A metodologia das Oficinas Inclusivas



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A metodologia das Oficinas Inclusivas
Diagrama conceitual

pessoas com deficiência + pessoas sem deficiência





impasses de comunicação




reflexões sobre diversidade humana




entendimento e vivência de uma nova ética inspirada na diversidade



conceito de inclusão



inclusão X integração






visão crítica de projetos pessoais, sociais e políticas públicas que se dizem inclusivos



adoção de medidas pró-inclusivas

Resumo metodológico

A metodologia e o formato das oficinas, com suas Dinâmicas e Provocações, são iguais para todos os públicos beneficiários, diferenciando-se apenas na forma de convocação dos participantes.





  1. Oficina para adolescentes e jovens em ambientes educacionais - As Oficinas Inclusivas para adolescentes e jovens têm por objetivo promover um encontro inédito entre jovens da mesma geração, com e sem deficiência, suprindo uma lacuna deixada pela escola e pela vida em comunidade. A seleção dos alunos para participar das oficinas não deve obedecer a qualquer critério de escolha como convidar os melhores por nota ou bom comportamento. Do total de participantes - no máximo 25 - 15% devem ter algum tipo de deficiência (física, intelectual, visual, auditiva ou múltipla). O percentual de 15% de pessoas com deficiência é compatível com a estimativa da Organização Mundial de Saúde sobre esta população para países em desenvolvimento e com os dados do Censo 2000 do IBGE.

Atenção: Critério idêntico deve ser adotado em universidades, mesmo que existam adultos na turma, e também em clubes, colônia de férias, grupos reunidos em função de projetos sociais, religião etc.





  1. Oficina para adultos em ambientes educacionais e profissionais – Nas Oficinas Inclusivas para adultos, é mais produtivo trabalhar com os grupos já constituídos nos seus ambientes de trabalho, ajudando-os a interagir com a diversidade do dia-a-dia, não sendo necessário levar pessoas com deficiência, mas forçar o grupo a admitir suas próprias deficiências, em geral disfarçadas, ou simplesmente, ignoradas como assunto-tabu. As oficinas deverão ter até 25 pessoas, sendo que 15% delas devem ser convocadas para a dinâmica por serem as mais “diferentes”. O objetivo desta proposta aparentemente segregadora é instigar os participantes, mesmo antes de a oficina começar, a se confrontarem com suas dificuldades para conceituar diversidade, desigualdade etc. Cada um pensará nessas diferenças de acordo com seus próprios critérios: etnia, religião, classe social, aparência física, gênero, cultura, região do país, entre outros. A partir dessa reflexão, se desenvolve a metodologia da oficina.

Atenção: No caso de escolas, as oficinas para professores, funcionários, gestores etc, devem seguir esta última organização.


Diferencial da metodologia
Mais do que combater a discriminação de pessoas com deficiência pela sociedade, as Dinâmicas e as Provocações das Oficinas Inclusivas visam a identificar formas de segregação que só depois de reconhecidas poderão ter solução. Muitos tipos de segregação são sutis, principalmente os que se referem à comunicação. Manifestam-se, por exemplo, através da quase nenhuma preocupação em prever um intérprete da Libras para comunicação com pessoas surdas em eventos, teatros, escolas, reuniões comunitárias, apesar de a Lei Federal nº 10.098, de 2000, estabelecer critérios para a promoção da acessibilidade comunicacional de pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida.

Essas são as principais diferenças entre a metodologia das Oficinas Inclusivas e outras metodologias:




Oficinas inclusivas

Outras metodologias

Proporcionam vivências inclusivas

Nem sempre há essa preocupação

Buscam acessibilidade total na comunicação

(Libras, braile, desenho e texto ampliados e tecnologias assistivas)


Acessibilidade parcial de comunicação



Pessoas com deficiência falam por si

Pessoas com deficiência raramente presentes

Participantes mobilizados para se tornarem agentes da inclusão

Participantes valorizados apenas como receptores da inclusão (“aceitar” ou não a pessoa com deficiência)

