A história da faculdade de tecnologia de sorocaba



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A HISTÓRIA DA FACULDADE DE TECNOLOGIA DE SOROCABA: ANTECEDENTES E PRIMEIROS ANOS.
Eixo Temático: História de Instituições Escolares (3)
Flora Cardoso da Silva

Faculdade de Tecnologia de Sorocaba
Esta pesquisa teve por finalidade analisar a história da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba nos seguintes períodos: origem, criação, instalação e seu desenvolvimento nos dez primeiros anos de funcionamento (1971-1981).

O trabalho foi realizado através do cruzamento de várias fontes, entre as quais se destacaram: legislação, documentos da escola, fotografias, depoimentos orais, jornais da época, arquivos pessoais de ex-alunos e bibliografia específica.

Consultar legislação de mais de trinta anos envolveu dedicada procura nos arquivos do Conselho Estadual de Educação. Os pareceres, atos normativos e leis, foram então confrontados com os documentos existentes na escola, na tentativa de responder como a comunidade, na prática, executou aquelas normas. As dificuldades para encontrar documentos na escola também foram grandes, mas é comum o estado de abandono dos arquivos chamados “mortos”, nas instituições de ensino. Na Faculdade de Tecnologia havia mofo, traças, umidade, desorganização em alguns arquivos, mas também havia arquivos muito bem organizados, dos quais foram eliminados os documentos antigos, considerados sem utilidade. Felizmente, ocorreu que a única pasta preservada, foi de grande utilidade na pesquisa.

As fontes orais produzidas por depoimentos de ex-alunos e professores foram usados para comparar fatos apontados pelas fontes primárias.

A pesquisa foi sendo conduzida pela descoberta dos fatos no decorrer da investigação, entre os quais salientamos que, apesar da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba ter sido criada em 21.05.70 por Decreto-Lei assinado pelo Governador Roberto de Abreu Sodré, a luta pela escola, não começou apenas no ato de sua criação. Envolveu grande campanha popular que atingiu o ápice no ano de 1969 e início de 1970 e que tinha por objetivo conseguir uma Faculdade Pública de Engenharia para a cidade. Por razões que procurar-se-á explicar no decorrer do trabalho, isto não aconteceu e a Faculdade Pública conseguida foi a Faculdade de Tecnologia.

Para tentar compreender os acontecimentos desta fase, foram consultados os jornais Cruzeiro do Sul e Diário de Sorocaba no período compreendido entre 1º de janeiro de 1969 e 7 de junho de 1971, data em que a Faculdade de Tecnologia de Sorocaba iniciou seu funcionamento. Até então não se sabia que a campanha pela Faculdade Pública de Engenharia tinha sido tão forte na cidade e esta constatação mudou o rumo da pesquisa – descobriu-se que a identidade da escola estava ligada a esta campanha.

O período em análise foi caracterizado por grande número de excedentes que tendo concluído o ensino médio, não encontravam espaço no ensino superior e portanto não tinham como adquirir o “capital humano” que era apontado como a única forma de ascensão social. Mas, ao invés de representar a conquista de um ideal e coroamento dos esforços desenvolvidos pela população, a Faculdade de Tecnologia foi vista como um prêmio de consolação – era uma “escola técnica de nível superior”, numa época em que não se sabia muito bem o que isto representava.

Como não era a escola desejada, não contaria com ajuda municipal e este fator, aliado ao desconhecimento do Curso aumentou as dificuldades iniciais para a sua implantação.

A história da FATEC/Sorocaba, por suas origens, sempre caminhou num fio tênue que, se em alguns momentos aceitava a condição que lhe era imposta de ser um prolongamento do Curso Colegial Técnico, por outro lado, buscava superar esta condição. O trabalho dos professores pioneiros e dos alunos transgrediu as normas, lutou contra as condições adversas e conseguiu aproximá-la apesar de toda a política e de interesses contrários, de uma Escola em que a teoria era fundamental para a prática e o pensar precedia sempre a execução.

Em 1979 houve uma tentativa de ruptura neste equilíbrio – os alunos entraram em greve, pleiteando novamente a transformação da Escola numa Faculdade Pública de Engenharia. Foi o momento mais delicado por que passou e seu fechamento chegou a ser cogitado.

O panorama político-institucional do País se revelava em três eixos principais: a ditadura implantada em 1964, declarada de forma evidente pela publicação do ato Institucional n.º5, que acabou de vez com o arremedo de liberdade mantido até então, a Teoria do Capital Humano como agente racionalizador de todas as formas de organização social e como conseqüência , a reforma universitária de 1968.

A criação e instalação da Faculdade de Tecnologia liga-se aos três fatores acima. Abordei a História do Ensino Profissional, por entender que a Faculdade de Tecnologia de Sorocaba tem origem nesse tipo de ensino – a escola do trabalho. Também através deste conhecimento busquei compreender o preconceito do qual a escola tenta se livrar.

Destaco a Reforma Universitária de 1968, que ao apresentar solução para o problema dos excedentes, através de cursos de curta duração, de menor custo, subordinados diretamente às necessidades do setor produtivo e mantidos fora das universidades, forneceu o aparato legal e ideológico para que a Faculdade existisse.

Para a compreender a História da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba foram priorizadas os seguintes aspectos: Campanha pela Engenharia, criação, instalação, prédio, estrutura administrativa, currículos e a greve de 1979 .

Seguem-se as considerações finais, em que apresento as conclusões da investigação.

A história do ensino técnico no Brasil sempre foi marcada pela dualidade que caracteriza até hoje nosso sistema de ensino – de um lado, desde os tempos do Brasil Colônia, estava o ensino realizado nos colégios jesuítas, com ênfase nas letras e atividades intelectuais, destinado à elite condutora do país, e do outro, estava o ensino destinado ao povo, isto é, o primário e o profissional. Se desde o século XVI os colégios jesuítas se organizaram para ministrar o ensino secundário que levaria esta elite ao ensino superior e ao trabalho intelectual, podemos dizer que o ensino destinado ao povo, (primário e profissional) só se democratizou realmente no século XX, quando a efervescência dos anos 1930 e as mudanças no setor produtivo enfatizaram a educação popular.

Um fator preponderante a se levar em conta na história do ensino das profissões é o lugar que ocupa o trabalho na cultura brasileira. Desde o início da colonização os escravos exerciam o trabalho manual1 e por isto os homens livres, especialmente aqueles de classe mais próxima aos escravos, queriam se distanciar dele para marcar sua ascensão social. Saint-Hilaire (apud CUNHA, 2005 p. 19), relata que ao primeiro indício de evolução social, estas pessoas arranjavam um escravo que lhes fazia o trabalho manual, como ir buscar um balde de água ou um feixe de lenha. Como conseqüência deste desprestígio do trabalho manual, as inovações técnicas não eram incentivadas, pois a força física, único capital dos escravos, não precisava ser poupada. O desprezo não era só pelo trabalho manual, ele se estendia também para o escravo que o executava. (BERGER apud CUNHA, 2005, p.22)

Ina Von Binzer (1982, p. 122), ao registrar sob a ótica de educadora alemã, suas impressões sobre o Brasil do século XIX, escreveu:


O norte-americano respeita o trabalho e o trabalhador: ele próprio assume a direção dos trabalhos e toma parte em qualquer serviço, sem nenhum constrangimento, e se despreza o preto é apenas por julgá-lo inferior.

O brasileiro, menos perspicaz e também mais orgulhoso, embora menos culto, despreza o trabalho e o trabalhador.

Ele próprio não se dedica ao trabalho se o pode evitar e encara a desocupação

como um privilégio das criaturas superiores.


A escravidão no Brasil durou quase quatro séculos, atingiu mais de 50% da população e marcou definitivamente nossa forma de pensar o trabalho e em especial o trabalho manual.

Segundo Basbaun (1967, p.67), a escravidão no Brasil foi decorrente da ocupação da terra sempre feita pelo critério da grande propriedade, incluindo as doações para as capitanias hereditárias ou sesmarias. “A vastidão do território como que convidava a essa liberalidade na distribuição das terras.”

A grande propriedade e suas conseqüentes relações de produção, iriam marcar o tipo de desenvolvimento do país, pelos séculos seguintes. (p.84)

Para esse tipo de ocupação a escravidão era indispensável, desde o início, pois os donos das sesmarias não vinham ao Brasil para trabalhar a terra, mas para serem donos e explorá-la. “Ser dono de escravos era não-somente uma prova de ser pessoa de posses, habilitando o senhor a candidatar-se a sesmarias, como chegava a ser título de nobreza”. (BASBAUN,1967, p.88-89)

O autor considera que é um erro afirmar que o trabalho escravo criou e construiu o Brasil. Seu argumento é de que, ao contrário, a escravidão foi uma das causas no nosso atraso, pois além de sua baixa produtividade, o escravo era um consumidor mínimo, que andava seminu, e por sua natureza social foi o maior obstáculo ao desenvolvimento da riqueza. Se do ponto de vista do consumo era um elemento negativo, ainda impedia a formação de uma mentalidade artesã, burguesa ou proletária. (BASBAUN,1967, p. 93)
O negro não servia apenas para o trabalho da cana, do açúcar ou do tabaco. Aprendia qualquer ofício, fazia por vezes, concorrência desleal embora involuntária, aos poucos mecânicos, artífices ou mestres de ofício, quando não eram por estes mesmos comprados para substituí-los no trabalho manual que, graças a esse sistema, se transformava pouco a pouco em desprimoroso, quando não inteiramente desonroso. (p. 90)
Nem o artesanato, nem as indústrias e nem o trabalho manual eram valorizados. O seu desprezo seria a etapa seguinte. A expressão “trabalho vil” mostra uma reveladora contaminação de significados.

Inicialmente significando “trabalho de pouco valor”, insignificante, passou também a designar infame, desprezível, isto é, passou a ter conotação negativa. (FERREIRA, 1999, p. 2072)

Como conseqüência desta forma de pensar, a aprendizagem do trabalho manual só seria executada compulsoriamente por aqueles que não tivessem escolha: os escravos, as crianças abandonadas nas Casas da Roda, os meninos de rua, os delinqüentes e outros desafortunados. (CUNHA, 2005, p. 23)

As bases do aparelho escolar que vigoraria quase sem modificações pelos próximos cento e cinqüenta anos, foram lançadas quando da vinda a família real portuguesa. Surgiu primeiro destinado ao ensino superior, e em conseqüência disto, os níveis inferiores foram destinados a estudos propedêuticos. Sua função era preparar o pessoal de alta qualificação para as atividades bélicas, produção de mercadorias e prestação de serviços. Com estes objetivos foram criadas a Academia de Marinha, as cadeiras de anatomia e de cirurgia, a Academia Real Militar, o curso de agricultura e de desenho técnico e a Academia de Artes. Só em 1874 foi criada a Escola Politécnica para formar engenheiros “civis”. (CUNHA, 2005, p. 69-70)

Ao lado deste que se poderia chamar o “aparelho escolar”, o Estado procurou desenvolver um tipo de ensino apartado do secundário/superior, com o objetivo de promover a formação da força de trabalho diretamente ligada à produção: os artífices para as oficinas, fábricas e arsenais. Deste modo, o ensino profissional seria responsável pela produção de uma mercadoria especial, a força de trabalho, conformada técnica e ideologicamente à produção em que se dava a reprodução do capital, motor do processo de desenvolvimento da sociedade capitalista. Ainda seria considerado como caridade para com os deserdados.

A filantropia que sempre esteve associada ao ensino de ofícios manufatureiros e industriais, aos órfãos, desvalidos e abandonados foi comportando a racionalidade capitalista baseada no cálculo de custos, ao mesmo tempo que os destinatários foram mudando de miseráveis para filhos dos trabalhadores.

O pensamento dominante dos intelectuais ia na direção da educação dos recém-libertos e dos negros, índios e mestiços, para que se transformassem na força de trabalho livre e qualificada, disposta à exploração capitalista, tendo interiorizado as disciplinas e as motivações necessárias ao trabalho fabril. Assim também estariam prevenidos os males do comunismo e do socialismo. (CUNHA, 2005, p. 182-183)

No período republicano, apesar de maior importância que lhe era atribuída, o ensino profissional continuou sendo um recurso oferecido aos pobres para que se acostumassem ao trabalho, se afastassem do vício e do crime e mantivessem a ordem pública, como havia sido no Império e como explicitado na justificativa de criação das escolas de aprendizes artífices, através do Decreto n.7566, de 23 de setembro de 1909, instituído pelo Presidente Nilo Peçanha:


O aumento constante da população das cidades exige que se facilite às classes populares os meios de vencer as dificuldades sempre crescentes da luta pela existência, para isso se torna necessário, não só habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna com indispensável preparo técnico e intelectual, como fazê-los adquirir hábitos de trabalho profícuo, que os afastará da ociosidade , escola do vício e do crime.(CUNHA, 2005a, p 18)
Esta maneira de pensar o ensino profissional foi determinante no preconceito que acompanhou a criação da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba. No início dos anos 1970 a população da cidade se mobilizava para conseguir uma faculdade pública de engenharia que seria o coroamento de seu progresso industrial e que a colocaria em pé de igualdade com outras cidades de porte semelhante, mas a reforma universitária de 1968 e a política de contenção da demanda via cursos de tecnologia, mais curtos e baratos, deu ao governo do Estado a base ideológica para negar o pedido. Ao invés da escola enfaticamente solicitada, detentora do status de uma profissão nobre, foi “apenas” conseguida a Faculdade de Tecnologia. Para acompanhar este movimento e a conseqüente desvalorização da escola obtida pela população, fiz extensa procura nos jornais da época e destaco algumas características constantes nesta campanha: enfatizar a importância da cidade e seu merecimento para sediar a escola pretendida, “pois seu povo era ordeiro e trabalhador”, 2 além de ter grande vocação industrial, o que era corroborado pela fase de grande aporte de novas indústrias, ocorrido nesta época. “Trabalho não faltará para que os jovens estudantes disponham de uma Faculdade de Engenharia, se possível a partir de 1970.” ( Jornal do Sul ,2/fev.1969 p.16)

Confirmando o interesse e o envolvimento da população, várias notícias dão conta do compromisso da própria cidade, através de sua prefeitura, de arcar com as despesas relativas ao terreno e construção do prédio para a Faculdade Pública de Engenharia, “pois há mais do que bom senso, há alto grau de patriotismo neste empreendimento.” (28/fev. 1969 p.2)

Como forma de pressão, o jornal muitas vezes declara cobrar uma promessa assumida publicamente pelo Governador Abreu Sodré, de que instalaria nossa Faculdade de Engenharia, pois a mesma já havia sido criada no papel. (29/jan/1969 p.5), (30/jan. 1969 p.1), (12/fev.1969, p.2)

Esta campanha foi encabeçada pelo Prefeito José Crespo Gonzáles, que considerava ponto de honra para o seu governo, ser bem sucedido na empreitada, 3 mas contou também com grande empenho dos clubes de serviço. A pedido do prefeito, todos os Lions Clubes da cidade e região enviaram para o Governador, várias cartas solicitando a instalação da Faculdade. (26/out./1969 – caderno2, p.3), (29/nov.1969 p.2)

Porém, o Governador não se mostra receptivo à idéia e sempre que tem oportunidade, enfatiza que a solução para a cidade é um curso mais curto e mais barato, pois “o Estado sustenta 14 faculdades isoladas, duas universidades e subvenciona várias, e gasta 31% do orçamento no ensino” portanto, não poderia atender os sorocabanos nesta reivindicação, sugerindo que Sorocaba deveria ter faculdades técnicas de nível médio, “colleges juniors”, que foi um dos principais frutos do desenvolvimento dos Estados Unidos, União Soviética e outros países adiantados.” (24 abr. 1969, p. 1).

Esta foi a primeira vez que o Governador, coerente com o que já havia proposto ao Presidente do Conselho Estadual de Educação em 5 de janeiro daquele ano, assumiu publicamente diante dos sorocabanos, representados por “comitiva reforçada”4, que a implantação da Faculdade de Engenharia em Sorocaba não contaria com seu apoio. Apesar disto, a campanha continuou firme.

Esta posição clara do Governador provocou a iniciativa de um abaixo-assinado que conseguiu 20.000 assinaturas que foram colhidas nas escolas, nos estabelecimentos comerciais e indústrias, nas ruas e nas praças declarando a necessidade da urgente instalação da Faculdade, (20/ago./1969 p.1) e que mereceu o seguinte comentário:
Trata-se como não poderia deixar de ser, da instalação da Faculdade de Engenharia, a primeira que diretamente, se instalaria às custas do Governo do Estado, e não menos primeira a que o Governo Paulista oferecesse reais condições de cumprir o seu alevantado fim.

É , como se vê, uma campanha que nos move a todos em busca do ideal tantas e tantas vezes sonhado.

E é também a manifestação inequívoca de que o povo sorocabano, ao assinar as listas, revela a sua unidade em torno do pedido que não tem nada de supérfluo, nada de fútil, nada de banal, mas sim basicamente os anseio de sua juventude que pede apenas uma escola.

Escola que formará técnicos para São Paulo e para o País.

Escola que nos prometeram ontem.

Escola que queremos hoje, por que não? ( Editorial de 30 ago. 1969, p. 2)


A Faculdade de Tecnologia aparece como um prêmio de consolação, que a cidade não deseja, por não representar o status de uma profissão valorizada socialmente, como a engenharia. “De tantas e de todas solicitações, apelos e petitórios, só nos restou, a respeito, a tênue promessa de atendimento, por vezes sob a forma de uma escola de nível médio...(30/ago.1969, p.2)

“Conselho nega mas prefeito insiste: Engenharia funcionando já em 1970. O Conselho Estadual de Educação apenas aprova para Sorocaba, um curso de “Tecnologia Superior” e, depois que esse curso já estiver funcionando e formando a sua primeira turma, a possibilidade da instalação de um Instituto de Engenharia. Como isto não atende aos interesses da juventude local, e da própria cidade, que há longos anos reivindica uma Faculdade de Engenharia, o Prefeito Crespo Gonzáles vai insistir hoje, junto ao Governador Sodré, na imediata instalação da Faculdade (a primeira e única que o Estado pelo menos se propôs a instalar aqui), para que já em 1970 o estudante sorocabano e da região sul, não necessite procurar vagas em outras cidades mais distantes. (23 out. 1969, p. 1)

Até o dia 4 de janeiro de 1970, o Jornal Cruzeiro do Sul noticiou os grandes esforços que a população de Sorocaba fez para conseguir a Faculdade Pública de Engenharia. Durante todo o ano de 1969 estas notícias ocuparam a maior parte do espaço do jornal, muitas vezes suplantando notícias nacionais, como seqüestro dos embaixadores estrangeiros e a luta armada que era travada entre o governo da Ditadura e os setores descontentes da sociedade, os chamados “terroristas”. Foram mais de 50 notícias de primeira página.5 A partir desta data, o jornal não mais abordou o assunto. Nossa hipótese é que os sorocabanos consideraram que a batalha estava perdida e não havia mais nada a fazer a não ser aceitar a solução proposta pelo Governador. A época era de censura à imprensa e o Ato Institucional nº. 5 havia sido decretado, eliminando o que ainda restava como liberdade de expressão. Outra hipótese é a de que o jornal, porque pertencia à base de apoio ao prefeito Crespo, não poderia desmerecer sua conquista – a Faculdade de Tecnologia. Então, dedicou-se a divulgar a nova escola, colaborando para que fosse aceita e procurada pela comunidade. Seu novo objetivo foi explicar aos leitores o que era afinal este curso de tecnologia e destacar seu caráter de não terminalidade – seria possível cursar mais dois anos e obter o diploma de engenharia. Assim, enquanto os defensores do Curso de Tecnologia se preocupavam em enfatizar sua importância justamente por se opor ao Curso de Engenharia Tradicional, o jornal destacava a possibilidade de complementação. Outra qualidade da nova escola, apontada pela imprensa, era ser inteiramente mantida pelo governo do Estado. A Prefeitura não seria responsável pela doação do prédio nem do terreno. De fato, levantamentos realizados nos documentos da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba nos primeiros dez anos de funcionamento não revelaram nenhuma contribuição do município.

Com menor intensidade, o jornal Diário de Sorocaba também se ocupou do assunto Faculdade de Engenharia no ano de 1969 e também suas manchetes refletiram o esforço da cidade para que esta escola aqui funcionasse. A campanha foi desenvolvida durante o ano de 1969, mas depois do dia 16 de setembro, data em que o Governador declarou à imprensa que a nova escola seria a Faculdade de Tecnologia, o jornal não mais abordou o assunto.

Em 1971, quando da instalação e do início do funcionamento da Faculdade de Tecnologia, noticiou as dificuldades por que passaram os pioneiros e as manobras políticas que precederam a liberação de verbas para que efetivamente, no dia 7 de junho os primeiros alunos tivessem as primeiras aulas.

Não houve grande diferença no tratamento do assunto, em relação ao Jornal Cruzeiro do Sul, sendo observadas as mesmas categorias: o merecimento da cidade, o fato de já haver uma lei criando a Faculdade Pública de Engenharia, a vocação da cidade para este tipo de escola, e a justiça do atendimento, pois “não será preciso acrescentar-se que o Estado em nos atendendo estará realizado um ato de inteira Justiça, uma vez que Sorocaba, muito dá ao Estado e até agora, em termos de educação universitária não conta com um só estabelecimento oficial. ”(28 jan. 1969, p. 3)

Aqui também vê-se que a Faculdade de Tecnologia não atende aos anseios da população:
Queremos uma Faculdade de Engenharia na plenitude de seu alcance técnico e não uma “Engenharia Júnior”, que pouco, ou quase nada consulta os nossos interesses. Sorocaba sabe o que quer. Sabemos por que pedimos uma Faculdade de Engenharia e, a continuar da maneira em que está, não se tenha dúvidas de que a nossa Faculdade sairá mas sairá com recursos de Sorocaba e de Votorantim e uma vez mais o Governo do Estado ficará no campo das promessas com a nossa região. (Editorial, 11 mar. 1969, p.3)
Este jornal publica a argumentação do Prefeito Crespo Gonzáles, diante do Governador Abreu Sodré, cobrando a instalação da Faculdade de Engenharia criada pela lei nº. 8.531, de 22 de dezembro de 1964 e enfatizando que não interessa à cidade um curso de curta duração, pois “a instalação de uma Faculdade de Engenharia de nível médio, júnior, não resolveria o nosso problema.” (24/abr./69 p.3)

Como podemos constatar, a pesquisa nos jornais da época aponta que a origem e a criação da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba sempre estiveram ligadas ao desejo da comunidade em ter uma Escola de Engenharia e apareceu sempre marcada como uma conquista menor.

Mas não foi assim só nos jornais. Ao pesquisar na legislação a origem e a criação de nossa Escola, constatamos que aí também ela aparece como um prêmio de consolação. É preciso muito discurso e empenho para convencer os sorocabanos a ignorar os quase 500 anos de preconceito pelo ensino técnico, que é bastante explicitado na primeira parte desta dissertação e aceitar a realidade possível – uma escola que mesmo sendo de nível superior não deixaria de ser “técnica”.

O parecer do Conselho Estadual de Educação n. 51/69 de 14 de setembro de 1969 (SÃO PAULO (Estado),1969) e que poderíamos considerar como uma pré-certidão de nascimento da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, é uma resposta ao processo n. 353/69, (SÃO PAULO (Estado),1969) em que a Prefeitura Municipal de Sorocaba solicita a instalação de uma Faculdade de Engenharia.

Naquele documento, o conselheiro Octávio Gaspar de Souza Ricardo, do Conselho Estadual declara que o então prefeito José Crespo Gonzáles solicita com grande empenho a Faculdade de Engenharia.

A resposta do conselheiro, através do Parecer n. 51/69 de 14 de setembro de 1969, foi longa e abrangente. Em primeiro lugar, considerava que o número de vagas existentes nos cursos tradicionais de engenharia eram suficientes para as necessidades do estado e do país, na época. Para corroborar sua afirmação, diz que na linha da formação que chamará de “básica”, as escolas e os alunos já representavam 1/7 do número estimado nos Estados Unidos, para uma produção muitas vezes inferior, no Brasil. A seguir, Gaspar Ricardo faz um longo arrazoado sobre os currículos destes cursos, enfatizando seu caráter teórico, desligado do “saber fazer” e critica o espírito afastado da responsabilidade profissional assim como os esquemas acadêmicos que se contentam com as soluções abstratas e intelectualistas que não resolvem os problemas concretos. Alega que é preciso mudar esta mentalidade se o objetivo for transformar o Brasil numa potência industrial. engenheiro e finalmente dá seu parecer sobre a instalação da Faculdade de Engenharia de Sorocaba. Nega o pedido e como alternativa, propõe que o Município, ao invés de uma escola de engenharia convencional, instale uma Faculdade de Tecnologia, junto ao Colégio Técnico Industrial o que abriria perspectivas novas para a população jovem.


O que proponho a Sorocaba é que, em vez de mais uma iniciativa estática, padronizada, circunscrita, se lance numa empreitada original e promissora, se bem que inicialmente mais modesta. Original, porque Sorocaba seria uma pioneira nessa nova fase do ensino tecnológico. Promissora, porque o desenvolvimento tecnológico nacional virá, a exemplo dos países mais avançados, justificar e recompensar a tomada de um caminho menos aparatoso, porém mais útil e profícuo. (Parecer n. 51/69 fls.17 CEE – Conselheiro Gaspar Ricardo)
Depois de grandes dificuldades iniciais, finalmente começou a funcionar a Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, em 7 de junho de 1971, com 66 alunos aprovados no vestibular, sendo 29 alunos no período diurno e 37 no período noturno. O curso ministrado era o Curso Técnico de Nível Superior em Mecânica, modalidade Oficinas, com carga horária de 2.520 horas, com tempo médio de integralização de três anos.

A Faculdade de Tecnologia de Sorocaba iniciou seu funcionamento no prédio do Colégio Técnico Industrial, situado na Av. Pereira Inácio n. 190, no centro da cidade de Sorocaba.

