A filha do Capitão



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José Rodrigues dos Santos


A Filha do Capitão

JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS nasceu em 1964 em Moçambique. Tal como a esmagadora maioria dos portugueses, alguns dos seus antepassados estiveram envolvidos na Grande Guerra, na Flandres e em África, e este romance é o tributo que lhes presta.

Apesar da faceta de romancista, o autor é sobretudo conhecido como jornalista. Iniciou a carreira jornalística em 1980, na Rádio Macau. Trabalhou na BBC, em Londres, entre 1987 e 1990, e seguiu para a RTP, onde começou a apresentar o 24 Horas. Em 1991 passou para a apresentação do Telejornal e tornou-se colaborador permanente da CNN de 1993 a 2002.

Doutorado em Ciências da Comunicação, é professor da Universidade Nova de Lisboa e jornalista da RTP, ocupando por duas vezes o cargo de director de Informação da televisão pública. É um dos mais premiados jornalistas portugueses, tendo sido galardoado com dois prémios do Clube Português de Imprensa e três da CNN.







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José Rodrigues dos Santos/Gradiva - Publicações, L.a

Revisão do texto: José Soares de Almeida
Capa: Armando Lopes
Fotocomposição: Gradiva
Impressão e acabamento:

Multitipo - Artes Gráficas,

1. edição: Novembro de 2004

Depósito legal n. 217376/2004


Ao meu bisavô materno,

o cabo Raúl Campos Tetino, que morreu após ser gaseado na Grande Guerra

Ao meu avô paterno,

o capitão José Rodrigues dos Santos, que serviu no conflito de 1914-1918.

O pensamento mais fugaz obedece a um desenho invisível.”

JORGE LUÍS BORGES, O Aleph

O sentido do mundo emerge fora do mundo. No mundo, tudo é como é e acontece como acontece.”
É muito difícil para os que fizeram a guerra lutar nos campos das letras com os paisanos que a descrevem à retaguarda em livros ou nos grandes jornais.

Para se desenhar em termos um acto heróico é preciso pelo menos um recuo de duzentos quilómetros. De perto, a heroicidade confunde-se demasiadamente com as cousas que de heróico não têm a mínima parcela.”

ANDRÉ BRUN, A Malta das Trincheiras



I



Afonso e Agnes

I
Foi logo em pequeno que Afonso da Silva Brandão percebeu que a vida era uma estrada incerta, repleta de cruzamentos, bifurcações, pontes, túneis e becos, e que cada caminho encerrava um sem-número de mistérios, de segredos por desvendar e de enigmas por decifrar. Animado por uma curiosidade persistente e estimulado por uma inteligência viva e intuitiva, cedo começou a suspeitar de que o mundo era um sítio estranho, um enorme palco de ilusões, traiçoeiro e dissimulado, um dúplice jogo de espelhos onde tudo parecia caótico mas se revelava afinal ordenado, onde as coisas tinham certamente um sentido, mas não necessariamente um significado. Pressentiu, aliás, que era precisamente na existência de um significado que principiava o enigma do significado da existência.

Chegaria o tempo em que se interrogaria repetidamente sobre esse grande segredo, talvez um dos maiores e mais velhos mistérios do universo. A questão do significado da existência. O destino. Iria então tentar decifrar o sinuoso percurso da vida, o inefável caminho que os dias percorrem, um após outro, arrastando-o numa direcção obscura, a rota talvez previamente definida, quem sabe se escolhida por si ou forçada pelas circunstâncias, certamente condu-zindo-o através de uma labiríntica rede até ao inescapável fim, como se as coisas fossem fruto de uma conspiração na sombra, preparada por agentes sem rosto numa fantástica conjuração secreta. Procuraria aí a resposta para o enigma que o apoquentava.

Quando esse tempo viesse, Afonso suspeitaria de que a vida era afinal uma tragédia, ou talvez apenas uma grandiosa peça imaginada por um dramaturgo sem nome e representada por actores sonambulescos, intérpretes involuntários de um enredo desconhecido, personagens a quem ninguém jamais teve a gentileza de explicar a trama da história, a intriga que estava afinal determinada mas permanecia indeterminável. Talvez essa visão fosse fruto das circunstâncias particulares da sua existência, da sucessão de percursos inacabados que se tornara a sua vida. Confrontar-se-ia então com os sonhos adiados e os caminhos que não percorrera, dos dias que vivera guardaria apenas a cruel nostalgia do que poderia ter sido se as coisas se têm tornado diferentes. Nada era justo, tudo se revelava arbitrário, cada um limitava-se a procurar retirar um significado do caos da existência, como se fosse importante criar uma narrativa, estabelecer um sentido, buscar uma razão, encontrar uma explicação para as coisas que simplesmente acontecem.

Na vida, concluiria um dia, todos têm direito a um grande amor. Uns achá-lo-iam num cruzamento perdido e com ele seguiriam até ao fim do caminho, teimosos e abnegados, até que a morte desfizesse o que a vida fizera. Outros estavam destinados a desconhecê-lo, a procurarem sem o descobrirem, a cruzarem-se numa esquina sem jamais se olharem, a ignorarem a sua perda até desaparecerem na neblina que pairava sobre o solitário trilho para onde a vida os conduzira. E havia ainda aqueles fadados para a tragédia, os amores que se encontravam e cedo percebiam que o encontro era afinal efémero, furtivo, um mero sopro na corrente do tempo, um cruel interlúdio antes da dolorosa separação, um beijo de despedida no caminho da solidão, a alma abalada pela sombria angústia de saberem que havia um outro percurso, uma outra existência, uma passagem alternativa que lhes fora para sempre vedada. Esses eram os infelizes, os dilacerados pela revolta até serem abatidos pela resignação, os que percorrem a estrada da vida vergados pela saudade do que poderia ter sido, do futuro que não existiu, do trilho que nunca percorreriam a dois. Eram esses os que estavam indelevelmente marcados pela amarga e profunda nostalgia de um amor por viver.

A vida é realmente um caldeirão de mistérios, a começar pelos mais simples, pelos mais ingénuos e inocentes, por aqueles que estão na génese da nossa existência. Afonso, por exemplo, nunca teve a certeza absoluta sobre a data exacta em que nasceu. Sabia que tinha sido em Março de 1890, embora alimentasse dúvidas quanto ao dia certo. A mãe dizia que o dera à luz à meia-noite e meia hora de 7 de Março, mas seria a meia-noite e meia hora da noite de 6 para 7 ou de 7 para 8? A questão nunca foi devidamente clarificada, apesar de, para todos os efeitos, a data de 7 de Março se ter tornado, nos documentos oficiais, o dia em que Afonso nascera.

O pequeno viu pela primeira vez a luz do dia numa casa humilde da Carrachana, um lugar ermo à entrada da vila ribatejana de Rio Maior. Era o sexto e último filho da senhora Mariana, uma mulher baixa e forte, as faces rechonchudas e rosadas, o cabelo meio-grisalho puxado para trás e preso por um carrapito, e cujo nome também ele estava envolto em absurdas incertezas. A mãe dizia que se chamava Mariana André Brandão, mas noutras alturas identificava-se como Mariana Silva André, ou Mariana da Conceição, ou Mariana das Dores. Afonso nunca entendeu este mistério, embora a tivesse questionado inúmeras vezes sobre o assunto, obtendo sempre respostas contraditórias ou evasivas. Os documentos oficiais de Afonso registavam que ele era filho de Mariana André Brandão, mas um dia verificou que os papéis de um irmão atribuíam a filiação a Mariana Silva André. No meio de tudo isto a única certeza era a de que o nome próprio da mãe era Mariana.

O pai chamava-se Rafael Brandão Laureano, o que suscitava novo mistério. Pois, se o último nome era Laureano, por que razão dera aos filhos o apelido do meio, Brandão? Igualmente aqui nunca houve respostas satisfatórias e o pai limitava-se a encolher os ombros quando interrogado sobre esta opção. Rafael Laureano era um homem alto, com um metro e setenta e cinco, estatura invulgar em Portugal, e profundamente religioso. Tinha um rosto largo, rasgado por longas rugas que lhe nasciam do canto dos olhos miúdos, o abundante e rebelde cabelo grisalho parecia uma mão-cheia de palha branca plantada na cabeça. O senhor Rafael exercia a profissão de jornaleiro, mas, desenganem-se os menos esclarecidos, nada tinha a ver com jornais. Um jornaleiro era um homem que trabalhava no campo e era pago à jornada. Sendo jornaleiro, o pai de Afonso era pobre, mas não miserável. Possuía dois pequenos terrenos onde cultivava vinhas para produzir tinto, que vendia aos armazenistas de Rio Maior. O problema é que a produção não chegava para o sustento da família e, como tinha fama de bom agricultor, Rafael era frequentemente convidado pelos grandes proprietários ribatejanos para trabalhar à jornada nas suas terras.

Rafael e Mariana casaram muito cedo e tiveram o primeiro filho quando ainda eram adolescentes. Ele tinha quinze anos e ela catorze. Mariana deu à luz um belo rapaz, ao qual chamaram Manuel. Depois vieram a Jesuína, o António, o João e o Joaquim. Em 1889, na altura em que estava a cumprir serviço na Marinha de Guerra, António morreu, vítima de tuberculose. Mariana ficou desfeita e a dor encheu o lar. Rafael mergulhou numa depressão, tornou-se amargo, obcecado pela desgraça que se abatera sobre a família. Era normal naquele tempo morrerem muitas crianças, a maior parte das vezes ainda bebés, mas o António já não era um menino, era um homenzinho, tinha sonhos e projectos, era amado e admirado.

O pai deu consigo a sonhar todas as noites com a morte do filho. Sonhava que ele afinal não morrera, ou que ressuscitara, ou que conhecera um outro rapaz igualzinho ao seu António, ou que o chamava mas ele não o ouvia, ou que isto, ou que aquilo. De todas as vezes era um sonho diferente, frequentemente trágico, por vezes desesperado, raramente feliz. Houve um, porém, que o deixou muito impressionado. Numa noite abafada de Verão sonhou Rafael que se ajoelhara junto à campa do seu rapaz quando Deus Lhe apareceu em visão e disse que lhe tinha destinado cinco filhos. Se um morrera, outro teria de vir para o substituir. Quando Rafael despertou, a decisão estava tomada e Mariana foi compensada com um novo filho, era uma forma de fazer regressar a alegria a casa e de cumprir os desígnios do Senhor. Foi assim que, no ano seguinte, Mariana, já com quarenta e cinco anos, deu à luz Afonso, o menino que veio para substituir António nas contas de Deus.

O benjamim da família cresceu habituado a um mundo em que todos os irmãos eram muito mais velhos do que ele. Manuel tinha trinta e um anos, já se casara e saíra de casa. Tornara-se ferrador e fizera-se pai de uma menina dois anos mais velha do que o seu irmão mais novo. Depois vinha Jesuína, que casou quando Afonso era ainda pequeno. A sua primeira memória da irmã remonta a um momento doloroso na cozinha, Jesuína lavada em lágrimas de desespero pela morte do primeiro filho, a mãe a consolá- la, a cabeça da filha encostada ao ombro materno. Do terceiro irmão, António, aquele a quem afinal devia a vida, só restava uma grande fotografia pendurada numa parede da sala, o rapaz com a farda de marinheiro orgulhosamente ostentada. Os mais próximos eram João e Joaquim, ambos adolescentes, a trabalharem numa serração. O pequeno Afonso dormia com estes dois irmãos na mesma cama de latão, num quarto sem porta, a entrada protegida por uma cortina muito gasta. À medida que o mais novo ia crescendo, tornou-se evidente que não cabiam os três na mesma cama se continuassem deitados uns ao lado dos outros, e Afonso, que ficava sempre no meio, passou a dormir com a cabeça junto aos pés dos mais velhos.

As memórias de Afonso só começaram a tornar-se nítidas a partir dos seis anos. Foi nessa altura que parou de mamar no pão, à falta de chupeta mais adequada, embora ainda comesse as sopas de cavalo cansado, que se tornaram a sua dieta. Aos dois anos tinha deixado de mamar nos seios da mãe, porque o leite secara, e passara desde então a depender dessa mistura de pão e vinho tinto doméstico. Ao entrar na escola adquiriu maior consciência do mundo que o rodeava. Começou a notar as madeiras escuras e toscas que lhe mobilavam a casa e o permanente cheiro a porcos, estrume e mosto que lhe invadia o quarto. Os suínos eram criados numa pequena pocilga ao lado da casa e o seu odor propagava-se facilmente pelo ar. Não é que se importasse, ele que andava descalço por toda a parte, vestindo uns velhos e fedorentos trapos herdados dos irmãos.

Cedo começou Afonso a ajudar o pai, semeando melão, limpando as vinhas e enxofrando as cepas. As epidemias ameaçavam as vinhas havia mais de dez anos, iniciava-se então o falatório sobre um novo método para combater aquele mal, a sulfatação, mas, enquanto a novidade não chegava ao Ribatejo, terra remota e de vida árdua, tinha o senhor Rafael de contar unicamente com a protecção da Virgem. Naquele tempo circulava-se de carroça, embora Rafael Laureano se remediasse com uma burra que o auxiliava na lavoura. Afonso aprendeu que a burra não era burra de todo, mostrava-se até esperta e desembaraçada. Era frequente ver o pai dar instruções ao animal.

“Vai para o Cidral!”, ordenava-lhe o senhor Rafael, abrindo o portão do quintal. “Anda, vai”

A burra cruzava o portão e desaparecia vagarosamente pela poeirenta estrada de terra batida, seguida pelo cão da casa, o Bobby. Nessas alturas, Afonso acompanhava o pai numa volta pela vila, seguia-o como um rafeiro fiel, achava-o forte e sábio, com ele sentia-se bem, seguro e tranquilo. Quando, horas depois, chegavam os dois ao terreno da família no Cidral, encontravam a burra e o cão à sua espera.

“Bovi! Bovi!”, chamava o pai, incapaz de pronunciar correctamente o nome de Bobby. Abria os braços e abraçava o cão, que o recebia com sempre renovado entusiasmo, a cauda a abanar como um leque, saudando o dono como se não o visse havia dez anos. “Ah, Bovi.”

A vida do senhor Rafael era dura. De segunda a sábado acordava às cinco da manhã, comia uma sopa ou um naco de pão com chouriço e ia trabalhar a terra. Almoçava às dez horas o farnel que a mulher lhe trazia num cesto e ao meio-dia vinha a merenda. A lavoura só terminava quando o Sol se punha ou quando dobravam os sinos do cemitério, pelas cinco da tarde.

“Olha as ave-marias!”, exclamava Rafael Laureano, limpando o suor da testa e erguendo-se para mirar o horizonte e escutar os sinos distantes. “Está na hora”

Deitavam-se todos cedo, eram oito da noite quando o senhor Rafael mandava Afonso vestir o seu “pijeta”, apagava as candeias ateadas com azeite e mergulhava a casa na escuridão, era hora de dormir. Só aos domingos podia esta rotina ser alterada. No dia do Senhor acordavam cedo, como sempre, e vestiam as melhores roupas, melhores porque não estavam esfarrapadas. O banho era quase desconhecido, excepto no Verão, altura em que, uma vez por mês, toda a família ia lavar-se em animadas manhãs dominicais. Afonso não apreciava esses momentos. Encolhia o corpo franzino dentro de uma tina e sentia a água gelada despejada sobre si pela mãe. Depois de se vestirem, o senhor Rafael conduzia a família à missa para uma manhã de virtude, mas à tarde vinha o vício e o pecado. O pai ia com os irmãos para a taberna do Silvestre ou para a taberna do Corneta embebedar-se com tinto. Era conside-rado um “mau vinho” porque, quando embriagado, ficava de mau humor e não raras foram as vezes em que se envolveu em zaragatas disparatadas. Para controlar o problema, a senhora Mariana mandava Afonso acompanhar o pai com a missão de o trazer de volta tão cedo quanto possível, tarefa que o pequeno temia, o pai tornava-se irascível quando tocado pelo álcool e aquele rochedo de segurança transformava-se nesses momentos numa montanha ameaçadora, as mãos eram pedregulhos instáveis e imprevisíveis, reagia mal às suas súplicas e esbofeteava-o com violência.

O vinho fazia parte das suas vidas, ou não fosse Rafael Laureano um pequeno e dedicado produtor. Afonso habituou-se a colaborar no trabalho de produção de tinto, atirando as uvas para os balseiros instalados num anexo. O pequeno passou a acompanhar os adultos no trabalho de pisar as uvas para fazer o mosto, uma tarefa que lhe produzia tonturas, percebeu mais tarde que era o álcool libertado do mosto que o embriagava. O vinho era depois colocado em tonéis, com gradações que variavam entre os doze e os quinze graus, para serem vendidos aos armazenistas de Rio Maior. Nos balseiros ficava entretanto o engaço, formado pelos pés das uvas. O pai atirava água para cima do engaço e nascia ali um vinho mais fraco, de sete ou oito graus, a que chamavam água-pé.

Quando os filhos atingiam os cinco anos, o senhor Rafael arrebanhava-os para o ajudarem no trabalho. Podiam ser ainda muito pequenos, mas o pai considerava-os aptos a desempenharem pequenas tarefas. Em 1876, porém, abriu a escola primária em Rio Maior. O ensino não vinha a tempo dos filhos mais velhos do casal Laureano, mas a questão colocou-se em relação a João, Joaquim e, mais tarde, Afonso. O pai mostrou-se inicialmente relutante em enviá-los para a primária, argumentando que precisava era de mãos que o ajudassem a trabalhar a terra ou a ganhar sustento para a família noutros trabalhos. Teve de ser o pároco de Rio Maior, o padre Gaspar Costa, a intervir e usar toda a sua divina influência para levar a melhor sobre o casmurro Rafael. O que é facto é que os rapazes lá acabaram por serem autorizados a frequentar a escola.

A vez de Afonso chegou num dia húmido e frio do Outono de 1896. Logo pela manhã, desafiando a nortada gelada que soprava com bravura lá do Alto do Seixal, a senhora Mariana levou o filho mais novo pela mão desde a Travessa do Rosmaninho, onde viviam, até à Rua das Dálias. Atravessaram apressadamente o largo, encolhidos nos seus miseráveis agasalhos, e meteram à direita pela Rua das Flores. A manhã despertara agreste, as gotas do orvalho matinal a brilharem como pérolas reluzentes nas folhas molhadas das azinhei-ras, as pétalas das flores abrindo-se à luz fria da alvorada e à primeira dança dos insectos, as folhas fendidas dos carvalhos-das-beiras a formarem lágrimas que deslizavam pelos esbranquiçados das suas páginas inferiores, o aromático odor da resina a flutuar no ar, era como um perfume exótico que se espalhava pelo caminho de terra rasgado por entre a verdura. Seguiram por ali fora, alheios ao espectáculo da natureza no dealbar do novo dia, até passarem pela Torre dos Bombeiros e chegarem à escola primária de Rio Maior.

“Que bom, Afonso, vais para a escola”, dizia-lhe a mãe pelo caminho. “Estás contente, não estás?

Afonso assentia com a cabeça. A senhora Mariana passara os últimos dias a pintar-lhe um quadro idílico da escola, que era uma coisa maravilhosa, que ia ter muitos amigos, que ia aprender a ser um grande homem, o tom era de tal modo entusiástico que o pequerrucho deu consigo ansioso por frequentar tal lugar. Ficou por isso ligeiramente surpreendido quando, ao aproximar-se do edifício, viu outras crianças a chorar, as mães arrastavam-nas nos passeios e elas desfaziam-se em lágrimas. Achou estranho, por que razão estariam os outros miúdos tão assustados por irem para a escola?

A verdade é que, ao cruzar o portão, Afonso entrou num mundo especial, onde as leis eram diferentes e as condutas reguladas, um mundo que lhe abriu as portas para horizontes que se estendiam para além da Carrachana. Um letreiro afixado à porta da escola explicava que os pais teriam de entregar uma “declaração do paroco ácerca da edade”, uma “declaração do regedor atestando a residência do aluno na freguezia” e uma “declaração do facultativo de não soffrerem as crianças molestias contagiosas e de terem sido vaccinadas”. A senhora Mariana não sabia ler, mas tinha-se informado previamente junto do padre Gaspar e levava consigo os três documentos requeridos, que entregou à ajudante da escola, a circunspecta dona Vadeia Figueiredo.

O primeiro mestre de Afonso foi o professor Manoel Ferreira, um dinâmico leiriense que havia mais de vinte anos tinha chegado a Rio Maior e aberto a escola, a única instituição de ensino primário para rapazes existente na vila. O professor Ferreira era adepto intransigente de uma disciplina rígida nas salas de aula e obrigou Afonso, a exemplo dos seus colegas, a usar bibe.

“Aqui não há ricos nem pobres”, explicou ele à senhora Mariana quando esta se admirou com a imposição. “Na escola são todos iguais e, por isso, vestem por igual.”

À disciplina férrea, Manoel Ferreira juntava métodos pedagógicos inovadores e activos, como a cartilha João de Deus. O professor era casado com dona Maria Vicência, de quem tinha onze filhos, mas, aos quarenta e quatro anos, encontrava ainda tempo para dirigir os jornais O Riomaiorense e, posteriormente, o Civilisação Popular, semanários que fundara, para além de uma tipografia. Foi Manoel Ferreira quem ensinou Afonso a ler, associando letras a desenhos e a sons, de acordo com as novas teorias de ensino.

A dureza das tarefas de que o pai incumbia Afonso na lavoura fez com que o pequeno gostasse de ir às aulas. Considerava a escola um local de descanso que lhe dava oportunidade para fugir ao exigente trabalho na terra. Afonso aplicou-se nos estudos, mas sobretudo nas brincadeiras, as correrias do “apanha” e o “aqui-vai-alho” tornaram-se as favoritas. A principal, porém, era o football, jogado em geral com uma bola feita de trapos e meias velhas. Ao meio-dia ia a casa comer alguma coisa e levava depois uma cesta com comida para João e Joaquim, que trabalhavam na serração. Os dois irmãos iam ter com ele a meio caminho para recolherem o farnel e Afonso voltava depois para a escola. Quando as aulas acabavam, perdia-se na bola com os amigos no Largo Conselheiro João Franco, a principal praça de Rio Maior, até ao dia em que partiu a vitrina da Pharmácia Barbosa com uma bola reforçada por um revestimento de couro. Como todos na vila se conheciam, o doutor Francisco Barbosa foi queixar-se à mãe e a partir desse dia acabaram-se as sessões de football pós-escolar.

A paixão do pequeno Afonso pelo football nasceu-lhe da única viagem que fez nos primeiros dez anos de vida. Quando tinha seis anos, meses antes de ir para a escola pela primeira vez, os pais receberam a notícia de que a prima Ermelinda, uma parente afastada da mãe, estava a morrer de tuberculose. A prima Ermelinda vivia em Lisboa e ficou decidido que iriam visitá-la no domingo seguinte. Nunca tinham ido à capital e a viagem suscitou a maior animação na família, em boa verdade as maleitas da prima Ermelinda apenas preocupavam a senhora Mariana, para o senhor Rafael e os filhos aquele não passava, afinal de contas, de um apropriado pretexto para irem visitar a grande cidade. Corria então o ano de 1896, as vendas de tonéis de vinho aos armazéns tinham sido excelentes e havia dinheiro disponível para o ansiado passeio.

Levantaram-se pelas quatro horas da madrugada do domingo de 9 de Agosto, vestiram as melhores roupas e rezaram à mesa de modo a compen-sarem a missa dominical a que teriam de faltar. Afonso era, nessa altura, um rapaz franzino, de cabelos castanhos lisos e olhos cor de chocolate a sobressaírem na sua tez pálida. Apesar do sono, transbordava de entusiasmo e excitação, mal podia esperar pela grande viagem.

