A indústria de máquinas e implementos agrícolas no rs: notas sobre a configuração recente 



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A indústria de máquinas e implementos agrícolas no RS: notas sobre a configuração recente

Clarisse Chiappini Castilhos

Maria Isabel Herz da Jornada.

Sheila S. Wagner Sternberg 

Raquel Cristina Guilardi

Resumo:

O artigo versa sobre a indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas (MIA) no RS - o primeiro produtor nacional desses bens - com ênfase no aglomerado industrial do Noroeste do Estado, formado pelos Coredes Alto Jacuí, Fronteira Noroeste, Noroeste Colonial e Produção. Essa região responde pela maior parte da produção e do emprego de MIA do Estado, sendo a sede de, pelo menos, duas grandes empresas vinculadas a grandes grupos internacionais: John Deere do Brasil S.A. (Horizontina) e AGCO do Brasil Ltda.(Santa Rosa).

Examinam-se as transformações ocorridas nessa indústria em decorrência do vigoroso processo de fusões e aquisições iniciado nos anos 70 e que se aprofundou na última década, resultando em uma nova configuração do setor. Partindo-se de um breve histórico da implantação desse setor no Brasil e no RS, contempla-se mais detidamente o desempenho recente da indústria de MIA para qualificar as mudanças em curso que imprimiram a feição atual desse segmento.
Palavras chave: indústria de máquinas e implementos agrícolas RS, fusões e aquisições, região noroeste
1. Introdução

A implantação da indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas – a seguir denominada MIA – no Brasil e no Rio Grande do Sul tem o seu referencial na década de 20, quando o governo autoriza as operações da Ford no País, para montar o trator Fordson importado dos Estados Unidos. Daí sucedeu-se um rol notável de empresas, nacionais e internacionais, que edificaram o setor no Brasil, e que forjaram um parque fabril com características próprias, obedecendo a condicionantes de ordem histórico-estrutural, tanto internos quanto externos ao País.

A expansão do setor no Brasil foi marcada, sobretudo, pela onda de investimentos, que sucedeu à II Guerra Mundial, nos anos 50, e pela implantação do Plano Nacional da Indústria de Tratores Agrícolas, contido no Plano de Metas do governo JK. Mais recentemente, a partir dos anos 90, o Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota), lançado em 2000 pelo BNDES, provocou um novo e expressivo impulso nessa indústria. Todavia, o setor começa a assumir uma nova configuração nos anos 70, quando se observa um movimento de concentração na indústria produtora de máquinas agrícolas, com a presença de poucas empresas - quase todas internacionais -, relacionado à expansão da lavoura de grãos que, por estar voltada principalmente para a exportação, requer ganhos crescentes de produtividade e à posição do Brasil na divisão internacional de trabalho, como fornecedor de commodities agrícolas e industriais.

Atualmente, em virtude de um agressivo processo de fusões e aquisições capitaneado pelos grandes grupos internacionais, o setor está reduzido a um número menor de empresas de grande porte, altamente concentradas, como a AGCO do Brasil, a John Deere e a CNH. Essa tendência insere-se dentro das novas condições mundiais de concorrência em todas as atividades produtivas. Em escala mundial, desde os anos 70, engendrou-se a chamada financeirização globalizada (Chesnais,1999) que impele os grandes grupos a uma concentração econômica cada vez maior e mais articulada em torno do núcleo financeiro.

Sob a ótica da reestruturação produtiva as empresas líderes adotam a estratégia de desverticalização, ou seja, a concentração econômica traz consigo a desconcentração técnica. As grandes empresas focaram suas atividades nas pontas mais lucrativas das cadeias produtivas, desativando diversas etapas que integram a produção e estimulando a criação de muitas novas empresas para desempenhar essas atividades. Essas últimas passam a ser fornecedoras da atividade fim. É claro que esse processo também repercutiu sobre a indústria de MIA do Estado dando origem a um grande número de empresas de pequeno e médio porte, que assumiram a função de fornecedoras de peças e componentes para as grandes empresas. Um dos exemplos é o fechamento das atividades de fundição que passaram a ser desempenhadas por pequenas e médias metalúrgicas dirigidas muitas vezes por ex-funcionários.

O setor de MIA é caracterizado pela heterogeneidade, abrigando empresas de grande porte, a maioria fabricante de máquinas agrícolas, e uma gama de empresas menores, muitas delas de estrutura familiar, dedicada a fabricar implementos agrícolas, que também sofreram as conseqüências do processo de concentração, de reestruturação produtiva e de transformação da atividade agrícola.

Finalmente, cabe lembrar que persistem, no Estado, empresas gaúchas produtoras de máquinas e implementos agrícolas de médio e grande porte, que não foram absorvidas pelos grandes grupos internacionais e que sofrem dificuldades para manter suas fatias de mercados, principalmente em função das atuais condições de financiamento, mais favoráveis aos grandes grupos que possuem seus próprios bancos e financeiras.

O texto foca o setor de MIA do RS - o primeiro produtor nacional desses bens - com ênfase no aglomerado industrial do Noroeste do Estado, representado pelos Coredes Alto Jacuí, Fronteira Noroeste, Noroeste Colonial e Produção. Essa região, por sua vez, responde pela maior parte da produção e emprego de MIA do Estado, sendo a sede de, pelo menos, duas grandes empresas vinculadas a grandes grupos internacionais: John Deere do Brasil S.A.,(Horizontina) e AGCO do Brasil Ltda.(Santa Rosa).

Tendo como pano de fundo a realidade que cerca essa atividade, descreveremos as transformações ocorridas no setor de máquinas e implementos agrícolas em decorrência do processo de fusões e aquisições iniciadas nos anos 70. Partiremos de um breve histórico da implantação desse setor no Brasil e no RS, para em seguida trabalhar com mais detalhe o período recente. Na última parte será examinado o quadro da atual configuração da indústria de MIA, no estado e na região Noroeste.


