretos.

9
O Mistério do Vazio

Recentemente, encontrei uma paciente que recebeu, em 1983, um diagnóstico de tumor maligno no seio direito. Por razões pes­soais, ela recusou todas as formas de tratamento convencional, inclusive radiação, quimioterapia e hormônios. Disse-me que o tumor era bem grande, mas não atingira nenhum nódulo linfáti­co embaixo do braço.

— Acho melhor examiná-lo — disse eu.

— Mas devo avisá-lo — ela hesitava — de que muitos médicos se assustam quando o vêem, por causa do tamanho. Geralmente não deixo nenhum médico me tocar, porque seu olhar amedron­tado me assusta. Eu não me assusto sozinha. Pode não acreditar, mas nunca senti que estivesse em perigo. Só fico abalada quan­do vejo o medo do médico. Eles até chegam a dizer coisas do tipo “Como ousa ser tão cruel com seu marido, negando-se a ser operada?” Achei que talvez uma médica fosse mais compreen­siva — ela prosseguiu. — Mas, quando a consultei, ela pareceu mais horrorizada que todos os outros. Perguntou: “Por que veio me ver, se não quer remover isso?” E eu respondi: “Porque quero sua orientação, pois o tumor cresceu muito pouco nos últimos cinco anos, e quero sua assistência”. Ela levantou-se quase tre­mendo e me disse: “Não volte aqui a não ser que esteja resolvida a remover isso. Não aguento nem olhar”.

Eu não fazia idéia de qual seria minha reação. Cerca de meta­de das mulheres diagnosticadas com câncer de mama tem tumo­res confinados no seio. O tratamento normal costuma ser a re­moção da mama ou apenas do tumor, com radiação no local pa­ra matar qualquer célula cancerosa que tenha ficado. Nas duas situações, quando não há tratamento posterior, 70 por cento dos casos não apresentam reincidência nos três anos seguintes. Com algum tipo de quimioterapia, desde a mais leve à mais forte, a proporção de sobreviventes a longo prazo pode se elevar a 90 por cento. Essa mulher havia decidido desafiar as probabilidades a favor da paciente — e não seria a primeira a sobreviver, contra­riando os médicos.

Quando ela se deitou na mesa de exame e vi o tumor, com­preendi por que outros médicos tinham se chocado. Ele tomava grande parte do seio. Controlei minha reação e esperei que o medo não transparecesse no olhar.

— Sabe — falei baixinho —, não acredito que esteja em perigo por causa disto. Você me disse que não sente nenhum perigo, e isso me basta. Mas esse tumor é um desconforto. Você está ne­gando a si mesma uma vida mais agradável por ter de cuidar dis­to. Por que não procura um cirurgião e pede para remover este estorvo?

Aparentemente, ela encarou o problema por um ângulo inteiramente novo. Concordou logo que não havia vantagem em conservar o tumor e indiquei-lhe um cirurgião.

Um de seus comentários à saída ficou em minha lembrança.

— Não me identifico com esse tumor — falou serenamente. — Sei que sou muito mais que ele. Vive em meu corpo, vem e vai, mas não me toca bem no fundo. — Quando ela saiu do con­sultório, parecia feliz.

Senti que aquela mulher tinha razão em seu modo de ver. O medo no olhar de um médico é como um golpe terrível de con­denação e, na situação dela, eu não teria acreditado muito nas chances de me recuperar. Os impulsos de meu cérebro não diriam “Garanto que vou sarar”. Em vez disso, estariam dizendo “Eles falam que provavelmente vou sarar”, o que é uma coisa bem diferente.

Quando um médico olha uma paciente e diz “Você tem um câncer no seio, mas vai ficar bem”, o que realmente está falan­do? A resposta é bem incerta. Por um lado, se suas palavras re­confortantes inspirarem confiança, podem ser suficientes para mu­dar o quadro da paciente. Por outro lado, se ele realmente acha que ela está condenada, alguma coisa em sua voz transmitirá es­sa mensagem e criará uma confusão destrutiva.

Inspirado no termo “placebo”, foi criado recentemente um ou­tro, com sentido oposto, “nocebo”, que define os efeitos negati­vos da opinião de um médico. No caso do placebo, o remédio falso é dado e o paciente se recupera porque o médico disse que lhe faria bem. No caso do nocebo, o paciente recebe o remédio verdadeiro, mas não reage, porque o médico deu sinais de que ele não adiantaria.

Se adotarmos um ponto de vista completamente materialista, não notaremos uma diferença aparente entre a cirurgia que essa senhora tinha se recusado a fazer e a que, por fim, concordou em se submeter. Só que agora ela identifica a cirurgia com a cu­ra, enquanto antes a considerava uma violência. Se um paciente encara o tratamento como violência, seu corpo fica cheio de emo­ções negativas e de substâncias químicas associadas a elas. É fato documentado que, em clima de negativismo, a capacidade de cura diminui muito — pessoas deprimidas não só baixam a reação imu­nológica como, por exemplo, enfraquecem a capacidade de re­cuperação de seu DNA. Portanto, suponho que minha paciente tinha uma causa justificada para esperar até que suas emoções lhe dissessem para ir em frente.

Esse caso me faz lembrar que sempre existem dois centros de ação nas pessoas: a cabeça e o coração. As estatísticas médicas dão informações à cabeça, mas o coração guarda um conselho próprio. Em anos recentes, a medicina alternativa ficou mais atraente por trazer de volta o coração, usando o amor e o carinho na cura. Sem esses ingredientes, o efeito nocebo pode surgir, por­que o clima dos hospitais modernos transmite uma dose podero­sa de negativismo. Os episódios psicóticos que se iniciam, sem mais nem menos, nas unidades de tratamento intensivo revelam como é pouco saudável manter pessoas confinadas em pequenos espaços esterilizados. (Quando era pequeno, meu filho demons­trava igual fascinação por hospitais e prisões, o que me parecia um temor que ele não sabia explicar. Se passássemos de carro diante de uma dessas instituições, ele invariavelmente perguntava: “Papai, tem gente morrendo aí dentro?”)

