A insustentável leveza do ser



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Mas, desde que vivia com Tereza, a sua atividade erótica esbarrava com várias dificuldades de organização; não lhe podia reservar senão uma estreita faixa de tempo (entre a sala de operações e a chegada a casa) que, embora explorada intensivamente (como o montanhês faz com a sua estreita parcela), estava longe de poder comparar se com o espaço de dezesseis horas com que subitamente se via presenteado. (E digo dezesseis porque mesmo as oito horas que passava a lavar vidros lhe ofereciam mil e uma oportunidades de fazer novos conhecimentos com empregadas de balcão, caixeiras ou donas de casa e de marcar encontros com elas.)

O que procurava em todas essas mulheres? O que é que o atraía? O amor físico não é sempre a eterna repetição do mesmo?

De forma nenhuma. Há sempre uma pequena percentagem de inimaginável. Quando via uma mulher vestida, embora, evidentemente, pudesse fazer mais ou menos uma idéia de como seria depois de despida (aqui a sua experiência de médico completava a do amante), restava sempre um pequeno intervalo de inimaginável entre a inexatidão da idéia e a precisão da realidade, e era precisamente essa lacuna que lhe tirava o sossego. E, depois, a busca do inimaginável não termina com a descoberta da nudez; vai para além

dela: que caras fará enquanto se despe? o que dirá enquanto faz amor? em que tom suspirará? que ricto se imprimirá no seu rosto no momento da volúpia?

O que o eu tem de único encontra se precisamente naquilo que o ser humano tem de inimaginável. Só consegue imaginar se o que é idêntico em todos, o que é comum a todos. O eu individual é aquilo que se distingue do geral, e é, portanto, aquilo que não pode ser adivinhado nem calculado antecipadamente, aquilo que primeiro é preciso desvendar, descobrir, conquistar no outro.

Tomas, que nos últimos dez anos da sua atividade profissional se ocupara exclusivamente do cérebro, sabia que nada é mais difícil de distinguir do que o eu. Entre Hitler e Einstein ou entre Brejnev

e Soljenitsyne há muito mais semelhanças do que diferenças. Dizendo o por números, entre eles há um milionésimo de diferente e novecentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e nove milionésimos de semelhante.

Tomas vivia obcecado pelo desejo de descobrir esse milionésimo e de apoderar se dele, e esse era o sentido que dava à sua obsessão por mulheres. Não vivia obcecado pelas mulheres, vivia era obcecado pelo que cada uma delas tem de inimaginável ou, por outras palavras, vivia obcecado por esse milionésimo de diferente que faz com que uma mulher se distinga das outras.

(Talvez fosse aí que a sua paixão de cirurgião se encontrava com a sua paixão de sedutor. Nunca largava o seu bisturi imaginário, mesmo quando estava com as amantes. Desejava apoderar se de qualquer coisa que estava profundamente enterrado nelas e por causa da qual tinha de rasgar os seus invólucros superficiais.)

Claro que temos o direito de perguntar por que é que era na sexualidade que ia procurar esse milionésimo de diferente. Não poderia antes encontrá lo, por exemplo, na maneira de andar, nos gostos culinários ou nas preferências estéticas de cada uma?

O milionésimo de diferente está presente em todos os aspectos da vida humana, mas é publicamente desvendado em todo o lado, não precisa de ser descoberto, não é preciso nenhum bisturi para chegar a ele. O fato de uma mulher gostar mais de queijo do que de doces e de outra detestar couve flor é com certeza um sintoma de originalidade, mas também se torna imediatamente evidente que

essa originalidade é insignificante e vã e que não seria senão uma perda de tempo alguém interessar se por ela e conferir lhe algum valor.

Só na sexualidade é que o milionésimo de diferente aparece como uma coisa preciosa, porque não é publicamente acessível e tem de ser conquistado. Ainda há meio século, este tipo de conquista exigia que se lhe dedicasse muito tempo (várias semanas e, às vezes, alguns meses) e o valor do objeto conquistado era proporcional ao tempo consagrado à sua conquista. Mesmo nos dias que correm, embora o tempo da conquista tenha diminuído consideravelmente, a sexualidade é para nós como que o cofrezinho das jóias onde se encontra guardado o mistério do eu feminino.

