A narrativa



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Encontro27.12.2018
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A NARRATIVA

    O enredo de Esaú e Jacó centra-se na história dos gêmeos Pedro e Paulo, simetricamente opostos. Suas brigas, que se iniciam no útero materno, estendem-se por toda a vida. Seus temperamentos são invertidos: Pedro é dissimulado e cauteloso, Paulo é arrojado e impetuoso. Na política, encontram campo fértil para dar vazão às suas animosidades: Paulo é republicano e Pedro monarquista. O primeiro vai cursar Direito em São Paulo, o segundo Medicina no Rio de Janeiro. Une-os o amor extremado pela mãe, Natividade, e separa-os a paixão por Flora, a “inexplicável”, segundo o conselheiro Aires, que se junta à mãe no esforço de aproximar os rapazes.


     Com a morte de Flora, os dois irmãos pareciam rumar para a reconciliação, logo frustrada. Nem mesmo o último pedido da mãe, que no leito de morte pede-lhes que sejam amigos, consegue uni-los por muito tempo. Ao final do romance, Aires constata que sempre foram  inimigos e que, ao que tudo indica, sempre o serão. Em certo momento da narrativa, o conselheiro afirma que as razões para tantas brigas não são conhecidas:
    “ –  Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo, porque a Providência a esconde da notícia humana...”
     No entanto, na Bíblia, narra-se que Rebeca, ao sentir que os filhos brigam em seu útero, pergunta a Deus qual seria a causa e Este responde: “Duas nações há no teu ventre.” Essa é a causa a que alude o conselheiro. Pode ser também a causa alegórica da luta constante de Pedro e Paulo. As duas nações seriam o próprio Brasil, dividido, na época, entre a Monarquia e a República e até hoje entre o progresso e o conservadorismo, entre a sofisticação e a miséria. A figura de Flora, indecisa entre os dois irmãos, já foi identificada como uma representação alegórica da própria nação brasileira “inexplicável”. Seu pai, Batista, é o típico político fisiológico que muda de partido como quem troca de camisa, sem ter qualquer convicção política ou ideológica.
    No entanto, Machado de Assis nos fornece outra explicação, essa psicológica e não alegórica, para as constantes disputas fraternas. Crianças, ao travarem seu primeiro combate, recebem doces e beijos e um passeio de carro da mãe ao se reconciliarem. O narrador conclui o episódio com as seguintes constatações:
 
    “De noite, na alcova, cada um deles concluiu para si que devia os obséquios daquela tarde, o doce, os beijos e o carro, à briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir à cara um do outro, na primeira ocasião. Isto que devia ser um laço armado à ternura da mãe, trouxe ao coração de ambos uma sensação particular, que não era só consolo e desforra do soco recebido naquele dia, mas também satisfação de um desejo íntimo, profundo, necessário.”
 
    As implicações freudianas são claras: o Complexo de Édipo revelado na adoração da mãe faz com que se lancem um contra o outro. É bom lembrar que Machado de Assis escrevia antes mesmo do termo ser inventado. O mesmo Complexo pode explicar o fato de ambos se apaixonarem pela mesma mulher.
 
 
A COMPLEXIDADE DO FOCO NARRATIVO
 
    As experimentações com o foco narrativo marcam a fase realista de Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas apresenta um “defunto autor”. Esse aparente absurdo confere ao livro um realismo nunca antes visto em nossas letras. É exatamente por estar morto que o autor-narrador pode contar com um realismo cruel as perversidades, covardias e anti-heroísmo que compõem tanto a sua personalidade quanto as dos que o rodeiam. Em Dom Casmurro, é a escolha do foco narrativo, centrado no pouco confiável Bentinho, péssimo observador das sutilezas psicológicas, que cria a famosa dúvida acerca da traição de Capitu.
    A forma de narrar não é menos inovadora ou complexa em Esaú e Jacó. O autor hipotético da narrativa é o conselheiro Aires. No entanto, o narrador se apresenta na terceira pessoa. É como observador que descreve o conselheiro, mas em muitos momentos deixa transparecer suas opiniões, utilizando da primeira pessoa.
 
