A metodologia em Gramsci



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A METODOLOGIA DO MATERIALISMO HISTÓRICO EM GRAMSCI
Regina maria Michelotto – UFPR

INTRODUÇÃO
O presente trabalho é fruto de uma pesquisa realizada na disciplina “Política e Educação em Gramsci”, ofertada pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná, cuja Área Temática - Educação e Trabalho - assim como a Linha de Pesquisa - Políticas e Gestão da Educação - têm como fundamentação metodológica o Materialismo Histórico e Dialético. Dirigida a mestrandos e doutorandos, a disciplina foi organizada a partir de dois eixos principais: o político e o metodológico. No primeiro, analisa-se de que forma as idéias do pensador italiano Antonio Gramsci favorecem a compreensão a realidade política brasileira, com ênfase na educação, tendo em vista que os alunos dessa linha de Pesquisa se propõem a estudar políticas públicas educacionais. Já o segundo, referente ao tema aqui apresentado, diz respeito à utilização que o autor faz, em sua análise da situação da Itália, do mundo e do Capitalismo em geral, de uma metodologia baseada nas categorias marxistas, com vistas, portanto, à organização de outra sociedade: de uma sociedade transformada.

Ao final da disciplina, solicita-se aos cursistas que escrevam e apresentem um ensaio sobre as possíveis relações entre as idéias de Gramsci e a pesquisa de cada um deles, o que criou a necessidade de se destacar, na leitura das obras do autor, os elementos metodológicos, que são muitos e constituem uma de suas grandes riquezas. Assim, o levantamento e a análise da metodologia na obra gramsciana tem se configurado um firme apoio aos trabalhos dos estudantes.

Para desenvolver esse trabalho, pesquisa-se, em cada texto estudado, os trechos capazes de subsidiar metodologicamente os alunos em suas investigações e, conjuntamente, faz-se a análise dos destaques. Tendo em vista a complexidade e amplitude da obra gramsciana, esse trabalho não está completo, mas encontra-se em fase adiantada.

No presente trabalho, face à necessidade de se limitar ao tempo exigido, apresentar-se-á os destaques e análises sobre o tema proposto, tomando-se como base apenas o caderno 13, do cárcere, no qual Gramsci enfoca seu objeto – a criação da sociedade socialista – a partir da obra de Maquiavel.

Tomar-se-á como referência a obra organizada por Valentino Gerratana (1975), e o terceiro volume da Edição a cargo de Carlos Nelson Coutinho (2000). Assim, a numeração das páginas onde se encontram os trechos indicados obedece essa ordem.

Há que se destacar, também, que na vasta obra do autor em foco, encontra-se não apenas metodologia de pesquisa, mas também estratégias metodológicas para a ação revolucionária, às vezes imbricadas.

Entende-se necessário, antes de iniciar a apresentação dos trechos analisados, descrever sinteticamente quem foi Antônio Gramsci.

ANTONIO GRAMSCI: UMA BREVE APRESENTAÇÃO

A Sardenha é uma ilha situada a oeste da parte continental italiana, no mar Tirreno, que, na época da Gramsci, sofria discriminação e exploração por parte de italianos continentais. Ali, na cidade de Ales, perto de Oristano, nasceu Antonio, no dia 22 de janeiro de 1891, filho de uma família burguesa – o pai, Francesco, foi Diretor no Departamento de Impostos. Condenado por peculato e extorsão, Francesco foi preso, o que levou a família à miséria. A mãe, Giuseppina, sustentava os sete filhos, dos quais Antonio era o quarto, com serviços caseiros. Ao sair da prisão, Francesco não encontrava trabalho, até que conseguiu reaver o posto antigo. Por ser adoentado, Antonio gozava de alguns privilégios, entre os irmãos, uma vez que aos quatro anos de idade, chegara perto da morte. Aos sete, já era um leitor aficionado. Leu “Robinson Crusoe e não saía de casa sem levar consigo alguns fósforos enrolados em um pedaço de tela encerada para o caso de naufragar perto de uma ilha deserta” (LEPRE, 2001 p. 13). Com apenas onze anos, teve que assumir um trabalho de dez horas diárias o que, para sua grande mágoa, o impediu, por dois anos, de ir à escola como “os ricos”: filhos do açougueiro, do farmacêutico e do negociante de tecidos. Entretanto, a família compreendeu seu amor pelos estudos e decidiu que Antonio deveria ter a chance de estudar. Assim, tratou, não sem dificuldade, de sustentar sua escolaridade. O liceu (ensino médio) foi feito em Cagliari. Em 1911 deixou a ilha para ir estudar na Universidade de Turim, no norte da Itália, na área de Letras (e de Direito – NOSELLA, 1992, p. 11), que não chegou a concluir. Filiou-se ao partido Socialista em 1913. Antonio sustentava-se com bolsas de estudo e dando aulas particulares. Em 1915, portanto no contexto da primeira guerra mundial, tornou-se redator do Avanti! - jornal cotidiano do Partido Socialista, escrevendo na coluna chamada Sotto la Mole, (sob a mole) título esse que pode ser considerado ambivalente, pois, se é verdade que ele escrevia e habitava próximo à Mole Antoneliana, uma construção alta encimada por uma torre, por outro lado, pode-se interpretar a palavra mole que, ao mesmo tempo em que tem o significado de um edifício grandioso, significa, também, uma massa enorme e pesada, sob a qual se colocava o autor da coluna jornalística. Antonio escrevia cerca de um artigo por dia, mas acabou considerando-os bem situados e, portanto, dignos de “morrer ao fim do dia” (LEPRE, 2001, p. 22). Colaborava, também, com o semanário socialista Il Grido Del Popolo.

Em 1° de maio de 1919 foi publicado o primeiro número da revista L’Ordine Nuovo (A Nova Ordem), criada por Gramsci, Tasca, Togliatti e Terracini, que trazia, ao lado do título, as palavras de ordem: “Instruí-vos, porque precisamos de vossa inteligência. Agitai-vos, porque precisamos do vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque carecemos de toda a vossa força”.

No final de 1919 e início de 1920 o movimento operário italiano se fez presente na cena política com greves e manifestações que culminaram, em agosto, na ocupação das fábricas. Gramsci, nas páginas de L’Ordine Nuovo, incentivava o movimento operário, entendendo que ele se constituiria na primeira fase da revolução. Tal expectativa, entretanto, foi frustrada pelas estratégias utilizadas pelos patrões e pela falta de coesão da classe operária em outras regiões que não Turim.

Em janeiro de 1921, Antonio participou do grupo que criou o Partido Comunista Italiano, candidatando-se, em seguida, a deputado pela província de Turim, mas não conseguindo se eleger. Em 1922, viajou a Moscou para participar de uma conferência da Internacional Comunista, quando conheceu Júlia Schucht, que viria a ser sua esposa. Em dezembro de 1923 foi transferido para Viena. Nas eleições de 1924, Antonio foi eleito deputado, retornando à Itália logo depois. Nesse ano, em janeiro, aconteceu a morte de Lênin, o que deixou Gramsci muito abalado.

Em junho ocorreu o delito Matteotti, gerando uma crise política. Gramsci, como era deputado, participou das reuniões do grupo oposicionista, conhecido como “Aventino”, que abandonara o Parlamento e se reunia à parte.

Enquanto em Moscou Júlia dava à luz seu primeiro filho, Antonio foi nomeado secretário-geral do PCI. Apenas em 1925 pode conhecer o menino, Délio, quando da vinda de Júlia para Roma, onde morou com as irmãs Tatiana e Genia. Em 1926, Júlia, grávida novamente, retornou a Moscou, onde nasceu Giuliano, o filho que Gramsci não conheceu. Nesse ano, ele escreveu, em nome do ufficio político do partido, uma carta ao Comitê Central do Partido Comunista Soviético, chamando a atenção para alguns problemas que ele estava percebendo na condução do processo revolucionário, carta essa que foi retida por Togliatti, o que causou atritos entre eles. Ainda em outubro desse ano, Gramsci escreveu um texto que intitulou: “Notas sobre o problema meridional e sobre a posição nos seus confrontos dos comunistas, dos socialistas e dos democráticos”, mas que foi publicado como: “Alguns temas da questão meridional”. Esse texto ficou incompleto e foi o último escrito de Antonio, em liberdade, pois, em 08 de novembro foi preso, apesar da imunidade parlamentar, e conduzido ao cárcere Regina Coeli. Em dezembro, foi levado à ilha de Ústica, onde, junto com Bordiga e outros companheiros também prisioneiros, organizou uma escola. Recebia livros de Piero Sraffa, que acabou sendo, pela intermediação da cunhada Tatiana, um “importante interlocutor da correspondência carcerária de Gramsci” (COUTINHO, 1999, p. 65). A estada em Ústica durou perto de dois meses. Transportado de novo ao continente, chegou à prisão de San Vittore em fevereiro de 1927. Em 4 de junho de 1928, Gramsci foi condenado a 20 anos, quatro meses e cinco dias de reclusão (LEPRE, 2001, p. 107). Ficaram registradas as palavras do promotor fascista ao Tribunal Especial: “Temos que impedir que este cérebro funcione pelo espaço de vinte anos”. (SFORZA, 1945, p. 333). Uma carta enviada por sua irmã a Mussolini, relatando seu precário estado de saúde, fez com que fosse examinado por um médico e enviado à prisão especial de Turi, na província de Bari, onde permaneceu até 1933. Nesse ano foi internado como prisioneiro em uma clínica de Fórmia, face suas precárias condições físicas. Em outubro de 1934 recebeu liberdade condicional. Em 1935 foi transferido para outra clínica, em Roma. Em abril de 1937 terminou o período da liberdade condicional e Gramsci readquiriu a liberdade. Mas, na noite de 25 de abril, sofreu um derrame cerebral e morreu dois dias depois.

Escreveu, no cárcere, além de muitas cartas, 33 cadernos – sendo quatro de exercícios de tradução. Esses cadernos foram guardados pela cunhada, numerados e entregues a Togliatti. Nosella (1989) informa sobre o processo de publicação das obras gramscianas:

“Após dez anos de sua morte, começou-se por publicar as Cartas do Cárcere (1947), cujo sentido de documentação pessoal de um mártir antifascista foi imediatamente percebido pelo mundo inteiro. Em seguida, (1948-1951) foi a vez da publicação dos Cadernos do Cárcere, seguindo um critério de agrupamento por temas que, afirma-se, haviam sido indicados por Gramsci, o que é verdade até certo ponto. (...) Em 1954 foi a vez do primeiro conjunto de escritos anteriores ao Cárcere. (...) Entretanto, todas essas publicações apresentavam sérios limites. (...) Precisava-se de uma Edição Crítica. (...) Respondendo a essas necessidades, a Editora Einaudi (...) lançou a excelente Edição Crítica dos Cadernos e das Cartas do Cárcere (1975)” (NOSELLA, 1989). (Essa Edição Crítica foi organizada por Valentino Gerratana).

No caderno 13, Gramsci desenvolve uma reflexão sobre a situação da Itália e do mundo, tomando como referência a obra de Maquiavel. Cunha a expressão Moderno Príncipe que, coerentemente com o contexto em que viveu, seria o Partido Político.

Serão agora apresentados e analisados os trechos metodológicos destacados na pesquisa, com a indicação da página da Edição Crítica seguida do número da página da edição da Civilização Brasileira.

A METODOLOGIA EM GRAMSCI

§ 1. Gramsci discorre (p. 1559; p. 17) sobre a necessidade de que o Moderno Príncipe tenha “uma parte dedicada ao jacobinismo (...) como exemplificação do modo pelo qual se formou concretamente e atuou uma vontade coletiva”. Quando, porém, destaca essa categoria, afirma ser preciso definir “a vontade coletiva e a vontade política em geral, no sentido moderno, a vontade como consciência operosa da necessidade histórica, como protagonista de um drama histórico real e efetivo”. Fiel ao seu objetivo, jamais perdido de vista, de oferecer reflexões que contribuam para a criação da nova e almejada sociedade, Gramsci relaciona sempre cada categoria analisada com a situação real e concreta, dando a ela um cunho transformador, o que demonstra que sua metodologia se configura como práxis. Levanta, então, a questão (sua obra é permeada por uma quantidade delas): “quando é possível dizer que existem as condições para que se possa criar e desenvolver uma vontade coletiva nacional-popular?” Exemplifica esses termos quando afirma: “Qualquer formação de uma vontade coletiva nacional-popular é impossível se as grandes massas dos camponeses cultivadores não irrompem simultaneamente na vida política. Isso é o que Maquiavel pretendia através da reforma da milícia, isso é o que os jacobinos fizeram na Revolução Francesa” (p. 1560; p.18). Propõe, então, que seja feita “uma análise histórica (econômica) da estrutura social do país em questão e uma representação ‘dramática’ das tentativas feitas através dos séculos para criar esta vontade e as razões dos sucessivos fracassos”.

A História, para Gramsci, é o grande apoio metodológico. Deve-se ir a ela sempre que a análise do objeto em foco exigir, para que esse objeto seja entendido concretamente, como “síntese de múltiplas determinações”. (MARX, p. 218). Trata-se do historicismo em Gramsci, que é diferente do que não raramente é apresentado em teses e dissertações, quando o aluno entende que deve fazer uma “varredura” histórica acerca de seu tema e essa fica solta, desarticulada do restante do texto. Ao contrário, Gramsci vai à história sempre que é necessário esclarecer melhor o seu objeto de estudo, para concretizá-lo. Não se desgarra dela em todo o decorrer do processo.

§ 2. Gramsci mostra dois pontos fundamentais que deveriam constituir a estrutura do trabalho do moderno príncipe: a “formação de uma vontade coletiva nacional-popular, da qual o Moderno Príncipe é ao mesmo tempo organizador e expressão ativa e operante, e reforma intelectual e moral”. A partir daí, levanta a questão: “Pode haver reforma cultural, ou seja, elevação civil das camadas mais baixas da sociedade, sem uma precedente reforma econômica e uma modificação na posição social e no mundo econômico? É por isso que uma reforma intelectual e moral não pode deixar de estar ligada a um programa de reforma econômica; ao contrário, o programa de reforma econômica é precisamente o modo concreto com o qual se apresenta cada reforma intelectual e moral”. (p. 1561; p. 19).

Observa-se como os tópicos de reflexão são entendidos articuladamente, na análise gramsciana. A superestrutura (cultura) ligada à estrutura (economia). Essa posição esclarece aos estudantes como seu objeto de análise está, também, articulado com a base estrutural da sociedade.

§ 3. “O estudo sobre como se devem analisar as ‘situações’, isto é, sobre como se devem estabelecer os diversos níveis de relação de forças, pode servir para uma exposição elementar de ciência e arte política, entendida como um conjunto de regras práticas de pesquisa e de observações particulares úteis para despertar o interesse pela realidade efetiva e suscitar intuições políticas mais rigorosas e vigorosas” (p. 1561; p. 19).

Fundamental, para Gramsci, é a elevação sempre maior do grau de compreensão da realidade, direito de todos. Não como fim em si mesmo, mas para possibilitar a intervenção nela, no sentido de uma transformação política e social.

§ 4. Ao analisar a distinção que Croce faz entre “momentos do Espírito” e “momentos da prática”, Gramsci afirma: “Numa filosofia da práxis, a distinção certamente não será entre os momentos do Espírito absoluto, mas entre os graus da superestrutura”; Depara-se, então, com a questão decorrente: “Mas se pode falar de dialética dos distintos e como se pode justificar a introdução do conceito de distinção numa filosofia da práxis?” E conclui apresentando o “conceito de ‘bloco histórico’, isto é, unidade entre a natureza e o espírito (estrutura e superestrutura), unidade dos contrários e dos distintos” (p.1569; p. 26).

Essa análise é fundamental para explicitar que a utilização de distinção feita pela Escolástica é diversa daquela feita pela Dialética, usada por Gramsci. A partir desse esclarecimento, Gramsci vai utilizar muitas vezes a distinção.

§ 5. Ao afirmar que “Maquiavel é um homem inteiramente de seu tempo...” (p. 1572; p. 30), Gramsci demonstra sua metodologia historicista ao completar, indicando as obras do sábio florentino: “E não só a Arte da guerra deve ser ligada ao Príncipe, mas também as Histórias florentinas, que devem efetivamente servir como uma análise das condições reais italianas e européias das quais derivam as exigências imediatas contidas em O Príncipe”. Acrescenta, ainda, que: “De uma concepção de Maquiavel mais aderente à época deriva, subordinadamente, uma avaliação mais historicista dos chamados ‘antimaquiavélicos’.” (P. 1573; p.30-31). Desenvolve, então, toda uma análise de alguns desses autores, situando-os, assim como a obra de Maquiavel, no contexto histórico. Dessa forma, vai concretizando o tema abordado.

§ 6. A questão do dever ser.

Muitas vezes, nas pesquisas, o mestrando ou doutorando se detém a indicar como seu objeto de estudo “deveria ser”, o que, geralmente, vai além da análise científica do objeto de estudo e por isso é criticado pelo orientador, que entende que uma pesquisa deve se ater ao ser, ao que é. Mas, o “dever ser” é reprovável em qualquer condição? A análise historicista, marxiana, que Gramsci faz, esclarece essa questão de forma elogiável.

Afirmando que Maquiavel é um político em ato, que pretende criar novas relações de força, e, portanto, não pode deixar de ocupar-se do “dever ser”, (ressalvando que: “não em sentido moralista”), esclarece que a questão é complexa e que deve ser colocada nos seguintes termos: “...trata-se de ver se o ‘dever ser’ é um ato arbitrário ou necessário, é vontade concreta ou veleidade, desejo, miragem. O político em ato é um criador, um suscitador, mas não cria a partir do nada nem se move na vazia agitação de seus desejos e sonhos. Toma como base a realidade efetiva: mas o que é essa realidade efetiva? Será algo estático e imóvel, ou, ao contrário, uma relação de forças em contínuo movimento e mudança de equilíbrio? Aplicar a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças realmente existentes e atuantes, baseando-se naquela determinada força que se considera progressista, fortalecendo-a para fazê-la triunfar, significa continuar movendo-se no terreno da realidade efetiva, mas para dominá-la e superá-la (ou contribuir para isso). Portanto, o ‘dever ser’ é algo concreto, ou melhor, somente ele é interpretação realista e historicista da realidade, somente ele é história em ato e filosofia em ato, somente ele é política” (p. 1578; p. 35).

§ 7. “Princípios de metodologia histórica”: distinção, no estudo de uma estrutura, entre os “movimentos orgânicos” (relativamente permanentes) e “movimentos de conjuntura” (que se apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais) (p.1579; p. 36), que Gramsci. considera que “deve ser aplicada a todos os tipos de situação”, E, demonstrando sua forma dialética de analisar, acrescenta: “Também os fenômenos de conjuntura dependem, certamente, de movimentos orgânicos, mas seu significado não tem um amplo alcance histórico...”

Mestrandos e doutorandos, ao fazer a análise histórica relativa a seu tema, precisam distinguir esses movimentos, de modo a conduzir corretamente o processo de concretização de seu objeto de estudo. Gramsci acrescenta uma orientação metodológica:

“Quando se estuda um período histórico, revela-se a grande importância dessa distinção. Tem lugar uma crise que, às vezes, prolonga-se por dezenas de anos. Esta duração excepcional significa que se revelaram (chegaram à maturidade), contradições insanáveis na estrutura e que as forças políticas que atuam positivamente para conservar e defender a própria estrutura esforçam-se para saná-las dentro de certos limites e superá-las” (p. 1579-1580; p. 37). “O nexo dialético entre as duas ordens de movimento e, portanto, de pesquisa, dificilmente é estabelecido de modo correto e, se o erro é grave na historiografia, mais grave ainda se torna na arte política, quando se trata não de reconstruir a história passada, mas de construir a história presente e futura...” (p. 1580; p. 38).

E conclui: “Estes critérios metodológicos podem adquirir visível e didaticamente todo o seu significado quando aplicados ao exame de fatos históricos concretos” (p. 1580; p. 38).

A partir daí, Gramsci passa a exemplificar o uso deles, na análise do que aconteceu na França de 1789 a 1870,

O texto gramsciano esclarece perfeitamente a metodologia do historicismo, necessária para que seja feita uma análise dialética.

§ 8. Análise das relações de força: “Lê-se com freqüência, nas narrações históricas, a expressão genérica: relações de força favoráveis, desfavoráveis a esta ou àquela tendência. Assim, abstratamente, esta formulação não explica nada ou quase nada, pois não se faz mais do que repetir o fato que se deve explicar, apresentando-o uma vez como fato e outra como lei abstrata e como explicação. Portanto, o erro teórico consiste em apresentar um princípio de pesquisa e de interpretação como ‘causa histórica’” (p. 40; 1582-1583). E Gramsci discorre, em seguida, detalhadamente, sobre os momentos desse processo, indicando os passos metodológicos que podem evitar o risco da análise abstrata.

§ 9. Gramsci analisa a relação entre o movimento econômico e o histórico, indicando para si mesmo (...como os escritos de Gramsci não foram concluídos, estão eivados de anotações e questões que o autor utilizava para organizar o futuro e definitivo texto, que lamentavelmente nunca teremos), uma futura orientação considerada necessária: “... ver se as crises históricas fundamentais são determinadas imediatamente pelas crises econômicas”. Afirma que essa questão já foi anteriormente abordada, de forma implícita, mas entende que “... é sempre necessário, por razões didáticas, dado o público específico, examinar cada modo sob o qual se apresenta uma mesma questão como se tratasse de um problema independente e novo”. Tal orientação é complementar àquela apresentada no caderno 24 (p. 2268; p. 206), quando aconselha o uso da repetição: “A ‘repetição’ paciente e sistemática é um princípio metodológico fundamental: mas a repetição não mecânica, ‘obsessiva’, material, e sim a adaptação de cada conceito às diversas peculiaridades e tradições culturais, sua apresentação e reapresentação em todos os seus aspectos positivos e em suas negações tradicionais, situando sempre cada aspecto parcial na totalidade”. Essa é, sem dúvida, uma indicação metodológica de fundamental importância e foi apresentada dentro dos mais rigorosos princípios do Materialismo Histórico.

Em seguida, o autor dedica-se a analisar e buscar resposta à questão formulada, levantando aspectos diversos. Complementa, então: “Pode-se dizer (...) que todos esses elementos são a manifestação concreta das flutuações de conjuntura do conjunto das relações sociais de força, em cujo terreno verifica-se a transformação destas relações em relações políticas de força, para culminar na relação militar decisiva”. E alerta: “Se não se verifica esse processo de desenvolvimento de um momento a outro, e esse é essencialmente um processo que tem como atores os homens e a vontade e capacidade dos homens, a situação se mantém inoperante e podem ocorrer desfechos contraditórios: a velha sociedade resiste e garante para si um período de ‘tomada de fôlego’, exterminando fisicamente a elite adversária e aterrorizando as massas de reserva; ou, então, verifica-se a destruição recíproca das forças em conflito com a instauração da paz dos cemitérios, talvez sob a vigilância de uma sentinela estrangeira”.

A conclusão que vem a seguir não poderia ser mais clara e rigorosa: “Mas a observação mais importante a ser feita sobre qualquer análise concreta das relações de força é a seguinte: tais análises não podem e não devem ser fins em si mesmas (a não ser que se trate de escrever um capítulo da história do passado), mas só adquirem um significado se servem para justificar uma atividade prática, uma iniciativa de vontade” (p. 45; p. 1588). Exemplifica, assim, a análise historicista da questão em foco.

§ 10. Gramsci desenvolve um rol de questões para encaminhar a análise de determinado movimento histórico-social (Cf. p. 1596; p.54), e complementa: “... a pesquisa, portanto, deve orientar-se para a identificação dos elementos de força, mas também dos elementos de fraqueza que tais movimentos contêm em seu interior.” E, analisando movimentos políticos de caráter militar, faz, ao final, um alerta de cunho metodológico de importância indiscutível: “Decerto, todos estes elementos de observação não são absolutos; seu peso é muito diferente nos diversos momentos históricos e nos vários países” (p. 63 - 1605).

§ 11. Em sua análise da sociedade vigente, e jamais abandonando a intenção de transformá-la, Gramsci escreve apontamentos necessários para a compreensão da realidade. Utilizando as categorias guerra de posição e guerra de movimento, insiste em que: “Trata-se, portanto, de estudar com ‘profundidade’ quais são os elementos da sociedade civil que correspondem aos sistemas de defesa na guerra de posição” (p. 1616; p. 73).

§ 12. Maquiavel é o teórico orgânico da burguesia nascente, que, naquele momento histórico, se constituía como classe revolucionária. A análise da obra desse autor não pode desconsiderar esse fato, sobre o qual Gramsci faz o seguinte alerta, questionando a interpretação comumente feita sobre os escritos do sábio florentino: “Ao se interpretar a obra de Maquiavel, ignora-se que a monarquia absoluta era, naquela época, uma forma de regime popular e que ela se apoiava nos burgueses contra os nobres e também contra o clero” (p. 1618; p. 75).

§ 13. “...Ver se, na dialética revolução-restauração, é o elemento revolução ou o elemento restauração que predomina, já que é certo que, no movimento histórico, jamais se volta atrás e não existem restaurações in toto” (p. 1620; p. 76-77). Novamente, ao fazer um alerta para si mesmo, para um futuro em que, já fora do cárcere, empreenderia a organização de seus escritos, Gramsci o faz, também, para todos os que pretendem desenvolver uma pesquisa que busque no Materialismo Histórico seu encaminhamento metodológico.

§ 14. Questionando as bases individualistas do voluntariado, Gramsci, sempre defensor da organização coletiva, em blocos, o que, aliás, é básico na lógica materialista, argumenta da seguinte forma: “É preciso distinguir e avaliar diversamente, por um lado, os empreendimentos e as organizações de voluntários e, por outro, os empreendimentos e as organizações de blocos sociais homogêneos (é evidente que, por voluntários, não se deve entender a elite quando ela é expressão orgânica da massa social, mas sim o voluntário separado da massa por seu impulso individual arbitrário e em freqüente oposição à massa ou a ela indiferente)” (p. 1623-1624; p. 80-81). (...) “Na análise dos partidos políticos italianos, pode-se ver que eles sempre foram formados por ‘voluntários’ ou, num certo sentido, por pessoas deslocadas, e jamais, ou quase nunca, por blocos sociais homogêneos”. (p. 1624; p. 81).

§ 15. A constituição da ideologia e a imposição social e política que é feita por meio dela, está presente nas observações do autor: “As idéias e opiniões não ‘nascem’ espontaneamente no cérebro de cada indivíduo: tiveram um centro de formação, de irradiação, de difusão, de persuasão, houve um grupo de homens ou até mesmo uma individualidade que as elaborou e apresentou na forma política de atualidade” (p. 1625; p. 82).

§ 16. Entendendo o partido político como o moderno príncipe, Gramsci aprofunda a reflexão sobre sua história. Deixa assim como legado metodológico, mais uma vez, a utilização da Dialética como base de reflexão. Parte da questão inicial: O que é a história de um partido político? “Evidentemente, será necessário levar em conta o grupo social do qual o partido é expressão e a parte mais avançada: ou seja, a história de um partido não poderá deixar de ser a história de um determinado grupo social. Mas este grupo não é isolado; tem amigos, afins, adversários, inimigos. Somente do quadro global de todo o conjunto social e estatal (e, freqüentemente, também com interferências internacionais) é que resultará a história de um determinado partido; por isso, pode-se dizer que escrever a história de um partido significa nada mais do que escrever a história geral de um país a partir de um ponto de vista monográfico, pondo em destaque um seu aspecto característico. Um partido terá maior ou menor significado e peso precisamente na medida em que sua atividade particular tiver maior ou menor peso na determinação da história de um país” (p. 1629-1630; p. 87).

§ 17. Por fim, ao término do caderno 13, retoma dialeticamente a relação entre Filosofia, Política e História: “Todo Estado tem ‘duas filosofias’: a que se enuncia através de fórmulas e é uma simples arte de governo; e a que se afirma com a ação e é a filosofia real, isto é, a história. O problema consiste em ver em que medida essas duas filosofias coincidem, divergem, estão em contraste, são coerentes internamente e uma com a outra” (p. 1652; p.109).

CONCLUSÃO
A utilização da metodologia marxista, fundamentada na práxis, é bastante dificultada pelo fato de que, nela, não são desconsideradas as contradições da sociedade capitalista. De fato, LÖWY afirma que sua maior vantagem “está no argumento gramsciano de que, diferentemente das outras filosofias que, visando a consolidar interesses contraditórios, têm historicidade curta (Michelotto, 1999, p. 11-12), ‘porque após algum tempo as contradições aparecem à superfície e se tornam irreconciliáveis, a filosofia da práxis, pelo contrário, é precisamente a teoria das contradições, que ela assume integralmente’”. (LÖWY, 1994, p.136).

Encontrou-se, na organização da presente pesquisa desenvolvida na disciplina sobre Antônio Gramsci, a possibilidade de subsidiar mestrandos e doutorando, uma vez que esse autor representa um referencial privilegiado de análise marxista.



Reafirma-se, assim, que o estudo da obra de Gramsci tem sua importância baseada não apenas na riqueza, profundidade e rigor de suas análises, o que já configura um grande apoio a pesquisadores interessados nessa área, como ainda apresenta para estes fundamentais subsídios metodológicos.
REFERÊNCIAS
COUTINHO, C. N. Gramsci: um Estudo sobre seu Pensamento Político. Rio de Jan. Civilização Brasileira, 1999.
GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Trad.: C. N. Coutinho. Rio de Jan., Civilização Brasileira, vol. 2, 2000; vol. 3, 2000.
____________ Caderno 12. Trad. Paolo Nosella. São Carlos, 1989.
____________ Quaderni del cárcere. A cura de Valentino Gerratana. Einaudi Tascabili, Torino, 1974 e 2001.
LEPRE, A. O Prisioneiro – A Vida de Antonio Gramsci. Trad. Eliana Aguiar. São Paulo, Ed. Record, 2001.
LÖWY, M. - As Aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen - Cortez Ed., S. Paulo, 5a. Ed. 1994.
MARX, K. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2ª ed. S. Paulo, Martins Fontes, 1983.
MICHELOTTO, R. M. A liberação do Acesso e a Extensão como Estratégias de Democratização da Universidade: A experiência da Itália e do Brasil. Tese de doutorado apresentada na UFSCar, 1999.
NOSELLA, P. A Escola de Gramsci. Porto Alegre, Artes Médicas, 1992.
SFORZA, C. C. A Itália Contemporânea. Trad. Venturi e Vianna, Ed. Brasiliense, S. Paulo, 1945.




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