A grande desvantagem de declarar que precisamos trazer o coração de volta à medicina é que ele pune as pessoas pelas fraque­zas emocionais. O coração pode ser muito frágil, mas pode en­durecer com o sofrimento ou apenas com a vida. Os livros sobre cura holística gostam de dizer que as pessoas doentes “precisam” de sua doença. A psiquiatria tem o hábito de apontar o dedo quan­do declara que as doenças crônicas equivalem simbolicamente a autopunição, vingança ou a um profundo sentimento de des­valia. Não vou discutir esses critérios; quero apenas sugerir que podem ser nocivos a um processo de cura, em vez de colabora­rem com ele. Já é bem difícil termos todos de enfrentar nossa falibilidade, mesmo nas melhores ocasiões. Podemos ter realmente expectativa de melhora quando nós mesmos somos desfavoráveis?

A raiz do problema é que qualquer coisa pode funcionar co­mo um nocebo, assim como outra qualquer pode agir como pla­cebo. Não é remédio falso nem os modos do médico que assiste ou o cheiro antiséptico do hospital que podem fazer bem ou mal; é a interpretação que o paciente lhes dá. Além disso, a verdadei­ra guerra não é travada entre a cabeça e o coração; algo mais pro­fundo, no domínio do silêncio, cria nossa visão da realidade.

A compreensão básica que quase todos temos a nosso respeito vem do pensar e do sentir, o que parece natural; mas sabemos muito pouco sobre o campo do silêncio e de como ele nos con­trola. Aparentemente, a cabeça e o coração não são toda a pessoa. O fluxo da consciência, sempre cheio de pensamentos, age como uma tela para manter esse silêncio oculto, e a aparência sólida do corpo físico é outro tipo de tela, já que não podemos ver as moléculas que estão em constante movimento dentro de nós e tampouco nossas plantas básicas, que são o que gostaría­mos de modificar.

A planta básica da realidade é um conceito importante. Cada impulso da inteligência provoca um pensamento ou uma molé­cula, que passa certo tempo no mundo relativo — o mundo dos sentidos — antes do impulso seguinte. Nesse sentido, cada pen­samento é como uma parcela do futuro, quando é criado, uma peça do presente, quando é experimentado, e uma peça do pas­sado, quando já se foi. Enquanto cada impulso for saudável, o futuro não será desconhecido — fluirá naturalmente do presen­te, momento a momento. (Isso explica por que as pessoas que aproveitam cada dia ao máximo têm fama de conservar as facul­dades mentais intactas até a idade avançada; o fluxo da inteligência nunca seca.)

Um diagrama para ilustrar essa situação pode ser útil:



Acima da linha está o fluxo de pensamentos que nunca termi­na, ao menos enquanto estamos acordados. Um pensamento é ligado a outro numa cadeia sem fim; e nossa experiência normal mantém essa cadeia de eventos acontecendo infinitamente no ei­xo horizontal, mas bem rasa no eixo vertical. É possível passar a vida toda ouvindo o inventário da mente sem nunca mergulhar em sua fonte. Mas ao tocar na fonte é que a mente cria seus padrões de inteligência. Esses padrões são inicialmente apenas plan­tas básicas, mas, o que quer que eles representem, vão perdurar e formar nossas idéias e crenças a respeito da realidade.

O campo da inteligência é muito suscetível de mudanças, tan­to para o bem como para o mal. Há dois anos, encontrei uma moça, com aproximadamente 30 anos, que resolveu se internar em Lancaster para tratar de câncer no seio. Seu estado era muito grave, porque a metástase do tumor maligno já tomara a medula óssea e se espalhara pelo corpo todo. Por isso, ela sofria dores constantes nos ossos. Depois de ter recebido os drásticos trata­mentos habituais, com séries de radiação e quimioterapia recei­tadas por seu médico de Denver, ela viajou de sua terra natal até Boston para fazer o tratamento aiurvédico. Reagiu muito bem a ele e, depois de passar ali uma semana, as dores nos ossos desa­pareceram. Ela não recebeu promessas a respeito do câncer, mas voltou para casa com esperança e Otimismo. Infelizmente, quan­do contou a seu médico que havia melhorado, ele negou tal possibilidade e disse que aquilo estava só na cabeça dela, já que não recebera nenhuma terapia ortodoxa para aliviar os sintomas. No dia seguinte, as dores nos ossos voltaram. Ela me telefonou apa­vorada, e pedi-lhe que voltasse a Boston imediatamente. A moça concordou e, felizmente, depois de uma semana a dor havia de­saparecido outra vez.

Sem querer causar nenhum mal à paciente — tenho certeza de que pretendia adotar uma atitude realista —, o médico dessa moça cometeu um erro cruel. Ele supôs que o que estava na cabeça dela não fosse verdadeiro, ou, ao menos, que fosse muito infe­rior à realidade do câncer. Sendo treinado em métodos científi­cos, ele conhecia os efeitos de vários tipos de malignidade e, ao encontrar um resultado inesperado, procurou enquadrá-lo no âm­bito do previsível. Os médicos levam os pacientes a resultados previsíveis o tempo todo, porque o treinamento do curso de me­dicina focaliza apenas o eixo horizontal.

Toda a motivação da pesquisa médica procura reforçar cada vez mais as ligações entre causa e efeito. Nossos bisavós sabiam vagamente que os germes existiam; hoje podemos detalhar anatomicamente milhares de vírus e bactérias específicos, até os me­nores grupos de aminoácidos, e ir mais além. Infelizmente, isso nos deixa muito pouco espaço para qualquer viagem pelo eixo vertical, que poderia nos levar a uma realidade bem mais profunda.

Ao preencher o questionário médico, um paciente recente ano­tou que “uma vez tive um tumor no cérebro”. Perguntei-lhe o que significava aquilo e ele me contou a seguinte história: cinco anos antes, quando vivia em Michigan, começou a ter vertigens súbitas. Seu estado foi piorando: ele vomitava, tinha visão dupla e pouco a pouco foi perdendo o equilíbrio e a coordenação mo­tora. Procurou um hospital e fizeram uma tomografia do cére­bro. Os médicos o informaram de que o exame havia revelado uma massa escura na parte anterior do cérebro, de dimensões maiores que um limão; na opinião deles, estava com um tumor no cérebro. Uma biópsia do tumor revelou que era, de fato, um tipo de câncer maligno e de crescimento rápido.

