A incerteza do mundo e você amanhã



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A incerteza do mundo

e você amanhã...

Fernando Moraes Fonseca Júnior*
Esse mal do seu tempo, essa situação existencial, podemos exprimi-los em duas palavras: incerteza e confusão. (...) Uma época de um enriquecimento prodigioso do pensamento e de uma transformação profunda da atitude espiritual do homem; uma época possuída por uma verdadeira paixão da descoberta (...) tentaram fundar uma ciência nova, uma física nova (...)

Alargamento sem igual da imagem histórica, geográfica, científica do homem e do mundo. Fervilhamento confuso e fecundo de idéias novas e de idéias renovadas. Renascimento de um mundo esquecido e de um mundo novo. Mas também crítica, abalo, e enfim dissolução e mesmo destruição e morte progressiva das antigas crenças, das antigas verdades tradicionais que davam ao homem a certeza do saber e a segurança da ação. (...) Um amontoado de riquezas e um amontoado de escombros: tal é o resultado desta atividade fecunda e confusa (...) privado de suas normas tradicionais de juízo e de escolha, o homem sente-se perdido num mundo que se tornou incerto. Mundo onde nada é seguro e onde tudo é possível. Ora, pouco a pouco a dúvida instala-se. Pois se tudo é possível, é que nada é verdadeiro. E se nada é seguro, só o erro é certo. (...) de fato, nada é mais que opinião num mundo incerto. (...) Porque a filosofia tenta sempre dar-nos uma resposta à dupla questão: "que e que é?" e "que sou eu?"(...) e nas épocas felizes ela começa por aquilo que é, pelo Mundo, pelo Cosmo, e é a partir do Cosmo que tenta responder à pergunta "que sou eu?". (...) Mas nas épocas críticas, épocas de crise, em que o Ser, o Mundo, o Cosmo se torna incerto, se desagrega e estilhaça, a filosofia volta-se para o homem. Começa então pelo "que sou eu?", interroga aquele que põe as questões.

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*Tem formação em Física e Filosofia; é assessor de educação a distância da Fundação Vanzolini (USP) e da Universidade de Mogi das Cruzes; seu trabalho atual está voltado para a formação de professores para uso de novas tecnologias.



