A janela de overton glenn beck



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A

JANELA DE OVERTON


GLENN BECK

Com contribuições de Kevin Balfe, Emily Bestler e Jack Henderson


Tradução Renato Marques de Oliveira
Editora Novo Conceito

2011


DEDICATÓRIA
A Fé: para David Barton, homem que sabe que nossos fundadores deixaram as respostas espalhadas por toda parte, a olhos vistos.

Esperança: para Marcus Luttrell, homem que nos mostrou o que é preciso para nunca desistir.

Caridade: para Jon Huntsman, o homem que um dia quero ser. Você é um gigante em um mundo que parece cada vez menor.

Nunca desistam, nunca entreguem os pontos.


Agradecimentos
Agradecimentos especiais a todos os telespectadores, ouvintes e leitores, incluindo os "íntimos" de Glenn Beck. Não somos racistas nem somos violentos, só não estamos mais em silêncio.

Aos meus pais; à minha esposa, Tânia, e aos meus maravilhosos filhos, por seu amor e apoio constante, mesmo quando acordo às 3 horas para trabalhar em projetos como este.

A Chris Balfe, Kevin Balfe, Stu Burguiere, Joe Kerry, Pat Gray e a todas as outras pessoas maravilhosas que atuam nos bastidores da Rádio Mercury Arts, por nunca rirem das minhas idéias (pelo menos não na minha frente).

A Jack Henderson, por ter colocado o coração neste projeto, e à sua esposa, Lorie, por tê-lo deixado fazer isso.

A Emily Bestler, uma editora de primeira classe e, mais importante, uma pessoa de primeira classe. Obrigado por ter entendido qual é realmente o propósito deste livro. E a Louise Burke, Mitchell Ivers, Carolyn Reidy, Liz Perl, Anthony Ziccardi e a todo mundo da Simon & Schuster, por sempre me ajudarem a transformar meus sonhos em realidade.

A Patrícia Balfe, por compartilhar com todos nós seu amor por livros de suspense e mistério. Sei que não sou nenhum David Baldacci ou Robert Parker, mas espero que este livro custe a você preciosas horas de sono. A todos da Premiere e do Clear Channel, incluindo Mark Mays, John Hogan, Charlie Rahilly, Dan Yukelson, Julie Talbott e Dan Metter, que ajudaram meu programa de rádio a conquistar ouvintes como nunca.

A todos os meus amigos do canal Fox News, incluindo Roger Ailes, Bill Shine, Suzanne Scott, Joel Cheatwood, Tiffany Siegel, Bill O'Reilly, Neil Cavuto, juntamente com meu extraordinário estafe, que me ajudou a comprar quase todas as lousas da área da cidade de Nova York.

A meu agente, George Hiltzki, que não "mexe no conteúdo", mas ainda assim adora dar suas opiniões a cada página que criamos.

A todos os meus amigos, parceiros e colegas de trabalho, que me apoiam tanto no âmbito pessoal como na esfera profissional, incluindo Kraig Kitchin, Brian Glicklich, Matthew Hiltzik, Josh Raffel, Jon Huntsman, Pai, Duane Ward, Steve Scheffer, Dom Theodore, Scott Baker, Richard Paul Evans, George Lange, Russell M. Ballard, além de Allen, Cam, Amy, Mary e toda a equipe da Isdaner.

A todos os que foram vítimas do meu transtorno de déficit de atenção — desculpem-me, eu me concentrei nesta página o máximo de tempo que pude.




Uma Nota do Autor
Há muitos anos sou fã de livros de suspense. Enquanto os livros de não ficção visam informar, o objetivo da maior parte dos thrillers de suspense é entreter. Mas existe uma categoria de romances que são ambas as coisas: romances completamente ficcionais, mas cujos enredos são calcados em fatos, e foi isso que eu me esforcei para fazer em A Janela de Overton.

À medida que você mergulhar na trama, certas cenas e personagens vão parecer familiares. Isso é intencional, pois a história do livro se passa durante um período da história dos Estados Unidos muito semelhante ao que estamos vivendo agora. Mas, embora muitos fatos inseridos no enredo sejam verdadeiros (veja o posfácio para mais detalhes), as situações que criei como resultado desses fatos — juntamente com a maneira como as coisas estão entrelaçadas e as conclusões que daí derivam — são inteiramente ficcionais.

Vamos torcer para que continuem assim.

