A leitura sociológica do folclore: a contribuiçÃo de florestan fernandes



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A LEITURA SOCIOLÓGICA DO FOLCLORE: A CONTRIBUIÇÃO DE FLORESTAN FERNANDES

Débora Mazza (UNESP)




Na obra de Florestan Fernandes o estudo sobre o folclore brasileiro compõe um conjunto de investigações que se estende de 1941 a 1963, intercalando a atividade crítica e os ensaios teóricos, a pesquisa de campo e os estudos metodológicos. É um retrato sobre o folclore do ponto de vista do cientista social.


Nesse artigo estarei atentando, especialmente, para esses primeiros trabalhos realizados no período de sua formação enquanto cientista social. O objetivo principal desses primeiros trabalhos seria o de dar expressão concreta à acumulação de conhecimentos teóricos e pôr à prova os ensinamentos dos professores, testando as numerosas sugestões contidas nas obras dos autores clássicos do passado e de tempos recentes. Além dos estudos sobre o folclore, teriam se evidenciado como as principais contribuições do autor no período de sua formação (graduação, mestrado e doutorado), a pesquisa sobre os Tupinambá e as relações raciais entre brancos e negros em São Paulo.

Examinando o conteúdo e a natureza dos estudos que Florestan empreendeu nos primeiros anos de formação, verificamos que são estudos sobre comunidade e pequenos grupos, pesquisas sobre objetos restritos com as repercussões para sua formação, semelhantes aos que deveriam ter as primeiras pesquisas para a iniciação científica do sociólogo. Diz o próprio autor que “o estudo de comunidades e pequenos grupos parece ser o melhor expediente para levar o aluno a refletir sociologicamente e aprender o respeito pelos dados de fato, a compreender e praticar a objetividade, a descobrir a utilidade dos conceitos e teorias sociológicas, a perceber o valor das hipóteses e dos critérios pelos quais elas podem ser submetidas à prova, a adquirir habilidades na identificação, classificação e tratamento analítico das evidências relevantes para a descrição e interpretação dos fenômenos considerados, a capacitar-se para lidar com a totalidade e a construir tipos, etc.”1. Entendemos que a descrição das realidades sociais pesquisadas segundo dados empíricos levantados mediante técnicas de observação cientificamente reconhecidas, a análise desses dados com base na exploração rigorosa de um referencial teórico e o esforço em colocar a imaginação sociológica a serviço de evidenciar as formas de vida social em questão, são elementos constitutivos dos trabalhos de Florestan neste período.


Florestan destacou a importância desses primeiros trabalhos como indicativos dos temas centrais de sua obra, informando que eles ofereceram a possibilidade de articular a pesquisa empírica com os elementos teóricos e metodológicos, possibilitando sua maturidade de sociólogo-pesquisador.


Formei, então, o meu próprio tirocínio sobre a análise dos dados empíricos; e fiquei sabendo porque a reconstrução empírica não basta à explicação sociológica: os fatos não falam por si mesmos. É preciso interrogá-los e, para isso, é indispensável algum domínio do quadro teórico envolvido. O velho leitor de Simiand recolocou-se a exigência fundamental- "nem teorias sem fatos e nem fatos sem teorias"- à luz de uma perspectiva nova, muito rica de conseqüências para o meu amadurecimento como sociólogo-pesquisador”2.

O desenvolvimento teórico desses primeiros trabalhos de Florestan Fernandes apontaram para problemas e situações de investigação que se mantiveram presentes em momentos posteriores de sua produção. A preocupação do autor em apropriar-se das discussões teóricas e metodológicas da Sociologia tendo em vista o desenvolvimento de suas temáticas de pesquisa, fez que muitos textos antigos fossem retomados para atender a interesses posteriores de revisão e/ou de confirmação do estatuto sociológico de seu trabalho. O material coligido na pesquisa sobre o folclore encontra-se reeditado em vários livros do autor, tal procedimento levou em consideração uma característica da construção de sua obra: a recuperação de textos publicados anteriormente e que foram sendo incluídos em novos livros tendo em vista novas leituras, novas questões, enfim, as mutações pelas quais o autor foi passando.

