A menina Sem Estrela



Baixar 0.89 Mb.
Página1/20
Encontro09.05.2018
Tamanho0.89 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20

COLEÇÃO DAS OBRAS DE NELSON RODRIGUES

Coordenação de Ruy Castro
1. O casamento (romance)

2. A vida como ela é... O homem fiel e outros contos

3. 0 óbvio ululante: primeiras confissões (crônicas)

4. À sombra das chuteiras imortais (crônicas de futebol)

5. A coroa de orquídeas e outros contos de A vida como ela é...

6. A menina sem estrela (memórias)


http://groups.google.com/group/digitalsource

A edição das obras de Nelson Rodrigues

conta com o apoio da Unicamp

NELSON RODRIGUES

A MENINA SEM ESTRELA

Memórias

Organização:

RUY CASTRO

1.ª reimpressão

Capa:


João Baptista da Costa Aguiar
Foto da capa:

Manchete
Preparação:

Marcos Luiz Fernandes
Índice remissivo:

Beatriz Calderari de Miranda
Revisão:

Liege Marucci

Carmen S. da Costa
Agradecemos a Silvia Regina de Oliveira Franco,

da Biblioteca Nacional, pela colaboração na pesquisa de material

incluído neste livro

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)


Rodrigues, Nelson, 1912-1980.

A menina sem estrela : memórias / Nelson Rodrigues. — São Paulo : Companhia das Letras, 1993.
isbn 85-7164-354-7
1. Crônicas brasileiras i. Título.
93.3132 cdd-869935

Índices para catálogo sistemático:

1. Crônicas : Século 20 : Literatura brasileira

869.935


2. Século 20 : Crônicas : Literatura brasileira

869.935




1994


Todos os direitos desta edição reservados à



editora schwarcz ltda.

Rua Tupi, 522

01233-000 — São Paulo — sp

Telefone: (011) 826-1822

Fax: (011) 826-5523

Contra Capa

Finalmente, as famosas Memórias que Nelson Rodrigues publicou no Correio da Manhã saem numa edição à altura de sua beleza.

De fevereiro a maio de 1967, Nelson escreveu para aquele jornal o que ele chamou de reminiscências “do passado, do presente, do futuro e de várias alucinações”. Reunidas em um livro na época (com o subtítulo A Menina sem estrela), a edição original das Memórias continha apenas os primeiros 39 capítulos. Agora, pela primeira vez, os oitenta capítulos são enfeixados num volume completo.

Na visão e no estilo únicos de Nelson Rodrigues, desfilam por estas páginas sua iniciação sexual, o assassinato de seu irmão Roberto, a consagração com Vestido de noiva, o suicídio de Getúlio Vargas, o drama de sua filha Daniela e outros episódios marcados pela tragédia, aos quais ele empresta a sua humanidade e até a pungência do seu humor.

Ao fundo, um fabuloso painel do Brasil da metade do século — como só Nelson Rodrigues conseguiria pintar.

Organização de Ruy Castro


Orelhas do Livro

Nelson Rodrigues começou a escrever memórias para publicação imediata (1967, no Correio da Manhã) aos 54 anos dos 68 de que dispôs para dar o seu reca­do em peças, crônicas diárias e folhetins. “Minhas lembranças não terão nenhuma ordem cronológica”, ele adverte. O estilo irreverente e ridicularizante veste o autor, que se apresenta na primeira pessoa do singular, no papel de anti-herói, tendo co­mo pano de fundo a época em quê nasceu (agosto de 1912), e na qual se abasteceu em leituras de juventude.

O autor contracena com as mesmas ob­sessões que se revezam em toda a sua obra (a gripe espanhola, a viúva gorda e patusca, a infidelidade conjugal, o pacto de morte, a prostituta vocacional), ressalva­das as exigências de cada gênero. O admi­rável retratista de tipos, reais e verossí­meis, vale-se de todos com quem convivia. Com o tempo, personagens e situações se desprenderam das suas circunstâncias e ganharam peso literário específica Deixa­ram de ser exclusivamente do autor e se tornaram memórias do tempo de Nelson Rodrigues. As definições desconcertantes assumiram vida autônoma: “O que nós chamamos reputação é a soma dos pala­vrões que inspiramos através dos tempos”.