Os Laureanos pegaram em dois sacos de farnel previamente preparados e num garrafão de tinto e apanharam a carreira. Pagaram quinhentos réis por pessoa, bilhetes de ida e volta, e seguiram pela Estrada Real n. o 65 até às Caldas da Rainha. Na estação das Caldas compraram bilhetes de 2. a classe para o primeiro rápido, a mil setecentos e vinte réis cada um, e, às sete e meia da manhã, o casal Laureano e os três filhos mais novos apanharam o comboio. Foram parando em sucessivas estações e apeadeiros, primeiro Óbidos, depois outros lugares de que Afonso nunca tinha ouvido falar, Bombarral, Outeiro, Ramalhal, Torres Vedras, perderam a conta, mas na Porcalhota sentiram-se já com um pé na capital, seguiram-se Bemfica, Campolide e Alcântara, acabaram por entrar no Rocio às dez e meia da manhã.

“Ai que confusão, valha-me Deus”, queixou-se Mariana, afogueada pelo calor estival e atarantada com o nervoso movimento na estação. “Vamos à Ermelinda?”

“Tem calma, mulher, tem calma”, devolveu o marido, excitado por conhecer a cidade e nada interessado em desperdiçar o passeio em casa de uma moribunda que mal conhecia. “Temos tempo para a tua prima, fica descansada. Mas, primeiro, vamos lá dar uma voltinha, anda. “ Olhou em redor, os edifícios pareciam estranhos, sofisticados, grandiosos, os homens eram uns janotas, mas, sobretudo, havia ali mulheres com ar distinto, sombrinhas na mão e aspecto bem tratado, umas verdadeiras flores, duquesas certamente. Esfregou as mãos, radiante. “Isto promete, olé se promete!”

Tudo aquilo era para eles novidade. O senhor Rafael, compenetrado na sua responsabilidade de chefe de família, mostrava-se particularmente nervoso. Para se sentir mais à vontade, ao interpelar qualquer pessoa procurava sempre colocar Rio Maior na conversa, era um modo de o transportar para um lugar familiar, coisa que começou por fazer logo ali na estação.

“Ó amigo, você já passou por Rio Maior? “, perguntou a um funcionário da Companhia Real dos Caminhos-de- Ferro Portuguezes.

O homem mirou-o embasbacado.

“Eu? Não”

“Fez mal”, retorquiu o senhor Rafael. “Diga-me lá para onde é que é o Terreiro do Paço.”

Afonso era ainda pequeno, mas o bulício agitado da vida citadina não escapou à sua atenção. Apanharam a boleia de uma carroça proveniente de Alverca, o boleeiro era um saloio que viera à cidade levar batatas para o Campo das Cebolas, e atravessaram uma praça de dimensões nunca vistas, um largo tão grande que certamente Rio Maior caberia lá inteirinho.

“Esta é a Praça de D. Pedro IV”, anunciou o saloio, fazendo um estalido com a língua para incitar as mulas. “Era a Praça da Inquisição, mas a malta conhece agora isto por Rocio. Chegaram a fazer-se aqui touradas e a queimar-se hereges, vejam lá vossemeceses. “

Uma rua rodeava a vasta praça do Rocio, árvores viçosas alinhadas nas extremidades, o chão num tabuleiro de calçada à portuguesa desenhada em ondas, bancos de jardim plantados perante as árvores, uma esguia coluna ao centro com a estátua de D. Pedro IV no topo, a rica fachada do Theatro de D. Maria II ao fundo, casas a cercarem a praça, muitas de comércio, aqui a Tabacaria Mónaco, ali as Confecções Martins, acolá a Pastelaria Cardoso, mais além o Café Gelo.

Depressa a carroça deixou o Rocio para trás e meteu pela Rua Augusta, percorreram-na admirando o rico e variado comércio que a enchia de vida, de um lado a Casa dos Bordados, do outro a Sapataria Lisbonense, mais à frente a Casa Americana, entraram finalmente na faustosa Praça do Commércio e o saloio parou a carroça para que saíssem. Agradeceram a boleia e o homem foi à sua vida, deixando-os a deambularem prazenteiramente pelo Terreiro do Paço. Admiraram o Caes das Columnas e os barcos aí atracados ou a deslizarem pelo rio com as velas ao vento, contornaram a praça de olhos primeiro postos na imponente estátua equestre de D. José, “olha o cavalo preto! “, apontou o senhor Rafael às crianças, depois miraram em silêncio respeitoso os majestosos edifícios amarelos que rodeavam geometricamente o largo com as suas profundas arcadas e galerias e os torreões nas alas perpendiculares, finalmente maravilharam-se com o Arco Triunfal e a estátua em pé no topo, as mãos estendidas sobre as cabeças de duas outras estátuas mais baixas, não podiam saber mas era a Glória a coroar o Génio e o valor, a misteriosa legenda VIRTUTIBUS MAIOR por baixo, não a decifraram, não a entendiam, não conheciam latim, não sabiam sequer ler. Satisfeitos, decidiram regressar ao ponto de partida por outro caminho. Cruzaram a Rua do Arsenal e meteram pela Rua Áurea, espantaram-se com os altos armários de vidro colocados à porta da joalharia Cunha & Irmão, abastecedora da Casa Real, a exibir as suas pedras preciosas, “isto é que é uma riqueza! “, passaram pela Luvaria Gatos e salivaram diante da vitrina da Maison Parisienne, a patisserie que se gabava dos seus sorvetes “de todos os typos. “

Desembocaram novamente no Rocio. Um sol quente de Estio, que banhava a praça com violência e empurrava as gentes para as sombras protectoras, fazia realçar as cores garridas das lojas, num agradável contraste com o azul-forte e profundo do céu. Afonso estranhou o facto de andar ali pouca gente descalça, havia muitas pessoas de sapatos a circular pela praça, situação que lhe indiciava serem os lisboetas gente rica e requintada. Em vez dos barretes ribatejanos que se habituara a ver em Rio Maior, constatou que, em Lisboa, muitos homens usavam refinados chapéus na cabeça, ora cartolas, ora chapéus de coco. Além disso, balouçavam bengalas na mão e aperaltavam-se com gravatas e laços a enfeitar roupas que pareciam limpas, lá na terra apenas o doutor Barbosa, o professor Ferreira e poucos mais tinham o hábito de se apresentarem assim tão janotas.

