A desconstrução da identidade do homem moderno pelo progresso na obra a caverna de José Saramago



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A desconstrução da identidade do homem moderno pelo progresso na obra A Caverna de José Saramago

Gisabele Nascimento Fontoura Lass1


INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tem por objetivo, demonstrar a desconstrução da identidade do homem moderno pelo progresso tratada no livro A Caverna de José Saramago, relacionando–a com o Mito da Caverna de Platão e a atualidade.

Saramago possui um estilo próprio e diferente de discorrer sobre temas universais, com assuntos e proposições que se estendem a tudo ou por toda a parte. A leitura do romance A Caverna, remetida ao mito da Caverna de Platão, quando se percebe que o mundo atual leva a humanidade a viver as mesmas dificuldades, é focada na pressão do desenvolvimento tecnológico da desconstrução da identidade do homem moderno.

A temática do autor está sempre ligada a uma indagação da busca de identidade, onde o individual e o coletivo se confundem em um processo de desvelamento de uma realidade. O pós-modernismo lança um olhar sobre o passado ultrapassando as barreiras formais da história. Porém, longe de apontar soluções, o pós-modernismo faz refletir criticamente sobre o passado e o presente.

Lançado a 16 de novembro do ano 2000, no mesmo dia em que o autor completou 78 anos, A Caverna, de José Saramago, é mais uma obra que faz pensar e passa a compor obras que possuem como temática central a época presente. Este romance fecha uma trilogia involuntária com Ensaio sobre a Cegueira (1995) e Todos os Nomes (1998); sendo o primeiro, publicado após o escritor ganhar o Nobel de Literatura de 1998. Apesar de terem temas completamente diferentes uns dos outros, as obras mostram a visão do autor sobre o mundo atual. A Caverna disseca através da história de pessoas comuns, o impacto destruidor da nova economia sobre as economias tradicionais e locais.

A personagem principal do relato é Cipriano Algor, um oleiro que luta para sobreviver como indivíduo, através do seu empenho em manter a sua tradicional profissão em um universo dominado pela produção em massa. É um viúvo recente que vive com a sua filha e seu genro, em um lugar próximo a uma grande cidade, em um ambiente que Saramago descreve como transição entre o mundo marcado pela produção em escala e o não-urbano. Assim como o foco simbólico do espaço da família Algor é o forno no qual o oleiro produz seus objetos, o foco simbólico da ordem da cidade é um enorme complexo comercial-residencial. Pode o próprio shopping center ser comparado a uma caverna, mas a história vai além desta comparação, traçando paralelos inclusive com o mito da Caverna de Platão. Trata-se da exemplificação de como é possível se libertar da condição de escuridão que aprisiona os indivíduos através da luz da verdade.

Portanto, este estudo será desenvolvido tomando por objeto de análise o livro A Caverna de José Saramago que mostra a marginalização do homem moderno pelo progresso que anula a sua individualidade. Pretende-se no primeiro capítulo fazer um panorama sobre alguns aspectos da individualidade no pós-modernismo, tomando-se por base, teóricos como Hall (2004) e Augé (1994), que trazem contribuições importantes para o estudo da perda da identidade do homem moderno. A seguir, se apresentará uma pequena idéia sobre o pós-modernismo.

No segundo capítulo será feito um apanhado geral sobre o autor José Saramago, no sentido de conhecer o seu estilo de escrever. No terceiro, será realizado um estudo da obra A Caverna. No quarto capítulo se seguirá outra, que constará de dados sobre o Mito da Caverna de Platão para que se possa extrair os elementos que se assemelham ou diferenciam do livro estudado. E para finalizar, apresentar-se-á idéias que definam e estabeleçam argumentos que dêem conta de justificar os motivos que levam o homem a perder a sua identidade no mundo atual.




  1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Por ser uma das formas de expressão cultural de um povo, a literatura na maioria das vezes, busca a sua referência no que Marc Augé denomina “lugar antropológico”. Em A Caverna, José Saramago destrói as referências desse lugar, que confere ao homem uma identidade, define sua relação com o meio, bem como o situa em um contexto histórico.

A supressão da identidade sob o olhar que o pós-modernismo lança ao passado, ultrapassa as barreiras formais da história. Especificamente, a atitude pós-moderna consiste em tecer leituras do passado, tomando por parâmetro a consciência de que o conhecimento que se tem dele nada mais é do que a textualização das impressões humanas acerca dos eventos.

