A filha do Reverendo



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BPI – Biblioteca Pública Independente



A
Filha do Reverendo


George Orwell

Título original: A Clergyman’s Daughter

Tradução de Álvaro Cabral

Editora Nova Fronteira - 1985

Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap



Capítulo 1

1


Quando o despertador sobre a cômoda detonou qual irritante bombinha, espalhando seu áspero som de sino de bronze, Dorothy, arrancada das profundezas de algum so­nho complexo e perturbador, despertou sobressaltada e per­maneceu deitada de costas, exaustíssima, o olhar perdido na escuridão.

O despertador continuou seu importuno e feminino retinir, que poderia durar cinco minutos ou mais, se não o fizessem parar. Dorothy estava moída da cabeça aos pés, e uma insidiosa e desprezível autocomiseração, que usual­mente se apoderava dela todas as manhãs na hora de saltar da cama, obrigou-a a enfiar a cabeça sob os lençóis e tentar abafar o odioso ruído. No entanto, lutou contra a fadiga e, como de hábito, começou a exortar-se na segunda pessoa: “Vamos, Dorothy! Levanta! Nada de preguiça, por favor! Provérbios, 6:9.” Lembrou-se então de que, se continuasse soando, o despertador acabaria por acordar seu pai e, num movimento rápido, pulou da cama, apanhou o relógio na cômoda e desligou o alarma. Deixava-o sobre a cômoda justamente para ser obrigada a sair da cama. Ainda no escuro, ajoelhou-se ao lado da cama e repetiu o Padre-Nosso, de maneira um tanto engrolada, sentindo os pés enregelados.

Eram exatamente cinco e meia, e fazia muito frio para uma manhã de agosto. Dorothy (seu nome era Dorothy Hare, filha única do reverendo Charles Hare, pároco da igreja de St. Athelstan, Knype Hill, em Suffolk) vestiu o surrado roupão de flanela e, tateando, desceu a escada. O ar gelado da manhã estava impregnado do cheiro de poeira em suspensão, de gesso úmido e de peixe frito do jantar da véspera, e, de ambos os lados do corredor do segundo an­dar, ela podia ouvir o ressonar antifônico de seu pai e de Ellen, empregada e pau-para-toda-obra. Dorothy entrou na cozinha procurando evitar a mesa — conhecia a detestável capacidade desta para sair do escuro e cravar-lhe as quinas nos quadris —, acendeu a vela sobre a pedra da lareira e, arrastando ainda seu cansaço matutino, ajoelhou-se para retirar as cinzas do fogão.

Acender o fogão era como enfrentar um “animal” in­domável. A chaminé era torta e, por isso, vivia quase sem­pre entupida, e o fogo, antes de acender, esperava receber sua dose de uma xícara de querosene, como o alcoólatra espera seu trago matinal de gim. Depois de pôr a ferver a água para a barba do pai, Dorothy tornou a subir e prepa­rou o banho. Ellen continuava ressonando, com aqueles pesados roncos da juventude. Uma vez desperta, era uma trabalhadora incansável, mas pertencia àquela categoria de moças a quem nem o Demônio com todos os seus anjos reunidos consegue arrancar da cama antes das sete da manhã.

Dorothy encheu a banheira o mais lentamente possível — o chape-chape da água ao cair com força da torneira despertava sempre seu pai — e ficou um momento contem­plando a pálida e pouco apetecível superfície da água. Es­tava com o corpo todo arrepiado. Detestava banhos frios; por isso mesmo se impusera, como regra, a obrigação de banhar-se sempre em água fria, desde abril até novembro. Após meter uma mão exploratória na água, que achou horrivelmente gelada, incentivou-se com as exortações habi­tuais: “Vamos, Dorothy! Para dentro! Não seja covarde!” Então, enfiou-se resolutamente na banheira, sentou-se e deixou o cinturão gelado de água deslizar-lhe corpo acima, cobrindo-o por inteiro, exceto os cabelos, torcidos atrás da cabeça. Imediatamente voltou à tona, ofegando e tremendo de frio, e tão logo recuperou o fôlego, lembrou-se de seu caderninho de anotações, que ao descer deixara no bolso do roupão e pretendia ler. Estendeu o braço, apanhou-o e, recostando-se num lado da banheira, metade do corpo mer­gulhado na água gelada, releu-o à luz da vela sobre a ca­deira.

Assim rezava:

7 horas: Comunhão.

Bebê Sra. T? Visitar.



Café da manhã: Bacon. Tenho de pedir dinheiro a papai. (P).

Perguntar a Ellen de que material preciso para tônico papai.

N.B. Ver tecidos para cortinas na loja Solepipe.

Visitar Sra. P., recorte do Daily M., chá de angélica bom para reumatismo. Emplastro para calos à Sra. L.

12 h: Ensaio Charles I.

N.B. Encomendar 1/2 libra de cola e uma lata de tinta de alumínio.

Jantar (riscado) Almoço...?

Distribuir revista paroquial.

N.B. Sra. F. deve três xelins e seis pence.

16h30min: Chá na Associação das Mães. Não esquecer dois metros e meio de pano de cortina.

Flores para a igreja.

N.B. 1 lata de Brasso.



Ceia. Ovos mexidos.

Datilografar sermão papai. Que se passa com a nova fita de máquina?

N.B. Limpar ervas daninhas entre as ervilhas.

Dorothy saiu do banho e, enquanto se enxugava com uma toalha pouco maior do que um guardanapo (na casa paroquial nunca se davam ao luxo de ter toalhas de um tamanho decente), o cabelo desprendeu-se e caiu-lhe aos ombros em duas pesadas madeixas. Era um cabelo espesso, macio e extraordinariamente claro, e talvez o pai tivesse feito bem em proibi-la de o cortar, pois era a única coisa positi­vamente bela que havia na moça. Quanto ao resto, Dorothy era de estatura mediana, mais sobre o delgado, embora forte e bem-feita. Seu ponto fraco era o rosto: magro, páli­do e inexpressivo. Tinha olhos claros e o nariz um tanto ou quanto comprido. Observando-lhe o rosto de perto, po­diam-se descobrir pés-de-galinha em torno dos olhos; a bo­ca, quando em repouso, dava-lhe um ar de cansaço. Não, entretanto, que seu rosto fosse o de uma solteirona, mas certamente o seria dentro de mais alguns anos. Ainda as­sim, as pessoas que não conheciam Dorothy tomavam-na geralmente por bem mais jovem do que de fato era (não chegara ainda aos vinte e oito), por causa da expressão de seriedade quase infantil em seu olhar. O antebraço esquer­do era salpicado de pontinhos vermelhos, como picadas de inseto.

Dorothy vestiu de novo a camisola e escovou os dentes — só com água, claro; melhor não usar pasta de dentes antes da comunhão. Afinal, ou se jejua ou não se jejua. Os católicos têm, a esse respeito, toda a razão — e, nesse instante, ela vacilou e deteve-se bruscamente. Soltou a es­cova de dentes. Uma dor mortal, uma autêntica dor física, sacudira-lhe as entranhas.

Com esse terrível choque que se sente ao recordar pela primeira vez no dia algo desagradável, ela se lembrara da conta do açougueiro Cargill, já vencida há sete meses. Essa medonha conta — umas dezenove ou talvez vinte libras, e sem a mais remota esperança de pagá-la — era um dos principais tormentos de sua vida. A qualquer hora do dia ou da noite, ali estava espiando-a desde um recanto de sua mente, pronta a assaltá-la, a martirizá-la; e, com a lem­brança dessa dívida, veio a de outras menos vultosas, cujo total não se atrevia sequer a avaliar. Quase involuntaria­mente começou a rezar: “Por favor, meu Deus, faça com que Cargill não nos mande outra vez a conta hoje!” Mas logo decidiu que essa prece era profana e blasfema, e pediu perdão por ela. Depois vestiu o roupão e desceu correndo até a cozinha, com a esperança de esquecer a conta.

Como sempre, o fogão se apagara. Dorothy reacendeu-o sujando as mãos no pó de carvão, borrifou-o de novo com querosene e esperou ansiosamente que a chaleira fer­vesse. Seu pai contava com a água para se barbear pronta às seis e quinze. Com apenas sete minutos de atraso, Do­rothy subiu com a lata e bateu à porta do quarto dele.

— Entre, entre! — disse uma voz abafada, em tom irritado.

O quarto, protegido por pesadas cortinas, estava aba­fado, impregnado de cheiro masculino. O pastor acendera a vela na mesinha-de-cabeceira e estava deitado de lado, olhando o relógio de ouro, que acabara de extrair de sob o travesseiro. Seus cabelos eram brancos e espessos como lanugem de cardo. Sem se mexer, dirigiu um olhar sombrio e irritado à filha.

— Bom dia, pai.

— Eu só queria, Dorothy — disse o pastor, em tom indefinido (sua voz soava sempre abafada e senil, enquanto não punha a dentadura) —, que você se esforçasse um pou­co para arrancar Ellen da cama pela manhã. Ou então procure você mesma ser mais pontual.