Não era, portanto, de forma nenhuma, o desejo da volúpia (a volúpia aparecia por assim dizer como brinde), mas o desejo de apoderar se do mundo (de abrir com o bisturi o corpo jazente do mundo) que o fazia andar atrás das mulheres.

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Os homens que têm a mania das mulheres dividem se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a idéia que eles próprios têm da mulher tal como ela lhes aparece em sonhos, o que é algo de subjetivo e sempre igual. Aos outros, move os o deseja de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objetivo.

A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher dá, ao mesmo tempo, uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.

A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projeta nas mulheres um ideal subjetivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão).

Como o femeeiro lírico gosta sempre do mesmo tipo de mulheres, quase nem se repara quando tem uma amante nova; os amigos causam lhe sérios embaraços porque nunca vêem que a sua companheira já não é a mesma e tratam as suas amantes sempre pelo mesmo nome.

Na sua caça ao conhecimento, os femeeiros épicos (e é evidentemente a esta categoria que Tomas pertence) afastam se cada vez mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e acabam infalivelmente como colecionadores de curiosidades. Têm consciência de tal coisa, envergonham se um pouco dela e, para não incomodar os amigos, nunca aparecem em público com as amantes.

Já andava a lavar janelas mais ou menos há dois anos quando foi chamado a casa de uma cliente nova. Assim que a viu à porta do apartamento, achou a estranha. Era uma estranheza discreta, reservada, contida nos limites de uma agradável banalidade (o gosto de Tomas pelas curiosidades não era de modo nenhum um gosto por monstros à Fellini): a mulher era extraordinariamente alta, ainda mais alta do que ele, tinha um nariz afilado e muito comprido, e o seu rosto era a tal ponto insólito que, embora fosse impossível dizer que era bonita (esta afirmação seria acolhida por um coro de protestos), não era totalmente desprovida de beleza (pelo menos aos olhos de Tomas). Estava de calças e tinha uma blusa branca   dir se ia que era o estranho produto do cruzamento entre um grácil rapazinho, uma girafa e uma cegonha.

Olhou o demoradamente com um olhar atento e perscrutador onde não faltava sequer um lampejo de ironia inteligente.

Entre, senhor doutor, disse ela.

Percebeu que a mulher sabia quem ele era. Para não o dar a entender, perguntou: Onde é que posso ir buscar água?

Ela abriu lhe a porta da casa de banho. À sua frente estavam o lavatório, a banheira, a privada; aos pés da banheira, aos pés do lavatório e aos pés da privada encontravam se dispostos pequenos tapetes cor de rosa.

A mulher metade girafa metade cegonha sorria lhe franzindo os olhos e tudo o que dizia parecia impregnado de uma ironia ou de um sentido ocultos.

“A casa de banho está à sua inteira disposição, senhor doutor, disse. Sirva se dela para o que bem entender.

  Mesmo para tomar banho?

  Gosta de tomar banho?, perguntou ela.

Encheu o balde de água quente e voltou para a sala. Por onde é que quer que eu comece?

  O senhor é que sabe. disse ela, encolhendo os ombros.

  Posso ver as janelas das outras divisões?

  Quer que lhe mostre a casa toda? Sorria, como se a lavagem das janelas fosse apenas um capricho de Tomas, um capricho a que não dava importância nenhuma.

Tomas entrou no quarto que ficava ao lado. Tinha uma grande janela, duas camas encostadas uma à outra e um quadro com uma paisagem outonal de bétulas ao sol poente.

Quando voltou à sala, havia uma garrafa de vinho aberta em cima da mesa e dois copos. "Não quer retemperar as forças antes de prosseguir os seus rudes trabalhos?, perguntou ela.

  Com muito gosto, disse Tomas, sentando se.

  Deve ser interessante para si andar assim por casa das pessoas, disse ela.

  Não posso dizer que seja mau, respondeu Tomas.

  Está sempre a apanhar mulheres sozinhas em casa, com os maridos nos empregos...

  Nem por isso. O que eu apanho sobretudo são avós e sogras, disse Tomas.

  E a sua antiga profissão não lhe faz falta?

  Diga me mas é como é que soube disso.

  O seu patrão tem muito orgulho em si, disse a mulher cegonha.

  Ainda?, disse Tomas, espantado.

  Quando telefonei a pedir uma pessoa para me lavar as janelas, perguntaram me logo se não era você que eu pretendia. Parece que dantes você era um grande cirurgião e que o expulsaram do hospital. Pode crer que fiquei interessada!

  Você é, de fato, muito curiosa, disse Tomas.

  Nota se assim tanto?

  Pela sua maneira de olhar.

  E o que é que a minha maneira de olhar tem de especial?

  Está sempre a franzir os olhos e fez me uma data de perguntas.

  E você não gosta de me responder?

Graças a ela, a conversa caíra logo num tom de grande intimidade. Nada do que ela dizia tinha a ver com o mundo exterior. As palavras que se pronunciavam eram só a respeito deles e de mais nada. Com uma conversa assim, uma conversa que os elegera a ambos para tema principal, nada mais fácil do que completar as palavras com um contacto físico, e Tomas assim fez, acariciando lhe os olhos enquanto lhe dizia que ela os franzia. E a mulher respondia a cada carícia com uma carícia. Não agia espontaneamente, mas como se obedecesse a uma lógica consciente, como se estivessem a brincar ao tudo o que tu me fazes, também eu to faço. Estavam sentados um em frente do outro, ambos com as mãos no corpo do outro.

Quando Tomas tentou meter lhe a mão entre as coxas, a mulher começou finalmente a defender se. Tomas não percebeu se era mesmo a sério, mas já tinha passado bastante tempo e o seu próximo cliente esperava o daí a dez minutos.

Levantou se e explicou que tinha de ir se embora. A mulher tinha a cara a arder.

Tenho que lhe assinar o papel, disse ela.

  Mas eu não fiz nada, protestou Tomas.

  Por minha causa, disse ela, acrescentando depois com uma voz doce, arrastada, inocente: Vou ter que mandá lo cá vir outra vez para você poder acabar aquilo que nem sequer chegou a começar por minha causa.

Como Tomas se recusasse a dar lhe o papel para assinar, a mulher disse ternamente, num tom de quem está a pedir que lhe façam alguma coisa: Faça o favor de me dar isso e, franzindo os olhos, acrescentou: Não sou eu que pago, é o meu marido e não é a você que se paga, é ao Estado. Essa transação não diz respeito a nenhum de nós.
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Só de pensar na curiosa dissimetria da mulher metade girafa metade cegonha, ficava excitado: a coquetrerie aliada aos seus modos desajeitados; um desejo sexual inequívoco acompanhado por um sorriso irônico, a vulgar banalidade do apartamento e a singularidade da sua proprietária. Como ficaria ela a fazer amor? Tentava imaginá lo, mas não era fácil. Foi a sua única preocupação durante vários dias.

Quando ela o convidou pela segunda vez, a garrafa de vinho e os dois copos já estavam à 'sua espera em cima da mesa. Mas, desta vez, correu tudo muito depressa. Em breve estavam à frente um do

outro no quarto (com o Sol a pôr se sobre uma paisagem de bétulas brancas) e se beijavam. Tomas pronunciou o seu habitual Dispa se! , mas, em vez de obedecer, ela retorquiu lhe: Não, primeiro, despe se você!

Não estava habituado a isso e ficou um pouco perturbado. A mulher começou a desabotoar lhe as calças. "Dispa se!, voltou a ordenar lhe várias vezes (sempre com o mesmo cômico insucesso), mas não lhe restava senão aceitar um compromisso; segundo as regras do jogo que ela já lhe impusera da outra vez ( tudo o que tu me fazes, também eu to faço), enquanto ela lhe tirava as calças, ele despia lhe as calças, enquanto ela lhe tirava a camisa, ele despia lhe a blusa, até que ficaram ambos nus um em frente do outro.