Das onze salas prometidas e citadas no processo CEE 353/69 relatado Prof. Lázaro Prestes Miramontes, diretor do CTI e que ocupariam 745 m2, foram disponibilizadas inicialmente apenas duas. Em uma delas ficava o diretor, José Ruy Ribeiro e a secretária Dulce de Toledo Rabiola e na outra começou a funcionar a sala de aula que abrigava os calouros.

Para as aulas práticas seriam ocupados os laboratórios e oficinas do Colégio, considerados plenamente satisfatórios quando da aprovação do funcionamento da Faculdade.

Foi estabelecido um convênio para utilização dos laboratórios de Ensaios Mecânicos e Tratamento Térmico da Indústria Metalúrgica Nossa Senhora Aparecida.

Assim, a Faculdade de Tecnologia de Sorocaba começou a funcionar sem praticamente nenhum custo ao Estado, no que tange a investimentos em infra-estrutura. Tudo era emprestado: o prédio, os laboratórios e os equipamentos.

A situação de ser uma “visita permanente” logo começou a causar os primeiros transtornos. A cada semestre que passava a Faculdade necessitava de uma sala a mais. Eram mais 40 alunos a dividir o espaço das oficinas e laboratórios com os alunos do CTI, que também haviam aumentado de número. 6

No segundo semestre de 1972, os professores relatam ter inventado uma maneira de dar aula “prática” nas salas de aula porque as oficinas estavam sempre ocupadas pelos alunos do CTI e não havia como compatibilizar os horários. Este procedimento era absolutamente contrário aos princípios do Curso, que privilegiava a prática e o fazer.

Para o início de 1973, a situação era complicada. Não havia condições de permanecer no Colégio e realizar o vestibular porque não havia espaço físico.

Se para a Faculdade de Engenharia, a Prefeitura tinha o compromisso de doar o terreno7, para Faculdade de Tecnologia, isto não seria feito. Pelo acordo, ela seria de responsabilidade exclusiva do Estado.

O diretor João Santini Neto, nomeado em 4 de julho de 1972, sentia-se em apuros. Não havia como continuar sem um prédio próprio.

O Estado não tinha previsão no orçamento para a construção da Faculdade e mais uma vez, tudo dependeria do esforço e do empenho da comunidade diretamente interessada na escola: diretor, professores e alunos.

Pelos relatos percebe-se que a luta foi travada contra um inimigo poderoso e indiferente aos destinos da escola. Tudo era “arrancado” dos poderes públicos e obtido como um favor à comunidade. Não foi considerado um direito dos alunos terem um prédio adequado onde pudessem cumprir o objetivo de “fazer o desenvolvimento do país” tão largamente apregoado pelo Governador Sodré na defesa dos Cursos de Tecnologia. Vê-se que na política há uma grande distância entre a declaração e a realização.
A PROCURA
Podemos dizer que conseguimos este prédio depois de trabalhar muito. Eu e o Florisvaldo Nascimento, na época instrutor e filho de Sorocaba, (eu e o José Ruy Ribeiro, o diretor anterior, éramos de fora), saímos a procurar um prédio que pudesse abrigar a Faculdade, nem que fosse só para aulas teóricas, no princípio.Saímos a campo percorrendo todos os locais públicos que de certa forma estivessem subutilizados.

Fomos até o Ceasa, o entreposto de laranja, atrás do Cemitério Pax. Era um barracão grande que estava abandonado, porque o Ceasa tinha se mudado para instalações novas. Íamos pleitear seu uso, quando tivemos a informação que o Hospital Leonor Mendes de Barros tinha terminado o prédio novo, na cidade, e que as instalações anteriores, com seis alqueires de terra, lá no alto da Boa Vista, estavam sem utilização.

No mesmo dia colocamos um servente para morar lá, a fim de que ficasse registrada a posse do terreno pela Faculdade e o acordo não pudesse ser desfeito. Tomamos posse e tudo foi apressado. (SANTINI NETO, 2007)

A Faculdade de Tecnologia de Sorocaba foi autorizada a ocupar o prédio que não servia mais ao hospital e felizmente escapou do que não servia mais ao depósito de laranjas. Os recursos para as adaptações necessárias e que transformariam depósitos, banheiros e enfermarias em salas de aula, foram como sempre, escassos.

Diretor, alunos, funcionários e instrutores derrubaram paredes, pintaram, consertaram pisos e limparam o prédio para que ele pudesse ser utilizado. Projetaram e executaram as instalações hidráulicas e elétricas. Cada um na medida de suas possibilidades colaborou para que no curto período de férias tudo estivesse apresentável e no dia 26/02/1973, a Faculdade de Tecnologia pudesse iniciar o semestre sem maiores percalços.

Ao rememorar as dificuldades por que passaram, muitos envolvidos se emocionam. A procura pelo espaço, as obras de adaptação e a mudança para o prédio situado na Av. Carlos Reinaldo Mendes n. 2.015 , no Alto da Boa Vista, foram fatos marcantes na história e no desenvolvimento da Escola.

“Além de ajudar nas reformas, também participei elaborando uma série de projetos de instalação da rede de água e esgoto para o Hospital Leonor Mendes de Barros, em seu prédio novo, como uma forma de agradecer a cessão que fizeram para a nossa escola”. (FIGUEIREDO, 2007)

Vários depoimentos enfatizam a preocupação com a pintura do prédio porque todos temiam contaminação, visto que o antigo Hospital era para tratamento de tuberculose.

“Eu também participei da pintura do prédio novo. Era preciso passar cal nas paredes para imunizar porque o Hospital Leonor era um hospital para tuberculosos”. (DELUNO, 2007)

A FEPASA, em processo de desativação, cedia funcionários para trabalhar durante algumas horas por dia, na Faculdade de Tecnologia de Sorocaba .

Nós viemos antes da mudança para preparar o ambiente. Eu, os instrutores Florisvaldo Nascimento, Bernardo Martins e a turma da Fepasa. Roçamos o mato com foice e machado. Tudo estava abandonado. Nossa função era preparar o ambiente para a mudança. Limpamos, pintamos parede, passamos desinfetante (porque era um hospital).

Foi limpeza do prédio, preparo das salas, conserto de porta, remédio contra cupim, preparando tudo para vir o pessoal. Nós fazíamos isto fora do nosso horário de expediente, para colaborar. (COSTA,2007)


Também participei dos trabalhos de pintura e limpeza do prédio do Hospital. Os pais estavam apavorados com medo de contaminação, mas felizmente isto não aconteceu. A mudança foi feita num velho caminhão emprestado por um colega. Lá colocamos os poucos equipamentos que a Faculdade tinha e transportamos.

