A fotografia como suporte didático para professores do ensino fundamental



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A FOTOGRAFIA COMO SUPORTE DIDÁTICO PARA PROFESSORES DO ENSINO FUNDAMENTAL. Waleska Dacal Reis (Secretaria de Estado da Educação/AL).

O esboço do presente ensaio surgiu a partir das vivências cotidianas na minha prática pedagógica, inicialmente com alunos da 1ª série do 1º grau da Rede Pública Estadual de Ensino, tornando-se, posteriormente, um estudo teórico–prático que se utilizou da pesquisa bibliográfica em livros, revistas, artigos e reportagens, com o objetivo de promover a utilização da fotografia na sala de aula, como uma das muitas possibilidades de trabalhos pedagógicos existentes na inter-relação Educação/Comunicação Visual.

A realidade de um processo Ensino/Aprendizagem dificultado, algumas vezes, pela limitação de recursos, aliado a vontade de levar para o ambiente escolar alguns conhecimentos adquiridos no meu processo de formação como jornalista, me fizeram pensar na possibilidade de trabalhar as imagens fotográficas em sala de aula.

Cabe salientar, entretanto, que o uso da fotografia na prática pedagógica não se deu aleatoriamente, nem com imposição, mas partiu do próprio interesse dos alunos, que pude constatar nas atividades de pesquisa, recorte e colagem de figuras de revistas, jornais, embalagens e outros tantos recursos da mídia impressa.

As fotografias são importantes por que nos fornecem informações, e mais do que isso, nos ensinam um código visual, mudando a nossa maneira de ver, redirecionando o que vale a pena ser olhado, ou não. Numa sociedade de indivíduos autômatos que trabalham em função da sua própria existência e subsistem do seu próprio trabalho, “a fotografia tornou-se um dos principais meios de acesso à experiência, a uma ilusão de participação” (SONTAG, 1986: 20).

No cotidiano da sala de aula, o processo de comunicação proveniente da utilização das imagens fotográficas como material de apoio didático, pode viabilizar uma prática educacional mais direcionada à formação de cidadãos críticos, desde que, na linguagem da Comunicação Visual o conceito de Educar transmude para Ensinar a olhar. Num mundo onde vivemos rodeados de imagens, o fundamental é saber interpretá-las, de modo que, ao observar uma imagem, o indivíduo seja capaz de desvendar seus vários sentidos.

É importante ressaltar que as idéias aqui apresentadas não são inovadoras, nem conservadoras, certamente encontraremos sobre o tema outras experiências semelhantes e que discutem a utilização da fotografia como suporte didático. Tampouco discutem a atualidade das questões referentes ao uso dos Recursos Visuais na prática de ensino, apenas se predispõem a um estudo a cerca das aplicações da fotografia na prática educacional, relacionando-a com a postura teórica do educador.

A Educação reflete sempre as características do momento histórico vivido pelo país, e foram muitas as inovações no sistema educacional brasileiro ao longo de sua história. No que se refere à prática de ensino, tais inovações se apresentaram, até certo ponto, de forma descontínua, seguindo um movimento de idas e vindas que, possivelmente, conseguiu abalar as convicções de muitos educadores.

Diante das renovações na didática, só a experiência e a capacidade de compreensão dos professores permitiram viabilizar um julgamento sensato e uma adequada avaliação das propostas que foram surgindo como alternativas para a melhoria do ensino. Pode-se falar em melhoria, uma vez que, as mudanças quando não são impostas, possivelmente resultam da tentativa de reorganizar as experiências que já foram testadas e avaliadas.

No que se refere ao quadro deficiente em que se encontra a Educação brasileira, devemos procurar, entre outros pontos, detectar os problemas localizando as falhas existentes na comunicação professor/aluno, pois a solução do problema, ou pelo menos, as propostas que viabilizarão uma mudança nas deficiências existentes em tal relação, necessitam de uma avaliação tanto do corpo docente, como do discente, evitando-se a relação vertical que enfatiza a posição do mestre sabe-tudo, em detrimento do aluno tábula-rasa.