    “Não me peças a causa de tanto encolhimento no anúncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré. Há contradições explicáveis. Um bom autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção.”
 
    A arrogância e a impaciência do narrador, que tanto lembram a postura de Brás Cubas, nas suas Memórias Póstumas, em muito se afastam da atitude sempre tão contida e conciliadora do conselheiro Aires. O narrador chega a descrever Aires de uma forma um tanto quanto desdenhosa, ao se referir a suas posições sempre dúbias:
 
    “Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos. Como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média, que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias. Sabes que o destino delas é serem desdenhadas. Mas este Aires, — José da Costa Marcondes Aires, — tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pílulas.”
 
    O conselheiro Aires é retratado como um homem que sempre concorda com todas as opiniões alheias, mesmo que sejam contraditórias, o que assume em conversa com Flora. Lembra, assim, outro conselheiro famoso da literatura luso-brasileira, o Acácio, do romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós. Ambos se comportam de maneira artificial e estudada. Procuram passar a imagem da perfeita correção e querem agradar a todo custo, fazendo com que os seus interlocutores ouçam sempre o que querem e o que pensam.
     Se Eça de Queirós descreve seu conselheiro Acácio como uma figura subserviente e empostada, o narrador de Esaú e Jacó esforça-se por desculpar a postura excessivamente diplomática de Aires. Logo após mostrar que o conselheiro tinha sempre “nas controvérsias uma opinião dúbia ou média”, o narrador de Esaú e Jacó, prevendo o desdém do leitor, pede que esse “não lhe queira mal por isso” e recomenda ainda que “não cuide que não era sincero, era-o”.  E complementa: “tinha o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia.”
 
    Em muitos momentos o narrador se identifica plenamente com o hipotético autor do livro:
 
    “Esse Aires que aí aparece conserva ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vício. Não atribuas tal estado a qualquer propósito. Nem creias que vai nisto um pouco de homenagem à modéstia da pessoa. Não, senhor, é verdade pura e natural efeito.”
 
    Em outras passagens, o narrador comunga do espírito comedido de Aires: “Não exagero; também não quero mal a esta senhora.” Se levarmos em conta que Aires tivera uma “queda” por D. Natividade, a quem a frase se aplica, a correspondência entre narrador e pseudo-autor fica ainda mais evidente.
     O crítico Ivan Teixeira, no belo livro Apresentação de Machado de Assis, resume bem a ambigüidade narrativa de Esaú e Jacó: “A invenção do pseudo-autor Aires (…) acabou gerando uma nova dimensão de foco narrativo: nem primeira nem terceira pessoa. mas uma coisa diferente, em que um autor imaginário trata-se a si mesmo como um ele, uma terceira pessoa, a cuja visão de mundo submete, no entanto, toda a outra matéria narrada no romance.”
 
 
O DIÁLOGO COM O LEITOR
 
    Assim como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador de Esaú e Jacó trava um diálogo tenso e constante com o leitor da obra. Esse “leitor incluso” na própria narrativa é apresentado em geral como uma mulher – é bom lembrar que as mulheres formavam a maioria do público leitor de romances na época – que lê de modo impaciente e fútil. O capítulo XXVII - De uma reflexão intempestiva é todo dedicado a esse diálogo. O narrador flagra a reflexão de um leitora hipotética sobre o que escrevera no capítulo anterior: “Mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão eles com a sua esposa? Não quererão a mesma e única mulher?” Ao responder, o narrador imagina as restrições da leitora vulgar, impregnada do romantismo mais banal, à sua obra:
 
    “O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. Daí a habilidade da pergunta, como se dissesse: ‘Olhe que o senhor ainda nos não mostrou a dama ou damas que têm de ser amadas ou pleiteadas por estes dois jovens inimigos. Já estou cansada de saber que os rapazes não se dão ou se dão mal; é a segunda ou terceira vez que assisto às blandícias da mãe ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, às duas, se não é uma só a pessoa...’”
    Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não pus a pena na mão, à espreita do que me viessem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem o papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.”
 
    A atitude do narrador não é só digressiva – afastando-se por uns instantes da linha narrativa básica – mas também metalingüística, pois através da interrupção da leitora, acaba por comentar seu método compositivo. Mas a “leitora” de fato antecipou um aspecto importante da narrativa que ainda estava por se desenrolar, o demonstra que não era tão fútil assim. O narrador irrita-se com a “reflexão intempestiva” da leitora, mas essa digressão é usada com maestria por Machado de Assis para já se desculpar pelo lance melodramático que irá se seguir: Pedro e Paulo ficarão realmente apaixonados pela mesma mulher. Basta lembrar o romance romântico Os Irmãos Corsos (1841), de Alexandre Dumas, para verificar que não se trata de entrecho muito original.
 
 
A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA: OS BESTIALIZADOS
 
    Em seu ensaio Os Bestializados - O Rio de Janeiro e a república que não foi, o historiador José Murilo de Carvalho remete a uma afirmação de Aristides Lobo (1838-1896), um dos chefes republicanos do levante de 15 de novembro de 1889,  que lamentava o fato de a população do Rio de Janeiro ter assistido à Proclamação da República "bestializada", ou seja, sem nada entender, colocada à margem do movimento.
Em Esaú e Jacó, Machado de Assis revela uma fina percepção do fenômeno, na época de seu desenrolar. No capítulo LX – Manhã de 15, narra o passeio de Aires por uma cidade convulsa e atordoada, em que ninguém sabe ao certo o que estava acontecendo:
 
    “Notou que a pouca gente que havia ali não estava sentada, como de costume, olhando à toa, lendo gazetas ou cochilando a vigília de uma noite sem cama. Estava de pé, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando na conversação sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhões, campo, ministério, etc. (…) Quando Aires saiu do Passeio Público, suspeitava alguma coisa, e seguiu até o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma notícia clara nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito uma revolução, ouviu descrições da marcha e das pessoas, e notícias desencontradas.”
 
    Apesar de “suspeitar alguma coisa”, depois de ouvir relatos exagerados e desencontrados do cocheiro do tílburi que o levou para a casa e de seu criado José, Aires “não acreditou na mudança de regime (…). Também bestializado, como o resto da população, menospreza a situação:
 
    “Reduziu tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudança de pessoal.
    — Temos gabinete novo, disse consigo.”
    Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: “Considerava eu um dia quantas repúblicas têm sido derribadas por cidadãos que desejam outra espécie de governo, e quantas monarquias e oligarquias são destruídas pela sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa derribados, outros, se duram, são admirados por hábeis e felizes...”
 
    Segue-se um dos momentos mais curiosos de toda a obra de Machado de Assis, a cena da “tabuleta”. O almoço de Aires é interrompido por Custódio, dono da confeitaria em frente à sua casa. Quer consultá-lo sobre a tabuleta nova que mandara pintar para seu estabelecimento, a “Confeitaria do Império”. É Custódio que informa Aires sobre a Proclamação da República. Teme que sua confeitaria seja apedrejada. Aires sugere mudar o nome para “Confeitaria da República”, mas o confeiteiro adverte para o fato de que a situação pode mudar. Aires sugere “Confeitaria do Governo”, mas Custódio lembra que todo governo tem oposição… E assim sucedem-se as objeções do confeiteiro, preocupado em agradar a todos, até que o conselheiro:
 
    “Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não pôr nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome: “Confeitaria do Custódio”. Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, Custódio em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas.”
 
    Essa cena comprova o que Aires iria escrever no seu Memorial“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.”  Nos dois últimos romances de Machado de Assis essa preocupação com as relações entre o público e o privado aparecem ligadas a fatos históricos importantes do momento narrado.
    No Memorial de Aires, cuja narrativa abrange os anos de 1888 e 1889, Machado de Assis, mestiço e discretamente abolicionista, registra com simpatia, sempre através das palavras atenuadas de Aires, o momento em que a Abolição da Escravatura é concretizada. Já em Esaú e Jacó, a emancipação dos escravos é o único tema capaz de unir as opiniões dos dois irmãos. Mesmo que por razões diferentes, em 1888, ambos a comemoram.
 
 


 
 



VIDA E OBRA

DO MORRO DO LIVRAMENTO À ACADEMIA



 
 
    Nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, filho de mulato em uma sociedade ainda escravocrata, paupérrimo, sofrendo de gagueira e epilepsia, nada indicaria que Joaquim Maria Machado de Assis teria, ao morrer em 1908, um enterro de estadista, seguido por milhares de admiradores pelas ruas da cidade em que nasceu, viveu e morreu. Autodidata, aos 15 começa a trabalhar em tipografias, onde conhece escritores importantes, como Manuel Antônio de Almeida. Em 1855 inicia sua carreira literária com a publicação de um poema na revista Marmota Fluminense. Consegue, logo depois, um emprego na Secretaria da Fazenda. Trabalha a vida toda na burocracia, na qual vai galgando posições até ser Ministro substituto. Mas a carreira burocrática é apenas uma forma de ganhar o sustento, ainda que humilde, que o possibilita escrever. Contribui com diversos jornais e revistas e, com a publicação de seus livros de poesia, contos e romances, só vai ganhando em notoriedade e respeito. Em 1869, casa-se, enfrentando grave preconceito racial da família, com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais. Em 1876, antes mesmo de publicar a parcela de sua obra mais significativa, já é considerado, na companhia de José de Alencar, um dos maiores escritores brasileiros. Em 1881 inicia a publicação dos seus romances realistas. Em 1896 é um dos principais responsáveis pela fundação da Academia Brasileira de Letras, do qual é eleito presidente vitalício. Em 1904 morre Carolina. Quatro anos depois, Machado de Assis, consagrado como o maior escritor brasileiro, é enterrado com pompa no Rio de Janeiro. O mulato paupérrimo do Morro do Livramento tornara-se um dos homens mais respeitados do país.
 
 
O poeta
 
    Machado de Assis iniciou sua carreira literária como poeta. Seu livro de estréia foi Crisálidas (1864), que lhe conferiu imediata notoriedade. Embora sua poesia esteja muito aquém da prosa que o imortalizou, nunca deixou de escrever poemas. Em 1870 lança Falenas, em 1875, Americanas  e, em 1901, as suas Poesias Completas, que ainda não incluem um dos seus mais famosos poemas, o belo soneto A Carolina, escrito após a morte da esposa, em 1904.
 
 
O cronista
 
    Seguindo a linha dos textos de Ao Correr da Pena, de José de Alencar, Machado de Assis contribuiu durante toda a sua carreira com textos breves para jornais, em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do país. Esses textos leves, de temática cotidiana, podem ser considerados os precursores da crônica moderna, em que se haveriam de destacar, no século seguinte, escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade. A produção do Machado cronista se inicia já em 1859 e se estende até 1904, com raras interrupções. Sua produção mais madura foi publicada na colunas do jornal  Gazeta de Notícias, em que contribui de 1881 a 1904: Balas de Estalo (1883-1885), Bons Dias! (1888-1889) e principalmente em A Semana (1892-1897).
 
 
O crítico
 
    Também para os jornais, Machado de Assis escreveu durante toda a vida textos críticos. Sua produção infindável envolve ensaios teóricos, como O passado, o presente e o futuro da nossa literatura (1858), O ideal do crítico (1865) e Notícia da atual literatura brasileira - instinto de nacionalidade (1873), diversas resenhas críticas importantes, como aquela ao livro O Primo Basílio, de Eça de Queirós (1878) e inúmeras críticas de teatro.
 
 
O contista
 
    Muitos das centenas de contos que Machado de Assis escreveu ao longo da vida se perderam, com o desaparecimento dos números dos jornais em que foram publicados. Outros estão apenas agora sendo republicados em livro. Sua versatilidade como contista é imensa. Escreveu tanto para os jornais mais sentimentalóides quanto para publicações seriíssimas. A qualidade dos contos varia de acordo com a publicação e o público leitor a que se destinavam. Entre as coletâneas de contos que publicou, destacam-se Papéis Avulsos (1882), com o grande conto, ou novela, O Alienista, Teoria do Medalhão e O Espelho, e Várias Histórias (1896) em que se encontram, entre outras obras-primas da concisão e do impacto narrativo, A Causa Secreta, A Cartomante e Um Homem Célebre.
 
 
A fase romântica
 
    Entre 1872 e 1878, Machado de Assis começa a publicar romances. Ainda muito influenciado pelo amigo e mestre José de Alencar, publica, com regularidade britânica, um romance a cada dois anos. Em Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), temos um Machado ainda romântico, mas antecipando alguns temas e procedimentos de suas obras-primas realistas e, principalmente, conquistando um público leitor que já receberia sua revolução realista com boa vontade.
 
 
As obras-primas realistas
 
    A mais importante fase da carreira de Machado de Assis concentra-se na trilogia de romances realistas publicados no final do século. O primeiro deles foi Memórias Póstumas de Brás Cubas. Publicado em 1881, além de inaugurar o Realismo brasileiro, apresenta as mais radicais experimentações na prosa do país até então. Narrado por um defunto, de forma digressiva e agressiva, o romance apresenta a vida inútil e desperdiçada do anti-herói Brás Cubas. Utilizando recursos narrativos e gráficos inusitados, Machado surpreende a cada página com sua ironia cortante e, acima de tudo, com a inteligência  que prende até o leitor mais desconfiado.
    Depois, seguiram-se:
 
    Quincas Borba (1891) narra, na terceira pessoa, as desventuras do ingênuo Rubião, herdeiro da fortuna e do cachorro da enlouquecida personagem Quincas Borba, que já aparecia, e morria, no livro anterior. Através dessa personagem, cômica no seu despreparo para as armadilhas da corte, e trágica no seu destino, Machado ao mesmo tempo ironiza e demonstra as teorias darwinistas tão caras aos naturalistas. O ensandecido "humanitismo" de Quincas Borba, herdeiro direto da "luta pela vida" de Darwin, é sintetizado na frase "Ao vencedor, as batatas!", e acaba por ser comprovado tragicamente pela ação espoliadora do casal Sofia / Palha sobre o provinciano protagonista.
    Dom Casmurro (1899) apresenta algumas das personagens mais complexas da literatura universal. Narrado pelo velho Bento Santiago, apelidado Dom Casmurro, apresenta a história de seu relacionamento - namoro, casamento e afastamento - com Capitu, sua vizinha de infância. O narrador se esforça por demonstrar o caráter ambíguo e dissimulado tanto de sua esposa quanto de seu melhor amigo, o hábil Escobar, para assim justificar sua convicção de ter sido por eles traído. Como prova da traição, apresenta a semelhança que enxerga em seu filho, Ezequiel, com o amigo, que supõe pai da criança. Mas o esforço é vão. Se consegue construir a imagem de personagens extremamente complexos, nada nos consegue provar, pois o seu próprio caráter é tão fraco, tão inseguro e titubiante, que o leitor passa a desconfiar de seus julgamentos. Assim, além de construir a eterna dúvida (Capitu traiu ou não Bentinho?), Machado de Assis apresenta o primeiro narrador não confiável da literatura brasileira.
    Os últimos romances de Machado de Assis Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), têm o mesmo narrador personagem, o conselheiro Aires, que pouco age e passa a maior parte da narrativa contemplando placidamente as aventuras amorosas e existenciais dos jovens ao seu redor. No Memorial de Aires, Machado de Assis investiga a velhice e faz um elogio das relações conjugais com extrema simplicidade e estilo depurado. É um legítimo testamento literário e existencial de Machado de Assis,
que afirmou diversas vezes se tratar de seu último romance. Diversos traços autobiográficos já foram detectados pela crítica na obra.
 
 
A Academia Brasileira de Letras
 
    Fundada em 1896, foi um dos mais acalentados sonhos de Machado de Assis no final da vida. Eleito seu primeiro presidente, Machado via na fundação da Academia, nos moldes da Academia Francesa, uma possibilidade de dignificar o trabalho do escritor, acabando com a imagem de malandro boêmio que viera do romantismo, e afirmando-o como um intelectual sério e conseqüente.

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