Sei que este livro será polêmico; qualquer coisa que faça as pessoas pensarem geralmente causa controvérsia. Nesse caso, espero que você seja obrigado não apenas a pensar, mas também a pesquisar, ler livros de história e fazer perguntas fora da sua zona de conforto. Em última análise, no fim das contas caberá a cada um de nós procurarmos nossas próprias verdades.

Embora nem seja preciso dizer, sinto a necessidade de falar mais uma vez: esta é uma obra de ficção. Como tal, alguns dos personagens deste livro expressam opiniões das quais eu não apenas discordo, mas às quais me oponho com veemência. Eu as incluí no enredo porque essas opiniões, gostemos delas ou não, fazem parte do atual debate norte-americano. Ignorar ou fingir que opiniões radicais não existem na sociedade é um grande desserviço. Silenciar vozes ou opiniões só serve para jogá-las nas sombras e na escuridão, onde podem se inflamar, se corromper e ficar ainda mais fortes.

Você também vai notar que as palavras republicano e democrata raramente aparecem no livro, e, quando aparecem, ambas são mencionadas sob luz igualmente pouco lisonjeira. Também nunca ficamos sabendo quem é o presidente dos EUA nem à qual partido ele ou ela está filiado. Foram decisões conscientes da minha parte, e isso reflete o fato de que o que está acontecendo com o nosso país nada tem a ver com um partido político ou com uma pessoa específica, mas sim com a rota de destruição que viemos percorrendo, a diferentes velocidades, desde o último século. Toda vez que gritamos "Onde você estava, quatro anos atrás?", "A culpa é do seu partido, não do meu" ou "Eu não votei nele!" nos aproximamos mais um pouco do fim da América — ou pelo menos da América imaginada pelos fundadores da Nação.

Enquanto escrevo esta introdução, semanas antes do livro ser posto à venda, já sei que meus críticos serão cruéis e implacáveis. Eles vão me acusar de ser todo tipo de teórico da conspiração que forem capazes de inventar — e vão basear suas acusações no enredo de um romance que muito provavelmente nem sequer se darão ao trabalho de ler.

Felizmente, não sou nada disso. Nunca fui. Já fui chamado de todas as coisas detestáveis que existem, e aguento o tranco. Mas, quando tudo isso tiver passado e as pessoas olharem para trás, para esse período da história do nosso grande País, só há uma coisa que espero que todos, críticos e fãs, digam a meu respeito.

Que eu estava errado.

Divirtam-se com o livro; espero que na sua leitura você perca as mesmas horas de sono que eu perdi para criá-lo.





A liberdade foi perseguida no mundo todo;

a razão foi tida como rebelião;

e a escravidão do medo fez com que os homens tivessem

medo de pensar.

Mas a natureza irresistível da verdade é tal que tudo que

ela pede, e tudo o que deseja, é a liberdade de aparecer.

Thomas Paine,

Os Direitos do Homem, 1791


Prólogo
Eli Churchill era um falastrão. Depois que ele começava a falar, não tinha o hábito de parar e ouvir, mas agora um som ao longe o tinha deixado preocupado. — Espera um minuto — Eli murmurou. Ele aninhou o bocal do telefone público no ombro, olhou de relance para a estreita e sulcada estradinha de terra Mojave que tinha percorrido para chegar até ali, depois ergueu os olhos e encarou o longo e escuro caminho na outra direção.

Em um lugar silencioso como aquele os ouvidos podem pregar peças na gente. Ele podia jurar que havia escutado um som deslocado, como o estalido de um talo de grama seca sob os pés de alguém, embora nenhum ser humano tivesse o que fazer em um raio de 30 quilômetros de onde ele estava, mas Eli não tinha como saber ao certo.

A lua brilhava alta e os seus olhos já estavam acostumados à escuridão. Ele não via ninguém, mas, com o tipo de caras com que Eli estava preocupado, nunca se sabe.

Quando recolocou o telefone de volta no ouvido, uma mensagem automática avisou que a companhia telefônica queria outro pagamento para só então permitir a continuação da ligação. Ele pegou suas últimas seis moedas de 25 centavos de dentro de um rolinho de papel amassado e enfiou na abertura do orelhão.



Restavam apenas três minutos. Em certo sentido, era irônico. Depois de anos de planejamento, ele tinha recolhido e levado consigo todas as provas de que precisava para corroborar sua história, mas não dispunha de dinheiro trocado suficiente para contá-la por telefone.

  • Ainda está aí, Beverly?

