A “grandeza” de Maria de Nazaré



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A “grandeza” de Maria de Nazaré
Igor Damo
A devoção à Maria no meio popular é inegável. Prova-nos as diferentes formas em que homens e mulheres, nas comunidades cristãs, dirigem-se a ela. Isso é um traço importante da religiosidade do povo. Por vezes, se não houver cuidado, alguns exageros podem ocorrer em meio a abundancia devocional. Obviamente, a compreensão presente sobre Maria, no imaginário popular, é que caracteriza o modo com que as pessoas se dirigem a Ela. Isso expressa uma dinâmica, na qual é importante e merece respeito. Com isso, buscamos contribuir, com esse pequeno escrito, para uma devoção sempre mais lúcida, pois qual é realmente o significado de Maria à fé da comunidade? Às vezes, sabe-se pouco sobre Maria e criamos uma imagem de anjo: Maria bela, pura, virgem, rainha, mãezinha do céu. Assim, nosso objetivo é estar iluminando a devoção mariana, olhando para sua humanidade, à luz da leitura do evangelho de Lucas1.


  1. Maria no evangelho de Lucas

O evangelho de Lucas, escrito por volta do 80-90 a.C, é um belo escrito costurado ao evangelho de Marcos (ano 60 a.C). Lucas junta muitos retalhos da pregação de Jesus, como o Sermão da Montanha (Lc 6). Escreve diversas parábolas, enfocando a misericórdia de Deus (Lc 15). Dá destaque à preferência de Deus pelos pobres (Lc 4, 16-22; 10, 21). Preocupa-se com a salvação da vida destacando a necessidade de cultivar a justiça (Lc 13, 22-27). Faz ligação com as esperanças judaicas e a salvação cristã, estendendo a todos os povos (At 1,8). Quer mostrar o amor do Pai, por meio da presença de Jesus e da luz da ação do Espírito Santo. E exalta a atuação da mulher, especialmente de Maria (Lc 1, 26-38; 1,46-55; Lc 2, 4-5; 2, 7; 2, 41-51).

O evangelho de Lucas é o que mais fala de Maria. Ele dá um acento todo especial a ela procurando afirmar sua grandeza para além de sua beleza, pureza, virgindade ou mesmo de sua maternidade biológica de Jesus 2. “Este evangelista é o que nos oferece o maior número de elementos para uma teologia marial”3. É por meio da humanidade profunda de Maria, portanto, podemos descobrir as matizes do evangelho. Com efeito, em Lucas, no evangelho da infância (Lc 1–2), toda ação se dirige para a Palavra. Deus fala por meio de personagens enviadas voltadas a Jesus e sua Palavra. E Maria, nessa perspectiva, é apresentada como mulher que ouve, medita em seu intimo tudo o que se refere a Jesus (Lc 1,19; 2,51).

Por meio de Lucas firmamos a convicção nessa mulher que tem lugar impar na história da salvação e que falou de Deus. Vamos fazer isso a partir do cântico do Magnificat (Lc 1,33-55) para tirarmos alguns ensinamentos de Lucas sobre Maria. Interessa-nos fazer memória desse cântico, de modo especial, dos caminhos que tomam a linguagem em falar sobre Deus, e o caminho de Maria como primeira discípula de Jesus4.



1.1 O Magnificat
Maria não é uma pessoa isolada, é filha de um povo marcado por sofrimentos, dores e esperanças. Ela é representante de seu povo (hoje diríamos de toda a humanidade) porque aprendeu, assimilou e viveu a espiritualidade que distinguia os pobres5, os insignificantes, dos olhos da sociedade, dos poderosos6. Assim, Maria é aquela que visita e traz a alegria aos pequenos e é proclamada “bendita entre as mulheres” (Lc 1,39-44).

Lucas dá ênfase a essa característica de Maria, chegando a compará-la com Israel. Seu evangelho está recheado de textos bíblicos que anunciam o tema do Reino, centro da pregação de Jesus. De certa forma, Lucas procura vincular o tema do Reino, ao citar Maria7. Isso fica claro, a partir do magnificat. As observações, hoje, a respeito da autoria desse hino são variadas. Em primeiro lugar, por o Magnificat se inspirar no cântico de Ana (1Sm 2, 1-10), mãe de Samuel, alguns dizem que o hino está mais adaptado para Isabel, apesar da idéia de serva se adaptar melhor em Maria. Em segundo lugar, os estudiosos afirmam que o Magnificat não foi composto por Maria. Em terceiro lugar, acredita-se que o hino foi composto pelas primeiras comunidades. Lucas, contudo, o atribui a Maria por ela expressar sentimentos e atitudes de compromisso, esperança e fidelidade no Poder de Deus8.