— Lamento, pai. O fogo estava sempre apagando.

— Muito bem! Ponha a água na penteadeira. Deixe-a aí e abra as cortinas.

Já amanhecera, mas era uma manhã opaca e nublada. Dorothy voltou depressa ao seu quarto e vestiu-se com a rapidez que julgava necessária em seis das sete manhãs. No quarto havia apenas um minúsculo espelho retangular, e deste nem se serviu. Limitou-se a pendurar sua cruz de ouro no pescoço — uma simples cruz de ouro; nada de cruci­fixos, por favor! —, recolheu o cabelo num coque e pren­deu-o com grampos, um tanto displicentemente, na nuca, e enfiou a roupa em menos de três minutos: um jérsei cinza, jaqueta e saia surradas de tweed irlandês, meias que não combinavam grande coisa com a jaqueta e a saia, e sapatos marrons muito gastos. Tinha que arrumar a sala de jantar e o escritório do pai antes de ir à igreja, além de dizer suas orações em preparação para a Sagrada Comunhão, o que lhe levava não menos de, vinte minutos.

Quando saiu de bicicleta pelo portão da frente, a ma­nhã ainda continuava encoberta e a grama empapada de orvalho. Através da neblina que coroava as encostas da colina, a igreja de St. Athelstan divisava-se tenuemente, como uma esfinge plúmbea, seu único sino tangendo um lúgubre “bum! bum! bum!”. Só um dos sinos estava agora em uso ativo; os outros sete tinham sido retirados de suas caixas e naqueles três últimos anos permaneceriam mudos no chão do campanário, rachando-o lentamente sob o seu peso. A distância, através da cortina de névoa, podia-se ouvir o estrépito agressivo do sino da igreja católica — detestável e vulgar objeto metálico que o pastor de St. Athelstan costu­mava comparar com a sineta de um vendedor ambulante.

Dorothy montou na bicicleta e, inclinada sobre o guidom, pedalou velozmente colina acima. O dorso de seu afilado nariz avermelhou-se com o frio da manhã. Um pintarroxo piou acima de sua cabeça, invisível no céu nublado. De manhã cedo meu canto se elevará a Ti! Dorothy encos­tou a bicicleta no portão do adro e, vendo as mãos ainda sujas de carvão, ajoelhou-se e esfregou-as na grama alta e úmida que crescia entre os túmulos. O sino emudeceu. Ela pôs-se de pé num salto e estugou o passo rumo à igreja, onde Proggett, o sacristão, enfiado numa sotaina esfarra­pada e calçando enormes botas de camponês, já subia pesa­damente a nave para ocupar seu posto no altar lateral.

A igreja estava muito fria, cheirava a cera de vela e a poeira antiga. Era uma igreja ampla, demasiado ampla pa­ra a sua congregação, além de arruinada e mais da metade vazia. Uns quantos bancos, agrupados em três ilhotas, ocupavam escassamente a metade anterior da nave central e, depois deles, havia grandes espaços vazios de chão de pedra, no qual algumas inscrições apagadas marcavam os lugares de antigas sepulturas. Acima do coro, o teto estava cedendo visivelmente; ao lado da caixa de esmolas da igre­ja, dois fragmentos de viga carcomida explicavam silencio­samente que os estragos eram causados pelo inimigo mortal da cristandade, o voraz cupim. A luz pálida filtrava-se pelos anêmicos vidros das janelas. Através da porta sul aberta podia-se ver um cipreste quase sem folhas e os galhos de uma tília, acinzentada no ar sem sol e balouçando languidamente.

Como de costume, só havia um outro comungante: a velha Srta. Mayfill, de The Grange. A assistência de fiéis à Sagrada Comunhão era tão escassa que o pastor não podia sequer contar com rapazes que o auxiliassem, exceto nas manhãs de domingo, quando a garotada gostava de exibir-se diante da congregação em suas sotainas e sobrepelizes. Dorothy entrou no banco atrás da Srta. Mayfill, afastou para um lado a almofada e ajoelhou-se nas pedras nuas, em penitência por algum pecado recente. O serviço estava co­meçando. O pastor, de sotaina e sobrepeliz curta de linho, recitava as orações com a rapidez de sempre, numa voz suficientemente clara, agora que tinha posto a dentadura, e curiosamente inexpressiva. No rosto envelhecido, entediado e pálido como uma moeda de prata, havia uma expressão de indiferença, quase de desdém. “Este é um sacramento válido”, parecia estar dizendo, “e é meu dever adminis­trá-lo. Mas não esqueçais que sou apenas o vosso pastor, não o vosso amigo. Como ser humano, não gosto de vocês e desprezo-os.” Proggett, o sacristão, homem de uns qua­renta anos, de cabelos encaracolados e grisalhos, o rosto vermelho e atormentado, mantinha-se pacientemente junto dele, sem entender, mas reverente, tocando a sineta da co­munhão, que se perdia em suas imensas e vermelhas mãos.

