A fuga do jaguar



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2013




Joel de Sá











A FUGA DO JAGUAR

ROMANCE SOCIOPEDAGÓGICO

A FUGA DO JAGUAR




Esta obra:

A Fuga do Jaguar.

Romance sociopedagógico de ficção.

Autor: Joel Pereira de Sá.

Gênero: literatura brasileira. 1ª edição 2013.

Todos os trabalhos técnicos – redação, diagramação, correção – foram realizados pelo autor.

Está registrada na Biblioteca Nacional.

Todos os personagens e episódios são fictícios, com base na verossimilhança.

O AUTOR é poeta, contista e cronista,

Professor de História e de Geografia.



PREZADO LEITOR,

o presente apanhado de textos sequenciais que denominei romance sociopedagógico aborda os fatos sociais mais prementes, no que diz respeito à formação do cidadão e às atividades pedagógicas.

O homem contemporâneo mantém uma extremada repulsa para com as características e hábitos da distante Idade da Pedra.

As expressões referentes ao Paleolítico até soam como pejorativas. Porém, é inegável que dos Trogloditas herdamos preceitos – por alguns chamados de mitos - absolutamente profícuos, hábitos que viabilizaram a convivência grupal e com ambientes hostis, consagrando a origem do que hoje chamamos Educação.

Os remotos Trogloditas, por nós sapiens suscitados na imaginação, provavelmente não se assemelham aos monstros ideológicos que criamos. E, hoje, quando alguém não comunga com o pensamento “moderno” se torna um Troglodita, na pior acepção pejorativa.

A modernização do processo educativo, é bem provável, não nos beneficiou tanto quanto desejamos ou não nos conduziu a um grau de progresso humanitário tão sólido como os tutores da administração pública teimam em festejar. Não crescemos o suficiente ou não atingimos o grau intelectual almejado. Aí a Educação, manifestação das minúcias regidas por comportamentos culturais que visam facilitar as relações com as outras criaturas e grupos humanos, o ambiente e as atividades humanas, deixam de perceber influências úteis ou aderem a fórmulas perniciosas.

Fica ao leitor proposta a discussão e opinião acerca do tema.

Contato: joelpersa@yahoo.com.br
Tenha uma proveitosa leitura!

Joel de Sá

A FUGA DO JAGUAR

CAPÍTULO UM

Toda cidade tem uma praça. Qualquer bairro ostenta um ambiente para o qual convergem os habitantes, mesmo que não possua status de praça. Mesmo não sendo gramada, ornada com árvores e flores. Pode ser um simples descampado onde se joga bola aos domingos, à noite acontecem encontros furtivos de namorados e as crianças correm ludicamente.

A área a que chamavam praça estava na iminência de deixar de existir. Seria destruída, escavada, revolvida, implodida. Estava sujeita a virar voçoroca, charco. O troar ensurdecedor das máquinas, bate-estacas, pás, picaretas, telas de arame, vergalhões suscitava uma conturbação.

As falações do povaréu eram diluídas pelo barulho. Ficava apenas uma indecifrável celeuma no ar. Os golpes das marretas feriam o solo e o juízo das pessoas.

A movimentação e a excitação podiam não passar de um conjunto de fatos corriqueiros. O inusitado que estava a se desenrolar ficaria por conta da relação que o ambiente traçaria entre o passado e os fatos que estariam por vir.

Aos finais de semana jovens e adultos passavam o dia jogando bola. O playground das crianças, os encontros lúbricos deixaram de ocorrer, descaracterizando-se depois que o local virou palco de acontecimentos tenebrosos. Ao anoitecer uma face medonha se revelava. Sujeitos de má índole praticavam atos abomináveis. No soturno os episódios torpes se tornavam mais claros.
_Do que o senhor está falando, homem?

_Das coisas mais infames que acontecem!

_Mas aqui é um campo de futebol, e futebol é um esporte de excelências. O senhor não sabe?

_Huuum! Eu só sei que d’agora pra frente esses malandros não vão ter mais lugar para fumar o baseado, cheirar a farinha, queimar pedras de craque, assaltar e estuprar as mocinhas decentes que passam por aqui.

O outro vacilou por alguns segundos sem se render aos argumentos:

_Então a molecada vai ficar sem espaço para bater uma bolinha.

_Ora bola! Ora futebol!

_A prática de esportes é útil e saudável. Isso ninguém pode negar. O senhor sabe que a única diversão que esses jovens têm é o futebol e o único espaço disponível é aqui. Da pena deles, sem qualquer lazer aqui na vila.

O interlocutor manteve os olhos fixos no chão a refletir acerca dos argumentos de Jaguar. Voltou a se contrapor:

_O senhor sabe das ruindades que acontecem. Ou não sabe? Como líder comunitário tem a obrigação de fazer alguma coisa para impedir a propagação dos males. A bandidagem não pode continuar massacrando as pessoas de bem. Ademais, essas desgraceiras estão contaminando o bem mais precioso que o povo conseguiu conquistar. A escola tem que ser respeitada. Ela é um espaço sagrado. É nela que nossos filhos, nossos netos e todos que nascerão aqui, serão transformados em cidadãos. Ela foi erigida para trazer dignidade à comunidade.

Jaguar arregalou os olhos. Ficou encabulado com o atrevimento do cafuzo iletrado. O cabra que mal tinha chegado do sertão nordestino parecia muito inteirado.

_Eu estou plenamente ciente, seu Augusto. E é por isso que faço questão que esses rapazes tenham um cantinho para se divertirem aos finais de semana. O senhor é novato na vila. Eu vivo aqui desde criança. Conheço tudo como a palma da mão. Sei dos potenciais e das necessidades deles.

Marcos Freitas foi apelidado de Jaguar quando adquiriu um velho automóvel jaguar e o equipou com todos os acessórios de um carro do ano. Estava sempre se gabando do seu esplendoroso carro. Ganhou um veículo e um nome. Era um homem feroz, como diziam alguns admiradores, intrépido nas situações difíceis ou para proteger os amigos e a comunidade.

Augusto correu os olhos em volta, analisando as pessoas que assistiam à faina dos homens. Em quê converteriam aquele local que chamavam de praça? Máquinas, ferramentas e homens entregues à lida extenuante, enquanto os curiosos se impacientavam com a incógnita. Parou próximo a um dos trabalhadores. Indagou:

_O senhor deve ser o encarregado da obra, né?

_Que obra? _ Respondeu o homem sem virar o corpo. Não será construída nenhuma obra aqui, pelo menos do meu conhecimento, não.

Com cara de desânimo ele fez uma pausa. Voltou a inquirir:

_Então o que é que tantos homens, tantas máquinas estão escarafunchando aí? Esses besouros de ferro estão botando tudo às avessas!

O trabalhador riu silencioso da metáfora e voltou-se com presteza. Largou a fita métrica, levantou a aba do boné que protegia a calva do sol e aproximou-se, fixando nele seus olhos azuis.

_Meu nome é Petrúcio Lutsky e sou empresário circense. Quero avisar que nenhuma mina de diamante foi encontrada aqui _ Fez um leve gesto de rir _ Pelo interesse dos curiosos parece a exploração de uma jazida de diamantes ou a descoberta de uma arca encantada.

_Moço, este recanto guarda segredos muito mais estupendos!

Por não dar importância à advertência de Augusto, ou por não tê-lo entendido, o homem continuou em seus afazeres. Completou:

_Nós vamos armar aqui nosso circo. Vamos trazer divertimento para o povo carente. A gente daqui necessita de entretenimento. Todos precisam nutrir o organismo, mas é indispensável alimentar a alma. A diversão vai ajudá-los a recuperar a autoestima. Vai contribuir com a escola, despoluindo a mente das crianças.

Até aquele momento Augusto ouvia o homem do circo com refinada atenção. Seu anseio era obter uma informação mais animadora sobre o destino daquele recanto sombrio e malfadado que acumulava ocorrências sinistras. O terreno constituía um misto de apego, terror e repulsa, de amor e medo. O pretenso templo do saber e da compreensão estava convivendo lado a lado com a perdição e a degradação humana. A escola Nicolau Maquiavel estava colada àquela área.

Os episódios compunham um torvelinho na mente de Augusto. Ele estava encabulado. Recuperar a autoestima com circo, conforme tinha filosofado Petrúcio Lutsky, não estava ao alcance de sua compreensão. Até que ponto um circo tinha o poder de levantar a animosidade de alguém ou dar subsídios à educação. Enfim, ele não via nenhuma coerência na conjunção escola-circo. A instalação do circo começou a enfrentar a oposição de muita gente, inclusive da diretora da escola.

A Nicolau Maquiavel era a única instituição educacional do novo bairro e exercia um consistente fascínio sobre a população. A arquitetura sobranceira se destacava do topo da colina. Era vislumbrada de qualquer parte do bairro. Distinguia-se a fachada em azul e branco, cores que para os projetistas devia ter um forte significado. A caixa-d’água apontava altiva para o céu como a torre de uma igreja gótica, para purificar as almas enodoadas pela ignorância. Ela representava o poder e louvava a iniciativa dos administradores em favorecer aquele povo. Augusto se tornou o mais veemente admirador do símbolo do conhecimento, das boas maneiras e do progresso. Descrevia-se ali o monumento mais sagrado pelo qual todos os homens deviam passar para se fazerem cidadãos dignos. Tudo era diferente do que ele havia conhecido até o momento. No sertão nordestino as instalações escolares eram decadentes. A escola da usina abrigava-se num galpão em ruína. As carteiras eram substituídas por mesas toscas e os assentos eram tamboretes. Apenas os alunos que chegassem cedo tinham acesso a eles. Os retardatários se acomodavam em toras de madeira dispostas em desalinho pelo extenso espaço desproporcional. Os equipamentos se limitavam a uma lousa quebrada, alguns livros antiquados, uma régua e uma palmatória. A professora mal conseguia transmitir os rudimentos alfabetizatórios. Havia uma escola de verdade. Era uma pequena edificação. Sem muita suntuosidade, com paredes caiadas e chão com cerâmica. Tinha quadro-negro entalhado na parede, duas dezenas de carteiras. Porém, não era para ter aula. Era apenas para justificar uma verba superfaturada pela prefeitura local e camuflar o desdém do usineiro pela educação de seus agregados e empregados. Como virou escola sem aulas veio a ser utilizada como estrebaria para os cavalos mangalargas.



Augusto tinha uma imagem preconcebida dos resultados da educação. O rádio a tevê, os auto-falantes, os megafones, a boca do populacho alardeavam incansáveis que o homem só se torna honrado se seguir os preceitos ditados pelo processo educativo. A prédica soava como uma canção destoante. Cresceu ouvindo a ladainha. Não entendia por que só as crianças oriundas das famílias mais abastadas iam à escola da cidade. A escola tosca era para alguns filhos de agregados. E nem àquela ele teve oportunidade de frequentar. Queria estudar, se tornar entendedor dos conceitos do mundo. “Oxe, menino, tu és muito ousado! Tá é cometendo uma heresia! Se o patrão ficar sabendo... Unh!” O processo miraculoso de que tanto falavam, que transformava os jovens em homens poderosos não podia ser experimentado por quem quisesse. Até sonhar era proibido. Verbalizar os anseios, jamais. Cafuzos devem permanecer Trogloditas. São os Homens da caverna contemporâneos dos Modernos. Ficava intrigado quando falavam dos avanços da ciência, da tecnologia enquanto o sertão do cafuzo convivia com um ensino rústico, com um desenvolvimento utópico, inexistente para muitos. Ao tentar desenrolar os pergaminhos em cujas dobras estariam descritas as normas de um bom viver ele se depararia com intrincados sistemas. Os usineiros e seus asseclas, que tanto falavam do bem proporcionado pela educação, os mantinha no marasmo, impedindo-os de vislumbrar um céu alvo, prendendo-os na subserviência absoluta, assassinando-os silenciosamente. Os diálogos com os agregados eram raros e efêmeros, limitando-se a ditames arrogantes. Nas poucas vezes em que lhes falava era para ordenar que não deviam mandar os filhos à escola. E assim os assassinavam um a um. Outras vezes o massacre era coletivo. Todos os cafuzos tinham sido assassinados pela ideologia sinistra do usineiro. Tantas vezes Augusto planejara vingar a morte dos antepassados. Mas ele também estava a ser assassinado. Seus ossos tinham sido triturados nas moendas. Seu corpo estava a ser decepado pelas foices nos canaviais. O sangue era a garapa que enchia os tanques e os deixavam exangues.
Quando Augusto foi eleito para o conselho de educação as pessoas disseram que ele serviria apenas para dissimular uma suposta democracia: seria apenas um mangalarga a chafurdar numa sala de aula. Porém, ele entendia que sua responsabilidade ia além de simplesmente se preocupar com seus filhos. Ele que sempre acreditou na ladainha secular sobre a eficácia da educação, depositaria toda a confiança no processo. As burocracias públicas não estavam bem claras para ele. Não entendia o implexo dos regulamentos, mas sabia que deviam ser acatados. Via que a escola ainda carecia de complementos estruturais. Sabia que para uma futura geração, começando por seus filhos, era necessário um modelo inovador e consistente de ensino. Estava fascinado pela Nicolau Maquiavel, sabendo que seus filhos não seriam impedidos de frequentá-la. “A educação é a única salvação, por mais perdidos que se encontrem os homens”: essa máxima ortodoxa estava impregnada em sua mente. O nome charmoso, a fachada imponente e os professores bem preparados eram fatores que contribuíam para que a instituição se tornasse atraente. Estava evidente que a nova geração necessitava de instruções com conteúdos científicos e recursos tecnológicos, em instalações modernas, regidas por ideias revolucionárias. A Nicolau Maquiavel reunia todos os atributos adequados. Embora seus antepassados tivessem sido cooptados na senzala ele sabia que era de grande relevância manter a tradição que eles trouxeram de Cabinda e Oió. O fato de ele não ter sido alfabetizado no ensino metódico não o impediu de compreender certos códigos indispensáveis às boas relações humanas e para a convivência com os eventos da Natureza. Na usina cansara de ouvir: “Negro não tem que estudar”. Devia permanecer estúpido para fornecer apenas a força dos braços. Precisava apenas ser ágil e subserviente. O canavial era o povo do sertão. Cada caule de cana era um negro, um cafuzo, um mestiço cujos gemidos ecoavam pelas fímbrias da Serra da Barriga. O canavial era o mundo mestiço prestes a ser aniquilado, podado pela foice inclemente ou incinerado pelo fogo ateado pelo usineiro. Seus corpos seriam atirados na moenda. Seus ossos vão ser triturados e vão virar garapa, o sangue derramado em torrentes para irrigar os dutos do capital acumulado.

A construção da Nicolau Maquiavel respeitava os padrões atuais, mas necessitava de algumas ampliações. Não estava equipada com quadra de esportes, por exemplo. Os professores de educação física utilizavam o terreno dos fundos para instruir os alunos. No local havia traves de ferro e redes de náilon, doado por um vereador. Uma grama nativa fazia dali um campo quase perfeito de futebol.

Jaguar observava sisudo o diálogo entre Augusto e Petrúcio. De pé, a meia distância, ele não se intrometeu. Voltou a se aproximar da multidão que travava uma discussão acalorada. Uns concordavam com a montagem do circo, outros sequer sabiam o que aconteceria depois de cessada a escavação, depois de tanto furar buracos. A discórdia suscitou uma forte contenda. Foi o próprio Jaguar quem interferiu, evitando que se travasse um enfrentamento direto. Os ânimos estavam exaltados e naquelas condições qualquer impropério podia acender um estopim com resultados imprevisíveis. O terreno que se tornou o terror do bairro e motivo de polêmicas seria, afinal, utilizado para uma boa causa. As controvérsias eram, sobretudo, pela razão de muitos desejarem que o terreno fosse ocupado com uma obra pública.

Os flancos do campo eram ornados por verdejantes touceiras de capim. Ao fundo, junto ao muro da escola, havia algumas amendoeiras frondosas, ladeadas por vicejantes moitas de colonião. Acontecimentos infaustos se tornaram rotina. Maus elementos drogados arrastavam as mocinhas para lá, estupravam-nas e provocavam mutilações ou as assassinavam. Chegavam a enterrá-las à flor da terra. Muitos jovens envolvidos com narcóticos foram mortos lá. Produtos de roubos eram ocultados para serem posteriormente recolhidos pelos criminosos. Também se praticava a venda de entorpecentes, sobretudo durante os campeonatos de futebol.

Agitadas, as pessoas não conseguiam se entender. Petrúcio Lutsky tentou furar o cerco para se safar da fogueira que estava a ser acesa. Apanhou a cuia e sorveu mais um gole de chimarrão. O mate fervente desceu derretendo a mucosa. A frieza cárpata foi incapaz de resigná-lo. Era mais de trinta anos convivendo com palhaços, atores, serviçais, gente de toda a natureza e muitos animais selvagens. O circo passou a ser seu mundo. Aprendeu a produzir o riso, muitas vezes arrancando-o dos aborrecimentos e das lágrimas. Ensinou a muitos a arte que herdara dos avós. Apesar das inconstâncias a vida devia ser conduzida com bom humor. O circo era uma escola porque nele se aprendia ou se estimulava o sorriso, atributo essencial à vida. O circo não contradizia os princípios da educação. Nele não havia espaço para a tristeza. Nele o sorriso não era imposto, era espontâneo. A plateia exporia a alma e ressuscitaria a alegria se ela estivesse morta. Depois de percorrer quase todo o Sul, a trupe chegou à cidade de São Paulo. A imensa metrópole prometia suprir as necessidades ocorridas nos últimos meses. Porém, as concorrências, especulações e burocracias o perseguiam. O guerreiro cárpato resistiria. Firmou-se teimosamente naquele campo minado. Não podemos retroceder, confidenciou à esposa. Ela tinha sido contorcionista por mais de dez anos. Depois que o corpo passou a não obedecer aos comandos ela resolveu se dedicar apenas à administração da empresa.
A multidão outra vez pôs-se ao redor do dono do circo. Ele se afastou apenas por prudência. Tinha o aval das autoridades municipais para botar o circo para funcionar. Por isso não devia temer as pessoas. Ficou absorto, apesar do burburinho. Surpreendeu-se ao sentir uma mão tocando seu ombro.

_Pode ficar frio, meu camarada. Isso aí é apenas fogo de palha. Essa gente é que nem maritaca: só faz tagarelice.

Petrúcio se voltou lentamente, tentando manter a frieza habitual. Percebendo sua apreensão o outro emendou:

_Meu nome é Marcos Freitas, mas pode me chamar de Jaguar. É como todos me conhecem. Aqui eu sou mais conhecido do que nota de um real. Mas meu valor é de um monte de notas de cem. _ Sorriu escancarado _ Sou líder comunitário e trabalho em prol das benfeitorias do bairro. De vez em quando o povo cisma, provoca algum tumulto, tentando atrapalhar o trabalho da gente, sabe? Mas ninguém vence este animal velho não.

Petrúcio encarou Jaguar. Seu temperamento dúbio ficou martelando a cabeça do dono do circo. Meia dúzia de policiais estava posicionada. Só aí ele entendeu por que a confusão tinha cessado. Um dos policiais se adiantou depois que Jaguar fez um meneio com a cabeça. Dando a entender que era o chefe da guarnição, estendeu a mão ao circense.

_Senhor... como é mesmo seu nome?

_Petrúcio. Petrúcio Lutsky.

_Pelo que vejo o senhor é o encarregado.

_Sou o proprietário do circo.

_Ah. Muito bem. Então o senhor pode continuar seu trabalho. Pode prosseguir na montagem. Ninguém vai fazer o circo pegar fogo.

Deu uma ruidosa gargalhada. E antes de rodopiar sobre o tacão do coturno e dar meia volta, ordenou que seus comandados o acompanhassem. Segredou ao ouvido do dono do circo:

_Da pro senhor descolar uns ingressos pra gente? Sabe como é que é: a gente ganha salário mixuruca e os meninos pedem que os levem ao circo. A coisa tá braba!

O povo havia dispersado. Apenas alguns teimosos ainda observavam a certa distância.

A lona havia sido esticada. As bancadas para a plateia estavam postas e o picadeiro pronto para receber os artistas. Apenas não estavam a contento as acomodações dos animais. Apesar de poucos, eles necessitavam de conforto. O maior cuidado deveria ser com o jaguar, felídeo de uma espécie rara da família das panteras. Era o maior o mais feroz animal do circo, um belo espécime. Exótico e exuberante, de uma esplêndida pelagem, cujas pintas em amarelo e preto pareciam ter sido desenhadas a pincel. Além da onça, apenas um casal de chimpanzés, dois macacos-prego, um pônei, um bode, dois gatos-do-mato e meia dúzia de aves. O circo fora muito bem equipado. Tivera muitos animais silvestres: leões, elefantes, camelos, gorilas, avestruzes. Porém, em virtude das dificuldades financeiras o empresário teve que abrir mão de parte do patrimônio. Animais e equipamentos foram vendidos por preços irrisórios. Com a tralha que restou tentaria levar em frente a companhia. Entretanto, os espetáculos não perderiam o fascínio. Com a ausência de muitos utensílios, artistas e animais ele teve que ser criativo, conseguindo improvisar e criar novas atrações. Com um alto-falante amarrado no teto de um maverick anunciava os espetáculos. Um palhaço em pernas de paus acompanhava o veículo, percorrendo as ruelas do bairro lentamente, distribuindo pirulitos às crianças e beijos despretensiosos às moças. Gago e com voz fanhosa, o locutor anunciava as atrações. Os anúncios deixavam as pessoas curiosas para conhecer o misterioso locutor. Ele escondia o rosto atrás de uma grossa máscara enquanto trafegava em marcha lenta pelas ruas. “Senhoras e senhores. Respeitável público: esta noite vocês assistirão a um belo espetáculo. O bode que devora a onça. O palhaço que peida fogo. A moça nua que vai domar a fera. O locutor misterioso...” A cada dia ele anunciava uma atração curiosa, porém, a revelação era sempre prorrogada. Os jovens assistiam a todos os espetáculos. Queriam ver a moça nua dominando a fera. Os mais velhos queriam conhecer a fisionomia do locutor misterioso. As crianças aguardavam a noite, ansiosas para assistirem ao cabrito valente enfeitado de leão devorando o feroz jaguar. Da escola eles vislumbravam joviais as cúpulas do circo e recontavam sorridentes as peripécias mágicas encenadas na noite anterior.

Petrúcio optou por manter o jaguar no circo. O animal possuía um valor não só de caráter financeiro como afetivo. Tinha por ele uma estima como se fosse um cachorro. A onça fora capturada ainda filhote por um caçador. Apreendida pelos fiscais florestais, que decidiram confiar seus cuidados ao dono do circo, mediante a paga de uma taxa. Aliás, devolver o pequeno animal à floresta naquelas condições seria condená-lo à morte.

Ao jaguar era dispensado o melhor tratamento. Era um animal disciplinado e inteligente. A despesa andava muito alta, sim. O quadro de artistas tinha sido reduzido drasticamente. O tratador dos animais teve que ser dispensado e a tarefa passou a ser repartida com Jorginho. De pequena estatura ele era consideravelmente gordo e com poucas habilidades para o picadeiro. Petrúcio devia usar as artimanhas para resolver os problemas. Além de tratador do jaguar, Jorginho foi imediatamente promovido a ator. Virou o palhaço Bolinha. Ele entrava sempre inadvertidamente em cena para forçar o riso da plateia. Suas tiradas eram tão desprovidas de hilaridade que as pessoas acabavam gargalhando da falta de graça.

Outros estorvos rondavam a empresa de Petrúcio. Depois de conseguir permissão da prefeitura para estender a lona nos fundos da Nicolau Maquiavel as resistências persistiram. Embora temeroso, ele decidiu que não desistiria. Tinha pretensões econômicas e percebeu que o bairro era um rico filão. Conseguiria uma gorda bilheteria e sairia do vermelho.

A aventura lembrava os antepassados. O avô havia imigrado da Ucrânia. Na década de 1940, ainda moço, foi preciso fugir do totalitarismo stalinista. Conseguiu furar o cerco da cortina de ferro. Aventurou-se perigosamente até se desvencilhar das garras afiadas de Iossif Stalin. Aleksandr Lutsky empreendeu uma gloriosa porfia, arrancando a esposa e os quatro filhos das armadilhas do tirano que se dizia o melhor exemplo de socialismo. Penetrou na Polônia ainda destroçada, atravessou a Alemanha que arquejava sob os abalos da grande guerra. Ao alcançar as vagas altaneiras do fabuloso Atlântico pôde dar adeus a uma Europa que se encontrava em frangalhos e prestes a aniquilar toda a sua gente. Nem parecia aquela deusa formosa que um dia, por descuido, se lançara ao brumoso Mar Egeu e fora salva por um herói grego. Dali em diante os Lutsky respirariam aliviados. O patriarca escolheu para viver os distantes trópicos. O mundo situado abaixo da linha do equador sempre foi para ele um lugar lendário. Tinha ouvido falar sobre as terras cheias de venturas e oportunidades. O navio fez uma escala na América do Norte, mas ele decidiu não desembarcar, como fizeram outros fugitivos europeus. O navio recolheu as âncoras e as chaminés soltaram uma baforada de fumaça negra, avisando que não havia mais tempo para retroceder. Outra vez um adeus e a ansiedade de chegar ao local onde seria sua nova pátria. As livres relações comerciais permitiram um rápido progresso. Já não era perseguido como nas terras russas onde todos eram sufocados por Iossif, cuja nação ele considerava um latifúndio seu. Abriu os olhos cansados, viu-se diante de uma extensa floresta, ora com araucárias altas, ora com prados verdejantes. Era próximo às escarpas da Serra Geral que desembarcavam a maioria dos estrangeiros oriundos de regiões setentrionais. Embora se sentindo um peixe fora d’água, estava aliviado. Virou-se em torno do próprio corpo como um redemoinho e divisou as coxilhas que lembravam as reentrâncias dos Cárpatos. A esposa e os filhos continuavam intrigados se perguntando: “E agora, o que vamos fazer?”.

_Vamos reestruturar nosso pequeno circo. E levar a vida que levávamos na Ucrânia.

A esposa apenas ajeitou o lenço que lhe cingia os cabelos escorridos e assentiu com a cabeça. Resmungou:

_Deixamos nosso circo lá. Nossos equipamentos, nossos animais e um porco divertido. Ficou lá também o grande porco que ostentava um vasto bigode, alimentava-se de sangue e dominava o país com um tridente que nem o demo.

Aleksandr tirou o chapéu de feltro, massageou os cabelos afogueados e apertou os olhos azuis tentando enxergar as ocorrências em sua terra distante.

_Um dia aquele grande porco vai se afogar em sua própria lama!

Petrúcio foi educado naquele ambiente. Seu caráter se formou com base na tradição ucraniana. Herdara dos pais a profissão, a índole austera e perspicaz.

Para ele era como se tivesse vivido na Ucrânia, correndo pelas escarpas das montanhas, atuando no circo dos avós, vislumbrando as ondas do brumoso Mar Negro. Diante de todo aquele filme que se projetava em sua mente é que ele se aventurava pelo país que nasceu. Os relatos e as virtuosidades ucranianas estavam impregnados em sua personalidade. A arte circense impregnou-se em seu espírito. Além do circo o avô Aleksandr ocupara-se de atividades diversas. Tentara ser pecuarista. Iniciou criando porcos, no entanto, as condições da região não eram tão favoráveis como nos Cárpatos. Foi agricultor, comerciante, caixeiro-viajante e soldado. Aí voltou a montar o pequeno circo. Os componentes eram apenas seus familiares. Usava alguns animais que conseguia amestrar: dois cavalos, quatro ovelhas e um porco atrapalhado ao qual deu o nome de Iossif. Dizia que o nome era um demérito ao porco e não uma homenagem ao tirano russo.

O circo de Petrúcio possuía alguns animais, porém nenhum porco. Ele imaginava uma forma de prestigiar a memória do avô. Entendeu que dando continuidade à atividade circense seria já uma grande homenagem. Quando adquiriu o jaguar pensou em lhe dar o nome de Iossif. Começou a chamá-lo assim. Aquele animal tinha um instinto ferino tanto quanto o tirano. Mas à medida que a convivência se tornava mais duradoura notou que a onça possuía certa docilidade e inteligência. Sua ferocidade era inerente à natureza e podia ser trabalhada. Dependia só do tratamento e não do instinto arrogante e da vontade absoluta de destruir. Decidiu que o chamaria simplesmente jaguar. Permanecia horas junto à jaula. Por que o bicho não podia ficar fora da jaula? Todos os animais podem acarretar perigo ao homem quando não se compreende a liberdade e a privacidade. O poder ilimitado fez com que Iossif se tornasse uma fera, arrogante e cruel. Seu instinto perverso o levou a destruir as criaturas sob seu poder. Conseguiu dilacerar seus corpos e perturbar suas mentes.

O jaguar rolou preguiçoso e voltou a cochilar. Ao perceber que seu dono o observava tiranicamente levantou lentamente e se aproximou. Esticou a língua tentando lamber sua mão. Petrúcio se esquivou. “Aqui do outro lado da grade é outro mundo. Eu, Petrúcio estou num mundo. Tu, jaguar, estás em outro. Fazemos parte de dois mundos distintos”. Gostaria de saber como o jaguar via o mundo dele, como enxergava as coisas lá fora. A onça apenas rosnou, negando-se a responder. Então tentou adivinhar seus sentimentos, sua moral. Era o inverso do mundo de Iossif. Talvez o jaguar se sentisse um prisioneiro do tirano soviético. Não seria necessário perguntar mais nada. O mundo do jaguar era como o mundo deixado nos Cárpatos. Mantinha-o enclausurado para protegê-lo, diferentemente de Iossif que sujeitava seus súditos para humilhá-los.

Petrúcio emergiu dos devaneios ao ouvir Bolinha a chamá-lo.

_Tem uns homens aí querendo falar com o senhor.

_Quem são?



_Um deles é o que disse ser líder comunitário. Os outros eu não conheço.

Petrúcio se virou e viu os três homens vindo em sua direção.

_Vou tomando a liberdade de entrar. – Projetou o corpanzil em frente à estreita porta que dava acesso à jaula dos animais. Exibiu os dentes tingidos pela nicotina e estendeu a mão rechonchuda a Petrúcio. Bateu forte em seu ombro. Ele deduziu: “Se isso é modo de cumprimentar, imagina quando este homem resolve dar uma bofetada!”.

_Estava levando um papo com meu xará? – Perguntou sorrindo – Ah! Eu também quero falar com ele.

Marcos Freitas se aproximou da jaula, pondo a mão sobre a grade de ferro. O animal havia se afastado. Retornou rápido, desferindo uma forte patada. Conhecendo os hábitos do animal, Petrúcio interveio com presteza dando um puxão em Jaguar.

_Foi por pouco! – Gargalhou Jaguar. Esboçou um sorriso pálido. Os outros dois homens que o acompanhavam puseram a mão sobre o coração, visivelmente assustados. O espanto foi desfeito com um breve momento de descontração.

_Quase que vemos Jaguar ser devorado pelo jaguar – Proferiu um.

_Um animal nunca devora seu semelhante – Argumentou Marcos Freitas. Jaguar com jaguar se entendem. Não se preocupem, eu sou um homem experiente. Sou uma velha onça ardilosa. Sei que o bicho tem razão em defender seu território. Também não esperei que me apresentassem a ele, né.

Repousou o pesado corpo sobre uma banqueta, sem deixar de forçar o humor. Petrúcio estava intrigado. Demonstrando boas maneiras convidou os homens a se acomodarem na improvisada sala de visitas.

_Bom, senhor Jaguar, anh... senhor Marcos Freitas...

_Jaguar. Diga Jaguar mesmo. É como todos me conhecem e até gosto de ser chamado assim. _ E, entendendo que Petrúcio estava ansioso para saber o motivo que os trouxeram ali, adiantou-se:

_Meu caro Petrúcio Lutsky, este aqui é o professor Robson. Ele é professor de educação física da Nicolau Maquiavel. Faz parte da coordenação e é um brilhante profissional. Robson retesou-se sobre seu porte avantajado, estufou o tórax a fim de mostrá-lo mais saliente. – E este – Continuou – é o vereador Leandro Roquette, homem de ótimos préstimos no legislativo municipal. É líder do executivo na câmara. Eleito pela terceira vez vem executando excelentes trabalhos durante todas essas legislaturas. É um parlamentar atuante e está sempre pronto para atender a população. Estes dois cidadãos são pessoas de caráter imbatível. Inclusive, foram eles que se empenharam para que o circo do senhor fosse montado aqui. O vereador Leandro facilitou os trâmites junto à prefeitura, providenciando o alvará. O professor Robson empenhou-se para que fosse concretizado o que era um desejo de todos.

_Tudo bem. Eu compreendo – Veio Petrúcio – Sei, conforme foi relatado pelo senhor e por outros líderes do bairro, que havia muita polêmica a respeito deste espaço. Que, embora pertencendo ao município, não era dispensado a ele o devido cuidado. Eu estou ciente de que todos os senhores se esforçaram para que eu pudesse me estabelecer aqui. Fico plenamente agradecido. Vocês são pessoas de uma condescendência fora do comum e eu sei que sem ela eu jamais conseguiria botar minha empresa para funcionar. Tenho a convicção de que com isso estarei contribuindo com a educação da comunidade.

_Muito bem – Veio interrompê-lo Jaguar. É também disso que nós queremos falar. Estendeu a mão em direção a Robson e a Leandro. – O professor vai aproveitar a oportunidade para te fazer uma proposta. Desta vez é ele quem vai te pedir um favor.

Um metro e noventa, rosto agradável e tórax sempre mantido em proeminência, Robson ensaiou dar um passo à frente. Entreabriu os lábios, mas Jaguar se antecipou:

_O senhor sabe que a Nicolau Maquiavel não possui uma quadra para a prática de esportes. Era aqui nesta área que o professor Robson ministrava as aulas de educação física. Assim, ele vem pedir sua permissão para continuar dando aulas no mesmo local. Agora ficará dentro do teu circo.

Petrúcio abriu um raro sorriso. O vasto bigode revelou os dentes.

_Bah! Eu não preciso nem responder, tchê. É com muita satisfação que eu recebo o grande mestre Robson. Por outro lado eu nunca poderia deixar de aceitá-lo. Vocês não precisavam nem pedir.

_Não, não. Agora quem manda aqui é o senhor – Proclamou com autoridade Jaguar, passando o braço sobre o ombro do dono do circo. – Pois bem, meu irmãozão, já dava para perceber que o senhor é um gaúcho ponta firme. Aliás, até hoje não conheci gaúcho cagão.

Todos sorriram divertidos. O professor e o vereador aproximaram-se de Petrúcio. Bateram em seu ombro e apertaram sua mão.

_Não vou atrapalhar o horário dos espetáculos porque as aulas serão somente na parte da manhã e os espetáculos são à noite, não é mesmo?

Petrúcio assentiu com a cabeça ainda sorridente.

_E se for preciso eu me prontifico a ajudar na arrumação – Concluiu o professor.

_Não se preocupe. – Cortou Petrúcio. – Basta tirar os espeques que separam o picadeiro da plateia. Mas isso é muito fácil de ser recolocado. Não vai haver incômodo nenhum.

_Estou disposto a colaborar com o senhor no que mais precisar – Afirmou Leandro Roquette. Jaguar intercedeu:

_E eu, seu Petrúcio, estarei sempre por aqui. O senhor já sabe que pode contar comigo a qualquer momento.

Os três homens apertaram outra vez a mão de Petrúcio e se retiraram. O carro do vereador arrancou cantando pneu, conduzindo o trio.

CAPÍTULO DOIS


Nada. Nem o sol nem o vento e a chuva compatibilizavam-se com a área nos arredores da cidade de São Paulo. Quando havia bom humor as pessoas chamavam-na de periferia. Quando a intenção era diminuir o mérito ou enaltecer as regiões que se lhe opunham, chamava-se favela. Era uma alusão pejorativa e humilhante, desqualificando não somente o local, mas os cidadãos que lá residiam. Deflagrava-se assim um embate moralista entre os ocupantes dessas regiões e os que habitavam as áreas mais centrais. A paisagem era desoladora. As construções não revelavam qualquer estética. O bege predominava, as construções desalinhadas e de tamanhos reduzidos, davam origem a ruas estreitas e vielas. As paredes passavam anos para serem revestidas de reboco e tinta. A topografia irregular desinteressou investidores e o local se tornou acessível às pessoas de baixa renda. Frequentemente aconteciam deslizamentos e inundações, levando ao cemitério algum morador e deixando muitos outros sem abrigo. Cada família não tinha mais que cinquenta metros quadrados para montar um casebre. Era um amontoado de pessoas em choças úmidas. A rede de água era irregular e a iluminação clandestina. Para quem via de fora o bairro era tudo de ruim: esconderijo de criminosos, de traficantes de drogas, aglomerado de pessoas estúpidas e de nordestinos broncos. E tantos outros adjetivos desqualificadores. Inegavelmente, o local distante e de difícil acesso atraía indivíduos de má índole que se refugiavam depois de cometer crimes ou para praticá-los mais longe dos olhos da justiça. O serviço público estava muito aquém do satisfatório. A assistência à saúde era fragílima. A segurança pública praticamente ausente.

Foi naquele bairro que Augusto Sacramento fixou residência. Distante do sertão e das perseguições seculares era lá que ele se desvencilharia definitivamente das opressões dos usineiros. Era lá que ele consumaria a vingança pelo assassinato de sua estirpe.

Despediu-se da esposa e dos filhos, prometendo voltar para buscá-los. Subiu na carroceria de um fenemê sacolejante. Dez dias depois foi despejado debaixo de um viaduto na Baixada do Glicério.

_Agora tu pegas teu rumo que eu pego o meu – Disse o dono do caminhão. Ele tomou o saco com algumas peças de roupa, duas rapaduras e a inseparável peixeira. Olhou em volta e só viu caras estranhas, viadutos, altos edifícios e carros, muitos carros. “Co’os diabos com tanto carro!”, murmurou. Deu dois passos e um automóvel passou raspando nele em alta velocidade. “Esses pestes são muito mal educados”, resmungou. Dali em diante entenderia que não devia atravessar a rua a qualquer momento. Compreendeu que a falta de atenção contribuía com a incidência dos atropelamentos naquela cidade louca. Ninguém dava atenção aos semelhantes e sequer se olhavam no rosto - Que gente mais esquisita. Começou a andar pela calçada atulhada de pessoas, evitando atravessar a rua para não ser atropelado. Estava muito atarantado, mas sabia que não podia se deixar intimidar. Era um mestiço atrevido e intrépido. Tinha amansado burro brabo, gado arredio. Realizara trabalhos de toda natureza. Enfrentara sertanejos valentes com faca, facão, clavinote e rifle papo-amarelo. Por que não encarar uma situaçãozinha daquela? Ora, ora, se um cabra nascido e criado no meio das mais duras pelejas iria se acovardar com pouca coisa! Um sujeito nascido nas rampas da Serra da Barriga, onde os negros mais rijos lutaram contra o organizado esquema colonial não podia ter medo de munganga. Era descendente daquele povo forte e corajoso que resistiu impávido nos arraiais de Palmares. O saco jogado na cacunda e os olhos sempre atentos. Nesse vaivém ele andou por muito tempo no mesmo quarteirão até encontrar a oportunidade de seguir em frente. Também não fazia diferença se andava em círculo ou em linha reta, não tinha destino certo. Parou numa praça para descansar. Sentou-se num banco, jogou o saco no chão, tirou o chapéu de couro e meteu os dedos nos cabelos amarfanhados. Ergueu a cabeça e se deparou com um homem parado a seu lado. Ia perguntar onde podia encontrar algum emprego, mas o homem se adiantou:

_Ô meu, tem um cigarro aí?

Olhou o sujeito, desatou o nó que servia de fechadura ao saco.

_Só tem este arapiraca. É o melhor fumo.

Meteu outra vez a mão no saco e foi puxando devagar. O homem deu um salto ao ver o luzir da enorme peixeira. Correu gritando:

_Ladrão! Ladrão!

O sertanejo ainda tentou se explicar:

_É pra tu picar o fumo, seu fio da peste.

Aí viu-se cercado por quatro agentes da polícia.

_Solta a faca, cara, senão eu atiro! – Adiantou-se o chefe da guarnição com o parabelum em punho.

_Esta faca é pra cortar fumo, seu soldado.

_Soldado, não: sargento. Trate-me mais sério. Cê tá preso!

_Preso? Eu num fiz nada. Nunca pratiquei desordem, nunca matei ninguém.

_O senhor tentou assaltar um cidadão com uma arma branca. Vai querer resistir?

_Ele tem mesmo cara de mau elemento, sargento – Acusou um dos componentes da guarnição.

_Deve ser daqueles nordestinos cangaceiros – Veio outro.

O terceiro preparou-se para emitir seu parecer. O sargento o deteve com a mão levantada.

Ainda assustado com a grandiosidade da metrópole, Augusto mal conseguia entender o que estava acontecendo. Não era para cair numa ratoeira que tinha corrido da aridez do sertão. Enquanto era escoltado uma torrente de pensamentos ruins inundava sua cabeça. Pensou em não acatar a voz de prisão. Mas tranquilizou-se convencido de que os policiais logo constatariam que tudo não passava de um equívoco. Mais uma vez pensou na vingança aos usineiros. Um mal poderia conduzir a outro mal maior e mesmo tão distante do sertão ele poderia não estar ileso.

_Entra aí rápido, seu baiano estúpido – Bradou o policial graduado. Ele ainda retrucou: “Deixa de brincadeira, seu soldado”. O policial o encarou carrancudo. Empurrou-o para dentro e pediu que não o chamasse outra vez de soldado.

O céu azul tingindo a Serra da Barriga, as reentrâncias tentando abafar os gemidos e o sangue dos negros mosqueando o chão ressequido, suas costas lanhadas e as almas feridas. A luta pela conquista da liberdade suscitou nele um turbilhão de pensamentos. Seu sangue ainda não tinha sido derramado, mas sua dignidade já estava ferida. Como era sofrível a dor da humilhação. O policial o interrompeu nas reflexões.

_Tá esperando o quê, seu capiau? Entra logo. Prepara-te! O delegado vai te enquadrar por ameaça, tentativa de roubo e porte de arma branca. Cê tá fodidinho da silva!

Um homem apareceu atrás do guichê com um copo de café. Na outra mão tinha um cigarro. Esticou o pescoço para melhor visualizar as pessoas que entravam. Sorveu o café com ímpeto, deixando o copo ainda pela metade sobre uma mesinha. Começou a aspirar e expirar baforadas de fumaça sem demonstrar preocupação. As narinas transformaram-se numa chaminé. Perguntou pausadamente:

_Que é que foi desta vez, praça?

_Cadê o doutor? – Indagou o policial.

_Qual é o q.r.u., praça? – Insistiu com mais energia.

_Eu tenho um nome e uma graduação. Sou o sargento Hipólito! Parece que não sabe! Preciso apresentar um flagrante ao doutor.

_Quem vai decidir o que é flagrante é o doutor, certo, praça?

_Não me chame de praça, seu...

_Alto lá! Pode baixar a bola – Ditou altivo o escrivão – O senhor não está em seu quartel. Está numa delegacia e a autoridade aqui sou eu, na ausência do doutor delegado. Eu tenho a obrigação de saber sobre as ocorrências, principalmente quando o delegado se faz ausente.

_Eu quero apresentar a ocorrência ao doutor – Voltou esforçadamente refeito.

_Então espere. Ele deve retornar daqui a duas horas.

Augusto estava trespassado. Constrangido também por assistir a briga de duas autoridades. Entendeu que aquela discussão fazia parte de uma encrenca antiga. Coisa daquela natureza no Nordeste ele nunca tinha visto. Uma disputa daquele tipo era resolvida na base da revanche, a faca ou a bala. Se o cabra tentasse depreciar o outro a coisa fedia. Os dois se encaravam de peixeira no gogó. Ele mesmo enfrentara situações das mais complicadas. Porém percebia que no Sudeste o inimigo era muito mais oculto e capcioso, não se manifestava com clareza. No sertão quando um sujeito encrencava com outro chamava logo pra briga, assim na veneta. Quem fosse mais rápido na faca, no facão, no porrete ou na bala seria o vencedor.

Augusto olhou os presos sentados no chão atrás das grades. Um prisioneiro de dentes careados e barba crescida gritou:

_Nós vamos ter mais um companheiro. Não se esquece de trazer cigarro pra nós aqui, ô meu.

O preso falava enristando o dedo. Não sabia ele que o motivo que levou o nordestino à delegacia fora exatamente o cigarro. Augusto cerrou os dentes e fechou os olhos para reter a vontade de invadir a cela e dar uns bons murros naquele sujeito insolente.

_Daqui a pouco cê vai estar aqui dentro com a gente, mano – retornou o preso. – Quê que andou aprontando? Deve ter arrochado algum transeunte, né? Deve ter batido a carteira de algum babaca na Praça da Sé ou no Viaduto do Chá. Mas você não tem cara de larápio não. Com essa cara de baiano tá mais pra quem meteu a peixeira em alguém.

Nisso surgiu um carcereiro vindo dos fundos da delegacia. Bateu a porta com um estrondo e foi em direção ao xilindró. Empunhava um cassetete de madeira e tinha na cintura um parabelum. Ficou furioso:

_Ô Mão do Cão, se não calar eu vou quebrar os dentes que ainda te restam nessa boca imunda! Mão do Cão era freguês habitual das delegacias centrais. Era um delinquente perigoso e incorrigível. Tinha um diabo tatuado na palma da mão, por isso o apelido macabro.

O preso sorriu sem se dar por vencido. Depois de fazer a advertência o carcereiro permaneceu por alguns segundos junto à grade da cela, desferiu uma barulhenta cacetada sobre os ferros e pôs-se de frente para Augusto. Só aí o alagoano entendeu por que o agente tinha se irritado. As marcas de sono estavam acesas em seu semblante. A falação de Mão do Cão tinha interrompido seu cochilo. Os agentes de polícia tinham que trabalhar em empregos paralelos para se manterem.

_E o senhor, por que está aqui? – Quis saber o agente.

_Num sei não, meu patrão. Eu acho...

O sargento se adiantou. Outra vez o escrivão interveio.

_Pode deixar, Bandeira. Esse é um problema para o doutor resolver.

O carcereiro ainda olhou o nordestino de cima a baixo.

_Você não vai querer se meter no meio desses marginais – Admoestou.

_Ele cometeu um crime, quer dizer, dois - Insistiu o sargento.

Outra vez os pensamentos levaram Augusto a adejar para a terra natal. As franjas azuis da Serra da Barriga. A senzala onde os negros se amontoavam como porcos. Os campos de serviços forçados sem decreto. Os pelourinhos onde os castigos eram constantes e cruéis. A imensidão que se perdia de vista e se escondia no horizonte tinha sido palco de sangrentas batalhas. Durante décadas seus antepassados tinham tentado se defender do jugo e da perseguição dos colonizadores, dos donos de engenhos que teimavam em mantê-los como burros de carga. Os vales e tabuleiros outrora ocupados pelas extensas glebas e dominados por latifundiários davam lugar às usinas e a cidadelas. O domínio capitalista e opressor permanecia. Os contrafortes, extensos e vicejantes, serviram de abrigo aos negros que não se sujeitaram à escravização. Pouca diferença havia entre a atualidade e a época dos quilombos. Em volta das usinas se aglomeravam centenas de famílias. Sem ter um palmo de terra para cultivar vendiam a preços ínfimos a força dos braços, enriquecendo o patrão, debilitando a si. Os remanescentes dos negros um dia tiveram aquelas terras para cultivar e se refugiarem. Sufocados foram perdendo a resistência, tornando-se débeis, impotentes perante a prepotência dos coronéis. Quando os latifundiários lhes permitiam plantar era num trecho pequeno e de terra inculta. Quando a pequena roça dava frutos os patrões soltavam o gado para se alimentar do pouco que devia alimentar seus filhos. Numa dependência que não conseguiam entender, amontoava-se uma dívida que os forçava a trabalhar ininterruptamente. Os débitos nunca eram quitados.

O sonho da cidade grande o tinha traído. Via na cadeia o retrato da desgraça humana, a verdadeira degradação da alma. Homens sem caráter, sem sonho e sem pudor, reduzidos à boçalidade. Agora ele entendia o que era a verdadeira desgraça humana.

_Isso não é vida – Confidenciou Augusto com a esposa – Eu vou-me embora pra São Paulo e só volto aqui para levar tu e os meninos. Não vou esperar até sermos todos assassinados. Desforrar uma mácula não é cometer um crime. Mas sei que não posso mais ficar aqui. Nem eu nem minha família podemos ficar a penar.

A esposa encharcou os olhos. Não podia contestar a opinião do homem que escolheu para jurar companheirismo e amor eterno perante um altar sagrado. Tampouco devia impedi-lo de si safar das garras afiadas de um uma fera irada. Foi tratar de matar uma das galinhas mais gordas para fazer o frito que o alimentaria durante a longa viagem. Desejou boa sorte, enquanto ele se agasalhava na carroceria de um velho fenemê.

As lágrimas ameaçaram arrebentar as pálpebras. Ele foi mais forte. “Ochente, eu sou é homem. Homem que é homem num chora por nada nesse mundo”. Tinha crescido ouvindo esse bordão. Certo ou errado ele jamais se dera chance de analisar. Apenas achou que chorar era se acovardar e aceitar o infortúnio. E o homem não devia se entregar espontaneamente à desdita. Zumbi se revoltou com a humilhação a que foi submetida toda a sua linhagem. E apesar pusilanimidade de muitos dos seus ele jamais desistiu de reconquistar a reputação da etnia iorubá. Uma nova nação floresceria naquele lugar não fosse o avassalamento perpetrado pelo atroz colonizador.

O sangue de Zumbi corria nas veias de Augusto. Sua reação ao furar o cerco dos usineiros não foi sinal de covardia, mas de defesa. Tentar se manter como gente não era crime, era um dever, repetia em solilóquio. Desse direito ele jamais abriria mão.

Augusto já estava desiludido da liberdade quando viu entrar um homem alto, louro, de camisa social e gravata. Segurava o paletó pelo colarinho. Naquele dia fazia calor na pauliceia e seu rosto ruborizado estava salpicado de suor.

_Boa tarde, doutor – Cumprimentou o sargento, surpreendido pela chegada inadvertida do titular da delegacia. O delegado respondeu sem virar o rosto. Dirigiu-se a sua sala, apressado. O escrivão foi até a entrada do corredor para se certificar da chegada do chefe.

_Diga ao doutor que tenho uma ocorrência – Vociferou cheio de si o sargento.

_Calma, praça. O homem nem acabou de chegar.

O sargento ficou carrancudo, mas não retrucou.

_Alguma ocorrência pendente, Barricheli? _ Requisitou o delegado.

O escrivão se levantou com um cigarro e um copo de café nas mãos. O barulho que vinha da rua chamou a atenção de todos e estorvou a resposta.

Veemente, um policial adentrou as dependências da delegacia acompanhado por sua guarnição. Eles traziam algemado o suposto meliante.

_Doutor. Prendemos este ladrão em flagrante!

_Que foi que houve? – Interveio tranquilo o escrivão.

_Este elemento assaltou e feriu um transeunte.

_Cadê a vítima? – Dessa vez foi o delegado quem quis saber, sorvia o café oferecido pelo escrivão. O policial virou-se, olhando em direção à porta.

O soldado Ribeiro deu meia-volta, saiu até a varanda e fez um aceno para as pessoas que se encontravam a certa distância.

O sargento Hipólito gritou de sobressaltado:

_Soldado Ribeiro!

O soldado fez um volteio rápido e se colocou em posição de sentido frente a seu superior.

_Venho apresentar uma ocorrência, senhor. Este homem foi pego cometendo um delito contra aquelas pessoas – Disse apontando para as vítimas.

Do fundo do corredor Augusto também ficou perplexo. O homem que os dois policiais traziam preso era o mesmo que o acusara de querer roubá-lo.

