A leitura e o escrita segundo escritores e intelectuais contemporâneos



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A LEITURA E O ESCRITA SEGUNDO ESCRITORES E INTELECTUAIS CONTEMPORÂNEOS

Darisa Matos - Sociedade Pestalozzi do Estado do Rio de Janeiro


Nesses tempos de “leitura rarefeita”, pegando carona na expressão de Marisa Lajolo e Regina Zilbermam, como professores precisamos desenvolver estratégias para cooptar nossos alunos para o mundo dos livros e sua conexão imediata com a escritura e reescritura. Sobretudo entre universitários de faculdades particulares, o contato com a leitura e escrita verifica-se em circunstâncias restritas às anotações em sala de aula ou no ambiente de trabalho por meio de pequenos relatórios e, anotações de aula, cópias de trabalho, resumos, colas e provas. Já a leitura reserva-se aos jornais no fim de semana, com destaque para colunas ou matérias acerca de novelas, artistas, assuntos familiares ou esportivos, em alguns casos, economia e política, ocorrendo igualmente a leitura de capítulos, artigos e partes de livros específicos da área de estudo. O resultado desse econômico contato textual é um restrito conhecimento de mundo, uma pletora de clichês, gírias, emprego de uma linguagem inadequada frente ao contexto lingüístico. Com o intuito de despertar a conscientização sobre a conexão entre leitura, escrita e reescritura, engendramos uma experiência com leitura de textos literários ou não, antecedendo cada aula. As leituras, escritas e reescrituras esboçadas por escritores, intelectuais em epístolas, artigos e entrevistas pareceu aos alunos um material muito motivador. Em conseqüência, a apresentação desses excertos alçou espaço nas aulas, trazendo discussões que estabeleciam analogia entre vida e leitura, vida e escrita, dificuldade da escrita, a impossibilidade de viver sem livros, a conexão visceral com os livros. Como resultado da seleção de excertos mais provocativos, originou-se o texto a seguir, costurados aqui para efeito de apresentação.

O encanto pela leitura constitui um elemento comum para muitos homens de letras desde a tenra idade. O educador Paulo Freire deixou registrado em seu conhecido ensaio A importância do ato de ler o modo como se processou sua integração com o mundo através da leitura. De acordo com o educador, a leitura, à princípio, dava-se pelo olhar, pela observação, pela narração dos pais e dessa forma tentava traduzir o mundo a sua volta. “Quanto mais eu lia esse mundo (referindo-se aos barulhos indecifráveis da noite motivo de grande medo), mais ia decifrando, ia percebendo esse mundo, tanto mais me libertava das apreensões noturnas”(Freire In Abreu, 1995: ) Sua experiência no âmbito da leitura levou-o a considerar dois níveis de leitura: uma, anterior à aquisição da palavra escrita, denominada por ele de palavramundo; e outra, posterior à palavra escrita. Ainda dialogando com Freire, as duas formas de leitura não formam hierarquias distintas, ao contrário elas se integram, unindo os dois universos em um único, transmitindo à palavra uma pletora de significados, formadora de um estado de encantamento com o mundo e com o texto, com o leitor e ou auditor, afinal com o livro.

A leitura também foi companheira inseparável do escritor Moacyr Scliar. Ouvir e contar histórias constituíam uma prática social das pessoas que freqüentavam a sua casa. O escritor comenta que “as histórias que essas pessoas me contavam me deixavam boquiaberto e encantado” (Scliar In: Abreu, 1995: 106) Os livros, as histórias, os autores povoavam as conversas também dos amigos e colegas de classe. Além disso, seus pais sempre lhe disponibilizaram a aquisição dos títulos que quisesse a despeito de não possuírem uma situação financeira a contento.

O historiador Alberto Manguel, diferentemente de Paulo Freire e Moacyr Scliar, cujas vidas se misturavam com o mundo dos livros, afirma ter adquirido experiência pela mediação do livro: “quando me deparava com algum acontecimento, circunstância ou tipo semelhante àquele sobre o qual já tinha lido, isso me causava o sentimento um tanto surpreendente mas desapontador de déjá vu, porque imaginava que aquilo que estava acontecendo agora já havia acontecido em palavras”(Manguel, 1997:20)

Da mesma forma que Manguel, Sartre conheceu o mundo primeiro pelas palavras “via mais realidade na idéia que na coisa. Era nos livros que encontrava o universo: digerido, classificado, rotulado, meditado, ainda assim formidável” (Sartre In: Manguel, 1995: p.23)

Walter Benjamin reconheceu a impossibilidade de separar o conhecimento adquirido pelos livros. Se antes eram o conteúdo, tema e assunto originários e próprios aos livros, na idade adulta não eram exclusivos aos livros, ainda que não pudessem ser desligados da fonte inspiradora. Benjamin observou que o encontro com os livros fora feito “da presteza com que se abria para eles (...) o que permitia que o leitor sentisse que “habitava neles, morava entre suas linhas (...)” (Benjamin In Manguel, 1997: p.25)