Como o tumor era grande e estava em local muito delicado, foi considerado inoperável. Os médicos receitaram grandes do­ses de radiação e quimioterapia, sem o que o homem estaria morto em seis meses. Essa terapia provocaria grandes efeitos colaterais, quase tão maus quanto os sintomas da doença. Alguns seriam desagradáveis, como náuseas, dores de cabeça e irritação da pe­le; outros poderiam ser mortais, devido ao enfraquecimento do sistema imunológico, o que o deixaria propenso a contrair diver­sos tipos de câncer no futuro. Ainda havia a possibilidade de so­frer ansiedade e depressão por longo período. Mesmo com o má­ximo de tratamento para que o tumor regredisse, não havia pro­babilidade de cura total, só que isso seria melhor que nada.

O paciente não conseguiu aceitar tal opinião, embora fosse baseada em estatísticas. Mudou-se para a Califórnia e começou a participar de um grupo de meditação; praticou uma série com­pleta de regimes alimentares, de técnicas mentais, de exercícios e de visualizações. Encorajou-se e adotou uma atitude positiva em relação a sua condição. Milhares de pacientes de câncer, em geral de grupos sociais mais instruídos, adotam essas medidas que a medicina convencional considera como tentativa de encon­trar falsas esperanças. Mas, neste caso, o homem começou a sentir-se melhor, e dentro de seis meses os sintomas haviam pratica­mente desaparecido. Esperançoso e ansioso ao mesmo tempo, ele voltou a Michigan e fez nova tomografia. Esta não mostrou si­nais da existência de câncer e tampouco vestígios de algum no passado.

Em resposta a isso, os médicos o informaram de que ele não havia sarado do câncer, porque nunca ouviram falar de fato semelhante. Explicaram que, na realidade, devia ter acontecido al­guma troca de tomografias e que o paciente com o tumor era ou­tro. Pediram desculpas pelo engano e o avisaram de que, daque­le momento em diante, se desligavam do caso. O paciente ficou profundamente aliviado por não ter mais nenhum sintoma, em­bora acreditasse na primeira tomografia, que tem seu nome e o número do registro no serviço social. Quando entrei em contato com o hospital para pedir sua ficha médica, fui informado de que ele nunca se tratara de câncer lá e que haviam trocado seu exame pelo de outro paciente, com tumor cerebral.

Tudo o que posso concluir é que, apesar dos exames de raios X e da biópsia, esses médicos não conseguiram aceitar o fato de que houvesse ocorrido uma regressão do tumor, simplesmente porque sua experiência ditava que isso era impossível. Nunca se pode subestimar o poder da doutrinação. O treinamento médico é altamente técnico, especializado e rigoroso, mas desenvolveu-se como qualquer outra atividade humana — com pessoas coli­gindo experiências e usando-as para compor explicações e mo­delos. Esses modelos, por sua vez, servem para doutrinar novos construtores de modelos e, em pouco tempo, essa doutrinação se transforma em lei.

É fascinante que um grande estudo sobre quatrocentos casos de recuperação espontânea de câncer, mais tarde interpretado por Elmer e Alyce Green, da Menninger Clinic, tenha descoberto que todos os pacientes apresentavam apenas uma coisa em comum — cada um tinha mudado de atitude antes de ocorrer a cura, en­contrando um meio de ser útil, corajoso e positivo. Em outras palavras, eles romperam com a doutrinação (mesmo que os mé­dicos não tenham rompido com a deles). O mistério que tolda essa descoberta, que seria tão clara, está ligado à casualidade. Tais recuperações ocorreram por causa das novas atitudes ou parale­lamente a elas? Talvez a casualidade seja delicada demais para ser definida neste caso, sendo substituída por um processo ge­ral, holístico, de sentir-se melhor mental e fisicamente ao mes­mo tempo. Ao perceber a expulsão do câncer, o sistema mente-corpo deve saber que o processo está encaminhado e pode gerar mais pensamentos positivos simultaneamente.

Seja como for, ele funciona, e a chave parece ser a espontaneidade. Canalizar internamente atitudes positivas já provou ser, como terapia planejada, apenas um meio casualmente bem-sucedido de combater a doença. A absorção positiva não costuma ser muito profunda. A consciência é mais penetrante do que a medicina calcula. No entanto, mesmo quando ignorado, o campo silencio­so da inteligência sabe o que está acontecendo. Afinal, ele é inte­ligente; seu conhecimento ultrapassa defesas e telas, indo além do que esperamos.

Para ilustrar essa idéia: durante décadas, os cirurgiões julga­ram que um paciente anestesiado ficava inconsciente; sendo as­sim, não se influenciava com o que acontecia na sala de cirurgia. Depois, foi descoberto (hipnotizando-se pacientes pós-operados) que a mente “inconsciente” ouvia todas as palavras murmura­das durante a operação. Quando os cirurgiões comentavam em voz alta que a condição do paciente era pior do que haviam ima­ginado ou que a chance de cura era pequena, os operados ten­diam a cumprir as previsões sombrias de não se recuperar. Co­mo resultado dessas descobertas que forçam a idéia de nocebo, a prática comum atual é evitar comentários negativos durante as operações. Sem dúvida, quanto mais positivamente um cirurgião expressava as opiniões, melhor era a convalescença do paciente.

Seria ainda melhor usar essa inteligência extremamente sensí­vel e poderosa na cura do paciente. O objetivo do mergulho na área do corpo quântico é mudar a própria planta básica em vez de esperar pelos sintomas na superfície, quando só então serão manipulados pela medicina. O caso da moça com dor nos ossos é um aviso de que a tela de defesa que nos mantém tão firmes, acima da linha e longe de nosso eu mais profundo, é sempre fei­ta por nós. Portanto, pode ser objeto de revisão em qualquer época. Construímos Constantemente padrões de inteligência e olhamos através deles para que nos informem o que é real. Se vemos dor, existe dor, mas, se não a vemos, ela acaba.