Meu grupo também participou fazendo, a pedido do Professor Carasek, um layout para o estacionamento de veículos. Naquela época já tínhamos consciência ecológica porque nosso projeto aproveitava os eucaliptos existentes. Não foi aceito e tivemos que refazer. (OLIVEIRA FILHO, 2007)


O que vimos pela primeira vez, não é o que vocês vêem agora. As paredes estavam enegrecidas, havia entulhos por todos os lados, os quartos eram pequenos demais e em alguns deles havia velhos colchões espalhados pelo chão. Onde hoje é secretaria, existia um velho aparelho de radioterapia. Quanto aos banheiros, nem se fale.

Não obstante, a nossa alegria era grande, tanto que houve uma correria para se colocar uma placa, com o nome da faculdade, a fim de que os que por ali passassem, soubessem do nosso progresso.

Não havia tempo a perder, pois as aulas do ano de 1973 logo começariam. Arregaçamos nossas mangas e iniciamos o trabalho: derrubar paredes para que fossem formadas as salas de aula, proceder à limpeza do local tirando os entulhos, varrendo e lavando o chão e pintando portas e janelas. (OLIVEIRA FILHO, 1976)
Com a mudança, a situação se estabilizou momentaneamente. As salas de aula eram suficientes por algum tempo, mas não havia espaço para as oficinas e nem equipamentos de laboratórios.

O Colégio Técnico Industrial ainda precisaria ser utilizado para as atividades práticas, assim como os laboratórios da Indústria Metalúrgica N.S. Aparecida, para as disciplinas de Ensaios Mecânicos e Tratamento Térmico.

A Indústria Metalúrgica N.S.Aparecida passava por modificações na cadeia de comando e em 22 de novembro de 1975 enviou uma carta à Faculdade enfatizando sua colaboração desde o início da escola, mas reservando-se o direito de suprimir a autorização de uso dos seus laboratórios a qualquer tempo e no momento em que julgasse conveniente.

Uma vez minimizado o problema das salas de aula, era necessário agora conseguir os laboratórios porque eles eram tidos como a própria essência do curso: o lema era mostrar na prática tudo o que fosse aprendido na teoria.

Construir era proibido pela Mantenedora. O que era possível era reformar e adaptar.

Para conseguir o primeiro laboratório o Diretor usou de um artifício:


A história da construção do laboratório de materiais foi curiosa. Havia uma pequena garagem das ambulâncias do hospital, junto à casa do zelador, que media 12 metros quadrados, aproximadamente. Fizemos um projeto de ampliação para abrigar o laboratório, que tinha mais de 100 metros quadrados de construção. Quando o superintendente8 viu aquilo, olhou bem pra mim (ele era muito espirituoso), e disse que da garagem das ambulâncias, nós só iríamos aproveitar o ângulo reto.

Era uma maneira de “ludibriar” o Estado, porque se nós dissemos que era uma construção, não seria permitida. Mas, desta forma, veio a verba, nós abrimos uma concorrência e uma construtora aqui de Sorocaba venceu e fez o laboratório.

Depois conseguimos a verba para comprar os equipamentos. A empresa foi diminuindo, diminuindo, diminuindo o preço, até que “conseguiu” vender para nós.

Assim, a pequena garagem das ambulâncias foi transformada nos laboratórios de Resistência dos Materiais e Materiais de Construção Mecânica. (SANTINI NETO, 2007)


A expansão da área construída segue a seguinte cronologia:

Em 1973 a área construída do Hospital Leonor Mendes de Barros era 1.421m2, em 1974 houve a ampliação de 94m2 relatada acima, perfazendo o total de 1.515m2 e finalmente em 1975 foi concluída a construção dos prédios 4, 5 e 6 com 732m2 cada um. A escola passava a contar então, com 3.714 m2 de área construída, o que seria suficiente para as oficinas e salas de aula e biblioteca.

Dispunha também de uma quadra esportiva de tamanho oficial, usada para as aulas de Educação Física.

Esta expansão foi realizada com recursos do Governo do Estado, como parte do Plano Diretor aprovado pelo Conselho Deliberativo do CEETPS e até o ano de 1981, final do período analisado por este trabalho, não houve mais ampliação.

As instalações físicas ocupadas pela Faculdade de Tecnologia de Sorocaba eram extremamente simples. Ao prédio principal, de alvenaria, construído para abrigar um hospital se somaram os galpões de madeira, separados e cobertos com telhas de amianto, fechados por vitrôs basculantes que permitiam pouca ventilação.

Nada havia que fosse considerado “supérfluo”, apenas salas de aula e laboratórios.

A escola do trabalho, depois das grandes dificuldades para implantação, considerava satisfatório o que pudera conseguir.

Nenhum requinte arquitetônico. Nenhum lustre, um corrimão, uma fechadura, uma janela, nenhum detalhe que aliasse beleza à utilidade. A estética não teve lugar nos ambientes dominados pela dificuldade. Não havia pátio de recreio para os alunos, nem anfiteatro. Nenhum espaço de convivência a não ser a sombra das mangueiras. Os galpões espalhados no grande terreno acidentado da escola dificultavam sobremaneira a ligação entre os alunos de semestres diferentes – o que seria reforçado ainda pelo critério de matrículas por disciplina, instituído pela Lei 5.540/68, justamente com este propósito. Por outro lado, a distribuição dos prédios e a grande área verde9 do campus traziam como benefício uma grande sensação de liberdade ao impedir exercícios de controle e vigilância.

A biblioteca era muito simples. Contava com livros técnicos, manuais e poucas revistas técnicas.

Devido as dificuldade iniciais, estas instalações foram consideradas extremamente satisfatórias pela comunidade fatecana e reforçaram o caráter técnico e utilitário da educação ministrada ali.10

O Hospital Leonor Mendes de Barros, seguindo o costume da época, foi construído fora da cidade, uma vez que assim seria mais fácil manter o isolamento dos pacientes e dificultar a disseminação da tuberculose, doença considerada incurável.

O terreno de 174.000 m2 nos altos da Bela Vista eram ideais a este propósito. Porém, para a incipiente Faculdade de Tecnologia, este isolamento11 dificultou a divulgação e o entrosamento na cidade, ao contrário de outras Faculdades que integravam áreas nobres da paisagem urbana e assim assinalavam concretamente sua importância.

Na pesquisa realizei também análise do currículo, privilegiando a observação das contradições entre o declarado e o realizado por entender que assim serão detectados os condicionantes da ação educativa e as formas de resistência possível desenvolvidas principalmente pelos professores pioneiros da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba.

