A. J. Barros o enigma de compostela



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A. J. BARROS
O ENIGMA DE COMPOSTELA
3a EDIÇÃO
Geração Editorial

2009


Para a Helena e para o Rafael

"Muitas vezes, à janela, nas noites de luz baça, quando a Terra, em redondo, parece a boca dum cesto enorme, suspenso ao firmamento pelo aro luminoso da Via Lác­tea, em que tudo soçobra, homens, coisas e loisas, metia a mão no seio a procurar. Achava espinhos, remorsos, uma que outra flor imarcescível, e a gente que aí vai, alguma celestial e sobre-humana, da muita que eu via andando, andando Estrada de Santiago fora."
Aquilino Ribeiro, 1922

ESTRADA DE SANTIAGO

Livraria Bertrand, Lisboa, 1956
Agradecimentos
O esforço para compor O Enigma de Compostela me levou a dois sentimentos conflitantes: a realização, por ter feito a obra, e a frustração, por tê-la acabado. Escrever um livro no qual a trama leva a interpretações de fatos ainda não bem explicados pela História me consumiu durante esses anos.
Saltam-me da memória momentos emocionantes que vivi no decorrer desse período, pois, mais do que escrevê-lo, vivi o livro. Foram vários anos de pesquisa e visita aos lugares citados, para um relato verdadeiro. São muitas as lembranças, como das montanhas e cavernas dos Pireneus que percorri para bem entender o drama dos cátaros. As subidas aos castelos nos altos dos morros do Languedoc, a hospedagem na Abadia de Alet, para ali escrever, na atmosfera do século IX, alguns capítulos. A pé, atra­vessando os Pireneus ou os montes da Galícia, muitas vezes desci a mo­chila das costas e sentei-me numa pedra para aproveitar o silêncio de uma sombra e registrar as sensações e impressões que me vinham. Fui até o monte Massada, em Israel, para compreender o episódio em que mais de mil zelotes se suicidaram.

Foram momentos bonitos, às vezes cansativos, às vezes tristes e às vezes alegres, que compartilho agora com o leitor.


Agradeço a ajuda de amigos que se entusiasmaram com o tema e gosta­ria de citá-los a todos neste meu agradecimento. Alguns me ajudaram de forma especial, como meu amigo, Dr. Alberto da Rocha, médico do Rio de Janeiro, que me presenteou com importante bibliografia sobre o Santo Graal. O Dr. Antonio Pinto, ilustre advogado de São Paulo, que fez suas críticas desde os primeiros rascunhos. Os funcionários do Museu dos Cátaros em Carcassone com suas valiosas informações. A escritora e guia montanhesa Ingrid Sparbier, autora do Guide de les Pays Catars, que me orientou pelas paragens do Languedoc. Os muitos companheiros do Caminho de Compostela com os quais pude trocar idéias durante as peregrinações. Os monges dos monastérios e os hospitaleiros dos albergues com sua acolhida em toda a extensão do Caminho.

Com um carinho especial, agradeço à minha esposa, Clarice, que, como eu, viveu o livro desde o início e me acompanhou em visitas a museus, bibliotecas, no Caminho de Compostela e nos castelos do Languedoc — enfim, foi ela a grande companheira que me ouviu pacientemente durante todos esses anos em que me debrucei sobre O Enigma de Compostela.

A. J. Barros
LIVRO I

AVIA LÁCTEA


CAPÍTULO 1
Os primeiros raios do sol brindavam o céu azul com uma luminosidade amarelada, naquele início de setembro, enquanto pássaros sos­segados faziam longos círculos com os bicos apontados para o chão em busca de algum pequeno ser que não teria mais o direito de participar dos quotidianos festejos da vida.

O peregrino esgueirou-se por uma pequena mata e se escondeu entre as ramas de folhagens e espinheiros que sobreviviam à sombra das árvores com o pouco sol que lhes sobrava. Agia como se já tivesse estado ali antes e conhecesse a antiga trilha que acompanha a borda do precipício. Na verda­de, não era bem um precipício, mas um barranco íngreme que se inclinava até o fundo do vale, onde se encontrava com o silencioso riacho encoberto pela mata ciliar.

