A decadência da família david Cooper



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A DECADÊNCIA DA FAMíLIA

David Cooper


COLECÇÃO PSICOLOGIA E PEDAGOGIA
is
A DECADÊNCIA DA FAMíLIA

Título original: THE DEATH OF THE FAMILY


Capa de: Estúdios C. P. . David Cooper, 1971 Direitos reservados para a Língua Portuguesa

David Cooper


A DECADÊNCIA DA FAMILIA
Tradução de Luísa Maria Ramos
PORTUGÁLIA EDITORA
INTRODUÇÃO
Nesta crítica da família, a maioria das minhas referências paradigmáticas dirão respeito, sobretudo, à unidade familiar nuclear da sociedade capitalista nesta fase do corrente século. Contudo, a referência mais vasta e a maioria das minhas afirmações gerais abrangerão o funcionamento social da família como dispositivo condicionador de ideias (a linguagem não-humana é deliberada e necessária) em qualquer sociedade de exploração - sociedade de escravatura, sociedade feudal, sociedade capitalista desde a sua fase mais primitiva no século passado até às sociedades neo-colonizadoras no primeiro mundo de hoje. Também se aplica à classe trabalhadora do primeiro mundo, sociedades do segundo mundo e países do terceiro mundo, na medida em que estes foram doutrinados em direcção a uma consciência espúria que, como teremos ocasião de ver, é definitiva do pacto secreto de suicídio dirigido pela unidade familiar burguesa, a unidade que se designa com o nome de «família feliz»; a família que ora em comum e permanece unida através da doença e saúde até que a morte nos separe ou nos lance para a sóbria tristeza dos epitáfios nas pedras da nossa tumba cristã, erguidas, por falta de outro género de construçÃo, por aqueles que porão luto após a nossa morte à curiosa maneira de terem sempre

no pensamento que devem levar muito tempo a esquecer-nos. Este falso luto é justo e poético, na medida em que não é possível um luto autentico, quando as pessoas que põem luto umas pelas outras nunca se encontraram. A unidade familiar nuclear burguesa (utilizando algo parecido com a linguagem dos seus agentes - sociólogos académicos e cientistas políticos) tornou-se, no presente século, a forma finalmente aperfeiçoada do não-encontro e, por conseguinte, a negação definitiva do luto, morte, nascimento e do reino experimental que precede o nascimento e a concepção.


Porque é que não caímos na armadilha benvinda, armadilha para ursos forrada a pele, da própria hipostasiação da família como «A Família» e a seguir examinar-nos as várias formas em que a intra-estrutura da família bloqueia o encontro entre um indivíduo e outro e exige urra oferta sacrificial por parte de cada um de nós, que não aplaca ninguém nem nada senão esta abstracção grandemente activa? Por falta de deuses, tivemos de inventar abstracções potentes, nenhuma das quais é mais poderosamente destrutiva do que a família.
O poder da família reside na sua função social de medianeira. Ela reforça o poder efectivo da classe governante em qualquer sociedade de exploração, fornecendo a todas as instituições sociais uma forma paradigmática altamente manejável. Assim encontramos a forma da família reproduzida pelas estruturas sociais da fábrica, ramos de união, escola (primária e secundária), universidade, corporações comerciais, igreja, partidos políticos, corpo governamental, forças armadas, hospitais gerais e para doentes mentais, etc. Há sempre «mães» e «pais» bons ou maus, amados ou odiados, «irmãos» e «irmãs» mais velhos e mais novos, «avós» defuntos ou a comandar secretamente. Cada um de nós, em termos da descoberta de Freud, transfere um pouco da sua experiência familiar original na «família de origem» para cada um dos membros da sua «família de procriação» (a «própria» esposa e filhos) e para cada um

dos outros, seja qual for a situação em que trabalhemos. Por consequência, com base nesta não-realidade provinda de uma não-realidade anterior, falamos em «pessoas que conhecemos», como se tivéssemos a oportunidade mais remota de conhecer a pessoa que conhece as pessoas que essa pessoa supõe conhecer. A família, por outras palavras, como está socialmente metamorfoseada, anonimiza os indivíduos que trabalham ou vivem juntos em qualquer estrutura institucional; há um agrupamento eficaz disposto em série, uma bicha de autocarro, disfarçado de amistoso, em que cada «indivíduo real» trabalha cooperativamente com o outro «indivíduo real». Esta exclusão da realidade do indivíduo através de ficção interiorizada proveniente do passado da família e também muito bem demonstrada pelo problema mais básico da psicoterapia - o problema do despovoamento progressivo do quarto. No início da terapêutica, o quarto pode conter centenas de pessoas, principalmente toda a família do indivíduo, ultrapassando várias gerações, mas também outras pessoas importantes. Uma parte da população inclui, inevitavelmente, outros doentes interiorizados do terapeuta - mas a garantia de uma boa terapêutica depende do facto de que o terapeuta esteja suficientemente ao corrente dos problemas internos familiares e se encontre apto a dominá-los. Em terapêutica, começa-se pouco a pouco a identificar os membros desta vasta família e suas extensões e pede-se-lhes, muito delicadamente, para «sair do quarto», até que ficamos só com dois indivíduos que têm a liberdade de ir ao encontro do outro ou abandoná-lo. O objectivo ideal da terapêutica é, pois, a dissolução definitiva da dualidade: terapeuta e «terapeutizado» - um estado ilusório de não-relação, pelo qual a terapêutica tem necessariamente de começar e o qual deriva do sistema binário da família: educador e educando. Quando se

permitirão os pais ser educados pelos filhos? É fátuo falar da morte de Deus ou da morte do homem - imitando burlescamente a séria intenção de alguns teólogos e filósofos estruturalistas contemporâneos - antes de podermos encarar completamente a decadência da família - o sistema que, segundo a sua obrigação social, filtra obscuramente a maior parte da nossa experiência, destituindo, assim, os nossos actos de qualquer espontaneidade genuína e generosa.
Antes de qualquer questionário cósmico acerca da natureza de Deus ou do homem, levantam-se, historicamente, em cada um de nós, outras questões de tipo mais concreto e altamente pessoal. «Donde vim?», «Aonde me foram buscar?», De quem sou?» (fazemos estas perguntas antes de pensarmos em perguntar «Quem sou eu?»). Em seguida, outras questões menos frequentemente formuladas mas vagamente suspeitadas tais como «0 que estava a acontecer entre os meus pais antes e durante o meu nascimento?» (isto é «Será que resultei dum impulso orgásmico ou o que é que eles pensavam que estavam a fazer um com o outro?»); «Onde estava eu antes de um dos espermatozóides dele romper um dos óvulos dela?»; «Onde estava eu antes de ser eu? ; «Onde estava eu antes de poder fazer a pergunta: onde estava eu antes de ser este eu?».
Com um pouco de sorte, todos somos «excepcionais» (e há mais gente excepcional do que pensamos, se nos lembrarmos de uma ou duas experiências críticas que demonstram a nossa excepcionalidade). Por exemplo, houve quem me dissesse que a parteira, que assistira ao seu nascimento, dissera à mãe: «Este já aqui esteve». Mais vulgarmente, diz-se a algumas pessoas que, afinal, pertenciam a outros pais: «Houve um erro na clínica e puseram-lhe a etiqueta errada». Em termos de afirmações verdadeiras em relatórios, isto pode dar acesso a implicações de que uma determinada criança provém de outra espécie, que é manifestamente não-humana ou até extra-terrestre ou monstruosa. Contudo

do, podemos estar tão completamente desprovidos de qualquer curiosidade, que podemos interiorizar uma série de perguntas sem resposta como mistificação embutida acerca da nossa identidade elementar - sobre quem somos e quando e onde estamos. A família é perita na inculcação auto-aterradora e auto-aterrorizadora da não-necessidade de albergar dúvidas sobre qualquer destes pontos. A família, uma vez que não pode suportar nenhuma dúvida sobre si própria e a sua capacidade de gerar «saúde mental» e «atitudes correctas», destrói a dúvida como possibilidade em cada um dos seus membros.


Cada um de nós é cada um dos seus membros. Cada um de nós terá de redescobrir a possibilidade de duvidar das nossas origens - apesar de e embora sejamos bem educados.
Eu ainda me sinto um tanto incrédulo quando encontro indivíduos que foram adoptados ou de quem um dos pais saiu de casa e nunca mais foi visto, e que se privam, duma tal maneira, de dúvida e curiosidade, que nem tentam encontrar o pai ou pais que lhes falta - não necessariamente para ter uma relação com eles, mas simplesmente para testemunhar o facto e qualidade da sua existência. Igualmente perturbador, de facto, é a raridade de fantasias totalmente desenvolvidas sobre uma «família de romance» e o tipo de família ideal e estranha, donde imaginamos ser oriundos - uma família que não projecta em nós a sua problemática, mas que se torna o veículo imaginário da nossa própria existência apagada.
Em suma, temos de assumir a posição de reunir todo o passado da nossa família; conseguir um resumo
de tudo isso, para nos libertarmos dele de um modo que seja mais pessoalmente eficaz do que uma simples ruptura agressiva ou actos rudes de separação geográfica. Se o efectuarmos da primeira maneira - que é sempre através de relações, não necessariamente relações terapêuticas formais - podemos atingir o raro estado de

gostar realmente ou ser, de livre vontade, muito amigos dos pais, em vez de estarmos engolfados num amor prisioneiro e ambíguo - do qual são vítimas, como é óbvio, tanto os pais como os filhos.


Se já não duvidamos, tornamo-nos duvidosos aos nossos próprios olhos, e então só podemos optar por perder a nossa visão e vermo-nos com os olhos dos outros - e os olhos dos outros (uns e outros atormentados pela mesma problemática irreconhecível) ver-nos-ão como devidamente seguros e protectores dos outros. Na verdade, tornamo-nos vítimas de um excesso de segurança que ilude a dúvida e, consequentemente, destrói a vida em qua@quer sentido em que nos possamos sentir vivos. Simultaneamente, a dúvida gela e ferve a medula dos ossos, agita os ossos como dados que nunca são lançados, faz soar uma música de órgão se-
creta e violenta pelas diferentes calibrações das nossas artérias, ribomba ominosa e afectuosamente pelos nossos canais bronquiais, vesícula e intestinos. Existe e é a contradição de cada contracção espermática e é o convite e a rejeição de cada flutuação muscular vaginal. Por outras palavras, a dúvida é real, se podemos encontrar o caminho de regresso a este género de realidade. Mas, se é para procedermos assim, temos de eliminar falsos caminhos de atletismo e yoga ritual - estes rituais só confirmam a intriga familiar tendente a exteriorizar a experiência corporal em algo que pode ser efectuado fora da relação real e de acordo com um horário que nos lembra um dos treinos sanitários a que fomos obrigados a submeter-nos aos dois anos de idade ou até logo nos primeiros meses, quando nos «esticávamos», e nos faz esquecer o equilíbrio exacto entre a possibilidade de evacuar ou reter uma determinada porção de excrementos que sentíamos.
Esta sensação de destruição-da-dúvida e da experiência de viver o próprio corpo tem a sua origem na
necessidade de agrupamento humano, que se desenvolve primeiramente na família. Uma da@ primeiras lições que aprendemos no decorrer do nosso condicionamento familiar é que não valemos o suficiente para existirmos no mundo por nós próprios. Ensinam-nos, muito pormenorizada mente, a renegar o próprio eu e a viver aglutinados, para que, assim, grudemos em nós pedaços de outras pessoas e, a seguir, passemos a ignorar a diferença entre o não-eu do nosso eu e a auto-identidade do nosso eu. Este facto é alienação, no sentido de uma submissão passiva à invasão dos outros, sendo estes originariamente da família. Mas esta passividade é ilusória, na medida em que oculta a escolha da submissão a uma invasão desta espécie. Todas as metáforas de «paranóia» são um protesto poético contra esta invasão. A poesia, que, evidentemente, varia em qualidade, é, contudo, pouco apreciada pela sociedade e, se começa a ser demasiadamente exprimida em voz alta, requer ser tratada pela psiquiatria - que é, após as instituições educacionais, o terceiro grau de defesa familiar contra a autonomia por parte dos seus membros - isto é, juntamente com escolas e prisões especiais e uma multiplicidade de outras situações de rejeição mais discretas. Parece-me que, na nossa época e, pelo menos, no primeiro mundo, a paranóia é uma tentativa necessária para a procura da liberdade e totalidade; o único problema consiste em se ser suficientemente discreto para impedir um assassínio social ou a indução gradual mais suave e mais civilizada de respostas socialmente aceitáveis através da longa psicanálise das nossas «ansiedades perseguidoras». O problema não está em «resolver» as ansiedades perseguidoras mas em utilizá«-Ias lucidamente, para destruir uma situação perseguidora real e objectiva em que estamos capturados mesmo antes do começo da nossa existência.
Ao trabalhar com as pessoas o terapeuta pode, muito mais frequentemente, ter de confirmar a realidade dos receios paranóicos, do que negá-los ou tentar modificá-los de qualquer modo. Isto seria, sem dúvida, uma projecção da própria paranóia do terapeuta, se não fosse possível elaborar, com tanta frequência, estratégias de escape ou atacar decididamente o sector particular do mundo, com toda a sua realidade perseguidora, em que o indivíduo está imerso e donde tem de ascender,
De facto, penso que o que temos a fazer é reavaliar completamente determinados estados empíricos e de comportamento que são considerados mórbidos e, em seguida, através de uma declinicalização radical da nossa estrutura conceptual, vê-los como estratégias mais ou menos prematuras ou bem sucedidas com vista a alcançar autonomia e consistência. Numa obra anterior*, mostrei, em termos da verdade de uma vida, a oposição polar entre normalidade (que é o triste destino da maior parte de nós) e saúde mental e loucura, que vão encontrar-se no pólo oposto.
Aqui, o ponto vital é o papel da família em originar a base do conformismo - a normalidade através da socialização primária da criança. «Eclucar» uma criança, na
prática, é mais como humilhar um indivíduo. De igual modo, educação é conduzir um indivíduo para fora e
para longe de si próprio.
Jogando com a etimologia grega, podemos dar maior amplitude a esta ideia.
‘Psiquiatria e Antipsiquiatria, Publicações Tavistock, Londres,

1967.
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Anóia Antinóia
Nóia (En-nóia)
.A2
Paranóia
Al
Ecnóia @L = rnetanóia

O estado ecnóico, à esquerda do diagrama, é o estado normal do cidadão bem condicionado e infinitamente obediente. Este é um estado de existência, em que cada indivíduo está tão alheio a todos os aspectos da sua própria experiência, a todos os impulsos espontâneos para agir, a um mínimo de consciência pelo seu corpo destinado a si próprio, mais do que o seu corpo como objecto no mundo destinado à inspecção dos outros, a todas as possibilidades cuidadosamente recusadas de suscitar mudanças, que podemos considerar este indivíduo normal, verdadeiramente e sem prestidigitação metafórica, como estando fora da razão. A maioria dos indivíduos do primeiro mundo submete-se a este assassínio crónico do eu, apenas com uma dissidência


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mal murmurada e quase esquecida. A consequência de perder a memória, neste sentido, é certamente considerável: o indivíduo pode tornar-se afluente e, pelo menos, confortável; pode chefiar uma grande corporação ou um grande estado ou pode até revelar-se, no interesse de valores normais, na devastação ecológica das maiores áreas da superfície terrestre. De facto, pensando melhor, não há nada de tão bom como estar fora da razão. Nem nada como a perda consequente. Através de metanóias em série, o indivíduo pode sair da posição ecnóica. Metanóia significa mudança a


partir das profundidades do eu para as superfícies da aparência social de cada um. Inclui muito do sentido paulistano de conversão e arrependimento e, especialmente ao segundo nível de metanóia (lt2), dá origem aos
«sinais» de depressão e luto, Através da primeira meta-nóia, o indivíduo entra numa região de «paranóia», passando a estar junto de si mesmo. Se a ecnóia significa estar fora da razão, ria paranóia, pelo menos, o indivíduo está próximo da razão. A paranóia é como que uma vizinhança do eu, que se lhe pode tornar afeiçoada. Se a ecnóia é um estado de existência, um aglomerado de essências que são, finalmente, o produto massivo do condicionamento social iniciado na família, a paranóia é o começo de existência activa com a possibilidade de vida para novos planos. Há certamente confusão entre as fantasias perseguidoras e as realidades perseguidoras. Com a primeira, cada indivíduo explora projectivamente a realidade social através do desconhecido, mas, mais tarde, do meio-conhecido, da super-imposição das estruturas experienciais do passado sobre o presente. Se esta exploração é suficientemente radical no contexto das relações mais significativas de cada indivíduo, ele começa a desenvolver um sentido objectivo de realidade perseguidora, que é transpessoal e está para além das nossas s uper-i m posições, embora, para nó s, fosse indirectamente mediada pela experiência familiar primária na idade de um ano, idade em que se condicio-
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nam as fantasias perseguidoras. A segunda metanóia representa o trabalho no nosso eu, no sentido de trabalho total (incluindo a noção psicanalítica de «trabalho de penetração»), que nos leva a


uma auto-consciência, que se encontra nos nossos próprios espíritos, separada, assim como um indivíduo de outro indivíduo, numa solidão não isolada, aberta ao mundo. Nesta altura, encorajamos o nosso eu, pomos-lhe um coração novo, mais por invenção do que por transplantação, e fazemos uma aposta para tentar alguma nova experiência no auto-domínio das nossas auto-relações, para que tenhamos a liberdade de permitir uma saída generosa do eu para o mundo (o movimento nóico).
Neste momento, estamos preparados para abandonar o sentido do «eu», a restrição a um «ego» finito. A última metanóia é o movimento fluente entre o eu activamente autónomo e o eu e o mundo - transcendência (anóia) - deslocando-se através da neutralização da auto-preformação num momento de anti-nóia. Não há, então, finalmente, mais nenhuma questão acerca de «estados de existência» e da segurança ilusória representada por tais «estados».
Há, com certeza, muito lugar para confusões de localização entre estes períodos, sendo uma das mais desastrosas a tentativa de deslocação da ecnóia e paranóia para anóia, sem os requeridos predicados pessoais de autonomia do auto-domínio. Tais tentativas são o uso de drogas psicadélicas e abortivos sem qualquer orientação, formas alarmantes do que parecem ser «colapsos psicóticos». Quando isto acontece, as pessoas ainda estão muito dentro da rede da família interna (e, muitas vezes, da família externa também) e, compulsivamente, procuram sistemas bem menos restritos de réplicas de famílias.
A família não só é uma abstracção, isto é, uma falsa existência, uma essência, mas existe também como uma intimação a ir além de todo o condicionamento, a
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que nela fomos submetidos. A maneira como efectuamos este «ir além» parece, contudo, estar sempre bloqueada. Há numerosos tabus no sistema familiar, que superam largamente o tabu de incesto e tabus contra a cobiça e porcaria. Um desses tabus é a proibição implícita de experimentar a nossa solidão no mundo. Parece que há, deveras, muito poucas mães que sabem permanecer o tempo necessário afastadas do filho, para permitir-lhe o desenvolvimento da capacidade de estar só. Há sempre uma necessidade de tentar prender o desespero lamentoso do outro - por amor nosso, se não por amor dos outros. Isto conduz a uma violação da temporalização do outro, quer dizer, o fazer-tempo pessoal distinto de arranjar-tempo, para que a necessidade da mãe

- sistema de tempo (mediador mais ou menos passivo do sistema de tempo necessário da sociedade mais vasta) passe a impor-se na da criança. A criança pode precisar do tempo da mãe ou do seu para experimentar frustração, desespero e finalmente uma experiência completa de depressão em todos os sentidos. Tendo como base a minha experiência, é deveras muito raro qualquer respeito pelo tempo do outro ou pelo tempo de que o outro necessita na sua relação com o primeiro. Uma das principais contribuições, e talvez a mais importante, da técnica psicanalítica freudiana foi o desenvolvimento sistemático e disciplinado da análise deste género de respeito pelo desdobramento natural do efeito recíproco das temporalizações - sem interferência, mas com toda a atenção. Neste sentido, a situação psicanalítica pode tornar-se idealmente, uma espécie de anti-família - uma família, em que podemos entrar ou sair por escolha, quando tivermos feito o que nela temos a fazer.
A situação analítica não é uma situação de transferência familiar, em que cada um, num certo simplismo desconhecido, converte o outro em pedaços da sua totalidade de impressões sobre a experiência familiar passada. Isto é, apenas «durante a viagem», embora seja
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uma Via Láctea que temos de atravessar. Não vale a pena tentar remediar o que já não tem remédio. Por isso, passamos por tudo isto com um impulso proléptico, que penetra no nosso eu com intimações passadas do eu, pelas quais esse eu iria penetrar-se.


O que nela temos a fazer é descobrir uma dialéctica fluente, que se desloque sempre na antítese móvel entre estar-só e estar-com-o-outro. É esta antítese que devemos examinar mais profundamente, se quisermos descobrir a maneira como um indivíduo, privado do sangue vital da sua solidão no primeiro ano de vida, mais tarde, num momento de grande angústia, inventa o seu afastamento no mundo.
Um rapaz chamado Filipe, de seis anos, vivia com os
pais num hotel pertencente a familiares. Tinha sido sempre tratado assiduamente por eles. Nunca o tinham deixado por um só momento. Mas, um dia, brincando nos jardins, ele pousou as mãos num bebedouro de pássaros caiado e olhou para a água musgosa, que reflectia o céu. Chocado, levantou os olhos para o céu, vendo-o pela primeira vez, como que iniciado numa consciência da sua realidade através do seu reflexo. Depois, num momento de sufocação, que era também um momento de liberação, compreendeu a sua completa contingência
solidão no mundo. Soube que, daquele momento em diante, não podia chamar ninguém nem ninguém o podia chamar, de uma maneira que pudesse desviar a trajectória do seu plano de vida, que sabia, agora, já ter escolhido - embora, como é natural, fosse preciso ter em conta os pormenores. A mãe anunciou-lhe que o jantar estava pronto. Ele foi para dentro comer, mas, pela primeira vez, apercebeu-se de que já não era o filho da sua mãe, mas, na realidade, a sua própria pessoa. O problema é que Filipe não podia dizer a ninguém da família uma palavra sobre a sua experiência que não fosse deformada nos seus termos ou sob a forma de alguma piada sobre o seu filho.
Se não descobrirmos a nossa autonomia no primei-
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ro ano de vida e se não a descobrirmos por meio deste momento angustiado nos fins da infância, ou nos tornamos loucos no fim da adolescência, ou expiramos e tornamo-nos cidadãos normais, ou lutamos por uma liberdade na realização de relações subsequentes, quer estas sejam relações analíticas originadas espontaneamente ou planeadas. De qualquer modo, um d';a teremos de sair de casa. E quanto mais cedo, melhor.


Tudo isto se refere à comunicação e à falta de recepção de comunicação, que caracteriza o sistema familiar. Imaginemos uma situação muito vulgar entre pai e filho.

O pai descia a avenida, trazendo o filho pela mão. A um dado momento, dá-se uma quebra necessária de reciprocidade - o pai segura a mão do filho, mas o filho já não segura a mão do pai. Por meio duma subtil alteração cinésica na pressão da mão, a criança, de três ou quatro anos, indica ao pai que quer continuar sozinha pela estrada abaixo, na sua própria altura. O pai, ou aperta-lhe a mão, ou faz o que a experiência lhe ensinou, como sendo um risco temeroso- permite que a criança o abandone, não na sua altura nem na altura prescrita pela sociedade, mas na altura da criança.



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