A missão do intelectual-colecionador gilberto ferrez



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A MISSÃO DO INTELECTUAL-COLECIONADOR GILBERTO FERREZ
Maria Isabel Ribeiro Lenzi
Resumo

O trabalho procura discutir o lugar da imagem e da coleção na produção intelectual de Gilberto Ferrez. Serão analisados alguns dos livros publicados por Ferrez, bem como pareceres de tombamento por ele elaborados na condição de conselheiro do IPHAN. No texto nos propomos a apontar a construção de uma memória nacional como uma das missões do intelectual-colecionador.


Palavras-chave: Patrimônio, Memória, Colecionismo.

The mission of the intellectual-collector Gilberto Ferrez.

Abstract

The work discusses the role image and collectionism played in the intellectual production of Gilberto Ferrez. The author analyses some of his books, as well as his judgements as a member of the board of IPHAN (historical heritage) counsellors. In this article we suggest the construction of a national memory was one of the main tasks set before that intellectual and collector.


Key words: Patrimony, Memory, Collectionism.

Quando pensamos em intelectuais, lembramos de escritores, pensadores e/ou políticos. Mas poderia um colecionador também ser considerado intelectual? E qual seria a missão deste intelectual? A partir do caso específico de Gilberto Ferrez, pretendemos defender que sim, ele pode ser considerado um intelectual, pois foi a curiosidade por conhecer o Brasil, sobretudo o Rio de Janeiro, que deu origem à sua coleção. E esta tinha a missão de valorizar e divulgar aspectos da cultura e da história do Brasil, pois para Ferrez sempre foi mais fácil compreender o passado através de imagens. Ele foi um dos maiores colecionadores de arte brasiliana e de fotografia oitocentista e do início do século XX, e teve um papel fundamental no reconhecimento da fotografia como documento passível de preservação. E foi mais além: se desdobrou para estudar com profundidade e divulgar toda a iconografia brasiliana. Procurou imagens do Brasil por todo o mundo, com o objetivo de trazê-las, mesmo que reproduzidas, ao conhecimento dos brasileiros. Viajante incansável, visitou vários pontos do Brasil, conhecendo e fotografando. Integrou o Conselho Consultivo do IPHAN e foi sócio do IHGB.


No alvorecer do século XX, em 1908, nasceu Gilberto Ferrez. Provavelmente, não passaram despercebidos ao adolescente Gilberto os debates da década de 1920: a descrença na mistura de raças de Paulo Prado, a apologia da matriz portuguesa de Paulo Barreto, Ricardo Severo e José Mariano Filho, o nacionalismo agrário de Alberto Torres, o nacionalismo lusófobo de Álvaro Bomicar e Manoel Bonfim ou o nacionalismo católico de Jackson Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. Porém, o que é certo é que, além de sua família – talvez através dela – os intelectuais modernistas – aqueles que participaram da Semana de Arte Moderna, mais especificamente, Mário de Andrade e Rodrigo de Melo Franco de Andrade, bem como os neocoloniais, como José Mariano Filho, Ricardo Severo e Gustavo Barroso, exerceram alguma influência sobre o pensamento de Gilberto Ferrez.
As viagens pelo interior do país e a valorização da cultura material e imagética do Brasil, duas práticas adotadas pelos intelectuais modernos (entendemos como modernos tanto os modernistas quanto os neocoloniais), marcaram a atuação de Gilberto Ferrez. Em 1924, na mesma época em que Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral acompanharam Blaise Cendrars em famosa viagem pelo interior de Minas, José Mariano Filho patrocinava a ida de arquitetos às cidades históricas mineiras: Ouro Preto foi visitada por Nereu de Sampaio, São João del Rey por Nestor de Figueiredo e Lúcio Costa1 esteve em Diamantina. José Mariano não poupara esforços e recursos para que os arquitetos e intelectuais brasileiros valorizassem a arquitetura do período colonial. Os modernistas ainda não detinham a hegemonia no Patrimônio e disputavam políticas relativas à preservação com os intelectuais ligados ao movimento neocolonial, com os quais o jovem Gilberto mostraria maior afinidade.
Num ensaio a respeito da formação dos escritores latino-americanos, que nos parece pertinente para os intelectuais em geral, Antônio Callado nos fala da importância de, pelo menos, dois gêneros de viagem. A primeira, geralmente para a Europa e atualmente para os EUA, costuma ser uma viagem de fuga, de afastamento da América Latina, “do seu caos e injustiças sociais”. Já a segunda seria “uma jornada de espírito contrito e cheio de remorso, ao próprio âmago de seus respectivos países. Eles nadam contra a corrente, subindo rios e quedas d’água, procurando por caboclos e cholos, por peões e índios.” (CALLADO, 2006:54).
De certo modo, podemos considerar a primeira viagem de Gilberto Ferrez à Europa, em 1927, como a que nos indica Antônio Callado. Foi estudar inglês e, na Inglaterra, seu interesse por arte e pelo Brasil aumentou. Visitou museus, estudou história da arte e, mais importante, se admirou que, na Europa, qualquer pessoa, por mais simples que fosse, soubesse alguma coisa sobre a história de seu país e de sua cidade. De volta para casa, Gilberto pôs-se a estudar e a conhecer mais profundamente o Brasil, dando início assim à que podemos considerar a “segunda viagem” de que nos fala Callado, aquela à essência de seu próprio país. Em 1931, percorreu o interior do Estado do Rio, fotografando vilarejos e fazendas. Em 1933, com a intenção de visitar Minas Gerais, escreveu carta a José Mariano na qual percebe-se sua admiração pelo movimento neocolonial liderado por Mariano. Nela pedia que este oferecesse seus contatos e abrisse portas nessa viagem a Ouro Preto destinada a “conhecer as sua relíquias artísticas e visitar suas primorosas igrejas”. E elogiava-o: “Não é sem razão que todos o proclamam e reconhecem, como o guarda vigilante do nosso patrimônio artístico Terminando, rogo-lhe a bondade de me indicar quais os livros que tratam de Minas em geral, e especialmente, sobre descrições de viagens, costumes, tradições, usos, etc. (...) (FF-GF.1.0.1 nº cat.7).

Tanto José Mariano como Mário de Andrade gostavam de colecionar relíquias do Brasil. Porém quem despertou a curiosidade de Gilberto Ferrez para o colecionismo foi Francisco Marques dos Santos, importante colecionador, especialista em mobiliário, numismática e prataria brasileira, que foi também diretor do Museu Imperial no final dos anos 50 e início da década de 1960. Em entrevista, Gilberto Ferrez diz que logo que voltou da Europa começou a estudar o Rio de Janeiro, tema que o interessava e pelo qual acabaria se apaixonando. “Nessa época – contou – conheci (...) Francisco Marques dos Santos, um antiquário. Desde mocinho ele era apaixonado pelas antiguidades brasileiras (...). Ele estudava muito e era conhecidíssimo. E foi ele que me chamou a atenção (...) e começou a me mostrar as medalhas dos Ferrez, e me ensinou como é que elas foram descobertas. (FF-GF.2.0.04, nºcat. 20)


A afinidade de Gilberto Ferrez com Marques dos Santos e outros colecionadores/antiquários tinha sua razão de ser. E não era fortuito o seu interesse pela cultura material e imagens: ele descende de uma família ligada às artes há, pelo menos, três gerações. Seu bisavô Zeferino Ferrez foi importante escultor especializado em medalhas. Seu tio-bisavô Marc Ferrez era também escultor ativo entre os artistas franceses aqui desembarcados em 1816. O avô Marc Ferrez (homônimo do primeiro) é considerado o mais importante fotógrafo do Brasil no século XIX. A memória familiar sem dúvida estimulou Gilberto Ferrez a colecionar vestígios iconográficos do passado e muito contribuiu para a sua formação intelectual. O olhar de Gilberto foi educado para perceber detalhes sutis de uma paisagem, de um monumento ou de uma imagem fotográfica – o que para o leigo passaria despercebido. No livro O amador fotográfico: conselhos práticos, Julio Ferrez, pai de Gilberto, escreveu: “Um mundo totalmente novo aparece aos olhos daquele que aprendeu a distinguir os sutis efeitos da natureza, é preciso um certo preparo para gozar dos benefícios que os artistas possuem. Quem não sabe como dirigir a observação, olhará sem ver coisa alguma”.(VASQUES,2008:27)
São as imagens que vão dar sentido à vida intelectual de Gilberto Ferrez. Praticamente toda sua produção está ligada a elas. No seu currículo, encontramos, entre livros e periódicos, 54 publicações – em 70% delas, a imagem é a protagonista e tem a função de construir uma memória – de fazer o invisível presente.
A maior parte de seus correspondentes são, como ele, colecionadores de brasiliana, interessados no passado do Brasil e convencidos que o modo mais fácil e gratificante de se chegar a esse passado é pela imagem. Neste grupo de eruditos encontramos Francisco Marques dos Santos, Afonso D’Escragnole Taunay, Joaquim de Souza Leão, Mário Barata, Mário Calábria, Newton Carneiro, Paulo Berger, Frei Clemente da Silva Nigra e Guilherme Auler. São homens ligados a uma tradição que remonta ao século XVIII, a do antiquariado.
O antiquário renascentista estudava com afinco sua coleção, o que o permitia fazer observações “empíricas” de um tempo passado – as moedas, estátuas e manuscritos que o erudito renascentista colecionava lhe diziam muito mais sobre a época em que tinham sido fabricados do que relatos de historiadores, pois “para uma moeda falsificada, há cem que são autênticas (...), mas como se poderia testar a veracidade do relato de uma batalha em Tucídides ou em Lívio se esta era a única?”(MOMIGLIANO, 2004:89). O antiquário renascentista se apoiava nos fatos únicos, porém visando um levantamento universal. Se este levantamento fosse concretizado, nunca seria uma obra comum de história pelos padrões da época, mas um livro caracterizado por detalhes meticulosos do passado, pelo grande patriotismo, pela curiosidade por eventos pouco comuns e pela ostentação da erudição. Arnaldo Momigliano frisa o caráter sistemático da pesquisa antiquária, que não fazia questão da cronologia em seus estudos. As pesquisas eram organizadas em torno de temas, não pela ordem de ocorrência dos fatos. Eram descritivas e abrangiam todo um assunto. Ele ainda lembra que atualmente o antiquário está encarnado no colecionador.
A reflexão que Krzystof Pomian faz em seu livro Collectionneurs, amateurs et curieux a respeito do ato de colecionar nos faz pensar na coleção de Gilberto Ferrez. Para Pomian, o papel principal de uma coleção é ligar o visível ao invisível. Assim, os objetos colecionados são a conexão com o sagrado, com os lugares distantes, com os ancestrais, com a natureza, com o passado e com o futuro. Na visão do autor, esses objetos são então definidos pelo termo semióforos – intermediários entre o espectador e o invisível. Apesar de Pomian trabalhar com as coleções dos séculos XVI a XVIII, muitas vezes analisando gabinetes de curiosidades, podemos usar o conceito de semióforo para pensarmos a coleção de Gilberto Ferrez.
De certa forma, a produção intelectual de Ferrez tem algo em comum com a dos homens de letras setecentistas: ele inventariou diversos tipos de documentos relevantes para a história do Brasil, sendo sua obra maior um catálogo com exaustiva listagem de documentos iconográficos sobre o Rio de Janeiro. A Iconografia do Rio de Janeiro – catálogo analítico reúne 4.494 documentos iconográficos preciosos para o estudo da história da cidade e do Brasil. Ao analisarmos sua obra, percebemos que em suas atividades talvez demonstre maior afinidade com os antiquários ilustrados do século XVIII do que com os historiadores contemporâneos seus.
Na introdução da Iconografia do Rio de Janeiro, Gilberto Ferrez afirma que “muitas destas estampas deslindam, dum relance, dúvidas que historiadores, dos mais argutos e honestos, tiveram muito que pesquisar, estudar e escrever para demonstrar em suas teses, tudo por desconhecimento destes documentos básicos.” (FERREZ, 2000:13) Podemos fazer algumas observações a partir deste texto: Gilberto Ferrez considera a fonte iconográfica a mais correta e de mais fácil apreensão, poupando trabalho “dos mais argutos e honestos historiadores, que tiveram muito que pesquisar, estudar, escrever, por desconhecimento destes documentos básicos”.
Gilberto Ferrez publicou diversos livros dedicados a divulgar obras de artistas viajantes que por aqui passaram e pintaram a paisagem e costumes do Brasil. Vejamos alguns desses livros:

Na obra sobre Eduard Hildebrandt no Rio de Janeiro, ele comenta que são inestimáveis o valor dos desenhos e aquarelas daquele artista. Discute os detalhes de cada imagem, mas o que gostaríamos de destacar é a observação que faz a respeito de duas praças no Rio de Janeiro. Ele escreve: “Mas o que dizer das duas extraordinárias Platz (...) de um realismo incrível, onde sentimos o palpitar da vida, o barulho, a desordem, a sujeira, onde quase que podemos sentir o mau cheiro” (FERREZ,1989:16). Notamos aqui a importância da imagem para trazer o invisível ao presente – além do aspecto plástico da obra, Ferrez destaca que com essa imagem podemos conhecer inclusive aspectos dos costumes não passíveis de serem desenhados – como o cheiro e o barulho.


Na introdução do livro que nos apresenta os desenhos do botânico inglês William Burchell, ele observa que os desenhos do Rio e da viagem a Minas e Goiás são todos de grande interesse para o conhecimento de aspectos desses lugares não pintados por outros artistas. Do mesmo modo que, no livro de E. Hildebrandt, é o realismo que o surpreende – diz que nada passa despercebido a Burchell no litoral ou no sertão: “os grandes beirais com seus cachorros de madeira, os tipos de cimalhas, as janelas de rótulas ou muxarabis, com ombreira de madeira, as portas almofadadas das igrejas, os cunhais de pedras, o calçamento, (...), os alpendres, os guarda-corpos de ferro ou treliça” (FERREZ, 1981:24). Para ele, as imagens em Burchell oferecem lições de arquitetura colonial. E, na sua opinião, transmitem essas informações mais rapidamente e com muito mais facilidade do que qualquer texto escrito.
Nesta mesma linha, publica O Sketch book de Carlos Guilherme Theremin, O Velho Rio de Janeiro através das gravuras de Thomas Ender, Benjamin Mary – Desenhos antigos dos arredores do Rio de Janeiro. Todos esses livros destinados ao público em geral procuram fazer vir à tona um determinado passado através das aquarelas, guaches, óleos, desenhos e litografias executadas por esses artistas. Essas imagens também ajudarão na construção de uma memória nacional no âmbito do IHGB e do IPHAN, fóruns onde Gilberto Ferrez atuava.
A análise do livro A Muito Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro deixa claro a importância da imagem na construção da memória. Beatriz Sarlo nos lembra que Ítalo Svevo, numa análise sobre memória, coloca o presente dirigindo o passado como o maestro dirige os seus músicos. Sarlo também cita Maurice Halbwachs quando escreve que “o passado se desenrola para introduzir coerência” (SARLO, 2005:65). No nosso estudo, o presente dirige, através de Ferrez, os membros da orquestra para encontrar a sinfonia perfeita no passado. O livro A Muito Leal é a própria sinfonia. O passado está bem desenrolado e coerente, desembocando numa cidade heróica que soube dominar suas agruras.
O livro recorre a 29 estampas para dar conta dos séculos XVI, XVII e XVIII. Os anos oitocentos contam com 109 imagens – são os que mais recebem atenção, provavelmente não só porque é o período em que é mais farta a iconografia da cidade, mas também porque o século XIX é heróico: foi quando inventou-se o Brasil aos moldes do Reino e a cidade era a capital de um Império promissor. Ademais, o século XIX inteiro teve o Rio de Janeiro como capital. O século XX merece apenas 14 estampas. Não aparecem imagens dos escombros deixados pelas reformas de Rodrigues Alves e Pereira Passos. Não visualizamos tampouco o desmonte do Morro do Castello – de repente, ele some do mapa da cidade. Igualmente, não vemos desaparecer a Praça Onze de Julho, nem a Igreja São Pedro dos Cléricos para a abertura da Avenida Presidente Vargas nos anos 1940. São imagens em demasiado dolorosas para a auto-estima da cidade. Ferrez cita esses eventos – rapidamente – apenas em texto.
Note-se que o autor também cuida para que o tema escravidão não tenha destaque. A memória é seletiva e, no momento de celebração dos 400 anos da cidade, não era de qualquer coisa que se queria lembrar. A atuação de Ferrez pode ser compreendida como um esforço em prol da construção de uma memória para o Rio de Janeiro, mas também para o Brasil. A cidade que havia sido capital do Brasil por quase 200 anos havia sido destronada há cinco e necessitava de consolo. É uma memória heróica construída para o Rio.
As imagens também foram muito importantes na atuação de Ferrez no IPHAN. Em 1958, ele foi nomeado para o Conselho Consultivo do SPHAN, onde permaneceu até sua morte em 2000. Para Gilberto Ferrez, do mesmo modo que a imagem diz mais que o texto, a arquitetura também pode exprimir muito sobre o passado brasileiro, daí a importância de preservá-la. O Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, criado em 1937 por Rodrigo de Melo Franco e intelectuais modernistas, já há alguns anos estava sendo gestado por intelectuais neocoloniais e modernistas que valorizavam a arquitetura colonial. Os modernistas venceram a disputa e as idéias estéticas dos arquitetos modernistas sob o comando de Lúcio Costa foram hegemônicas no SPHAN. Segundo Cecília Londres, “a constituição do patrimônio no Brasil foi realizada a partir de uma percepção predominantemente estética (...). Não havia então por parte do SPHAN uma preocupação em incorporar os avanços da historiografia nacional e internacional” (FONSECA, 1997:127).
Gilberto Ferrez se valia do grande conhecimento que tinha da iconografia brasiliana para balizar seus pareceres. Estes, contudo, valorizavam as características estéticas em detrimento do valor histórico do bem a ser tombado. Em seu parecer, por exemplo, sobre o tombamento de uma casa-grande de fazenda em Cachoeira do Taepé, Pernambuco, ele nos diz:
Esta casa é um verdadeiro milagre – o de um exemplar típico de arquitetura rural do século XVII no agreste de Pernambuco que parece sair das célebres telas de Franz Post. Basta ver o quadro reproduzido na capa da obra mestra de Joaquim de Souza Leão Frans Post, Amsterdã, 1973. É uma construção típica de pau-a-pique que está em perfeito estado de conservação e habitada.” (Arquivo Central do IPHAN, processo nº 1038-T-80).
Em processos como este, Ferrez recomenda o tombamento, sobretudo porque os imóveis chegaram até nós em perfeito estado, como se tivessem saído das telas e gravuras aludidas nos pareceres. Apesar de considerar o valor histórico, o que faz com que ele recomende o tombamento é a aparência estética destes imóveis, além de seu aspecto original preservado – a dimensão genuína inalterada da arquitetura.
Para Krzystof Pomian, o papel principal de uma coleção é ligar o visível ao invisível. Como já foi dito anteriormente, os objetos colecionados são a conexão com o sagrado, com os lugares distantes, com os ancestrais, com a natureza, com o passado ou com o futuro - são semióforos. Deste modo, a coleção de imóveis tombados pelo SPHAN, bem como a coleção de brasiliana e de fotografia de Gilberto Ferrez seriam semióforos, intermediários entre o espectador e o invisível. A coleção de imóveis tombados pelo IPHAN traz à luz um passado luso-brasileiro. As imagens da coleção brasiliana também revelam a presença de intelectuais e artistas estrangeiros que valorizaram o que viam por aqui, o que reforça a auto-estima do brasileiro. Deste modo, tanto a coleção de bens tombados pelo IPHAN, bem como a coleção brasiliana, são fundamentais para a construção de uma memória nacional.
Pierre Nora afirma que “os lugares de memória nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea” (NORA, 1993:13). É necessário criar arquivos, museus, coleções, manter as comemorações; é preciso cuidar para que a história não varra a memória do mapa. Encontramos aqui a missão do colecionador. Pois, na visão deste intelectual-colecionador, seu papel consistia em preservar estas coleções para que as gerações futuras tivessem uma conexão com um certo passado. A este objetivo atendem tanto sua coleção de iconografia e de fotografia – que preferiu manter no Brasil, recusando ofertas vultosas para venda no exterior – quanto a coleção do patrimônio nacional. Fica clara a missão educativa e memorialista das coleções tanto em exposição de suas fotografias de viagem, que organizou ainda jovem em 1933, quanto no parecer que fez, já na maturidade em 1967, para o tombamento da Igreja do Carmo em Mogi das Cruzes, São Paulo. A certa altura ele diz, no parecer, que gostaria de “pedir aos meus colegas do Conselho que salvem da destruição estes três monumentos artísticos de São Paulo e, no futuro, as novas gerações ficar-lhes-ão agradecidas.” (Arquivo Central do IPHAN, processo nº 790-T-67).

Bibliografia:



  • Callado, Antonio. As três viagens dos escritores latinos-americanos. In: Censura e outros problemas dos escritores latinos-americanos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

  • Ferrez, Gilberto. Iconografia do Rio de Janeiro – 1530-1890, Casa Jorge, Rio de Janeiro, 2000.

  • ____________. O Brasil de Eduard Hildebrandt. Rio de Janeiro, Record. 1989

  • ____________. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell, Fundação João Moreira Salles, Fundação Pró-Memória, Rio de Janeiro, 1981

  • ____________. A Muito Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Paris, 1965.

  • Fonseca, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo. Editora Uerj/Minc-IPHAN. Rio de Janeiro, 1997.

  • Guimarães, Manoel Luís Salgado. Imagens construindo o passado. In: Anais do Museu Histórico Nacional, v. 34, Minc/ IPHAN, Rio de Janeiro, 2002.

  • Halbwachs, Maurice. A Memória Coletiva. Centauro, São Paulo, 2006.

  • Haskell, Francis. History and its images. Yale University Press, New Haven, London, 1993.

  • Kessel, Carlos. Arquitetura Neocolonial no Brasil – entre o pastiche e a modernidade. Rio de Janeiro: Jauá/Estácio de Sá/Faperj, 2008.

  • Momigliano, Arnaldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru, SP:EDUSC, 2004.

  • Nora, Pierre. Entre Memória e História; A problemática dos lugares. In: Projeto História – Revista do Programa de Estudos Pós- Graduação em História e do Departamento de História. São Paulo, PUC-SP, dez. 1993.

  • Pomian, Krzysztof. Collectionneurs, amateurs et curieux; Paris, Venise: XVI- XVIII siècle. Gallimard, 1987.

  • Sarlo, Beariz. Tiempo Pasado. Cultura de la memoria e giro subjetivo. Uma discusión. Siglo XXI, Argentina, Buenos Aires, 2005.

  • Vasquez, Pedro. Mestres da fotografia no Brasil, coleção Gilberto Ferrez. Centro Cultural Banco do Brasil, 1995.

  • _____________ e Segala, Lygia. Família Ferrez, novas revelações. Centro Cultural Banco do Brasil, 2008.

 Doutoranda em História pela UFF/Pesquisadora do Museu Imperial/IBRAM.

1Lúcio Costa teve sua fase neocolonial no início de sua carreira. Alguns projetos de Lúcio Costa são neocolonais. Posteriormente ele aderiu ao modernismo.




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