Exercício da ética na diversidade com a presença da diversidade e da deficiência

Exercício da ética na diversidade sem a presença da diversidade e da deficiência

Preocupação crescente em cumprir a legislação brasileira inclusiva

Nem sempre há essa preocupação


Valores e princípios que norteiam a metodologia
Algumas idéias irão se repetir várias vezes no decorrer deste texto que descreve a metodologia das Oficinas Inclusivas. Isso é natural, afinal são os valores e princípios que precisam ser ancorados e muito bem assimilados por quem se dispuser a realizar uma Oficina Inclusiva. São eles:
. Todas as pessoas são gente.
. A humanidade encontra infinitas formas de se manifestar.
. A inclusão é incondicional.
. A busca de soluções para uma sociedade inclusiva passa, sempre, pela criatividade e pelo empreendedorismo dos jovens.
. Toda pessoa tem o direito de contribuir com seu talento para o bem comum.
. Toda criança e todo jovem têm o direito de conhecer a humanidade como ela é, não como os adultos gostariam que fosse.

. O direito à igualdade não pode ser desvinculado do reconhecimento das diferenças.



Diretrizes da metodologia

- As Oficinas Inclusivas são um trabalho de construção coletiva, de co-responsabilidade e co-autoria. Não podem, portanto, lembrar uma sala de aula comum, na qual muitas vezes se exige dos alunos as mesmas respostas, as mesmas dúvidas, até os mesmos sentimentos.

- A metodologia das Oficinas Inclusivas leva oficineiros e participantes a lidar melhor com seus próprios tempos; tempos psicológicos, tempos sociais, tempos de expressão e de escuta do outro.

- Nas Oficinas Inclusivas, administrar o tempo é responsabilidade de todos, oficineiros e participantes, que devem aprender a brincar com seus tempos, aceitando o desafio de revê-los. Por exemplo: até quando eu devo esperar uma pessoa que é gaga terminar a frase sem atropelá-la, tentando presumir sem cerimônia o que ela vai dizer? Trabalhar com inclusão é entender que cada pessoa tem um tempo e um modo de falar, andar, tentar ver, tentar se mexer etc.

- As Oficinas Inclusivas baseiam-se em dinâmicas simples que serão mais ou menos produtivas em função da diversidade do grupo e do quanto o oficineiro conseguirá lidar com esta diversidade. O sucesso de cada Oficina Inclusiva dependerá principalmente da habilidade do grupo para encontrar novas e inusitadas formas de se comunicar. Quanto mais inovações forem propostas, mais interessante ficará o trabalho nas oficinas.

- As tradicionais respostas prontas deverão ser, sempre, substituídas por questionamentos.

- É fundamental que os oficineiros não hesitem em apontar seus deslizes, preconceitos e equívocos na abordagem do tema deficiência para os participantes das oficinas. É a partir dessas constatações que as dinâmicas ficam mais interessantes. Os oficineiros, portanto, não devem se colocar como profissionais. São facilitadores para uma reflexão conjunta sobre inclusão.


O Oficineiro...
Quem é o oficineiro? O mais extrovertido? O menos tímido? O mais falante?
Nada disso.
O oficineiro deve ser alguém com:


  • muita capacidade de reflexão

  • disponibilidade para realizar atividades junto à comunidade

  • humildade para assumir seus deslizes em público e transformá-los em oportunidades de aprendizagem para si e para o grupo

  • persistência para aprender e inovar

  • facilidade de comunicação, no sentido de expressar idéias sob qualquer modo

  • bom humor

  • entusiasmo pelas descobertas que faz e que o outro faz

  • total interesse pelo conceito de inclusão

  • aptidão para conhecer pessoas


Roteiro de trabalho para realizar a Oficina Inclusiva
- Identificar os custos para a realização de uma oficina

- Selecionar os parceiros que ajudarão na organização da oficina

- Pesquisar o local no qual se realizará a oficina

- Verificar a acessibilidade do local escolhido

- Marcar data e hora

- Contratar intérprete de Libras pelo tempo de duração da oficina

- Preparar convites para os parceiros

- Preparar convites para os participantes

- Providenciar cópias do Teste seu TODOS, inclusive em braile, em desenho, em tinta com letras maiores para pessoas com baixa visão etc