Lucas, por meio de alguns versículos, então, “faz Maria falar” no momento em que vigorava a esperança na presença de Deus na terra da Palestina. Nessa perspectiva o cântico torna-se a expressão qualitativa da fé de Maria e de seu povo9.
[...] Maria empresta sua voz a todos aqueles que esperam o Redentor. Vibrante eco da anunciação decorrente da expressão simplificada de Isabel – ‘bem aventurada aquela que creu’ – estende-se por uma gama de conceitos que versam sobre Deus, sobre Israel, sobre toda humanidade e sobre ela mesma [...] Deus exaltado no cântico é o Deus de Israel, que rompe fronteira [...] Isso não é algo abstrato; inserido nas realidades históricas concretas, dá prioridade aos oprimidos, aos humilhados, altera e inverte as situações injustas criadas por aqueles que pregam a lei de acordo com o seu bel prazer. O restabelecimento da justiça põe em jogo o nome Santo de Deus10.
Esta situação engrandece o cântico que é luz e nos ajuda a aproximar de Maria. É importante dizer que em seu ponto central está o reconhecimento da “santidade de Deus” (Lc 1, 49). Portanto, como nossa intenção não é comentar o magnificat, mas refletir o falar de Maria sobre Deus, primeiramente, e após, o seu caminho de seguimento, fiquemos atentos, pois a qualidade de Maria está em sua fé em dizer “Seu nome é Santo”. Essa fé a desinstala, pondo-a no seguimento.


      1. O subversivo louvor

A linguagem subversiva cabe no cântico. Jesus foi chamado de subversivo por blasfemar contra o poder Romano (Lc 10-11). Toda denúncia e perturbação contra o império eram consideradas ofensa por menosprezar o poder. O magnificat, nesse sentido, tem o anúncio da salvação ao mundo em clima de esperança na vitória do bem, por meio de Jesus. Assim, Maria disse:


Minha engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus meu Salvador, porque olhou para humilhação de sua serva. Sim! Doravante as gerações todas me chamarão de bem –aventurada, pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o temem. Agiu com a força de seu braço. Dispersou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando de sua misericórdia conforme prometera a nossos pais em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre! (Lc 1,46 -55)
A subversidade no magnificat existe em Maria. Ela aparece como mulher de fé, alegre e humilde, louvando a Deus. Depois, Maria assume ser profetisa anunciando o Reino de Deus contrapondo-se à ordem vigente, denunciando a dispersão dos soberbos, o destronamento dos poderosos e o esvaziamento das mãos dos ricos (Lc 1, 51-53). E ainda recorda a ação de Deus e sua justiça na história. A partir das promessas de Abraão ela reafirma com humildade que Deus vê a opressão do seu povo e desce para libertá-lo (Ex 3,7)11.

Assim, o cântico se torna subversivo: a alegria de Maria é a expressão de felicidade dos pobres e sua humildade não é nem um pouco de ingenuidade e alienação da fé. Para Lucas é sinal claro da presença do Messias em seu ventre. É por isso que ocorre do fundo da alma (em grego psique), no sentimento mais profundo do “seu eu”, a exaltação do Senhor. Esse júbilo dá à Maria o elemento central do evangelho: o anúncio da Boa Nova aos pobres. Assim, Maria reconhece o Poder de Deus como necessário para combater o poder dos poderosos.




      1. Santo é seu nome”: Maria e sua preferência por Deus

O reconhecimento de Deus como Santo poderoso, é citado varias vezes no Antigo Testamento. O Deuteronômio afirma: Deus “viu nossa miséria, nosso sofrimento e nossa opressão” (Dt 26, 7). Por esta razão, Javé, com braço forte libertou-os da escravidão do Egito estabelecendo uma aliança. Essa experiência é fundante para compreender a vinda do Messias. Por que ela é, também, manifestação do Poder de Deus.