Sabia que o homem do burrico ia passar por ali. Mandara a mulher na frente e vinha conduzindo a filha, uma menina bonita de doze anos, mon­tada no animal. Fazia esforços imensos para não se distrair com os pensa­mentos que o torturavam, quando se lembrava da menina. Aquela coisinha bonita, tenra como uma folha de alface, mas já entrando na juventude, logo ia ficar à sua mercê, sozinha.

Procurava, no entanto, controlar seus instintos porque a Ordem lhe dera uma missão e tinha de cumpri-la. Conhecia a severidade do castigo quando um membro falhava. Ele próprio ajudara a supliciar alguns que não segui­ram corretamente as instruções e tiveram morte horrível.

Concentrou-se e manteve os ouvidos atentos para o ruído característico dos passos do burrico, pois não tinha certeza se conseguiria vê-los através das folhagens quando estivessem chegando. O Caminho fazia uma longa e suave curva para vencer o morro até onde ele estava.

Esperava pacientemente entre os arbustos, com o enganoso cajado que tinha na base uma lâmina de ferro forte e afiada. Ninguém desconfiaria dele, porque estava vestido como um peregrino comum: bermudas, boti­nas, mochila e um gorro que encobria as orelhas, o pescoço, e ajudava a esconder o rosto. A vieira sobre a mochila e o cajado completavam a camu­flagem de um piedoso peregrino dirigindo-se para o túmulo de São Tiago, em Compostela.

De repente, ouviu arfar um animal. Ajeitou-se com cuidado e olhou por entre os vãos das folhas. Conseguiu ver o burrico, cansado e suado, que subia o morro com sua carga, levantando para cima e para baixo a enorme cabeça, como se procurasse dar ritmo aos passos. Era o momento de sair dali e andar meio devagar como se estivesse economizando energia para subir o resto dos Pireneus, porque o normal seria estar na trilha quando o outro aparecesse.

Sentiu o animal mais próximo e, como seria natural que qualquer um fizesse, olhou de esguelha para trás e subiu a saliência do Caminho pelo lado de cima do barranco onde ficou em pé, para dar passagem, mas com a ponta do cajado escondida numa pequena touceira de capim.

Era o mesmo homem que espreitara antes: um espanhol, nos seus qua­renta anos, barba curta, espessa e preta, um tipo forte, atlético; parecia mais disposto que o animal. Foi bom ter pensado em tudo com detalhes. Preci­sava dar a aparência de um acidente, como se o burrico tivesse se assustado com alguma coisa e caído no barranco.

Tinha de ser preciso e rápido, porque ali era passagem de peregrinos e algum deles poderia aparecer e atrapalhar o seu trabalho. Sabia, no en­tanto, que a maioria não usava aquele atalho, mas o homem o preferia porque levava carga e a criança. Pelo menos tinha sido esse o trajeto feito por ele no sábado anterior e por sorte não errara em ficar ali, na tocaia, saboreando por antecipação o sofrimento do outro, enquanto repassava na memória os golpes que deveria dar.

Traçara uma estratégia que julgara inteligente. Tinha de acertar o burri­co, na perna direita traseira, para que ele sentisse a dor horrível e se assus­tasse, pondo em perigo a vida da menina. Com certeza o espanhol estaria armado, mas ficaria aturdido com a cena e, até que saísse da dúvida entre se salvava a filha ou puxava a arma, ele o atacaria.

O homem passou por ele, olhou-o com atenção e cumprimentou:



  • Buenos dias.

Ele também respondeu em espanhol:

  • Buenos dias.

O animal andou mais rápido, assustado com a presença inesperada do intruso, e assim abriu espaço para ele erguer o bastão e baixá-lo impiedosamente. A lâmina cortante entrou na perna direita traseira do animal, logo abaixo do joelho, quebrando-lhe o osso. O burrico deu um urro assustador, agachou-se sobre a perna cortada, tentou firmar-se de pé, mas pendeu para o lado do barranco e derrubou a menina, que desmaiou ao bater a cabeça no chão.

