A forma ouriçada do ermitão Ricardo Daunt



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A forma ouriçada do ermitão Ricardo Daunt
Marcos Falchero Falleiros sobre Ricardo Daunt. Poses. Contos e novelas. São Paulo: Via Lettera, 2005.

Ricardo Daunt está fadado ao fracasso. Quem dos poucos que porventura ler este seu livro Poses, de contos e novelas, perceberá ao virar a primeira folha do primeiro deles, “Na oficina do Sr. Mancuso”, que se trata de um escritor veterano, tão velho na sabedoria como se antes do útero já lapidasse as palavras, alheio ao que corre lá fora e ao mesmo tempo sabendo de tudo, com a língua de fora e uma fome desamparada, conforme se verá no protagonista de seu último conto, “Sobre quatro patas”. Mas já antes, na continuidade da leitura que então se inicia, vai-se confirmando a teimosia pressentida, único fio condutor de uma obra com mais faces e vertigens que o aleph de Jorge Luis Borges, e para cujo universo, infinito em 200 páginas, teimosia é a sua unidade.

O pobre-diabo rosnento parece não se dar conta de que o mundo andou, que as editoras faliram, que ele não encontrará mais o tipo de ambiente da Livraria José Olympio nos anos 40, e lá, sentado em seu banquinho cativo, Graciliano Ramos, seu antípoda, que certamente o compreenderia com o olhar parceiro em silêncio. O anacrônico não sabe que outras editoras mais eficazes vieram e que neste início de século XXI não saberemos bem o que é literatura a não ser que casualmente folheemos o jornal com uns quadrinhos de Angeli, onde um baixinho fétido, muito paulistano, com uma touca de lã na cabeça, oferece na esquina um trecho sujo de seu livro maldito a uma mina universitária de oclinhos último tipo e tatuagens, que, no segundo quadro, avalia a obra: “frases truncadas, idéias desconexas, fórmulas manjadas e uma gramática brutalmente violentada” – elogios que ele considera, no terceiro, uma tentativa de sedução. Podemos aprofundar nossos conhecimentos de literatura contemporânea, indo já a um nível de especialização, com uma segunda tira do chargista: aí reencontraremos o catatau fétido num bar, com sua touquinha ainda sem lavar, exclamando para si mesmo em estado de êxtase com seu papéis: “Sou um escritor áspero, meu texto é sujo, meu universo é fedido, meus personagens encardidos”. A seguir, Angeli, da outra mesa, volta-se para ele e pede: “Tem isqueiro?” – a que o catata lhe atende no terceiro quadro: “Tenho. Todo babado”.

Mas o demônio-da-tasmânia, o resmungão Taz que se esconde sob todas as páginas de Poses, amoroso da humanidade e dos bichos, não é apropriado para histórias em quadrinhos, ainda que seu universo díspar acabe por lembrar alguma coisa delas. E apesar da amostra-grátis de seu universo-aleph, só poderemos pensar em Borges se nos limitarmos às reflexões que o escritor argentino apresenta em defesa da temática exótica, equivalentes às que Machado de Assis desdobrou em “Instinto de nacionalidade”, repelindo a pecha de mulato metido a inglês que a obnubilação de seus contemporâneos lhe atribuiu, indignados com uma obra que em meio aos trópicos não apresentava quantia suficiente de araras, palmeiras, matas virgens e tatus: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”.

O pseudônimo do autor de Sagarana, “Viator”, foi desvendado por Graciliano Ramos, um dos jurados do concurso literário ao qual a obra grandiosa concorreu, como sendo provavelmente de um médico de Minas Gerais. Do mesmo modo, mas bem mais difícil, aquele leitor – que, condescendamos, há de aparecer – poderá afinal descobrir a origem do autor de Poses ao se deparar com a densidade multifacetada de suas narrativas: é da megalópole paulista que vem sua literatura, escondida em algum remoto apartamento, de onde são lançadas, no lodo de neon e buzinas da caótica cidade, as garrafas com mensagens do náufrago – mas sob forma de ouriço, para garantir-se de proteção contra os predadores. Ricardo Daunt mal se refere à cidade de São Paulo em meio a todo o vórtice de tempos e lugares de suas ficções. Aquele leitor, que não se apressa e não pula a ordem das páginas, ao final do livro, lendo as informações “Sobre o autor”, perceberá que acertou, mas, ao mesmo tempo, desconfiará de que aquilo seja mais uma ficção, de tal modo a foto ali estampada exibe um rosto tranqüilo, e os dados biográficos, um intenso trabalho intelectual, múltiplo e disciplinado. Certamente o ermitão em sua solidão fantasiosa inventou-se a si mesmo como escritor, com toda aquela imensa lista de obras, desde os anos 70, livros de contos, romances, além de um botijão-ouriço em preparo, e estudos, pós-doutorados pelo mundo, resenhas, publicações de que não temos notícia e nenhum reconhecimento.