2. A configuração das indústrias de MIA no RS

2.1. Breve histórico dos grandes grupos empresariais

Com base nos trabalhos de Brum (2002) e Tascht (2006) efetua-se um resumo dos principais eventos que conformaram a indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas no Brasil e no RS, organizando esse relato segundo as principais fases de desenvolvimento dessa indústria.

A primeira fase compreende basicamente a segunda metade do séc. XIX, se estendendo até os anos 40. No início desse período a produção nacional se restringiu quase que exclusivamente a arados de tração animal e outros implementos agrícolas de fabricação artesanal, que constituíam o cerne do que se poderia chamar de indústria local de máquinas agrícolas. Os equipamentos mais sofisticados, que vão sendo pouco a pouco introduzidos nas lavouras de café no estado de São Paulo, e posteriormente no Paraná, são importados.

A importação torna-se mais regular a partir do início do séc. XX, quando também aparecem as primeiras máquinas agrícolas com tração mecânica, sendo que em 1919 instala-se em São Paulo uma unidade da Ford com o objetivo de importar tratores. Entre os anos 20 e 40 outras grandes empresas estrangeiras abrem filiais no Brasil, dedicando-se, principalmente, à importação de equipamentos. Também nesse período surgiram algumas empresas nacionais, como é o caso da Baldan, paulista, criada em 1928 para produzir arados de tração animal.

Entre os anos 1920 e 1940 inicia-se a implantação de um núcleo de indústria de MIA no Brasil, formado por pequenas e médias empresas nacionais, e por filiais de grupos internacionais, voltadas para a importação e para a produção de tratores e máquinas agrícolas com tração mecânica. Nessa época há uma ampliação da demanda interna por esses equipamentos, devido à expansão de algumas culturas, principalmente o café, simultânea à nova dinâmica de expansão internacional do capital que adota uma estratégia de conquista de novos mercados através da instalação de filiais nos países menos industrializados. No Brasil, nos anos 30 já se inicia a primeira etapa do processo de substituição de importações, quando a produção industrial orienta-se principalmente aos segmentos tradicionais, como têxteis, calçados e artigos de couro, alimentos e bebidas, cabendo principalmente ao capital estrangeiro ou às importações o suprimento de bens de capital necessários ao funcionamento das atividades produtivas.

Em 1919 o País registra a instalação da empresas Ford e, em 1926, da International Harvester, enquanto que no Rio Grande do Sul, a referência é a entrada em funcionamento da Kepler Weber, no município de Panambi, em 1925.

A segunda fase de desenvolvimento do setor de MIA tem como marco a II Guerra Mundial, quando se inicia a expansão do setor produtor de máquinas e implementos agrícolas. Pode-se, portanto, considerar que essa etapa, que se situa entre os anos 1940/1975, é caracterizada por novos investimentos e por um crescimento acelerado do número de empresas.

A II Guerra vem limitar a importação de bens de capital, onde se incluem os tratores, o que impulsionará a produção local desses bens. Durante esse período, o impedimento de importar serviu como estímulo à indústria brasileira em geral e também à elevação da produtividade agrícola, visto que existia uma demanda crescente por alimentos e insumos agrícolas por parte dos países envolvidos nesse episódio. Como conseqüência, entre os anos 45-50 ocorre uma forte expansão das áreas plantadas, a intensificação do uso de insumos químicos e sementes selecionadas e, naturalmente, a mecanização agrícola. Nesse período cabe destacar o pioneirismo das empresas gaúchas Schneider Logemann (SLC), que se instala em Horizontina em 1945 e Fuchs, em Ijuí, em 1942.

Logo a seguir, em decorrência do Plano de Metas, em vigor entre 1955 e 1961, a indústria brasileira ingressa na produção de bens de consumo durável e, em menor escala de bens de capital. No bojo desse Plano é lançado o “Plano Nacional da Indústria de tratores Agrícolas”1, em 1959. São esses dois fatores – a Guerra e o Plano de Tratores- que garantem a expansão dos investimentos em indústrias de máquinas e implementos agrícolas necessárias à crescente demanda doméstica.

É importante ressaltar que nessa fase o objetivo era expandir a indústria nacional de tratores e componentes, tanto porque estavam estabelecidas metas de nacionalização2, da mesma forma como na indústria automobilística, quanto porque estabelecia limitações à importação de equipamentos com similar nacional. É certo que o Plano Nacional de Tratores, além de contribuir decisivamente para a criação de unidades brasileiras e/ou nacionais de tratores, também apoiou a expansão da indústria de autopeças e componentes que, por sua vez, tornaram-se elementos decisivos para o desenvolvimento da indústria de máquinas e implementos agrícolas.

Pode-se verificar o grande número de novas empresas, nacionais e estrangeiras, implantadas no Brasil entre os anos 50 e 70. Dentre as estrangeiras, no estado de São Paulo, destacam-se: Ford, Allis Chalmers, Valmet do Brasil, Massey Ferguson,Yanmar Diesel do Brasil, Fiat , Case, Fundituba Metalúrgica e a New Holland que se localizou no Paraná. Entre as empresas nacionais de grande porte registra-se a ampliação e diversificação da Baldan Implementos Agrícolas.

Também é notável o número de novas empresas que surgem no Rio Grande do Sul, tanto de capital gaúcho, quanto internacional, cabendo destacar a forte participação de empresas de capitais nacionais. Esses novos investimentos orientar-se-ão preferencialmente para a região Noroeste que se torna rapidamente o principal centro produtor de MIA do RS, em função da existência de um ambiente econômico favorável a esse tipo de atividade. Dentre as empresas nacionais criadas no RS, nos anos 50/ 70, pode-se citar a SFIL, Máquinas Ideal, Francisco Stédile (Fras-Le), Agrisa, Lavrale, Metalúrgica Arcovila, Fankhauser, Jan, Semeato, Stara, de capital gaúcho. De capital internacional a principal empresa implantada nessa fase é a Massey Ferguson.