O homem voltou-se com rapidez e viu o peregrino avançar sobre ele com o bastão levantado em direção à sua cabeça. Tentou pegar o revólver que trazia escondido na cintura, mas não havia tempo. Levantou o braço para amparar a pancada, mas não sabia que o bastão era como uma espa­da afiada e, num instante, seu braço foi separado do corpo. O peregrino aproveitou o aturdimento que a dor causou na sua vítima e deu-lhe uma rasteira, derrubando-o.

O homem caiu de costas, gemendo, e, quando tentou se levantar, o pe­regrino o pressionou contra o solo com o pé direito sobre o peito e a ponta do bastão na sua garganta. O espanhol sabia que aquele assassino não ia ter piedade. Tentou virar o rosto para ver a filha, mas estava imobilizado por aquela arma no pescoço.


  • Se quiser que ela viva, diga-me: quem é o seu chefe? Para quem você trabalha?

O assassino insistiu com rudeza, com a ponta de ferro na garganta do homem, que perguntou quase num gemido:

  • Mas, quem é você? Sou um homem inocente. Não sei quem me contra­tou. Apenas me pagaram para seguir um peregrino. Nem sei o nome dele.

  • Não é verdade. Sabemos que faz parte de uma sociedade que usurpou a insígnia dos antigos templários, mas vocês são falsos e ajudam os inimi­gos da Ordem. Diga quem é o seu Mestre, se quiser que a sua filha viva. Você vai morrer, mas pode salvá-la.

O homem estava estendido no chão, imobilizado com a lâmina na gar­ganta e sentindo a dor horrível do braço cortado do qual o sangue esgui­chava sobre a grama.

  • Não minta! Você ganha para isso. Não é um Cavaleiro do Templo e desta vez recebeu instruções especiais. Quais são essas instruções? Va­mos! Diga!

O espanhol fechou os olhos e começou a rezar. Falhara na sua missão e agora sua filha e sua esposa também estavam em perigo. A mulher seguira na frente para observar o brasileiro e esperaria por ele no descanso da Vir­gem do Horizonte. Agora estava com medo de que esse assassino também a perseguisse. Pedia a Deus que o levasse, mas as deixasse vivas e sem perigo. Rezava para que algum peregrino passasse por ali, naquele momento, mas Deus queria dele um sacrifício maior.

O sangue continuava a escorrer das veias expostas no braço decepado, que doía terrivelmente.



  • Mas quem é você? Por que fez isso comigo? Sei que vou morrer, mas não faça nada à minha mulher e à minha filha, se tem amor a Deus.

  • Sou um mensageiro de Deus para vingar o que vocês fizeram contra Ele.

O pavor aumentou com o som daquela voz que parecia sair das chamas escuras do inferno e não escondia a raiva por não ter nenhuma informa­ção. O assassino olhou para o lado e aquele corpinho, de bruços, com a saia levantada até a cintura, despertou de novo os seus instintos animalescos e, com um gesto brusco, forçou a ponta do cajado, que penetrou fundo na garganta do homem, matando-o.

Não podia perder tempo porque, apesar de ser uma curva que desviava um pouco do Caminho, havia sempre o risco de outros peregrinos passa­rem por ali. Arrastou o corpo até a beira do barranco e jogou-o no preci­pício. Livrou-se do braço decepado e cortou uns ramos para tentar limpar o chão. O burrico arrastava-se ladeira abaixo, soltando urros que ecoavam pelo vale.

O peregrino voltou para onde estava a menina e sorriu. Era bonita, quase moça, com as curvas e saliências que o faziam se lembrar das outras. Mas recebera ordens para fazer um serviço rápido e limpo. Não podia deixar o homem vivo e tinha de sair dali o mais depressa possível. Pegou-a no colo e quase não resistiu. Pensou em levá-la para o meio da mata onde não seria visto. Mas, e se ela gritasse? Alguém poderia ter ouvido o barulho do burrico. Pensou no rigor da pena aplicada àqueles que não obedeciam às ordens e pegou-a por baixo dos braços, perto dos ombros. Colocou-a entre os joelhos, apertando-a para que não se movesse. Ainda hesitava, quando, naquele instante ela abriu os olhos que se dilataram apavorados e ia gritar, mas, ele agiu rápido. Com a duas mãos enormes e calosas apertou a cabeça da menina perto das orelhas e num movimento brusco, da esquerda para a direita, quebrou-lhe o pescoço.