É importante antecipar, no que tange a utilização de imagens fotográficas como suporte didático no Ensino Fundamental, que o presente trabalho não privilegia e nem se limita a utilização técnica desse recurso visual. A idéia principal não se restringe a promover em sala de aula um concurso de fotografia, nem o objetivo único seria despertar no aluno só seu lado artístico e o seu senso estético.

Tais possibilidades, no entanto, não são desconsideradas, uma vez que se reconhece em tais práticas excelentes resultados e benefícios na relação Ensino/Aprendizagem. Mas, deve-se considerar o elevado custo do material técnico necessário a um trabalho que tenha essas características e, principalmente, as condições econômicas da clientela a que tal prática se destina.

Um trabalho pedagógico suportado em imagens fotográficas e que teve inicialmente como público alvo professores e alunos da 1ª série do Ensino Fundamental de Rede Pública, como o que pude colocar em prática, partiu da elaboração de um arquivo com os mais distintos tipos de fotografias, com o objetivo de organizar um acervo.

Quando falo em colecionar imagens variadas, parto da idéia de uma coletânea organizada por professores e alunos, e que englobe imagens fotojornalísticas, contidas em jornais, revistas e outros veículos da mídia impressa, além da coleta de fotos artísticas, promocionais, slides e publicitárias, sem prévias restrições a qualquer tipo de imagem impressa que venha a despertar no aluno o interesse, e que seja, posteriormente, o tema gerador de questionamentos críticos.

Apesar dos inúmeros benefícios propiciados pela utilização de fotografias no Ensino Fundamental, o principal deles, certamente, é a possibilidade de libertar a Pedagogia do verbalismo a que está fadada há tantos anos devido as Concepções Conservadoras da Educação, sobretudo, a tradicional centrada na transmissão de conteúdos. No entanto, para que a utilização da fotografia favoreça a formação de indivíduos críticos, é necessário que ela seja utilizada pelos educadores, como algo mais que uma simples ilustração.

A fotografia está incluída no rol dos recursos visuais, sendo classificada como código analógico icônico, por representar com mais realidade objetos pessoas, animais ou cenas. Sua utilização na prática educacional tem mostrado resultados positivos.

Diante da necessidade de rompimento com uma educação fragmentada, a fotografia tem se mostrado importante. Utilizada no trabalho interdisciplinar tem possibilitado a integração dos conteúdos e o resgate dos valores humanos estéticos e éticos.

Como suporte didático, a fotografia pode ser utilizada sem prévias restrições quanto a disciplinas, ainda que, algumas delas possam ser mais beneficiadas pela utilização desse recurso visual. Para o aluno, a possibilidade de ver aquilo que está sendo estudado é mais importante do que apenas ouvir uma explanação acerca de um dado assunto. Quando um aluno se depara com um conteúdo, não basta apenas tê-lo diante dos olhos, é preciso interpretá-lo, interagindo com aquilo que lhe está sendo oferecido.

Mas, ao defender o uso da fotografia na prática pedagógica não se pretende, no entanto, apoiar meramente a publicação de gravuras no livro didático apenas com o objetivo de reforçar os textos do material oferecido aos alunos. Espera-se, antes, contribuir para a produção textual do aluno, seja oral ou escrita, partindo da sua própria compreensão, dos seus próprios questionamentos, evocando com isso uma leitura crítica da realidade.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais, a fotografia está situada entre as Artes Visuais, uma sub-área do ensino de artes, mas hierarquias e nomenclaturas disciplinares a parte, o que se percebe, é que não existem contra indicações que inviabilizem a conciliação das imagens fotográficas, enquanto meio de Comunicação Visual, à arte-educação. A não ser pela postura pedagógica do professor.

Assim sendo, quando nos propomos numa prática pedagógica, a conciliar a Educação com a Comunicação Visual, há uma série de implicações que devem ser consideradas. Em sala de aula o professor deve ter clareza dos objetivos que pretende atingir utilizando recursos visuais em sua prática educativa, ainda que, muitas experiências desse tipo tenham mostrado resultados satisfatórios.

De acordo com o direcionamento da proposta de trabalho pedagógico que realizei no Ensino Fundamental, constatei que nem todo tipo de atividade com imagens fotográficas é plenamente satisfatória e totalmente adaptável a todas as séries desse nível de ensino.

Das primeiras letras ao desenvolvimento da linguagem oral e escrita, da formação de uma mentalidade crítica capaz de entender o todo em detrimento das partes, a um profundo redirecionamento das aulas de Arte-Educação, certamente umas atividades obterão êxito assegurado nas séries iniciais, enquanto que, outras, serão desenvolvidas com sucesso se direcionadas da 5ª a 8ª série.

Quando me refiro a um redirecionamento das aulas de artes, é numa alusão às propostas da Lei 5692-71 que trata da LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional anterior a vigente. Nela, as vezes do ensino de artes estavam delegadas a Educação Artística, que não era compreendida como uma disciplina curricular, e sim como mais uma atividade, dentre as muitas desenvolvidas, pela polivalente prática do professor de 1º grau.

Assim sendo, talvez devêssemos iniciar nossas reflexões acerca dos trabalhos que podem ser desenvolvidos através da transmissão visual das mensagens contidas nas fotografias, pelo ensino de Artes, por ser o que comporte o campo das Artes Visuais no qual a fotografia está situada.

Aplicado à aula de artes, um trabalho com imagens fotográficas no Ensino Fundamental comporta desde um estudo sobre a História da Fotografia, até a assimilação da técnica propriamente dita. Vale lembrar, entretanto, que um trabalho pedagógico com tais características obtém resultados significativos se desenvolvido com alunos de 5ª a 8ª série, devido a complexidade dos muitos conceitos que a técnica comporta.

No que se refere a utilização da fotografia enquanto técnica, o direcionamento de uma prática fotográfica às turmas menores pode representar um desafio que, mediante a disponibilidade de recursos materiais deve ser encarado pelos educadores. Pude encontrar relatos de experiências semelhantes registrados em revistas educacionais, neles se observam iniciativas de interdisciplinaridade que apontam possibilidades de conciliação dos conteúdos pertinentes a Arte-Educação, expressas no trabalho de produção de máquinas fotográficas com sucata, as demais disciplinas curriculares, a exemplo dos conteúdos de ciências.

No entanto, quando se trata de utilizar a fotografia como apoio didático na prática de Arte-Educação o direcionamento filosófico das atividades que serão desenvolvidas é mais importante do que o método selecionado para trabalharmos em sala de aula. Nesse sentido, espera-se do professor a elaboração de questionamentos condizentes com a capacidade de compreensão dos alunos, tarefa que requer amplo conhecimento das possibilidades e limitações de cada um.

Aos educadores que interesse o uso da fotografia nas aulas de Arte-Educação, é importante salientar que não se deve perder de vista o desenvolvimento do senso crítico do aluno, tarefa que poderá ser realizada se em seu referencial teórico-metodológico for possível contemplar a História da Fotografia, a sua produção enquanto Arte Visual e a leitura de imagens fotográficas, que tão bem caracteriza a subjetividade e a particularidade de cada um, evidenciando entre os alunos as mais diversas leituras de mundo.

Que lugar a fotografia ocupa no cenário artístico? Como desenvolver o senso crítico dos alunos a partir da produção dos ensaios fotográficos? O que o meu olhar consegue ver além e através do olhar do outro? O que a imagem fotográfica está querendo me dizer com o seu discurso silencioso? Como a minha prática enquanto arte-educador pode favorecer a prática dos professores de outras disciplinas?

A respostas a essas e tantas outras questões deve ser dada pelo professor de acordo com as características da prática pedagógica que pretende desenvolver. Por mais que o direcionamento desse trabalho pedagógico possa enfatizar o resgate e análise de imagens impressas já existentes, seria inadmissível desconsiderar a importância da produção artística na vida das crianças e dos adolescentes.

Dificuldades são comuns em todas as modalidades de ensino. A necessidade de modificação na prática pedagógica de muitos professores conservadores, há muito é uma realidade proposta pela didática, inovações são possíveis e viáveis, desde que o professor e o aluno estejam abertos ao diálogo, afinal, “educar também é ajudar a desenvolver todas as formas de comunicação” (MORAN, 1998:156).

A Educação e a Comunicação estão de tal maneira interligadas e, intrinsecamente, relacionadas que são praticamente indissociáveis, visto que, a Educação dentro das variáveis da suas manifestações, engloba toda e qualquer possibilidade de prática comunicativa. “A comunicação é um campo de trocas, de interações, que permitem perceber-nos, expressar-nos, e relacionar-nos com os outros, ensinar e aprender” (MORAN, 1998: 9). Tais características cabem perfeitamente à Educação.

No entanto, anterior à escola, agregamos todo um conjunto de valores herdados das nossas relações familiares, comunitárias, sociais, enfim, e que antecipam toda a reordenação que, posteriormente, a escola dará aos nossos pensamentos. “Lembre-se, leitor, como se fez gente: sua casa, seu bairro, sua escola, sua patota. A comunicação foi o canal pelo qual os padrões de vida de sua cultura foram-lhe transmitidos, pelo qual aprendeu a ser membro de sua sociedade” (BORDENAVE, 1982: 17).

Tal constatação nos leva a refletir sobre a urgência de compreendermos a família como a primeira e mais importante escola na construção do ser humano, com seus conjuntos de valores crenças, conhecimentos, padrões de comportamento e emoções que representam e que o definem culturalmente.

Nas últimas décadas, a escola incorporou no rol das suas esperadas atribuições, a difícil tarefa de educar praticamente só, nossas crianças e jovens, atuando no sentido de inversão dos valores, uma vez que tem que responder por uma responsabilidade que antes era partilhada com a instituição em primeira instância: a família.

O fato é que a sociedade mudou, os pais trabalham mais, se compararmos com a sociedade de pelo menos duas décadas atrás, onde a representação feminina no mercado de trabalho era tímida, e a figura materna era imbuída de repassar aos futuros cidadãos, muito mais que o mero conceito de cidadania, ficando-lhe a missão de repassar os valores éticos e morais.

Atualmente com a crescente inserção da mulher no mercado de trabalho, muitos dos antigos valores provenientes da nossa sociedade extremamente machista e conservadora, vêm se diluindo ao longo do processo. Hoje muitas mães trabalham para sustentar suas famílias assumindo outras responsabilidades e, com isso, se ausentando por mais tempo do lar e do contato com os filhos, que perdem no sentido da orientação.

Vivemos, indiscutivelmente, um período de inversão de valores. Se antes cabia à família a missão de formar seus filhos ética e moralmente, esse papel, em dias atuais, vem sendo atribuído, cada vez mais à escola que se encontra, talvez, diante de um dos seus maiores desafios: resgatar a confiança da família no seu papel de formadora.

De fato, caberá à escola a reordenação do conhecimento humano pré-adquirido. Leia-se nesse conhecimento, todo o desenvolvimento psíquico, racional e emotivo, além dos valores éticos e morais que, anteriores ao nosso ingresso na vida escolar, fundamentam o desenvolvimento do nosso senso crítico diante da realidade que nos cerca.

Em seus estudos sobre os saberes necessários à prática educativa, FREIRE expõe: “ensinar exige respeito aos saberes dos educandos. Por isso mesmo pensar certo coloca ao professor ou, mais amplamente, à escola, o dever de não só respeitar os saberes com que os educandos, sobretudo os das classes populares, chegam a ela – saberes socialmente construídos na prática comunitária” (1996: 33).

Diante da reordenação do pensamento humano, a escola com seu papel pedagógico, tecnológico e científico poderá ajudar o aluno a rever e criar novos conceitos, ampliando, a partir das experiências de cada um, a capacidade de compreensão da realidade que o cerca. Se o pensamento é uma fala internalizada, e a linguagem é uma expressão do pensamento, então, “educar é ajudar a compreender o mundo. É um processo de desvendamento e integração de níveis mais complexos da realidade (...) e, também, é um processo de aprender a desaprender, de deixar de lado o que não nos serve mais, o que não nos ajuda mais a evoluir” (MORAN, 1998: 155).

Percebi o quanto o trabalho com as imagens fotográficas me orientaram para uma prática pedagógica com essas características, sobretudo, na hora de desaprender o aprendido. Considere leitor, que, a principio limitei a possibilidade de trabalhar a fotografia em sala de aula nas séries iniciais do Ensino Fundamental, não por desacreditar na sua funcionalidade com as demais modalidades de ensino, mas por se tratar da experiência que estava vivenciando.

Atualmente, trabalhando com Pessoas Portadoras de Necessidades Educacionais Especiais, tive oportunidade de resgatar o uso das imagens fotográficas em sala de aula, isso me fez reavaliar alguns pré-conceitos e alguns conhecimentos adquiridos durante o meu contínuo processo de formação enquanto professora.

Percebo, a cada nova experiência desenvolvida a partir das imagens fotográfica, que trabalhar fotografia em sala de aula é, certamente, uma boa oportunidade de se trabalhar a inclusão, não me refiro apenas ao sentido dado pela LDB ao termo Educação Inclusiva, pois compreendo que toda forma de educação pode ser excludente se não considera o aluno em sua potencialidade, desconsiderando suas vivências, seus pensamentos e aptidões. E assim sendo, um aluno considerado normal, mas com problemas de rendimento e adaptação numa sala de Ensino Regular, passará por algum processo de exclusão.

Nos últimos dois anos e meio tenho desenvolvido meu trabalho num Centro Especializado destinado a alunos portadores de deficiência mental ou múltiplas deficiências que, de imediato, não apresentam condições para a inclusão no Ensino regular. Tal experiência tem me dado a oportunidade de vivenciar cotidianamente as implicações da base filosófico-ideológica da Integração, que se configura no Princípio da Normalização.

Normalização poderia sugerir, erroneamente, a busca da conformidade às normas sociais. Também não significa tornar normal a pessoa portadora de deficiências. Prevalece sempre o seu direito de ser diferente e de ter suas necessidades especiais reconhecidas e atendidas pela sociedade”.(MEC - Secretaria de Educação Especial). Mas, na prática, nem sempre é assim, falo tendo como referência os conceitos que tinha estabelecido previamente acerca das reais possibilidades de avanço de uma pessoa com algum tipo de deficiência mental.

Sair do Ensino Regular para a realidade de uma Classe Especial, sem nenhuma experiência anterior, acredito que gera uma sensação semelhante a cair de pára-quedas num território completamente desconhecido. Surgem questionamentos sobre o que-fazer-pedagógico, como fazer, em que circunstâncias fazer, com que freqüência.

Um dos erros mais comuns nesses momentos de dúvidas, talvez, seja acreditarmos na necessidade de um currículo voltado para pessoas especiais diferente daqueles propostos pelo Ensino Regular em todos os níveis e modalidades de ensino. Tal idéia reforça, na própria realidade da Educação Especial, os princípios da exclusão.

Observemos que, no contexto da lei 9.394, que trata das Diretrizes e Bases da Educação Nacional em vigor, a parte que trata dos níveis e das modalidades de educação e ensino, em seu Capítulo I, fala sobre a composição dos níveis escolares que de acordo com o Art. 21 compõe-se de:




  1. Educação Básica, formada pela Educação infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.

  2. Educação Superior

A Educação Especial perpassa todas essas modalidades de ensino, com essa compreensão, pude retomar o trabalho pedagógico com as imagens fotográficas, dessa vez com Pessoas Portadoras de Necessidades Educacionais Especiais. O trabalho começou com atividades de pesquisa, recortes e colagem, em revistas e jornais sobre temas referentes aos conteúdos trabalhados em História, Geografia, Ciências, nas atividades de desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita, que foram muito beneficiadas pelo uso das imagens impressas, e mesmo nas atividades de Matemática, pois a experiência mostrou que trabalhar concretamente os conceitos matemático, a exemplo de número/quantidade, associando o número a quantidade de figuras correspondente, fazia mais sentido para todos.

Considerado-se as limitações de cada aluno, que podem ser percebidas dentro das vivências e trocas da relação Ensino/aprendizagem, asseguro que não existem contra-indicações ao uso das imagens fotográficas com pessoas com deficiência mental, ao contrário, elas servem de estimulo ao desenvolvimento da capacidade cognitiva, pois estimulam o pensamento articulado e com isso favorece o exercício da oralidade.

Além disso, o próprio manuseio de revistas para pesquisas e recortes, com o objetivo de organizar um acervo de imagens impressas, favorece o desenvolvimento e a ordenação do raciocínio, além de promover a melhoria da coordenação motora fina, sem que seja necessário infantilizar o processo.

Qualquer sistema educacional é, no mínimo, uma tentativa de trabalho fundamentada numa Concepção Filosófica. Não existe neutralidade na educação, ela estará sempre a serviço de pressupostos Sócio-Econômicos-políticos-culturais e ideológicos. Não se trata, no entanto, de iniciarmos, com base nessas variáveis – no que diz respeito às inúmeras concepções filosóficas que nortearam as mais distintas propostas pedagógicas no Brasil – um compêndio acerca do processo histórico da educação brasileira.

Utilizando como critério a posição que adotam em relação aos condicionantes sociopolíticos da escola, as tendências pedagógicas foram classificadas em liberais e progressistas”( LIBÂNEO, 1984:21). Uma análise das reais implicações de cada uma destas concepções necessita de um estudo aprofundado de todo processo histórico, filosófico, político e ideológico que cada momento, com sua determinada tendência pedagógica, vivenciou, o que não nos impede de tentar compreendê-las, mesmo que de forma limitada.

A Escola Conservadora tem seus pressupostos nas idéias liberais, reforçando o crescimento das desigualdades sociais, uma vez que se propõe a igualar indivíduos de natureza social distinta. Nesse contexto, é reprodutora da cultura dominante, está centrada na mera transmissão de conteúdos e é o cenário perfeito para o verbalismo. Não há nas concepções conservadoras, a consciência dos condicionantes histórico-sociais da educação, ela é vista como algo independente em relação à sociedade e limita-se aos métodos pedagógicos, sem abrir discussão para as finalidades educacionais.

Numa posição contrária, encontra-se a Escola Progressista que compreende a educação como processo de humanização dos homens, considerando o contexto social no qual está inserido. As concepções filosóficas progressistas partem da análise crítica das realidades sociais, portanto, o conhecimento passa a ser algo inseparável da prática social. A função da educação progressista é formar indivíduos críticos e aptos a sua própria emancipação sócio-econômica-política e cultural.

A escola é determinada socialmente; a sociedade em que vivemos, fundada no modo de reprodução capitalista, é dividida em classes com interesses opostos; portanto, a escola sofre a determinação do conflito de interesses que caracteriza a sociedade”(SAVIANI,1992:41). Diante de realidades distintas convém afirmarmos que, uma prática educacional que utiliza a fotografia como suporte didático com o objetivo de desenvolver no aluno a compreensão da realidade que o cerca, certamente cabe em qualquer espaço pedagógico que esteja, pelo menos, aberto a mudança, sobretudo, aqueles ainda não conseguiram compreender o indivíduo na sua dimensão humana.