Como para Lucas, prover novas relações sociais, o fim da pobreza e da escravidão, é sinal do Reino de Deus, anúncio da Boa Nova, não é de estranhar a mensagem que se faz central no cântico de Maria sobre seu falar de Deus: “Por que o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é Santo” (Lc 1, 49). De fato, a experiência libertadora da saída do Egito (Ex 10, 2), constitui, entre tantos, as grandes maravilhas operadas por Deus em seu favor. Isso sempre serviu de arquétipo para Israel. E sem ser diferente, Maria releu isso ao estar cheia do Espírito Santo (Lc 1, 35).

Assim, Maria exalta a Deus. Na sua pobreza, habitada pelo Filho de Deus, Maria descobriu a exaltação esperada de todo o pequenino resto de Israel (Sf 2,12-13)12. Fez isso, não só engrandecendo ao Deus da história, do êxodo. Ela vê a seu filho como o anjo lhe havia dito: “O Santo que vai nascer de você será chamado filho de Deus” (Lc 1, 35).

Ao falar de Deus, chamando-o de Santo, novamente fica clara a ação de Deus em prol de Israel que renova a aliança. “Confirmando a aliança para sempre seu nome é Santo” (Sl 111,9). Nessa mesma ótica, como é costume na devoção católica, hoje, a maternidade de Maria é importante para renovação da aliança. Mas, contudo, mais que o fato de estar grávida, é significativo o sentido novo, a partir de Jesus, que Maria dá à sua vida. Ela se descobre em comunhão profunda com o Senhor. Vê sua grandeza no poder de destruir quem humilha os fracos. Vê sua grandeza na misericórdia de Deus com os humilhados, que segundo o texto, são os que têm fome, porque os pobres são designados pelo evangelista na sua carência fundamental.

Essa palavra de Maria sobre Deus nos faz vê-la a partir de Jesus. Isso significa luz à devoção mariana atual elecando o elemento do seguimento, além da beleza, da virgindade, da mãezinha do céu como, às vezes, a concebemos.

Lucas mostra, portanto, que no poder e na misericórdia está a santidade de Deus. A contemplação que Maria faz da santidade divina, porém, não é fuga da realidade da vida. Lucas intervém, pela boca de Maria, querendo mostrar a que Jesus ela tinha fé. E, ao mesmo tempo, quer caracterizar a mulher pobre de Nazaré, como a serva que anuncia: ruptura de vida orgulhosa (Lc 1, 51), ruptura do jogo político institucional (Lc 1, 52), ruptura no âmbito econômico da produção para desenvolver a partilha (Lc 1, 53). Daí nasce o discipulado.


  1. Maria discípula

Falar de Maria como discípula, seguidora de Jesus, pode soar um pouco estranho a quem, com a tradição teológica, está acostumado a compreender a relação entre Maria e Jesus pelo eixo da maternidade. Por varias vezes a maternidade divina, de fato, foi tida como fundamental a mariologia. E na história da Igreja vigora muitas imagens de Maria em que atingiu o imaginário popular, desde


[...] a segunda Eva na Igreja – pós-apostólico; como perfeita monja egípcia ou modelo de ascetismo no período constantiniano. Na Idade Média era saudada com imagens cavalheirescas como Nossa Senhora (Dama), símbolo do amor casto. O renascimento enfatizou o amor de Maria, como mãe espiritual de todos os homens (ser humano). Nesse século, se estudou com rigor qual o principio fundamental da mariologia, o que levou a exaltar Maria como Medianeira de todas as graças, corredentora, Mãe da Igreja13.
No entanto, o estudo à luz do evangelho, dá ênfase à chave do discipulado de Maria. A chave da maternidade passa, até´ser um modelo perigoso, em especial, às feministas. Maria, assim, pode significar a idealização da maternidade da mulher, em detrimento da mulher perfeita. Também por ser virgem e mãe, a junção das duas torna Maria inimitável. Isso pode levar a mulher a uma frustração14.

Tal compreensão sobre Maria, à luz do evangelho, tem sido a grande contribuição à devoção mariana. Ao enfatizar o discipulado de Maria diminui-se o risco de se cair em exageros na piedade devocial. O evangelho de Lucas destaca Maria mulher que pratica a Palavra (Lc 8, 21). Daí a importância de em vez de acentuar como dimensão mais básica o maximalismo, acentuar o discipulado, por que Maria transforma a realidade, esforça-se e se compromete na sua humanidade, com a vida.

