A eterna privaçao do zagueiro absoluto



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A ETERNA PRIVAÇAO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO

“Quem pode confiar numa defesa com pseudônimo? Na escalação da defesa ideal deveria constar o nome dos zagueiros pelo meia, o sobrenome, a filiação, d e um telefone para reclamações.’’



(Aos meninos do Kicuio Atlético Clube)

I – O Autor e o Estilo

  • L.F.V. desde cedo trabalhou em redações de jornais, fato que faz suas crônicas sempre tratarem de temas atuais.

  • Linguagem simples, clara, despreocupada com a construção acadêmica ou vanguardística.

  • Sempre procura, tanto na forma como conteúdo, uma comunicação direta com o leitor.

  • Escritor de texto refinado, sem rodeios.

  • A objetividade de L.F. faz o que escreve fluir na cabeça de quem lê

  • Cita nomes, locais e fatos pouco conhecidos do grande público.

“Faz rir. Faz chorar. Faz pensar. É político. É humano. É, sem dúvida, um gigolô das palavras. E nem as come! As deixa inteiras para que o leitor possa obter máximo prazer.”
II – Breve informação sobre a crônica

  • Cronos, divindade mitológica que representa o tempo

  • Primeiro grande cronista da Língua Portuguesa: Fernão Lopes

  • Crônicas modernas deixaram de lado o aspecto de registro histórico da classe dominante e anotam com humor, ironia ou lirismo as banalidades do cotidiano

  • Crônicas, geralmente, tem a intenção de divertir

  • Existem diferentes tipos de crônica:

  • Crônica descritiva: predomina a caracterização de elementos no espaço

  • Crônica narrativa: história envolvendo personagens, enredo, etc.

  • Crônica narrativo-descritiva: predomínio das narrações e descrições

  • Crônica lírica: linguagem poética e metafórica

  • Crônica metalingüística: fala sobre o próprio ato de escrever

  • Crônica reflexiva: reflexões filosóficas sobre vários assuntos


III – A obra

    • Coletânea de crônicas (73), publicadas entre 1997 – 1999 no jornal O Globo, abordando os seguintes temas:

    • Futebol , Cinema e Literatura .

    • O título da obra está diretamente ligado ao texto da epígrafe e, também, a esse trecho de “A segunda mensagem”:

“Mas é claro que a única mensagem da derrota na França pode ser ainda mais corriqueira, envolvendo não um desafio ao poder dos deuses ou o destino trágico das pretensões humanas mas questões restritas ao pequeno mundo da grande área. Onde, como se sabe, a primeira lei é que nunca se deixa alguém cabecear sozinho.”

  • As crônicas aqui selecionadas não possuem o caráter efêmero da notícia, elas resgatam o passado, atualizando-o, e buscando compartilhar com o leitor uma experiência pessoal que, em realidade, é uma experiência coletiva, ou compartilhável socialmente.

  • Em “O fim de um mito”, o autor nos diz:

“Por alguma razão, negro no gol – principalmente no gol da seleção – era uma temeridade. O preconceito não se explicava nem por uma presunção racista de menor inteligência ou senso de responsabilidade. Ninguém invocava essa pseudológica.”

  • O tema explorado dá margem para problematizar questões de caráter sociológico, histórico e político. E por falar nisso, observemos:

“Talvez seja uma sina brasileira, ou até outra antipatia irracional a caminho de tornar-se um mito, mas o fato é que podemos formar grandes times e ganhar tudo, mas nunca estaremos satisfeitos com a nossa zaga. Viveremos eternamente essa privação do zagueiro absoluto, como os portugueses esperando a volta de Dom Sebastião, e ele se integrará ao nosso caráter.”

  • Eis o enigma para a questão: o desejo é que Dom Sebastião viesse nos defender também.

  • Pois se ele era um Rei absoluto, então ele só poderia ser um zagueiro absoluto.

  • Explicado o título, vejamos o que a obra nos traz...


IV – Temática e Análises

  • Os textos privilegiam a abordagem humorística das cenas do cotidiano.

  • Atrelado ao humor, um senso crítico e irônico, uma linguagem simples, que busca o coloquial, a oralidade, (às vezes, até alguns termos chulos), mas sem se afastar do literário – o uso das imagens, a frase bem cadenciada, a citação oportuna, a intrusão da gíria ou do estrangeirismo sem nenhum pedantismo.