É importante chamar a atenção para a formação do aglomerado industrial de máquinas agrícolas da região Noroeste do Estado que, já no pós-guerra, apresentava um ambiente econômico, na terminologia de Porter, favorável a investimentos nessa área. Entre os atributos da região destacavam-se a existência de um importante e crescente mercado para a indústria de MIA devido à forte expansão da base agrícola durante esse período, baseada na produção de grãos para alimentação, com uma base fundiária menos concentrada do que no Sul do Estado. Também são importantes a pré-existência de uma indústria de implementos agrícolas com capacidade para de reconversão, passando a produzir autopeças e componentes, e a infraestrutura de ensino voltada para as necessidades produtivas locais, como é o caso do centro de formação de mão-de-obra (o colégio Evangélico Panambi criado em 1903) e de uma faculdade comunitária, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí (FAFI), criada em 1957, que em 1985 adquire o status de universidade (UNIJUI).

Finalmente, a terceira fase desse processo, se inicia nos anos 80 e se estende até o momento, caracterizando-se pelas fusões e aquisições entre os capitais que se haviam implantado nas fases anteriores. Como tendência geral verifica-se a compra dos capitais nacionais e de muitas unidades nacionais de empresas estrangeiras por grandes grupos internacionais. Ainda que essas empresas ampliem sua capacidade produtiva através da criação de novas unidades ou do aumento das unidades existentes, já não se verifica entrada de novas empresas no mercado de MIA. Esse movimento é reflexo das fusões e aquisições ocorridas a nível mundial e será analisada a seguir.


2.2. Evolução das empresas líderes

Já no final dos anos 70 as empresas de MIA no Brasil iniciam um processo de reestruturação onde se inclui a fusão ou associação entre empresas e a aquisição de empresas nacionais por internacionais, processo esse que se intensifica a partir de meados dos anos 80.

Esse movimento, que se insere no processo de estruturação do agronegócio no RS e no Brasil, está dentro do quadro da aquisição de terras para agricultura por capitais externos, bem como do processo de fusão e aquisição das indústrias de alimentos e outras ligadas à agroindústria. (Benetti, M., 2006). No contexto internacional verifica-se uma nova distribuição internacional do trabalho, baseado na especialização internacional das regiões, onde a América Latina será definida como um grande fornecedor mundial de commodities, particularmente commodities agroindustriais.

As informações contidas no quadro 1 permitem acompanhar a cronologia da formação das grandes empresas do setor de MIA, observando-se as diversas fases porque passaram as empresas desse setor. Conforme referido, na primeira fase ocorreu a criação de muitas unidades produtoras de implementos agrícolas, em sua grande maioria empresas nacionais, e de algumas estrangeiras importadoras de máquinas agrícolas. Na segunda fase ocorre a afirmação do setor de MIA com a expansão das empresas existentes, diversificação da produção e lançamento de novos produtos tecnologicamente mais avançados. Os avanços tecnológicos são significativos uma vez que o setor evolui de uma tecnologia simplificada, onde predomina a tração animal, para a fabricação de equipamentos de base eletromecânica.

Na fase que será detalhada a seguir, iniciada nos anos 80, o processo de fusão e aquisição de empresas torna-se a prática mais corriqueira para a conquista de novos mercados gerando uma grande concentração técnica e econômica entre as empresas que lideram a cadeia produtiva.

A descrição desse processo segue a constituição e evolução dos grupos empresariais que atualmente sãos líderes no mercado brasileiro, o que geralmente coincide com uma posição de liderança no mercado mundial, uma vez que a maioria está integrada a grandes grupos internacionais. Para isso, primeiro seguiremos os traços das empresas que se instalaram fora do Rio Grande do Sul (CNH Global e Agri-Tillage) e em seguida verificaremos a evolução daquelas que iniciaram suas operações no RS (John Deere, AGCO, Grupo Francisco Stédile e Grupo Khun).











A CNH Global passa por um interessante processo resultante de negociações entre grandes empresas, todas internacionais, em escala mundial e nacional, conforme pode ser observado no início do quadro 1. A formação da CNH no Brasil tem origem na primeira fase da indústria de MIA, quando a Ford instalou uma unidade para importar tratores em 1919, e a International Harvester instalou uma fábrica em 1926. Na segunda fase, outras empresas que fariam parte desse conglomerado também instalaram suas unidades no Brasil: a Moto Agrícola Ind. e Com., em 1953 (SP), a Ford em 1960 com a unidade produtiva em São Bernardo do Campo, a New Holland, em 1975 (Curitiba) e a Case, em 1977 (SP).

Na segunda metade dos anos 80 a Ford New Holland de Curitiba, resultante da aquisição da fábrica de colheitadeiras da New Holland pela Divisão da Ford Motor Company em 1986, será adquirida pelo grupo Fiat.

Em 1997 inicia a atuação da Case IH no Brasil. Esta empresa surgiu mundialmente em 1985 em conseqüência da aquisição da International Harvester pela Case.Em 1999, uma nova fusão em escala mundial – Case IH com New Holland- gera a CNH Global.

No ano de 2001, a CNH Global instala uma nova unidade em Curitiba onde já funcionava uma unidade da New Holland. Essa nova fábrica produz tratores e colheitadeiras de grãos e mantém um centro de pesquisa e desenvolvimento de produtos. Observe-se que a concretização de diversas associações, fusões e aquisições que levaram às transformações das unidades brasileiras envolvidas no processo, além de introduzir novos produtos no mercado, concentrou o poder econômico das empresas que passaram a ter maior controle do mercado nacional e tornaram-se mais integradas ao mercado mundial.

A localização dessas empresas em São Paulo e Curitiba relaciona-se com a expansão da lavoura empresarial de grãos, como soja, trigo e arroz, bem como com a introdução da lavoura de cana em São Paulo, o que gerou novas necessidades em termos de quantidade e tecnologia.

A Agri-Tillage, tem sua história ligada à empresa Narciso Baldan, nacional, que iniciou suas atividades no estado de São Paulo em 1928 como produtora de equipamentos de tração animal, passando em 1952 a produzir discos para grades e arados. Em 1976, época de expansão do setor de MIA, essa empresa amplia suas instalações e abre seu capital passando a denominar-se Baldan Implementos Agrícolas S/A. Além dos produtos já citados incorpora às suas atividades a produção de implementos agrícolas.

Em 1999, mesmo ano de criação da CNH Global, a Agri-Tillage, estrangeira, adquire o direito de fabricar todos os produtos da marca Baldan e diversificando a linha de produção.

A John Deere, multinacional de origem estadunidense, tem sua entrada no Brasil ligada a Schneider Logemann & Cia. Ltda (SLC), empresa gaúcha criada em 1945 na região Noroeste do RS, para produzir trilhadeiras e colheitadeiras rebocadas.

Em 1979 a John Deere adquiriu 20% das ações da SLC, passando a produzir máquinas agrícolas com tração eletro-mecânica. Em 1983 essa parceria permite que a unidade de Horizontina utilize tecnologia John Deere lançando então uma nova linha de colheitadeiras. Em 1996 a John Deere amplia sua participação para 40% das ações e a empresa passa a chamar-se SLC-John Deere Ltd, incluindo na sua produção a fabricação de tratores de marca SLC-John Deere. Em 1999 a John Deere assume o controle acionário da SLC e, em 2001, todos os produtos incorporam a marca John Deere, sendo definitivamente eliminada do mercado a marca SLC.

Continuando seu processo de expansão e de ampliação para novos mercados, implantou em 2005 uma nova unidade na cidade de Montenegro, destinada exclusivamente à produção de tratores de grande porte, destinados a propriedades extensas para atender demandas de produtores de cana-de-açúcar do Centro-Oeste.

No RS é exemplar o caso da AGCO que adquiriu empresas de capital gaúcho e estrangeiro, vindo a tornar-se uma das principais produtoras brasileiras de máquinas e implementos agrícolas.

A AGCO, empresa multinacional de origem estadunidense, adotou no Brasil e em esfera internacional, uma estratégia de expansão extremamente agressiva, adquirindo um grande número de empresas nacionais e estrangeiras aqui situadas. No Brasil essa empresa tem sua história ligada ao desenvolvimento do setor de MIA do Rio Grande do Sul. Pela complexidade dos laços que estabeleceu com as mais diversas empresas se faz necessário descrever sua trajetória a partir de uma das primeiras fábricas de MIA do Estado que posteriormente foi incorporada a AGCO.

Conforme o quadro 1, no ano de 1953, foi criada, no município de Santa Rosa, Noroeste do RS, a Indústria de Máquinas Ideal, de capital nacional, com o objetivo de produzir colheitadeiras, já totalmente inserida nos parâmetros dos equipamentos de tração eletro-mecânica. Essa empresa será adquirida pelo grupo Iochpe em 1965. Em 1962, a empresa SFIL-Schaendler & Filhos Ltda, também gaúcha, será implantada na Região Noroeste (Fortaleza dos Valos).

Entre 1960 e 1969, se instalaram em São Paulo diversas empresas estrangeiras produtoras de tratores, máquinas e implementos agrícolas e peças e componentes: Allis Chalmers (SP), Valmet do Brasil (Mogi das Cruzes), Massey Ferguson (Taboão da Serra), Fendt do Brasil (Diadema). No Rio Grande do Sul, é a partir de 1969 que se registra a entrada de investimentos estrangeiros com a implantação da estadunidense Massey Ferguson, no município de Canoas (RS) para produzir implementos agrícolas.

Na fase recente, iniciaram as fusões e aquisições que configuraram o atual grupo AGCO no Brasil. Ao nível nacional ocorreu a associação da Massey Ferguson com a Motores Perkins em 1980 cuja personalidade jurídica assumiu o nome de Massey Ferguson Perkins S/A. Em 1981 essa unidade será transferida para Canoas (RS). Nesse mesmo ano, a gaúcha Schaedler e Filhos passa a chamar-se Ind. Agrícola Fortaleza Imp/Expo. LTDA (SFIL), diversificando sua produção e integrando-se mais sistematicamente ao comércio internacional. Passa a produzir bens mais avançados tecnologicamente como kits de plantio direto adaptáveis a máquinas já existentes nas propriedades, plantadoras, também para plantio direto, para serem utilizadas nas semeaduras das culturas de inverno e verão.

Em 1984 a Massey Ferguson Perkins sofre nova alteração de sua razão social passando a chamar-se Massey Perkins e em 1989 assume a personalidade de Maxion S.A. especializando-se na produção de tratores e implementos e mantendo-se no município de Canoas. Em 1990, o Grupo Iochpe (que em 1965 havia adquirido a Ideal), assume 33% do capital da Maxion, e o grupo passa a chamar-se Iochpe-Maxion S.A.

No ano de 1994 a AGCO Corporation adquire a marca Massey Ferguson em todo o mundo e depois no Brasil. Em 1996, a marca Massey Ferguson no Brasil é comprada pela AGCO Corporation que assume a sede de Canoas e continua com a mesma linha de produtos. Nesse mesmo ano a AGCO compra a empresa Ideal (que pertencia ao grupo Iochpe) e assume a fábrica de colheitadeiras de Santa Rosa. Verifica-se portanto um processo de desnacionalização de várias empresas pela AGCO. Em 2007, a gaúcha SFIL, após sofrer diversas alterações acaba sendo absorvida pela AGCO.