Os cursos de tecnologia não possuíam, quando de sua criação, currículos mínimos estabelecidos pelo MEC, porque assim estaria garantida a flexibilidade que seus idealizadores consideravam essencial. Não havia também preocupação com o fornecimento de diplomas, porque acreditavam que o mercado de trabalho especialmente na indústria, iria privilegiar o saber fazer e a competência ao invés da certificação. 12

Este é o espírito do Parecer CEE n.384/69, relatado pelo Conselheiro Paulo Ernesto Tolle,que analisou e aprovou os cursos de tecnologia. Além disto, destaca o contido na Lei Federal n. 5.540, de 28.11.968, que no Artigo 18 autoriza a organização de cursos, não correspondentes a profissões reguladas por lei, a fim de atender a exigências da programação específica de estabelecimentos de ensino, e no Art. 23 possibilita a instituição de cursos profissionais de diferentes modalidades quanto ao número e à duração, inclusive para proporcionar habilitações intermediárias de grau superior.

O Grupo de Trabalho instituído pela Resolução n.2001 de 15 de janeiro de 1968, pelo Governador Abreu Sodré, além subsidiar o Parecer acima citado com todo o embasamento filosófico e prático do novo curso, também foi responsável pelo estabelecimento do seu currículo, enfatizando sempre seu caráter mais de execução, do saber fazer, da praticidade, da formação mais rápida, em relação ao curso de engenharia tradicional. Nomes, ementas e conteúdo das disciplinas deveriam refletir esta diferença.

Um de seus integrantes, Octávio Gaspar de Souza Ricardo, declara que propôs, no Grupo, várias soluções, que depois foram abandonadas:

- Para as disciplinas de Matemática e Física seriam suficientes os conteúdos apenas do Segundo Grau. As disciplinas receberam os nomes de Métodos de Cálculo e Física Aplicada, para ressaltar o fato e evitar confusões e ilusões nos alunos. Ter-se-ia evitado o problema das reprovações em massa. (MOTOYAMA, 1995, p. 123)

Esta declaração do Conselheiro Gaspar merece uma análise. Os nomes das disciplinas13 realmente, foram os citados, mas mesmo assim criaram “ilusões e confusões nos alunos”, porque o conteúdo não era o de Segundo Grau. Era conteúdo relativo ao Curso Superior e ministrado de forma bastante aprofundada pelos professores pioneiros da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, que procuravam através da Matemática e da Física, desenvolver o pensamento lógico dos alunos. Esta diferença entre o proclamado e o executado em relação ao currículo, aparece no Relatório enviado à Comissão dos Especialistas no Ensino de Engenharia, no ano de 1975. 14 (RELATÓRIO..., 1975)

No formulário relativo à disciplina de Métodos de Cálculo, depois de informar, no campo bibliografia recomendada, uma lista de cinco títulos que certamente não eram de Segundo Grau15, o Chefe do Departamento, Dalmir Prado Salvi, usa o espaço reservado para observações para se “desculpar” pelo excesso e declara:


As aulas são caracterizadas por uma parte teórica mínima e suficiente para atingir o objetivo da matéria. As aplicações e exercícios são enfocados nos aspectos técnicos o mais real possível. A parte teórica é exigida num certo nível de modo que os conhecimentos adquiridos sejam suficientes para análises posteriores.
Corroborando o que exposto acima, o primeiro Diretor de Ensino da Faculdade de Tecnologia de S.Paulo, Heinz Schramm, também declara que precisaram reformular os programas de Cálculo e Física, retirando os aspectos mais profundos da parte teórica para ajustá-los e aplicá-los às realidades industriais., pois a filosofia do curso era que se deveria formar profissionais capacitados para a solução de problemas na área de execução. O estabelecimento deste currículo tinha também o objetivo de dificultar a passagem dos alunos para o curso de engenharia tradicional. (MOTOYAMA, 1995, p. 173)

O Parecer CFE 287/70, cujo relator é o Conselheiro Tharcizio Damy de Souza Santos, ao aprovar o Plano Proposto para o Curso Técnico de Nível Superior em ramos tecnológicos, do Centro Estadual de Educação Tecnológica de S.Paulo, considera que o objetivo do Curso deve :


Formar um homem capaz de entender o funcionamento global de uma fábrica, sabendo inserir nele a oficina em geral, e as suas máquinas e os processos de produção em particular. Deve conhecer as potencialidades apresentadas pelos equipamentos mecânicos e máquinas operatrizes mais comumente empregados na indústria, quer pelo conhecimento e habilidade de operar essas máquinas e equipamentos em geral, quer também, pela possível especialização em alguns tipos de operações e processos de fabricação. Deve saber orientar outras pessoas nessas atividades.
Vemos neste Parecer do Conselho Federal de Educação, os objetivos puramente utilitários e estritamente ligados à execução, que se propunham para o profissional tecnólogo. Para realizar os objetivos propostos, ele não precisaria mesmo de grande aprofundamento na parte teórica.

Nossa hipótese é que esta facilitação do currículo não ocorreu na Faculdade de Tecnologia de Sorocaba. Apesar das ementas serem bastante amplas e simplificadas, os conteúdos programáticos não o eram. (DOCUMENTOS...,1971).

Os professores, na sala de aula, procuravam, apesar de todo o discurso para que não o fizessem, reproduzir de forma condensada a essência do currículo que tiveram no Curso de Engenharia, e para isto sabiam que era fundamental ensinar teoria para que houvesse o desenvolvimento do pensamento lógico.

Por exemplo, considere-se a disciplina “Métodos de Cálculo”. Da ementa16 simplificada, quase no nível de Segundo Grau, como havia proposto o Conselheiro Gaspar Ricardo, foi desenvolvido um conteúdo aprofundado17, ministrado de maneira rigorosa pelos professores pioneiros da disciplina para propiciar aos alunos acesso mais amplo ao conhecimento. Era a forma de resistência possível. Era preciso aprender a pensar e não só aprender a fazer.

Na pesquisa também foi analisada a mais longa e significativa greve do período, realizada pelos alunos, no ano de 1979, e seus motivos foram ligados basicamente à essência do curso do tecnologia – os alunos não se conformavam em estudar tanto, cumprir tantas exigências curriculares e ao sair da Faculdade ocuparem posição inferior ao dos egressos dos cursos de engenharia plena.