Florestan apontou que suas contribuições teóricas mais relevantes estariam nos trabalhos de investigação sobre a realidade brasileira, como a pesquisa sobre o folclore, os Tupinambá e a integração do negro na sociedade de classes. Porém estas investigações de cunho empírico mobilizaram preocupações e problemas desenvolvidos em textos de caráter lógico-metodológico. Por exemplo, em Fundamentos empíricos da Explicação Sociológica, o autor utilizou elementos de sua experiência de investigação empírica para discutir questões teóricas e de método na Sociologia. Esse tipo de prática definiu um traço caraterístico da obra de Florestan neste período: a verificação constante entre a realização do trabalho sociológico e sua correspondência com seus pressupostos teóricos e metodológicos. Ele trabalhava de forma exaustiva, acreditando que não era a quantidade de material que conferia consistência a uma pesquisa mas a qualidade das informações e o tratamento analítico a que eram submetidas. A tentativa de saturação teórica atravessou as suas investigações e a leitura crítica da realidade veio sempre lastreada por um quadro teórico previamente definido. Gabriel Cohn disse: "Florestan Fernandes toma posições em relação à realidade desde que lastreado por um determinado conhecimento, que é o do sociólogo”3. A preocupação com o recorte sociológico dos temas pesquisados e a construção teórico-metodológico do objeto seriam constantes neste período.

Nesse texto estarei me atendo apenas aos estudos sobre o folclore.



A pesquisa sobre o folclore paulistano

Florestan Fernandes, em 1941, aluno regular do primeiro ano do Curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, na Cadeira de Sociologia I, a cargo do professor Roger Bastide, acumulou uma documentação empírica sobre as condições e efeitos sociais das manifestações folclóricas em alguns bairros de São Paulo, o que lhe rendeu uma monografia. Este trabalho, publicado em partes na Revista Anhembi, mais tarde foi quase integralmente, condensado no livro Folclore e mudança social na cidade de São Paulo.

Diz o autor: “para um recém egresso dos quadros mentais da cultura de folk, aquela pesquisa era fascinante. Eu lancei-me a ela com um alvoroço de um primeiro amor. A bagagem cultural era deficiente, pois a professora Lavínia da Costa Vilela (auxiliar do professor Bastide na disciplina) se limitara a nos introduzir em alguns conceitos básicos de Sébillot e de Saintyves. Não obstante, graças às aulas do próprio Bastide, eu já estava lendo Durkheim e Mauss e me sentia capaz de projetar o folclore no "meio social interno". Dadas as minhas origens de autodidata, foi-me muito fácil trabalhar uma ampla bibliografia existente na Biblioteca Municipal, na Biblioteca Central da Faculdade e na Biblioteca da Faculdade de Direito. Em função de minha experiência de vida tão recente, sabia onde e como coligir os dados”4.

Os dados levantados por Florestan para a realização desta monografia foram utilizados para interpretar sociologicamente vários aspectos ligados ao folclore paulistano, em diferentes momentos de sua carreira: "Aspectos mágicos do folclore paulistano", "Folclore e grupos infantis", "As trocinhas do Bom Retiro", "O folclore Ibérico", "As cantigas de ninar", "As adivinhas paulistas". Ele entendeu que o conjunto de práticas sociais motivadas pelo repertório folclórico criava padrões de interação e socialização em todas as classes sociais e que, portanto, se constituíam num campo de análises sociológicas. Dentre os vários textos produzidos o que alcançou maior destaque foi "As trocinhas do Bom Retiro". O autor diz:

Pela primeira vez, via-me enfrentando as tarefas de "materializar" e de reconstruir as bases sócio-dinâmicas da vida em grupo. Não só tive oportunidade de passar do plano abstrato para o plano concreto no uso de conceitos, hipóteses e teorias; precisei formular, por minha conta, as perguntas que o sociólogo tem de responder quando examina, empiricamente, a estrutura e as funções do grupo social, nos vários níveis da vida humana. Por isso, esse pequeno trabalho representou, para mim, uma passagem da iniciação didática para a iniciação científica, e eu lhe devo, em termos de aprendizagem, muito mais do que fiquei devendo aos cursos que freqüentara anteriormente”5.

Florestan, inicialmente, não tinha uma idéia do alcance e das oportunidades que esta pesquisa lhe abriria; ele apenas tentou conciliar a necessidade de elaborar um trabalho final de curso aproveitando-se de situações, práticas e relações que faziam parte de sua história de vida.

"As trocinhas do Bom Retiro"6 foi um trabalho realizado com base na coleta de dados feita exclusivamente por meio da observação direta, contando com a técnica da descrição fiel das ocorrências, considerada como a mais adequada a este gênero de pesquisa. O trabalho foi apresentado no primeiro semestre de 1944 para concorrer ao concurso "Temas Brasileiros" instituído pelo Grêmio da Faculdade tendo merecido, por decisão do professor Roger Bastide, o prêmio relativo à seção de Ciências Sociais. Nele Florestan, por meio das observações das práticas folclóricas das "trocinhas", chegou à análise da organização dos grupos infantis tendo por finalidade imediata a recreação. Ele observou a formação dos grupos infantis valendo-se da condição básica da vizinhança; a organização dos grupos segundo a convivência primária do face à face e também segundo as exigências próprias de cada atividade, às vezes por sexo, outras vezes por idade, agilidade, tamanho, força física, quanto aos deveres e direitos dos participantes do grupo, a punição feita pelo líder, etc.