A estréia de Vestido de noiva tem dramaticidade própria no episódio narrado. Nelson confessa, porém, que, para ele, “a verdadeira vocação dramática não é o grande ator ou a grande atriz. E, ao con­trário, o canastrão”, que “chega mais de­pressa ao coração do povo, deslumbra e fanatiza as platéias”. Páginas rubricadas pela História contam o cerco de Ultima Hora e o suicídio de Vargas, na seqüência: “Um povo possui trevas que convém não provocar. Em 48 horas, Carlos Lacerda mobilizou todas as nossas trevas interiores contra Samuel Wainer”. Define-se pes­soalmente: “O que dá ao homem um mí­nimo de unidade interior é a soma das suas obsessões”.

O alienado político deixa a cena: “O que nos falta é o que eu chamaria de es­panto político”; “aqui, as coisas espanto­sas deixaram de espantar”.

Wilson Figueiredo




Nelson Rodrigues nasceu no Recife, PE, em 1912, e morreu no Rio, em 1980. Sua obra teatral já está consagrada, mas o grosso de sua produção, publicado originariamente em jornais, é do mesmo nível. A Companhia das Letras está publicando a obra completa de Nelson. Próximo lan­çamento: Asfalto selvagem (romance). A editora lançou também O anjo pornográ­fico: a vida de Nelson Rodrigues, por Ruy Castro.



À Lúcia


Aos meus filhos

Joffre

Nelson

Daniela

A ESTRELA DE UM ILUMINADO

Em janeiro de 1967, Nelson Rodrigues estava a caminho dos 55 anos e não se sentia mais jovem a cada dia. Seu romance O casamento, recém-lançado, fora proibido pelo ministro da Justiça do governo Castello Branco, Carlos Medeiros Silva. A acusação era a de “torpeza das cenas descritas”, “linguagem indecorosa” e “atentar contra a organização da família”. Os exem­plares foram varridos das livrarias pela Polícia Federal. Alguns intelectuais protestaram e aproveitaram para atacar o sinistro Car­los Medeiros. Mas, num editorial de primeira página, o próprio jornal de Nelson, O Globo — onde ele escrevia a coluna diária “À sombra das chuteiras imortais” —, defendeu o ministro e a proibição.

Nelson ficou ressentido com o jornal e quis sair. Mas dei­xar O Globo significava também deixar a tv Globo, em cujos programas fazia aparições diárias e semanais. E era com o di­nheiro da televisão que ele pagava o aluguel e o dispendioso tratamento médico de Daniela (a “menina sem estrela”), a filha que tivera com Lúcia, sua nova mulher. Daniela nas­cera de um parto dramático e era cega. Foi então que o jor­nalista Francisco Pedro do Coutto, seu amigo, sondou-o: por que ele não levava “À sombra das chuteiras imortais” para o Correio da Manhã?

Coutto era editorialista do Correio. Nelson gostou da idéia, mas como resolver o problema da tv? O convite ofi­cial e a fórmula conciliatória partiram de Newton Rodrigues (sem parentesco com Nelson), redator-chefe do Correio: não precisaria deixar a TV e, se quisesse, poderia até continuar com “As chuteiras” em O Globo. O que o Correio da Ma­nhã queria dele eram as “Memórias de Nelson Rodrigues”.

Nelson topou e, graças a esse sortilégio de fatores, escre­veu, de 18 de fevereiro a 31 de maio daquele ano, a sua mais extraordinária coleção de crônicas: sua infância na rua Alegre, sua iniciação sexual, a morte do irmão Roberto, o empastelamento da Crítica, a tuberculose em Campos do Jordão, a es­tréia de Vestido de noiva. Uma “memória” por dia, todos os dias — com a interrupção de uma semana, mal a série começa­ra: quando uma chuva forte no Rio provocou o desabamento do edifício em Laranjeiras onde morava seu irmão Paulo, matando-o e à sua família. Se os leitores do Correio da Manhã já acompanhavam arrebatados as “memórias” de Nelson, a intervenção brutal da realidade emprestou ainda mais paixão e compaixão ao que ele vinha escrevendo.