O texto acima, do filósofo historiador Alexandre Koyré, fala sobre o século XVII e o contexto da obra de Descartes. Quando o tema é "novos tempos", parece que não há palavras com significância suficiente para exprimir a perplexidade reinante. Não é fácil perceber e dimensionar adequadamente um vagalhão quando ele entra pela nossa boca e explode em mil facetas em nossas vidas. A velocidade com que as surpresas têm-se sucedido desafia nossa imaginação quando o que queremos é desvelar possíveis conseqüências na forma presente e fatura de organizar e produzir a vida, ou, ao menos, apenas a nossa própria subsistência. Estes não são, definitivamente, tempos fáceis, como de resto sempre pareceu em meio às crises, só que agora há algo de verdadeiramente inusitado. Alguns falam em "revolução tecnológico-científica", mas não creio que sequer se aproximem do verdadeiro significado dos novos ventos, a menos que se redefina a palavra revolução, pois que as passadas significaram a substituição de certo estado de coisas por outro, que no mais das vezes era bem conhecido, antes mesmo da própria revolução. Revoluções sempre foram processos definidos no tempo e no espaço. A luta de um grupo contra outro, de uma idéia contra outra, um choque de interesses, de valores, de concepções de mundo. No atual caso, a mudança mais significativa é que doravante o estado natural das coisas será o “não-estado”, e esta revolução se caracterizará por sua natureza permanente, por derrubar um pilar atrás do outro sem nenhuma finalidade intrínseca, sem um aspecto último. Aqueles que por esta ou aquela razão caminham em direção às mudanças são os mesmos que por essas e outras defendem a conservação. E o caos. Os agentes da transformação são os arautos da tradição. Acabou a segurança do saber, de conhecer a verdade do seu tempo, de dominar o cenário, pois isso será totalmente impossível para qualquer um de nós daqui para a frente. Simplesmente porque não há mais cenário, ao menos aquele tipo de cenário relativamente estável, capaz de manter-se por umas boas gerações. Agora, ele passa diante de nossos sentidos a uma velocidade sobre-humana, cegando nossa razão, enchendo de vazio as nossas certezas. Quando mal acomodamos uma nova constatação, descobrimos que ela já foi expurgada por outra e mais outra. Não há mais terra firme onde pisar. Pense nas cenas do comercial em que você sequer vê o que está enxergando; pense no que entra em sua mente sem que você perceba, a todo instante, quando anda pelas ruas, quando vai ao cinema, quando lê os jornais, deixa o rádio ligado em meio ao trânsito ou assiste ao programa de entrevistas antes de dormir. É a era da "superexposição" e da "sobreposição" das coisas e das idéias. Agora mais que nunca somos seres mutantes, nossos neurônios sendo constantemente bombardeados por inputs do mundo que passa alucinado em nossa existência, camaleões cibernéticos da era da informação. Informação que é a hóstia sagrada deste pós-tudo eletrônico... tudo sendo projetado em nós, de olhos sempre abertos e impedidos de dormir, nessa espécie de estupro mental imaginado por Anthony Burgess, em “Laranja Mecânica”.
Mudamos tantas vezes em nossa curta existência que é uma temeridade acreditar que há alguma unidade em nosso eu. E as crianças, esses moles suscetíveis à menor pressão, que já cedo parecem ter existido mil vezes? Seus dedinhos urgentes apertam os controles do futuro, ligam e desligam tudo em todo lugar, põem a andar, a falar, a piscar... Seus olhinhos mágicos parecem não perder um único movimento, uma única incerteza, um fio de luz qualquer. E onde está aquele homem que nunca saía de sua aldeia, pés fincados na terra com a força das raízes de uma árvore centenária; onde está aquele ser que só conhecia alguns poucos quilômetros à sua volta, para o qual todo o mais era lenda e ficção; onde estão os Kant que nunca deixaram suas cidades. Nossas salas são, hoje, projetadas a milhares de quilômetros, no presente, passado ou futuro, e nós, grudados em nossas poltronas, somos lançados em meio a outros povos, outras verdades, outros sistemas, e aprendemos sem perceber. O mundo invade nossas casas pelo fio telefônico, pelas antenas, pelos pagers e computadores. São eletromagnéticas, ondas, vagalhões... De repente lá está o avião inimigo, e nós em seu encalço, coração a mil e... bum! E logo depois, sentimos o cheiro da grama, o suor do atacante e quase tocamos na bola lançada de longe... Um pouco mais tarde, franco-atiradores invadem o jardim e mergulhamos no drama do casal morto na ponte. E lá vamos de novo, sentir o frio do Ártico, do cume do Evereste, arder em alguma savana, nos bantustões sul-africanos... Está na ponta de nossos dedos o mundo além de nossos olhos, além de nosso tempo e além do nosso espaço. Está na ponta de nossos dedos o mundo além da imaginação. De nossos quartos, podemos falar com quem nunca vimos, com quem até nunca existiu; podemos cruzar madrugadas na imensidão das memórias ram, vasculhando os baús de velhos computadores quase abandonados, empoeirados, solitários. Quem duvida de alguma coisa'? O que é impossível? Viajar no passado e no futuro? Já não viajamos assim através da minuciosa reconstituição das pesquisas e dos filmes? Que imagem tinha o homem do

passado sobre seu próprio passado? Que representações ele tinha? E essa tal de realidade virtual, quando ela se instalar ao nosso lado, quando for nossa concubina? Já pensou em estar onde não é possível estar? Já pensou em ser operado por um especialista a dez mil quilômetros de distância? Temos quase tudo em nossas mãos e, paradoxalmente, não conseguimos mais segurar quase nada. Vivemos hoje mais tempo no espaço virtual do que no real. Grande parte das coisas cotidianas de nossa vida é intocável, é longínqua, não é material. Vivemos de conceitos, de abstrações, de representações mentais. Criamos instrumentos e desenvolvimento cognitivo suficientes para vivermos de descrições, alucinações lingüísticas percebidas como realidades cotidianas, efêmeras, mas cotidianas. Pouco mais que miragens simbólicas. A capacidade de entender e manipular símbolos é proporcional à capacidade de entender e manipular o mundo à nossa volta, incluindo, principalmente, a manipulação de pessoas.



Tantos analfabetismos
E há, cada vez mais, sistemas simbólicos a serem dominados para que se supere, no plano individual, o estágio de analfabetismo mais primário. Sim, pense, já não faz mais sentido falar apenas em analfabetismo mas, mais além, de inúmeros analfabetismos! Inúmeras incapacidades de acesso à informação, ao saber, aos valores deste e daquele sistema por não dominar seus códigos de expressão. Não se trata mais "apenas" de não saber ler, mas sim de saber ler com malícia, produzindo conexões, capacidade de ler a densidade de textos produzidos com o grau de sofisticação que a humanidade desenvolveu ao longo, principalmente, destes últimos séculos. Há muitos textos naquele velho texto... Há profundidades imensas, abissais. E os hipertextos, quando soubermos fazê-los com o grau de aprimoramento que temos com seus ancestrais? Quase todos são analfabetos em muitos campos de saber importantes para suas necessidades vitais. E isso nos faz mais dependentes uns dos outros. Alguns desses campos, mais transversais, são, hoje, obstáculos quase tão significativos para a inclusão social mais sofisticada quanto o é a leitura básica na língua materna. É o caso da tecnologia ordinária presente em nosso dia-a-dia. Quem pode se atrever a não dominar a simbologia da informática e suas incontáveis manifestações? Certamente esse alguém estará "falando outra língua", não a do seu tempo, e corre o sério risco de daqui a pouco não conseguir abrir a geladeira. Logo, logo, quem poderá não dominar a simbologia da matemática, da física, da química, da biologia, da história, da psicologia... Cada campo desses já acumula um mundo em si. Cada campo desses já é capaz de formar sistemas internos que uma vida inteira não daria conta de interpretar. E, agora, cada campo desses se lança, para progredir, no espaço do outro, se entrelaçando, formando espirais, galhos, ramos novos de conhecimento. Uma explosão imensa de possibilidades surge diante de nossos sentidos.

Voltar a olhar o céu e a terra
A "aprendizagem", nesse novo espaço de existência, adquire dimensões inusitadas. Precisamos nos habilitar a caminhar em um mundo repleto de "incertezas", em um mundo mutante, instável, sempre novo. Acabaram-se as pedras seguras por onde traçávamos nossa existência. Tudo o que sabemos hoje poderá ser poeira amanhã, nada mais que degraus gastos da sabedoria da humanidade. Aquele saber de ontem que subsistia no cerne do novo está sendo desalojado, abalado, negado ou levado para a periferia. A própria ciência, enquanto forma de organizar o entendimento dos fenômenos da existência, por vezes limita-se a leiloar interpretações do mundo em batalhas repletas de egocentrismos e vazios de significado. Precisamos saber andar no escuro, como cegos que seremos de agora em diante. Ver o quê? Onde? As imagens estão contaminadas de uma bizarra doença que as deforma: o excesso, o overflow. Precisamos ter a humildade de pedir socorro ao olfato, à audição, ao instinto, à realidade fantástica, ao nonsense. Voltar a olhar o céu e a terra. E o computador. Precisamos aprender, e o temos feito como nunca, ao menos esse tipo de aprendizagem que todos conhecem, advinda da experiência de múltiplas situações vividas, de múltiplas decisões tomadas e de outras tantas observadas. Essa aprendizagem natural que depende do ver, do imitar, do analisar, do existir... Essa aprendizagem é enormemente acelerada pelo viver alucinado e pelo peso dessa cascata de informações que desaba diariamente em nossas cabeças. As novas e mais evoluídas gerações de nossa espécie são capazes de escutar música, ver TV, surfar na Internet e pensar em outra coisa tudo ao mesmo tempo, numa soma até então sobre-humana de "tempos de existência". Estão em mais lugares do que seus corpos podem sustentar a um só tempo! Viva a genética e a evolução!
Estaremos, desde agora, sempre rumo a algo intangível, e que está muito além do nosso poder de definição; algo que desconcerta as mentes, que dilacera certezas desafiando nossa capacidade de continuarmos humanos. Para continuar a ser, precisaremos redefinir também este conceito. Que é afinal ser humano? Quem poderá dizê-lo? Talvez a voz interior que nasce em cada um com as coisas simples vindas do prazer, do belo que há na harmonia. Que essas ou outras possibilidades da existência pelo menos nos ajudem a definir limites, pois que essa tal "revolução" não tem orientação alguma e os mesmos saberes que conduzem ao bem, bem podem conduzir ao mal. Não podemos esquecer que nos cabe a definição do que queremos ser, não há a quem delegar, e o destino não tem sido bom companheiro. Imaginar que a técnica e o conhecimento científico garantem por si sós o bom futuro é crer que a correnteza leva sempre ao destino. Não! Pensem em Hiroshima e imaginem quantos monstros medonhos vão sair dos tubos de ensaio, dos laboratórios de genética, das mentes infectadas, desesperadas, psicóticas.

Viver na sociedade high-tech: como é?
Viver em uma sociedade high-tech é um desafio à humanidade. Um desafio histórico, social, moral. Um desafio contraditório; um desafio global; um desafio àquilo que é estritamente individual. Uma época de colocar o mundo inteiro dentro de si, e uma época de garantir o seu mundo pessoal. Tempo das maiorias e espaços das minorias. Senão será uma pasta só, uma infeliz degeneração, ou então um salve-se-quem-puder. Não será nada fácil legitimar o poder e garantir sua beleza, sua imagem de deus mitológico. O poder está em todo lugar e parece não estar em lugar nenhum, em ninguém. O poder é uma espécie de energia capaz de eletrocutar a todos: todos lhe sentem a atração, todos lhe temem ação... Parece entidade sobrenatural, incontrolável em seus desígnios e, mais assustador, aparenta ter uma lógica interna, inescrutável, capaz apenas de mostrar sua face perversa. Com o poder, ou se está de bem ou se está de mal. Não será nada fácil contradizer o óbvio e lutar contra o planeta em cada muda luta individual. Devemos resistir à tendência dos organismos de isolar, encapsulando em quistos as porções diferentes do tecido. Vivam todos os seres e sistemas estranhos do mundo: os loucos, os cubanos, os psiquiatras, as rocinhas, os surdos-mudos-cegos, os Betinhos, os rabinos, os micos-leões-dourados... Eles são a manifestação da saúde desse tecido que o planeta constitui. Se forem extintos, seremos todos em breve. E o fim da diversidade. A verdade é efêmera e monolítica neste mundo atual. Cada um de nós estará em contato com mais coisas sobre as quais nada sabe do que com as outras. E cada vez será mais assim. Precisamos aprender a conviver com a insegurança do não saber. Precisamos aprender a arriscar para não paralisar. Não ter medo de errar, pois só isso será certo. Precisamos aprender a reorientar nossos sentidos para a criação. Estaremos sempre reinventando nosso ser. Até mesmo em nossa vida cotidiana, ordinária, teremos que nos reinventar todos os dias. A cada minuto aparecerá algo novo, sedutor, irresistível. Você mal conhece o controle remoto e já há outro melhor; você nem aprendeu a interface e surge outra mais. E aquele ícone então, onde foi parar? Morreu? Você acredita em alguma ideologia? Cuidado, ela está mais próxima do fim do que você pode suspeitar. Ainda posso escutar o barulho do muro caindo. Você acredita em um Deus? Precisamos destinar mais tempo para o estar sozinhos, redescobrir o sentido de se lambuzar no ócio, no jogo, nos amigos. Precisamos encontrar novos espaços de estar e de fazer; espaços de participação e de controle social. Os controles têm falhado... Ah!, isso eles têm, flagrantemente. Eles já não servem mais, já podem ser petrificados nos livros da história. Precisamos encontrar meios humanísticos de distribuir a riqueza e a pobreza.


Desemprego e AIDS
E é bom lembrar que a humanidade tem produzido mais riqueza do que em qualquer outra época, quer seja em termos absolutos ou relativos. Já não há por que haver gente morrendo de frio, de tuberculose ou de fome. E só uma questão de exercício da racionalidade, ou, antes ainda, do mais primário instinto de cooperação animal que deveria prevalecer em nossa espécie, mas costuma

se manifestar mais claramente nos gorilas e nos cães. Chega de ver a fome na barriga dos outros como quem assiste ao Jornal Nacional. E verdade, a fome existe em alguém, pessoa viva ou quase viva. Chega de ver o desemprego como uma conversa de talk-show. Ele é uma invenção humana daquelas que matam, degenerando a existência devagarinho. E quando falar em desemprego, sem essa de que ele é conjuntural, que é um mal que passa logo. Desemprego é a AIDS da nossa organização social. Ele está na alma do nosso sistema de distribuição de riqueza, que já agora confundimos com o nosso próprio sistema de valores. O desemprego veio para ser seu conselheiro, para fazer companhia à sua família, aos seus amigos. Veio para deitar em seu travesseiro e acompanhá-lo em sua insônia. Como a AIDS. Você está no grupo de risco? Estamos todos metidos nisso até o pescoço. Ou alguém consegue esquecer o que é a miséria? Ou se lembra, talvez quem sabe, de alguém que não tenha medo da miséria no futuro; que não fuja dela; que não a use como justificativa para seu comportamento assombrado, mesquinho, apequenado. Desemprego e miséria nasceram do homem e matam o homem. Temos que encontrar a resposta para essa equação medonha que inventamos, onde tudo é incógnita. Onde a produção de riqueza virou caminho para a pobreza, para as desigualdades. Desigualdade, essa entropia de nossa organização social, é o sintoma de doença no sistema, falência dos valores humanos que a humanidade idealiza. Precisa estar claro que esse modo de estar no planeta não é inevitável, não é destino, não é divino, não é karma. Acorde! Na realidade, é só uma invenção humana. Não devemos agir como se a única possibilidade fosse caminhar para o matadouro, para os chuveiros de gás, sem subterfúgios, sem cercas eletrificadas. Ou será que já renunciamos à vocação à humanidade? Até muito daquilo que é considerado atributo exclusivo dos homens já é embutido nos circuitos eletrônicos. Não é mais uma questão de fiar nem tecer. E de pensar! Já há saber suficiente para humanizar o trabalho relegando às "máquinas" o que é de sua natureza. Enquanto o trabalho for o meio socialmente organizado de subsistir, precisamos reduzir as jornadas de trabalho e garantir trabalho a todos. Mas também porque é desumano entregar a parcela mais ativa da vida a atividades que na maioria das vezes nada têm de prazerosas, apenas por necessidade de sobrevivência. A humanidade, pelo saber objetivo que tem, já poderia ter superado esse estágio de sua infância. Precisamos de trabalho criativo e com mais autonomia; aprender a trabalhar com prazer e a só trabalhar no que dá prazer. Será muito desejar o que é humano que se deseje? Ou então, ao menos havemos de considerar que será desumano competir em velocidade ou precisão com as máquinas. Será desumano, também, automatizar nossas indústrias e nossos escritórios, gerando fome, desesperança e incredulidade; como será igualmente desumano deixar homens aparafusando e carimbando somente para poderem comer. Que espécie de organização perversa é essa? E essa coisa agora das máquinas "pensarem"? Onde isso vai parar? Não vai. Não é mais possível dizer o que é e o que não é próprio da natureza das máquinas, ao menos não trivialmente. Elas já estão simulando pensamento, se auto-adaptando, aprendendo. Já estão tomando decisões... É claro que por trás de cada máquina há uma idéia humana, que a gerou e, prevista ou imprevistamente, gerou suas conseqüências. Mas que mundo será esse em que o pensamento humano, seu querer, seu arbítrio, enfim seus sistemas de valores, podem ser empacotados, compactados e congelados eternamente em ram e rom? Que universo é esse, afinal, em que alguns valores particulares gravados a laser podem comandar a vida humana, se sobrepor a ela, ser sua senhora? As idéias e inteligências talvez ainda não brotem espontaneamente dos chips, mas já podem ser eternizadas e entronizadas ali. Como discutir com as máquinas os sistemas de valores de quem as criou? Preferiria polemizar com seus criadores. Não podemos e não queremos impedir a explosão da mecatrônica, mas temos que dar um sentido humano a ela. Há que se garantir mínimos aceitáveis para a consciência moralmente humanística. Um homem, uma mulher, uma criança, um velho, uma família, um cão, pedindo o pão, mendigando um tostão, dormindo no chão... duro, com o corpo amortecido pelo álcool, embriagam nossa consciência, agridem nossa condição de gente honesta; nenhum puro pode entrar em casa, pisar o tapete macio, abrir a geladeira e morder um naco de queijo qualquer sem manchar sua estrutura moral, sem inocular em si a imagem do mal. É claro que há competência diferenciada entre os seres, mas há também uma ética necessária para a equilibração dos agentes sociais, uma espécie de estrutura invisível capaz de sustentar esse tecido com justiça. Ou, então, é enfrentar a degradação do próprio nicho, subindo as grades, fechando os olhos; até o relâmpago final; até a cegueira definitiva. Está mordendo nossos calcanhares essa questão de como resolveremos a distribuição da riqueza, num mundo em que ela é preponderantemente produzida por máquinas, enquanto a atuação do homem passa a ser sutil, difusa: no alto "restrita" a insights e embaixo a limpeza dos banheiros. Não adianta fecharmos os olhos para fingir que um enorme salto foi dado, que não existem mais homens nas minas de carvão, nos esgotos, nos porões do mundo. Eles podem aparecer de repente em seu banheiro, saídos da latrina. Experimente deixar a tampa aberta...