O autor observou que a natureza do grupo infantil em ação favorece a inexistência de distinções extremas entre as crianças de diferentes nacionalidades (italiano, japonês, alemão), as quais vivem num mundo próprio, das brincadeiras, com uma hierarquia e um sistema de valores exclusivos. Ele disse "pode-se afirmar, pois, que de modo geral, as relações entre os membros dos grupos infantis se orientam segundo padrões democráticos de conduta, quer com relação à nacionalidade, à classe social e à admissão de novos membros".7 Florestan identificou que a estrutura dos grupos infantis era modificada ao início de cada nova atividade pois a organização grupal dependia das atividades que eram postas em ação e da distribuição dos papéis demandados. A pesquisa sugeriu que, baseando-se no folclore infantil, seria possível mapear a existência de uma cultura infantil constituída por elementos culturais dos imaturos e caracterizados por sua natureza lúdica.

E de onde viriam os elementos constitutivos desta cultura?

Florestan disse: “em grande parte- a quase totalidade- esses elementos provêm da cultura do adulto. São traços diversos da cultura animológica que, abandonamos total ou parcialmente, transferem-se para o círculo infantil, por um processo de aceitação, incorporando-se à cultura do novo grupo. São elementos da cultura adulta, incorporados à infantil por um processo de aceitação e nela mantidos com o correr do tempo8.

Ele reconheceu que havia elementos elaborados pelos próprios imaturos, valendo-se de seu patrimônio cultural, porém, "o papel da criança consiste mais em receber os elementos da cultura adulta que se cristalizaram e adquiriram traços folclóricos e executá-los; as modificações são lentas e muitas vezes inconscientes"9. Florestan valorizou a importância da cultura infantil não a limitando à imitação. Considerou que, mesmo quando a criança brincava de "papai-mamãe", de "polícia-bandido", etc., ela estaria desenvolvendo uma ação despersonalizada sofrida no tempo e, por meio dos vários grupos infantis, ação essa que passou de criança para criança, e que se respaldou mais em funções sociais, em entes gerais, que em pessoas ou atos indicáveis a dedo, reconhecíveis. Ou seja, não seria uma mera imitação, mas uma imitação que implicaria interação mental. Neste ponto, Florestan apoiou-se em Piaget10 para sustentar que, diferentemente da interpretação comum dada pelos folcloristas de que "os folguedos" seriam aspectos da imitação dos adultos por parte da criança, os "folguedos" pertenceriam ao patrimônio cultural do grupo e "já estão suficientemente despersonalizados, pela duração no tempo e pelas transmissões sucessivas de grupos a ponto de não designarem pessoalmente ninguém. É antes uma aquisição das funções que uma imitação "11.

Florestan incorporou o conceito de "ser social" de Durkheim para contrapô-lo ao "ser individual" sugerindo que os grupos infantis socializavam a criança, agindo no mesmo sentido que a paróquia, a escola, a família na formação do ser social e no desenvolvimento da personalidade dos imaturos. A socialização da criança proporcionada pela cultura infantil folclórica se daria num processo de educação informal, ou seja, a transmissão de experiências e de conhecimentos aos imaturos pelo intercâmbio cotidiano, durante a interação espontânea das crianças. Ele disse "são aquisições de elementos culturais por meio da atualização da cultura infantil, sem uma transmissão sistemática e ordenada das experiências, e portanto não há interferência do adulto"12. Os traços assimilados nas brincadeiras seriam idéias, representações elaboradas na própria sociedade e teriam uma certa correspondência com a vida social das pessoas adultas. Eles desempenhariam a função que Durkheim atribuiu à educação, desenvolver no indivíduo o "ser social", propondo às crianças modos de ver, de sentir, de agir que nunca aprenderiam espontaneamente. Florestan reconheceu que o folclore infantil era um dentre outros processos de integração do indivíduo aos padrões grupais, porém o lhe pareceu merecedor de atenção especial foi fato de tratar-se do aspecto da socialização elaborado no seio dos próprios grupos infantis. Para ele, "é a educação da criança, entre as crianças e pelas crianças"13. Florestan ampliou o conceito durkheimiano de educação apontando para um processo de formação e de modelagem aos valores da sociedade operado pelos próprios imaturos, através da cultura infantil, considerando o grupo infantil como "uma sociedade em crisálida e sua função eqüivale à dos demais grupos, sendo igualmente importante na socialização do indivíduo, isto é, dos imaturos"14. Nesses grupos as crianças adquiriam consciência da regra moral subordinando-se às regras elaboradas somente pelas crianças.