No livro Não-Lugares (1994), Marc Augé analisa a relação do homem com o espaço, a questão da identidade e da coletividade. Ele designa “não-lugar” todos os dispositivos e métodos que visam à circulação de pessoas, em oposição à noção sociológica de “lugar”, isto é, à idéia de uma cultura localizada no tempo e no espaço. Segundo Augé os espaços em que os indivíduos vivem, necessitam de uma reavaliação, pois estes vivem em um mundo em que ainda não aprenderam a olhar.

Ao analisar as relações entre o homem e o seu grupo social, Augé nos alerta para o fato de que a organização e a constituição de lugares são um dos desafios e uma das modalidades das práticas coletivas e individuais para a busca de identidade. As coletividades têm necessidade de pensar, simultaneamente, a identidade e a relação e de simbolizar os constituintes das diferentes formas de identidade: da identidade partilhada – pelo conjunto de um grupo; da identidade particular – de um grupo ou de um indivíduo ante outros e da identidade singular – naquilo em que o indivíduo ou grupo difere de todos os outros. Todas as antigas raízes, que marcam o lugar antropológico, que pretende ser identitário, relacional e histórico são desfeitas.

Assim, o lugar antropológico-cultural é substituído pelo não-lugar, pela provisoriedade da subsistência, pela redução dos códigos de convivência social a um estado de barbárie, em que será preciso aprender a viver de novo, a construir novos parâmetros para a identidade.

É relevante, observar, no entanto, que no não-lugar, recompõem-se alguns lugares, até porque os lugares evocados pelos ritos da memória, onde se encontram inventariados, nunca se apagam completamente, assim como o não-lugar se realiza totalmente. Graças à reconstituição das relações humanas, ainda que sob novos códigos e regras, o não-lugar é impedido de existir em uma forma pura. O espaço do não-lugar liberta aquele que lá penetra das amarras de sua vida habitual, a tal ponto que, enquanto passageiro desse não-lugar, pode até mesmo ser capaz de gozar, momentaneamente, as alegrias passivas dessa desidentificação com o eu.

A presença do passado no presente se expressa em uma polifonia em que o velho e o novo se cruzam, na evocação de uma temporalidade contínua. Ao mesmo tempo em que as personagens evocam os lugares da memória, os substituem para o lugar antropológico do qual já não fazem parte, gerando assim comportamentos que se coadunem com esse novo padrão de existência. Segundo Augé o que o indivíduo procura é a sua diferença, a nítida revelação de uma identidade perdida.

Saramago faz uso de um recurso tipicamente pós-moderno ao confrontar os princípios de civilização com aqueles que são levados a construir. Instaurando e subvertendo situações, o autor deixa entrever no texto interrogações que encenam o paradoxo pós-moderno de ser ao mesmo tempo cúmplice e crítico das normas predominantes. O fio condutor do romance A Caverna leva não só as personagens como também o leitor a refletirem sobre as relações entre o individual e o coletivo. Sendo assim, não só as personagens, mas o leitor também é passageiro no não-lugar que a escritura encena. Se não há modelos a serem seguidos e se o referencial do nome e do lugar já não são suficientes, cabe ao leitor, assim como às personagens, traçarem individualmente a sua trajetória. A nova identidade é construída a partir de um novo pensar coletivo.

Em um mundo, no qual já não se crê nas narrativas mestras, no discurso homogeneizante da modernidade, há que pensar a diferença. Se por um lado o pós-modernismo reconhece que os discursos são instrumentos de poder, que enunciam verdades, graças a sua capacidade de moldar práticas, por outro lado, o discurso pós-moderno é problematizante e inquiridor. Não há um modelo pós-moderno a ser seguido e sim um conjunto de estratégias mais ou menos freqüentes que sugerem o que se convencionou chamar pós-modernismo.

No plano da diegese é no não-lugar que as contradições da natureza humana se revelam e são experimentadas. No plano da narração, por ser espaço transitório do pensamento e da reflexão sobre o romance enquanto obra de arte, é onde as estratégias novas e antigas se encontram, onde passado e presente se cruzam no ato constante de recriar; a escritura revela-se o lugar onde, por meio da exposição do caos, o leitor é convidado a repensar o mundo em que vive.