A necessidade de leitura do texto literário para muitos escritores ocorre em razão da existência de uma falta. Em todos os tempos, o mundo foi pensado e sentido como algo insatisfatório. O descontentamento teria início desde o nascimento quando uma série de perdas e de afastamentos são impostos ao ser humano, tornando mais racionalizada à medida que tomamos ciência de como o mundo deveria ser e não é. Para Flaubert “A vida é tão horrível que só se pode suportá-la evitando-a, e podemos fazê-lo quando se vive no mundo da arte”(Moisés, 1990: 105). Para Fernando Pessoa “a literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”. (Moisés, 1990;105).

Se a leitura do texto literário caracteriza uma lacuna, para Borges traduz nova consideração. O escritor argentino observou que “no oitavo livro da Odisséia se lê que os deuses tecem considerações para que as futuras gerações não lhes falte algo que cantar”.(Borges, 1974: p.88)

Rimbaud em carta de 25 de agosto de 1870 escrita a Georges Izambard, professor, cujos livros emprestava face à carestia experimentada pela família do jovem escritor, refere-se à leitura, à necessidade vital que esta lhe proporciona e a prática da escritura: “Li todos os seus livros (...) Sua biblioteca, minha única tábua de salvação, se esgotou(...) O Dom Quixote se apresentou a mim; ontem, por duas horas, passei em revista o bosque de Doré: agora, não tenho mais nada! Estou lhe enviando versos; leio-os uma manhã, ao sol, como eu fiz: o senhor não é mais professor agora, espero!... (Rimbaud, 1983:28-29)

Em outra ocasião, em maio de 1873, Rimbaud escreve ao amigo Ernest Delahaye externando a apatia que lhe tomara a existência, embora continue produzindo: “Sinto falta desta atroz Charlestown, O Universo, a Biblioteca, etc... No entanto trabalho regularmente, faço pequenas histórias em prosa(...) Estou abominavelmente entediado. Nem um livro, nem um bar ao meu alcance, nem um incidente nas ruas. Que horror o campo francês.” (Rimbaud, 1983: 42)

O amor aos livros e a posse de títulos trouxeram para alguns problemas de ordem política, sobremaneira durante a vigência do Nazismo. Dessa forma Gehard Scholen alerta o amigo judeu, Walter Benjamin, em 26 de julho de 1993, sobre a necessidade de retirar a biblioteca de Berlin face à perseguição nazista aos judeus: “Enquanto uma boa parcela ainda não conseguir tirar o seu dinheiro da Alemanha, isso será admissível, porém as últimas leis de Berlim tendem muito mais a iniciar a derradeira campanha de saqueio. E você, tomou alguma medida pelo menos para salvar a sua biblioteca de ser confiscada como propriedade de um inimigo do povo alemão”? Você providenciou, entretanto, que alguém enviasse seus papéis de Berlim ao exterior? (...) aqui, nos inteiramos, consternados, que valiosas bibliotecas foram vendidas por quantias ridículas, na pressa de emigrar; o que não se pode levar consigo, simplesmente perdeu o valor” (Idem: 98)

Não importa a situação, os livros estão sempre presentes como parte inseparável da vida e do fazer literário. Em carta de Drummond a João Cabral em 17.1.1942, observamos a relação inextricável entre leitura e escrita, escrita leitura: “(...) eu acho que se deve publicar tudo, menos pelo valor da experiência do que pela operação de extravasamento da personalidade, de outro modo cativa, e pela tomada de contato com o mundo exterior, que é fértil em sugestões e excitações para o autor. Se lhe desagradar a opinião dos jornais e revistas, não publique para eles; publique para o povo. Mas o povo não lê poesia ... Quem disse? Não dão ao povo poesia. Ele, por sua vez, ignora os poetas. É certo que sua poesia tem um hermetismo para o leitor comum, mas se v. faz assim hermética porque não pode fazê-la de outro jeito, se você é hermético, que se ofereça assim mesmo ao povo. Ele tem um instinto vigoroso, quase virgem, e ficará perturbado com suas associações de coisas e estados de espírito, que excedem a lógica rotineira”. (Sussekind,2001: 174)

Na mesma carta Drummond expressa o embrincamento entre relação entre vida e literatura: “(...) há muita coisa ainda a fazer antes de chegarmos a uma poesia integrada ao nosso tempo, que o exprima limpidamente e que ao mesmo tempo o supere. Não devemos ns desanimar com isso. Desde que estejamos vivos, as experiências se realizarão dentro e fora de nós, e haverá possibilidade de progredir na aventura poética. O essencial mesmo é viver e acreditar na força formidável da vida, que é nosso alimento e nosso material de trabalho.” (Idem: 175)