Florestan coletou várias brincadeiras ligadas ao folclore infantil que operavam com os valores presentes no mundo do adulto referentes ao casamento, afetividade, preconceito racial, classes sociais, papéis sociais, etc. Suas conclusões apontaram que os grupos infantis se apresentavam como verdadeiros grupos de iniciação e introdução dos imaturos no sistema de valores da sociedade, ou seja, iniciando-os na vida social. Ele disse "é uma verdadeira antecipação à vida do adulto"15.

O autor identificou, também, a importância da função integradora do folclore infantil nos processos de reeducação dos imigrantes. Ele sugeriu que "nos grupos infantis, os imaturos adquirem espírito de solidariedade, preparando-se para a vida social do indivíduo adulto, ao mesmo tempo que se nacionalizam e se humanizam em contato perene com o sistema de valores do que poderíamos chamar um dos aspectos da cultura brasileira"16. Florestan analisou que os elementos do folclore infantil brasileiro que constituíam parte do patrimônio lúdico das crianças, eram todos tradicionais, ou seja, recuperavam valores vindos do passado, de nossa formação, do ambiente moral em que nos formamos. Ele interpretou, com base no folclore infantil, que não houve uma incorporação expressiva da cultura de vários povos; a contribuição do índio, do negro, e de outras nacionalidades foi muito pequena, o que o levou a concordar com os estudos de Mário de Andrade que sugeriram uma influência marcadamente portuguesa no folclore infantil brasileiro.

Em 1944, Florestan produziu os "Aspectos mágicos do Folclore Paulistano"17 baseado ainda no material recolhido em 1941. Ele manipulou os elementos do folclore relativos às superstições, crendices, sonhos e santos; destacando que o estudo sociológico de fenômenos mágicos vinha se fazendo nos agrupamentos naturais ou primitivos, mas sendo deixado à margem nas sociedades contemporâneas. Sendo assim, ele se propôs "dar uma contribuição científica ao estudo dos fenômenos mágicos nas sociedade modernas"18.

O autor analisou apenas os elementos da magia branca19, sugerindo que eles colocariam os indivíduos em contato com valores e práticas característicos que implicavam uma determinada representação do mundo, das coisas, dos seres e dos atos. Para ele, “a idéia básica dessa representação parece ser a de que existem "mistérios no mundo", os quais o homem deve conhecer e dominar na medida do possível, procurando utilizá-los em seu próprio proveito. As coisas e os seres não são o que parecem ser ou o que aparentemente percebemos: existem elementos não aparentes, imateriais, que caracterizam essencialmente os seres e as coisas e é nestes elementos que se baseia toda a mágica, a adivinhação, etc.”20.

Florestan apontou que as práticas mágicas solicitavam que alguns indivíduos, os iniciados na magia, desenvolvessem a capacidade de despertarem a "virtude", que seria as forças, os espíritos inerentes às coisas e aos seres, para neutralizar as energias destrutivas e tirar proveito das energias construtivas. Ele identificou que, em muitas sociedades primitivas, a magia apresentava-se como instituição pública que tinha como função proteger o equilíbrio social e produzir uma elite. Os magos eram responsáveis pelo despertar das energias construtivas dos seres e das coisas. Nas sociedades modernas, marcadas pelas práticas racionais e seculares, estes indivíduos teriam se diluído, tornando-se raros, singulares, dispersos.

Florestan levantou os "indícios" dos aspectos mágicos do folclore paulistano que estariam nas práticas simpáticas, nas práticas médicas, nas superstições relativas ao Ano Novo, ao casamento e à criança, nos sonhos, nas crendices relativas aos santos, sugerindo que a função social desses elementos mágicos consistiria em dar mais segurança ao indivíduo, por meio do aumento de seus poderes. Aí residiria a importância da análise sociológica dos processos da magia branca na medida em que elas estariam auferindo “mais virtudes aos homens, mais forças, maiores possibilidades de êxito, por seu intermédio, os homens tornam-se capazes de enfrentar situações futuras, favoráveis ou não, ou no mínimo de furtarem-se às desfavoráveis, situadas num plano alheio e mesmo indiferentes às suas forças e à sua influência21.