Dorothy apertou os dedos contra os olhos. Ainda não conseguira concentrar-se em seus pensamentos — na ver­dade, a lembrança da conta do açougueiro ainda a apoquentava intermitentemente. As orações que conhecia de cor, passavam-lhe pela cabeça sem que lhes prestasse a menor atenção. Ergueu os olhos por um momento, e ime­diatamente eles começaram a vagar, distraídos. Primeiro, para cima, detendo-se nos anjos sem cabeça do teto, em cujos pescoços ainda se podiam ver as marcas da serra usa­da pelos soldados puritanos para decapitá-los; depois, mais uma vez, no chapéu negro da Srta. Mayfill, que lembrava um empadão de carne, e nos tremulantes brincos de azeviche. A Srta. Mayfill vestia um longo casacão negro, passado de moda, com uma pequena gola de astracã de aspecto gorduroso. Dorothy não se lembrava de lhe ter conhecido outro. Era de um tecido muito peculiar, parecido com moiré, mas bem mais ordinário, cheio de filetes debruados de negro serpenteando em todas as direções num padrão indiscernível. Poderia até ter sido aquele lendário e proverbial tecido: a bombazina negra. A Srta. Mayfill era muito velha, tão velha, que ninguém se lembrava dela senão como uma anciã. Dela se irradiava um odor tênue e indefinível, um aroma etéreo, analisável como água-de-colônia barata, bolas de naftalina e um leve aroma de genebra.

Dorothy retirou da lapela da jaqueta um comprido alfinete de cabeça de vidro e, furtivamente, abrigando-se às costas da Srta. Mayfill, comprimiu-lhe a ponta no antebraço. Sua carne estremeceu apreensivamente. Sempre que se surpreendia desatenta às suas orações, tinha por hábito espetar-se no antebraço até sair sangue. Era a sua forma preferida de autodisciplina, sua salvaguarda contra a irre­verência e os pensamentos sacrílegos.

Graças ao ameaçador alfinete pronto a entrar em ação, ela conseguiu, em vários momentos, dizer suas orações mais compenetrada. Seu pai lançara um olhar sombrio e desaprovador sobre a Srta. Mayfill, que se persignava a todo instante, uma prática que desagradava ao reverendo. Um estorninho chilreou lá fora. Dorothy surpreendeu-se, cho­cada, a observar vaidosamente as pregas da sobrepeliz do pai, que ela mesma costurara dois anos antes. Apertou os dentes e afundou o alfinete no braço uns dois ou três milímetros.

Estavam se ajoelhando de novo. Era o momento da confissão geral. Dorothy baixou os olhos... que de novo erravam, desta vez pelo vitral à sua direita, criado em 1851 por Sir Warde Tooke, membro da Real Academia de Arte, e que representava St. Athelstan recebido nas portas do Céu por Gabriel e uma legião de anjos, todos extraordinaria­mente parecidos entre si, e o Príncipe Consorte — e de novo espetou o alfinete numa outra parte do braço. Começou a meditar escrupulosamente sobre o significado de cada frase da oração, e assim devolveu sua mente a um estado mais atento. Mesmo assim, ainda teve que usar o alfinete outra vez quando Proggett fez soar a sineta em meio ao “E por­tanto com os Anjos e Arcanjos” — acometida, como sem­pre, por uma pavorosa tentação de começar a rir nessa passagem. A causa era uma história que seu pai lhe contara certa vez, de como, quando ele ainda era menino e ajudava o sacerdote no altar, o badalo da sineta da comunhão se tinha desaparafusado e, então, o sacerdote dissera: “Assim, com os Anjos e os Arcanjos, e com toda a milícia celeste, entoamos o hino de Tua glória, dizendo sem cessar: 'Aparafusa-o, seu palerma, aparafusa-o!'“

Quando o pastor concluiu a consagração, a Srta. Mayfill tentou erguer-se com extrema dificuldade e lentidão, como um desconjuntado boneco de pau que se põe em pé por seções, e exalando a cada movimento um forte cheiro de naftalina. Ouviu-se um extraordinário estalido — presumi­velmente de seu espartilho, mas muito semelhante ao ruído produzido pelo entrechocar de ossos. Podia-se facilmente imaginar que dentro do casaco negro só havia um esqueleto ressequido.