  • Sim. — O sinal do telefone estava fraco e a mulher do outro lado da linha parecia cansada e impaciente. — Com todo o respeito, Sr. Churchill, preciso que o senhor vá direto ao ponto.

  • Eu vou, eu vou. Agora, onde é que eu estava... — Enquanto ele folheava rapidamente a pilha de fotocópias, uma rajada de vento acertou em cheio um par de folhas soltas, que saiu flutuando noite afora.

  • O senhor estava falando de dinheiro.

  • Sim, certo, tudo bem: 2,3 trilhões de dólares, é disso que estamos falando. Sabe quanto dinheiro é isso? É uma pilha de cédulas de mil dólares que chegaria do nível do mar ao espaço sideral e voltaria com 50 quilômetros de folga.

  • É a quantia que Don Rumsfeld disse à nação que tinha sumido, sem explicações nem justificativas, no verão de 2001. Você não entende? São 2,3 trilhões de dólares, uma quantia três vezes maior do que toda a moeda em circulação nos EUA. Ninguém perde tanto dinheiro. Isso não é um erro de contabilidade, é crime organizado.

  • Sr. Churchill, o senhor afirmou em sua mensagem que tinha algo a me dizer que eu nunca tinha ouvido antes.

  • Eu sei onde eles gastaram esse dinheiro, ou pelo menos parte dele.

Um breve ruído de estática invadiu a ligação.

  • Continue.

  • Eu vi o lugar, um dos lugares onde eles estão se preparando para aprontar alguma coisa, uma coisa grande, planejando, sabe? Arranjei um emprego na manutenção. Achavam que eu era só um faxineiro, mas durante a noite eu examinava o lugar. Vi o que eles estão planejando. Estão construindo uma estrutura.

Ele conferiu suas anotações para se certificar de que estava dando as informações corretas.

  • Não se trata de um prédio, mas de uma estrutura política e social. Eles já vêm trabalhando nisso faz muito tempo. Décadas. Quando puserem abaixo o sistema atual, só vai sobrar esse novo que eles estão elaborando.

  • Eu gostaria de me encontrar pessoalmente com o senhor. Onde o senhor está agora?

  • Não posso dizer por telefone.

  • Repita, por favor. A ligação está péssima.

O vento seco do deserto vinha soprando constante e frio desde que ele chegara ali, mas agora Eli percebeu que a brisa tinha ficado bem mais fraca, quase imperceptível.

  • Eles estão mexendo os pauzinhos para que daqui a uma geração ninguém mais se lembre de como este país costumava ser. Assim que estiverem prontos para dar a primeira pancada nos alicerces do sistema, vão fazer a economia desmoronar feito um castelo de cartas. A mídia controlada já está na mão deles, prontinha para iniciar sua campanha de relações públicas. E eles estão dando um jeito de deixar as pessoas tão endividadas, alienadas e despreparadas que vão pedir socorro ao primeiro que disser que tem as respostas.

  • Onde posso encontrá-lo, Sr. Churchill?

  • Não temos tempo; apenas me escute. Eles vão aprontar alguma coisa, para começar o esquema todo. Assim como desapareceram aqueles 2,3 trilhões de dólares, sumiram também 11 armas nucleares do arsenal dos EUA, e eu vi duas delas.

O lampejo de uma luz brilhante e vermelha na parede da cabine telefônica chamou a atenção de Eli. Ele se virou e deixou o telefone cair.

Eli Churchill só teve tempo para iniciar uma oração silenciosa, mas não conseguiu terminá-la. Seu último apelo foi interrompido por um tiro à queima-roupa de uma pistola com silenciador, e a última coisa que passou por sua cabeça foi uma bala dundum semiencamisada de ponta oca, 357.




PARTE UM
"É o poder que impõe as ordens, domina; os meios materiais apenas obedecem. Os homens são como barro nas mãos do líder consumado."

Woodrow Wilson, em Leader of Men

(Líder de Homens)


Capítulo 1
A maior parte das pessoas pensa na experiência em termos de anos, mas, a bem da verdade, o que a define são alguns momentos decisivos. Em geral nunca mudamos e passamos boa parte da vida na mesma, até que, de repente, crescemos de maneira súbita, em momentos decisivos.

Uma vez que sua vida era muito boa do jeito que estava, Noah Gardner tinha empregado uma boa dose de esforço em seus primeiros 20 e poucos anos para evitar, a todo custo, a chegada desses momentos decisivos.