  • Normalmente, o texto está na primeira pessoa, fundindo o autor como narrador.

  • O cronista expõe sua experiência de vida, sua opinião, seus conhecimentos livrescos, como se lê, por exemplo, no início de “Vice-versa”: “Eu estava lendo um comentário sobre o livro de Salman Rushdie, ‘O último suspiro do mouro’, e tive uma hipofania, que é o nome adequado para uma revelação do óbvio, ou uma epifania de cavalo. Concluí que não há nada como um dia depois do outro. Podem me citar”.

  • O texto revela a sintonia do cronista com seu tempo, a leitura do escritor britânico perseguido pelos fundamentalistas islâmicos, o senso de humor — assinalado pelo neologismo (hipofania), a irônica auto-crítica, já que ele se compara a um cavalo, ao enunciar um óbvio pensamento.

  • Em várias passagens, o cronista menciona aspectos temporais:

“Me lembrei da Catherine Deneuve porque escrevi no outro dia que não víamos mais filmes franceses e italianos e se isso é uma lamentável prova da nossa entrega total à ditadura cultural americana também é uma grande ingratidão com o cinema da França e da Itália e, principalmente, com as suas mulheres, as suas grandes mulheres. “

  • Trazendo marcas textuais de coloquialismo, esse trecho da crônica “Os seios de Martine Carol” faz referência a um outro texto, também publicado nesta coletânea, mas situado um pouco mais adiante no livro, isto é, “Eles merecem”, onde lemos mais uma vez a crítica do autor ao quase monopólio americano, impedindo que nós possamos ver filmes de outros países.

  • Em certas passagens, o cronista refere-se ao dia mesmo em que está escrevendo: “Será hoje, finalmente, a estréia do Ronaldinho?”

  • Às vezes, o autor não cita explicitamente o dia, mas faz alusão a um acontecimento recente, como neste trecho de “Duas velas”, em que alude ao jogo do Brasil e Venezuela, na Copa das Confederações de 1999, quando o Ronaldinho Gaúcho fez um esplêndido gol:

“Está certo que era difícil resistir à oba-obaização de novo Ronaldinho depois daquele gol, mas colocá-lo em campo contra o México a dez minutos do final...”

  • Às vezes, na falta do dia ou ano, há indícios sugeridos por nomes (como Sérgio Motta e Ricupero, ex-ministros) ou filmes (Titanic, Central do Brasil) ou mortes de celebridades (Kubrick, Kurosawa).

  • Na época em que estava escrevendo essas crônicas, Verissimo tornava-se sexagenário; várias vezes toca nesse assunto, ironizando a sua idade, fazendo questão de registrar, literalmente, a relação entre crônica e o impiedoso kronos devorador:

“Pronto, pronto, envelhecer acontece com todo mundo. Há coisas piores do que fazer 61 anos, mas ninguém consegue se lembrar de nenhuma. Melhor mudar de assunto.”

  • É freqüente, neste livro, Veríssimo ironizar a sua idade e exibir as marcas da temporalidade:

“Além dos sinais externos que nos denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barrigas, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que têm na memória.”

  • Logo na primeira crônica, sintomaticamente denominada “A primeira”, o cronista, ao evocar a sua primeira bola, amarrada com cadarços, ironiza a sua idade, advertindo aos leitores: “Isto tudo foi neste século, sim.”

  • Na crônica ”O mistério dos Donizetes” em que o assunto são nomes de jogadores de futebol, Veríssimo faz referência a um acontecimento político da década de setenta: o acordo de Camp David, realizado no governo de Jimmy Carter(1976-1980), reunindo Begin e Sadat, respectivamente, líderes judeu e árabe.

  • Contudo, o tempo normal da crônica é o presente, é o hoje da enunciação.

  • Ao longo do livro, o leitor irá encontrar referências ao governo de Fernando Henrique Cardoso, tratado na imprensa como Efe Agá.

  • Mais de uma vez, O cronista ironiza a reeleição proposta nesse governo (1994-1998; 1999-2002):

“O imenso arranjo político que foi a compra da aprovação da reeleição de Efe Agá já está absorvido e absolvido pelo grande projeto anunciado, 0s 20 anos que nos levarão ao paraíso segundo o PFL.” “Não se trata de saber só os inconvenientes que não são ditos, as indiscrições institucionais, o quem come quem, a verdadeira história da reeleição que o Newton Cardoso Ia contar e desistiu, ou foi desistido etc”

  • Certas crônicas se parecem com paginas de livro de memórias: aí a evocação do passado faz com que os tempos do enunciado e da enunciação sejam diferentes.

  • Por exemplo, as oito páginas da maior crônica “Recapitulando” trazem de volta oito Copas do Mundo (de 1970 a 1998).

  • Nesse caso, devemos estudar um pouco de história para contextualizar os acontecimentos, para entender por que a Copa de 70 é tratada por Verissimo como a “Copa da Ambigüidade”?

  • Ora, o Brasil vivia o período tenebroso da ditadura militar; a vitória no México interessava ao poder; os brasileiros esclarecidos, de esquerda, ficaram numa encruzilhada: torcer para o escrete e ser conivente com os militares ou torcer contra o time de Pelé e ser, também, contra o povo, o próprio coração:

‘Nunca foi tão difícil e nunca foi tão fácil torcer pelo Brasil. Difícil porque torcer era uma forma de colaboracionismo, fácil porque o time era de entusiasmar qualquer um. ’

  • Nessa mesma crônica, ao evocar a Copa de 86, também no México, autor menciona a era Sarney e o famigerado Plano Cruzado, medida econômica que mudou a moeda e incentivou o povo a fiscalizar a alta dos preços...

  • Veríssimo, muitas vezes, trata do passado, enumera memórias de atrizes, filmes e jogadores de futebol que o marcaram.

  • Logo no início de alguns textos, o leitor é arrebatado para o passado, para as Lembranças.

  • Em “Garrincha”, o tom nostálgico, a metalinguagem jovial e o reflexo condicionado, “pavloviano’ ao evocar o bicampeonato mundial associado a uma canção e a uma bebida, como se o cronista, em suas sinestesias, fosse um novo Marcel Proust, o escritor francês que buscava o tempo perdido:

“Onde estava você no dia 17 de junho de 1962? Quem não era nascido, por favor, vire a página e nos deixe com nossas memórias. Foi o dia em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo pela segunda vez seguida, no Chile. Até hoje, é pavloviano: quando penso naquela Copa, ouço a música ‘Et maintenant” e sinto o gosto de cachaça com mel’



V –Futebol

  • No primeiro bloco(06 crônicas), “Fome de bola”, Veríssimo aborda aspectos variados ligados a esse esporte, faz reminiscências, evoca craques do passado, como Domingos da Guia, e ironiza o interlocutor que o confunde como filho do zagueiro, Ademir, de um passado mais recente; relembra sua juventude, ao mudar-se para o Rio.

  • Ainda nesse bloco, o cronista escreve sobre o técnico, relacionando-o como um “preposto” (delegado) de Deus :

“Todo brasileiro é um técnico de futebol frustrado. Deus é brasileiro. Logo, Deus é um técnico de futebol frustrado? Como Deus tudo pode, é provável que Ele seja o verdadeiro e eterno da seleção, e os mortais que assumem a função apenas suas fachadas. Todos os técnicos da seleção seriam, na realidade, prepostos de deus, o que explica o seu ar arrogante e sua recusa em aceitar nossos palpites. (...)”

  • Escreve também sobre a superstição, aspecto marcante nos torcedores brasileiros, mas sobrando ironia para os americanos, que o evitam numerar o 13 andar em seus arranha-céus.

  • O segundo bloco, “O que elas têm a ver com isso”(04 crônicas), o cronista aborda o confronto entre homem e mulher em relação ao futebol.

  • Extrai humor através de analogias, aliás, procedimento marcante na obra (“Sexo e futebol”); conta uma história fictícia envolvendo separações conjugais devido às peladas de futebol no sítio do Magalhães (“A importância relativa das coisas”); outra historinha de ficção exibe o “Choque cultural” entre Márcio torcedor do Inter, e sua namorada Bete, que nada entende do esporte e vai ao Beira-Rio com a camiseta do Grêmio; em “Frescuras”, o autor ironiza a abertura da Copa da França e critica a esposa que tenta organizar a típica bagunça masculina num jogo de cartas.

  • O terceiro bloco, “Homens em campo” (09 crônicas), oferece-nos uma diversidade de assunto dentro das quatro linhas do jogo de futebol: a teimosia dos técnicos; a dificuldade de marcar certos jogadores; os apelidos no futebol; os atletas de Cristo, problemas psicológicos de jogadores como Raí e Edmundo; considerações sobre Zagalo, um dos personagens mais presentes nas crônicas; o time do Botafogo (segunda preferência do autor).

  • O último bloco, “Um brasileiro na Copa” as 22 crônicas tratam da experiência do autor na cobertura dos campeonatos mundiais.

  • Curiosamente, a crônica que abre essa seção, “Analogias”, aborda as escolas de samba, relacionando-as com o país e seus problemas, como o banditismo e sua tolerância.

  • Veríssimo escreve sobre o que é ser de um time

  • a paixão esportiva;

  • analisa o esquema tático da Seleção que, em 98, tinha mais canhotos do que destros;

  • ironiza o técnico de futebol, que só vê seu esquema perfeito no “minuto de silêncio”que precede a partida;

  • recapitula a história de oito copas do mundo, de 70 a 98; sempre “pega no pé” de Zagalo, desconfiando de seu esquema na Copa da França;

  • comenta scripts da Copa, como se fosse cenário de cinema;

  • ironiza a cabeça raspada dos jogadores;

  • compara o time da Nigéria com a própria situação política daquele país;

  • analisa o estilo do jogador Dunga;

  • escreve sabre as viagens de trem pela França(Copa);

  • faz humor num fictício diálogo com seu próprio coração a respeito da implantação da ‘morte súbita” no futebol;

  • comenta sobre a mobilidade da geografia ao referir-se à participação da Croácia na competição;

  • e sobre a final da Copa de 98 escreve vários textos, com destaque para “O que realmente aconteceu” onde se encontra o ponto culminante do humor de Veríssimo, trabalhando com o nonsense, o pastiche, a sátira, a caricatura.

  • Na última crônica sobre futebol, “Sonho” o autor confessa sua paixão por viagens e por futebol que eram seus sonhos de menino.

VI - Cinema

  • No primeiro bloco, “O melhor começo” (05 crônicas), o cronista faz uma viagem no tempo, evocando a época em que viu, pela primeira vez, atrizes Como Kim Novak, Ingrid Bergman, Rita Hayworth e Nastasia Kinsky. Aponta os melhores começos de filmes:

    • Picnic

    • Arroz amargo

    • Por quem os sinos dobram

    • Gilda

    • Janela indiscreta

    • Yojimbo

    • Lolita

    • Glória feita de sangue

    • Nascido para matar

    • Spartacus

    • Dr. Satrangelove

    • Laranja mecânica

    • 2001: uma odisséia no espaço

      • Cinema está associado a erotismo, daí as evocações das coxas de Silvana Mangano, dos seios da Martine Carol, da incomparável beleza de Catherine Deneuve e, claro, da brasileira Patrícia PilIar.

      • Certas cenas foram marcantes para o autor, como em um filme de Mastroianni, em que ele fica inexplicavelmente soprando balões.

      • Veríssimo se serve dessa cena para ironizar o Congresso Brasileiro e sua “busca ontológica de últimas verdades, sobre eles mesmos e sobre a capacidade do saco nacional”

      • O segundo bloco, “Sobre comédias e vilões” (07 crônicas), abrange alguns filmes contemporâneos, como Mensagem para você (que exibe, no cenário, uma mega-livraria), Shakespeare apaixonado, Evita, O advogado do diabo, Central do Brasil, A vida é bela, mas resgatando, também, o clássico Casablanca.

      • Retira uma fala de uma personagem desse filme para ironizar o contexto político brasileiro: “(...) lembrava a frase do chefe de política Renault depois de cada atentado terrorista em Casablanca: Prendam os suspeitos de sempre. Aqui os de sempre reuniam-se com o governo e chegavam a acordos sobre preços e práticas que nunca eram cumpridos, o que não impedia que fossem convocados de novo.”

      • O cinema brasileiro aparece nas crônicas “Eles merecem” e “O arquivilão”.

      • Na primeira, o autor fala de sua torcida por Fernanda Montenegro, que fora indicada para o Oscar por sua atuação em Central do Brasil.

      • Na outra crônica, o vilão é o ator gaúcho José Lewgoy, que sempre fazia papel de bandido nas chanchadas (comédias) nacionais, produzidas pelo estúdio Atlântida.

      • “A mesa voadora”: “O filme era um exemplar impecável de engenhosidade técnica e agradável imbecilidade”,

      • Ao elogiar o filme Evita, o cronista diz não ter sido influenciado pela “megabadalação” do “marquetchim”.

      • Demonstrando cultura geral, compara textos de Brecht e á música do alemão Kurt Weill.

VII - Literatura

      • No primeiro bloco, “Realismo fantástico” título que se refere ao gênero marcante das letras latino-americanas dos anos 60, Veríssimo inicia-se de forma fictícia, imaginando-se quando era invisível: na adolescência, entrava no vestiário das mulheres, salvava gols do Internacional, entrava em filmes impróprios (correndo o risco de alguém sentar-se sobre seu excitado colo...)’ procurava ver a amada nua, coisas assim.

      • Superada a fase de adolescente, troca seu “poder de invisibilidade” pelo “ofício de Flaubert”, isto é, vira escritor...

      • Em outra crônica “O que vem por aí” começa citando o poeta William Yeats, a propósito da premonição da chegada do Anticristo.

      • Cita uma letra inglesa sobre a iminente “chuva de bosta” que viria na virada do século.

      • Conclui afirmando que todos são leigos, ignorantes sobre o que virá, mesmo, no futuro.

      • Já em “lcebergs”, depois de uma curta reflexão sobre o estilo de Ernest Hemingway , o cronista fala do realismo fantástico que é nosso próprio país, na era da reeleição de Efe Agá, das revelações não feitas pelo político Newton Cardoso, no controle do combate ao narcotráfico.

      • muita coisa submersa, suja, e o povo só vê a ponta do iceberg...

      • Em “Memórias de um lepitópi”, título que indica que o cronista se serve desse instrumento para a redação de suas crônicas, o cenário é Dublin, terra do escritor irlandês James Joyce.

      • Viajando para esse lugar, Veríssimo faz um confronto entre a Dublin literária, presente em Ulisses, e a globalizada e prosaica Dublin do “McMundo”, a qual, ainda que traga algumas indicações da obra de Joyce, não se apresenta transfigurada como nos livros do criador do fluxo da consciência ou monólogo interior.

      • A segunda parte, “Secos e suculentos”(09 crônicas), indica, metaforicamente, estilos de autores americanos, como Hemingway e Scott Fitzgerald: aquele, mais seco, enxuto; este, mais denso, suculento.

      • E o que é desenvolvido em “Diferenças de estilo”, que se inicia com uma digressão sobre o cantor Elvis Presley, cuja morte salvou-o da mediocridade de continuar se repetindo.

      • E o que aconteceu com Hemingway, cujos últimos textos pareciam paródias de si mesmo, o que o levou ao suicídio.

“A morte livra o artista do envelhecimento e de outras maldades do tempo mas principalmente livra o artista dele mesmo.”

      • Em “Invenções”, temos uma divertida crônica sobre as peripécias do russo naturalizado americano, Vladimir Nabokov, que criava personagens de ficção em suas críticas literárias.

      • Ao comentar sobre a tênue fronteira entre ficção e realidade, Veríssimo ironiza os discursos de posse dos políticos.

      • Nas duas crônicas intituladas “Pombas e pombas” o assunto mescla cinema, literatura e política: a propósito de um Oscar concedido ao cineasta Elia Kazan.

      • Kazan teria delatado artistas comunistas durante o período de “Caça às bruxas”, nos E.U.A., nos anos 50.

      • O cronista evoca uma cena do filme de Kazan, “Sindicato de ladrões”, onde uma pomba era atirada aos pés do “dedo-duro”.

      • Há referências a vários autores, inclusive brasileiros, como Nelson Rodrigues, Roberto Campos, José G. Merquior e Gustavo Corção, que eram ideologicamente de direita, mas escreviam bons textos.

      • Em “Cinismo”, o assunto são os vilões de Shakespeare, como Iago e Ricardo III.

      • Em “Preabsolvição”, temos um assunto parecido com o de “Pombas e pombas”, pois se trata de autores comprometidos com uma ideologia conservadora, reacionária, de direita, mas que produziam ótimos textos.

      • Cita, inclusive, Picasso, que podia ter sido um péssimo caráter, mas é um pintor inigualável.

      • O cronista adverte, porém, sobre o procedimento dos políticos corruptos, daqueles do tipo “rouba, mas faz”; ironiza o sistema brasileiro do “deixa-pra-Iaísmo”, que tolera essa desconexão entre desonestidade e competência política.

      • Em “Mar de palavras”, temos uma crônica que mescla a ficção e o ensaio: três náufragos cegos, o grego Homero, o irlandês James Joyce e o argentino Jorge Luis Borges, estão à deriva, num mar de palavras.

      • As frases são gotejantes, tudo são línguas e metáforas.

      • Os símiles são voadores.

      • A conversa, entremeada de termos coloquiais e até chulos, aborda as personagens que esses personagens autores criaram.

“- Você não pode ser obscuro. Você é o primeiro poeta do mundo. Se você já começa obscuro, o que sobrará pra nós, que viremos depois? Seja claro. Seja linear. Seja básico. Seja grego, pombas.”

      • Joyce ironiza sua mulher, Nora, chamando-a de “Nora Craca”

      • Há referências a outros autores, que escreveram sobre o mar - Camões, MelvilIe , Jules Verne.

      • Questionando sobre o que é o mar de palavras, Borges evoca a biblioteca de seu pai.

      • Em “O insubmergível Oscar Wilde” Verissimo faz considerações sobre o filme Titanic, “E o maior filme-para-mulheres de todos os tempos” e estabelece analogia com o autor inglês, Oscar Wilde, que escreveu na prisão, acusado de homossexualismo

      • A última crônica desse bloco, “Vanguardas” tem como tema a obra de Érico Veríssimo, sobretudo a trilogia “O tempo e o vento”, tido por Luis Fernando como um texto de vanguarda, renovador, capaz de influenciar autores, como o colombiano Garcia Márquez.

“Talvez nenhum outro escritor brasileiro do seu tempo fosse tão bem informado sobre a teoria do romance, embora se definisse como apenas um contador de histórias.(...)Em o Tempo eo Vento não se sabe o que é mais espantoso, a ambição do autor ou o fato de queconseguiu realiza-la. (...) Acho que nunca se deu a devida atenção à carpintaria revolucionária de O Tempo e o vento.”

      • O último bloco do livro, “O feitiço do livro”(07 crônicas), aborda, especificamente, livros como Lolita, de Nabokov, Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson, O cânone ocidental, de Harold Bloom, O último suspiro do mouro, de Salman Rushdie, Os irmãos Karamazov, de Dostoievski, Grande Ser tão: Veredas, de Guimarães Rosa, e os livros de auto-ajuda, de forma genérica.

      • Neste último caso, a crítica é irônica, como se vê pela repetição do verbo “otimizar”, ao longo do texto.

      • Aqui, o “Perigo”, do titulo, é urna onda de pessoas de sucesso vendendo bastante livros de auto-ajuda, impedindo a chegada às livrarias de autores céticos e pessimistas.


VII – Comentários Finais

  • Muitas vezes, o autor explora a linguagem coloquial:

“Semo estrangeiro mas não semo burro”

  • A auto-ironia é constante, principalmente ao referir-se à sua idade sexagenária, o seu deslizamento para a “obsolescência como um pé entrando num chinelo” como se lê na crônica “Arrasador”.

  • Busca do humor como na crônica “Edmundo, sim ou não”

“O caráter do Edmundo equivale a um embrulho abandonado, que tanto pode ser uma bomba que vai explodir num momento inoportuno e prejudicar todo mundo, quanto chuchu ou roupa suja”

  • Algumas imagens marcadas pelo humor podem ser vistas em “O fim de um mito”, ao referir-se ao futebol burocrático de Rivaldo: “ele não consegue receber uma bola sem protocolar, carimbar, rubricar e só então encaminhar. Mas quando encaminhar”





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