Nessa perspectiva, olhar para Maria pela ótica do discipulado é olhar à prática gratuita e de apoio a Deus no sonho de construir o Reino. Maria realmente aparece, nesse sentido, sujeita na fé, sendo sinal visível de fé e esperança no projeto de seu Filho Jesus, fazendo parte da tradição profético-messiânica na luta por uma nova sociedade.
2.1 Características básicas de Maria discípula
Lucas pinta a figura de Maria com qualidade. Caracteriza seu seguimento a Jesus com traços básicos de uma discípula: ouve com fé a Palavra, guarda no coração e a põe em prática.


  1. Maria ouve a Palavra

A atitude de ouvir tem dois pontos essenciais: primeiro Maria prova que tinha fé em Jesus antes mesmo de estar grávida, por que ela prepara o nascimento do Filho. Segundo, mostra a vocação de Maria na resposta gratuita. A partir da anunciação (Lc 1, 26-38) ela iniciou um caminho de peregrinação, pois escutou e acolheu o apelo de Deus “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua Palavra” (Lc 1, 37). Essa vocação de Maria é espelho à nossa vocação cristã.




  1. Maria guarda no coração a Palavra

Maria tinha uma espiritualidade, um jeito de ser que brotava do coração. Lucas diz que por duas vezes, Maria guarda a Palavra. A primeira vez, após o nascimento do Messias. (Lc 2,19). Maria está contente e amamenta Jesus que está enrolado em um pano na estrebaria. Na segunda vez, o menino é adolescente. No templo, ouve e questiona. Diz a José e a Maria: “não sabeis que eu devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2, 46). Maria, mesmo sem entender pensa, reflete, medita, procura sentido guardando tudo no coração. Isso deu a ela a possibilidade de interpretar sua história à luz de Deus, aprendendo a ser discípula.




  1. Maria põe em prática a Palavra

O mérito de Maria está em ouvir, guardar e concretizar a Palavra. O fato de Maria ser mãe é conseqüência de sua fé e da disponibilidade de ajudar a realizar o sonho de Deus. Assim, “Bendito é o fruto de teu ventre”, significa que sua fé a torna fértil. A prática da Palavra é visível, na sua visita a Israel. Maria vai longe levar Jesus para os outros. Desde já se torna missionária, indo partilhar com sua amiga pobre a “graça divina”. Justamente sem a fé e a prática missionária, de nada adiantaria Maria – ter sido mãe do Salvador.


2.2 Maria, peregrina na fé
Esses três pontos, de fato, ajudam Maria a ser discípula. Alguém de nós, talvez, pense que Maria nasceu pronta, com fé exuberante e formada. Mas, segundo o que vemos, ela tem lugar de destaque no discipulado por sua fé de busca. E faz parte de sua experiência de fé arriscar-se. Maria arriscou-se em dizer seu sim. Ela sabia que Jesus seria sinal de contradição ao mundo e até a ela sendo como uma espada que ultrapassaria sua alma (Lc 2, 34). Por isso, seu desafio foi manter-se como discípula, sem se desviar do caminho.

Resumidamente, cabe uma reflexão à luz do que diz o Magnificat. Os verbos empregados, tais como agiu, dispersou, depôs, despediu, socorreu a fez entender que Deus, por meio de Jesus, se tornava Palavra viva de prática libertadora contra uma prática de poderosos que esvaziava, até então, o potencial da eficácia e do serviço gratuito dos pobres ao Deus verdadeiro15.

Vivendo ao lado de Jesus, Maria foi ficando maravilhada. Ela, como qualquer outra mulher de sua época, fez a experiência fascinante de maternidade biológico-afetiva. Mas, Maria foi fazendo, também, experiência de mãe diferente de outras mães de seu tempo. Essa experiência lhe foi exigindo discernimento e um peregrinar na fé. “Jesus crescia em sabedoria, em estatura em graça, diante de Deus e diante dos homens” (Lc 2, 52).

Aceitar essa posição de liberdade de Jesus foi duro. Jesus, seu filho, dizendo-se Filho de Deus, lhe escapava a educação, ao espaço da família, para anunciar a Palavra. Isso foi uma “prova de fogo”, um constante educar-se para ir aceitando a vontade de seu filho e, naquela altura, do próprio Deus (Lc 2, 49-50).

Assim, Maria foi sendo a primeira discípula, aprendendo com Jesus. Teve que passar pelo conflito, fazer mudança de mentalidade e se abrir à novidade radical que ele trazia. Nessa postura, com seu amor de mãe, tornou-se discípula16. E o conjunto dos evangelhos não deixa dúvida que a maternidade de Maria não decorre da relação biológica. Lucas mostra bem isso na triplece postura de escutar, guardar e praticar a Palavra. Seu carinho, sua beleza, sua pureza... não provém de um privilégio de família, mas do seguimento a Jesus e a causa do Reino17. Jesus não só lhe trazia novo conhecimento, novo jeito de ser mulher como mãe, mas lhe ensinou a contemplar a vida com outros olhos, os olhos do Pai, do seu Plano e do Reino de Deus (Lc 12, 30). Por isso a grandiosidade de Maria ultrapassa a dimensão materna. Ela despojou-se de seu poder de mãe para seguir seu filho como discípula inteiramente ligada com a Trindade, a pessoa de Jesus e a comunidade.
3.O significado de Maria à fé
Lucas nos anuncia Maria como mulher de fé, humana e preocupada com a vida. Maria não é nenhum anjo que esteve acima de seu povo por ter jestado o projeto novo. Caminhou lada a lado de seu filho se sentido maravilhada em ser a pobre destinatária dos privilégios das promessas do Reino. A Maria demonstrada por Lucas, como pessoa de fé, é exemplo de vida cristã comprometida. É de considerar seu acreditar que a realidade humana não era habitada pelo sofrimento, mas pela comunhão de todas as pessoas em comunidade18.

À luz do Magnificat narrado por Lucas, nossa devoção tem sentido. Lucas escreve o cântico, sem desconsiderar a realidade das massas empobrecidas. Esse ensinamento sobre Maria, como o evangelho aponta, fala da mulher de Nazaré amante dos pobres, dos maltrapidos, dos maltratados. Hoje, mais do que nunca, tem-se que levar isso em consideração. Para muitos devotos, Maria é aquela que enxuga as lágrimas, recolhe e aquece com amor, intervindo nas doloridas feridas provocadas pelo sistema sócio-econômico globalizado.

De fato, o evangelho diz que ela sempre sonhou no protagonismo dos pequenos. Esse, talvez, seja ainda seu sonho, hoje, convocando as pessoas de fé a assumirem, também, uma vida de fé e a uma vivência cristã comprometida. A fé comprometida de Maria soube gritar seguindo Jesus contra a exploração da vida. A fé comprometida de Maria não teve medo de ser profética criando ruptura necessária para o evangelho impedir a supremacia do mal. A fé comprometida de Maria lhe pôs a caminho, em peregrinação e em busca de vida para abrir espaço a atuação do Espírito Santo. A fé comprometida de Maria, não esperou “acomodadamente” a Luz de Deus, mas foi atuante, a ponto de ajudar a Luz brilhar.

Por aí deve passar, também, a devoção a essa mulher de Nazaré´. Ela é “bendita entre as mulheres”, discípula da justiça e da misericórdia de Deus. Essa percepção tão bela não pode dar espaço a devoções individualistas, espiritualistas, sentimentalistas19, porque a visão de Maria como discípula, seguidora de Jesus, mostrada no Magnificat por Lucas, parte de uma experiência comunitária de Maria.

Ao nos dirigir à Maria não podemos vê-la de forma isolada de Jesus, da comunidade e do Reino de Deus. Esse isolamento causa conseqüências práticas não muito lúcidas à fé. Pode não ficar bom somente “acreditar” nela e esperar que todos os problemas pessoais e sociais venham a serem solucionados. Esse comportamento ofusca a devoção, com o perigo de fazer de Maria uma “milagreira”20. Buscando essa “maravilha”, tal devoção expressa, ainda, um modo de relacionamento com o Senhor onde, às vezes, transfere-se a Ele o que tem explicações normais. A esse tipo de devoção, a Maria do evangelho, não significa nada. O que queremos dizer é que nem todas as imagens de Maria ajudam no desenvolvimento de uma vida cristã sadia. É importante, então, perguntarmo-nos a que tipo de experiência corresponde minha devoção marial. É fundamental considerar o que os textos bíblicos dizem21 sobre ela, e fundamentalmente, sobre Jesus. Como vimos, a grandeza de Maria se finda na relação que teve com Cristo, fazendo sua vontade e se convertendo como servidora do Reino.
Considerações finais
O Magnificat é um texto bíblico em que condensa a fé de Maria e esboça o rosto de seu Senhor que ela acreditou. Lucas foi feliz em narrá-lo. Ele expressa, também, os sentimentos e a esperança de um povo humilhado que, como Maria, se sentiu inundado de alegria (Lc 1,28).

Tentamos por meio deste trabalho, aprender mais sobre a real Maria. Maria humana, histórica e discípula de Jesus. Fica claro que Maria não deve ser espiritualizada. A Maria apresentada por Lucas não está longe, isolada do mundo. Nem o Deus a que Maria louva no Magnificat está distante da vida, desinteressado do sofrimento do povo, sem movê-lo para a luta e libertação.

Segundo o que vimos não haverá devoção lúcida senão se percorrer a fé de Maria. Também, não haverá fé, caso não seja feito o caminho de Deus, como discípulos e discípulas de Jesus. Todo culto mariano precisara considerar a atitude crente e amorosa de Maria com seu Filho e para com os mais pobres. Foi nessa fé, sem rejeitar o discipulado que Maria foi grande e frutífera.
Ajuda-nos Maria não só contemplá-la, e sim, caminharmos na estrada de teu Filho como discípulos e discípulas, a fim de acabar com a dominação e libertar os oprimidos.


Referências bibliográficas
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PAREDES GÁRCIA, José Cristo Rey. Maria primeira discípula de Jesus. Nova Aurora, 1990, p.108-118.

1 O interesse em conhecer Maria é grande entre as pessoas. Geralmente cria-se imagens fictícias. Como personagem fictícia, Maria pode não ser vista como uma pessoa boa, sujeita a defeitos e fragilidades como de nossa natureza humana. (Jonh MCKENSIE, A mãe de Jesus no Novo Testamento. Concilium. n. 188, p. 26-27). O esforço da Mariologia (que se preocupa com o estudo sobre Maria) é olhar para os evangelhos. Eles trazem presente a Maria histórica e ajudam a clarear melhor as limitadas informações sobre ela. (Afonso MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, p. 19).

2 Afonso MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, p. 33..

3 Maricel Mena LÒPEZ, Amém, axé! Sarava, aleluia! – Maria e Iemanjá. Ribla. n. 46. 2003/3, p. 85.

4 Gustavo GUTTIÉREZ, O Deus da vida, p. 211.

5 António Mesquita GALVÃO, O evangelho de Maria, p. 30.

6 Aleix Maria AUTRAN, Maria, membro por excelência de um povo de servidores de Iahweh. Nova Aurora. Ano 1. p.119.

7 Ivone GEBARA; M. BINGEMER, Maria mãe de Deus e mãe dos pobres:um ensaio a partir da mulher e da América Latina, p. 44-50.

8 José BORTLOLINI, Deus realiza a esperança dos pobres. Vida Pastoral. .jul – ago de 2004, p. 54.

9 Jesus inaugura o Reino de alegria para os pobres. Mas ele não faz isso só. Compõe um grupo de seguidores. Nesse caso, Maria está incluída. Pretendemos mais adiante enfocar o discipulado de Maria como uma grandeza apontando algumas características de sua fé.

10 Stefano de FIORES; Salvatore MEO, Dicionário de Mariologia, p. 813. 821.

11 Afonso MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, p. 48.

12 Aleixo Maria AUSTRAN, Maria membro por excelência de um povo de servidores de Iahweh, p.125.

13 José Cristo Rey García Paredes, Maria primeira discípula de Jesus. Nova Aurora. ago 1990, p. 108.

14 Francisco TABORDA, Todas as gerações m chamaram de bem-aventurada – Desafios atuais ao tratado de mariologia, p. 35.

15 Lina BOFF, A fala de Maria no Magnificat aos povos do Terceiro Milênio. REB, n. 60, dez 2000, p. 867.

16 Afonso MURAD, A mãe – Maria e o amor Materno. REB. n. 56, set 1996, p. 539.

17 Afonso MURAD, Quem é essa mulher?, p.201.

18 Lina BOFF, A fala de Maria no Magnificat aos povos de terceiro milênio. Para uma mística evangélica (I), REB. n. 60, p. 621-622.

19 Afonso MURAD, Maria, todo de Deus e tão humana, p. 59.

20 José Lisboa Moreira de OLIVEIRA, As “aparições” de Nossa Senhora: uma avaliação teológica. REB. n. 56, p. 590-593.

21 Maria Clar L. BINGERMER, Maria na teologia da libertação in. Cleto Caliman (org), Teologia e devoção mariana no Brasil, p. 120-125.


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