E fazer o que para garantir o futuro?
Tudo. Tudo que elabora informação, conhecimento, saber-fazer, que é veículo para a emoção. Tudo que é para o ócio, para o lazer, para o entretenimento. Tudo que é melhorar a vida do mundo, diminuir suas dores, curar suas feridas, apaziguar seus conflitos. É tempo de comunicação e de informática, de saber mover-se nos "pântanos da informação", na Internet, nas ruas, em todo lugar, pesquisando, compilando, hierarquizando, organizando, gerando; materiais-multimídia, multissensórios, pós-cognitivos. Peças de comunicação não lineares, multidimensionais. É tempo de turismo, de brincar e de aplaudir, de dar vazão sistemática ao gênio criativo e à sensibilidade, de ver e de sentir o humano que há além da superfície das coisas e em todas as coisas É tempo de biologia, de genética e de medicina, de responder humanamente à dor, ao ciclo vital, salvando vidas perdidas, melhorando as vidas cotidianas, integrando o homem ao mundo. É tempo de agricultura, de ecologia e de meteorologia, de entender os ciclos naturais e se aproveitar deles, jogando mais sutilmente o jogo da natureza, acabando com a coprofagia e com a inanição. É tempo de leis, do império da justiça, onde todos os indivíduos estarão garantidos em seus direitos humanos e sociais e também onde todos estarão garantidos contra os direitos dos indivíduos. É tempo de ressignificar a própria justiça, de fazê-la compatível com os valores mais elevados da espécie humana. E, também, é tempo de torná-la mais ágil, equipada e distante dos nichos de poder corrupto. É preciso que as coisas sejam orientadas por novos paradigmas de existência, algo que dê sentido humano ao fazer trabalho, fazer ensino, fazer amigos, fazer amor. Enfim, o mundo continuará precisando de tudo que sempre precisou, mas muito mais, e mais profundamente entrelaçado com o concreto, comprometido com a humanidade das coisas. O mundo continuará sempre à procura daqueles capazes de redescreverem o próprio mundo, emprestando cores e sabores novos ao presente, passado e futuro.
Quanto a você, note que já mudou. Um alguém normal dos dias atuais, já conhece mais do universo do que Galileu, tanta matemática quanto Newton, quase toda a psicologia de Freud... Alguém normal já conhece o clone chamado de Dolly ou, quem sabe, um embrião que, agora amigo seu, foi concebido num tubo. Alguém normal já fala ou entende fragmentos de pelo menos três idiomas; as novelas falam espanhol; a MTV fala inglês... Já opera máquinas programáveis que vão de rádio-relógios aos descendentes superiores de Hall 9000. Alguém normal já esteve, ouviu, uma centena de países, um milhão de lugares, talvez até alguns planetas e estrelas... Ora, esse alguém é um ser muito distinto daquele que habitava esta terra cem anos atrás, há mil ou há dez mil. Tem um pouco mais de habilidade do que a necessária para a construção de ferramentas, ainda que seja com condutores e fios. Você evoluiu. Só que, agora, aquele quantum de conhecimento que demorava uma geração para ser codificado, bem... agora ele acontece todos os dias, todos os instantes, até quando você apenas escova os dentes ou espera o elevador. Não fique nervoso, é o seu sistema nervoso que é assim, mais ágil, mais “ligadão”. Alimente suas sinapses, não tenha medo de pensar, de agir. Não tenha medo de você, do que é (in)capaz. Às vezes pode dar vertigem, mas você acaba se acostumando. Seu cérebro não vai estourar sua caixa craniana. Take it Easy. Be happy. Não dê tanta importância à incerteza do mundo e você amanhã. A propósito, quantos quilos você tem?

Referências Bibliográficas
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência. São Paulo: Brasiliense, 1981.

BROCKMAN, John. Einstein, Gertrude Stein, Wittgenstein e Frankestein. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

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KOYRÉ, Alexandre. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Editorial Presença, 1963.

LORENZ, Konrad. A demolição do homem: crítica à falsa religião do progresso. São Paulo: Brasiliense, 1983.

PRODI, Giorgio. O Indivíduo e sua marca. São Paulo: Editora UNESP, 1989.

SAGAN, Carl. O romance da ciência. São Paulo: Francisco Alves, 1974.



SCHAFF, Adam. A sociedade informática. São Paulo: Editora UNESP/Brasiliense, 1985.

STOCK, Gregory. Metaman. New York: Simon & Schuster, 1993.

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