A escola como espaço de lazer: uma possibilidade de análise thayza de Oliveira1 resumo



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A ESCOLA COMO ESPAÇO DE LAZER: UMA POSSIBILIDADE DE ANÁLISE
Thayza de Oliveira1
RESUMO: Este trabalho consiste em uma reflexão acerca do ambiente escolar baseado na concepção dos alunos. Buscamos saber qual o papel da instituição escolar na vida de alunos do 3º ano técnico em Edificações de uma escola pública da cidade de Londrina. Para tanto, toda a pesquisa se baseou em um caderno de perguntas entregue a estes, no qual escreveram livremente sobre temas referentes a juventude, lazer, escola e educação. Analisamos se existe uma relação entre a escola e o lazer e como é que o jovem vivencia sua “condição juvenil” tanto dentro como fora da Escola. Vimos que o “aluno-jovem” que está dentro de sala de aula é um agente no sentido de ressignificar o espaço escolar, dando novos sentidos à escola, essenciais para se compreender um pouco do jovem de hoje, bem como suas demandas.
Palavras-Chave: Escola; Educação; Lazer.

INTRODUÇÃO
A presente pesquisa pretende demonstrar a forma com que alunos do 3º ano Técnico em Edificações, de um Colégio Estadual da cidade de Londrina, Paraná, veem e conferem sentidos à educação escolar/ ambiente Escolar. Para tanto, buscamos saber qual relação existe, especificamente, entre duas esferas de sociabilidade: a escola e o lazer. Da mesma forma, buscamos saber que concepções e significados esses jovens atribuem a suas existências nesses dois âmbitos.

Este trabalho é uma tentativa de abarcar as concepções, ideias e “olhares” que os próprios jovens atribuem a suas vivências enquanto jovens. Partimos desta perspectiva tendo em vista que “Só recentemente tem ganhado certo volume o número de estudos voltados para a consideração dos próprios jovens e suas experiências, suas percepções, formas de sociabilidade e atuação” (ABRAMO, 1997, p.25).

Um exemplo disso é que, no período entre 1980 e1995, apenas 2% de pesquisas acadêmicas realizadas foi sobre grupos juvenis e suas formas de sociabilidades coletivas (SPOSITO, 1997 apud DAYRELL 1999). Além disso, destaca Dayrell (1999), vivemos uma “juvenilização” da sociedade, porque se enfatiza grandemente os valores do “ser jovem”, de ter o “espírito jovem” independente da faixa etária e, ao mesmo tempo, há um desconhecimento de quem são esses “jovens”.

Como o foco desta análise abarca o universo juvenil, a tentativa em definir a juventude perpassou/perpassa diferentes campos do conhecimento, dentre eles a Biologia, a Psicologia, a Pedagogia e as Ciências Sociais. De acordo com Groppo (2000), as ciências médicas explicam esse período da juventude por meio da noção de puberdade, como transformações que o corpo do indivíduo sofre em fase de transição do corpo de criança para a fase madura. Outra opinião é abordada pela Psicanálise/Psicologia e também pela Pedagogia, as quais utilizam a ideia de adolescência enfatizando mudanças da personalidade e do comportamento do indivíduo em um processo de se tornar um adulto. E por fim, temos a concepção de juventude, dentro da área das Ciências Sociais/Sociologia, como um “[...] período interstício entre funções sociais da infância e as funções sociais do homem adulto” (GROPPO, 2000, p.14).

Os diferentes campos do conhecimento atribuem diversas definições sobre o que seria a juventude. Outra forma de interpretação, na qual este trabalho se pauta, é a da importância de os próprios “jovens” expressarem suas concepções em torno da sua “condição juvenil”. Em outras palavras, ao analisarmos a relação que o “jovem” vem estabelecendo não só com suas vivências em sociedade, como também com o universo escolar e o lazer, é válido ressaltarmos que partimos da ideia de que existe hoje no Brasil uma nova “condição juvenil”, distinta das gerações passadas, provenientes de mudanças no mundo ocidental e também referentes ao campo do trabalho no Brasil com altas taxas de desemprego (DAYRELL, 2007). Deste modo, analisaremos como os alunos vivenciam sua condição juvenil hoje, bem como tentaremos mostrar qual papel a escola ocupa na vida destes alunos e alunas no atual contexto, marcado por instabilidades e incertezas quando pensamos no mundo do trabalho.

Como anteriormente observado, diferentes campos do saber abordam a temática da juventude. Contudo, o referente trabalho parte da concepção proposta por Dayrell (2007) de “condição juvenil”. Esta última é vista de duas maneiras: como os próprios jovens se enxergam e vivenciam essa realidade e condição e como a sociedade confere significados a essa “fase da vida” ou ciclo deste grupo.

Além disso, levamos em conta o contexto atual acerca da Escola/Educação brasileira, na medida em que é indispensável fazermos uma reflexão da seguinte questão:
Para a escola e seus profissionais, o problema situa-se na juventude, no seu pretenso individualismo de caráter hedonista e irresponsável, dentre outros adjetivos, que estaria gerando um desinteresse pela educação escolar. Para os jovens, a escola se mostra distante dos seus interesses, reduzida a um cotidiano enfadonho, com professores que pouco acrescentam à sua formação, tornando-se cada vez mais uma "obrigação" necessária, tendo em vista a necessidade dos diplomas. Parece que assistimos a uma crise da escola na sua relação com a juventude, com professores e jovens se perguntando a que ela se propõe (DAYRELL, 2007, p. 1106).

Nesse sentido, levamos em conta essa crise que a Escola e os jovens parecem vivenciar. Desta forma, na primeira parte do trabalho, elaboramos uma discussão sobre a relação entre sociedade, escola e juventudes. Em seguida, o ponto de análise se centra nas “juventudes” e suas relações com o espaço da escola, ressaltando as opiniões dos alunos acerca de suas “condições juvenis”, vivências e expectativas atuais.