Tomas tinha a mão pousada no sexo úmido da mulher e fez deslizar os dedos para o orifício anal, o sítio que preferia em 'todas as mulheres. O desta era extremamente protuberante, sugerindo distintamente a idéia de que um longo tubo digestivo aí terminava numa ligeira saliência. Apalpava aquele anel firme e saudável, aquele que era o mais belo dos anéis e ao qual a medicina chamava esfíncter, quando sentiu de repente os dedos da mulher girafa no mesmo sítio do seu traseiro. Ela repetia todos os seus gestos com a precisão de

um espelho.

Embora, como já referi, Tomas tivesse tido cerca de duzentas mulheres (número que aumentara consideravelmente desde que lavava janelas) nunca lhe acontecera que uma mulher mais alta do que ele se postasse à sua frente a franzir os olhos e a apalpar lhe o ânus. Para vencer a perturbação, empurrou a com toda a força para cima da cama.

A brusquidão do gesto apanhou a desprevenida. O seu enorme corpo caiu para trás com o rosto coberto de manchas vermelhas e o ar assustado de quem perdeu o equilíbrio. Como estava de pé à frente dela, agarrou a por debaixo dos joelhos e levantou lhe muito alto as pernas, mantendo as ligeiramente afastadas. Assim, de repente, pareciam os braços de um soldado perdido de medo a render se perante uma arma apontada.

Os modos desajeitados aliados ao fervor, o fervor aliado aos modos desajeitados, provocavam uma excitação magnífica em Tomas. Fizeram amor durante muito tempo. Ia observando o seu rosto coberto de manchas vermelhas, sempre à procura da expressão de susto que uma mulher faz quando lhe pregam uma rasteira e cai, a inimitável expressão que acabara de fazer subir lhe à cabeça o fluxo da excitação.

Depois de acabarem, foi lavar se à casa de banho. A mulher foi ter com ele e explicou lhe demoradamente onde é que o sabão estava, onde é que a luva do banho estava e como é que se punha a

água quente a correr. Achava curioso que ela lhe explicasse coisas tão simples com tantos pormenores. Disse lhe que já percebera e que queria ficar sozinho na casa de banho.

:Não me vai deixar assistir à sua toilette?, suplicou ela.

Conseguiu, por fim, pô la fora da casa de banho. Lavou se, urinou para o lavatório (prática corrente dos médicos tchecos), sempre com a impressão de que ela andava de trás para a frente e da frente para trás ao pé da porta da casa de banho, à procura de um pretexto para entrar. Quando fechou as torneiras, reparou que reinava um silêncio absoluto em todo o apartamento e pensou que ela o estava a espreitar. Tinha quase a certeza de que a porta tinha um buraco contra o qual a mulher tinha o seu belo olho franzido encostado.

Ao deixá la, sentia se extremamente bem disposto. Tentava rememorar o essencial, condensar a recordação numa fórmula química que permitisse definir o que ela tinha de único (o seu milionésimo de diferente). Acabou por chegar a uma fórmula composta por três elementos:

l. Os modos desajeitados aliados ao fervor;

2. O rosto assustado de quem perde o equilíbrio e cai;

3. As pernas levantadas como os braços de um soldado a render se perante uma arma apontada.

À medida que repetia para si próprio esta fórmula, ia sendo invadido pela agradável impressão de que uma vez mais se apoderara de um fragmento do mundo; uma vez mais cortara com o seu bisturi imaginário uma estreita tira no tecido infinito do universo.
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Eis o que lhe aconteceu mais ou menos na mesma época. Tinha tido vários encontros com uma rapariga num apartamento que um velho amigo lhe emprestava todos os dias até à meia noite. Ao fim de um mês ou dois, a rapariga recordou lhe um dos encontros: tinham feito amor na carpete debaixo da janela enquanto lá fora os relâmpagos e os trovões estalavam. Tinham feito amor durante todo o tempo que a tempestade durara e isso fora, segundo a rapariga, de uma beleza inesquecível.