Ele compreendeu que a tendência, presente em cidades como São Paulo, a sustentarem o processo de democratização dos bens culturais valendo-se da educação sistemática configurada em valores seculares e racionais da cultura, estaria conferindo pouco crédito às práticas mágicas, o que, nem por isso, impediria que os processos de magia branca se ajustassem ao gênero de vida urbana. Florestan sustentou que, do ponto de vista sociológico, a magia branca apresentava-se: "como um processo de integração ou desintegração dos indivíduos à sociedade na medida em que ela agencia comportamentos de solidariedade, competição e de conflito"22, e "como elemento que interfere continuamente na vida cotidiana dos indivíduos, que associam uma simpatia determinada a quase todas as situações possíveis"23.

Florestan distingue os fatos de natureza religiosa daqueles da magia, ao dizer que “o indivíduo que adora Deus, respeita forças que transcendem às esferas atingidas pelo homem, aparecendo a este como um meio de elevação, podendo mesmo conceder-lhe graças. Quando passamos para a magia branca, as relações entre as forças mágicas e o indivíduo se modificam completamente, pois ambos se colocam num plano de igualdade; aquelas são forças imanentes e, apesar de invisíveis, se localizam nas coisas ou nos seres, e podem ser mandadas pelos homens ou pelo menos trabalhar para eles”24. Nesse sentido, a magia branca importava à análise sociológica pois ela localizar-se-ia no plano humano da realidade, conferindo aos homens um poder por eles mesmos outorgado e ampliando as possibilidades de sociabilidade e de interação na ordem social.

Em 1952, Florestan produziria as "Contribuições para o Estudo sociológico das Adivinhas Paulistas"25, elaborado ainda com base na coleta de dados realizada em 1941, texto que foi apresentado à cadeira de Antropologia da Faculdade de Filosofia de Ciências e Letras da USP, disciplina subsidiária para o exame de doutoramento.

Neste texto, Florestan emprestou dos folcloristas a definição da adivinha entendendo-a como “um jogo de palavras, no qual vem compreendida ou suposta qualquer coisa que não se diz, ou uma descrição engenhosa e aguda da coisa semelhante, de qualidades e caracteres gerais que se pode atribuir a outra coisa tendo ou não aquela semelhança ou analogia26.

Para Florestan, as adivinhas paulistas constituíam resíduos culturais da cultura de folk em desintegração as quais poderiam ser tomadas como vestígios da evolução por que passou a realidade cultural brasileira. Ele apontou que as adivinhas teriam desempenhado no passado rural brasileiro um significado existencial de atualização poético dramática em situações grupais. Hoje, no meio urbano como São Paulo, elas se aproximariam da mentalidade individualista e secularizada deixando de ser aceitas por causa da tradição, como herança sagrada dos ancestrais e encontrando uma expressão adequada à vida social urbana e um sentido atual nas regras de sociabilidade. Para o autor, “a técnica recreativa da formulação de adivinhas não só se conformou, socialmente, às condições da vida urbana, mas ainda satisfaz, em seu seio, a certas necessidades características das relações humanas na cidade. Isso esclarece por que a grande parte das adivinhas tradicionais se perpetua em São Paulo e por que não se estancaram definitivamente, pelo menos até agora, as suas fontes de criação ou de renovação27.

Mediante análise sociológica, Florestan teria compreendido a importância deste repertório cultural tanto do ponto de vista estático quanto do ponto de vista dinâmico da cultura em suas conexões com a transformação da estrutura social.

Segundo ele, “as adivinhas paulistanas, consideradas em abstrato, como objetivações culturais que possuem uma origem, uma estrutura formal e uma significação, revelam um grau apreciável de estabilidade. Nesse sentido, elas se incorporam ao patrimônio luso-brasileiro de tradições populares e lembram um mundo social desaparecido, o da sociedade de folk em que elas se elaboraram e a que elas subsistiram. Mas observadas em suas vinculações com a estrutura social, demonstram que a estabilidade é apenas parcial, pois as adivinhas paulistanas satisfazem, em um meio urbano, a necessidades sociais diferentes. Por isso, a sua forma de integração à vida social transformou-se a ponto de corresponder a essas necessidades, e com ela também se modificaram outras determinações, como o modo de exteriorização das adivinhas nas relações sociais, a função social delas na estrutura de uma sociedade urbana e o significado subjetivo comum que elas assumiram no espírito dos soci"28. Assim, as adivinhas representavam expressões culturais reveladoras de interações sociais dentro de modelos tradicionais ou em processo de mudança que carregavam elementos importantes para a análise sociológica.

Em 1959 Florestan, ao reagrupar esses textos para publicá-los no livro Folclore e mudança social na cidade de São Paulo, elaborou um capítulo intitulado "O folclore de uma cidade em mudança"29 que representou um novo olhar aos seus trabalhos anteriores e uma nova interpretação deles. Nesta ocasião, ele disse que a pesquisa realizada em 1941 objetivou identificar "as funções sociais das ocorrências folclóricas estudadas e as relações delas com os processos de mudança social que afetam a sociedade paulista"30.

Quanto às funções sociais do folclore paulistano, Florestan observou a relação existente entre as manifestações folclóricas e o fluxo da vida social tendo como suposto o seguinte: "um item ou um complexo cultural, da natureza folclórica, preenche alguma função social quando é possível assimilar, objetivamente, que eles contribuem de dada maneira para a integração e a continuidade do sistema social"31. O autor resumiu suas análises dizendo que explorou três influências sócio-dinâmicas vinculadas ao folclore paulistano: 1- as influências socializadoras do folclore infantil, considerando que por intermédio do folclore a criança aprende algo e adquire uma experiência societária importante para o desenvolvimento de sua personalidade; 2- o folclore não como mera fonte de recreação para as crianças e adultos, mas como fonte de atualização e perpetuação de estados de espírito e de atitudes que garantia a eficácia dos meios normais de controle social; considerando que "a diversão traz consigo a medida do homem: ela também eleva à esfera da consciência e ao plano da ação certas distinções fundamentais para o comportamento humano"32; 3- o folclore como um elo entre o presente e o passado considerando que, sem imobilizar o passado no presente, ele chega a ter alguma importância na disciplinação de mudanças que atingem o patrimônio moral de um povo.

Florestan afirmou, ainda, a possibilidade de situar o folclore no campo da pesquisa sociológica, pois “ele faz parte da porção do meio sócio cultural ambiente que concorre para a formação do caráter do imaturo. Através dele a criança aprende a lidar com situações, com pessoas e com técnicas sociais análogas aquelas com que se defrontará no mundo dos adultos33.

Quanto à importância do folclore na reintegração da herança social da cidade de São Paulo, Florestan considerou que ele não exerceu a influência construtiva que poderia ter exercido, pois a herança cultural tradicional, de origem rural, não encontrou condições favoráveis de adaptação ao estilo urbano de vida, não assegurando continuidade à perpetuação de atitudes e de valores sociais que não foram ameaçados pela urbanização. Florestan sugeriu que a revolução urbana não conseguiu afetar igualmente todas as atitudes, técnicas e valores da herança social, o que possibilitou a atualização e o reenquadramento do folclore amparando avaliações em torno da defesa de atitudes, de técnicas e de valores que não foram ameaçados pela mudança social.

Quanto às relações do folclore com os processos de mudança social em São Paulo, Florestan observou que vários setores do folclore encontravam-se em processo de desintegração em função do distanciamento da antiga tradição rural, antes dominante, e da transição para o estilo de vida urbana. Ele entendeu que o folclore para perpetuar-se requeria estruturas sociais peculiares, que, quando ameaçadas, colocaria também o folclore em crise.

Florestan sugeriu que a desagregação da concepção tradicional de mundo e o aceleramento do processo de urbanização e industrialização não foi acompanhado por uma operação de renovação dos quadros humanos e dos conteúdos culturais possibilitando a continuidade das matrizes tradicionais com o novo sistema civilizatório. A cultura popular tradicional, para sobreviver, precisaria se rever à luz das condições de vida e das exigências adaptativas da grande cidade. Ele observou que o folclore infantil representava uma exceção pois conseguiu resistir e manter certas condições favoráveis que neutralizavam as tendências sociais destrutivas graças à organização grupal que resguardou-o do ritmo rápido de mudanças do meio social ambiente.

Os resultados das reflexões de Florestan indicaram que os elementos folclóricos, ao se preservarem, continuavam a desempenhar funções socialmente construtivas nas estruturas ou nas relações sociais pelas quais se mantinha. A perpetuação ou a eliminação de "itens ou de complexos folclóricos" seriam processos condicionados socialmente e, portanto, o estudo, a compreensão e a explicação das ocorrências folclóricas deveriam ser buscadas no contexto social. Ele verificou que o folclore chegou até nossos dias atravessando todas as correntes de renovação da vida social da cidade e poderia, pelo menos parcialmente e sofrendo transformações, incorporar-se ao novo sistema sócio-cultural metropolitano.

Florestan, ao salientar a natureza social do folclore, examinou as conexões deste com o comportamento social humano pondo em relevo a sua contribuição educativa na formação da personalidade e na continuidade social. A atenção ao fator educativo das práticas folclóricas levou o autor a valorizá-lo também nos processos de mudança social como elemento que conferia conexões de sentido entre as estruturas das sociedades humanas.