Não que ele tivesse simplesmente jogado fora todo o seu tempo. Longe disso. Para começar, Noah tinha passado uma década inteira construindo o que a maior parte dos homens chamaria de uma impressionante reputação de sucesso com as mulheres. Bonito, com um bom emprego, educação de primeira, endiabradamente engraçado e até mesmo inteligente quando queria, razoavelmente em boa forma para um típico rato de escritório, Noah tinha todas as legítimas credenciais para criar um perfil arrasador em sites de relacionamento. Desde seu primeiro ano na Universidade de Nova York, raramente passava sozinho as noites dos fins de semana; tudo o que tinha a fazer era simplesmente deixar na posição médio-alto seu botão de "disponibilidade para companhias femininas noturnas".

Depois de chegar aos 27 anos e encarar a iminente aproximação do terrível número 30, Noah tinha começado a perceber uma coisa sobre o botão médio-alto: para dançar um tango tem de haver duas pessoas. Se ele tinha baixas expectativas no que dizia respeito ao jogo do amor, as mulheres que ele vinha conhecendo e com quem saía estavam fazendo a mesma coisa. Agora, no seu aniversário de 28 anos, ainda não tinha certeza daquilo que queria em uma mulher, mas já sabia o que não queria: "uma namorada-troféu", alguém só para exibir para os amigos. Disso já estava de saco cheio. Talvez, e apenas talvez, fosse hora de pensar em engatar um relacionamento sério.

No meio dessas divagações sobre a vida e o amor, ele viu pela primeira vez a mulher de seus sonhos.

Não havia nada de remotamente romântico nas circunstân­cias da situação. Ela estava em pé, na ponta dos dedos, esticando o braço para pregar com tachinhas, no quadro de avisos de corti­ça da empresa, um folheto vermelho, branco e azul. E ele estava só olhando, na frente da máquina de salgadinhos, paralisado no tempo entre o segundo e o terceiro botão do painel de seleção do seu petisco da tarde.

Psicólogos renomados nos dizem na revista Maxim que as primeiras impressões mais importantes são registradas nos dez segundos iniciais. Pode não parecer muito tempo, mas é uma eternidade quando se trata de um homem encarando um colega de trabalho do sexo feminino. Depois de quatro segundos, Noah já tinha feito três observações.

Em primeiro lugar, ela era linda, de uma beleza discreta, que quase desafiava o observador a encontrá-la. Segundo, ela não fazia parte do estafe permanente de funcionários, provavelmente estava trabalhando como temporária na sala de expedição ou em algum departamento de alta rotatividade. Terceiro, mesmo naquele cargo modesto, ela não sobreviveria muito tempo na Doyle & Merchant.

Dizem que devemos nos vestir para o trabalho que pretendemos ter, e não para o trabalho que temos. Isso é especialmente verdadeiro no ramo de relações públicas e de assessoria de imagem, em que a aparência é a realidade. Aparentemente o trabalho que aquela garota desejava ter era de recepcionista da Sociedade de Preservação Cultural Grateful Dead. Mas não, não era exatamente isso. Ela não parecia uma aspirante a hippie retrô. Era mais do que as roupas, era outra coisa, era seu porte, seu jeito, a maneira com que ela se movia, como um espírito genuinamente livre. Era óbvio que ela exalava uma vibração atraente, mas não havia lugar para aquele tipo de coisa — nem na roupa nem na atitude — naquele mundinho conservador, empertigado e convencido, das relações públicas de Nova York.

Depois de cinco segundos de observação, outro detalhe chamou a atenção de Noah, o que o fez perder completamente a noção do tempo.

O que o pegou de surpresa foi uma palavra, ou, mais precisamente, o significado de uma palavra: linha. Mais poderosa que qualquer outro elemento do design, a linha é a alma de uma obra de arte. É a razão pela qual um simples logotipo ou logomarca pode valer dezenas de milhões de dólares para uma corporação. É o que faz com que se acredite que determinado carro, par de óculos escuros ou jaqueta tem o poder de transformar pessoas no que elas desejam ser.

A definição que ele tinha recebido de um amigo artista não veio na forma de palavras, mas de um desenho. Apenas sete pinceladas leves de uma caneta de feltro em uma página em branco, diante de seus olhos, apareceu a mais pura essência de uma mulher. Embora não tivesse nada de lascivo, era o desenho mais sexy que Noah já tinha visto na vida.