Tomas ficou surpreendido com as palavras dela. Lembrava se de que tinham feito amor na carpete (no estúdio do amigo só havia um divã muito estreito onde não se sentia nada à vontade), mas tinha se esquecido completamente da tempestade! Era estranho: conseguia lembrar se de todas as vezes que estivera com ela, lembrava se até da maneira como tinham feito amor (ela recusava se a fazer amor por

trás), lembrava se das palavras que ela pronunciara enquanto faziam amor (pedia lhe sempre para a estreitar de encontro a ele e protestava se ele se punha a olhar para ela) e até se lembrava do corte da sua roupa interior   mas tinha se esquecido completamente da tempestade.

Das duas aventuras amorosas, a sua memória só registrava o estreito e escarpado caminho da conquista sexual: a primeira agressão verbal, o primeiro contacto físico, a primeira obscenidade que lhe dissera a ela e que ela lhe dissera a ele, todas as pequenas perversões a que a fora obrigando e as que ela recusara. Tudo o resto (com um cuidado quase pedante) estava excluído da sua memória. Esquecia se mesmo do sítio onde encontrara pela primeira vez esta mulher ou aquela, porque esse momento se situava antes da conquista sexual propriamente dita.

A rapariga falava da tempestade com o rosto banhado por um sorriso sonhador, e ele olhava para ela com espanto, quase com vergonha: ela vivera algo de belo e ele não o vivera com ela. A reação dicotômica das suas memórias à tempestade noturna exprimia toda a diferença que pode haver entre o amor e o não amor. Ao falar de não amor, não quero dizer que Tomas se tenha comportado como um cínico com a rapariga, que, como costuma dizer se, não tenha visto nela senão um objeto sexual: pelo contrário, gostava dela como amiga, apreciava lhe o caráter e a inteligência, estava pronto a ajudá la sempre que precisasse. Não era ele que se portava mal com ela: era a sua memória que, sem que ele pudesse dizer palavra, a excluíra da esfera do amor.

Parece que existe no cérebro uma zona perfeitamente específica que poderia chamar se memória poética e que registra aquilo que nos encantou, aquilo que nos comoveu, aquilo que dá à nossa vida a sua

beleza própria. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma mulher tinha o direito de deixar qualquer marca, por mais efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro.

Tereza ocupava despoticamente a sua memória poética e varrera de lá as marcas de todas as outras mulheres. Isso era injusto porque, por exemplo, a rapariga com quem fizera amor na carpete durante a tempestade não era menos digna de poesia do que Tereza. Gritava lhe: Fecha os olhos, agarra me pelas ancas, aperta me com força! Não suportava que Tomas ficasse com os olhos abertos, atentos e perscrutadores enquanto faziam amor, e que o seu corpo, ligeiramente soerguido sobre o dela, não aderisse à sua pele. Não queria que ele a estudasse com os olhos. Queria arrastá lo com  ela para a torrente de encantamento onde só se entra de olhos fechados. Recusava se a pôr se de gatas porque, nessa posição, os seus corpos mal se tocavam e Tomas podia observá la a uma distância de quase meio metro. Detestava esse afastamento. Queria confundir se com ele. Por isso lhe afirmava obstinadamente de olhos nos olhos que não tinha prazer nenhum, embora a carpete estivesse toda molhada com o seu orgasmo: "Não ando à procura de volúpia, ando é à procura da felicidade e a volúpia sem felicidade não é volúpia. Ou, por outras palavras, batia ao portão da sua memória poética. Mas o portão estava fechado. Não havia lugar para ela na memória poética de Tomas. Só havia lugar para ela na carpete.

A aventura de Tomas com Tereza começara exatamente onde as suas aventuras com as outras mulheres acabavam. Desenrolava se do outro lado do imperativo que o levava à conquista das mulheres.