Pelo acordo com o jornal, Nelson viria contar suas reminiscências, mas, querendo, poderia também misturá-las com o presente e — mais importante — com liberdade absoluta. E ele usou essa liberdade. Na primeira crônica, atacou finamente o ministro da Justiça que lhe proibira O casamento e que fora o relator da Constituição outorgada em 1967 (que Nelson chamou de “a nova Prostituição do Brasil”). Em outra crônica, não pou­pou o poeta Carlos Drummond de Andrade, também cronista do Correio da Manhã, por sua “aridez de três desertos” ao co­mentar o desabamento de Laranjeiras. E, por fim — para Nelson, uma doce vingança —, fez uma longa e comovida apolo­gia de seu pai, o jornalista Mário Rodrigues, nas páginas do pró­prio jornal que o declarara o seu principal inimigo na distante década de 20 e que nunca o perdoara.

Em fins de maio, Nelson e o Correio da Manhã se desen­tenderam por questões financeiras. Enquanto não chegavam a um acordo, a série foi interrompida, mas o jornal, com planos de aventurar-se no mercado editorial, iniciou suas edições com a publicação em livro das Memórias de Nelson Rodrigues. O pri­meiro volume, subtitulado “A menina sem estrela”, continha as primeiras 39 “memórias” e foi lançado numa edição de, presume-se, 2 mil exemplares. As 41 “memórias” restantes ficariam para um segundo volume — que não chegou a sair, porque não hou­ve acordo entre Nelson e o Correio da Manhã. O jornal, por sua vez, perseguido pelos militares, entraria na crise financeira que levaria ao seu desaparecimento poucos anos depois.

A edição original das Memórias tornou-se uma raridade bi­bliográfica. Seus poucos exemplares foram avaramente guarda­dos pelos que os compraram e nunca apareceram nos sebos De todos os livros de Nelson, é o mais precioso item de colecionador. Alguns dos principais estudiosos de Nelson, como os críticos Sábato Magaldi e José Lino Grünewald (além deste or­ganizador), consideram-no talvez a maior coisa que Nelson es­creveu. E o capítulo 10, em que Nelson conta o drama de Daniela, foi classificado por Otto Lara Resende como “uma das mais belas páginas da língua portuguesa”. Mas, neste livro, há muitos outros capítulos tão belos quanto.

Pela primeira vez, as oitenta “memórias” que Nelson pu­blicou no Correio da Manhã saem completas e numa única edi­ção, na ordem em que foram publicadas no jornal.

Logo, não se trata de uma ressurreição — a vida de A me­nina sem estrela só agora começa.



R.C.

1

Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Ve­jam vocês: eu nascia na rua Dr. João Ramos (Capunga) e, ao mes­mo tempo, Mata-Hari ateava paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general, enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a primeira batalha do Marne. Mas por que “espiã de um seio só”? Não ponho minha mão no fogo por uma mutilação que talvez seja uma doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e al­tamente promocional.

Mas a belle époque não é a defunta que, de momento, me interessa. Tenho mortos e vivos mais urgentes. Por outro lado, minhas lembranças não terão nenhuma ordem cronológica. Hoje posso falar do kaiser, amanhã do Otto Lara Resende, depois de amanhã do czar, domingo do Roberto Campos. E por que não do Schmidt? Como não falar de Augusto Frederico Schmidt? Seu nome ainda tem a atualidade, a tensão, a magia da presença físi­ca. Todavia, deixemos o Schmidt para depois. O que eu quero dizer é que estas são memórias do passado, do presente, do fu­turo e de várias alucinações.

Imaginem vocês que tive ontem, na esquina de São José com Avenida, uma experiência, e grave. Antes de prosseguir, porém, devo explicar que, para mim, nada é intranscendente. Pode ser um fato de infinita, exemplar modéstia. Digamos que a nossa galinha pule a cerca do vizinho. Pode haver uma peri­pécia de mais delicada humildade? Não. E, todavia, esse inci­dente, em que pese a sua aparente irrelevância, tem um toque de Graça e de Mistério. Se bem me lembro, é de Bernanos um romance que termina assim: — “Tudo é Graça”.

O que foi dito acima tem a intenção de valorizar e dramati­zar a tal experiência de ontem. Vamos ao fato: todos os dias, almoço com minha mãe, nas Laranjeiras. Somos muitos e, por isso, a nossa mesa é numerosa e cálida como a da Ceia. É curio­so! Depois de velho, dei para chamar minha mãe de “madre”, “madre mia”. E aqui confesso: — vou lá buscar a sua compai­xão. Ela tem pena de mim, sempre teve. Fosse eu um Walther Moreira Salles e minha mãe teria pena de me ver, boiando num lago de milhões como uma vitória-régia.