Estava tenso como um animal feroz encurralado e levantou-se com um grunhido. Suspendeu-a nos braços e, soltando um urro quase igual ao do burrico, como se assim enganasse os instintos bestiais que não pudera satis­fazer, lançou o pequeno corpo no precipício, para que acompanhasse o pai.

Embrenhou-se na mata e desapareceu.
CAPÍTULO 2
Sentado numa pedra, no mirante da Virgem do Horizonte, no alto dos Pireneus, Maurício contemplava a paisagem que se estendia ao longe. Sinais luminosos nos picos das montanhas refletiam a luz do sol nas faces lisas das pedras. Seu olhar descia até as montanhas que o acompa­nharam desde lá debaixo e que agora escondiam muitas das paisagens que apreciara na subida.

Aquelas montanhas pareciam perenes, como as convicções. Algumas têm seus montes cobertos de florestas verdes como uma mensagem de es­perança. Outras estão cobertas de neve e lançam seus picos esbranquiçados contra as nuvens azuis do céu como um incessante pedido de paz. Existem aquelas cujos picos secos, feitos de rochas pontiagudas e esqueléticas, des­mentem com a sua nudez a ilusão das impressões.

"Sim! As montanhas são perenes, como as convicções que cada pessoa cria", pensou Maurício, sem entender direito esse seu rasgo filosófico.

Sossegados grupos de ovelhas dividiam as pastagens, guiados pelos pas­tores e vigiados pelos cães, enquanto aves serenas descreviam curvas man­sas sob o céu. Nuvens brancas se espreguiçavam e a tranqüila paisagem que se assentava sobre aqueles campos verdes perdia-se na distância.

"É isso!" pensou, "A paz dessas montanhas está me deixando piegas".

Há seis anos, sentara-se ali, naquela mesma pedra. Sua mulher estava viva, mas não quisera segui-lo. Precisava cuidar dos dois meninos, do filho e da filha, já adolescentes, que não podiam ficar sozinhos, mas o apoiara e até mesmo insistira para que fizesse a peregrinação.

Lembrou-se de que também ficara observando os pastores, cada um com o seu cão, que às vezes saía latindo para trazer de volta ao grupo uma ou outra ovelha que se afastava. Parecia uma vida agradável, a de pastor. Ali, no alto dos Pireneus, ovelhas, cães, pastores, aves e paisagem formavam uma harmonia onde a felicidade parecia supérflua.

Agora não tinha mais a sua companheira, e o Caminho ficara mais triste. Não deveria ter vindo. Não tinha mais nada a provar e a peregrinação a San­tiago é uma invocação da tristeza. Mas tinha sobrevivido a momentos peri­gosos no Brasil e estava ainda viva em sua memória a cerimônia misteriosa dentro de uma sala subterrânea no Real Forte Príncipe da Beira, à margem do Rio Guaporé, no interior da Amazônia, que o colocara no centro de uma perigosa conspiração para separar os Estados amazônicos do Brasil.

Gostava do silêncio e, mesmo quando ainda tinha sua família e todos viviam no mesmo apartamento, procurava um cantinho da casa, longe das discussões e dos ruídos de liqüidificador, máquina de lavar pratos e seca­dores de cabelo, embora não conseguisse se livrar do barulho da rua e da campainha do telefone.

O Caminho era uma nova oportunidade para repor o seu estoque de silêncio. Estava assim pensando quando reparou na mulher que havia che­gado junto com ele ao alto do morro.

Ela tomou água sofregamente e depois abriu uma embalagem de onde tirou o lanche. Estava cansada, mas conseguira acompanhá-lo na subida. Seguira-o de perto, desde os pés dos Pireneus, e agora estava ali, sentada, com o olhar para os morros que acabara de subir, como se esperasse alguém com quem dividir o silêncio e a beleza curvilínea das montanhas. Toda aquela paisagem lhe entrava pelos olhos e ele sentia também a beleza da alma, como se os sentimentos fluíssem agora para uma paisagem interna, que os olhos não veem e o espelho não mostra.

Uma viatura da polícia apareceu ao longe, subindo as curvas da estrada e dando a sensação de um pequeno barco jogado, ora para um lado ora para o outro, pelas ondas de um mar encrespado. O veículo vinha com a sirene ligada, destoando da calma paisagem, e parou perto da mulher. Um policial ficou ao volante e outro, de uniforme azul, bonito e impecável, com algu­mas divisas nos ombros, desceu e se dirigiu a ela.



  • Senhora Marina, desculpe interromper a sua peregrinação, mas vim pedir-lhe para me acompanhar de volta.

Ela levou as duas mãos ao rosto, tomada pela angústia.

  • Aconteceu alguma coisa, sargento?

O sargento notou a presença de Maurício, mas respondeu:

  • Houve um acidente e o burrico caiu no precipício. Um peregrino avisou pelo telefone celular de alguma coisa suspeita e achamos melhor ir até lá.

  • Precipício? O burrico caiu num precipício? Oh! Meu Deus! — excla­mou ela, com voz desesperada.

Decididamente, é difícil ser diplomático numa emergência dessas.

  • Acho melhor voltar comigo. Não vou mentir. Seu marido e a menina morreram.

A mulher empalideceu, pareceu meio estonteada, e desmaiou. Os poli­ciais a colocaram na viatura e desceram o morro de volta.

Por que teria a paisagem mudado, de repente? Os raios do sol ficaram quentes e as nuvens brancas não tinham mais a leveza de antes. Em vez de ovelhas pastando silenciosas sobre o gramado verde dos montes, ele via agora uma criança morta no fundo de um precipício.



CAPÍTULO 3
Saíra da Porta de Espanha, em Saint-Jean-Pied-de-Port, no sul da França, que os peregrinos já cruzavam desde a Idade Média, às sete horas da manhã, e já passava das onze. O primeiro trecho do Caminho, que vai até Roncesvalles, no norte da Espanha, estende-se por uma distância de 27 quilômetros e é considerado o mais difícil dos 800 quilômetros do percurso. Nessa etapa, o peregrino vence um aclive de mais de 20 quilômetros de mor­ros cheios de curvas, quando então começa sua descida até Roncesvalles.

Ele já andara uns 15 quilômetros e agora pensava no espanhol que en­contrara na saída de Saint Jean Pied de Port.

O homem tomara a iniciativa de cumprimentá-lo:


  • Buenos dias. Brasileno, no?

  • Sim, brasileiro — respondera em português. — Vai fazer o Caminho?

  • No, ahora. Me voy con mi hija a Roncesvalles en un borrico. Ella tiene solamente 12 anos, pero mi mujer ya fue adelante.

De fato, logo mais à frente passara por uma peregrina, mas não lhe ocor­rera que poderia ser a mulher do espanhol. Muitas peregrinas fazem so­zinhas o Caminho, porque é uma caminhada segura e um dos mais belos passeios que o ser humano tem à sua disposição. Mas, como aquele espanhol adivinhara que ele era brasileiro? Usava um gorro verde, com uma pequena bandeira brasileira do lado esquerdo, mas o homem estava do lado direito, quando o cumprimentou.

Não tinha se dado conta antes, mas com a notícia desse acidente ele lembrou que, após tê-la ultrapassado, a mulher o seguira mantendo uma distância de uns 30 metros. Na hora não dera importância a isso, achando apenas que a mulher tinha bom preparo físico. Veio-lhe à memória aquela corrida no Parque da Cidade, em Brasília, quando fora seguido por dois seguranças e, por causa dessa corrida, envolvera-se numa aventura cheia de perigos. Mas agora não estava no Brasil, nada ali lhe dizia respeito. Era livre para seguir despreocupado o Caminho de Compostela.

Depois que a viatura se perdeu numa curva da descida, ainda ficou sen­tado na pedra, olhando os peregrinos que surgiam lá embaixo e formavam uma fila que parecia não ter começo e nem fim.

Alguns tinham o cajado que ajudava a descer os morros e a espantar ca­chorros. Quase todos ostentavam nas costas, sobre a mochila, a concha do mar, que também chamam de vieira, o mais antigo símbolo do Caminho.