O ponto de partida desta reflexão é direcionado pela hipótese de que a Escola e o Lazer estão intimamente ligados, no sentido de que ir à Escolaseria um momento de encontro entre os amigos, ou seja, um espaço de gerir sociabilidades múltiplas e coletivas.Em contrapartida, seria também o meio de encontrarem uma estabilidade financeira e profissional no futuro. Por isso um último tópico abordará questões sobre opapel da Escola na “condição juvenil” destes alunos e alunas.

Além disso, pontuaremos as ideias de condição juvenil, juventudes, lazer, educação e escola, bem como uma análise das concepções dos alunos do colégio,apreendidas por meio de um caderno de perguntas entregue a eles, no qual escreveram livremente sobre essas temáticas, além de uma etnografia do espaço da escola e sala de aula, já que pude acompanhar essa turma nas aulas de Sociologia durante todo o ano de 2012.


JUVENTUDE, ESCOLA ESOCIEDADE
Para desenvolvermos as temáticas propostas e chegarmos à compreensão do que os alunos pensam, nas esferas da escola e do lazer, é necessário que façamos uma breve discussão acerca da relação entre juventude e escola na sociedade contemporânea.

A fim de situarmos essas questões, Dayrell (2007) considera que a atual crise da educação vem sendo vista ora como culpa dos alunos, ora da instituição e de seu corpo docente. Contudo, em sua opinião esses embates são frutos de uma mudança da sociedade em que estamos inseridos, que afeta “[...] diretamente as instituições, os processos de socialização das novas gerações, interferindo na produção social dos indivíduos, nos seus tempos e espaços” (DAYRELL, 2007, p. 1106-1107).

Uma das análises possíveis sobre as mudanças sociais, que também perpassa o campo da educação, é realizada por Bauman (2008) que considera que essa crise não tem relação direta com falhas dos teóricos ou das teorias educacionais, mas está ligada à “[...] dissolução universal das identidades, com a desregulamentação e a privatização dos processos de formação de identidade [...]” (BAUMAN, 2008, p. 163), antes realizadas pelo vínculo estável com a esfera laboral, espaço onde as pessoas poderiam estabelecer relações em longo prazo além de construir uma identidade “sólida”.

Já na sociedade atual, denominada por Bauman como líquida – datada a partir de 1950 –, a construção dessas identidades não mais existe como anteriormente, uma vez que a esfera do trabalho se tornou transitória. Essa sociedade tem como característica a instabilidade e a falta de garantias das relações não só do universo do trabalho, mas nas afetivas, sociais, econômicas e políticas, exigindo dos sujeitos uma habilidade de se adaptar a rápidas mudanças. Nesse contexto, as ênfases nos conhecimentos devem seguir o mesmo fluxo de fluidez, marcadas pelo curto prazo (BAUMAN, 2005; 2008).

Podemos interpretar que tanto Dayrell (2007) quanto Bauman (2005; 2008), defendem que atualmente a sociedade está passando por mudanças que interferem no indivíduoem seus meios de socialização,em suas construções identitárias e nas as esferas sociais de modo geral, incluindo a escola e a educação. A escola, atualmente, não é mais um monopólio cultural, no sentido de transmissão de conhecimentos, pois agora tem de competir com outras esferas de informação, como a cultura de massa e a internet, situadas numa sociedade “fluida”. Com isso, está em curso uma modificação sem precedentes na sociedade como um todo e, além disso, a educação deve ser repensada, contestada e reelaborada. Em outras palavras, Bauman (2008) nos permite pensar que a escola/educação precisa ser revista de acordo com os desafios e demandas dos jovens contemporâneos. A crise educacional “[...] é, antes de acima de tudo, uma crise de instituições e filosofias herdadas. Criadas para um tipo diferente de realidade...” (BAUMAN, 2008, p. 164).

É importante situarmos este debate, já que por vezes a instituição escolar se esquece de levar em conta que dentro da sala de aula existe tanto o aluno quanto o jovem, e que aquele não se dissocia da sua “condição juvenil” no espaço escolar. Isso quer dizer que a Escola tende a querer o “aluno modelo” dentro do seu espaço, aquele pontual, obediente e disciplinado, justamente que não leve para dentro da sala o “ser jovem”. O aluno modelo é oriundo da modernidade, e, sobretudo, relacionado ao âmbito do trabalho – a exemplo do trabalhador ideal, do qual se pedia essas mesmas disposições.

Conforme Dayrell (2007) esses dois sujeitos, o jovem e o aluno, não são opostos, mas o sujeito que a vivencia o ambiente escolar sofre essa ambiguidade e isso se reflete na:
[...] escola [que] aparece como um espaço aberto a uma vida não-escolar, numa comunidade juvenil de reconhecimento interpessoal. É em torno dessa sociabilidade que muitas vezes a escola e seu espaço físico são apropriados pelos jovens alunos e reelaborados, ganhando novos sentidos [...]. No caso dos jovens pobres, a sociabilidade ganha uma maior dimensão, à medida que a ausência de equipamentos públicos e de lazer nos bairros desloca para a escola muitas das expectativas de produção de relações entre os pares. (DAYRELL, 2007, p.1121).

Dessa maneira, os alunos fazem parte de uma sociedade que se reinventa e sofrem mudanças a todo o momento antes de se tornarem “sólidos”. A escola precisaria seguir esse fluxo a partir das demandas e propostas dos alunos. Com isso, propomos uma interpretação baseada nos “olhares” dos alunos sobre a forma que eles se apropriam do espaço escolar, assim como os seus sentidos, já que “a ausência de equipamentos públicos e de lazer nos bairros” (DAYRELL, 2007, p.1121) que eles vivenciam pode abrir caminho para uma reelaboração da Escola com aspectos que lhes faltam referentes ao lazer no seu dia a dia. Ou seja, o aluno aqui é entendido como umagente, ou seja, aquele que age e elabora suas interpretações no espaço em que gere suas relações sociais e vivências.


JUVENTUDE E O ESPAÇO DA ESCOLA
Partimos da noção de que a juventude é uma categoria construída socialmente e, portanto, não pode ser considerada uma definição estática, na medida em que deve ser contextualizada (PEREIRA, 2010). Com isso, é evidente que compartilhamos da noção de que existem juventudes múltiplas e marcadas pela diversidade e variações, tanto de uma sociedade para outra como dentro da própria sociedade, uma vez que existem as divisões internas, cada qual com suas especificidades (ABRAMO, 1994, p. 1 apud, COSTA, 2005, p. 50).

Deste modo, segundo Ariés (1978 apud, PEREIRA, 2010), a escola teve uma importância significativa na elaboração e construção das ideias de juventude e de infância. Entretanto, o mesmo autor considera que nem sempre essas ideias existiram como conhecemos hoje, pois no período medieval a infância e a juventude não eram demarcadas como fases distintas do universo adulto. Essas distinções foram resultados da modernidade e do papel que a instituição escolar teve, separando as vivências entre crianças e adultos.



Se a escola produziu as categorias de infância e juventude, podemos apontar que esse processo é uma via de mão dupla, ou seja:
Se a Escola foi a principal responsável pelo surgimento das categorias de infância e juventude como se configuram atualmente, pode-se dizer que ela ainda continuaria a inventar e reinventar, essas noções, porém também ocorreria hoje um processo inverso em que os jovens e as crianças, que foram isolados desde os tempos modernos para passarem por um período de formação moral e intelectual separados das sociedades dos adultos, recriariam tal espaço com suas novas demandas e práticas (PEREIRA, 2010, p. 11).
Tendo isto em vista nos referimos aos jovens, de modo geral, como capazes de recriar o espaço da escola, elaborar suas demandas e atribuir a elas seus significados, já que os consideramos sujeitos sociais, dotados de capacidade de ações e propostas significativas dentro da sociedade. Neste sentido são tão referenciados, por exemplo, nas temáticas sobre “cidadania” (ABRAMO, 1997). Por outro lado, estudos e pesquisas tendem a relacioná-los aos:
[...] temas da prostituição, das drogas, das doenças sexualmente transmissíveis, da gravidez precoce, da violência. As questões elencadas são sempre aquelas que constituem os jovens como problemas [para si próprios e para a sociedade](ABRAMO, 1997, p.27).
Para retratarmos os jovens como sujeitos que elaboram e pensam suas práticas, alguns deles construíram as suas opiniões2 sobre a temática da juventude, inserida no caderno de perguntas, apontando ideias correspondentes a sua “condição juvenil” particular e também como o ser jovem vive na sociedade atual:
Ser jovem é fazer aquilo que sempre sonhou quando criança, ser grande, ter várias responsabilidades, ter deveres de casa. Mas também é ter paixões... Achar que o mundo não liga pra você, ser jovem é ser uma mistura de sentimentos (Aluna, 16 anos).
Ser jovem é se arriscar, é errar, acertar, chorar, sorrir, sentir, é aproveitar cada momento. A juventude de modo geral é um tanto irresponsável. Minhas expectativas são as melhores para o futuro, espero que nossos jovens sejam belas pessoas no futuro (Aluna, 16 anos).
Ser jovem é curtir, aproveitar o tempo. Minha expectativa é poder fazer o que quero sem passar dos limites, pretendo casar com quem eu amo, ter um futuro bom e uma família (Aluna, 16 anos).
Juventude é o período mais complicado do ser humano, pois é onde temos que tomar decisões para a vida toda, entramos em conflito conosco e em muitas das vezes é difícil saber em quem devemos confiar e ouvir(Aluna, 16 anos).
[...] hoje, os jovens, eles fazem o que querem, eles não tem barreiras que mostrem para eles o que é certo e o que é errado (Aluno, 17 anos).
Uma das alunas expressa seu sentimento sobre a juventude como um período repleto de incertezas, que também está presente na sociedade atual:
Eu penso que a juventude é uma fase muito boa, de descobertas, uma fase de mudança grande, mas que tem muito medo de tudo, preconceitos e inseguranças. E uma vontade de viver logo para que a angústia dessa dúvida de como será o futuro passe de uma vez (Aluna, 16 anos).
Essa última fala pode ser analisada como um discurso que resulta de uma vida em sociedade que não tem um percurso preestabelecido. Bauman (2000) destaca que o termo alemão Unsicherheit, representa “incertezas”, “inseguranças” e “falta de garantias”, elementos existentes na sociedade e estilo de vida líquido moderno. Ou seja, essa aluna anseia que o tempo da juventude passe logo por ser um tempo carregado de mudanças e angústias, já que não se sabe como será o futuro. Esses sentimentos são engendrados por um tipo de sociedade e interiorizados nos indivíduos.

O que a aluna da última fala – e não apenas ela – mostra pode ser visto como um conjunto de opiniões formuladas tendo como base a sociedade atual e com isso, os apontamentos demonstraram que ser jovem abarca uma pluralidade de concepções. Apareceram respostas que perpassam as incertezas e os sentimentos ambíguos como se vivessem num tempo de inconsequência, mas também de responsabilidade e tomada de decisões significativas. Por fim, o anseio por um projeto de vida como casar e ter uma família surgiu em contraposição aos sentimentos de incerteza, insegurança e angústia do presente momento. Os alunos ainda ressaltaram que a juventude e o ser jovem é o tempo da diversão, de arriscar, de viver “aproveitando a vida”.

Além de expressarem seus diferentes pontos de vistas sobre suas condições juvenis, os alunos conferem a escola opiniões contraditórias:
A escola perfeita seria aquela que não precisaria estudar para conseguir nota, brincadeira! O colégio aqui é perfeito, pois os professores são ótimos, o ensino é ótimo (Aluna, 17 anos).
Essa afirmação contradiz alunos e alunas que vêem a escola como um local que precisa de melhorias tanto tecnológicas, a fim de inovar e reelaborar as aulas, quanto nas relações de alunos e professores, que revelaram as assimetrias e as hierarquias entre eles:

Eu, particularmente, odeio essa escola, é tudo horrível, gente chata, alunos imbecis. Professores chatos, impertinentes e insuportáveis (Aluna, 16 anos).
A Escola é boa, pois fazemos amigos e nos socializamos, aprendemos muitas coisas e descobrimos nossas preferências para um futuro trabalho. Mas o ruim é o bulling, ainda sofrido e a exclusão feita só porque você não curte as mesmas coisas ou não usa o mesmo estilo de roupa (Aluna, 16 anos).
Em modo geral, eu acho que tudo está sujeito a mudança, então acho que muita coisa na escola deveria ser mudada! Mas nunca muda aqui sempre vai ser esse tédio total (Aluna, 16 anos).
E por fim, uma aluna mostra a sua concepção de Escola ideal:
Escola ideal tinha que usar a tecnologia, ter professores legais, melhores do que eu imagino... Sei lá, acho que isso seria o suficiente (Aluna, 16 anos).
A que ouve os alunos e que tenha palavra de falar coisas e cumprir, que tenha atividades diferentes, palestras e etc. [grifo nosso] (Aluna, 16 anos).
É possível considerarmos que o espaço da escola desperta elogios e opiniões positivas, mas também traz uma bagagem de denúncia, ao revelar as hierarquias entre professores e alunos e o anseio de mudança nas aulas com o uso de tecnologias, além de evidenciar especificamente a falta de espaço de fala destinado à exposição das demandas dos alunos. O tédio e o tempo gasto dentro da escola serão trabalhados com mais detalhes posteriormente, mas uma aluna demonstrou que o ambiente escolar “sempre vai ser esse tédio total”, o que nos abre caminho para indagarmos os motivos que a levam a pensar desta maneira.

As perguntas referentes à temática da juventude foram feitas para os alunos a fim de sabermos como os mesmos conferem sentido a suas existências, pois de acordo com Dayrell (2007), é importante que definamos em que posição social os jovens em questão estão situados, uma vez que isso tem relação com a construção de sua “condição juvenil”. Ressalta ainda que muitos de nossos jovens das classes populares não vivenciam a moratória, mais comum em países europeus, já que precisam trabalhar para ajudar no orçamento de casa e até mesmo para adquirirem recursos financeiros que propiciem vivenciar a sua “condição juvenil” por meio do consumo e do lazer.

Essa realidade pode ser encontrada entre os alunos e alunas desta pesquisa, na medida em que alguns deles trabalham e mesmo assim continuam estudando. Uma esfera não anula a outra, embora se influenciem mutuamente. Outros não trabalham, mas recebem dinheiro da família, que é direcionado para proporcionar o lazer, o consumo, o namoro e as “saídas” que propiciam a “condição juvenil” e elaboração de suas identidades.

Conforme Dayrell, adentrar o mundo do trabalho é uma forma de vivenciar o “ser jovem” quando nos referimos às classes populares – que também é a realidade destes alunos – ou seja, podemos dizer que o trabalho “faz juventude”, por meio do consumo (SPOSITO, 2005 apud DAYRELL, 2007). Vejamos algumas falas dos alunos que trabalham, relativas ao que destinam seus salários e também daqueles que não trabalham, mas recebem dinheiro de seus familiares:


Vivo pagando contas, antes mesmo de receber já gastei tudo com roupas e prestações de cursos(Aluna, 16 anos, trabalha como atendente no comércio central).
Ajudo em casa, pago meu aparelho e guardo o que sobra para o futuro (Aluna, 16 anos, trabalha como decoradora, garçonete e auxiliar de cozinha).
Quando trabalhava ajudava minha mãe em casa, quando ganho dinheiro da minha mãe gasto com meu namorado e amigos (Aluna, 16 anos, já trabalhou, mas agora está desempregada).
De preferência, gasto com sapatos e maquiagem (Aluna, 16 anos, não trabalha, mas recebe dinheiro da família)
Compro objetos para mim e gasto em cabelo, maquiagem e etc.(Aluna, 16 anos, não trabalha, mas recebe dinheiro da família).
Gasto com roupas, saindo, bebendo... Pagando algumas contas que eu tenho que são bem poucas. E o que sobra é para eu curtir mesmo (Aluno, 17 anos).
Por meio do dinheiro recebido através do trabalho ou da família, os alunos vivenciam suas condições juvenis de diferentes modos, adquirindo roupas, sapatos, gastando com o cabelo, com as saídas de finais de semana na presença de amigos e namorados, com pagamentos de cursos e algumas contas e poupança para o futuro. Logo, cada um confere um sentido na priorização de seus gastos, muito relacionados com a elaboração de uma identidade jovem por meio do consumo. A rotina de tempo que conciliam entre a escola e o trabalho podem ser vista da seguinte forma, como aponta uma aluna:
Na escola é melhor que no trabalho, mas é muito melhor ficar em casa pois posso dormir e descansar dessa vida corrida(Aluna, 16 anos).
As respostas que os alunos deram sobre suas vivências juvenis constituem uma “condição juvenil”, na medida em que através do consumo, moldam e usufruem de um período da vida considerado “juventude”. Diante desta condição, cada um confere seus diversos significados à juventude. Nesse contexto, a Escola aparece como alvo de respostas contraditórias, sendo um local “perfeito” e ao mesmo tempo repleto de hierarquias entre professores e alunos. Em seguida, podemos observar algumas justificativas do porque ir a Escola:
Uma parte é porque eu quero ser alguém na vida, que tenha estudo e a outra parte, por obrigação dos meus pais. Pretendo que isso ajude na minha formação (Aluno, 17 anos).
Frequento porque sei o quanto vai ser bom o ensino para a minha vida profissional. Espero que o colégio possa formar muitos e muitos alunos ainda (Aluna, 17 anos).
Porque na idade que eu estou, já tenho consciência da importância dela para minha vida [a Escola]. E pretendo fazer faculdade. Espero melhorias na educação por parte dos professores e mais colaboração dos alunos também (Aluna, 16 anos).
Eu acho que a Escola é um mau necessário,apesar de ser difícil e cansativo acaba tornando gostoso quando despertamos um verdadeiro interesse em aprender. Frequento para terminar os estudos e espero me formar (Aluna, 16 anos).
Eu frequento a Escola porque aqui eu tenho a chance de ser alguém na vida (Aluno, 17).
Essas últimas respostas evidenciam a primeira hipótese que tínhamos ressaltado no início do trabalho: enxergar a escola como o caminho para se alcançar um “futuro” melhor aparece quase em todos os discursos dos alunos, sempre como um meio, uma esperança para que consiga um bom trabalho, um curso superior e, consequentemente, uma estabilidade financeira no futuro.
A ESCOLA COMO ESPAÇO DELAZER
Para situarmos a temática do lazer, convém fazermos uma breve retomada desta ideia para que, posteriormente, possamos construir uma discussão sobre as possíveis relações entre lazer, sociabilidades e ambiente escolar.

Dentro dessa temática têm-se duas discussões que abarcam considerações opostas. A primeira defende a ideia de que o lazer esteve presente desde os tempos mais antigos da história da humanidade e a segunda aponta que o lazer é fruto da sociedade moderna (MARINHO; PIMENTEL, 2010). Vejamos algumas destas abordagens.

Marinho e Pimentel (2010) consideram que uma das opiniões acerca do lazer como fator presente desde os tempos mais remotos da história humana é a de Sebastian De Grazia3, que estudou a vida dos filósofos da Grécia Antiga e considerou que o lazer, nesse contexto, correspondia a um ideal clássico de ócio. O lazer estava ligado à contemplação, à liberdade de qualquer tipo de ocupação/trabalho, ao conhecimento e à distinção social, já que estamos falando do homem livre da Grécia. Este homem exercita o ócio, que segundo o autor é:
‘estar livre da necessidade de estar ocupado’ relacionando-se a uma atitude perante a vida, incluindo-se a isenção da necessidade de trabalhar ou de qualquer outra atividade de que se liberaria com gosto (MARINHO; PIMENTEL, 2010, p. 26-27).
Segundo Marinho e Pimentel (2010), De Grazia mostrou que o lazer deve ser pensado como atitude, descartando a ideia de “tempo de lazer”. Ao estudar os escritos de Aristóteles, este autor notou que quando o filósofo utilizava a ideia de tempo desocupado mal usufruído, este tempo não era considerado lazer. Por isso, pensar em “tempo de lazer” não seria, inevitavelmente, conceber a existência de lazer. Por isso, define este último como um:
[...] estado de isenção de obrigações [...] as atividades de lazer tem um fim em si mesmas; começar ou parar uma atividade de lazer não estão relacionados a tempo algum, mas ao interesse que tal atividade desperta. (MARINHO; PIMENTEL, 2010, p. 27).
Assim como De Grazia, Parker (1978) também estudou historicamente o tema do lazer, porém suas opiniões são distintas. Este último situa parte de sua discussão nas sociedades iletradas e considera que nelas não existia o lazer no sentido moderno, porque o tempo do descanso do trabalho, as idas às cerimônias, às festas e aos rituais não eram vistas como atividades de lazer ou à parte do cotidiano, mas como algo integrante a vida social. Para este autor, a coletividade marcava as relações sociais e por isso, o lazer não aparecia como escolha individual como atualmente e nem se tinha a ideia “consciente” de lazer (PARKER, 1978).

Consonante a esta discussão, Magnani (1994) se refere ao lazer como algo que aparece em oposição ao universo do trabalho, especificamente no contexto pós Revolução Industrial. Esse período fez com que houvesse uma mudança no modo como as pessoas direcionavam o trabalho, primeiramente regido pelo tempo da natureza e da religião e posteriormente voltado para o “tempo” do mercado, que levava os sujeitos envolvidos à exaustão física e psíquica. Em suma, o ritmo do trabalho modificou-se, de um tempo orientado e interrompido pelos ciclos naturais e pelos calendários religiosos – como Parker demonstra nas sociedades “iletradas” –para um tempo relacionado com as necessidades dos mercados.

De acordo com o mesmo autor, aquele que vendia a sua força de trabalho era o encarregado de arcar com a reposição da mesma, com saúde, alimentação, moradia. Ou seja, deveria suprir suas necessidades básicas com o salário ganho. Deste modo, todas e quaisquer conquistas de melhoria para a classe trabalhadora foram produtos de lutas dos movimentos sociais, o que para o autor é um paradoxo, já que:
[...] o tempo livre, necessário e funcional desde a lógica do capital - como fator indispensável para a manutenção e reprodução da força de trabalho - é resultado da luta do movimento operário pela diminuição da jornada de trabalho, descanso semanal remunerado, férias, etc. (MAGNANI, 1994, p.1).
Em suas origens, o lazer nasce dentro da esfera do trabalho e em oposição a ele, e o tempo livre ou “liberado” era o momento de ocupações diversas que se denomina lazer (MAGNANI, 1994). Porém, existe a possibilidade de pensarmos se o espaço da instituição escolar pode ser visto como um espaço de lazer para os alunos?

Primeiramente, é válido esclarecermos o que entendemos pelo conceito de sociabilidade, bem como o conceito de “socialidade”, para que saibamos suas definições e limitações. Quando utilizarmos a ideia de lazer, sociabilidades e relações que, de modo geral, os alunos estabelecem com a Escola e com seus pares, vamos nos remeter a essas duas. Pensar as relações sociais dentro da escola é levar em conta conflitos, embates, aceitações e contradições, uma vez que a instituição está repleta de diversidade expressa em grupos distintos.

A ideia de sociabilidade trabalhada por Simmel pressupõe “[...] uma forma lúdica de sociabilização, livre de impessoalidades e de conflitos”. (SIMMEL, 2006 [1917] apud PEREIRA, 2010, p.152); já a noção de “socialidade” derivou de uma discussão sobre o conceito de sociedade, o que possibilitou uma maior abrangência e nos permite:
[...] pensar relações que não necessariamente seriam marcadas por ações integrativas, que poderiam engendrar associações ou ações tanto integrativas quanto disruptivas (STRATHERN, 1996, apud PEREIRA, 2010, p. 152).
De acordo com Pereira (2010), que pesquisou e etnografou as experiências juvenis dentro de cinco escolas da periferia de São Paulo, as relações sociais entre os alunos e a Escola podem ser tanto ações integrativas como conflitivas. Por isso utilizou em seu estudo, a fim de escapar dos extremismos, o conceito de “socialidade”, que abriu espaço para uma via de mão dupla e não limitou as relações somente como somente positivas como o conceito de sociabilidade (STRATHERN, 1996, apud PEREIRA, 2010).4

Com isso, compartilhamos com a noção de que ao discutirmos o lazer equivale as ideias de “socialidade” e de sociabilidade, ainda mais pensando no ambiente escolar e nas relações entre alunos, professores e seu corpo administrativo, que abarcam relações de conflitos e hierarquias. A fala da próxima aluna demonstra essa discussão acerca da relação entre alunos e professores e é referente ao tempo que passam dentro e fora da escola:


Muito melhor [o tempo gasto fora da Escola], sem dúvida alguma, sem ninguém para me irritar, nem me estressar. Sem o professor [ela cita o nome do docente, que ficará em sigilo] para humilhar os outros e por achar que manda na gente! Mesmo porque fora do colégio somos todos iguais, é muito melhor mesmo. Esse professor é insuportável e eu não tenho uma boa relação com ele, odeio ele demais, acho que o que acontece entre a gente é pessoal. Eu não gosto dele. Ele acha que pode tratar todo mundo do jeito que ele quer só porque ele é professor e a direção, nunca escuta o aluno, só o professor (Aluna, 16 anos).
A aluna deixa claro que a relação que ela estabelece com o professor é de embate e resistência, assim como demonstra que existe uma relação hierárquica fortea ponto de considerar que no mundo “fora do colégio”, é que as pessoas são iguais. Especificamente, podemos interpretar essa situação de acordo com o exposto conceito de “socialidade”, mas também temos que levar em conta que as relações que perpassam o universo escolar cabem no conceito de sociabilidade, por exemplo, dentro dos grupos de pares.

De acordo com Pereira (2007), a escola fez com que passasse a existir uma sociabilidade cotidiana entre os jovens, além de ter sido uma das responsáveis justamente pela noção de juventude e infância, como vimos. O mesmo nos mostra a existência de uma via de mão dupla entre espaço escolar e juventude: ao mesmo tempo em que a escola “moldou” uma ideia de juventude, essa instituição também sofre interferências e influencias do seu público, os jovens, que a reinventa com suas redes de sociabilidades e relações.

Deste modo, de acordo com a pesquisa realizada por Alexandre Pereira Barbosa (2007), os alunos vêm rompendo com as regras e as disciplinas da escola,ao mesmo tempo em que trazem para dentro dela elementos que se relacionam com o mundo da sociabilidade e das relações e convivências juvenis, que podem ser remetidas ao lazer. A exemplo disto temos os celulares que tocam músicas, transmitem vídeos e jogos de futebol, entram na internet, tiram fotos, mandam mensagens, além de outros aplicativos. Esses aparelhos fazem com que os alunos se conectem com o mundo “lá fora.” Neste sentido, a escola pode ser vista como um espaço que vem sendo ressignificado com o uso de elementos tecnológicos trazidos para dentro de si, ligados ao universo do lazer e muitas vezes não da reflexão, dos estudos propriamente ditos. Além disso, o uso de celulares é a quebra de uma norma, uma vez que é proibido dentro da instituição.

Uma questão presente no caderno de perguntas foi justamente sobre como eles viam o uso dos celulares dentro da sala de aula e como utilizavam o tempo livre na escola. Apareceu majoritariamente como resposta que no tempo livre, nas aulas “vagas”, eles ouvem músicas nos celulares ou, quando não podem ir embora, ficam conversando nos bancos espalhados pela escola. Ficam também na porta da sala nos intervalos de troca de professores, para olhar a movimentação e conversar rapidamente com outros alunos na mesma posição, ou seja, é o momento que aparece uma “brecha” para conversarem sobre algo não necessariamente relacionado com os conteúdos das aulas.

No que se refere ao uso de aparelhos celulares, minhas observações evidenciaram que o uso dos mesmos é feito como aparelhos musicais, para mandar mensagens e mostrar fotos. Sobre o uso das tecnologias/celulares em sala de aula, os alunos dizem:
A gente usa escondido porque o colégio vive no século XVIII. Não sei como. Proíbem a gente de respirar, porque nada pode. Acho que 3 minutinhos finais das aulas poderíamos usar, porque fala sério, proibido é melhor! (Aluna, 16 anos).
O uso de tecnologias no Colégio, não só nas horas vagas é muito bom, porque se a gente tiver uma dúvida, podemos tirar usando a tecnologia que é a internet (Aluno, 17 anos).
Essas falas expressam como é que o ser jovem também está presente no sujeito aluno. Não consideramos que a escola deva virar um espaço de lazer ou que ela seja somente isso, descartando o seu papel clássico de instituição social de transmissão do saber científico e “sistematizado”. Também não estamos dizendo que haja escola sem momentos de lazer. Buscamos apenas mostrar uma interpretação baseada na forma com que os alunos conferem sentido a escola através de variadas atitudes, que também tem relação com as tecnologias disponíveis usadas durante as aulas e no tempo livre.

No caso das respostas acima, a aluna deseja que, no final de uma aula, possa ter um tempo para acessar internet, ouvir músicas, ou seja, usar seu aparelho celular. Ela atribui o fato de a Escola proibir seu uso durante as aulas, a ser a escola uma instituição atrasada no tempo e no espaço. O aluno, por outro lado, sugere a possibilidade de pesquisar e tirar dúvidas com seu aparelho celular durante a aula. Essas duas opiniões são contrárias, uma revelando a importância do aparelho como fonte de pesquisa, outra como descontração. Ambas demonstram que o “aluno” e o “jovem” estão dentro da sala de aula e cabe à escola novas atitudes perante a essas situações que, evidentemente, se mostram relevantes para parte expressiva dos alunos e alunas.

A escola que se abriu para a pesquisa é um espaço amplo, com dois pavilhões de salas, cantina e um grande pátio para os alunos transitarem. Conta com duas quadras poliesportivas, uma coberta e outra descoberta, com instalações mais precárias. No intervalo os alunos ficam em grupos de meninas ou meninos, alguns deles mistos, enquanto outros ficam sozinhos. O que mais se destaca é que entre os grupos que conversam nos arredores e nos bancos há outro elemento que está entre eles: os fones de ouvidos. Conversam e ouvem músicas simultaneamente, ou apenas ficam com os fones pendurados.

À vista disso e ao pensar sobre o tempo que passam dentro e fora da escola, os alunos demonstram suas percepções da escola enquanto espaço de lazer, olhar baseado em uma visão negativa ou positiva do espaço. O que foi possível identificar é que aqueles que conferem elementos positivos à escola relacionam este espaço ao lazer. Vejamos as falas dos alunos:

[O tempo gasto fora da Escola é melhor que o tempo gasto dentro dela?] Não, porque além de eu absorver conhecimentos aqui, fora da Escola você só se desgasta tentando conseguir um benefício para que no final do mês não fique sem dinheiro (Aluno, 17 anos).
[O tempo gasto fora da Escola é melhor que o tempo gasto dentro dela?] Sim, mas o tempo gasto na Escola é muito importante também, porque fico com as pessoas mais importantes da minha vida e ainda me divirto muito. [A Escola é um tipo de lazer?] Sim, porque exercitar o cérebro é um tipo de lazer (Aluna, 16 anos).
[O tempo gasto fora da Escola é melhor que o tempo gasto dentro dela?] É melhor, mas não é produtivo. Porque fora do Colégio eu durmo, fico navegando na internet, mas não pego um livro pra ler.

[A Escola é um tipo de lazer?] Sim, o lazer do conhecimento (Aluna, 17 anos).


[O tempo gasto fora da Escola é melhor que o tempo gasto dentro dela?] Sim, porque as aulas são muito chatas. Não são todas que são chatas, mas uma grande parte da muito tédio, porque não tem nada de interessante pra fazer. Lazer no Colégio pra mim é quando eu tenho aula de Educação Física, porque nessa aula eu me divirto com meus amigos e participo de esportes. (Aluno, 17 anos).
A noção de lazer aparece coma ideia naturalizada do momento de descanso, de passar o tempo livre com algo que suscite o prazer, além de aparecer também a expressão “lazer do conhecimento”, que ressalta o momento de aprendizagem e reflexão dentro da escola como indispensáveis, já que fora eles se ocupam com outras atividades. Se para alguns a escola aparece como um espaço de opinião carregado de positividade, ela está relacionada ao lazer. Por outro lado, outros veem negativamente, com hierarquias, embates e conflitos. Um espaço escolar relacionada não ao lazer, mas ao tédio.

Para estes alunos, o lazer dentro do ambiente escolar acontece quando é o tempo de intervalo, de aulas “vagas”, de troca de professores, de Educação Física, porque assim podem conversar, ouvir música, sentar com as amigas e amigos no pátio, ou seja, realizar qualquer atividade distinta da aula em si,que pode ser vista como um momento de lazer. Outro fator relevante, é que quando a aula está desinteressante, apontam que os celulares são usados como uma saída, um lazer, uma distração.

O uso de tecnologias, em geral, é considerado por eles como um elemento que poderia enriquecer e despertar interesse nas aulas, se usado por professores, mas o uso pelos discentes é considerado ora como uma válvula de escape para uma aula sem sentido, ora como algo incorreto que desrespeita o professor. Outro aspecto interessante que apareceu majoritariamente nas respostas foi que, quando não sentem vontade de ir à escola, os alunos ficam em casa e descartam as possibilidades de irem para o ambiente escolar, a fim de “matarem” aula. Por outro lado, muitos disseram que “matar” aula é sinônimo de “burrice”. Vejamos as contradições das opiniões sobre o uso de celulares no ambiente escolar:

[O uso dos celulares em sala de aula poderia uma forma de usar o tempo da aula como um tempo de lazer?] Eu acredito que se usar esses aparelhos em sala de aula de forma que traga algo de interessante para a aula, seria de bom uso, mas sempre é para lazer mesmo, descontrair. (Aluna, 16 anos).


Sim, pois existem algumas matérias que são muito desinteressantes. (Aluna, 16 anos).
Acho incorreto os alunos que fazem isso, temos que aproveitar as aulas e não ficarmos em celulares e etc. (Aluna, 16 anos).
Usar a tecnologia até acho normal pela era em que vivemos, mas acho que tem hora certa para isso. (Aluna, 17 anos).
Eu penso assim, se o aluno tem o benefício em suas mãos ele tem que usar. (Aluno, 17 anos).
É possível fazermos uma relação entre o tédio em sala, o embate com o professor e, consequentemente, o desinteresse pela aula como fatores interligados. Os aparelhos celulares aparecem como um meio de adentrar uma realidade diferente que daquela da sala de aula porque está relacionada com o mundo “lá fora”. Este momento pode ser visto como o da liberdade de escolher se acessam as mensagens, fotos, internet, músicas, diferentemente do caso de algumas aulas, onde o aluno não tem espaço para se expressar.

Partimos da ideia que não cabem generalizações para todas as aulas, já que cada professor comporta uma metodologia específica. Contudo, parece-me que as respostas dos alunos acerca do tédio, embate, desinteresse, uso de tecnologia e lazer, são algo que deve receber nossa atenção e sinaliza para uma “rejeição” ou “resistência” a determinada situação. Por outro lado, a ideia de lazer também está nos mostrando uma noção de espaço de sociabilidades, de redes de amizades e de estudos e reflexões, já que apareceu a expressão “lazer do conhecimento”. Vimos que uma forma de interpretar a origem do lazer foi como oriunda de um contraponto clássico às jornadas de trabalho, sendo, porém, possível o lazer estar dentro do ambiente escolar como a sinalização de uma situação a ser revista, tanto no seu sentido positivo, na relação aluno-jovem, quanto negativamente, quando o aluno demonstra sua insatisfação frente às aulas.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os alunos que compuseram o centro da atenção do presente trabalho expressaram suas diversas opiniões sobre os temas que essa pesquisa se encarregou em analisar. As contradições das respostas evidenciaram que a juventude deve ser tratada como múltipla, levando em conta a sua diversidade, pois mesmo dentro da mesma sala de aula os jovens são distintos e suas respostas são frutos das suas condições juvenis e visões de mundo.

Ao pensar o lazer, vimos que esse elemento está interligado com o interesse pela escola e pelas aulas. Ou seja, o aluno considera a escola como um espaço de lazer, quando se tem uma opinião de sentindo positivo da instituição. O lazer apareceu quando estão no intervalo entre as aulas, nas idas aos corredores e portas para encontrar seus pares, nos usos de celulares, nas aulas de Educação Física e também nas aulas “interessantes” e no gosto de estudar, já que apareceu a expressão da Escola como “lazer do conhecimento”, assim comoo “exercício do cérebro como lazer.” Vale observar que aqueles que atribuem à escola um sentido negativo apontaram que o lazer, “a diversão”, se encontra fora dela.

Em outras palavras, vimos que De Grazia apontou que o lazer deveria ser visto como atitude, isenção de obrigações e interesse, como explicamos anteriormente. Essa ideia pode ser utilizada como uma forma de interpretar a noção de lazer que esses alunos conferem à escola. A ideia de lazer como “atitude” pode ser vista quando os alunos praticam o uso de celulares, escutam músicas, conversam com seus pares, fazem atividades que não estejam relacionadas com a aula do docente ou se atentam e participam da aula. Nesse sentido, o lazer aparece como “atitude” contrária a aula, o que demonstra a falta de sentido da mesma ou uma “atitude” de participação no processe de ensino e aprendizado.

Essas “atitudes” são guiadas por um interesse em optar por algo que lhe proporcione prazer, seja relacionado ou não à aula. Por fim, as atitudes e os interesses dos alunos podem direcionar ações a fim de se isentar das obrigações normatizadas no interior da Escola. Ou seja, os alunos que em certas aulas se contrapõem, resistem e não participam das mesmas são guiados por variados motivos e precisaríamos de uma análise mais densa para conhecer suas razões. Os alunos que agem com desinteresse nas aulas podem expressar atitudes contrárias às regras da instituição como ter de passar a manhã toda sentados, disciplinados e atentos durante as aulas como o referenciado “aluno modelo”. Podemos interpretar a gama de respostas dos alunos de diferentes sentidos. Uma delas pode ser uma rejeição à escola tradicional, ou seja, aquela direcionada pela pedagogia tradicional, que não leva em conta os alunos enquanto produtores de conhecimento e saber.

Este trabalho se propôs a conhecer e apresentar o olhar dos jovens alunos acerca dessa forma de sociabilidade coletiva que é a escola. Como observamos, os alunos não rejeitam a escola como o local do saber científico essencial para seus futuros enquanto sujeitos e profissionais, mas procuramos destacar a forma com que a escola pode ser vista na visão do “aluno-jovem”. A questão não é abordar o lazer dentro do ambiente escolar como algo positivo em detrimento da escola, é mais uma ressignificação deste espaço por meio dos alunos.

Como destacamos anteriormente, o ambiente escolar formulou uma ideia de infância e juventude e essa última também pensa e repensa constantemente o local por onde passa expressiva parte de sua sociabilidade. À vista disso, consideramos que se o professor vê o aluno e o jovem que está em sua sala de aula como indissociáveis, torna-se mais fácil compreender suas demandas e anseios, bem como encontrar um meio para mediar o ensino e a aprendizagem e sua mobilização. Compreender o “aluno modelo de hoje” é o grande desafio dos educadores e da instituição escolar como um todo.

Expomos a hipótese de que os jovens podem considerar a Escola como um local de lazer devido ao fato dos mesmos viverem em regiões periféricas e, portanto, em bairros que não proporcionam essa prática por meio de seus equipamentos, já que são precários ou inexistentes. Por outro lado, a pesquisa nos mostrou que essa hipótese não pode ser confirmada e relacionada diretamente, pois nas perguntas dos cadernos não foi abordada a questão do lazer no bairro. Em outras palavras, não poderíamos afirmar que a “falta” de lazer nos bairros fazem com que os alunos apropriem a escola como um local de lazer. Outro aspecto esclarecedor foi a dificuldade em encontrar especificamente bibliografia que abordasse a escola como espaço de lazer, o que faz deste trabalho uma oportunidade de se pensar a possível temática por meio de críticas e sugestões, tanto metodológicas quanto teóricas.
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1Graduanda do 4º ano curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina. Contato: thayza_o@hotmail.com. Artigo apresentado no Seminário de Estágio de Licenciatura em Ciências Sociais – Universidade Estadual de Londrina. 2012.

2Todas as falas dos alunos e alunas estarão em itálico, na íntegra, no corpo do texto. Essas respostas se encontram no caderno de perguntas entregue a eles para que escrevessem livremente sobre os temas já ressaltados. Seus nomes ficarão em sigilo e alguns alunos se esqueceram ou não colocaram sua identificação como feminino ou masculino e outros ainda deixaram várias questões em branco. Foram entregues 13 cadernos e tivemos o retorno de 10 (7 meninas e 2 meninos). Essas situações já eram esperadas por meio desta metodologia, que resultou em opiniões abrangentes e mais sintéticas acerca de várias questões. Se tivéssemos escolhido outra metodologia, poderíamos ter obtido maior densidade nas respostas, mas não expressaríamos a voz de todos os alunos da sala.

3Os autores direcionam a discussão tendo por referência o livro de DeGrazia(1962), “Of time, workandleisure”.

4 Essa crítica do conceito de sociabilidade como um conceito viciado em uma noção de relação sempre positiva é feita por Strathern.

Número 06

REVISTA ELETRÔNICA PRO-DOCÊNCIA/UEL. Edição Nº. 6, Vol. 1, jan-jul. 2014. ISSN 2318-0013 - DISPONÍVEL EM: http://www.uel.br/revistas/prodocenciafope





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