Pois bem, venho do almoço e salto do táxi na esquina refe­rida. Por toda a cidade, um calor de rachar catedrais. Fecha o sinal e paro em cima do meio-fio. De repente, ouço aquela voz. Era um camelô, como há milhares e, eu quase dizia, como há milhões. Viro-me e fico olhando o sujeito. O camelô tem de ser um extrovertido ululante. E aquele estava, ali, virando a alma pelo avesso. Passa todo mundo de cara amarrada. O brasileiro é um furioso nato. O que se vê, na rua, são indignados de am­bos os sexos.

Pois, enquanto os outros passavam exalando uma ira mis­teriosa, o camelô só faltava virar cambalhotas de alegria total. Não tem um dente, ou, melhor dizendo, tem uma antologia de focos dentários. O pior vem agora.

O sujeito está berrando:

— A nova Prostituição do Brasil! A nova Prostituição do Brasil!

E erguia um folheto, só faltava esfregar o folheto na cara da pátria. Todavia, não me espanto, ninguém se espanta. As pes­soas passam e nem olham. Há qualquer coisa de vacum no ler­do escoamento da multidão. O camelô continua empunhando o folheto como um estandarte dionisíaco:

— A nova Prostituição do Brasil! A nova Prostituição do Brasil!

Esse sinal não abre? Abriu. Lá vou eu, de roldão. Mas a Ave­nida, da Praça Mauá ao obelisco, está ressoante do berro imortal:

— A nova Prostituição do Brasil! A nova Prostituição do Brasil!

Um turista que por ali passasse havia de anotar no seu ca­derninho: “O Brasil acaba de promulgar a sua nova Prostituição”. Para mim, era uma experiência inédita: — pela primeira vez, via uma prostituição promovida como sabonete, coca-cola ou grapete. Já na outra calçada, estaco. O que eu reclamava de mim mesmo era todo o espanto que não sentia. Sim, eu devia estar espantado, todos deviam estar espantados. De outra cal­çada, ainda vejo o camelô com sua euforia absurda. E o povo passando. Que nem todos parassem, vá lá. Mas alguém, alguém devia parar. Um funcionário, um soldado, um marinheiro ou um velhinho de camisa fina e imaculada. Mas todos seguiam seu caminho, inclusive uma mulata de Gauguin. Portanto, eu e os outros que passavam éramos também irreais, tão irreais como o camelô.

Quando o sinal abre para os pedestres, decido: — “Vou vol­tar”. E volto. O que me põe doente é a falta de espanto. Preci­so me espantar com a maior urgência. Já atravessei o cruzamento e estou, de novo, na esquina do camelô, junto ao próprio. Pos­so apalpá-lo, posso farejá-lo. Talvez compre o folheto da nova Prostituição do Brasil.

Depois de cuspir para trás, por cima do próprio ombro, o homem recomeça:

— A nova Constituição do Brasil! A nova Constituição do Brasil!

Só então percebo o monstruoso engano auditivo. Onde é que meus ouvidos estavam com a cabeça? Ah, uma incorreção acústica pode levar o sujeito a sair por aí derrubando bastilhas e decapitando marias antonietas.

Por outro lado, também o camelô perdera a sua euforia brutal. Era agora um vago pobre-diabo, igual aos outros pobres-diabos que florescem em todas as esquinas da pátria. Sua depressão era bem irmã da minha, da nossa. Estava mais desdentado do que nunca. E, então, larguei tudo e vim-me embora. Pouco depois, entro numa leiteria (o certo é “leitaria”, mas prefiro o errado). Trato minha úlcera a pires de leite como se ela fosse uma gata de luxo.

Tomando meu leite, faço as minhas reflexões de leiteria. Sem querer, e por causa de um engano acústico, eu descobrira o seguinte, dois pontos: — o que nos falta é o que chamaria de “espanto político”. Aqui, as coisas espantosas deixaram de espantar. Se um camelô brotasse de uma alucinação, invadisse a vida real e berrasse a “nova Prostituição do Brasil” — nin­guém cairia ferido de assombro.