Os livros costumam transformar-se amiúde em objetos de desejo e como tal motivo de agrado. Vemos tais objetos enviados pelo correio, dados pessoalmente como presentes trocados entre colegas de ofício e amigos. Na carta de Manoel Bandeira a João Cabral de Melo Neto, em 1942, Bandeira escreve: “Agradeço muito penhorado a oferta de Pedra do sono”. (Idem: 26). Cabral em epístola a Drummond em 29/3/1941, comenta: “Devo começar-lhe pedindo desculpas por não haver, até agora, agradecido sua lembrança de me mandar o Sentimento do mundo”. (Idem: 25)

Os comentários sobre escrita e reescrita povoam as cartas de os escritores e intelectuais. Dessa forma, Benjamin externa a Gerhard Scholen, a revisão do texto sobre Kafka: “Espero que o manuscrito sobre Kafka já tenha sido remetido de volta. Necessito-o mais ainda porque submeti o texto a uma ampla reelaboração, de modo que a sua versão está ultrapassada”.(Idem: 180) “No momento em que estou dando mais uma mão ao ensaio sobre Kafka, que deve ser a última, aproveito para retomar explicitamente algumas objeções suas e também as questões levantadas por sua posição (...) as modificações já são consideráveis”. (Idem:187)

Proust em carta a Gaston Gallimard, seu editor, em 25 de junho de 1922, lembra as mudanças efetuadas no texto, prática corrente, mesmo após editado o título: “(...) o trabalho de refazer o texto datilografado, no qual faço acréscimos em todo lugar e mudo tudo, apenas começou” (Proust, 1993:505)

A busca da palavra exata, igualmente povoa seus escritos. Lispector revela ao escritor e amigo Lúcio Cardoso em 23 de junho de 1947, “Às vezes como seria bom você me ajudar com uma palavra ou outra. Continuo a trabalhar como num pesadelo. Seria bom que você lesse um pouco o que faço e dissesse se estou doida ou não. Ou então não lesse, mas me explicasse várias coisas. Às vezes continuar a escrever tem para mim o ar de uma teimosia, digamos de uma teimosia mais ou menos vital, mas não muda. Cada vez mais me afasto do bom-senso, e entro por caminhos que assustariam outros personagens, mas não os meus, tão loucos eles são.” (Lispector, 2002: 134-5) Em outro momento comenta com o escritor que “antes de começar a escrever eu (Clarice) tinha a impressão de que ia lhe contar como tenho escrito, como tenho duvidado, como às vezes me parece sufocante de bom o que tenho escrito, e dois dias depois aquilo não vale nada, como tenho aprendido a ser paciente, como é ruim ser paciente, como tenho medo de ser “escritora” bem instalada, como tenho medo de usar minhas próprias palavras, de me explorar... (...)”(Idem, 41-2)

A Tânia Kaufmann revela sua inquietação eterna quanto à sua produção. Em 16 de fevereiro de 1944. comenta: “quanto ao trabalho, ando horrivelmente desfibrada: tudo o que tenho escrito é bagaço; sem gosto me imitando, ou tomando um tom fácil que não me interessa nem me agrada.”(Idem: 38)

Muita vezes intelectuais e escritores ajudam-se mutuamente balizando um a obra do outro, por meio de comentários elogiosos, entusiamados e por que não motivadores. Fernando Sabino observa que Clarice “está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito: o que é preciso é sofrer bem: é uma diferença bem importante, pra a qual o Mário (de Andrade) sempre me chamava a atenção. A gente sofre muito; o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo.”(Idem: 102-3)

As passagens mais destacadas pelos alunos terminam aqui. Inexoravelmente para muitos a experiência foi apenas uma das leituras do semestre, apagadas da memória com a proximidade do fim do ano. Para uns poucos, quem sabe, um mergulho sem volta no mundo dos livros, da leitura. Se tivermos logrado esse resultado, palmas para todas, caso contrário, ficou a tentativa e o encanto de algumas horas.


BIBLIOGRAFIA
BENJAMIN, Walter, SCHOLEM, Gershom. Correspondência. Trad. Neusa Soliz. São Paulo: Perspectiva, 1993.

BORGES, Jorge Luis. Obras Completas.vol 2. Espanha: Círculo de Lecturas,1984.

LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

MANGUEL, Alberto. Um história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MOISÉS, Leyla Perrone. Flores na escrivaninha:ensaios.São Paulo: Companhia das Letras,1990.

PROUST, Marcel, GALLIMARD. Correspondências. Trad.Helena B. Couto Pereira. São Paulo: Ars Poética: Edusp,1993.



RIMBAUD, Arthur. Correspondência. Trad. Alexandre Riboldi. Porto Alegre: LP&M, 1983, Coleção Rebeldes &Malditos, vol4.

SUSSEKIND, Flora (org.).Correspondência de Cabral com Bandeira e Drummond. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/ Fundação casa Rui Barbosa, 2001.

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