- Esclarecer que não se admitirá atraso na oficina

- Enviar convites para parceiros e participantes, sempre atento para que estes convites contemplem, em sua forma, a acessibilidade para o maior número possível de condições humanas

- Conferir o recebimento dos convites

- Comprar papel, caneta, crachás, hidrocor, grampeador etc

- Providenciar lista de presença para o dia da oficina

- Comprar lanche para o intervalo

- Conferir limpeza do local no dia da oficina

- Chegar pelo menos meia hora antes da oficina começar

- Arrumar cadeiras em círculo

- Conferir com parceiros detalhes da oficina

- Definir os critérios que serão utilizados para avaliar o resultado das oficinas e preparar o material para uma auto avaliação do trabalho a ser realizado pelo oficineiro (lembrar que este material também deve ser reproduzido mantendo a preocupação com a acessibilidade)



Ferramentas de auto-avaliação das Oficinas Inclusivas
O processo de avaliação do projeto Quem cabe no seu TODOS? é sistemático e está em curso. Novas avaliações, com consultoria externa, estão previstas. Sugerimos que seja acessado o site da Escola de Gente para conhecer os resultados já obtidos e os esperados.

Neste capítulo, daremos apenas algumas sugestões que podem ser usadas como ferramentas de auto-avaliação dos oficineiros. São elas:


1) a longo prazo - A melhor forma de avaliar o resultado de uma Oficina Inclusiva é acompanhar os participantes no dia-a-dia, conhecendo suas ações e conversando com eles. No caso dos adolescentes e jovens, quando o ambiente educacional os estimula a participar e a se expressar, naturalmente eles têm mais estímulo e melhores condições para colocar em prática o conceito de inclusão. A longo prazo, o efeito transformador das dinâmicas deve ser medido por meio de encontros pessoais e duradouros com quem participou das oficinas. Melhor ainda quando é possível fazer um encontro com essas pessoas antes das oficinas e meses depois. Nessas oportunidades, o avaliador deverá verificar se os resultados esperados e definidos antes da realização das oficinas foram alcançados. Essas são algumas sugestões da Escola de Gente:
Resultado esperado em oficinas para adolescentes e jovens em ambientes educacionais

Transformar cada estudante em um multiplicador do conceito e da prática da sociedade inclusiva em sua escola e comunidade, estimulando-o a trabalhar em parceria com seus professores, envolvendo, ainda, grêmios, representantes de turma etc. Observe, por exemplo:



  • o número de participantes das oficinas que realizaram alguma ação pró-inclusiva

  • o número de participantes que efetivamente se tornaram agentes da inclusão, buscando soluções para que a escola seja um espaço social inclusivo

  • o número de eventos organizados para discussão e/ou reflexão sobre o conceito de inclusão

  • a qualidade da acessibilidade nos locais onde ocorreram esses encontros

  • o que foi feito pela acessibilidade arquitetônica e de sinalização da escola

  • a contribuição dos alunos para garantir que os eventos na escola tenham: acessibilidade na comunicação, intérprete de Libras nas salas de aula, jornal-mural em braile etc


Resultado esperado em oficinas para adultos em ambientes educacionais

Os resultados a serem medidos vão depender exclusivamente do ambiente no qual as Oficinas Inclusivas para adultos se inserirem. Em ambientes educacionais, o mais provável é que a demanda pelas oficinas venha atender o interesse dos professores em saber o que é uma escola inclusiva e como construí-la no dia-a-dia, a partir do momento em que a instituição se abre para a diversidade humana. Observe, por exemplo:




  • o número de professores que após participarem das oficinas realizaram alguma ação inovadora e pró-inclusão na escola

  • o número de professores que multiplicaram as dinâmicas aprendidas nas Oficinas Inclusivas com outros professores ou com outros alunos

  • as decisões pró-inclusão que foram tomadas pelos professores para extingüir as classes especiais da escola

  • se foram feitos convênios com instituições de pessoas surdas para a presença de intérprete de Libras na escola

  • que outras ações pró-inclusão inéditas foram desenvolvidas pelos professores em parceria com a comunidade escolar, especialmente os próprios alunos