Vejamos outra hipótese. Se baixassem um decreto mandan­do a gente andar de quatro — qual seria a nossa reação? Nenhu­ma. Exatamente: — nenhuma. E ninguém se lembraria de per­guntar, simplesmente perguntar. — “Por que andar de quatro?”. Muito pelo contrário. Cada um de nós trataria de espichar as orelhas, de alongar a cauda e ferrar o sapato. No primeiro desfi­le cívico, o brasileiro estaria trotando na Presidente Vargas, solidamente montado por um Dragão de Pedro Américo. E seria lindo toda uma nação a modular sentidos relinchos e a escoucear em todas as direções.

Mas como ia dizendo: — nasci em 1912. E, por um momen­to, me inclino sobre a belle époque, tão defunta como suas plu­mas e lantejoulas fenecidas e seus nostálgicos espartilhos.



2

Toda a minha primeira infância tem gosto de caju e de pi­tanga. Caju de praia e pitanga brava. Hoje, tenho 54 anos bem sofridos e bem suados (confesso minha idade com um cordial descaro, porque, ao contrário do Tristão de Athayde, não odeio a velhice). Mas como ia dizendo: — ainda hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contemporâneo, sou raptado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos re­gressivos e fatais.

E volto a 1913, ao mesmo Recife e ao mesmo Pernambu­co. Mas não era mais Capunga e sim Olinda. Alguém me levou à praia e não sei se mordi primeiro uma pitanga ou primeiro um caju. Só sei que a pitanga ardida ou o caju amargoso me deu a minha primeira relação com o universo. Ali, eu começava a existir. Ainda não vira um rosto, um olho, uma flor. Nada sabia dos outros, nem de mim mesmo. E, súbito, as coisas nasciam, e eu descobria uma pitangueira ou um cajueiro.

Que idade teria eu? Eis o que me pergunto: — que idade teria eu? Um ano, um ano e pouco, sei lá. Ou menos, talvez me­nos. Minha família morava diante do mar. Mas o mar antes de ser paisagem e som, antes de ser concha, antes de ser espuma — o mar foi cheiro. Há ainda um cavalo na minha infância pro­funda. Mas também o cavalo foi cheiro. Antes de ser uma figura plástica, elástica, com espuma nas ventas — o cavalo foi aroma como o mar.

1913. O que a memória consciente preservou de Olinda foi um mínimo de vida e de gente. Eu me lembro de pouquíssi­mas pessoas. Por exemplo: — vejo uma imagem feminina. Mas é mais um chapéu do que uma mulher. Em 1913, mesmo meu pai e minha mãe pareciam não ter nada a ver com a vida real. Va­gavam, diáfanos, por entre as mesas e cadeiras. Depois, eu os vejo parados, com uma pose meio espectral de retrato antigo. Mas nem meu pai, nem minha mãe falavam. Eu não os ouvia. O que me espanta é que essa primeira infância não tem palavras. Não me lembro de uma única voz. Não guardei um bom-dia, um gemido, um grito. Não há um canto de galo no meu primeiro e segundo ano de vida. O próprio mar era silêncio.

Falei do mar e volto a ele. Tenho umas poucas obsessões que cultivo, com paciência e amor. Uma delas é o mar. Qual­quer praia vagabunda, mesmo a de Ramos, tem para mim um apelo mortal. Às vezes, penso que já morri afogado em vidas passadas ou morrerei afogado em vidas futuras. Gosto até de cheiro de peixe podre.

Em 1914, houve o incidente de Sarajevo. Caçaram o arquiduque a tiros, bombas. Meu pai soube, e minha mãe, e meus tios, e as visitas. Mas, na hora do atentado, eu não sabia que o arquiduque, já ferido de morte, soluçava para a mulher: — “Vi­ve para os nossos filhos!”. Era um defunto falando para uma defunta. Aquele homem assumia, ali, a sua plena e inefável miserabilidade. Deixava de ser um uniforme, um penacho, um par de botas. As medalhas escorriam sobre as tripas à mostra. E as esporas triunfais estavam agora geladas. Na hora de morrer, e quando sabe que está morrendo — o homem tem um olhar sú­plice e insuportável de criança batida. Não, não, um olhar de contínuo. Sempre imagino que o arquiduque austríaco, com os intestinos de fora, morreu como o últimos dos contínuos.