O texto de Marc Augé esclarece quanto ao modo pelo qual o indivíduo resolve os resquícios do passado como uma maneira de manter vivo o lugar antropológico do qual faz parte. Mais do que isso, seu texto chama atenção para o fato de que o habitante do lugar antropológico vive na história e, não faz história. É no lugar da memória, contrapondo passado e presente, que o homem constrói a sua diferença.

O descentramento do sujeito, a multiplicidade de vozes e o discurso intertextual sugerem um deslocamento ainda maior, na direção da pluralidade e da heterogeneidade que são as marcas do pós-moderno. O tema que norteia o romance A Caverna, a questão da alteridade, está em consonância com a retórica pluralizante do pós-modernismo.

      Neste início de século fala-se muito em crise de identidade do sujeito. O homem da sociedade moderna tinha uma identidade bem definida e localizada no mundo social e cultural. Mas uma mudança estrutural está fragmentando e deslocando as identidades culturais de classe, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade. Se antes, estas identidades eram sólidas localizações, nas quais os indivíduos se encaixavam socialmente, hoje elas se encontram com fronteiras menos definidas, provocando no indivíduo uma crise de identidade.

      A chamada crise de identidade é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.

      O próprio conceito de identidade é muito complexo, pouco desenvolvido e pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova, sendo impossível fazer afirmações conclusivas sobre proposições teóricas.

Alguns teóricos acreditam que as identidades modernas estão entrando em colapso, o argumento se desenvolve da seguinte forma. Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe. Gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós mesmos como seres integrados. Esta perda de um “sentido de si” estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma “crise de identidade” para o indivíduo. Como observa o crítico cultural Kobena Mercer, ‘a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza’ (MERCER, 1990, p. 43)

      Distinguem-se três concepções muito diferentes de identidade. Primeiro, o sujeito do Iluminismo, visto como um indivíduo centrado, unificado, dotado de capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo centro consistia num núcleo interior, que emergia quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, e esse centro essencial era a identidade da pessoa. Ou seja, a identidade era algo nato do indivíduo.

      Em segundo, o sujeito sociológico era o reflexo da crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com outras pessoas, que mediavam para este sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele habitava. Ou seja, o indivíduo era produto do meio. A identidade, então, une o sujeito à sociedade. Estabiliza os sujeitos e os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis.

      Argumenta-se, entretanto, que é exatamente isso que está mudando hoje. O sujeito com uma identidade unificada e estável está se tornando fragmentado, compondo-se não mais de uma única identidade, mas de várias, resultando na terceira concepção, o sujeito pós-moderno. Este não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se móvel, formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um eu coerente.

      A globalização é o caráter de mudança na modernidade que mais tem impacto sobre a identidade cultural atual. As sociedades modernas mudam constante, rápidas e permanentemente.

As sociedades da modernidade tardia são caracterizadas pela diferença; elas são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes ‘posições de sujeito’ – isto é, identidades – para os indivíduos. Se tais sociedades não se desintegram totalmente não é porque elas não são unificadas, mas porque seus diferentes elementos e identidades podem, sob certas circunstâncias, ser conjuntamente articulados. Mas essa articulação é sempre parcial: a estrutura da identidade permanece aberta. Sem isso, não haveria nenhuma história.(HALL, 2004, p. 17). 

      A globalização é entendida como um complexo de processos e forças de mudança que está deslocando as identidades culturais nacionais na atualidade. A globalização se refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado. A globalização implica um movimento de distanciamento da idéia sociológica clássica da sociedade como um sistema bem delimitado e sua substituição por uma perspectiva que se concentra na forma como a vida social está ordenada ao longo do tempo e do espaço. Essas novas características temporais e espaciais estão entre os aspectos mais importantes da globalização a ter efeito sobre as identidades culturais.

      O impacto que a globalização tem sobre as identidades culturais é a aceleração dos processos globais, de forma que se sente que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, que os eventos em um determinado lugar têm impacto imediato sobre pessoas e lugares situados a uma grande distância. O mundo tornou-se uma aldeia.

Nas sociedades pré-modernas, o espaço e o lugar eram amplamente coincidentes, uma vez que as dimensões espaciais da vida social eram, para a maioria da população, dominadas pela presença – por uma atividade localizada... A modernidade separa, cada vez mais, o espaço do lugar, ao reforçar relações entre outros que estão ‘ausentes’, distantes (em termo de local), de qualquer interação face-a-face. Nas condições da modernidade..., os locais são inteiramente penetrados e moldados por influências sociais bastante distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente aquilo que está presente na cena; a ‘forma invisível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza. (GIDDDENS, 1990, p. 18 - p.72). 