É possível assim decifrarmos a forma literária do ermitão-ouriço, tão inoperante que, ao invés de abeberar-se de um de nossos imortais, dizendo alguma coisa digna de uma Academia Brasileira de Letras, como, imaginemos, “o amor é o caminho mais curto para o amor”, que tanto embasbacamento causaria a nossos leitores, pelo contrário, fabrica suas novelas curtas e seus contos longos do mesmo modo como o personagem referido, o Sr. Mancuso, lapida suas pedras. Mas seu realismo empedernido não alegoriza a própria condição de escritor às custas do pobre artesão. Antes encontra nele um parceiro, dos que se agarram à vida e sobre a “precariedade de sua existência” desfrutam a vitória de ter criado um “mundo diverso, construído com vigor e perfeição, plenamente dotado de significação e ao mesmo tempo eterno”. O efeito do real no autor não é vacuidade de procedimentos narrativos, mas apaixonada adesão ao mundo. Mergulha na técnica como um aprendiz, espalhando pelo enredo, com rigor, todos os tipos de lapidagem, numa pesquisa que se agarra ao texto sem artificialismo pedante, da mesma forma como Flaubert morreria debruçado sobre seus escritos, para que o Sr. Mancuso faça despertar de seu rubi a geometria e o jorro vermelho, na vitória de Pirro contra o granizo das chuvas que o cercam.

Como um fantasma sinistro o escritor quer de fato nos atordoar. Já percebemos no primeiro conto que vamos ficar à mercê de nocautes cortazarianos, mas não sabemos ainda que serão tão inesperados na pancada final, de que, em vão, tentaremos sucessivamente nos precaver. Porque cada nocaute, que é uma das facetas da uniformidade de sua obstinação, vem preparado por formas, temas e técnicas das mais imprevisíveis geografias. Buenos Aires, São Paulo, Havana, Campinas, Barcelona, Dublin, Paris são apresentadas com veracidade de endereços, ruas e praças, mais uma característica do globe-trotter faminto do mundo, impregnado de cada local, como o Ken O’Casey, em “Na Castle Market Street”, cujo “obsessivo interesse pelo detalhe” era a principal característica de sua personalidade. Zonzos com o Sr. Mancuso, passamos ao atordoamento de “Paixão”, um flash sibilino, como a anotação do mundo em uma página, de “Parque”, mas aqui oráculo rápido numa espécie narrativa de poema em prosa onde aparece a máquina que, depois de lidas suas duas páginas, suga nossa reflexão letárgica por três horas, para nos largar a seguir num atarantamento mortiço.

Um editor responsável esperaria que o autor viesse retirar os originais para lhe aconselhar estórias leves com mensagens edificantes. Mas, virada a página, retomaria a expectativa pela viabilidade da publicação, vendo, feliz, o que parece ser uma ficção científica com nomes terminados em “ex”, naquele tipo de registro dos anos 60, que nomeava os modismos com “prafrentex” e que fazia meu avô rosnar, enquanto picava o fumo para o cigarro de palha: “filhadaputex !” Mas a esperança do palatável se frustra quando percebe que todos os nomes futuristas estão em chave irônica, insistente, mordaz, e, pior, acompanhados de todo tipo de “bip-bips” interplanetários e máquinas espaciais, cuja sondagem arqueológica acaba por recuperar, impertinentemente – e em letras góticas! – fragmentos de Shakespeare com um concretismo de polissemias em sonhos de uma noite de verão: mais susto e densidade na arte do ouriço. Pobre editor e pobre de seu rico bolso.