Os professores da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, conforme diversos depoimentos, eram muito exigentes18, a reprovação era elevada e o curso que deveria ser de três anos, muitas vezes levava quatro anos ou mais para ser concluído. Finalmente, quando o aluno conseguia receber o diploma, se deparava com dificuldades que iam do desconhecimento pelas empresas do que seria o Tecnólogo, ou o Técnico de Nível Superior, aos problemas de reconhecimento da profissão pelo CREA, cuja política corporativa sempre privilegiou os engenheiros plenos, independentemente de currículos ou conhecimentos que outros profissionais pudessem possuir. Assim, quase dez anos depois, a Faculdade de Tecnologia se defrontava novamente com os mesmos problemas que marcaram sua criação e instalação. A grande aspiração dos estudantes era fazer o curso de Engenharia, e a greve novamente trouxe à tona todo o embate entre o discurso oficial e a prática, entre o curso acadêmico e o curso técnico, denunciando as oposições que sempre revelaram a dualidade do sistema educacional brasileiro.

Grande parte dos alunos, insatisfeitos com o status da profissão de tecnólogo, aspiravam à complementação de estudos e para isto procuravam as faculdades particulares de Engenharia, representantes do segmento que a esta época já respondia pela expansão do ensino superior no país.

Ônibus de estudantes deixavam Sorocaba com destino a Piracicaba, onde a Universidade Metodista mantinha o curso de Engenharia Industrial Mecânica. A complementação tinha duração de aproximadamente dois anos, mas havia dificuldade no aproveitamento de disciplinas cursadas na FATEC porque seus nomes, justamente, foram criados para se opor aos cursos de engenharia tradicional, embora em essência, o conteúdo fosse muito parecido.

Os conhecimentos adquiridos nestes cursos de complementação eram poucos – a únicas coisas que eles trariam eram o título e o status que o curso de tecnologia não oferecia.19 A paralisação ocorrida foi total – envolveu todos os alunos da Faculdade20 . Começou no dia 18 de maio de 1979 e se estendeu até o início de setembro do mesmo ano. Teve boa cobertura da mídia e alguma repercussão na sociedade, mas nada que se comparasse à campanha desenvolvida no ano de 1969, quando todas as “forças vivas” da cidade e região batalharam pela criação da Faculdade Pública de Engenharia. Na carta aberta à população, os mais de 500 alunos da Fatec, representados pelo presidente do Diretório Acadêmico, Rubens Vicente Sabino Xavier, expunham as vantagens da transformação da Faculdade de Tecnologia numa Faculdade de Engenharia:
Em primeiro lugar, a faculdade formará profissionais para atender a grande demanda das indústrias locais, que estão crescendo enormemente. Todos sabemos que Sorocaba é um pólo industrial.

Em segundo lugar também sabemos que Sorocaba não é uma cidade rica. Nesse caso, uma faculdade de engenharia gratuita, favorecerá a classe e não haverá mais a necessidade de se ir a outras cidades para a realização da faculdade de Engenharia Industrial. Temos uma faculdade de engenharia na cidade, mas é civil e elétrica, dois ramos que não suprem a grande demanda atual, que é a indústria. E além do mais, só filho de rico pode fazer, é faculdade paga e cara. (Cruzeiro do Sul,12 jun.1979 – p.3)


Como na ampla campanha em 1969, desta vez também os alunos e a comunidade não seriam atendidos em suas reivindicações. Os alunos, depois de perderem o primeiro semestre letivo e sob ameaça de terem a Faculdade fechada ou perderem também o segundo semestre, voltaram às aulas em setembro de 1979.

A política governamental dos cursos de curta duração, fruto da reforma instituída pela Lei 5.540/68, e com objetivos expressos na primeira parte deste trabalho, prevaleceu.

Avaliando os resultados obtidos neste confronto, os ex-alunos consideram que nada ganharam. Perderam o semestre e não conseguiram a modificação pretendida.

Uma análise mais acurada mostra que a simples mudança na denominação de algumas disciplinas, ocorrida em janeiro de 1981 e que aparentemente nada significou, na realidade teve grande valor porque demonstrou que a terminalidade pretendida pelos propugnadores iniciais dos cursos de tecnologia estava rompida. As novas denominações das disciplinas seriam melhor aceitas para a complementação de estudo21.

Ao usar os três anos de estudo gratuito mantido pelo Estado para posteriormente cursar Engenharia Plena, e assim ter acesso inclusive aos Cursos de Pós-Graduação, os alunos da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba desenvolveram a estratégia possível e fizeram o que estava ao seu alcance para unificar o sistema educacional brasileiro, tão segregado entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, entre aqueles que planejam e os que executam e entre a escola da elite e a escola do povo.

Neste trabalho narrei a trajetória da Faculdade de Tecnologia de Sorocaba desde as origens, até o ano de 1981, utilizando o método dialético e tentando estabelecer as relações entre a sociedade que produziu as condições para criação da escola e a resposta dada pela instituição à sociedade ao moldar estas mesmas relações. Demonstrei no decorrer da pesquisa que a intensa campanha desenvolvida na cidade de Sorocaba no final da década de 1960 pela instalação da Faculdade Pública de Engenharia, foi um fator determinante na identidade da escola e nas contradições apontadas no seu cotidiano.

Ao comparar os documentos que instituíram os objetivos do curso de tecnologia e suas ementas, com o que de fato ocorreu na sala de aula, comprovei discrepâncias consideráveis entre o declarado e o executado. O discurso ideológico que procurava justificar a superioridade do novo curso, em relação à engenharia tradicional, não convenceu a comunidade.

Ao contrário de outras escolas de tecnologia, que surgiram em função da possibilidade proporcionada pela Reforma Universitária, de um ensino mais rápido e a custos mais baixos que os tradicionais, a Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, por ser recebida na comunidade como um prêmio de consolação, tentou superar esta condição, no período analisado, e se aproximar do ensino de engenharia tradicional.

Entre a escola desejada pela comunidade e aquela que foi “arrancada” dos poderes públicos se instalou a utopia possível.

Tentar sempre ir além e ultrapassar os limites oferecidos era o trabalho realizado diariamente.

O Curso de Oficinas e mais tarde o Curso de Projetos, não abriram mão da teoria necessária à formação do pensamento e o trabalho desenvolvido pelos professores pioneiros, fez com que os alunos se sentissem estimulados a completar os estudos, cursando Engenharia, na tentativa de obter o status social de uma profissão considerada nobre . Ao buscar esta complementação, verificaram que ela quase nada acrescentava à formação profissional – o que proporcionava era apenas o referido status.Tentar transformar os cursos de tecnologia em engenharia plena foi o objetivo não conseguido da greve de 1979, que quase provocou o fechamento da escola.

Na Faculdade de Tecnologia de Sorocaba, no período analisado, ficou demonstrado o estigma que sempre acompanhou o ensino técnico, razão pela qual a comunidade procurava afastar-se dele. A denominação de “curso superior” foi considerada insuficiente para superar os quase cinco séculos de preconceito contra as escolas do trabalho.



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