A natureza não nos fez ignorantes a respeito de nosso eu mais profundo. Pacientes anestesiados sabiam o que se passava o tem­po todo, presumivelmente desde os idos de 1850, no início da cirurgia moderna. O campo silencioso da inteligência está fora de alcance por uma escolha nossa que tem sido reforçada através de gerações de liames culturais. Às vezes, uma nova realidade força seu reconhecimento e então as coisas podem mudar. Surgem no­vos padrões de inteligência e pode ocorrer uma profunda trans­formação, mas esta não difere essencialmente das transformações mente-corpo que já comentamos.

A realidade normal é como um encantamento — muito necessário, já que vivemos de hábitos, rotinas e códigos que consideramos garantidos. O problema surge quando se pode criar o encantamento, mas não quebrá-lo. Se nesse mesmo instante alguém conseguisse mergulhar abaixo da realidade diária, até sua fonte, teria uma experiência notável. O psicólogo Abraham Maslow, pio­neiro no estudo dos aspectos positivos da personalidade huma­na, fez uma descrição clássica da experiência de se aprofundar: “Esses momentos foram de pura e positiva felicidade, quando todas as dúvidas, todos os medos, todas as inibições, todas as ten­sões e todas as fraquezas ficaram para trás. Em seguida, a auto­consciência se perdia. Toda a separação e distância do mundo desapareceram...”

Apesar de serem raras as experiências como essas — Maslow chamava-as de “experiências de pico” por isso —, elas têm um poder de cura que se prolonga muito além de sua breve duração, que pode ser de poucos dias ou de apenas algumas horas. Maslow recorda que dois de seus pacientes — um deles sofria longos períodos de depressão e às vezes pensava em suicídio; o outro tinha graves crises de ansiedade — ficaram imediata e perfeita­mente curados depois de passarem espontaneamente por tais ex­periências (apenas uma vez em cada caso).

Maslow também fala da “reconciliação com a vida” que pes­soas conseguiram por intermédio desses momentos: “Elas sentiam-se unificadas com o mundo, fundidas nele, realmente lhe pertencendo, em vez de ficar do lado de fora, observando”. (Uma dessas pessoas, por exemplo, disse ter se sentido como um membro da família, não como órfão.)

Qualquer revelação súbita de uma realidade mais profunda traz consigo enorme poder — basta provar que a vida fica indiscuti­velmente mais valiosa. Os pacientes de Maslow reconheceram essa força interior como uma coisa completamente fora do comum. Não é energia ou resistência, gênio ou insight, mas o que está na base de tudo isso. A compreensão de Maslow parou no mo­mento crítico — ele nunca foi realmente capaz de proporcionar a alguém uma experiência de pico —, mas continuou fascinado por acontecimentos como esses, que transcendem a vida normal. Em 1961, depois de muitas décadas escrevendo e pensando so­bre o assunto, ele concluiu que o que havia observado fazia parte da vida normal, realmente, e não da mística:

“O pouco que eu já havia lido sobre experiências místicas es­tava ligado à religião, com visões do sobrenatural. E, como a maio­ria dos cientistas, eu as desdenhei e não lhes dei crédito, considerando-as bobagens, talvez alucinações, talvez histeria e, quase com certeza, patológicas. Mas as pessoas que me falavam dessas experiências não eram assim — eram as mais saudáveis!”

Como ele encontrou tais experiências em menos de 1 por cen­to da população, encarou-as como acidentais ou momentos de ple­nitude. Acredito que foram vislumbres de um campo que é a base da vida de todos, mas que continua indefinido. A conclusão é que devemos mergulhar muito profundamente se quisermos transcender a realidade normal. Estamos em busca de uma ex­periência que vai remodelar o mundo.

Achar o vazio de silêncio que separa nossos pensamentos pa­rece relativamente fácil, mas, como ele é uma fração de segun­do, não pode servir de caminho. O corpo quântico não está se­parado de nós — ele é o que somos —, embora não o vivenciemos neste momento. Se estivermos sentados pensando, lendo, fa­lando, respirando, digerindo etc., isso é tudo o que acontece aci­ma da linha.

Eis uma analogia que destaca o corpo mecânico quântico: pe­gue uma barra de magneto, ou ímã, e cubra com uma folha de papel. Depois, despeje no papel umas limalhas de ferro e sacu­da ligeiramente. O que vai surgir é um padrão de linhas cur­vas, uma dentro da outra, formando um arco do pólo norte ao sul do ímã, e vice-versa. O desenho geral que você fez repre­senta um mapa das linhas das forças magnéticas, antes invisí­veis porque as partículas de ferro não tinham se alinhado para mostrar a imagem.

Nessa analogia vemos toda a atividade mente-corpo acima do papel e o campo da inteligência por baixo. As limalhas de ferro, movendo-se em volta da atividade mente-corpo, alinham-se automaticamente com o campo magnético, que é a inteligência. O campo é completamente invisível e indiscernível até mostrar sua energia ao mover algumas partículas de matéria a sua volta. E a folha de papel? Ela é o corpo mecânico quântico, a tela fina que mostra exatamente quais os padrões de inteligência manifes­tados no momento.

Nessa simples comparação existe mais do que você pode ter suposto no início. Sem o papel para separar os dois, o ímã e o ferro poderiam não interagir de modo tão ordenado. Procure aproximar um ímã de algumas limalhas de ferro. Em vez de formar linhas regulares e espaçadas, elas se amontoarão sem forma sobre a superfície do ímã. Com o papel entre eles, você vê a imagem do campo magnético e, se girar o ímã, poderá obser­var as limalhas movendo-se para espelhar o novo campo cria­do. Se você não soubesse o que é um magneto, juraria que o ferro estava vivo, porque aparentemente se movia sozinho. Mas, na realidade, é o campo oculto que gera essas aparências como a da vida.

Eis um quadro verdadeiro de como o corpo-mente se relacio­na, de fato, com o campo da inteligência. Os dois continuam se­parados, mas a divisão é invisível e não tem nenhuma espessura. É apenas um vazio. O único modo de alguém saber que o nível quântico existe é porque as imagens e padrões ficam brotando pelo corpo. Sulcos misteriosos aparecem pela superfície do cére­bro; belos torvelinhos, exatamente como no miolo do girassol, surgem nas moléculas de DNA; o interior do fêmur tem tramas maravilhosas de tecido ósseo, como os suportes entalhados de uma ponte pênsil.