Resultado esperado em oficinas para adultos em ambientes profissionais

Em ambientes profissionais, o mais provável é que a demanda pelas oficinas venha atender o interesse dos funcionários em saber o que é um ambiente de trabalho inclusivo e como construí-lo no dia-a-dia. Observe, por exemplo:



  • o número de funcionários que pleitearam pela realização de mais Oficinas Inclusivas

  • o número de funcionários que multiplicaram as dinâmicas das oficinas entre seus colegas

- as decisões pró-inclusão tomadas pela empresa graças à mobilização dos funcionários que participaram das oficinas, tais como revisão de acessibilidade arquitetônica, do sistema de sinalização interna e externa, das propostas de prevenção de acidentes (CIPA), da acessibilidade na comunicação com o público e entre os funcionários, na adoção de uma tecnologia de inclusão digital que contemple pessoas cegas, surdas, com mobilidade reduzida etc.

- os processos que as Oficinas Inclusivas desencadearam ou aceleraram, dentro das organizações, provocando reflexões capazes de disseminar e manter uma cultura inclusiva em constante evolução



2) a curto prazo – São as ferramentas de auto-avaliação utilizadas para medir o efeito transformador das oficinas em seus participantes logo após o seu término. Sugerimos que o questionário a seguir seja distribuído e respondido antes da oficina começar e redistribuído (uma nova cópia em branco) logo após o término da sétima dinâmica. Os participantes não precisam assinar as duas avaliações, que contêm idênticas perguntas. Basta que as guardem consigo devolvendo-as juntas. Quem for pegá-las, deverá grampeá-las imediatamente.

Sugestão de questionário para auto-avaliação

Este questionário deverá ser distribuído duas vezes: antes do início das oficinas e antes da partilha dos sonhos.





  1. Você acha que crianças com e sem deficiência devem estudar:




  1. ( ) na mesma sala de aula.

  2. ( ) na mesma escola, mas em salas separadas.

  3. ( ) em escolas separadas.

  4. ( ) as crianças com deficiência não devem estudar.



  1. Você acha que jovens com e sem deficiência têm os mesmos direitos para estudar, para trabalhar e para se divertir?




  1. ( ) sim, pois com ou sem deficiência somos todos seres humanos.

  2. ( ) sim, pois com ou sem deficiência somos todos iguais.

  3. ( ) não, pois as pessoas com deficiência não são capazes de exercer os mesmos direitos de pessoas sem deficiência.

  4. ( ) não, as pessoas com deficiência devem ter direitos diferentes.



  1. Quem é responsável pela inclusão de pessoas com deficiência na sociedade?




  1. ( ) o governo.

  2. ( ) os pais das pessoas com deficiência.

  3. ( ) as próprias pessoas com deficiência.

  4. ( ) toda a sociedade.



  1. Você convive (mora, estuda, trabalha, tem familiares, amigos) ou já conviveu com pessoas com deficiência de sua idade?




  1. ( ) sim. Onde?

  2. ( ) não.



  1. Quando você escuta a frase “educação para todos”, você acha que este “todos” inclui pessoas com deficiência?




  1. ( ) sim.

  2. ( ) não.


Características das Oficinas Inclusivas
- Tempo de duração: de 3 a 3h e meia, com intervalo de 10 minutos após a quarta dinâmica (3 horas é o tempo mínimo, utilizado durante o projeto Quem cabe no seu TODOS?, mas este tempo pode ser prolongado para 4 ou 5 horas, com dois intervalos mais longos)
- Número de participantes: de 20 a 25, incluindo pessoas com e sem deficiência, lembrando que o tempo de 3h e meia é o ideal para 25 participantes
- Espaço físico: amplo, arejado, no qual as pessoas possam estar em círculo, em pé ou sentadas, com conforto para se olharem e para se movimentarem dentro da roda. Pode ser uma sala de aula, um jardim etc, mas nunca um local que impeça ou dificulte os participantes de se observarem. Verifique se o local é silencioso, para que as pessoas possam se ouvir e a concentração seja maior.
- Material de apoio: papel, caneta e hidrocor para trabalhos em diferentes formas de comunicação e expressão (português, braile, desenho, letras ampliadas para quem tem baixa visão, notebook e outras tecnologias assistivas para permitir a comunicação, dispositivos com letras e figuras utilizados por pessoas com déficit na coordenação motora etc)
- Equipe: dois oficineiros e uma intérprete de Língua de sinais brasileira.