Em seus estudos, MORIN aponta a compreensão como um dos sete saberes necessários à educação do futuro, e nos diz que:


A compreensão é a um só tempo meio e fim da comunicação humana. Entretanto, a educação para a compreensão está ausente do ensino. O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensão mútua. Considerando a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades, o desenvolvimento da compreensão pede a reforma das mentalidades. Esta deve ser a obra para a educação do futuro” (2000:16).
Mas, eis a grande dúvida: O que mudar? Como reformar a mentalidade dos educadores? Como é complicado para eles, atualmente, teorizar sobre uma educação que enfatiza a prática da interdisciplinaridade, ainda mais quando a sua própria realidade enquanto educando remete à época em que era suficiente à escola, instruir seus alunos tornando-os aptos à leitura e à escrita, aos cálculos matemáticos e alguns conhecimentos transmitidos pelos conteúdos de estudos sociais e ciências, acerca do meio em que vivemos.

Considerar que tais conteúdos foram transmitidos a muitos dos atuais educadores sem o prévio estabelecimento de possíveis relações entre eles, é um dos muitos caminhos possíveis a um estudo sobre a educação com suas distintas manifestações, erros e acertos, reformulações e, de forma mais definitiva, transformações e mudanças.

Diante dessa necessidade de mudanças, inovações, ou mesmo alterações nas estratégias pedagógicas, a maioria dos profissionais da área da educação tem se mostrado reticente, quando não, despreparada. Um despreparo resultante da ausência de atualização pedagógica.

Ao lado da necessidade de mudanças, inovações, propostas pela nova LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e configurada nos PCN’s – Parâmetros Curriculares Nacionais, que ressaltam a necessidade de uma grade curricular nacional adaptada a realidade de cada região brasileira, levanta-se a necessidade de trabalhar o currículo escolar com base na interdisciplinaridade. Mas que novidade é essa? Que monstro é esse que emerge do lago turbulento e confuso de idéias e ideais pedagógicos?

Com base nesses questionamentos, instituições públicas e privadas têm-se desdobrado em iniciativas com o objetivo de capacitar os profissionais da educação para o trabalho de interdisciplinaridade.

No entanto, é complicado aos professores que foram educados a partir de uma grade curricular fundamentada no engavetamento das disciplinas, trabalhadas isoladamente sem enfatizar a mínima possibilidade de relação entre elas, compreender que “a educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana” (MORIN, 2000: 47). “E isso implica que o ser humano é a um só termo físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico” (MORIN, 2000: 15).

O uso contínuo da fotografia na minha prática pedagógica vem possibilitando o amadurecimento de algumas questões que, sem dúvidas, favorecem não só os alunos no seu processo de aquisição do conhecimento, mas alcança também os professores que podem começar a incluir no seu processo de formação continuada o estudo do uso e das possibilidades de utilização das imagens na prática de ensino.

A realidade da Educação brasileira, em muitas circunstâncias com deficiência de recursos e materiais de apoio didático à prática educativa, exige na maioria das vezes, uma postura criativa do professor em sala de aula, o que possibilita a fuga da mera utilização do livro didático, favorecendo possíveis trabalhos alternativos. O trabalho pedagógico com imagens fotográficas surge nesse âmbito. Ainda que os relatos de experiências desse tipo sejam poucos, a utilização dos recursos fotográficos em sala de aula é, ao contrário, mais comum do que se supõe, mesmo que, muita coisa precise ser revista e analisada, no que se refere à metodologia.

Diante do contínuo avanço nas tecnologias de Comunicação e Informação, incentivado pela Globalização da economia, há quem considere, talvez, a presente proposta de trabalho pedagógico como uma saída utópica, visto que, nesse espaço audiovisual globalizado, com os meios de comunicação cada vez mais atuantes em prol da globalização cultural, utilizar como recursos didáticos uma seleta combinação de imagens impressas, evoquem uma certa ingenuidade.

Mas, se o objetivo é desenvolver nos alunos a criticidade, não há nada que inviabilize iniciarmos um estudo da realidade por aquilo que melhor a representa: ela mesma. Ainda que estampada em cenas cotidianas registradas em jornais, revistas e outros tantos recursos da mídia impressa. Isso proporcionará o amadurecimento necessário ao trabalho com outras formas de imagens, como as televisivas, o cinema, ou mesmo as proporcionadas pelas Novas Tecnologias de Comunicação e Informação, como a Internet, por exemplo, sempre num ritmo maior e mais complexo.

Mesmo que alguns professores não tenham clara a noção de que o uso das imagens em sala de aula, vai além do olhar e articular, envolvendo uma reordenação do pensamento, é um redirecionar do olhar que está em jogo. A princípio, é a leitura crítica do que está por trás do instante eternizado na fotografia, mais adiante o discernimento sobre o que está por trás do noticiário da TV, ou o encontro com a Internet. Estamos diante de um constante renovar de informações, promovido pelas Novas Tecnologias de Comunicação e Informação.

Nossas crianças hoje são mais ativas e participativas, pois “ouvem rádio, vêem novelas, noticiários e programas de auditório e sabem operar computadores melhor do que muitos adultos. Na sala de aula, participam mais, se agitam, conversam, dão palpites. Tudo por que têm opinião – resultado da facilidade de acesso à informação. E a escola? Está preparada para lidar com essa nova realidade? (BENCINI, 2002:17).

Diante de tantas dificuldades no cenário do ensino público brasileiro, sobretudo nas séries iniciais do Ensino Fundamental, utilizar-se das imagens fotográficas, entre outros veículos da mídia impressa visando uma melhora qualitativa da prática de ensino, é uma saída, dentre as muitas que existem e podem ser utilizadas com o mesmo objetivo. Os trabalhos são ainda mais satisfatórios quando existe a criatividade, a seriedade e o envolvimento dos professores.

As inúmeras possibilidades de utilização do material fotográfico em sala de aula, entretanto, deve se prender a questão sociológica do desenvolvimento da prática pedagógica, mais que às disposições metodológicas que serão utilizadas, uma vez que o que se pretende não é apenas a melhoria do material didático a ser trabalhado em sala de aula, mas o avanço significativo dos alunos em direção a uma educação fundamentada no desenvolvimento da criticidade.

Reforço ainda que, a flexibilidade e a amplitude da possibilidade de trabalhar em sala de aula com imagens fotográficas, não geram benefícios imediatos apenas para os educandos, mas democratizam, de fato, a relação professor/aluno, promovendo avanços significativos nas relações de trocas pertinentes ao processo Ensino/Aprendizagem.

Ao mesmo tempo em que esclareço que, minha intenção ao pensar nesse trabalho não foi criar um manual de possibilidades de aplicação do uso das imagens fotográficas na prática pedagógica, e sim mostrá-las como uma alternativa a mais que desperte nos professores toda a sua criatividade e sensibilidade para o desenvolvimento de uma prática de ensino que seja de fato significativa para todos os envolvidos do processo.

Cabe aos professores, se preocuparem com a sua permanente atualização de conhecimentos, se permitindo reconhecer na possibilidade de trabalho pedagógico com as imagens, sejam elas impressas, televisivas, ou provenientes da rede telemática, uma saída para o mundo real que vem se desenvolvendo rapidamente fora das salas de aula, graças aos avanços tecnológicos. E ainda levar os alunos a transformar a leitura inicial das imagens num discurso oral e escrito coerentes.

Certamente o aprofundamento do estudo através de pesquisas acerca dos condicionantes sócio-históricos-políticos e filosóficos da educação brasileira me permitirá avançar na compreensão de possíveis questões, pertinentes ao meu objeto de pesquisa, que, porventura, possa ter tratado com superficialidade e imaturidade. Mas, acredito que uma experiência como a que tenho colocado em prática, com testemunhos de resultados positivos, tem a sua importância por nos fazer pensar na possibilidade de uma prática de ensino com um processo de construção - desconstrução - reconstrução contínuo, e não como um fim em si mesmo.

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