200 páginas que parecem 1001 noites sem fim. Isso não acaba nunca! Perceba-se que até aqui comentamos apenas seus primeiros contos. Ao invés de o autor aproveitar seus conhecimentos de literatura para exibir didaticamente conhecimentos úteis e intertextuais, na base da citação da citação, a literatura canônica que vamos vendo pelos seus contos e novelas revela uma função inesperada da arte para os nossos tempos: ela ressurge, fênix renascida, como a mais apaixonada expressão de humanidade, imanentemente infiltrada nas vidas de seus enredos, como comprovamos, mesmo antes do sopapo final, em “Blake versus Claude”. O autor teimoso também não aproveita o rico veio da literatura-para-se-ler-com-uma-só-mão: na rememoração cáustica do namoro antigo, com ar paulistano de fusca dos anos 60, que escorrega na sonoridade da folha amassada pelos pneus, próximo do jardim dos pais da moça, a nudez que aparece pelos vidros suados do carro, obriga o leitor a agarrar o livro com as duas mãos, do mesmo modo como ficará inerme com o detalhismo da boneca inflável, numa cidade norte-americana, que acaba espicaçada violentamente, soprando feito um balão furado.

Os meandros do capitalismo são apresentados na plástica palpável das fotos que, enquanto espera a morte do avô, o herdeiro, no gabinete do velho patriarca, repassa, na triste condição de neto de um movimento, entre interior paulista, capital e Europa, de exportação, importação, cafeicultura, tecelagem, imigrantes bem sucedidos, serviçais, falências, mésalliances, mansões e miséria existencial. Do mesmo modo em “La rosa blanca”, vemos a Revolução Cubana em carne-e-osso, através de um olhar compreensivo que acompanha as aventuras contra-revolucionárias de uma doce menina rica. O realista empedernido só permite magia para o “Mágico” e para Monet, mas impede qualquer saída além da lei da gravidade para mais um de seus parceiros, o desembargador aposentado Albano Porfírio Beirão, que, em “Acima da matéria”, prepara ano a ano, como um grande evento para si, os encontros da “turma de 25”, com o capricho de um contista que escrevesse para ninguém. A aderência ao real aí também aparece nos close-ups dos movimentos da boca do ancião solitário e no ir e vir do pomo-de-adão “sob o tapete frio da pele”, assim como aparecem flagrantes descritivos em todos os contos e novelas, no que, afinal, não passa de uma coletânea de roteiros cinematográficos. Com uma exceção: o conto, ou o que quer que seja, sob o título “Não faz assim, Clark”, em que o leitor se torna espectador dos bastidores de Clark Gable e Vivian Leigh, com camadas e recamadas de representação e dublagem, entrando pela vida dos dubladores, de tal modo que o texto parece menos cinematografia de Hollywood que uma ilustração viva do ensaio denso de Benjamin sobre “A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução”.

Finalmente o paradoxal prepara sua despedida “sobre quatro patas”. Conta-se que Raquel de Queiroz, em 1938, com o lançamento de Vidas secas, bateu à porta do apartamento de Graciliano Ramos para xingar carinhosamente o amigo que acabava de arrasar seu pobre O Quinze. Graciliano, bem menos espalhafatoso, não faria o mesmo ao saber da vida de cão elaborada por Ricardo Daunt. Mas certamente, nessa obra-prima pungente, construída por meio de desenvolturas e peripécias com uma independência criativa sem ecos e uma encarnação do bicho tão densa como a sua, perceberia um parceiro para Baleia, um cão sem nome, ou conforme as vicissitudes chamado “Zé”, uma miserabilidade animal oferecida como patrimônio da humanidade à literatura brasileira.

Mas observe o leitor, que sempre gosta de ser enganado, que estamos dentro de uma resenha-ficção: Ricardo Daunt, o autor, e seu livro Poses. Contos e novelas, São Paulo: Via Lettera, 2005 – não existem. Deixemos, pois, aqui passar enfileiradas, boiando pelo mar da pós-modernidade, essa coletânea obstinada de garrafas-ouriço, que o ermitão fantasioso, nas noites febris da megalópole brasileira, teima em lançar de uma de suas janelas acesas.


Marcos Falchero Falleiros é professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, autor de A retórica do seco (mestrado, USP, 1989) e Ingenuidade e brasileirismo em Manuel Bandeira (doutorado, USP, 1995). Atualmente, 2006, realiza estágio de pós-doutorado na USP. Email: marcfal@ufrnet.br



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