Aqui e ali, a destoar, um rapaz descalço sobre uma mula, era um saloio, outro a carregar um barril azul aos gritos num pregão de “água fresca! “, provavelmente um galego. Um monge magro, de sotaina negra e uma corda apertada à cintura a servir de cinto, passava por entre dois homens sentados no passeio, um com a cabeça no regaço do outro, que lhe inspeccionava o cabelo, estava ali aberta a época da caça aos piolhos. No outro lado passava um rapaz a puxar um carrinho de madeira cheio de pão, atrapalhando os perus de dois campinos ribatejanos, as aves em alvoroço em torno do carrinho e os campinos a tentarem controlá-las com os cajados. Pelo Rocio circulavam cavalos, mulas, burros, coches e carroças, viam-se rebanhos de cabras e vacas conduzidos aos cafés e botequins para fornecerem leite, mas o mais estranho era uma pequena carruagem de comboio que assentava sobre carris e era puxada por dois cavalos. As pessoas subiam para a carruagem junto à cooperativa “A Lusitana”, pagavam um bilhete e sentavam-se num longo banco central, esperando que o cocheiro iniciasse a marcha.

“É o Americano”, disse um saloio junto ao Bebedouro dos Quatro Anjinhos, sentindo-se quase gente fina ao pé daqueles provincianos. “Leva o pessoal pela cidade. Partem todos os quartos de hora, das sete da manhã às sete da tarde. Se quiserem aproveitar para darem uma voltinha... “

Não quiseram, acharam que seria demasiado caro para as suas posses. Mais valia andarem a pé.

“Vamos à Ermelinda? “, sugeriu a senhora Mariana. “Ó filha, tem calma, temos tempo”, exclamou Rafael. “Vamos dar mais uma volta, anda, ainda é cedo. “

Saíram do Rocio e meteram por uma rua sinuosa, que se inclinava e subia, íngreme, e o ar moderno da cidade foi-se perdendo, começou a aparecer o miserável, de certo modo Lisboa tornava-se quase tão indigente como Rio Maior. Viam-se pedintes, homens deitados no chão a exibirem feridas horrendas para comprarem a piedade dos transeuntes, mais cães, porcos, galinhas e patos a patinarem na lama. E o pior era toda a imundice, uma imundice mais imunda do que a da Carrachana, uma imundice de latrina e odores fétidos que tudo sujava e penetrava. O senhor Rafael e a família saltitavam descalços de pedra em pedra, evi tando os excrementos e os rios de urina que deslizavam rua a baixo. Havia canais para esgotos abertos ao lado dos passeios e que desciam para o rio, mas muitos lisboetas tinham demasiada preguiça para irem ali colocar os dejectos, preferindo atirá-los para o meio da rua, sempre dava menos trabalho. Aqui não se via gente aprumada, o chão era demasiado sujo para sapatos de alta sociedade.

“Esta cidade está cheia de merda”, resmungou o senhor Rafael tentando limpar na pedra um pedaço de excrementos humanos que se colara ao calcanhar do seu nu pé direito.

Os excursionistas de Rio Maior ainda porfiaram por aquelas ruelas estreitas e inclinadas, esquadrinhando-as para cima e para baixo, mas um grito de “água vai! “, seguido do despejar de porcaria de uma janela para a rua, convenceu-os a darem meia-volta.

“Ai Jesus, vamos embora, vamos embora, senão ainda levamos um banho de caca”, aconselhou Mariana, com um risinho nervoso e muito atenta às janelas em redor.

Regressaram ao Rocio, sempre era mais seguro e não corriam o risco de apanharem uma chuvada de excrementos. Não é que não estivessem habituados à porcaria. Estavam. Não estavam era habituados àquela intensidade de porcaria. Uma vez de volta à grande praça central, meteram em direcção dos Restauradores. A dada altura, encontravam-se no Largo de Camões, a meio caminho entre as duas praças e ao lado da grandiosa estação de comboios por onde tinham chegado, quando apareceu em frente um estranho e ruidoso coche a circular sem ajuda de animais e largando uma baforada suja e malcheirosa. Ficaram todos paralisados e embasbacados a olhar, menos Afonso, que se assustou e foi enroscar-se nas largas saias da mãe. Em boa verdade, esta não era uma reacção necessariamente provinciana, uma vez que, naquele instante, os próprios lisboetas pararam nos passeios e emergiram das portas e janelas da imponente estação do Rocio, do Café Suisso, do Café Martinho, da seguradora Equitativa de Portugal e Colónias e das residências em redor para admirarem aquela maravilha sem igual, aquela máquina fumarenta a rolar espalhafatosa-mente sobre o macadame.

“Uma carroça sem cavalos”, comentou o senhor Rafael, verdadeiramente surpre-endido. “Já tinha ouvido falar nisto no Silvestre, mas pensei que fosse reinação “

O comentário sobre a carroça não era disparatado. Tal como os Benz, nos quais se inspirava, aquele Panhard de dois cilindros e motor Phénix, novinho em folha e acabado de importar de França por um conde abastado, tinha efectivamente o desenho de uma carroça elegante, a roda de trás maior do que a da frente, o assento escarlate almofadado como o dos coches ricos e garbosos. O barulhento Panhard desapareceu numa curva do Rocio, deixando um efémero rasto de fumaça preta atrás de si, e a vida pareceu regressar ao normal. Afonso, tal como o resto da família, ainda ficou a matutar sobre aquele mistério da assustadora carroça sem cavalos, mas depressa a novidade que era Lisboa acabou por distraí-lo. Seguiram pela Rua do Príncipe até aos Restauradores, a enorme praça construída poucos anos antes no lugar onde antigamente era o jardim do Passeio Público, subiram a ampla e arborizada Avenida da Liberdade até à Rotunda, detendo-se amiúde a admirar os surpreendentes postes de iluminação colocados ao longo da avenida, diferentes dos bicos de gás a que estavam habituados.

Já cansados e com fome, abancaram junto ao lago de um terreno baldio e arborizado no topo da Rotunda, ao lado da Quinta da Torrinha. A mãe distribuiu a merenda pelo marido e filhos, era pão caseiro e chouriço, regados com o tinto do garrafão. O senhor Rafael, habituado à informalidade rural meteu conversa com uma outra família que ali se instalara também em pique-nique e, depois de fazer a tradicional pergunta relacionada com uma eventual passagem por Rio Maior, comentou aquele extraordinário fenómeno da carroça sem cavalos.