Quando comparamos os textos de Florestan sobre o folclore com os que vieram posteriormente, nos deparamos com um refinamento teórico, metodológico e terminológico, a ponto de parecer que seu vocabulário sociológico vai construindo uma obra hermética, com fronteiras definidas. Outro ponto que mereceria destaque é o de que, apesar de Florestan retomar em momentos posteriores de seu trabalho as preocupações referentes ao folclore, ele não chegou a fazer um trabalho de coleta de dados segundo os métodos e as técnicas da pesquisa empírica como o que realizou na década de 40.



Considerações finais

Florestan não foi o único a se dedicar ao estudo do folclore. Xidieh34 nos lembra que a consciência dessa problemática foi muito anterior à década de 40 mas que foi a partir daí que se intensificaram os interesses. De um lado, reexaminando-se o conjunto de contribuições anteriores; de outro, promovendo pesquisas sistemáticas que viessem a aclarar na esfera da cultura popular a presença do folclore como fenômeno social, como instrumento de conexões com o comportamento, como realidade social.

Xidieh diz: “os impulsos e a orientação teórico-metodológica partiram...de Emílio Willems, com preocupações muito amplas e abrangentes; de Roger Bastide, interessado nas manifestações mágico-religiosas da vida brasileira; de Cruz Costa.., a nos encaminhar à pesquisa de documentos históricos e à pesquisa de campo...Fora da USP, na Sociologia e Política, Donald Pierson laborava em parte no mesmo rumo”35. Florestan Fernandes transitou por ambas as escolas e seus trabalhos tem uma linha mestra de continuidade e interdependência.

Nessa constelação de autores e obras, a contribuição de Florestan Fernandes para os estudos folclóricos no Brasil foi decisiva, pois ele realizou um levantamento e um reexame das posições pré-teóricas, teóricas e das contribuições empíricas dos folcloristas contemporâneos; deixando clara sua nova fórmula: os estudos científicos do folclore por uma perspectiva sociológica.

Florestan definiu o valor do que foi realizado por Amadeu Amaral, Mário de Andrade e o grupo de investigações do folclore nacional destacando a relevância dessas “coleções” na história da cultura; porém afastou o desígnio de se tomar o folclore como ciência positiva autônoma, limitando-o como objeto de estudo científico, inclusive o sociológico.

Xidieh destaca: “ele não dispensa a tarefa da coleta, classificação e comparação dos dados concretos mas não toma o folclore como folclore e sim como 'fenômeno social' e esfera da cultura, a sua inserção na estrutura e na dinâmica sociais, suas posições e funções em situações de permanência e de mudança sócio-cultural, enfim, as suas conexões com o universo social”36.

O autor demarcou a posição de considerar o folclore como esfera da cultura e fenômeno social, ou seja, não tomou o folclore pelo folclore, mas inseriu-o na estrutura e na dinâmica social, conforme situações sociais dadas.

Gnaccarini37 entendeu que Florestan realizou um trabalho primoroso de revisão e recuperação dos achados teóricos e metodológicos dos nossos dois folcloristas modernistas- Mário de Andrade e Amadeu Amaral- mas que foi no âmbito da metodologia e dos fundamentos teóricos que desenvolveu-se a contribuição singular do autor.

Os dados colhidos, classificados e analisados por Florestan sobre o folclore na cidade de São Paulo apanharam um momento em que a cidade começava a mudar aceleradamente e revelaram a implicação, o impacto dessa mudança na permanência e desaparecimento dos traços tradicionais de nossa herança luso-brasileira.

A rápida andança de Florestan pelos domínios do folclore foi um exercício preliminar, um ponto de partida para a sua extensa e inovadora produção no campo das Ciências Sociais.

Xidieh diz: “nessa tarefa ele exercitou o instrumental científico... e atingiu o seu objetivo, pondo às claras as conexões de sentido e estruturais daquela esfera da cultura nas sociedades em trânsito.”38.

Obras Citadas
COHN, Gabriel. "Padrões e dilemas: o pensamento de Florestan" in MORAES, Reginaldo; ANTUNES, Ricardo e FERRANTE, Vera B. Inteligência Brasileira, S.P.: Brasiliense, 1986, (125-148).

FERNANDES, F. A Etnologia e a Sociologia no Brasil. S.P.: Anhembi, 1958.

___________ Folclore e Mudança Social na cidade de São Paulo. S.P.: Anhembi, 1961; 2ª ed., Petrópolis: Vozes, 1979

___________ A Sociologia numa era de Revolução Social, S.P.: Companhia Ed. Nac., 1963, ; 2ª ed. , R.J.: Zahar Ed., 1976.

___________ A investigação Etnológicas no Brasil e outros ensaios. Petrópolis: Vozes, 1975.

___________ A Sociologia no Brasil. Contribuição para o estudo de sua formação e desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 1977; 2ª ed., 1980.