Não queria desvendar nada em Tereza. Já a encontrara desvEndada. Fizera amor com ela sem conceder a si próprio o tempo necessário para pegar no bisturi imaginário com que abria o corpo jazente do mundo. Sem conceder a si próprio o tempo necessário para pensar em como seria ela a fazer amor, já a amava.

A história de amor só começara depois: Tereza ficara com febre e ele não a pudera levar a casa como fazia com as outras mulheres. Ajoelhara se à sua cabeceira e viera lhe à cabeça a idéia de que ela

lhe fora enviada numa cesta ao sabor das águas. Fiz já notar como as metáforas são perigosas. O amor correra com uma metáfora. Ou, por outras palavras, o amor começa no preciso instante em que, com uma das suas palavras, uma mulher se inscreve na nossa memória poética.
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Tereza não tardou a reimprimir a sua marca: como todas as manhãs, fora buscar leite e, quando ele lhe abriu a porta, trazia apertada ao peito uma gralha enrolada no seu cachecol encarnado. É assim que as ciganas trazem os filhos. Nunca mais esquecerá o imenso bico acusador da gralha junto ao rosto dela.

Encontrara a meio enterrada. Era assim que, outrora, os cossacos tratavam os inimigos que faziam prisioneiros.  imagina tu que foram uns miúdos>>, disse ela. Era mais do que uma simples constataÇão, era a expressão de um repentino nojo pelo gênero humano. Lembrava se que ela lhe dissera recentemente: Começo a estar te agradecida por nunca teres querido filhos.

Na véspera, queixara se de ter sido insultada por um homem no bar onde trabalhava. O homem tinha se agarrado ao seu colar de pérolas falsas afirmando que ela o devia ter ganho prostituindo se. Estava completamente transtornada com aquilo. Mais do que o caso merecia, pensava Tomas. De repente, sentiu se extremamente mal por pensar que há dois anos que a via tão pouco que até deixara de ter tempo para lhe agarrar nas mãos e as impedir de tremer.

Era o que ia pensando a caminho do escritório, onde uma empregada lhes dava quotidianamente o trabalho, a ele e aos colegas. Um cliente particular exigira expressamente que lhe mandassem Tomas para lhe lavar as janelas. De mau humor, dirigiu se à morada indicada, receando que, mais uma vez. se tratasse de uma mulher. Estava todo entregue às suas reflexões sobre Tereza e não se sentia tentado por aventuras.

Quando a porta se abriu, ficou aliviado. à sua frente encontrava se um homem alto e um pouco encurvado. O homem tinha queixo de rabeca e fazia lhe lembrar alguém.

Sorria lhe: Entre, doutor, disse e guiou o até à sala.

Tinha lá um rapaz à espera. De pé, com o rosto escarlate. Olhava para Tomas e esforçava se por sorrir.

A vocês dois, parece me que não vale a pena apresentá los, disse o homem.

  Claro que não, disse Tomas sem sorrir, e estendeu a mão ao rapaz. Era o seu filho.

O homem de queixo de rabeca acabou finalmente por se apresentar.

Eu bem sabia que você me fazia lembrar alguém!, disse Tomas. Como é que não havia de o conhecer? De nome, claro.

Distribuíram se os três pelos sofás que havia na sala e entre os quais se encontrava uma mesa baixa. Tomas pensou que aqueles dois homens que estavam à sua frente eram criações suas, embora

involuntárias. Tinha tido um filho porque a mulher o obrigara, e fora também obrigado que traçara o retrato daquele rapaz alto e encurvado ao polícia que o interrogava.

Para afastar tais pensamentos, disse: Ora muito bem! Por que janela é que querem que eu comece?

Os dois homens que tinha sentados à sua frente desataram a rir.

Sim, era evidente que não era de janelas que se tratava. Não o tinham mandado vir por causa das janelas, tinham no apanhado numa armadilha. Nunca tinha falado com o filho. Era a primeira vez que lhe apertava a mão. Só o conhecia de vista e não queria conhecê lo de outra maneira. Não queria saber nada dele e só esperava que o filho pensasse o mesmo em relação ao pai.



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