      Alguns teóricos culturais argumentam que a tendência em direção a uma maior interdependência global está levando ao colapso de todas as identidades culturais fortes e está produzindo a fragmentação de códigos culturais, a multiplicidade de estilos, a ênfase no efêmero, no impermanente e na diferença e no pluralismo cultural. Os fluxos culturais, entre nações, e o consumismo global criam possibilidades de identidades partilhadas. À medida que as culturas nacionais tornam-se mais expostas a influências externas, é difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que elas se tornem enfraquecidas através do bombardeamento e da infiltração cultural.

      A difusão do consumismo em escala global faz com que as diferenças e as distinções culturais, que até então definiam a identidade, fiquem reduzidas a uma espécie de língua franca internacional ou de moeda global, em termos das quais todas as tradições específicas e todas as diferenças podem ser traduzidas. Esse fenômeno é conhecido como “homogeneização cultural”.

      A homogeneização cultural é o grito angustiado daqueles que estão convencidos de que a globalização ameaça solapar as identidades e a unidade das culturas nacionais. Entretanto, como visão do futuro das identidades num mundo pós-moderno, este quadro, da forma como é colocado, é muito simplista, exagerado e unilateral.

      Outro efeito desse processo de globalização foi o de ter provocado um alargamento do campo das identidades e uma proliferação de novas posições-de-identidade, juntamente com um aumento de polarização entre elas. Esses processos constituem possíveis conseqüências da globalização, como a possibilidade de um fortalecimento de identidades locais ou a produção de novas identidades.

A globalização tem o efeito de contestar e deslocar as identidades centradas e ‘fechadas’ de uma cultura nacional. Ela tem um efeito pluralizante sobre as identidades, produzindo uma variedade de possibilidades e novas posições de identificação, e tornando as identidades mais posicionais, mais políticas, mais plurais e diversas; menos fixas, unificadas ou trans-históricas. Entretanto, seu efeito geral permanece contraditório. Algumas identidades gravitam ao redor daquilo que Robins chama de ‘Tradição’, tentando recuperar sua pureza anterior e recobrir as unidades e certezas que são sentidas como tendo sido perdidas. Outras aceitam que as identidades estão sujeitas ao plano da história, da política, da representação e da diferença e, assim, é improvável que elas sejam outra vez unitárias ou ‘puras’; e essas, conseqüentemente, gravitam ao redor daquilo que Robins (seguindo Homi Bhabha) chama de ‘Tradução’. (p. 87) 

      Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas que estão suspensas, em transição, entre diferentes posições; que retiram seus recursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições; e que soa produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo globalizado.

      Pode-se pensar na identidade, na era da globalização, como estando destinada a acabar num lugar ou noutro: ou retornando às suas raízes ou desaparecendo através da assimilação e da homogeneização. Mas isso pode estar errado, pois há outra possibilidade: a da Tradução, a qual descreve aquelas formações de identidade que atravessam e intersectam as fronteiras naturais, compostas por pessoas que foram dispersadas para sempre de sua terra natal. Essas pessoas retêm fortes vínculos com seus lugares de origem, mas negociam com as novas culturas em que vivem, sem simplesmente serem assimiladas por elas e sem perder completamente suas identidades.




  1. PÓS-MODERNISMO

Na literatura, o conceito de pós-modernismo afirma-se, em Portugal, desde finais da década de 70, e, tal como nas artes plásticas, prende-se a um olhar revivalista e irônico (no sentido lúdico e de distanciação) que retoma marcas estilísticas de diferentes momentos da tradição artística, questionando-se, sobretudo, a concepção do modernismo como movimento inovador permanente e incessante, característico das vanguardas. Não chegando a constituir um movimento coeso e bem delimitado, o termo indica, com maior propriedade, um conjunto de tendências ou reações que, em parte, prolongam as aquisições formais, éticas e estéticas da modernidade; e em parte, pretendem fazer a crítica desta última, negando ou recusando algumas das suas características fundamentais.

Criando-se uma teia de referências de diferentes épocas e gêneros, o grau de conhecimento destas referências, por parte do leitor, condicionará a interpretação que este faz do texto. A citação (em sentido amplo) de outros autores e a contaminação por outros textos, servem freqüentemente efeitos de paródia, de denúncia, ou de simples pista de reflexão. O pós-modernismo recusa, assim, uma concepção de modernidade como vanguarda, socorrendo-se de material de certa forma já existente que reorganiza na tentativa de criar novos sentidos.