Situações de risco
A pessoa responsável pela organização das oficinas (não necessariamente o oficineiro) deve ficar atenta às situações de risco, que podem comprometer o sucesso do trabalho, e encontrar meios próprios de superá-las.

Aqui enumeramos apenas algumas dessas situações; outras surgirão dependendo das particularidades de cada comunidade.


Situações de risco mais comuns:


  1. Não conseguir o percentual de 15% de jovens com deficiências diversas ou, ao contrário, ter bem mais do que 15% de jovens com deficiências diversas nas oficinas

Para diminuir este risco: explicar com detalhes e, se necessário, até escrever, porque é necessária a presença dos 15%. Quanto mais clara ficarem essas explicações, menos risco se corre. Veja como explicar.

Por que os 15% de participantes com deficiência são necessários?

Porque as Oficinas Inclusivas têm como meta reproduzir o percentual de pessoas com deficiência que vivem na sociedade, de acordo com o Censo 2000 do IBGE. Dessa forma, estaremos atuando em um ambiente o mais próximo do real possível.




  1. Ter o percentual de 15% de jovens com deficiência sendo a maioria com a mesma deficiência

Para diminuir este risco: explicar com detalhes e, se necessário, até escrever, qual a importância das deficiências serem diferentes. Veja como explicar.

Por que as deficiências devem ser diferentes?

Porque cada tipo de deficiência gera um impasse de comunicação diferente, uma situação e um desafio inusitados para o grupo. Quanto mais desafios, mais interessante fica a oficina. Em aproximadamente 25 pessoas, haverá em média quatro jovens com deficiência. O ideal é que cada um tenha uma deficiência física, intelectual, visual ou auditiva.




  1. Não conseguir ter um número mínimo de pessoas na hora da realização das oficinas

Para diminuir o risco: enviar convite com antecedência, pedindo que as pessoas envolvidas na realização da oficina, tanto parceiros quanto participantes, confirmem sua parceria ou a presença por meio de internet, fax, correio, ou telefone, assim que for possível e respeitando prazos, colocando a data para a realização das oficinas e se dispondo a cumprir outros compromissos que o responsável pela organização e os oficineiros acharem necessários. Este livro traz uma sugestão de convite.


  1. Sofrer pressão para realizar a Oficina para grupos homogêneos, por qualquer razão

Para diminuir o risco: explicar que a metodologia das Oficinas Inclusivas se propõe a reproduzir um ambiente real sob a ótica da diversidade humana.



  1. Descobrir que a convocação dos jovens para a oficina foi baseada em critérios que não combinam com a metodologia, como reunir apenas os alunos com notas mais altas, ou os com notas mais baixas, ou os mais desinibidos, ou os alunos considerados “problema” etc

Para diminuir o risco: dizer que a oficina não é um prêmio ou um castigo, apenas uma oportunidade de reunir pessoas que acreditam na construção de um mundo que não admite discriminação e querem encontrar meios de colaborar para a construção desse mundo.


  1. Ter participantes chegando atrasados à oficina e pedindo para entrar

Para diminuir o risco: colocar no convite que atrasos não serão permitidos pois, além de prejudicarem quem já está na oficina, atrapalham os próprios atrasados, que perdem algumas Dinâmicas e Provocações, ficando perdidos por não terem acompanhado a linha principal de raciocínio desde o início.

Mas todo participante atrasado deve ficar de fora?