Aquilo é que é uma máquina”, observou para o estranho, batendo com a palma da mão na coxa.

“É verdade. E reparou que é limpinha?”

Então não é? Em vez de largar bostas, deita fumo” observou Rafael. Pigarreou, lembrando-se de que isso representava uma possível dificuldade para a agricultura. O problema é que a fumarada não serve para estrume. Fez uma careta. “Mas não faz mal, catano. Aquela máquina é mesmo uma maravilha! “

“Ó homem, e vossemecê ainda não viu nada!” - retorquiu o outro, sorri-dente.

O outro, sorridente. “Está a ver estes postes na Rotunda e por toda a Avenida?”

“Então não hei-de ver? São diferentes dos do Ribatejo, caramba. “

“Pois são”, assentiu o homem. “

“ São lâmpadas eléctricas. “ O que é isso

“Olhe, é uma iluminação nocturna. Só que, em vez de se usar o azeite, o gás ou o petróleo para alimentar a chama, usa-se electricidade. A lâmpada eléctrica dá muito mais luz, não emite calor, não liberta fumos nem mau cheiro e não provoca incêndios. Uma maravilha. “

“ Ena “

“Valha-me Deus, Rafael”, afligiu-se a senhora Mariana, que, tal como as crianças, estava atenta à conversa. “A Laurinda já me falou nessa elatrocidade e contou-me que ouviu dizer que isso faz muito mal à saúde, é antinatural “



“Disparate, minha senhora”, admoestou-a o homem. “A electricidade não tem efeitos adversos e, além do mais, possui até muitas aplicações. Dizem que, no futuro, os Americanos vão ser puxados pela electricidade, e não por cavalos, o mesmo acontecendo com todas as máquinas modernas. Com a energia eléctrica far-se-ão coisas extraordinárias, impensáveis. Por exemplo, no mês passado, ali no Intendente, houve uma grande animação. O Real Colyseu fez uma exibição de fotografias vivas, era uma coisa do arco-da-velha, tudo mexido pela electricidade. “

“Homessa! “, admirou-se o senhor Rafael. “Fotografias vivas? “ “É mesmo assim como lhe estou a dizer. Foram buscar um electricista estrangeiro a Madrid e ele mostrou fotografias a mexer, víamos gente a andar, a correr, a pular, um baile em Paris, comboios a circular, uma ponte na cidade, era uma coisa impressionante, impressionante. São fotografias animadas por electricidade e é por isso que lhes chamam animatógrafo. “ O homem sorriu, o olhar perdido no infinito. “Aaah, aquilo é que foram duas horas bem catitas! Cobraram um balúrdio por sessão, mas pensa que isso fez esmorecer a tusa do pessoal? Nem pó! Foi uma roda-viva, um ver que t'avias a vender bilhetes, era tudo à coca, a malta queria era ver os bonecos. “

“E isso já acabou? “

“Infelizmente já”, confirmou o homem com um suspiro. “Mas estive a ler no jornal que o Theatro D. Amélia vai em breve começar com sessões diárias de fotografias animadas. O electricista foi para o Porto mas tenciona voltar aqui a Lisboa e dizem que ele agora não terá só coisas lá da França, vai mostrar fotografias vivas de uma tourada no Campo Pequeno, da praia de Algés, ali da Avenida da Liberdade, da Boca do Inferno, coisas com a nossa gente, sabe? De modo que anda tudo em pulgas para ver essas maravilhas.”

O senhor Rafael e a família reagiram com cepticismo a tão espantoso anúncio, pensaram mesmo que o lisboeta estava a fazer pouco de si. Como era lá possível ver fotografias a mexer? Mas o homem não se calava com as novidades e informou os ribatejanos de que, se estivessem interessados em sensações fortes, iria haver nessa tarde um interessante jogo de football.

“E o que é isso do fubôu?”, indagou Rafael Laureano, intrigado com as modernices dos citadinos.

“Football”, corrigiu o seu interlocutor, divertido por estar a explicar uma palavra inglesa a um paisano das berças. “É um jogo inglês em que se formam duas equipas de players e todos dão kiques numa bola até fazerem goal. “

O senhor Rafael não percebeu muito bem, mas ficou cheio de curiosidade. Se calhar, valia a pena ir ver esse tal fubôu para depois contar as novidades lá na taberna do Silvestre, a carroça sem cavalos já iria dar pano para mangas, aquela conversa da electricidade e das fotografias a mexer também, o mesmo se podia dizer do fenómeno de muita gente usar sapatos e andar vestida como o doutor Barbosa, pode ser que esta outra coisa alimentasse mais uma tarde de cavaqueira, que preciosa mina de assuntos para paleio sem fim se estava a revelar este passeio pela capital, que brilharete ele iria fazer com os amigos dos copos.

“Ó amigo, e onde é isso? “

“É ali no Campo Pequeno, daqui a duas horas”, disse o homem, apontando para a esquerda. “Está a ver aquela rua? É a Avenida Fontes Pereira de Mello. Meta por ali até ao Saldanha, uma grande praça que está por acolá, e depois siga por uma alameda muito larga, a Avenida Ressano Garcia, até dar com uma grande arena, à direita, uma coisa feita há pouco tempo para as touradas. Chega lá em meia hora. “

A senhora Mariana puxou o marido pelo braço.

“Rafael, então e a Ermelinda?”

“Ó filha, tem calma”, retorquiu Rafael, agastado. “A tua prima não vai a lado nenhum, não te aflijas. A gente dá o passeio e depois vamos lá ver a moça, não te apoquentes.”

Quando terminou a refeição, a família Laureano rumou tranquilamente na direcção indicada. O passeio durou quarenta minutos, até que os cinco deram com um enorme edifício circular cor de tijolo, cheio de arcadas e galerias, decorado a arabescos, cúpulas duplas em azul-celeste a dominar os vários torreões de estilo neomourisco, era a praça de touros erguida no centro de um terreno maltratado. Concentrava-se ali uma pequena multidão, incluindo algumas mulheres de alta sociedade com os seus vestidos cheios, os chapéus espampanantes e as sombrinhas parisienses, rodeadas por um séquito de amigas e criados. Indagando se era ali o Campo Pequeno, o senhor Rafael obteve a confirmação. Perante si erguia-se a praça de touros. Aproximou- se da bilheteira e verificou que a tabela de preços indicava que os bilhetes mais baratos eram os da galeria de 2. a ordem a duzentos réis cada um, e os mais caros eram os camarotes de 1. a ordem, a doze mil réis. Sentiu-se confuso e questionou um empregado.