Entre as empresas compradas pela AGCO, a trajetória da Valmet não é muito distinta da anteriormente descrita, com a diferença de que esta era uma estatal finlandesa que iniciou suas operações em São Paulo, 1960. Em 1997 a empresa matriz foi privatizada e, no Brasil, passou a se chamar Valtra/ Valmet. Em 2001 mudou novamente sua razão social para Valtra do Brasil sendo adquirida pela AGCO em 2005 que em 2007 iniciou a fabricação de colheitadeiras com a marca Valtra na unidade de Santa Rosa.

É interessante ainda nomear e situar alguns pontos dos dois outros grupos empresariais que constam do quadro 1. O Grupo Francisco Stédile remonta à instalação da Francisco Stédile S/A Manufaturas para Freios (Fras-Le)3 em Caxias do Sul, em 1954, quando obtém a licença de uma empresa italiana para fabricação de lonas para freio e revestimentos de embreagens. Em 1965 o Grupo assumiu o controle acionário da Indústria Gaúcha de Implementos Agrícolas (AGRISA), produtora de máquinas agrícolas e motores diesel, localizada em Sapucaia do Sul, que passou a denominar-se AGRALE S/A, com unidade em Caxias do Sul. Em 1969, o Grupo funda, também em Caxias do Sul, a Lavrale Máquinas Agrícolas Ltda, que , em 2002, ao fundir-se com a Agritech, constitui a Agritech Lavrale S/A Maquinário Agrícola e Componentes. A Agritech, por sua vez, tem origem na Yanmar Diesel Motores do Brasil S/A, com sede em São Paulo, instalada em 1970.

Finalmente, o Grupo Khun, de capital de origem francês, se estabelece no RS em 2005 quando compra a divisão agrícola da Metasa, instalada em 1997, em Passo Fundo, que passa a denominar-se Kunh Metasa. A Metasa, por sua vez, tem origem na Metalúrgica Arcovila, criada em 1975, em Marau, que, em 1982, muda sua razão social para Metasa S/A Indústria Metalúrgica. m Noroeste, focando sua produç unidade em Passo Fundo, tambs, marca Yanamar Agritech, motores odutos sGrupo Francisco Stra cont
3. Emprego e produção na indústria de MIA: perdas e ganhos no período recente

A indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas no RS passa por sensíveis transformações ao longo do período investigado (1995 a 2006), como reflexo de mudanças iniciadas nos anos 70 em escala mundial. De forma geral essa nova realidade internacional se caracteriza pela financeirização globalizada, pelas novas formas de expansão internacional do capital e pela reestruturação produtiva. Também no Brasil, as mudanças verificadas nas políticas macroeconômicas de ajuste adotadas para fazer frente a crises conjunturais que abalaram a economia brasileira e, de forma especial, a gaúcha nos últimos tempos, deixaram evidentemente suas marcas sobre o setor estudado.

Dentre as medidas de caráter macroeconômico que se refletiram sobre o desempenho exportador, destaca-se a adoção do regime de âncora cambial, entre os anos de 1994 e 1998, com efeitos deletérios sobre os segmentos exportadores, que enfrentaram severas dificuldades nas transações internacionais em razão do real valorizado. Em 1999, o abandono da âncora cambial, com a desvalorização da moeda, favoreceu as atividades exportadoras até que um novo ambiente de valorização cambial, sob o regime de câmbio flutuante, a partir do segundo semestre de 2004, traz novamente dificuldades para os setores vinculados ao mercado externo, que acusam prejuízos na sua atividade, sobretudo no RS, que tem na função exportadora um dinamizador da sua economia.

No caso da economia gaúcha, soma-se ainda a estreita vinculação da indústria com o setor primário, fazendo com que as vicissitudes no campo se propaguem para a indústria, afetando o desempenho de segmentos produtivos como o de máquinas e implementos agrícolas, que exibiu uma notável retração no nível do emprego formal e da atividade em 2005 e 2006, quando se registrou quebra de safra (2005) e queda nos preços dos grãos no mercado internacional, o que levou a um forte endividamento do produtor rural.

A importância do Estado na produção nacional de máquinas e implementos agrícolas pode ser atestada pela sua participação no emprego formal do congênere nacional, que pouco se alterou ao longo dos anos investigados. Em 2006, o RS era responsável por 36,0% dos empregados nesse segmento produtivo no Brasil, tendo atingido as maiores participações em 2003 e 2004 - em torno de 40% - quando emprego e produção estavam em alta. Ao nível do Estado, por sua vez, a assim denominada Região Noroeste representa 64,3% do contingente empregado no RS em 2006, com as participações mais expressivas em 2003 e 2004, aproximadamente 70%. A presença do RS na produção nacional de Máquinas Agrícolas Automotrizes é igualmente marcante, uma vez que, 46,2% dos produtos fabricados no País em 2006 provinham do Estado, embora tenha alcançado o seu pico em 2004, quando respondia por 54,1% do volume produzido4.