Esta é uma decisão sempre difícil. O ideal é manter isso à risca, mas em caso de dúvida, peça ajuda ao grupo. Às vezes, o participante que chega atrasado é peça fundamental para a reflexão do grupo e isto acontece quando ele é alguém com deficiência. Mas devemos mudar o critério nesse caso? Isso é correto? Isso é inclusão? Como agir, principalmente quando outras pessoas que já chegaram atrasadas foram impedidas de entrar? Lembro que o oficineiro não tem todas as respostas e que o seu papel é o de aproveitar, ao máximo, as oportunidades que surgem para instigar o grupo. Foi o que fizemos em uma Oficina organizada pelo Grupo 25 (nossa ONG hospedeira em São Paulo), em agosto de 2002, no Colégio Friburgo. O estagiário do projeto Quem cabe no seu TODOS?, Ivan Kasahara documentou o ocorrido, em seu relatório, em seu relatório:

“... Mais de uma hora depois de iniciada a oficina, chegou um adulto com paralisia cerebral que havia sido convidado com antecedência de dias para participar. Coincidentemente, momentos antes, estávamos discutindo com o grupo de jovens sobre mudança de mentalidade, no caso, a mudança de mentalidade exigida para a construção de uma sociedade inclusiva, e abordamos a questão dos critérios.

Inclusão não é sinônimo de paternalismo ou condescendência extrema para com as pessoas com deficiência e, por isso, os critérios, depois de devidamente reformulados, têm que ser os mesmos para todos. Claudia exemplificou com a seguinte pergunta: ‘Se uma pessoa surda chegasse agora, ela poderia participar da oficina?’ (a regra das oficinas é não admitir atrasos). Diante dessa situação hipotética, e na presença da intérprete de Libras, os jovens responderam convictamente que sim, porque a Oficina estava preparada para atender à comunicação inerente aos surdos. Mas, para surpresa do grupo, Claudia lhes disse que não, porque essa pessoa estaria atrasada mais de 15 minutos, e o critério ‘ninguém entra com mais de 10 minutos de atraso’ deve ser válido para todos.

Ironicamente, logo depois desse exemplo, chegou o jovem com paralisia cerebral e seu acompanhante. Um ar de dúvida pairou no ar. O que fazer? Nas mentes dos participantes deveriam estar passando pensamentos do tipo ‘para ele é mais difícil chegar aqui’, ‘coitado, já fez um sacrifício tão grande para chegar’, ‘a presença dele é fundamental, nunca vi de perto alguém assim” etc, enfim, argumentos capazes de justificar mudanças no critério apenas para ele ficar.

Claudia propôs, então, que nós analisássemos melhor a situação antes de definir se o convidado ficaria ou não, deixando que o grupo tomasse uma decisão. Perguntamos por que ele havia se atrasado e seu acompanhante disse que havia sido por causa do trânsito ruim e porque eles haviam saído tarde da USP, onde freqüentam juntos o curso de Jornalismo, como ouvintes. O fato era que a presença de uma pessoa com paralisia cerebral no grupo despertara muita curiosidade entre os presentes, principalmente pelo fato de toda comunicação com ele se dar através de uma espécie de tabuleiro com letras, números e figuras, anexada à sua cadeira de rodas, chamado Bliss, no qual a pessoa indica, com o dedo ou com o olhar, o que quer dizer. Depois de muita conversa, e devido aos argumentos apresentados pelo grupo, e ao provável enriquecimento que a presença de uma pessoa com paralisia cerebral traria à oficina, o grupo optou por sua permanência.

Antes que a decisão fosse tomada, no entanto, Claudia fomentou a reflexão do grupo perguntando se a partir daquela hora, caso uma outra pessoa chegasse atrasada, nós permitiríamos que ficasse conosco. A questão colocada era: para representantes de que diversidade mudaríamos nosso critério de avaliação? Como o Colégio Friburgo é um colégio particular, Claudia perguntou: ‘E se chegasse agora um menino em situação de rua e um outro desse mesmo colégio, juntos, nós permitiríamos a permanência destes? Ou só de um?’.

Eu realmente acho que nossa decisão foi correta. Não por tê-lo deixado participar, mas sim por termos discutido a situação e reavaliado nossos conceitos. Isto é algo que deve ser feito constantemente e um dos grandes obstáculos para a sociedade inclusiva é justamente o fato de muitas pessoas permanecerem estáticas e inertes em suas visões de mundo. Como Claudia diz, ‘a sociedade para TODOS há de ser construída, remodelada e melhorada a cada dia’. Contudo, se o jovem que chegou atrasado não tivesse deficiência alguma, nós estaríamos tão dispostos a refletir? Será que sequer lhe daríamos a chance de justificar seu atraso?