Diz a lenda que um barco se aproximava da praia na região de Padron, antiga Liberon, quando o mar encrespou-se, colocando os tripulantes em perigo. Um rapaz estava a cavalo e entrou no mar para ajudar a pequena bar­ca, mas foi engolido pelas águas. Pediu então ajuda a Deus, e o mar se acal­mou. Ele e o cavalo conseguiram romper as ondas e saíram do mar cobertos de conchas, que passaram então a simbolizar o Caminho, porque o barco que ele tentara salvar era o barco que trazia o corpo do apóstolo. É possível, no entanto, que no início da peregrinação a vieira tivesse sido usada como um utensílio, para beber ou comer, na falta de talheres nos albergues.

Levantou-se hesitante, como se uma dúvida o corroesse, mas respirou fundo, criou coragem e passou a ser mais um naquela interminável fila, que vinha do fundo do vale. Havia jovens, mulheres, homens de todas as idades, a maioria hum passo cadenciado, para não quebrar o encanto do próprio silêncio. Outros iam mais rápidos, como aquele peregrino de cabeça baixa e coberta com um gorro escuro, que passou apressado como se estivesse fugindo da própria consciência.

Tinha ainda de ver o monumento a Rolando que parecia ter um signi­ficado especial para o Mestre daquela Confraria, lá no meio da Amazônia brasileira. Na caminhada anterior enfrentara uma descida de mais de qua­tro quilômetros, inclinada, pedregosa e perigosa, com as raízes das árvores invadindo a trilha. Tinha agora seguido pelo caminho indicado no mapa recebido no albergue em Saint-Jean, tomando a estrada asfaltada, na altura do porto de Lepoeder, até Ibaneta.

Toda a região dos Pireneus está impregnada das lendas que cercam a fi­gura histórica do imperador Carlos Magno e seus Doze Pares, à semelhan­ça das lendas sobre o Rei Artur e os Doze Cavaleiros da Távola Redonda. Foram muitas as batalhas, derrotas e vitórias, terminando com a expulsão dos árabes da Espanha, em 1492. Os Pireneus se tornaram um limite na­tural, além do qual os árabes tiveram dificuldade de se fixar. Depois de derrotados em Poitiers por Carlos Martel, avô de Carlos Magno, e por este em Lourdes, preferiram ficar mais ao sul.

Ao chegar a Ibaneta, o peregrino se depara com um pequeno monu­mento. Trata-se de um monólito, ali colocado em 1967, em homenagem a Durindana, a espada de Rolando, e lembra um episódio que teria ocorrido no ano de 778. Ao ver que ia morrer, o heróico sobrinho de Carlos Magno, num gesto de desespero, bateu a espada com força numa rocha para que ela quebrasse e não caísse em mãos do inimigo, mas a rocha partiu-se ao meio e Durindana virou lenda.

Uma igreja solitária e estranha, que dizem estar no mesmo local onde antigamente era o hospital de peregrinos, se interpunha entre o monumento e a estrada asfaltada que chega a Roncesvalles, apenas um quilômetro abaixo. Indeciso e com uma sensação que não soube definir, dirigiu-se à Colegiata.


CAPÍTULO 4
Muito tempo antes de Cristo, o vale de Roncesvalles já exer­cia uma atração mágica para a celebração de funerais. Diversos dolmens de pedra ali existentes, como o dólmen de Lindux, anterior à era cristã, testemunham ainda essa estranha vocação, e, mesmo depois da invasão romana, o vale continuou sendo cultuado como destino dos mortos. Os druidas, sacerdotes celtas, construíam os dólmens nas florestas para o culto às divindades naturais, colocando duas ou mais pedras em posição verti­cal e, assentadas sobre elas, outras pedras achatadas, formando um recinto fechado. O vale coberto de florestas, nos pés dos Pireneus, despertava um profundo respeito à natureza e, durante o período áureo da peregrinação, a Colegiata de Roncesvalles era como um grande cemitério, com inúmeros túmulos, que foram destruídos por incêndios e pelas reformas do edifício.

O ser humano se atormenta quando se aproxima dos esconderijos da morte, mas Maurício estava contente, porque vencera a primeira etapa da longa jornada, da qual restavam ainda centenas de quilômetros. Mas, era como se estivesse entrando num túnel do tempo para desvendar um passa­do que se ocultava em lendas e mistérios.