E foi isso que o arrebatou. Ali estava, no quadro de avisos, aquela mesma linha delicada e requintada, que se estendia lindamente das sandálias dela até a ponta dos dedos. Por mais improvável que pudesse parecer, naquele exato momento ele soube que tinha se apaixonado.
Capítulo 2
- Posso ajudar você aí?

A frase inicial de Noah, não muito sutil, foi pontuada pelo barulho do bombom Tootsie Roll caindo na bandeja de metal da máquina de doces.

Ela fez uma pausa e olhou de relance para a sala da empresa destinada aos intervalos de descanso e convívio dos funcionários; além dos dois, o lugar estava totalmente vazio. Era um olhar frio e indiferente, que examinou Noah de cima a baixo. Sem desviar os olhos, ela enganchou com a ponta dos pés um banquinho, puxou-o para perto de si, subiu nele e retomou a tarefa de afixar o folheto no quadro de avisos de cortiça. O gesto deixava claro que, se tudo o que Noah tinha a oferecer eram alguns centímetros a mais de chão, ela daria um jeito de conseguir viver sem ele.

Felizmente Noah era abençoado com uma cegueira para a rejeição; ela tinha dado um gelo nele, isso era evidente, mas não ficou nem um pouco abalado. Em vez disso, sorriu, e mesmo de longe imaginou ter visto uma pontinha de deleite no rosto dela.

Alguma coisa naquela mulher desafiava uma tradicional "descrição completa do estoque com único olhar". Sem dúvida, todas as mercadorias do inventário estavam no lugar certo, mas desta vez nenhuma escala de zero a dez seria capaz de dar conta de analisar detalhadamente todo o material. Era uma experiência inteiramente nova para Noah. Embora ele só estivesse na presença dela havia menos de um minuto, a alma daquela mulher — mais do que seu corpo — tinha se insinuado dentro dos sentidos dele.

Ao que parecia, ela usava pouca ou quase nenhuma maquiagem; nada precisava ser escondido nem embelezado. Jóias simples de prata, jeans desbotados apertados e puídos no limite do permitido pelo código de vestuário da "sexta-feira casual" da firma. Tudo obviamente escolhido e usado para a aprovação exclusiva dela e de mais ninguém. Uma magnífica massa de cabelos ruivos penteados para trás em um coque banana preso por dois lápis número dois cruzados. O estilo provavelmente era resultado de apenas alguns segundos de arrumação, mas não teria ficado mais adequado mesmo se ela tivesse passado horas em um salão de beleza.

Ao longo do dia de trabalho, alguns fios rebeldes tinham escapado do confinamento. Esses cachos castanhos emolduravam um rosto lindo, duas vezes mais radiante graças aos mistérios que certamente se ocultavam por trás daqueles olhos verde-claros.

Ele chegou mais perto e leu o folheto enquanto ela afixava a última tachinha no canto superior do cartaz, cujo leiaute era amadorístico, mas alguém tinha se dado ao trabalho de escrever o texto a mão, em caligrafia passável. O título era colado, uma tira de pergaminho esfarrapado e levemente chamuscado que parecia ter sido arrancado do rascunho original da Constituição dos EUA.


Nós, o Povo

Se você ama seu país, mas teme por seu futuro, junte-se a nós em uma noite de verdade que vai abrir seus olhos!

Entre os palestrantes convidados estão:


Earl Matthew Thomas — Candidato à eleição presidencial dos EUA em 1976 e autor do best-seller Divided We Fall

Joyce McDevitt Representante da regional de Nova York das liberty bells1

Major General Francis N. Klein Ex-comandante da INSCOM2 (aposentou-se em 1984), co-fundador da organização guardiansofliberty.com

Kurt Bilger Coordenador do grupo Sons of the American Revolution

Beverly Emerson — Diretor emérito do site founderskeepers



Danny Bailey — O homem por trás do Overthrow (Tomada do Poder), fenômeno do YouTube, com mais de 35 milhões de acessos!
Traga um amigo, venha fazer um brinde conosco e levante sua voz pela liberdade!

www.FoundersKeepers.com
A data, o horário e o local da reunião vinham impressos na parte de baixo do cartaz.

  • Este evento é hoje à noite? — Noah perguntou.

  • Parabéns, você sabe ler. — Ela estava mudando de lugar alguns dos outros avisos e folhetos, de modo a dar mais destaque para seu próprio cartaz.

  • Talvez fosse melhor você ter afixado seu cartaz na semana passada. As pessoas fazem planos.