Como se não bastasse isso tudo, nossa reflexão se acirrou mais ainda quando o jovem com paralisia cerebral, além de chegar atrasado e apenas uma hora depois de provocar tantas questões no grupo para decidir se ele ficaria ou não, disse que ia sair naquela hora, uns 60 minutos antes do final da oficina, por ter outro compromisso.

Mesmo assim, durante o pequeno tempo em que ficou conosco, o grupo pôde perceber e comentar como muitas vezes o acompanhante do jovem com paralisia cerebral falava pelo mesmo, não lhe dando a oportunidade de se expressar e de apontar sozinho as letras e os símbolos que desejava para se comunicar. Mesmo quando começava a formar palavras usando os símbolos Bliss, o acompanhante se antecipava a ele, tentando adivinhar o que apontaria”.




  1. Ter participantes querendo sair antes do término da oficina

Para diminuir o risco: colocar no convite que para participar da oficina é indispensável poder ficar até o fim. Quem não puder ficar é melhor não entrar. Isto deve ficar claro, se possível, no convite. Garantir que as oficinas tenham o tempo estipulado pelo oficineiro (3 horas de duração, no mínimo) é prioritário. Qualquer diminuição de tempo previsto implicará no sub-aproveitamento do trabalho.


  1. Receber pedidos de pais e/ou professores de adolescentes com e sem deficiência para acompanhar as oficinas

Para diminuir o risco: deixar bem claro, ao organizar as oficinas e convidar os participantes, que não será permitida a presença de acompanhantes, pois isso, na maioria das vezes, inibe o grupo e impede que as dinâmicas transcorram com qualidade.

As Oficinas quase impossíveis

Apontamos as situação de risco e é importante ressaltar especialmente uma, a de número 4: “Sofrer pressão para realizar a oficina para grupos homogêneos, por qualquer razão”.

Para explicar melhor o porquê desta preocupação, relato uma conversa minha com um empresário, há alguns anos:

Após termos participado juntos de uma mesa temática sobre inclusão e responsabilidade social em um congresso, o empresário me disse que apoiava financeiramente várias escolas e projetos educacionais nas comunidades ao redor de sua fábrica e por ter muita vontade de investir também em instituições só de crianças com deficiência, havia ido visitar uma escola especial. Mas, lá chegando, sentiu-se muito mal, um mal-estar real, físico, ao ver tantas pessoas com deficiência mental juntas, tão parecidas entre si nos seus comprometimentos. Ele então havia chegado à conclusão de que lhe seria impossível conviver com naturalidade em um ambiente assim. Eu lhe dei razão. E perguntei se ele também não se sentia mal quando entrava em um ambiente onde não tinha ninguém com deficiência (como provavelmente eram as salas de aulas das escolas regulares ao redor de sua fábrica). Ele me disse: “Não”. Eu respondi: “Que pena, eu também não, mas a situação é igualmente anômala. Deveríamos nos sentir mal”.

Se eu não passo mal quando entro em um local onde só haja pessoas sem deficiência como cinemas, praças, bancos, festas é porque, assim como o empresário com quem conversava, também já me habituei a achar que o saudável e o desejável é encontrar juntas pessoas que têm dois olhos, as partes visíveis do corpo funcionando razoavelmente bem, um intelecto que nos pareça em bom estado. Acho natural porque fui educada para achar isso natural. Assim como fui educada para achar anti-natural, pouco saudável e desejável um ambiente só de pessoas com deficiência.

Não deveríamos ficar à vontade em nenhuma das duas situações, porque elas são extremas e contrariam a forma como as condições humanas se apresentam na face da Terra, totalmente misturadas. As duas situações reproduzem uma farsa, a única diferença é que já nos habituamos a uma dessas farsas. À outra, não.

Nascemos embaralhados, sem qualquer ordem ou critério. Bebês de todos os tipos, totalmente diferentes entre si, alternam-se chegando ao mundo na mais aleatória das probabilidades. Portanto, seria lógico nos sentirmos profundamente constrangidos e violentados sempre que nos deparássemos com situações nas quais a humanidade estivesse reproduzida de forma anômala, ou seja, organizada por algum propósito ou critério.

Juntar na primeira fila do cinema pessoas com dedo mindinho quebrado, já imaginaram? Ou criar uma agência de empregos especializada em colocar índios no mercado de trabalho? Filas de supermercado divididas nas categorias obeso, anão, homossexual, filhos adotivos, loiras... Caso conseguíssemos nos sentir fisicamente mal diante de situações grotescas como essas, daríamos um salto qualitativo em nossas reflexões e ações. Mas isso raramente acontece.

A verdade é que apenas em duas das 89 Oficinas Inclusivas que realizamos pelo Brasil, tivemos dificuldade de ir adiante. Uma foi em Belo Horizonte. A outra em Curitiba. E os jovens dessas duas oficinas estavam agrupados, na minha opinião, segundo critérios anti-naturais, embora gerados por pessoas bem intencionadas.

Na primeira dessas oficinas, em Belo Horizonte, apesar da nossa orientação para a escola não selecionar os adolescentes e jovens participantes por qualquer critério como bom ou mau desempenho escolar, bom ou mau comportamento etc, os alunos que estavam conosco eram os “alunos-problema”, organizados por problemas, os mais diferentes problemas. Não deu certo. Nós sequer éramos ouvidos e eles também não se ouviam, nem por um minuto. Tivemos que interromper o trabalho no meio.

Eu me senti muito frustrada por isso. Tentando entender o que acontecera, chegamos à conclusão de que aquela turma fora oferecida com muito carinho para nós, pela escola, talvez em função da idéia equivocada que as pessoas têm do que seja uma sala de aula inclusiva, uma turma inclusiva. O objetivo da inclusão não é inserir os deficientes, os doentes e os alunos-problema juntos, no mesmo ambiente, porque nesse caso estaríamos contrariando a realidade composta pelas diferenças.

Na segunda oficina, em Curitiba, trabalhamos com uma turma de aceleração de aprendizagem, na qual os alunos eram agrupados por sua dificuldade em dar conta do conteúdo da escola. A faixa etária variava de 12 a 17 anos. Apesar de ser um grupo pequeno, de apenas 19 alunos, os estudantes eram muito agitados. Em vários momentos foi preciso pedir que prestassem atenção. Participaram desta oficina dois jovens com surdez e a intérprete de Libras, levada por nós, pois, segundo a diretoria da escola, os dois jovens faziam leitura labial e não havia necessidade de se manter intérpretes de Libras para atuar junto a eles.

Um dos momentos mais impactantes da oficina foi quase no final, quando um dos meninos sem deficiência se referiu a um dos jovens surdos como mudinho. Nós já havíamos explicado, no decorrer das oficinas, que não é correto falar que uma pessoa surda também é muda, porque todas as formas de expressão humana são legítimas, mas o menino logo se defendeu dizendo: “Ele não liga de ser chamado de mudinho, não”. Os outros alunos também afirmaram estar acostumados a tratar o colega surdo por mudinho, garantindo que ele não se importava. Pontuamos com o grupo se alguma vez eles já haviam perguntado para o próprio colega surdo se ele gostava ou não desse apelido. Os alunos disseram que não. Solicitamos, então, à intérprete, que fizesse esta pergunta ao menino. Para surpresa da garotada, ele enfaticamente disse que não gostava de ser chamado de mudinho.

Foi muito difícil realizar essa Oficina, e eu credito isso à “homogeneidade” do grupo, formado por aqueles que “não acompanham a turma” ou “não passam de ano”. Ao final da oficina, quando fomos tirar nossa foto oficial, mais da metade da turma saiu. Fiquei decepcionada e nessa hora pensei nos professores e nas professoras do Brasil, no quanto precisam ser criativos, até transgressores, para driblar as situações pouco naturais impostas pelo sistema educacional brasileiro.

Por tudo isso, repito: ao realizar Oficinas Inclusivas, busque e privilegie a diversidade. Lembre-se de como os bebês nascem, misturados entre si.

Sugestão de convite

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Este convite pode ser mais formal ou menos formal, conter mais informações ou menos informações. Aqui, damos apenas uma sugestão.








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