Para qualquer lado que você observe não há caos, e essa é a maior prova de que realmente existe uma fisiologia oculta. A in­teligência transforma o caos em padrões. A idéia de se processar bilhões de mensagens químicas a cada minuto implica um caos incrível, ainda que a complexidade do sistema mente-corpo seja enganosa: emergem de nossos cérebros imagens coerentes, como uma fotografia de jornal que mostra uma imagem coerente for­mada por milhares de pontinhos. A matéria de nosso corpo nunca se desintegra numa pilha sem forma e sem mente — até o mo­mento da morte. Em resposta à pergunta óbvia “Então, onde es­tá o corpo quântico?”, podemos responder com segurança que ele fica em um vazio infelizmente difícil de ser descrito, já que é silencioso, não tem espessura e existe por toda a parte.

Agora, mergulhar no campo da inteligência parece fácil: re­quer apenas uma viagem pelo vazio. Porque, mesmo que ele não tenha espessura, forma uma barreira superior a qualquer porta de aço. Podemos simplificar nosso diagrama para mostrar o que acontece, dificultando a viagem:

Toda a história está contida na diferença entre inteligência ati­va e silenciosa. Confirmamos que essa diferença é muito real. O DNA pode ser ativo ou silencioso; nossos pensamentos podem ser expressos ou armazenados em gavetas de silêncio; podemos estar acordados ou dormindo. Todas essas mudanças exigem uma viagem através do vazio, mas não uma jornada consciente. Para ver como é o sono, você teria de ficar acordado, o que é impossí­vel. Se procurar a diferença entre um DNA ativo e um adorme­cido, não encontrará nenhuma alteração química, já que os dois DNAs são fisicamente idênticos. E sempre acontecerá isso com todas as transformações da mente e do corpo.

Essa mesma dificuldade existe na física — um fóton é uma mas­sa de luz e uma onda de luz, mas ambas surgem de um campo oculto. Na superfície da realidade vemos fótons ou ondas de luz, mas a razão de ambos existirem na mesma realidade é que pree­xistem como meras possibilidades no campo quântico. Quem já fotografou uma possibilidade? Ainda assim, o mundo quântico é feito disso. Se você diz uma palavra ou cria uma molécula, re­solveu agir. Uma pequena onda se eleva da superfície do oceano, transformando-se em um incidente no mundo do espaço-tempo. Todo o oceano permanece atrás, um reservatório vasto e silen­cioso de possibilidades, ondas que ainda virão a se formar.

Enquanto dançam pelo papel, as limalhas de ferro podem se entreolhar, dizendo: “Bem, assim é a vida, vamos mergulhar em seus mistérios”. Decididas a fazer isso, podem começar um pensamento-aventura do tipo que denominamos silêncio. Não importa que seus pensamentos fiquem muito aventureiros, nunca cruzarão o vazio. Ele é uma porta que dá passagem só em uma direção no que se refere ao pensamento, e esse é seu verdadeiro mistério.

Sob determinada perspectiva, parece ridícula a idéia de que somos afloramentos de um grupo invisível infinito. O corpo de um homem é um volume de carne e ossos ocupando muitos cen­tímetros cúbicos de espaço; sua mente é um mecanismo espan­tosamente complicado, mas finito e cheio de uma determinada quantidade de concepções; sua sociedade é uma organização gros­seiramente imperfeita, ligada a uma história de ignorância e conflito.

Estranhamente, esses fatos tão evidentes nunca foram questionados. Confiamos em nossas experiências finitas do dia-a-dia, que são boas o suficiente para dirigirmos um carro, ganharmos a vi­da e irmos à praia, mas não convincentes o bastante para a irre­sistível experiência do infinito. Essa experiência repetida através dos séculos faz algumas pessoas suspeitarem que a realidade seja muito diferente e mais vasta do que a mente, o corpo e a socie­dade geralmente aceitam.

Einstein experimentou essa realidade. Deixou o testemunho de momentos em que se sentiu “liberto da própria identificação com a limitação humana”:

“Em tais momentos, um ser imagina que está parado em qual­quer ponto de um pequeno planeta, olhando maravilhado a be­leza fria, mas profundamente comovente, do eterno, o incomen­surável. A vida e a morte fluem pelo ser e não há evolução ou destino, só Ser”.

Apesar de tais palavras soarem como um insight ou percepção espiritual (Einstein se considerava profundamente espiritualiza­do), essa experiência é, na verdade, um lampejo que penetra num nível de nossa consciência que pode ser mapeado e explorado. Sem exercer controle sobre sua percepção mais profunda nem ter nenhuma explicação convincente para o que está acontecen­do, a pessoa sente que o estado de silêncio enlevado não é apenas o vazio. Em sua maior parte, as grandes tradições de sabedoria foram fundadas por um ou por poucos indivíduos que compreen­deram o universo por intermédio deles mesmos. Para resolver o mistério do vazio precisamos consultar os que estiveram ali; se encontraram um mundo real, então novos Einstein virão a se­guir, outros Einstein da percepção profunda.

SEGUNDA PARTE:

CORPO DE


BEM-AVENTURANÇA

Em cada átomo existem mundos dentro de mundos.

Yoga Vasishtha

10
No Mundo dos Rishis

Um menino que vive na Índia não precisa sonhar com uma máquina do tempo. Quando eu tinha 7 anos, uma caminhada de dois minutos me levava do hospital militar onde meu pai tra­balhava para o grande bazar de Poona. Lá, as antigas fragrâncias pairavam no ar — açafrão, poeira, sândalo e fogareiros (eu mal as notava, pois minha atenção estava toda nos encantadores de serpentes). No hospital, o único cheiro era o de Dettol, um lí­quido para limpeza parecido com o formol, que fazia o nariz ar­der. Os físicos comparam o tempo a uma flecha; na Índia, a fle­cha se curva e encontra a si mesma, voltando para trás. Nós nos adequávamos a isso. Se um soldado aparecia com um ferimento de perfuração no pé, meu pai lhe dava uma injeção contra téta­no, mas, se o homem quisesse sair mancando e fazer uma ofe­renda a Shiva, papai compreendia.

Atualmente, quando volto para lá, olho pela janela do avião e vejo bois puxando arados a poucos metros da pista. Nas cida­des, não é raro executivos em impecáveis ternos de casimira in­glesa se desviarem de sadhus, ou homens santos, calmamente sen­tados no meio da calçada vestidos de tanga ou com mantos ala­ranjados. Essa cena diária assemelha-se a um sítio arqueológico cujas camadas estão irremediavelmente misturadas, ou, melhor ainda, onde elas emergiram do solo e ganharam vida.

No entanto, cada sítio precisa ter uma camada básica. Neste caso, é a constituída pelos sadhus. Os homens santos da Índia datam de pelo menos 3 mil anos antes do nascimento de Cristo. Suas palavras foram registradas e transmitidas no sânscrito ori­ginal, que tudo indica ser o primeiro idioma do homem. Seu lar tradicional ainda é o Himalaia, onde eles vão se sentar em samadhi, ou em profunda meditação, durante dias ou semanas se­guidas. Para os sadhus, a vida é totalmente dedicada ao silêncio interior. Em raras ocasiões, ocorre-lhes o pensamento de que de­vem fazer uma peregrinação. Então, pegam suas tigelas de es­mola e partem para o sul, confiando em que a natureza lhes pro­verá o alimento e o abrigo necessários. Nestes tempos modernos, geralmente eles podem embarcar em qualquer ônibus ou trem sem pagar passagem.

Quando eu era criança, o que sabia dos sadhus vinha de um de meus tios, o irmão mais velho de papai, que viajava por todo o país vendendo equipamento esportivo. Nós o chamávamos de Bara Uncle, ou “tio grande”, um nome que o destacava de nos­sos parentes menos importantes. Invariavelmente ele chegava a nossa casa com presentes como tacos de hóquei na grama (a Ín­dia costumava derrotar o resto do mundo nesse esporte pouco conhecido), bolas de futebol ou raquetes de badminton (esporte parecido com o tênis, mas jogado com peteca). As crianças, é claro, esperavam suas visitas com ansiedade.

Bara Uncle era alegre e conversador. Gostava de contar longos casos sobre as maravilhas que encontrava em seu caminho. O mais interessante aconteceu em Calcutá. Meu tio estava abrindo ca­minho entre a multidão quando quase tropeçou num velho sadhu sentado perto do meio-fio. Com um gesto distraído, enfiou a mão no bolso, encontrou dois armas (cerca de dois centavos de dólar) e colocou-os na tigela do homem santo. Este lançou-lhe um olhar e disse:

— Faça um desejo. Peça o que quiser.

Surpreso, meu tio falou quase sem pensar:

— Quero um pouco de burfi.

Burfi é um doce indiano, em geral feito de amêndoas ou coco. Com um movimento calmo, o sadhu levantou a mão direita, materializou dois pedaços de burfi fresco e entregou-os a Bara Uncle. Perplexo, meu tio ficou paralisado por alguns segundos, o bastante para que o homem santo se levantasse e desaparecesse na multidão. Bara Uncle nunca mais o viu. De certa forma, con­seguiu uma troca justa, pois com os dois annas poderia ter com­prado dois pedaços de burfi numa banquinha de rua. Entretan­to, sempre que contava essa história, balançava a cabeça e la­mentava:

— Ainda penso em tudo o que poderia ter pedido.

Quando menino, eu acreditava piamente no relato de Bara Un­cle, mas na Índia contemporânea as pessoas tendem a olhar para um sadhu e imaginar com ceticismo se ele será mesmo alguém especial. A partir da década de 20, cientistas da Europa e Esta­dos Unidos começaram a visitar a Índia para observar os vários swamis, yogis e sadhus de todos os tipos. Alguns haviam conse­guido notáveis graus de controle sobre o corpo — aparentemen­te eram capazes de suspender a respiração por vários minutos e baixar os batimentos cardíacos quase a zero. Um procedimento típico era enterrar um desses “santos”, como são chamados no país, numa caixa colocada a dois metros de profundidade, uma suposta experiência científica, embora muito grosseira. Depois de alguns dias, quando a caixa era desenterrada, tinha-se, ou não, um resultado. O desejado era encontrar o santo com vida. Quase todos os estudos fisiológicos dessa época são muito superficiais e muitos refletem essa estranha combinação de ciência com es­petáculo de parque de diversões.

O controle que um sadhu exerce sobre o corpo, no entanto, ainda é físico e não representa o objetivo fundamental de sua exis­tência. Essas pessoas estão decididas a romper a máscara das apa­rências físicas. Em nossa terminologia, querem deixar o mundo “acima da linha”, para descobrirem o que jaz abaixo dela. De fato, tradicionalmente a vida indiana tem sido organizada para tornar essa busca possível. Depois de um homem estudar, for­mar uma família e gozar os prazeres da existência material, espera-se que faça sanyasa — ou seja, que renuncie à vida de chefe de família, pegue a tigela e saia em busca de algo além. Quando se diz que ele está buscando Deus, a verdade, a realidade ou a si mesmo, estas são expressões corretas, porque a essência dessa pro­cura é a meta ser desconhecida. O homem está partindo para um outro mundo que não pode ser avistado deste em que estamos. Para usar novamente nossa terminologia, ele está querendo atra­vessar o vazio.

Ao crescer, passei a usar ternos de modelo ocidental e a des­viar de santos na calçada, mas, à medida que analisava mais profundamente as questões da medicina mente-corpo, voltava-me para as antigas tradições da Índia. A segunda parte deste livro centra-se no que descobri. O mundo conhecido de nossos sentidos, dos átomos e moléculas não se rompe abruptamente; ele vai se mati­zando imperceptivelmente numa realidade diferente. A certa al­tura, porém, uma realidade se sobrepõe a outra. Tempo e espa­ço adquirem um significado diferente; desaparecem as claras di­visões entre a realidade interna e externa. Encontramo-nos num mundo nunca tão bem explorado como na Índia. Em sua forma mais pura, o sadhu é um investigador da realidade transcenden­tal que fica além do vazio — essa é a tradição que ele segue, uma das mais antigas e sábias de nosso planeta. Compreender suas descobertas nos levará por uma nova estrada, longe da física, mas ainda assim na mesma linha, à procura de nós mesmos.

No Ocidente, antes do advento da teoria da relatividade, não se questionava se o tempo, o espaço, a matéria e a energia ocu­pavam compartimentos de realidade separados. Nossos sentidos detectam uma árvore como totalmente diferente de um raio de luz ou de uma centelha de eletricidade; podemos sentir que o tempo é uma entidade mais misteriosa, capaz de correr mais de­vagar, acelerar ou até parar, mas jamais diríamos: “Gosto mais de Nova York do que de Segunda-feira”. Parece óbvio que tem­po e espaço, matéria e energia são pares separados, pelo simples motivo de que nenhum pode ser transformado no outro. O mundo normal dos sentidos pode ser esquematizado numa forma bem conhecida por nós:



Depois que Einstein publicou a equação E = MC2, foi preci­so modificar essa visão simples e corriqueira, pois então se tor­nou possível (como o provou a bomba atômica) transformar a ma­téria em enormes quantidades de energia. A teoria geral da rela­tividade fez o mesmo pela separação entre tempo e espaço. Atual­mente, a física lida com uma entidade fundida chamada tempo-espaço, que pode ser curvada para se ajustar a certas circunstân­cias (sempre que um objeto viaja com uma velocidade próxima à da luz, por exemplo). Depois de provar que a natureza era muito menos compartimentada do que a ciência anteriormente pensa­va, a relatividade abriu outra possibilidade, ainda mais surpreen­dente. Einstein sugeriu que existe um campo subjacente como pano de fundo para todas as transformações do espaço-tempo e massa-energia. Isso implica um nível de natureza totalmente fun­dido; em outras palavras, há uma região de espaço-tempo-matéria-energia.

Einstein estava intuitivamente convencido dessa possibilidade — a demolição máxima do mundo dos sentidos — numa época em que ninguém mais tinha visão para pensar nela com serieda­de. Começando na década de 20, ele passou os últimos trinta anos de sua vida isolado dos outros físicos de sua geração e em grande parte ignorado, procurando computar a matemática de uma “teoria do campo unificado’’. Essa teoria uniria as forças básicas da criação e assim explicaria o universo como um todo. Em vez de quatro compartimentos, haveria um só.

“Unir”, no sentido em que os físicos usam a palavra, significa provar que duas coisas que parecem totalmente diferentes podem se transformar cada uma na outra, num nível mais profundo da natureza. O fóton e a onda de luz são exemplos clássicos disso: eles parecem inteiramente diferentes; no entanto, num nível infi­nitesimal da natureza, chamado escala Planck, que é mais de um bilhão de bilhão de vezes menor do que o menor dos átomos, o fóton e a luz podem ser unidos. Ninguém ainda conseguiu re­solver a matemática de um campo unificado. Isso seria equiva­lente a resolver toda a zona oculta que rotulamos com um “?” (No entanto, uma nova teoria, que recebeu o nome de superfilamento, pode ter, enfim, resolvido o problema, trinta anos após a morte de Einstein.)

Em face de um problema que o pensamento racional não po­de solucionar, a ciência necessariamente se detém, mas outras vias podem ser abertas. Milhares de anos atrás, os antigos rishis, ou videntes da Índia, também refletiram sobre a questão de a natureza ser essencialmente unificada. Um rishi é semelhante a um sadhu no sentido de que sua vida é dedicada ao silêncio e à vivência interior, mas os rishis estão mais distantes no tempo — eles foram responsáveis pela escrita dos antigos textos do Ve­da, ou verdade revelada, como o Rig Veda, que talvez seja mi­lhares de anos anterior às pirâmides egípcias.

Se você perguntar a um indiano moderno o que são os Vedas, ele dirá que são livros que contêm as palavras dos rishis, mas na verdade o Veda é o conteúdo vivo da consciência dos rishis. Um rishi foi capaz de ver tão fundo na natureza das coisas que até mesmo Deus se senta a seus pés para aprender — essa lição pode ser encontrada no Yoga Vasishtha, onde o jovem Senhor Rama, uma encarnação divina, suplica ao sábio Vasishtha que o instrua.

Não estou enfatizando aqui o valor espiritual do rishi e seu conhecimento. Até bem recentemente na história da humanidade, todas as culturas misturavam livremente religião, psicologia, fi­losofia e arte num todo homogêneo. No entanto, filamentos in­dividuais podem ser puxados desse todo; neste caso, estou inte­ressado no que os rishis tinham a dizer sobre a natureza funda­mental da realidade (no Yoga Vasishtha, Deus também demons­trou um vívido interesse pelo assunto). Assim como nós, eles eram capazes de dividir a natureza em espaço, tempo, matéria e ener­gia, mas voltavam as costas para esse tipo de abordagem que do­mina de modo tão absoluto nossa maneira de ver o mundo e de pensar nele.

Em lugar disso, os rishis optaram por resolver o problema da forma mais prática imaginável. Resolveram atravessar o vazio e entrar na zona “?”, onde o pensamento não pode chegar. Usa­ram uma distorção simples em sua percepção, mas que teve pro­fundas consequências — foi como virar o mundo objetivo pelo avesso. Para fazer isso, os rishis tiveram de analisar a natureza de uma maneira imprevista, que pode ser representada por ou­tro esquema:

Esse diagrama é tão válido como o anterior, mas olha para o mundo de um ponto de vista puramente subjetivo. Em vez de ver o tempo, espaço, matéria e energia “lá fora”, os rishis obser­varam que a realidade começa “aqui dentro”, com nossa percepção consciente. Em qualquer instante, raciocinaram, uma pessoa pre­cisa estar em um dos três estados de percepção subjetiva — acor­dado, dormindo ou sonhando. Os antigos admitiam que a realidade era diferente em diferentes estados de consciência — um tigre no estado de sonho não é um tigre no estado acordado ou de vigília. A realidade obedece a leis inteiramente diferentes e, por similaridade, as leis do estado de sono, embora não conheci­das pela mente consciente, devem ser distintas das dos estados de vigília e de sonho.

Os rishis analisaram mais a fundo e detectaram, entre esses três estados, um vazio que atua como um agente, enquanto uma rea­lidade se transforma em outra. Por exemplo, pouco antes de ador­mecer, a mente vai pouco a pouco abandonando o estado de vi­gília, recolhendo os sentidos, deixando para fora o mundo acor­dado; porém no ponto de junção antes de a mente adormecer, abre-se um rápido vazio, idêntico ao que ocorre num átimo de segundo entre dois pensamentos. É como uma pequenina janela que se abre para o campo que se situa além tanto do estado de vigília como do sono. Essa compensação abriu a possibilidade de se deixar para trás as fronteiras comuns dos cinco sentidos, mergulhando-se no vazio.

Considerando-se que o Ocidente é supostamente prático, e o Oriente, místico, é fascinante descobrir que os rishis eram muito mais ávidos por experiências diretas do que um físico quântico. Sua abordagem subjetiva denominava-se Yoga, a palavra em sâns­crito para “união”. (Os vários exercícios ensinados nas escolas de yoga pertencem apenas a um de seus ramos, o chamado Hatha Yoga; aqui vamos falar da abordagem mais poderosa do Yo­ga, que é mental.) Como o rishi e o físico quântico procuram uma camada subjacente da unidade na natureza, pode-se ver ime­diatamente a semelhança entre o Yoga e a busca de Einstein por uma teoria do campo unificado. A diferença mais importante entre os dois é que os rishis, não sendo teóricos, declaravam que o cam­po unificado existe no mundo real — ele é uma experiência e não mera construção mental.

Do ponto de vista subjetivo dos rishis, o campo unificado só poderia ser um outro estado de consciência, ao qual deram o no­me de turiya, ou “o quarto”, para deixar claro que ele não fazia parte dos três estados — vigília, sono e sonho. Eles também se referiam a ele como para, ou “além”, significando que esse campo unificado transcendia a experiência ordinária. Mas como pode­ria existir um quarto estado? A resposta era dupla. Primeiro, os videntes disseram que o quarto estado existe em todos os luga­res, mas está oculto pelos outros três estados, que funcionam co­mo uma divisória. (Alguns textos antigos declaram que o quarto estado foi misturado aos outros três, como leite na água, e que descobri-lo é tão difícil como separar o leite da água.) Segundo, que o quarto estado pode ser vivenciado diretamente apenas de­pois que a mente tenha transcendido sua atividade normal, o que exige técnica especial de meditação.

A própria palavra “rishi” denomina uma pessoa que apren­deu a entrar no quarto estado sempre que quiser e observar o que existe lá. Essa capacidade aprendida não é “pensar”, no sen­tido em que usamos este termo — todo o fenômeno é uma expe­riência imediata, como reconhecer a fragrância de uma flor ou o som da voz de um amigo. Ele é imediato, não-verbal, e dife­rente do perfume de uma rosa, totalmente transformador. En­quanto meditavam profundamente absorvidos em sua própria per­cepção subjetiva, os rishis exploravam o turiya como olharíamos para o Grande Canyon, por exemplo. Como indivíduos, esses vi­dentes têm nomes, mas a entrada no transcendental obscureceu as margens do que consideramos identidade pessoal. Vasishtha, por exemplo, não é apenas o nome de um dos maiores dos anti­gos rishis, mas também o de uma parte integral do Veda — o conhecimento transcendental — que o homem Vasishtha foi o primeiro a perceber; para conhecer realmente aquela parte do Veda, é preciso estar na “consciência Vasishtha”. Em suma, es­ses sábios observaram a existência em sua forma mais pura.

Apesar de todas as intenções e propósitos, o Ocidente não ti­nha meios para testar de forma sistemática a existência do quar­to estado. Carente da técnica certa, a comunidade científica tem ignorado o turiya. De fato, muitos cientistas o considerariam irrelevante ou ameaçador. A simples noção de “união” traz à mente imagens indesejadas: dissolver-se num estado de nada ou perder a identidade como uma gota desaparecendo no oceano. A des­peito de ocasionais explosões de entusiasmo por idéias orientais, o progresso do conhecimento no Ocidente tem dependido sobre­tudo da observação externa, e não da interna.

No entanto, se existe um estado que transcende os três habi­tuais, parece lógico que ele deva se manifestar de vez em quan­do, nem que seja por acaso. Vejamos a experiência vivida por Char­les Lindbergh em 1927, durante os momentos mais críticos de sua aventura. Quando estava no segundo dia de seu histórico vôo sobre o Atlântico, ele descobriu que havia ultrapassado os limi­tes da exaustão física. Temendo perder o controle do avião, pro­curou evitar um desastre entregando-se ao sono e esperando manter-se no curso. Então, como Lindbergh conta em sua auto­biografia, ocorreu uma notável mudança de percepção:
Por várias vezes, no segundo dia de meu vôo, voltei ao estado consciente, alerta o bastante para perceber que estivera voando enquanto não estava nem dormindo nem acor­dado. Meus olhos tinham ficado abertos. Eu reagira às indicações dos instrumentos e me mantivera, de uma forma geral, dentro do curso da bússola, mas perdera o sentido de tempo e da circunstância. Por períodos imensuráveis, eu parecia me expandir para fora de meu avião e de meu cor­po, independente dos valores mundanos, com a capacidade de apreciar a beleza, a forma e a cor, sem depender de meus olhos.
Em criança, Lindbergh já deitara nos milharais da fazenda do pai e experimentara uma sensação similar, de estar “além da imor­talidade” enquanto olhava para o céu. Entretanto, o episódio so­bre o Atlântico Norte foi mais longe. Lindbergh concluiu sobre o acontecimento: “Foi uma experiência onde tanto o intelecto como os sentidos foram substituídos pelo que poderia ser denominado uma percepção sem matéria... Reconheci que a visão e a realidade interagem, tal como a energia e a matéria”.

Isso parece o equivalente subjetivo das transformações espaço-tempo que Einstein provou serem possíveis no campo objetivo. No entanto, essa experiência subjetiva é notoriamente difícil de se quantificar, em especial se ela ultrapassa o intervalo normal de percepção. Os fisiologistas esperaram o final da década de 60 até que algum deles se aventurasse a considerar válido que os rishis haviam mesmo acrescentado uma nova dimensão à mente humana. O que tornou isso possível foi um súbito crescimento no interesse pela meditação, em particular pela Meditação Trans­cendental, ou MT, que foi trazida da Índia para os Estados Uni­dos, em 1959, por seu fundador, Maharishi Mahesh Yogi.



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