A partir dos anos oitenta, é de assinalar o conceito de pós-modernismo para designar uma tendência que, de certa forma, prolonga esta consciência da atualização do texto pelo leitor. O autor não é só emissor; o leitor não é só receptor; a obra não é só obra, ou seja, todos são sujeitos da criação. O que se cria é o que está, assim como o autor, por mais que negue, sedento para não ser fechado, mas, ao invés disso, incorporar aquela interpretação e aquele conjunto de subjetividades que unicamente ali, naqueles únicos indivíduos desconhecidos que compartilham o discurso, são reconhecidas. E cada um destes é totalmente diferente de qualquer outro.




  1. O AUTOR: JOSÉ SARAMAGO

José Saramago nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, ao norte de Lisboa, Concelho de Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922, embora o registro oficial mencione o dia 18. Seus pais eram camponeses que emigraram para a capital quando ele ainda não perfizera três anos de idade. Fez estudos secundários (liceu e técnico) que não pôde continuar por dificuldades econômicas. Voltou a estudar mais tarde, em curso técnico. O seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas outras profissões: desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, editor e tradutor antes de consagrar-se como um dos mais destacados escritores contemporâneos.

José Saramago começou a ter contato com livros ao freqüentar o curso técnico de mecânica, estimulado pela disciplina de Literatura. Em 1947, aos 25 anos, publicou o seu primeiro romance Terra do Pecado. Permaneceu sem publicar até 1966, quando lançou sua segunda obra intitulada Os Poemas possíveis, a qual apresenta uma coletânea de poemas e ensaios escritos em suas horas vagas.
Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na Revista Seara Nova. Até meados da década de 70, Saramago se dedicou ao jornalismo, sem nunca ter freqüentado uma Universidade. Escreveu crônicas políticas e cotidianas, além de poemas e algumas peças teatrais. Tornou-se membro do Partido Comunista e lutou contra a ditadura salazarista e pela volta à democracia no país.

Em 1972 e 1973 fez parte da redação do Jornal Diário de Lisboa onde foi comentador político, tendo também coordenado durante alguns meses, o suplemento cultural daquele vespertino. Pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre abril e novembro de 1975 foi diretor-adjunto do Diário de Notícias.

Em abril de 1975, a Revolução dos Cravos restabeleceu a democracia em Portugal. Em novembro deste mesmo ano, uma ação contra-revolucionária destitui o governo revolucionário e José Saramago foi demitido do jornal português por razões políticas, e sem nenhum auxílio, o autor decide se dedicar exclusivamente à literatura. A partir de 1976, conquistou então, o privilégio de viver da literatura. Somente após os 60 anos de idade, sua obra ganhou o merecimento internacional que merecia. Assim, em 1977, já publica Manual de Pintura e Caligrafia e, em 1980, firma-se como talentoso escritor no cenário mundial com Levantado do Chão.

Seguem-se a estes livros grandes obras como Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1988). Em 1992, irritado com a reação de seus compatriotas ao livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, considerado ofensivo às crenças religiosas dos portugueses, o escritor decidiu abandonar o país. Aos 78 anos, deixou Lisboa e se refugiou na ilha de Lanzarote, no arquipélago espanhol das canárias, onde vive ao lado de sua segunda mulher, a jornalista sevilhana María del Pilar del Rio Sanches.

Em 1995, José Saramago parece iniciar uma nova fase em seu processo de composição, abandonando os romances que tratavam de épocas passadas, fazendo referências críticas a importantes momentos históricos, e passa a compor obras que possuem como temática central a época presente. Compõe, assim, o que chamaria de sua trilogia inconsciente: Ensaio Sobre a Cegueira (1995), Todos os Nomes (1997) e A Caverna (2000). Em 1998, recebeu o prêmio Nobel de Literatura, como reconhecimento mundial por sua excelente produção artística.

Trata-se de um escritor muito comprometido com os rumos da humanidade, o que facilmente percebemos em várias das suas obras, nas quais demonstra que o fazer literário não pode prescindir do momento histórico e dos problemas da vida. Sendo consciente disso, quer em suas obras ou em seus discursos, despertar a consciência de seus leitores de que a literatura pode ser um importante instrumento de alienação ou conscientização dos homens.




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