__________ O folclore em questão. S.P.: Hucitec, 1978.

GNACCARINI, José C. “Folclore e Sociologia” in O saber militante. Ensaios sobre Florestan Fernandes. S.P.: Paz e Terra/ Ed. da Unesp, 1987, (97-105).

PIAGET, J. Le jugement moral chez l'Enfant, Paris, 1932.



XIDIEH, Oswaldo Elias. "O Folclore em Questão" in D’INCAO, Maria A. O Saber Militante. Ensaios sobre Florestan Fernandes. S.P.: Paz e Terra/ Ed. da Unesp, 1987, (85-96).

1 FERNANDES, F. "A sociologia como afirmação" in A Sociologia numa era de Revolução Social, S.P.: Companhia Ed. Nac., 1963, (51-88), p. 70-71.

2 FERNANDES, F. "Em busca de uma sociologia crítica e militante" in A Sociologia no Brasil, Petrópolis: Vozes, 1977, (140-212), p. 174.

3 COHN, Gabriel. "Padrões e dilemas: o pensamento de Florestan" in Inteligência Brasileira, S.P.: Brasiliense, 1986, (125-148), p. 128.

4 FERNANDES, F. "Em busca de uma sociologia crítica e militante" in A Sociologia no Brasil, Op. cit. (140-211), p. 161.

5 Ibidem, p. 174.

6 FERNANDES, F. "As trocinhas do Bom Retiro" in Folclore e Mudança Social na cidade de São Paulo.2ª ed., Petrópolis:Vozes, 1979, (153-258).

7 Ibidem, p. 168.

8 Ibidem, p. 172.

9 Ibidem, p. 173.

10 PIAGET, J. Le jugement moral chez l'Enfant, Paris, 1932.

11 FERNANDES, F. "As trocinhas do Bom Retiro" in Folclore e mudança social na cidade de São Paulo, Op. cit., p. 175.

12 Ibidem, p. 176.

13 Ibidem, p. 176.

14 Ibidem, p. 179.

15 Ibidem, p. 188.

16 Ibidem, p. 189.

17 FERNANDES, F. "Aspectos mágicos do folclore paulistano" in Folclore e mudança social na cidade de São Paulo, Op. cit., (339-376).

18 Ibidem, p. 339.

19 Florestan aceita a classificação que distingue a magia branca e a magia negra utilizada por muitos sociólogos que trataram do assunto como categorias demarcadoras de duas ordens de fatos na vida social. A magia branca referia-se ao que é lícito, tolerado, admitido e sancionado socialmente. A magia negra referia-se as manifestações proibidas e correspondente ao ilícito. Ibidem, p. 341.

20 Ibidem, p. 341.

21 Ibidem, p. 347.

22 Ibidem, p. 351.

23 Ibidem, p. 352.

24 Ibidem, p. 356.

25 FERNANDES, F. "Contribuições para o estudo sociológico das Adivinhas Paulistas" in Folclore e mudança social na cidade de São Paulo, Op. cit., (279-338).

26 Ibidem, p. 280.

27 Ibidem, p. 331.

28 Ibidem, p. 336.

29 FERNANDES, F. "O folclore de uma cidade em mudança" in Folclore e mudança social na cidade de São Paulo, Op. cit., (11- 152).

30 Ibidem, p.14-15.

31 Ibidem, p. 15.

32 Ibidem, p. 16.

33 Ibidem, p. 24.

34 XIDIEH, Oswaldo E. “O folclore em questão” in O Saber militante. S.P.: Paz e Terra/Unesp, 1987, (85-96).

35 XIDIEH, Oswaldo E. “O folclore em questão” in O Saber militante Op. Cit. , p. 90.

36 Xidieh nos sugere que o mapeamento da contribuição de Florestan para a temática do folclore seja feita a partir das seguintes leituras: Investigação Etnológicas no Brasil e outros Ensaios, A Etnologia no Brasil- Cap. VII- "Os estudos folclóricos em São Paulo", Folclore e Mudança Social na Cidade de São Paulo- Cap. I - "Introdução" e finalmente O folclore em questão. Ibidem, p. 92.

37 GNACCARINI, José C. “Folclore e Sociologia” in O saber militante. Op. Cit., (97-105), p. 98.

38 XIDIEH, Oswaldo E. “O folclore em questão” in O saber militante. Op. Cit., p. 95.



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