“Ó amigo, tantos réis para ver fubôu?”

O funcionário riu-se.

“Aqui é só tourada, homem. A bola é ali “

O empregado apontou para os baldios ao lado da praça. Estendia-se ali um pedaço de terra com dois grandes rectângulos desenhados no chão, que o homem identificou como sendo os campos de jogo. Um dos rectângulos, mesmo colado à praça de touros, mostrava-se vagamente nivelado, mas o outro estava cheio de covas e buracos. Ao que parece, havia sempre ali muitos jogos e as equipas que chegassem primeiro ocupavam o rectângulo mais nivelado. Os atrasados tinham de se contentar com o que se apresentava esburacado.

A família de Rio Maior aproximou-se do rectângulo em melhor estado e não teve de esperar muito para que surgissem novidades. Dois grupos de homens apareceram pouco depois no local, cada grupo transportando pelo baldio umas enormes traves de madeira, duas mais pequenas pregadas em paralelo e unidas por uma grande trave colocada perpendicularmente numa das pontas. Cruzaram o descampado até chegarem ao rectângulo mais liso.

“São os players do Real Gymnasio Club”, explicou um mirone ao senhor Rafael. “Vêm do Rego e trazem as balizas.

“Rafael Laureano não percebeu a explicação, mas manteve-se calado, a observar. Os homens colocaram as traves em cada extremidade do rectângulo e, inesperadamente, começaram a tirar os casacos e as gravatas. Via-se que era gente de classe alta, pelo que o seu comportamento deixou a família de Rio Maior siderada. Depois de ficarem em tronco nu, tiraram os sapatos e, cúmulo dos cúmulos, começaram a baixar as calças. A senhora Mariana reprimiu um grito púdico, tapou os olhos e virou-se de costas enquanto os filhos e o marido se encontravam paralisados e de boca aberta, tinham dificuldade em acreditar no que viam, até que explodiram em gargalhadas. Aquela gente fina, tão cheia de pruridos e salamaleques, estava a despir-se em plena rua, e as damas que se encontravam na assistência limitavam-se a ocultar os olhos com os seus leques floridos. Os recém-chegados ficaram todos momentaneamente de cuecas até vestirem umas calças apertadas e curtas, como se fossem calças de cavaleiros com a bainha pelos joelhos. Colocaram sobre o tronco umas camisolas coloridas e calçaram umas meias altas e uns tamancos escuros. Um deles tirou uma bola castanha de um saco e foram todos a correr para dentro do rectângulo aos pontapés à bola. Instantes mais tarde apareceram de bicicleta outros homens que repetiram por detrás da segunda baliza o ritual de se despirem e vestirem, amontoando a roupa junto às traves antes de entrarem igualmente no terreno.

“É o Football Club Lisbonense”, anunciou o mirone, intimamente divertido com a reacção dos parolos que o escutavam.

Estes gajos são muito bons, até agora só perderam uma única vez, há três anos, contra uma equipa de ingleses, e, mesmo assim apenas por um goal.

Agarrado às calças do pai, o pequeno Afonso reteve na memória o que se passou a seguir. Os dois grupos tinham camisolas de cores diferentes e desataram todos a correr loucamente pelo campo a dar pontapés na bola, perante o clamor excitado dos espectadores e a vigilância de um homem vestido com um elegante fato e gravata de tweed que corria entre eles a dar ordens.

“É o referee”, esclareceu o mesmo mirone.

As regras eram simples. Tornou-se claro aos visitantes de Rio Maior que só os dois homens que se encontravam nas balizas podiam pegar na bola com as mãos, todos os outros apenas estavam autorizados a dar pontapés. Havia alguns que eram muito loiros ou ruivos, tratava-se de ingleses misturados nas duas equipas. Por vezes zangavam-se todos, gritavam, gesticulavam, empurravam-se, o jogo parava, entravam espectadores no rectângulo para participarem na discussão, o sururu crescia para depois acalmar, os jogadores e o homem engravatado de fato de tweed empurravam toda a gente para fora do campo e logo tudo recomeçava. Uma vez por outra, a bola entrava numa baliza, ouvia-se uma grande gritaria e aplausos entre os espectadores e alguns dos jogadores saltavam de alegria e abraçavam-se efusivamente.

“Aquele pequenino é o Barley, um inglês muito bom”, indicou o mirone com entusiasmo, apontando para um homem que corria rápido pelas alas e que acabara de meter uma bola na baliza, sendo nesse instante cumprimentado por vários amigos. “Mas o que eu gosto mais é daquele magrinho ali, o Paiva Raposo. Sim senhor, aquilo é que é um player, um portento nos dribblings e nos kiques! O Barley e o Raposo estiveram os dois no team do Club Lisbonense que ganhou a primeira taça de football em Portugal, há dois anos, quando foram ao Porto derrotar o Football Club do Porto por 2-0. Até el-rei foi lá ver o match”

Nessa tarde soalheira no Campo Pequeno, o Football Club Lisbonense venceu o Real Gymnasio Club Portuguez por 3-1, confirmando mais uma vez tratar-se da melhor equipa de football existente em Portugal.

“Bem, vamos lá então à Ermelinda”, suspirou o senhor Rafael voltando as costas ao Campo Pequeno.

“É uma pena que isto vá acabar em breve”, comentou o mirone, em jeito de despedida, quando já a multidão dispersava.

“Então? “, admirou-se o pai de Afonso, olhando para trás. “ Construíram aqui há quatro anos esta arena de touros e estão a dar ordens para se acabarem estes jogos. A rapaziada vai ficar sem campo. “

O homem deu meia-volta para se ir embora, mas o senhor Rafael lembrou-se de que tinha ainda uma pergunta para lhe fazer.

“ Ó amigo “

O mirone voltou-se.

“ Sirr: “

“Você já foi a Rio Maior?





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