Dorothy permaneceu de pé um pouco mais. A Srta. Mayfill arrastava-se para o altar em passinhos lentos e vaci­lantes. Mal podia andar, mas qualquer oferta de ajuda ofendia-a azedamente. Em seu rosto velho e exangue, a boca destacava-se surpreendentemente grande, flácida e úmi­da. O lábio inferior, pendente pela idade, deixava escapar a baba e punha a descoberto a gengiva e uma fileira de dentes postiços, tão amarelos quanto as teclas de um piano antigo. Um bigode escuro e úmido orlava o lábio superior. Não era uma boca apetecível; não era, sobretudo, o tipo de boca que uma pessoa gostaria de ver bebendo de sua xícara. De súbi­to, espontaneamente, como se o próprio Demônio a tivesse posto aí, os lábios de Dorothy deixaram escapar uma prece: “Meu Deus, faze com que eu não tenha de beber no cálice depois da Srta. Mayfill!”

No instante seguinte, deu-se conta, horrorizada, do que tinha dito e desejou ter cortado a língua em duas, com uma dentada, a ter pronunciado aquela mortal blasfêmia nos próprios degraus do altar. Retirou de novo o alfinete da lapela e afundou-o tanto no braço, que só a muito custo logrou conter um grito de dor. Caminhou então para o altar e ajoelhou-se humildemente à esquerda da Srta. Mayfill a fim de ter plena certeza de que beberia do cálice depois dela.

De joelhos, a cabeça inclinada e as mãos cruzadas sobre o regaço, dispôs-se rapidamente a rezar implorando perdão, antes que seu pai chegasse perto dela com a hóstia. Mas o fio de seus pensamentos se quebrara. De súbito, percebeu ser inútil qualquer tentativa de rezar; os lábios se moviam, mas tanto o coração quanto o pensamento não estavam presentes em suas orações. Podia ouvir o arrastar de botas de Proggett e o pai murmurando, com sua voz baixa e clara: “Tomai e comei”; podia ver a franja surrada do tapete vermelho sob seus joelhos, captar o cheiro a pó, água-de-colônia e naftalina; mas quanto ao Corpo e ao San­gue de Cristo, quanto à finalidade que a levara até ali, era como se Dorothy estivesse privada da capacidade de pensar. Um vazio mortal descera-lhe sobre a mente. Parecia-lhe que, realmente, não podia rezar. Lutou por concentrar-se, articulou mecanicamente as frases iniciais de uma oração; mas eram inúteis, desprovidas de significado — apenas cas­cas sem vida de palavras. Seu pai estava diante dela com a hóstia entre o polegar e o indicador de sua mão enrugada, mas bem torneada. Parecia fazê-lo com tédio, algo contra­riado, como se estivesse impingindo uma colherada de me­dicamento amargo. Tinha os olhos pousados na Srta. May­fill, que se desdobrava como uma lagarta de falena, com muitos estalos, e persignando-se tão elaboradamente, que se poderia imaginar estar ela desenhando uma série de alamares entrelaçados na frente de seu casaco. Por vários se­gundos, Dorothy vacilou e não recebeu a hóstia. Não se atrevia a fazê-lo. Era preferível, muito preferível, descer os degraus do altar a aceitar o sacramento com semelhante caos no coração!

Aconteceu, então, que seu olhar se desviou e cruzou a porta sul, que ficara aberta. Um momentâneo raio de sol tinha traspassado as nuvens: desceu pelas folhas da tília e fez brilhar, na entrada, uma ramagem miúda com um ver­de transiente e inigualável, mais verde que o jade, a esme­ralda ou as águas do Atlântico. Foi como se uma jóia de inimaginável esplendor tivesse refulgido por um breve ins­tante, inundando a entrada da igreja de luz verde, para logo se dissipar. O coração de Dorothy encheu-se de júbilo. Aquele lampejo de cor viva devolvia-lhe, por um processo mais profundo que a razão, sua paz de espírito, seu amor a Deus, sua capacidade de orar. De certo modo, graças ao verdor da folhagem, era-lhe de novo possível rezar. “Ó to­das vós, coisas verdes que existem sobre a Terra, louvai ao Senhor!” Começou a orar fervorosamente, com exultação, agradecida. A hóstia desfez-se-lhe na língua. Tomou o cá­lice que o pai lhe oferecia e colou os lábios sem repugnân­cia, até com redobrada alegria por esse pequeno ato de auto-humilhação, sobre a marca úmida que a boca da Srta. Mayfill deixara em sua borda de prata.



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