Caminhou firme até o escritório da Colegiata, onde entregou o seu "pas­saporte" para ser carimbado. O passaporte do peregrino é uma identifica­ção que lhe permite dormir nos albergues e, ao final da caminhada, receber a Compostelana, o certificado de que fez o Caminho. Para receber esse cer­tificado, no entanto, precisava carimbá-lo em cada albergue onde dormisse, ou também nas prefeituras e igrejas. O selo de cada cidade é como um brasão e traz um profundo significado histórico.

A importância do Caminho na Idade Média era tão grande, que quem tivesse a Compostelana era respeitado e obtinha benefícios da Igreja e dos nobres. Surgiu então o comércio de certificados falsos, vendidos como pro­va de que a pessoa fizera a peregrinação. A solução para evitar a fraude foi o passaporte do peregrino, que deveria ser carimbado nos lugares por onde passava. Cada cidade criou o seu próprio selo, com emblemas locais, o que faz do passaporte uma espécie de coleção de carimbos, como se fosse uma coleção heráldica.

Estava com as pernas e as solas dos pés doloridas. Dirigiu-se ao albergue, onde escolheu uma cama e marcou-a com a mochila. Roncesvalles mudara um pouco. No lugar do antigo abrigo de peregrinos, havia agora um ho­tel de turismo, e uma igreja de pedra do século XII fora transformada em albergue. Os banheiros tinham água quente e, durante o banho, lavou as bermudas, camiseta, meias e lenço, para que chegassem secos ao próximo destino, onde então lavaria as peças que iria usar no dia seguinte. Sabia que não era conveniente deixar para tomar banho de manhã, porque o banho deixa úmida e sensível a sola do pé, facilitando o aparecimento das bolhas que infernizam a vida do caminhante.

A Colegiata de Roncesvalles é palco de uma das mais marcantes solenidades do Caminho. A Missa do Peregrino é celebrada todos os dias às 20 horas, e essa cerimônia vem sendo repetida desde o século XI. A Bênção ao Peregrino é dada em espanhol, alemão, latim, inglês, português e ou­tros idiomas.

Na peregrinação anterior, estava cansado e não resistira à cerveja gelada, chegando atrasado para a missa. O que ele não entendia era como o mestre daquela Confraria lá da Amazônia tinha ficado sabendo disso. Alguém ti­nha investigado a sua vida para saber de coisas que ele próprio certamente havia contado, em uma dessas ocasiões em que as pessoas perguntam sobre as experiências do Caminho. Perdera a missa dos peregrinos por causa da cerveja e também não tirara as fotografias do túmulo de São Tiago porque colocara na máquina um filme já usado. Hoje, são comuns as máquinas digitais, mas naquele ano ele havia trazido uma de filme de rolo e colocara um filme já usado, perdendo as fotos.

Estava ansioso para assistir agora a toda aquela cerimônia religiosa. Saiu do albergue com as sandálias ainda molhadas que colocara para tomar ba­nho e dirigiu-se à igreja, arrastando as pernas e um forte pressentimento. A missa foi comovente. O padre fez um sermão como se pregasse para pe­regrinos da Idade Média, que iam enfrentar um caminho desconhecido e cheio de perigos. Naquela época certamente havia mais fé e todos rezavam com fervor, pedindo ajuda aos céus, porque sabiam dos perigos que os es­peravam. Muitos iam em busca de milagres ou de perdão para os seus pe­cados e aquela cerimônia ainda despertava emoções que traziam lágrimas aos olhos.

Não se assiste mais a tantas curas pela fé, porque os santos foram substitu­ídos pelo antibiótico, pela cortisona e pelas vacinas, enquanto os transplantes ressuscitam mortos. Apesar desses raciocínios que o deixavam em dúvida se Deus apenas mudara a forma dos milagres, substituindo a fé pela ciência, teve inveja dos peregrinos que comungaram e rezaram como se ainda estives­sem na Idade Média, mas não se sentia católico bastante para tanta contrição. A alma pesada o acusava de que não estava fazendo o Caminho como uma busca, mas como uma fuga.



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