Era a guerra. Um ano depois, nascia mais um, lá em casa. Era o sexto filho. Meu pai já espalhara por toda Recife: — “Se for menino, vai se chamar Joffre”. E veio um menino, de cabe­lo de fogo. Esse irmão, que se uniria a mim como um gêmeo, ia morrer, aos 21 anos, tuberculoso. Depois da Revolução de 30, e até 35, eu e toda a minha família conhecemos uma misé­ria que só tem equivalente nos retirantes de Portinari. Ainda ago­ra, quando me lembro desse período, tenho vontade — vonta­de mesmo — de me sentar no meio-fio e começar a chorar. Eu e meu irmão Joffre passamos fome e foi a fome que estourou os nossos pulmões. Mas não quero misturar datas e contarei tu­do isso, a seu tempo. (Naquela época, os jornais davam à tuber­culose o nome imaculado de “peste branca”. Por uma associação meio idiota, eu me lembro de Moby Dick, a “baleia bran­ca”. Mas estou divagando, e desculpem.)

Voltemos à guerra, isto é, à Primeira Grande Guerra. Meu pai embarcou para o Rio em 1915 (jornalista de combate, com tremendo potencial de ira, ele sempre imaginou que ia morrer assassinado). Pernambuco tornara-se pequeno para a sua ambi­ção jornalística. Largou emprego, largou tudo e disse à minha mãe: — “Você me espera. Se arranjar emprego, mando buscar você. Se não arranjar, volto”. Partiu. Meu pai era gago e daí, talvez, a ternura que eu tenho por todos os gagos. Que figura doce era meu pai e capaz de cóleras tamanhas. Cólera contra os outros, contra o mundo, mas trêmulo de ternura para a mu­lher e para os filhos. Morreu aos 44 anos de idade e jamais me deu um vago e merecido cascudo. Na hora, porém, do revide polêmico, era um Zola a decompor o exército francês. Mas meu pai não era homem de passar muito tempo longe de minha mãe.

No dia em que desembarcou no Rio, deu-lhe uma santa e provinciana pusilanimidade. Sua vontade foi voltar, correndo. O que ele não sabia, nem podia imaginar, é que minha mãe es­tava empenhando jóias, o diabo. Meu tio Augusto protestou: — “Não faça isso. É loucura!”. Ela não aceitou nenhum argumen­to, nenhum raciocínio: — “Vou porque vou, vou mesmo”. Lin­da, minha mãe. Tenho retratos seus da mocidade e posso repe­tir: — linda, minha mãe. Um dia, meu pai recebe o telegrama: “Embarco hoje, navio tal. Beijos”. E lá ficou ele, como uma barata tonta, lendo e relendo aquilo. Vinham minha mãe e seis fi­lhos, o último de colo. Esse batalhão de crianças ia inundar o Rio de Janeiro. Diga-se de passagem que, há muito tempo, mi­nha mãe vinha martelando meu pai: — “Vamos para o Rio. Vo­cê tem que ir para o Rio”.

Uma coisa é certa: — meu pai só ficou por causa de minha mãe. E quando entramos no navio, a Europa continuava mor­rendo e matando. Segundo dizia o Eu Sei Tudo, os alemães ar­rancavam o olho dos prisioneiros com o dedo em gancho. Só os alemães estupravam. Só os alemães espetavam criancinhas na ponta das baionetas. Durante a viagem, meus irmãos mais velhos, Milton e Roberto, estavam eufóricos. A campanha sub­marina alemã espalhava o terror por todos os mares. Meus ir­mãos queriam ser torpedeados e, se morrêssemos todos, seria ótimo, ótimo. Quanto a mim, não me lembro de nada, ou por outra: — o que me ficou do navio foi a lembrança de uma deli­cada escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo. Finalmente, chegamos. No cais, estavam meu pai e Olegário Mariano, o poeta.

Eu só imagino a pungência, a plangência da cena. Minha mãe descendo a escadinha, com a filharada atrás, e sem um tos­tão (o dinheiro das jóias fora todo gasto nas passagens e em pou­cas gorjetas de bordo); e meu pai, sem emprego, rigorosamen­te sem emprego, ou melhor: — meu pai arranjara um emprego e fora despedido. Saímos dali e fomos — meus pais com a filha­rada — para a casa de Olegário. Lá passamos não sei se vinte dias, um mês. Mas falei em Olegário e preciso contar um episó­dio que ocorreria trinta e poucos anos mais tarde. Tivemos um bate-boca, pelo telefone, de uma espantosa violência. Houve, de parte a parte, os insultos mais pesados. Olegário berrava: — “Eu te matei a fome! Eu te matei a fome!”.





Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   20


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal