A discursividade do social no entrecruzamento das cenas



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A DISCURSIVIDADE DO SOCIAL NO ENTRECRUZAMENTO DAS CENAS
Suzy Lagazzi-Rodrigues

DL/IEL/UNICAMP

Este texto se inicia com a necessidade de explicitar algumas condições de sua produção. Em meus percursos discursivos, sempre me confronto com o desejo de compreender de que maneira a formulação de relações de conflito social pode configurar possibilidades de se produzir crítica social. De que maneira a formulação pode permitir a passagem da constatação do conflito social para a produção de crítica social? Como a maneira de formular o conflito no social pode conseguir desestabilizar sua leitura, conseguir “produzir um furo” em sua estabilidade, para retomar os termos específicos de Michel Pêcheux. Quando falo em formulação, entendo que esse processo tem como base material a linguagem verbal e linguagens não-verbais, o que me permite me confrontar com a formulação do social na complexidade que ela demanda.

Esse meu desejo abre para algumas vias, dentre as quais duas se fazem iminentes: a definição de ‘crítica social’ e a análise do trabalho da formulação do conflito social sobre diferentes materialidades. Mas antes que a proposta de definição de ‘crítica social’ me lance em um terreno de discussões infindáveis, consideradas por alguns até mesmo como anacrônicas, recorto essa questão: definir discursivamente ‘crítica social’. O que não significa que deixarei de tocar, ainda que neste momento de maneira inicial, algumas fronteiras teóricas que constituem esse espaço de reflexão que me interessa.

A entrevista certa num momento muito propício! Uma leitura que produziu sentidos e ajustou algumas compreensões. Publicada na revista PESQUISA FAPESP n°98, de abril de 2004, a entrevista intitulada Um crítico na periferia do capitalismo, realizada com Roberto Schwarz, colocou sob minha escuta algumas considerações que me permitem uma interlocução produtiva.

Nesta entrevista o professor Schwarz aborda sua trajetória intelectual, da qual é perspectiva fundadora o marxismo. Discutida no campo da literatura, a abordagem marxista leva Roberto Schwarz para o espaço da crítica dialética. Em certo momento da entrevista o professor afirma: “a análise histórico-estrutural coloca-se no terreno das configurações e dos funcionamentos objetivos, cuja dinâmica não corre em trilhos previstos, podendo levar aonde o autor não imaginava” (p.16). Formulações em muitos pontos familiares para todos os que trabalham na perspectiva discursiva materialista. E tão importante quanto repetir que o autor não controla o sentido do texto que escreve, é ressaltar a não-previsibilidade da leitura a que o analista é conduzido pela remissão da estrutura à história e, podemos acrescentar, às condições de produção da discursividade em análise.

Pouco mais à frente o professor Schwarz retoma o ensaio de Adorno sobre Beckett: “Em Fim de partida as personagens são figuras metidas numa lata de lixo, mutiladas e falando uma linguagem limitada a quase nada, um resíduo. Isso costuma ser considerado uma redução ao essencial, um minimalismo atemporal, para mostrar que o ser humano, mesmo na situação mais precária, conserva inteira a sua grandeza. Mas Adorno desloca a cena, lhe põe uma data e diz que, muito ao contrário, o que Beckett está descrevendo é uma sociedade “pós-catástrofe”. Pós-catástrofe nuclear, pós-Segunda Guerra Mundial, enfim, a época em que a civilização moderna mostrou que a sua capacidade de autogoverno ou de auto-superação não é o que se dizia. Dentro desse universo, os farrapos de filosofia, os resíduos de iniciativa, de desejo de progresso, os cacoetes da esperança, representam na verdade lixo intelectual, água servida. Assim, a operação crítica consistiu em deslocar para um momento histórico preciso e bem explicado, embora imaginado, o que se costumava alegorizar como a condição humana. O deslocamento confere uma incrível vivacidade e particularidade artísticas ao que pareceriam alegorias e generalidades insossas. Do lado do referente também há deslocamento: a sociedade não é nacional, regional ou municipal, ela é o planeta depois do desastre. O ensaio de Adorno muda a leitura de Beckett e é um grande achado crítico. É um exemplo de como o referente social e histórico tem âmbitos inesperados e pode ser de diferentes tipos.” (p. 16-17)

O professor Schwarz reitera que “o traço que distingue a crítica dialética, e que a torna especial, é que ela desbanaliza e tensiona essa inerência recíproca dos pólos, sem suprimi-la. O que for óbvio, para ela não vale a pena. Se não for preciso adivinhar, pesquisar, construir, recusar aparências, consubstanciar intuições difíceis, a crítica não é crítica. Para a crítica dialética o trabalho da figuração literária é um modo substantivo de pensamento, uma via sui generis de pesquisa, que aspira à consistência e tem exigência máxima. O resultado não é a simples reiteração da experiência cotidiana, a cuja prepotência se opõe, cujas contradições explicita, cujas tendências acentua, com decisivo resultado de clarificação. Em suma, em termos de método, o ponto de partida está na configuração da obra, com as luzes que lhe são próprias, e não na sociedade. Ela parte da análise estética e busca o não evidente, o resultado do que o trabalho formal do artista configurou. Ao passo que a posição tradicional, ou positivista, que também vai se renovando e continua presente com outros nomes, se limita aos conteúdos brutos, procurando o mesmo na sociedade e nas obras, vistas em termos redundantes, de confirmação recíproca direta.” (p.15)

Roberto Schwarz afirma, sobre o ensaio de Adorno, que “a operação crítica consistiu em deslocar para um momento histórico preciso e bem explicado, embora imaginado, o que se costumava alegorizar como a condição humana”. E acrescenta, no que diz respeito à crítica dialética, que seu “resultado não é a simples reiteração da experiência cotidiana.” Duas afirmações conseqüentes para discutirmos a possibilidade da crítica na formulação do social.

O gesto analítico de Adorno de recusar a generalização afirmada como “condição humana”, pontua a história e permite que a interpretação se confronte com o seu real. A “condição humana”, como característica intrínseca e geral, é concebida em abstrato, o que nos faz retornar ao conhecido binômio generalização e abstração, tão caro à interpelação jurídica e a todas as interpretações que têm o homem como centro de referência. Para que a crítica se faça mais que “reiteração” de sentidos estabilizados, ela deve necessariamente remetê-los à história, numa perspectiva de abandono de qualquer centramento.

Nesse ponto retomo a segunda afirmação de Schwarz: “o resultado [da crítica dialética] não é a simples reiteração da experiência cotidiana”. Uma inquietação traz de volta meu olhar para a expressão “experiência cotidiana”, fazendo ressoar um momento importante de meu percurso discursivo: a análise do cotidiano das relações interpessoais, foco de minha discussão em O desafio de Dizer Não1. Muitas vezes afirmado como um espaço banal e impróprio para a reflexão teórica, o cotidiano sempre me convidou a ir além das discussões interativas e comunicacionais, buscando compreender, no funcionamento das relações entre as pessoas, a maneira pela qual os sujeitos, expostos a conflitos e tensões constitutivos, se significam na resistência. E que concepção de cotidiano leva o professor Schwarz a afirmar que a crítica dialética deve ir além da reiteração da experiência cotidiana? Voltando para a continuidade de seu texto, lemos: “a cuja prepotência se opõe, cujas contradições explicita, cujas tendências acentua, com decisivo resultado de clarificação”. Encontramos a experiência cotidiana afirmada como prepotente e contraditória, e a crítica dialética como possibilidade de oposição à prepotência e de explicitação das contradições. Portanto, deparamo-nos com uma concepção de cotidiano que demanda interferência crítica, para que a naturalização de nossas interpretações possa ser desconstruída e a “experiência” seja significada como prática dialética, prática cotidiana irremediavelmente contraditória. O cotidiano, quando desnaturalizado, nos oferece a possibilidade de analisarmos a reiteração em detalhes e observarmos a repetição em suas regularidades.

Volto a minhas perguntas iniciais: De que maneira a formulação pode permitir a passagem da constatação do conflito social para a produção de crítica social? Como a maneira de formular o conflito no social pode conseguir desestabilizar sua leitura?

Essas perguntas vêm sendo trabalhadas num projeto de pesquisa intitulado “O discurso nas fronteiras do social”. Como parte desse projeto ministrei, em 2003, duas disciplinas intituladas “Estudos Monográficos”, cujos programas foram a análise discursiva do documentário Tereza, produzido em 1992, dirigido por Kiko Gofman e Caco P. de Souza. Três alunas me acompanharam nesse percurso: Carolina Fedatto, Midori Ota e Silvia Krysevisk. Em conjunto fizemos uma primeira seleção de documentários que enfocassem temáticas sociais de conflito, tendo como base o arquivo do Departamento de Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp. As alunas, então, escolheram cada uma um documentário. Tereza foi um deles. Um documentário extremamente instigante, filmado em um presídio de Campinas. Nossa constante pergunta incidiu sobre a espectação e nosso objetivo foi localizar, no documentário, formulações de conflito social que desestabilizassem a posição do espectador, abrindo espaço para o estranhamento do formulado.

Em nossa análise do trabalho da formulação do conflito social sobre as diferentes materialidades constitutivas do documentário Tereza, enfocamos a relação entre as imagens, a música, os depoimentos dos presidiários e as seqüências escritas. Buscamos, na diferença material, pontos de intersecção, o que significou tomá-las em conjunto, não considerando nenhuma como preponderante sobre as outras.



Tereza não tem um enredo linear, cronológico. Esse documentário traz entradas que não se encaminham para uma fechamento conclusivo, único, e essa regularidade vem marcada no jogo das cenas, na relação com as diferentes materialidades em pauta, desde sua abertura:


Tereza

Esta não é uma

história de

ficção...

esta não é

sequer

uma história


(rosto)


histórias...

Esse jogo de “reaberturas em janelas” foi um ponto bastante discutido em nossa análise, muito interessante principalmente por demandar, no esforço de compreensão analítico, a constante remissão às diferentes materialidades.



Outro ponto que discutimos foi o caráter de não entretenimento do documentário Tereza, e um propósito que nos colocamos é a necessidade de virmos a discutir a relação entre crítica e entretenimento em documentários que tematizam conflitos sociais. Essa discussão será importante para darmos mais conseqüência à posição de espectação na relação com esses documentários. Quando pensamos a crítica no espaço do social, e o espaço da crítica social, o lugar da espectação é a referência que nos situa. A circulação do documentário é uma injunção do seu funcionamento. Nesse sentido, a crítica só se constitui na relação com o espectador. E é nessa relação que buscamos trabalhar os efeitos da intersecção das diferentes materialidades envolvidas no espaço da prática cotidiana irremediavelmente contraditória, no caso de Tereza no espaço cotidiano do presídio.


1 Pontes, Campinas, 1988.





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