Com a tranquilidade de um policial experimentado o delegado fez um gesto para o escrivão.

_Barricheli, parece que temos uma ocorrência anterior a esta, não é?

_Sim, doutor. O praça ali diz que tem uma ocorrência para apresentar.

O delegado pôs os cotovelos sobre o balcão e solicitou que o sargento se aproximasse.

_Qual é sua ocorrência?

_Doutor, aquele homem ali tentou assaltar um transeunte. No momento em que o cidadão passava pela praça ele ameaçou esfaqueá-lo.

_Quem é a vítima?

_É este aqui – Disse tocando o ombro do homem conduzido pelo soldado Ribeiro.

_E o senhor? Qual é a sua ocorrência, soldado Ribeiro?

_É roubo e agressão, doutor. Este homem assaltou estas três pessoas e feriu a uma delas com um punhal.

O delegado estalou os olhos. O homem, objeto da primeira ocorrência, figurava como vítima e como indiciado. Passou a mão sobre os cabelos lisos, tentando entender a confusão. Começou a interrogar as vítimas de roubo e agressão conduzidas pelo soldado Ribeiro. Confirmou-se que uma pessoa foi ferida com um punhal e três outras foram vítimas de roubo. O flagrante delito foi elaborado. Imediatamente o indiciado foi colocado no cárcere. O sujeito era reincidente, com passagem por várias delegacias da região.

_Sim, sargento. Agora vamos a sua ocorrência. Relate o que ocorreu.

Atarantado Hipólito não sabia como iniciar. A suposta vítima de sua ocorrência tinha se transformado em réu. O delegado mandou que o escrivão elaborasse um termo de simulação de ocorrência, por entender que a má condução de procedimentos atrapalhava o andamento dos trabalhos policiais. Antes de se retirar Hipólito ainda tentou confundir o delegado, solicitando que ele procedesse numa investigação sobre Augusto. Disse que ele podia ter cometido algum crime no Nordeste e podia estar fugindo do flagrante. O titular da delegacia foi interrogar Augusto.

_De onde é o senhor?

_De Alagoas. Acabo de chegar de lá.

_Que veio fazer aqui?

O interrogado pigarreou, começou a articular palavras desconexas, mas se recuperou.

_Eu? Eu vim procurar emprego.

_O senhor está tentando me enrolar? Querendo esconder alguma coisa?

_Não, não... não, senhor. Não tou querendo esconder nada.

_Não tente enganar a polícia. Se tentar vai se dar mal.

O delegado encarou o nordestino com firmeza. Augusto se levantou, soltou os braços e olhou nos olhos do titular da delegacia.

-Nunca tentei enrolar ninguém, seu doutô. Sou um homem da roça, pobre e decente.

_Tá bom. Então vamos continuar. Que tipo de emprego o senhor pretende arranjar?

Outra vez Augusto oscilou, mas conseguiu se recuperar com rapidez.

_Qualquer coisa... É porque lá a vida é dura. Lá a gente trabalha feito escravo.

_Em que o senhor trabalhava lá?

_No canavial, na Usina. Sabe? Mas já fiz de tudo. Lá eu era obrigado a trabalhar na Usina, porque eu morava nas terras do usineiro.

_E só por que morava nas terras do lado da Usina tinha que trabalhar lá?

_Todos que moram lá são obrigados a trabalhar na Usina e ganhar o tanto que o usineiro quer pagar.

_ Quais eram suas ocupações na Usina?

_Tudo. Tanger bois, cortar cana, prensar cana, capinar... Tudo...

_O senhor estudou?

_Estudei apenas alguns meses.

_Sabe ler e escrever?

_Não. A escola da Usina não é para ensinar.

O delegado tomou um susto.

_Como assim? Todas as escolas são para ensinar.

_Não. Aquela de lá não é. Ela é só para os filhos dos agregados e empregados da Usina e é para não ensinar. O usineiro dizia que trabalhador e filho de trabalhador não precisam aprender a ler e a escrever. Precisam é ter coragem e força para cortar e capinar cana. Os filhos dos trabalhadores precisam estar vivos apenas para auxiliar nos serviços da Usina, para outras atividades devem estar mortos. É um prejuízo investir em educação de filhos de empregados. Escola de lá é só para manter a aparência e não deixar escapar a verba governamental.

Estarrecido o delegado deu por encerrada a entrevista. Pretendia se alongar mais um pouco para avaliar a conduta do sertanejo. Tinha ouvido falar de episódios horripilantes envolvendo sertanejos oprimidos pela seca e pela exploração de patrões desumanos. Concluiu que Augusto era uma vítima das calamidades que assolavam as regiões inóspitas do país. Entendendo que não podia manter o homem sob custódia, o delegado permitiu que ele pernoitasse nas dependências da delegacia. Seria fácil acatar a fútil denúncia do sargento Hipólito e manter aquele homem tosco na cadeia, mas sabia que não era correto, nem justo fazê-lo. Ainda se preocupou em encaminhá-lo a uma agência de empregos.

Dois dias depois Augusto estava trabalhando numa construção na região do Anhangabaú. Embora desolado pelos últimos acontecimentos não se deixou esmorecer. Uma treliche armada num vagão improvisado o acomodaria durante as noites frias, entre mais de duzentos operários. A ausência da esposa e a saudade dos filhos perturbava seu espírito, mas nem isso foi capaz de aviltar sua honra. Incansável, trabalhava até dezesseis horas por dia. Para Alagoas não mais voltaria. Era na metrópole paulistana que ele reconstruiria sua vida. Tinha a convicção que devia amparar seus rebentos como a avestruz mantém os filhotes sob as asas, como os leões e as hienas cuidam de suas pequenas crias. Conservaria os bons ideais e a tradição iorubá. Ao trazer os filhos para junto de si faria com que eles tivessem moradia digna e uma educação de qualidade. Não os queria mortos, conforme tinha decretado o usineiro. Sua geração não seria vítima da crueldade. Tornar-se-iam cidadãos soberanos, decentes e não escravos, como ele e seus ascendentes o foram. Com a economia acumulada durante vários meses de serão conseguiu comprar um pedacinho de terra afastado do centro da cidade. Construiu um barraco e mandou que viesse a família. A esposa e os filhos, bens eternos de quem ele jurou nunca mais se separar, vieram renovar o espírito. Camila, a caçula vinha revirar seus bolsos em busca de balinhas, enquanto ele alisava seus cabelos afogueados e tirava da mochila um saquinho de pirulitos. Distante das agruras do sertão, da opressão da usina, do tratamento desumano dos senhores de engenho e junto da esposa e dos filhos ele pode renovar a alma. Agora tinha um cantinho para abrigar sua prole. Queria ver seus filhos a caminho da escola, num uniforme azul e branco. Os sapatos luzidios e a mochila cheia de livros. Via-os estudando lições, aprendendo teoremas, colando graus, recebendo diplomas e defendendo teses. Que magnífico! Não era um sonho, era um anseio veemente, uma projeção real.

Por muito tempo, numa simplicidade pueril, Augusto acreditou na boa intenção dos usineiros. Os homens que louvavam os benefícios do processo educativo suscitavam esperanças para o povo modesto e seus filhos. Porém não conseguia entender ao ver os filhos dos abastados ainda jovens tornando-se doutores em medicina, em letras, em leis e outras carreiras ilustres, ditadores de ordens e muitas vezes administrando municípios ou se tornando membros de assembléias legislativas. Os filhos dos agregados nunca se destacavam ou sequer se safavam da ignorância. Não entendia que o processo era multifacetado e delimitado.



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