Para uma configuração inicial da indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas destaca-se, no RS, a existência de 325 estabelecimentos5 em 2006, a grande maioria (92,6%) de pequeno porte6, 5,8% de médio porte e 1,5% de grande porte, os quais empregam, na sua totalidade, 12.513 trabalhadores naquele ano. Na região Noroeste encontram-se 134 estabelecimentos nesse segmento produtivo (41,2% do total estadual), a maior parte deles (86,6%) pequenos, 10,4% médios e 3% grandes estabelecimentos, com uma população empregada de 8.042 indivíduos no seu todo. Observa-se, pois, comparativamente ao Estado, uma maior importância relativa das médias e grandes empresas no tecido industrial da Região (Tabelas 1 e 2)





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Ao longo dos anos enfocados –1995 a 2006 - o número de estabelecimentos produtores de MIA cresceu 54,7% no RS, uma variação bem abaixo daquela registrada na região Noroeste (91,4%) (Tabela 3). No Estado, os três últimos anos sobressaem-se como os que apresentam o maior número de empresas atuando nesse segmento – mais de 300 estabelecimentos -, ao passo que nos anos de 1996, 1997 e 1998 não se alcançam 200 empresas no RS. À semelhança do Estado, na região Noroeste são os últimos anos que apresentam o maior plantel de empresas, notadamente 2004 (146) e 2005 (156).



Ao se desagregar os estabelecimentos de acordo com o porte, observa-se que no Estado, no período analisado, os pequenos estabelecimentos experimentaram o maior crescimento (61,0%), muito acima das variações dos médios estabelecimentos (11,8%) e da totalidade deles. As grandes empresas, por sua vez, experimentaram uma queda de 16,7%, pela supressão7 de uma empresa em 2006. Na Região Noroeste, também nos estratos a variação foi maior do que as registradas no RS - as pequenas empresas cresceram 110,9%, as médias 27,3% e as grandes não se alteraram.

As distintas variações na quantidade de estabelecimentos em cada um dos estratos provocaram um aumento da participação relativa das pequenas empresas no universo das empresas no RS e na região Noroeste – mais significativo na Região do que no Estado - e o conseqüente recuo das médias e grandes nos dois espaços (Tabela 2). Enquanto no RS, as pequenas ganharam 3,6 pontos percentuais em sua participação, as médias e as grandes perderam 2,2 e 1,3 pontos percentuais, respectivamente; na Região Noroeste, a participação das pequenas cresceu 8,0 pontos percentuais contra um recuo das médias e grandes de 5,3 e de 2,7 pontos percentuais, respectivamente.

Todavia no tocante ao emprego formal o realce cabe às grandes empresas, mesmo tendo perdido importância relativa ao longo dos anos (Tabelas 4 e 5). Em 1995 elas respondiam por 47,6% do contingente empregado na MIA no RS e em 2006 por 40,4%, ao mesmo tempo em que as empresas de médio porte respondiam por 28,7% e 30,1%, respectivamente, e as pequenas, em 1995, por 23,7% e 29,5% em 2006. Esta perda de importância das grandes empresas na absorção de mão-de-obra resulta do distinto ritmo de crescimento do emprego em cada um dos estratos de porte, que revela quem foi mais atingido pelas transformações em curso na indústria de máquinas e implementos agrícolas (Tabela 6). No RS o emprego cresceu 17,2% entre 1995 e 20068, enquanto nas grandes empresas observou-se um recuo de -0,4% contra uma expansão de 23,0% nas médias e de 45,6% nas pequenas empresas. Na região Noroeste, o ritmo de crescimento foi mais acentuado, o total do emprego na MIA elevou-se em 33,5%, enquanto nas grandes e médias empresas o incremento foi de 18,7% e 23,1%, respectivamente, e nas pequenas uma notável expansão de 136,0%.

Esse ritmo de crescimento das pequenas e médias empresas, em contraste com as grandes, sugere a existência de práticas próprias do processo de reestruturação produtiva, como a externalização de fases da produção. As grandes empresas ao repassarem para as menores do seu “entorno” certos tipos de atividade que não lhes convém mais realizar internamente estão, naturalmente, transferindo emprego.






O exame do período assume nitidez quando se decompõem as distintas conjunturas contidas no seu interior (Tabela 6). Identificam-se como anos adversos para o emprego formal na produção de máquinas e implementos agrícolas no RS aqueles em que houve supressão de postos de trabalho - 1996, 1998, 2000, 2005 e 2006, com as maiores quedas no nível de emprego nos dois últimos anos, - 18,1% e –13,2%, respectivamente9. O desempenho do segmento de máquinas e implementos agrícolas foi severamente atingido nesses dois últimos anos por uma combinação de câmbio valorizado –que prejudicou as exportações - com um forte endividamento dos produtores rurais, em decorrência da queda do preço dos grãos no mercado internacional e da vigorosa estiagem que se abateu sobre o RS, provocando quebra de safra. Na região Noroeste, o nível do emprego formal caiu em três momentos (1996, 2005 e 2006), sendo que nos dois últimos anos a queda foi um pouco mais acentuada do que no Estado, -19,8% e –18,2%, respectivamente.




Se entre 1995 e 2000 o movimento do emprego formal na indústria de máquinas e implementos agrícolas no RS registrou expansão apenas no ano de 1997, entre 2001 e 2004, presencia-se, no Estado, a um ciclo de crescimento do emprego cuja magnitude das variações foi crescente até 2003 (27,9%) e apresentou diminuição de intensidade em 2004. Na região Noroeste, excetuando-se 1996, as taxas positivas do emprego foram sustentadas até 2004. O ano de 2003, repetindo o que já se viu para o Estado, é o destaque em termos de geração de emprego na região, com o inédito crescimento de 39,5%, para ter uma brusca freada em 2004 (6,2%). Essa performance do emprego foi impulsionada pelo Moderfrota (Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras), lançado em 2000 pelo BNDES, que consiste em um programa de incentivo ao investimento dos produtores rurais e à produção de máquinas com juros inferiores ao de mercado10. Somam-se outros fatores que alavancaram a atividade agrícola a partir da safra de 2000, como o câmbio favorável, clima com chuvas abundantes e crescimento da demanda mundial, principalmente, por soja. Já em 2005, as condições são inversas, como se tem referido.

O movimento do emprego está em consonância com o que se passa na esfera da produção, o mercado de trabalho repercute os investimentos e a dinâmica da atividade produtiva. Os dados da ANFAVEA11 para o Brasil12, referentes ao período 1999 a 2007, mostram até 2004 um crescimento contínuo do volume de máquinas agrícolas produzidas (151,5% entre 1999 e 2004), atingindo, nesse ano, a inédita cifra de 67.143 unidades fabricadas. Em 2005 e 2006 assiste-se a uma queda abrupta para 49.964 e 42.621, respectivamente, o que significa um recuo de 25,6% em 2005 frente ao ano anterior e de -36,5% em 2006 frente a 2004. Com isso, o saldo do período 1999 a 2006 é de um crescimento da produção, no País, de 59,6%13 (Gráfico 1).

O desempenho das exportações brasileiras ao longo do mesmo período ajuda a entender a estratégia das empresas para compensar as vicissitudes do mercado interno. O exame do comportamento das exportações de máquinas agrícolas automotrizes do Brasil no período recente traz evidências da crescente inserção no mercado internacional. Em 1999, a participação das exportações no volume produzido era de 14,9%14, crescendo paulatinamente, atingindo uma participação acima de 40% a partir de 2004, com um pico de 58,4% em 2005, recuando para 49,4% em 200615. A quantidade exportada também cresce de forma contínua – e acentuada - até 2004 (649,4% entre 1999 e 2004), caindo levemente em 2005 e mais marcadamente em 2006 (-29,5% frente a 2004)16. No cômputo dos anos considerados (1999 a 2006), o incremento na quantidade de bens exportados foi de 428,6% contra 59,6% no âmbito da produção (Gráfico 1)


.

O exame desses dados torna possível supor que a crise que o segmento de máquinas e implementos agrícolas mergulhou nos anos de 2005 e 2006 esteja mais relacionada às dificuldades no mercado interno do que decorrência de entraves no mercado internacional. O contraste entre as taxas de variação do volume de bens produzidos pela indústria de máquinas agrícolas automotrizes e a quantidade dos bens por ela exportados é um indicativo de que os empresários buscam ampliar sua participação no mercado externo como uma forma de se proteger/compensar de eventuais perdas no mercado doméstico.



Ao longo do período, os avanços e os recuos no nível do emprego formal na indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas foram mais intensos na região noroeste do que no plano estadual. A crise que se abateu sobre a economia do Estado nos dois últimos anos foi especialmente visível nessa região tendo em vista a importância desse segmento produtivo na geração do emprego industrial local: 21,9% do total de empregados na indústria de transformação em 1995 e 18,5%, em 2006, em flagrante contraste com o RS, que representava em torno dos 2,0% do emprego industrial em ambos os anos.
4. Considerações finais

A história das máquinas e implementos agrícolas no Brasil está indelevelmente associada à forma como se desenvolveu o setor agrícola, que, desde a origem dessa indústria, constitui o mercado doméstico. Ao longo do tempo, os ciclos da produção agrícola pautaram o desempenho das máquinas e implementos agrícolas. Tal qual uma correia de transmissão, a sorte no campo rebate na performance do segmento industrial. Essa relação direta vai se diluindo juntamente com a ascensão do processo de financeirização globalizada que promove uma concentração ainda maior dos capitais, em escala mundial, integrando as estruturas produtivas nacionais às decisões das estratégias definidas pelos grandes grupos internacionais.

No presente artigo buscou-se sistematizar os principais eventos que conformaram a indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas no Brasil e no RS, acompanhando a evolução dos grandes grupos empresariais. A trajetória desses grupos no País revela a intensidade com que esses capitais foram conquistando fatias cada vez maiores de mercado, controlando e até mesmo eliminando empresas tradicionais. Obteve-se um quadro bastante ilustrativo (embora conciso) das várias formas em que se deu a penetração dos grandes capitais, a maior parte forâneos. Em alguns casos, como o da John Deere, uma participação acionária minoritária na SLC evoluiu para o controle acionário e a incorporação da marca mundial Jonh Deere no Brasil; em outros, como o da AGCO do Brasil, ocorre a aquisição de múltiplas empresas que, por sua vez, já eram o resultado de fusões e aquisições de outras.

Essa fase de concentração mais acelerada dos capitais, iniciada nos anos 70, é o centro do artigo, ainda que seus antecedentes históricos sejam referidos para sua melhor compreensão. O período mais recente comporta alterações fundamentais para a indústria brasileira e gaúcha de MIA e gera as expectativas muito diversas.

Cabe lembrar que se está aludindo a um processo que envolveu, sobretudo, as indústrias de máquinas agrícolas, que tem características bastante distintas das indústrias de implementos agrícolas que, no RS, são, na sua grande maioria, unidades de pequeno porte e de estrutura familiar. O que não significa que essas empresas tenham ficado à margem dos acontecimentos, antes disso, elas também sofreram as conseqüências do processo de concentração, de reestruturação produtiva e de transformação da atividade agrícola, já que eram as fornecedoras das pequenas e médias propriedades rurais.

Verificou-se, igualmente, a ampliação do número de fábricas voltadas para o fornecimento de peças e componentes para as produtoras de máquinas e implementos agrícolas, em decorrência da desverticalização das grandes empresas. Essa nova forma de organização, ainda que seja positiva para o desenvolvimento local de empresas pequenas e médias, introduz uma certa instabilidade entre as fornecedoras que se tornam excessivamente dependentes das compradoras.

Para concluir essas observações restam alguns questionamentos quanto aos caminhos que se abrem para o setor de MIA no Rio Grande do Sul em decorrência de sua nova configuração.

É bem verdade que os últimos dois anos demonstraram um crescimento da indústria de MIA no Estado, com boas perspectivas de expansão tendo em vista os novos mercados que se abrem no agronegócios (ampliação da cultura de cana-de-açúcar, da silvicultura, da ampliação da área plantada de grãos e da introdução de tecnologias de ponta capazes de garantir o lançamento de novos produtos). Entretanto, essas projeções relacionam-se basicamente com os grandes capitais multinacionais. Quais as expectativas para as pequenas e médias empresas produtoras de implementos agrícolas face à concentração da atividade rural? E, para os produtores de máquinas agrícolas não pertencentes a grandes grupos internacionais? E, finalmente, para as fornecedoras de peças e componentes para as grandes empresas que, com a internacionalização crescente, passam a concorrer com fornecedoras que também estão vinculadas a grandes grupos mundiais?

A manutenção e expansão dessas empresas são fundamentais para completar a geração de emprego no Estado e na região Noroeste, ainda que essas empresas precisem adotar algum tipo de reconversão produtiva. Numa primeira abordagem supõe-se que sua inserção competitiva depende da ação de políticas públicas ou da adoção de estratégias associativas, como consórcios de compra de componentes e de exportação. Porém, para responder a essas questões se faz necessário uma maior aproximação da realidade dessa variada gama de empresas que permanecem nas bordas dos mercados mais competitivos.

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 As reflexões contidas nesse texto resultam de debates efetuados no bojo do projeto “Repercussões da atuação de grandes empresas sobre a cadeia produtiva de máquinas e implementos agrícolas no RS, que está sendo desenvolvido no Núcleo de Análise Setorial da FEE.


castilhos@fee.tche.br; doutora em ciências econômicas pela Universidade de Paris X – Nanterre.


 jornada@fee.tche.br, mestre em Sociologia pela UFRGS.


 sheila@fee.tche.br, engenheira química pela UFRGS

 guilardi@fee.tche.br; estudante de Economia da UNISINOS, bolsista FAPERGS

1 Decreto nº 47.473, de 22 de dezembro de 1959

2 Plano Nacional de Tratores, Art. 4º. A produção nacional de tratores agrícolas deverá iniciar-se no decorrer de 1960, com uma nacionalização mínima de 70% do peso total, incluindo o motor com pelo menos 60% do seu pêso ou, alternativamente, a caixa de mudança com 70% do seu peso, devendo atingir, até as datas fixadas neste artigo, os seguintes níveis de realização, como percentagem ponderal das peças fabricadas no País;

    1ª etapa - De 1-7-60 a 31-12-60 - 70%, inclusive 60% do peso do motor ou alternativamente, 70% da caixa de mudança.

    2ª etapa - De 1-1-61 a 30-6-61 - 85% inclusive, obrigatoriamente, motor (80%) e caixa de mudança (80%).

    3ª etapa - De 1-7-61 a 31-12-61 - 90%.



    4ª etapa - De 1-1-62 em diante - 95%.



3 Em 1996 o grupo Randon assumiu o controle da Fras-le.

4 ANFAVEA – Anuário da Indústria Automobilística Brasileira, 2007.

5 A RAIS traz informações a respeito dos estabelecimentos empregadores. Entretanto, para dar maior fluência ao texto se utilizam os termos estabelecimento e empresa indistintamente, ainda que se saiba que uma mesma empresa possa ser formada por diversos estabelecimentos.

6 Adotou-se, para fins desta análise, a classificação de porte de empresas proposta pelo SEBRAE: pequena até 99, média de 100 a 499 e grande acima de 500.


7 Rigorosamente não se deve falar em supressão de estabelecimentos já que é possível que a diminuição no número de empregados do estabelecimento tenha provocado a sua mudança de estrato. Neste caso, a empresa não deixou de existir, apenas migrou para o estrato imediatamente inferior.

8 Cabe registrar como um referencial que o emprego formal na indústria de transformação cresceu 24,8% no RS e 57,8% na região Noroeste, um desempenho superior ao da indústria produtora de máquinas e implementos agrícolas nos dois casos.

9 O dado de 1999 foi desconsiderado tendo em vista que o número de estabelecimentos e de empregados informado na RAIS para o segmento produtor de máquinas e implementos agrícolas no RS e na região Noroeste mostrava, comparativamente ao ano anterior, comportamento bastante atípico, com expressivo crescimento tanto em termos globais como especialmente nos pequenos estabelecimentos. Nestes casos, o próprio Ministério do Trabalho e Emprego recomenda e autoriza que se façam as correções devidas.

10 Com juros subsidiados e pré-fixados, com cinco anos para pagar, tornou-se um financiamento acessível para o agricultor, que pode adquirir tratores e outras máquinas agrícolas novas em substituição a máquinas antigas, muitas com mais de vinte anos de uso. Segundo o vice-presidente da ANFAVEA, a indústria de máquinas agrícolas começou a investir forte no Brasil, cerca de US$ 80 milhões/ano, a partir do Moderfrota. Indústria Automobilística Brasileira: 50 anos de ANFAVEA. ANFAVEA, p.160.

11 Os dados da ANFAVEA referem-se, exclusivamente, às empresas associadas. As grandes empresas de máquinas agrícolas, responsáveis por grande parte da produção e do emprego, são representadas pela ANFAVEA.

12 Dada a importância do RS na produção nacional de máquinas agrícolas, considera-se que o desempenho do Brasil é representativo do que ocorre no Estado.

13 No entanto, em 2007, observa-se uma notável recuperação no ritmo de crescimento, com um incremento de 42% frente a 2006 e uma pequena defasagem em relação a 2004, com uma taxa de –9,2%.

14 Deve-se ter presente que a produção de um ano pode não ser integralmente vendida naquele ano, já que se trata de produção seriada e sob encomenda.

15 Em 2007, as exportações representam 42,5% da produção.

16 Em 2007, as exportações mostram uma reação, elevando-se em 23,1% frente a 2006.





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