  • Para dizer a verdade — ela o interrompeu, assim que terminou seu rearranjo do quadro de avisos —, isso foi só um descargo de consciência. Não espero que alguém daqui vá se interessar.

  • Não?

  • Não.

  • Por quê?

Ela virou o corpo; em cima do banquinho, estava um pouco acima do nível dos olhos dele. Vista de pertinho, cara a cara, tinha uma franqueza tão intrigante quanto perturbadora.

  • Você quer mesmo saber?

  • Sim, quero mesmo saber.

  • Tudo que vocês, relações-públicas, sabem fazer é ganhar a vida mentindo. Para vocês a verdade não passa de apenas mais uma história.

Ele sentiu um impulso automático de elaborar uma defesa, mas, antes de conseguir pronunciar qualquer palavra, engoliu em seco. Em certo sentido ela estava absolutamente certa. À bem da verdade, o que ela acabara de dizer, deixando de lado as palavras evasivas e ambíguas, era a mais perfeita tradução que um leigo poderia dar da declaração de princípios e objetivos da empresa.

Parecia um momento excelente para mudar de assunto.



  • Meu nome é Noah.

  • Eu sei. Eu separo a sua correspondência.

Os detalhes que ela deu a seguir foram enumerados em tom alegre; ela fez um resumo de tudo o que sabia sobre ele, e, enquanto isso, ia tocando habilmente a ponta dos dedos de uma das mãos, começando pelo polegar:

  • Noah Gardner, vigésimo primeiro andar, sala noroeste, nomeado vice-presidente na semana passada. E filho de uma... de um figurão.

  • Uau. Por um instante tive medo de como você terminaria a última frase.

  • Seu pai é o dono deste lugar, não é?

  • Ele é dono de boa parte, acho. Ei, preciso confessar uma coisa.

  • Aposto que sim.

  • Você ainda não me disse seu nome, e estou tentando ler seu crachá, mas me preocupa o fato de que você vai ficar com a impressão errada do lugar para onde estou olhando.

  • Vá em frente, não sou tímida.

Os olhos dele só se desviaram duas vezes, e mesmo assim apenas brevemente. Ele vislumbrou uma pequena tatuagem, desenhada com elegância e mal-escondida pelo decote do top que ela estava usando. Tudo o que dava para ver era a ponta de uma da asa aberta, talvez de um pássaro, talvez de um anjo. Sobre a pele macia e pálida havia uma pequena cruz de prata presa a uma delicada correntinha.

A identificação estava presa na gola V do pulôver, cujo caimento era tão perfeito nela que parecia ter sido cuidadosamente tricotado naquela mesma manhã. 0 crachá propriamente dito era uma simples identificação de funcionário temporário, apenas um degrau acima da credencial de visitante. Ela estava sorrindo na fotografia, mas era um sorriso de verdade, do tipo que faz a gente querer se desdobrar e fazer qualquer coisa só para vê-lo de novo.



  • Molly Ross.

Com um leve toque do nó dos dedos no queixo de Noah, Molly fez com que ele erguesse os olhos.

  • Isso é fascinante e tudo o mais, Sr. Gardner, mas preciso ir cuidar da máquina de franquia postal.

  • Espere só um segundo. Você vai estar nessa reunião de hoje à noite?

  • Claro.

  • Que bom. Porque eu vou tentar ir.

Ela olhou para ele, calmamente.

  • Por quê?

  • O que você acha? Sou um patriota.

  • É mesmo? Sei.

  • Sim, sou. Bastante patriota.

  • Isso me faz lembrar uma piada — disse Molly. — Noé chega em casa. O Noé3 da Bíblia, sabe?

Ele faz que sim com a cabeça.

  • Então, Noé chega em casa depois de finalmente ter reunido todos os animais dentro da arca, e a esposa dele pergunta o que andou fazendo a semana toda. Sabe o que ele disse para ela?

  • Não, pode me contar.

Molly passou a mão de leve na bochecha de Noah, puxou o rosto dele mais para perto e respondeu-lhe: — Ele disse "Querida, já "catei tudo". Ela desceu, empurrou o banquinho para seu lugar de origem, e saiu corredor afora.

Embora geralmente Noah fosse espirituoso e tivesse a língua afiada e sempre uma resposta pronta, desta vez tinha sido diferente: mesmo muito depois de a porta ter se fechado atrás de Molly, ele ainda não tinha conseguido pensar em nada.



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