A dimensãO Ética do olhar atento: esboço de uma hermenêutica da relaçÃo professor-aluno introdução



Baixar 29.79 Kb.
Encontro13.01.2018
Tamanho29.79 Kb.

A DIMENSÃO ÉTICA DO OLHAR ATENTO: ESBOÇO DE UMA HERMENÊUTICA DA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO

Introdução

O cotidiano de uma sala de aula nos revela/esconde as tramas constituídas a partir das múltiplas relações aí tecidas entre os alunos entre si e entre eles e o professor, relação alcunhada de “professor-aluno”, expressão carregada de múltiplos sentidos, sendo que o mais valorizado/buscado/desejado/objetivado é o epistemológico, reduzindo assim, a multiplicidade dos sentidos desta relação para apenas um, obviamente aquele que mais interessa ao sistema na era da tecnologia ou tecnociência, isto é, sua dimensão epistemológica.

Entretanto, esta redução dos sentidos da relação professor-aluno à sua dimensão epistêmica têm provocado uma impossibilidade da realização deste mesmo sentido, além de estimular/criar a situação de um conflito mudo, de uma comunicação truncada, não realizada e um agudo distanciamento afetivo, que em termos éticos podemos traduzir como falta de respeito. As relações humanas entretecidas em sala de aula são marcadas pela exigência do respeito (sabe-se disso/conhece-se isso), muito aquém estão as demonstrações de respeito (da experiência). A falta de respeito, manifestada principalmente na forma do desinteresse, da apatia e da violência impossibilita o diálogo e o entendimento, elementos fundamentais no processo de ensino-aprendizagem, objetivo primeiro da escola como instituição social. Sintetizando nossa problemática, nos questionamos: por que a relação professor-aluno está marcada ou é caracterizada atualmente pela falta de respeito, pela apatia e pela indiferença, gerando conflitos éticos que, por sua vez, compromete a aprendizagem escolar?

Referencial Teórico
Temos como hipótese, refletindo junto a Gadamer (1989, 1998), Esquirol (2008) e Galimberti (2006) que a tecnociência como visão de mundo imperante, sustentada pelo tríplice interesse de produção-consumo-lucro (economicismo) reduz nossa visão de mundo/homem para uma esfera tecno-burocrático-consumista, ofuscando e promovendo o abandono de valores necessários para uma existência propriamente humana, traduzida em um esvaziamento de sentido para vida, uma desorientação no sentido de uma cegueira1, uma sensação de estarmos perdidos eticamente (logo, humanamente) falando. A escola, como uma instituição cultural, não fica alheia a esta questão e a força da cosmovisão representada pelo paradigma tecnocientífico altera profundamente a relação professor-aluno. (DUFOUR, 2001).

Objetivos

A pesquisa objetiva esboçar uma hermenêutica filosófica do fenômeno do respeito ou do olhar atento a partir de uma perspectiva ética seguindo as trilhas abertas pelo filósofo catalão Josep Maria Esquirol, nas quais os conceitos de “Atenção” e “Respeito” estão intimamente relacionados, ultrapassando a esfera cognitiva e perceptiva para atingir uma dimensão profundamente ética, necessária e urgente na escola dos dias atuais.



Metodologia

O alcance dos objetivos previstos será assegurado através de uma hermenêutica filosófica do fenômeno em questão com base em textos filosóficos e publicações especializadas sobre a questão. Pretendemos investigar o conceito de “Respeito” ou do “olhar atento” na obra de Esquirol, bem como na bibliografia filosófico pedagógica, com a finalidade de resistirmos ou até superarmos o atual estado da existência, revelado na escola como a indiferença, a apatia e a falta de interesse, tão comuns na escola contemporânea, os quais (parecem comprometer) comprometem a função social da escola, isto é, o ensino-aprendizagem.


Desenvolvimento
Consideramos que a técnica deixou de representar simplesmente os meios, isto é, os instrumentos com quais alteramos em nosso favor a natureza, para configurar a maneira como concebemos o mundo e como o fim mesmo da sociedade ocidental. É notório o fato de que a mais “primitiva” sociedade humana faz uso da técnica, quer seja para facilitar seu trabalho, quer seja mais torná-lo mais produtivo. Entretanto, em nenhuma sociedade antes da nossa, a dependência em relação à técnica foi tão grande e em nenhuma o seu poder se mostrou tão grandioso. Neste sentido é que Esquirol (2008) aponta quatro caraterísticas marcantes na técnica de nosso tempo ou o “tempo da técnica”. Para ele, a técnica revela-se como um a) poder inédito; b) como um sistema; c) uma revelação e; d) como uma linguagem. Trata-se, portanto, de uma alteração da maneira como vemos o mundo e não apenas nos meios que manipulamos o mundo, trata-se de uma alteração da própria visão de mundo.

Uma maneira de fazer frente a esta situação deve ser orientada para um exercício, para uma atitude e para uma experiência do “olhar atento”, que nos proporciona uma experiência da percepção do "outro" como radicalmente “outro”, mas que desde sempre é também aquele que me constitui no mundo e pelo qual devo "respeito". Concordamos com Esquirol (2008) quando ele estabelece uma estreita ligação entre a falta de respeito e falta de atenção ou a falta de um olhar atento; para ele é a atenção ou o olhar atento que garante o respeito, tão almejado no interior das escolas. Entretanto, como se trata de um conhecimento da ordem da experiência ética, fruto de exercício (ação) e/ou de uma atitude ética, talvez não possa ser ensinada mas apenas – urgentemente - apontada.

Para Esquirol (2008), a atitude do respeito, do ponto de vista ético, tem um vinculação essencial com a atitude da atenção, desde sua etimologia latina em que a palavra Respectus, derivando do verbo latino Respicere, significa “olhar atrás”, “voltar a olhar”, em suma, olhar com atenção. Assim, o cerne, a essência do respeito está no olhar atento. Em outras palavras, a atitude do respeito compreendida como uma distância aproximada, um acercamento que permite uma perspectiva, que permite um olhar, cuja essência é o exercício da atenção, à maneira aristotélica; a falta de respeito, portanto, será compreendida desde um excesso desta distância que culminará na indiferença ou como uma supressão desta mesma distância, cujo fruto é a violência (a tentativa de suprimir o outro), também caracterizado pelo consumo e pelo sentimento de posse, submissão e subsunção do “outro”, no sentido geral, que ultrapassa “outro” humano.

O autor descreve a atenção como um movimento, uma atividade (prestar ou colocar atenção; focalizar; selecionar) e como um estado (estar atento, estar vigilante) contrastando com outros estados: distraído, sonolento entre outros. Comporta também as dimensões da circunscrição e da concentração, o que implica deixar de lado certas coisas para poder se ocupar de outras com mais efetividade.

A atitude atenta apura nossos sentidos e nos faz mais vulneráveis aos “objetos” de nossa atenção como veremos adiante, atitude que nos solicita um esforço e uma pausa para que possamos sair do fluxo que nos mostra um mundo “liso” e homogêneo e precisamente nas regiões e nas coisas que nos rodeiam e que tem para nós um caráter familiar é que nos acomodamos em certo estado de desatenção que nos leva a nos dispersarmos entre as coisas; provavelmente, argumenta Esquirol (2008), na base desta atitude esteja uma espécie de “economia energética”, cotidianidade que nos leva à falta de atenção. Entretanto, mesmo nela, é possível – e necessário – parar e apurar os sentidos, apurar o olhar para que o simples e o comum que abunda em nosso cotidiano se mostre em sua estranheza e profundidade.

Em suma, além da estruturação contemporânea da sala de aula, a rotina e a familiaridade das relações aí estabelecidas são elementos que se mostram como tendências que dificultam o olhar atento, já que quase todos os dias convivemos com as mesmas pessoas e assistimos os mesmos gestos (pedagógicos) onde são repetidos protocolos e atitudes habituais. São obstáculos que devem ser considerados para que possamos reconhecer no cotidiano e no banal o estranho e o profundo. O olhar atento não requer nem tempo, nem lugar especial, posto que seu exercício deve dar na vida-vivida, no próprio cotidiano.

Entre os benefícios da atenção estão não os ligados aos bens materiais que se podem acumular, mas os “benefícios para a própria formação” (ESQUIROL, 2008, p.65) já que “o conhecimento propriamente dito procede de um olhar atento e sistemático na direção adequada. A paciência em observar é caminho que leva a importantes percepções e descobertas” (ESQUIROL, 2008, p. 65). Simone Weil, como destaca Esquirol (2008), acreditava que objetivo fundamental da educação deve ser justamente exercitar a atenção. A agudeza da atenção tem um campo ilimitado de aplicações. Serve tanto para captar aspectos da realidade física, como também é aplicável à dimensão moral da condição humana já que “ao olhar atento se revelam os valores das coisas e das ações, até o ponto de compreender que o que é justo ou o que é bom se impõe por si mesmo” (ESQUIROL, 2008, p. 66).

Conclusões

A atenção do ponto de vista ético, faz parte de uma temática geralmente esquecida e não valorizada pela filosofia e por sua história na medida em ela mantém laços com os pressupostos fundamentais da filosofia moderna. Esta situação pode ser ilustrada com a quase ausência do verbete “atenção” nos dicionários de Filosofia e Filosofia da Educação e sua presença praticamente nula nas pesquisas sobre/em educação, surgindo poucas e tipicamente associado à Psicologia da Educação e aos modernos TDAH (Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Nos dicionários de Filosofia e Filosofia da Educação pesquisados ele aparece em apenas uma vez e não localizamos em nossas buscas e pesquisas nenhum trabalho que investigue a atenção desde o ponto de vista da ética.

A atenção como um tema genuinamente filosófico ganhou importância e foi recuperado por estudiosos da filosofia antiga que, como Hadot (2003, 2009), perceberam que a filosofia em sua plenitude não poderia ser considerada apenas como uma produção/exposição de um sistema teórico desligado da experiência que fazemos no mundo, mas que ela deveria ser tomada como “modo de viver” que nos implica profundamente e que é praticada, exercitada, tendo como finalidade uma espécie de autotransformação que possa nos tornar dignos do que nos acontece. (BÁRCENA, 2004). A atenção, do ponto de vista ético, apenas pôde ser considerada como um tema de importância filosófica a partir deste registro, que busca não tanto informar, mas antes provocar um efeito de formação. (HADOT, 2003).

Acreditamos que se trata de uma atitude imprescindível na relação professor-aluno, dada aos insistentes pedidos de atenção nas salas de aula contemporâneas, situação que nos indica mais a sua falta do que sua presença, especialmente no contexto de uma sociedade na qual a tecnologia aliada à ciência é convertida na maneira hegemônica de “ver o mundo”, cuja aliança com um sistema econômico sustentado pelo tripé produção-consumo-lucro condiciona as relações que estabelecemos com o “outro”, limitando-as e reduzindo-as a esquemas burocráticos, impessoais, frios e calculistas.

Apesar do ranço moralizante que a palavra respeito possa nos causar, não foi neste sentido que procuramos tratar o tema, mas sim desde sua vinculação essencial com a ideia de atenção. Isto é, respeito como uma atitude ética que revela um olhar atento, que revela atenção. Atitude pouquíssimo valorizada nas sociedades do consumo que procura abafar qualquer indício de atenção, consequentemente sua falta é sentida em nossas salas de aula.

O modelo da atitude socrática que comporta o convite ao diálogo aberto e franco, da pergunta, do exame, cuja postura despretensiosa reconhece o caráter inesgotável e sempre inacabado do conhecimento, cujo objetivo não é apenas informar, mas impactar, causar um efeito de formação (HADOT, 2009) no interlocutor parece ser o modelo filosófico da atitude atenta. Para nós uma possibilidade de fazermos frente às imposições da sociedade da indiferença e do consumo que impregnam as relações humanas contemporâneas, especialmente as constituídas no interior das salas de aulas.



Referências
BÁRCENA, F. El delírio de las palabras – Ensayo para una poética del comienzo. Herder. Barcelona, 2004.

BENEDETTI, I. Et URT S. C. Escola, ética e cultura contemporânea: reflexões sobre a constituição do sujeito que “não aprender”. In Psicologia da Educação. 27, 2. sem. 2008, pp. 141-155.

BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio. Brasília, 1999.
DUFOUR, D.-R. Le monde diplomatique. Malaise dans l'éducation. Disponível em: <http://www.monde-diplomatique.fr/2001/11/DUFOUR/15871>. Acessado em: 06/03/2011.

ESQUIROL, J.M. O respeito ou o Olhar atento. Trad. Cristina Antunes. Belo Horizonte: Autêntica. 2008.


GADAMER, H.-G. A razão na época da ciência. Trad.: Ângela Dias. Tempo Brasileiro . Rio de Janeiro, 1983.
GADAMER, H.-G. O problema da consciência histórica. Trad.: Paulo Cesar Duque Estrada. Fundação Getúlio Vargas Ed. . Rio de Janeiro, 1998.
GINGELL, J.et WINCH C. Dicionário de filosofia da educação. Trad. Renato Marques de Oliveira. Contexto. São Paulo, 2007.
HADOT, P. La filosofía como forma de vida. Conversaciones com Jeannie Carlier Y Arnold Davidson. Trad. María Cucurella Miquel. Alpha Decay. 2009. Barcelona.
__________Exercices Spirituels et philosophie antique. Ed. Albin Michel S.A, 2002. Paris.



MEIRELLES, F. Blindness – Ensaio sobre a Cegueira. 2008.
SANTOS, G. S. O conceito de humanismo nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. 2008. 119 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Marília, 2008.

SÃO PAULO. Constituição Estadual. Lei nº 12.730, de 11 de outubro de 2007.


SARTRE, J.P. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 782 p.
SCHEFFLER, I. A Linguagem da educação. São Paulo: Edusp; Saraiva, 1974.

1É muito sugestivo o filme Blindness (2008) traduzido no Brasil como Ensaio sobre a cegueira, baseado em obra homônima do escritor português José Saramago e dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles.no qual os personagens são acometidos por uma curiosa cegueira branca, inexplicável que se alastra e afeta todo mundo sem que se possa descobrir suas causas e sua cura. Durante as tomadas vemos o desmoronar completo da sociedade que perde tudo aquilo que considera civilizado ao mesmo tempo em que um grupo de internos - mantidos em quarentena enquanto a cegueira se espalhava - tenta reencontrar a humanidade perdida. O brilho branco da cegueira ilumina as percepções das personagens principais e a história torna-se não só um registro da sobrevivência física das multidões cegas, mas, também, dos seus mundos emocionais e da dignidade que tentam manter. Mais do que olhar, importa atentar-se no outro, olhá-lo com atenção. Só dessa forma o homem encontra o digno de respeito, como argumenta Esquirol (2008).


Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal