A noite dos amantes



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A NOITE DOS AMANTES

His One-Night Mistress

Sandra Field


Casamento estava fora de questão, e nunca quisera filhos. O que Seth tinha a oferecer além de um romance? Uma aventura amorosa de seis semanas, ele pensou. Lia merecia mais do que isso. O que fazer?

— Então, amanhã. Vamos nos encontrar para o café-da-manhã. Sem riscos.

— Você é um risco em potencial.

— Você se acovardou nos últimos oito anos?

— Estou sendo sensata. Por favor, vá embora.

— Nove horas amanhã, no Restaurante dos Arrecifes. Eles fazem ovos mexidos maravilhosos.

— Espero que possa degustá-los. Sozinho.

— Você vai aparecer. Sei que vai. Ouvi você tocar, e sei que não conhece o significado das palavras covardia ou precaução.

Dois dias atrás, Lia teria concordado com Seth. Ela caminhou em direção à porta e a abriu. A primeira coisa que faria assim que ele fosse embora seria esconder a foto da filha no fundo da mala.

— Fique longe de mim, Seth.

Ele lhe deu um beijo no rosto e disse:

— Não posso. Estou feliz demais por tê-la reencontrado...


Digitalização: Ana Cris

Revisão: Crysty



Querida leitora,

A violinista Lia d'Angeli não imaginava reencon­trar Seth Talbot oito anos depois, e não esperava que ele fosse capaz de reconhecê-la sem a máscara que então usava. Mas como poderia ele esquecer do anjo que iluminara fugazmente sua existência apenas para desaparecer, como um sonho, sem deixar vestígios? A magia que uma vez os unira não precisava de mais do que um toque ou um olhar para renascer, mas ago­ra teria de enfrentar o maior dos desafios: o mundo real.



CAPÍTULO UM

Deslumbrante. Magnífica!

Lia d'Angeli caminhava margeando uma das pare­des do imenso saguão do hotel. Os espelhos doura­dos, que iam do chão ao teto, refletiam o que poderia ter sido uma das festas de Luís XIV. Ela apertava o convite que recebera no dia anterior do amigo pari­siense, Mathieu.

— Um baile de máscaras. Infelizmente, não vou poder ir. Leve algum rapaz bonito, coma, beba e dan­ce. Você pode acabar na cama dele. É bonita demais para ter a reputação de uma freira — disse o amigo, sorrindo.

Lia não acreditava na estima de Mathieu; o francês era conhecido pelos seus gracejos românticos em to­dos os bairros de Paris. Porém, parte do conselho a amiga pretendia aceitar. Comer, beber e dançar. Sim, faria essas três coisas com prazer. Entretanto, tinha que ir ao baile sozinha e pretendia deixá-lo da mesma forma.

Sozinha e anônima, Lia pensou com um suspiro de puro prazer. Sua fama era recente, e não completa­mente agradável. Mas, essa noite, ela não era Lia d'Angeli, a brilhante violinista que explodira no ce­nário internacional ao ganhar dois concursos de pres­tígio em menos de seis meses. Estaria coquete e enigmática, indo de parceiro em parceiro sem a intenção de ser conquistada por qualquer deles.

A fantasia de borboleta consistia em um collant brilhante na cor turquesa que delineava os seios, os quadris, acentuando a cintura e as pernas longas e esguias. Nos pés, sandálias com pedras na cor do col­lant. Entre os braços e as coxas tremeluziam as asas, dobras de gazes de seda, nas cores turquesa e verde. Mas era a máscara que compunha a fantasia. Como se fosse um capacete, cobria as altas maçãs do rosto, re­velando apenas os olhos negros, e escondendo o ca­belo preto sob lantejoulas e penas de pavão. Lia se maquiara com cuidado: rosto, queixo e pescoço, tudo na cor turquesa. Os lábios eram dourados.

Uma fantasia que a libertava para ser quem quises­se. Ninguém ali a conhecia. E ela pretendia tirar o máximo de proveito disso, dançar e ir embora à meia-noite, assim como Cinderela.

Os olhos percorriam a multidão. Maria Antonieta, o Corcunda de Notre Dome, uma dançarina sexy do Moulin Rouge. Todos mascarados.

Lia livrou-se do repentino desconforto, encaminhando-se ao atendente e apresentando-lhe o convite. Um policial uniformizado sussurrava algo ao ouvido do homem à porta. Este, impaciente, a conduziu ao salão de baile. Lia passou rápido por ele. Ela se preo­cupara que pudesse haver alguma objeção pelo fato do convite estar no nome de Mathieu. Um bom presságio, ela pensou, e logo sumiu da vista do atendente.

O salão de baile estava animado pelo ritmo de uma valsa. Mais espelhos adornavam as paredes na cor azul-safira. Do teto pendiam candelabros dourados. Nas mesas, cobertas com toalhas brancas, um ban­quete. Garçons circulavam por entre a multidão, se­gurando bandejas de prata com vinho e champanhe.

Então, Lia o viu. O homem observava a multidão. Um bandido de estrada: capa, máscara e chapéu, tudo na cor preta. As abas do chapéu escondiam-lhe as fei­ções. Porém, nenhuma fantasia teria escondido a al­tura daquele homem, a extensão dos ombros ou a aura de poder, comando, autocontrole.

Um homem que conseguia o que queria. E também estava sozinho. Enquanto Lia sentia um calafrio per­correr-lhe a espinha, os olhos dele pousaram sobre ela. Mesmo do outro lado do enorme salão de baile, ela sentiu o olhar intenso. Ele ficou imóvel como um bandido quando avista a vítima.

Lia não conseguiu se mexer. "A borboleta ficou presa à parede", pensou ela, o coração batendo acele­rado. Lia não costumava ter medo. Isso fazia parte da luta pela excelência que a conduzira tão longe. Entre­tanto, a excitação antes de um concerto se apoiava na certeza das próprias habilidades técnicas e na convic­ção de que, mais uma vez, poderia vencer aquele ner­vosismo.

O terror que Lia sentia agora era diferente. Sentia-se nua, exposta. Tudo porque um estranho a olhara. Um homem que nunca vira antes e que não precisava ver de novo.

Ridículo, pensou, juntando todos os vestígios da coragem que tinha para lutar contra aquela repentina investida, algo que lhe era desconhecido.

Investida? O homem nem a tocara. Em um arroubo de rebeldia, ela acenou para o garçom mais próximo e pegou uma taça de vinho tinto. Então, saudando de forma zombeteira o homem do outro lado do salão, ergueu a taça em um brinde.

Ele tirou o chapéu, revelando o cabelo louro, e cur­vou-se, cumprimentando-a. Depois, endireitou-se e caminhou em sua direção.

Apavorada, a violinista ouviu uma voz masculina perguntar, com sotaque francês:

— Gostaria de dançar?

Um soldado britânico da época de Napoleão se co­locara entre Lia e o bandido de estrada. Rapidamente, ela apoiou a taça de vinho na mesa mais próxima e respondeu, em inglês:

— Sim, obrigada.

— Bom, você fala inglês — comentou o soldado, colocando um dos braços ao redor de Lia conduzindo-a por entre as pessoas que dançavam. O rapaz val­sava muito bem. E, segundo a conversa que trava­vam, não demonstrava muito interesse nela.

Lia viu o bandido de estrada ser abordado por um grupo de garotas. Também observou a forma como o homem se livrou de todas, deixando-as rindo. Então, ela disse ao soldado:

— Adoraria olhar a orquestra mais de perto. Pode­mos nos aproximar?

Obediente, o soldado a conduziu para o outro lado do salão. A valsa terminou, sendo seguida por uma rumba. Um palhaço apareceu. Acompanhando automaticamiente o ritmo, as asas da fantasia de Lia esvoaçavam enquanto ela erguia e abaixava os braços. O palhaço foi substituído por um cavalheiro que po­dia ter surgido das páginas de um romance de Jane Austen.

Quando a dança chegou ao fim, outro personagem apareceu por detrás do cavalheiro. O homem da capa preta. Lia ficou nervosa, embora soubesse, desde o primeiro momento em que o vira, que aquele encon­tro seria inevitável.

— Minha vez, acredito — disse o homem, em um tom frio.

Lia sorriu para o parceiro, agradeceu-lhe e virou-se para encarar o oponente. Era isso que aquele ho­mem era, não havia dúvidas. Poderia ter se recusado a falar com ele. Mas o orgulho sempre tinha sido um dos pecados da violinista. E, além disso, os desafios não deviam ser enfrentados?

— Já se divertiu. Agora é a minha vez — disse o homem.

— Está muito quente aqui, não acha? Adoraria uma taça de champanhe — comentou Lia.

— Qual o seu nome?

— Certamente, sutileza não é o seu.

— Não acredito em perda de tempo.

— Do meu tempo ou do seu? — questionou a vio­linista.

— Do meu.

— Então, talvez devesse procurar outra parceira.

— Não acho.

— Então, me diga o seu nome — retrucou Lia, es­perando que o homem não o fizesse.

— Seth Talbot, de Manhattan. Você também é americana?

A base de Lia d'Angeli era um pequeno aparta­mento em Greenwich Village. Entretanto, a violinis­ta disse, com frieza:

— Nasci na Suíça.

Em seguida, chamou um garçom que lhe serviu uma taça de champanhe.

— Então, serve-se do que quer — Talbot Seth co­mentou.

— E há outro jeito?

— Não no meu mundo. Estou contente por nos en­tendermos.

— Não pode me entender porque não sabe o que quero.

— Desde o primeiro momento em que nos vimos, nós dois quisemos a mesma coisa.



"Retroceda, Lia d'Angeli. Seja sensata. Termine isso antes que comece."

— Como não leio pensamentos, por que não me diz o que é? — retrucou Lia.

Seth segurou um dos pulsos dela como se a pren­desse com uma algema. Lia viu dedos longos, sem aliança, unhas bem cuidadas.

— Vamos sair daqui — disse ela.

Seth a soltou e, colocando um dos braços ao redor dos ombros de Lia, a conduziu para fora da pista, di­zendo:

— Estamos a caminho.

A capa de Seth a envolvera. O braço dele era pesa­do. Lia poderia ter protestado, até gritado. Em uma sala repleta de pessoas, não havia como aquele ho­mem fazer qualquer coisa sem o consentimento dela.

Já se sentira assim antes? Era como se Seth Talbot tivesse lhe tomado toda a atenção. O coração de Lia batia de forma lenta e pesada. E a quentura das mãos daquele homem tinha se espalhado por todo o seu corpo. Lia viu quando Seth colocou o chapéu sobre a mesa. Depois, pegou uma das mãos da borboleta mascarada e a levou até os lábios. E, com sensualida­de, beijou-lhe a palma.

O cabelo de Seth era espesso e sedoso. Tudo o que Lia queria era deixar a taça de champanhe cair no chão e mergulhar os dedos naqueles cachos doura­dos, acariciando-lhe a nuca. Com esforço, agarrou a haste da taça, segurando-a como se fosse a única coi­sa que pudesse mantê-la sã.

Seth continuava beijando-lhe a palma da mão. Ela fechou os olhos. Ondas de prazer percorriam-lhe o corpo. No íntimo, o desejo ganhava vida de forma tu­multuada e imperativa. Por alguns momentos, cedeu a essa sensação.



"Saia disso. Está se deixando seduzir por um ho­mem que mora na mesma cidade que você."

Lia puxou a mão, derramando champanhe nos sa­patos, e disse:

— Pare!

— Não quer realmente que eu pare... Diga a verda­de.



— Ainda não sei o principal sobre você...

— Nós pulamos as preliminares. Fomos direto ao que importa — avisou Seth.

— Você também sente isso — comentou Lia, o co­ração repleto de alegria.

— Senti assim que a vi do outro lado do salão.

— Um bandido de estrada é um ladrão.

— O único objetivo de uma borboleta é acasalar.

— Um ladrão toma o que quer sem levar em consi­deração as conseqüências.

— Se deseja ser tomada, posso ser chamado de la­drão.

— Pare, você está me fazendo girar.

— Bom.


— Não estou à procura de um parceiro para acasa­lar. É apenas uma fantasia. Não uma declaração so­bre a minha personalidade.

Ainda assim, você parece provocante.

Lia abaixou o olhar. As botas de couro de Seth iam até os joelhos. As coxas também estavam cobertas por um tecido preto. Ela ergueu o olhar, passando pela camisa branca, os ombros largos sob a capa pre­ta. Uma onda de desejo primitivo a atacou, deixando-a chocada. Será que já se sentira assim? Nunca. En­tão, disse com uma frieza admirável:

— Você não se vestiu como um palhaço. Sua fan­tasia também é sexy. E daí?

— Está admitindo que me acha sexy... Estamos progredindo.

— Não seja modesto. Tenho olhos e qualquer mu­lher o acharia sexy.

— Há algo acontecendo entre nós dois que nunca aconteceu comigo... Não dessa forma. Jamais vi uma mulher do outro lado de uma sala repleta de gente e senti que precisava tê-la. Você tem que acreditar em mim... Juro que é verdade.

— Isso nunca me aconteceu também — comentou Lia, trêmula.

Seth acariciou-lhe o rosto e disse:

— Obrigado por ser tão honesta.

— Então, me deixe continuar sendo franca. Não tenho o hábito de ir para a cama com estranhos.

— Nem eu. Por que não começamos com você me dizendo o seu nome?

Lia tinha ido ali com o intuito de se manter anôni­ma, e desejava permanecer dessa forma.

— Posso lhe dar um nome falso. Ou nenhum. A es­colha é sua.

Seth pegou-lhe a taça e a colocou em cima da mesa, ao lado do chapéu, dizendo:

— Por que tanto mistério?

— Me convém.

— Você é alguém que eu deveria conhecer? Seth Talbot não parecia o tipo de homem que ia a concertos para ouvir Beethoven. Sentiria-se mais à vontade se fosse a um bar aonde se tocava jazz.

— Duvido — disse Lia.

— Se formos para a cama hoje à noite, tenho que saber quem você é.

— Se insistir em saber o meu nome, nada feito.

— Problemas com a justiça?

— Não!

— Se não é famosa nem está foragida, poderia ter me dado um nome falso e eu nunca saberia.



— Não gosto de mentir.

— Gosta de ganhar.

— Claro. Há algo errado nisso?

— Também gosto de ganhar. — Será bom que tenha uma nova experiência. De vez em quando, devemos expandir nossos horizon­tes, senhor Talbot.

— Meu nome é Seth. E mesmo que não acredite, já tive perdas demais na minha vida.

— Lamento.

— Isso é mais do que luxúria?

— Se um bandido de estrada notasse algo tão efê­mero quanto uma borboleta, ele a esmagaria com o pé.

— E a minha versão? Ele vê isso como algo tão bo­nito que simplesmente quer aproveitar.

— Mas, então, tem que deixá-la voar.

Ele ficou em silêncio, mirando o rosto de Lia. De repente, Seth tirou a máscara e a jogou no chão. Os olhos eram verdes, profundos, salpicados de âmbar. As maçãs do rosto eram proeminentes. E, pela pri­meira vez, Lia viu a força de um rosto que era rude demais para ser belo, e fortemente esculpido para ser qualquer coisa a não ser formidável. Ela engoliu em seco e disse a primeira coisa que lhe veio à mente:

— Devo estar louca para pensar em ir para a cama com você... E estou bem sóbria. Não posso culpar o champanhe.

— Não tem nada a ver com a bebida. Tire a sua máscara.

— Não. Se formos para a cama, você tem que pro­meter que não vai tocar na minha máscara. Nunca sa­berá quem sou... É assim que quero e é assim que vai ser. Se não concordar, vou embora agora. E, se insis­tir em me deter, vou gritar.

— Poderia fazê-la mudar de idéia.

— Mas não vai tentar. Não se me respeitar como deve ser.

— Tenho a sensação de que a minha vida tem sido muito tediosa e previsível nos últimos anos. Tanto na cama quanto fora. Vou lhe dizer uma coisa: você não é tediosa nem previsível.

Isso não era uma das coisas que os críticos sempre diziam a respeito dela? Lia d'Angeli nunca toma o caminho já conhecido, arrisca tudo para encontrar o coração e a alma da música.

Nove vezes em dez, os riscos se tornavam um su­cesso. Mas isso seria verdade hoje à noite? Com esse homem? Ou será que hoje à noite seria o décimo con­certo? Aquele sobre o qual os críticos tinham prazer em apontar algum erro? Não havia como saber.

CAPÍTULO DOIS

A banda começou a tocar um tango. Ao fitar Seth, Lia comentou:

— Você não parece alguém que teve uma vida di­fícil.

— As aparências enganam, minha bela borboleta. Então, ele conhecera a infelicidade. Esse fato for­taleceu a decisão tomada. Lia perguntou:

— Concorda com as minhas condições? Não digo o meu nome, e a minha máscara permanece no rosto.

Ele a beijou. Tudo estava naquele beijo: a compul­são, o desejo, a dissolução de limites. A boca de Seth demonstrava isso com segurança: a língua, mergu­lhando com vontade; os dentes roçavam em seus lá­bios. Sem hesitar, Lia correspondeu ao beijo, ao de­sejo, com a mesma intensidade, a mesma paixão.

Bem devagar, Seth se afastou. O tom verde dos olhos escurecera. Como uma floresta sob as sombras do pôr-do-sol. Ele disse:

— Concordaria com qualquer coisa para ter você na minha cama. Não gosto das suas condições. Mas concordo e prometo que não vou me opor.

— Podemos ficar aqui, dançar, comer, beber e conversar um pouco. Ou podemos fazer o que nós dois queremos... Ir a algum lugar aonde possamos fi­car sozinhos.

— Aprecio o seu estilo.

— A vida é curta, e gosto de viver no limite. Um casulo nunca seria a minha escolha.

— Tenho reserva para uma suíte nesse hotel. Va­mos lá — sugeriu Seth.

Lia pestanejou. Uma suíte ali custaria mais do que ela ganhava em um mês. Logo, ele era rico. Ela retru­cou:

— Sempre desejei saber como era se hospedar aqui. Agora vou descobrir.

— Então, não é uma dessas socialites ricas que fa­zem ponto em Paris?

— Trabalho bastante para ganhar meu dinheiro e hotéis como esse não condizem com a minha situação.

— Como ganha o seu dinheiro?

— Não acho que estejamos interessados em uma conversa sobre nossos trabalhos. Ganho a vida de forma legal, sou muito ambiciosa e garanto que, den­tro de dez anos, você terá ouvido falar a meu respeito. E isso tudo o que vai conseguir tirar de mim. A me­nos que tenha mudado de idéia sobre me seduzir.

— É muito raro encontrar alguém à altura. Princi­palmente, quando se trata de uma mulher. Não mudei de opinião — respondeu Seth e a beijou. Depois, per­guntou:

— Podemos ir?

Quando Seth lhe ofereceu um dos braços, Lia pou­sou uma das mãos nele, e as delicadas cores de uma das asas de sua fantasia foram obscurecidas pela ne­gritude da capa dele. Outro arrepio de medo percor­reu-lhe o corpo. Mantendo a cabeça erguida, perma­neceu perto enquanto Seth abria caminho com dificuldade por entre os outros mascarados. No íntimo, ela sabia que esse era o maior risco que aceitara. O violino era território conhecido, amado com paixão. E, às vezes, odiado com igual força. Mas, no que se referia aos assuntos do coração, ela era principiante. Já Seth Talbot não. Tinha certeza.

Os dois passaram pelo porteiro, que estava con­centrado, colocando em ordem as pilhas de convites. O elevador era de um bronze tão polido que ela podia ver o contorno do próprio corpo nas paredes: uma luz trêmula na cor turquesa. O criado de uniforme escarlate apertou o botão sem que Seth dissesse uma pala­vra. Então, ele era conhecido, pensou Lia, tensa.

O elevador os levou até o último andar. Ao chega­rem, Seth a conduziu por um corredor parando diante de portas em tons creme e dourado. Ele as abriu, gesti­culando para que Lia entrasse. Porém, seus músculos se recusavam a obedecê-la. Gélida, disse:

— Não sei o principal sobre você.

— Sabe o que há entre nós. O que mais quer saber?

— Você é uns 15 centímetros mais alto do que eu. Provavelmente, pesa uns 35 quilos a mais. E, se não é faixa preta em caratê, não seria muito difícil para que se tornasse um.

— Nunca esmaguei uma borboleta, e não vou co­meçar a fazer isso com você.

— Devo acreditar? Só isso?

— Não sei o que está acontecendo entre nós, mas tenho certeza de que não é casual. Vamos nos despir, minha pequena borboleta. E isso, tem a ver com con­fiança tanto quanto com sedução. Pensei que já tives­se imaginado isso.

— Não tinha. Confiança é uma palavra grandiosa.

— Não me imponho às mulheres, não é do meu feitio. Além disso, há ao menos um telefone em cada cômodo, e tudo o que tem a fazer é pegar o mais pró­ximo para conseguir se comunicar com a recepção. Está mais segura aqui do que estaria em qualquer ou­tro lugar em Paris, acredite.

Ao entrar na suíte, Lia quase ficou sem ar. Os olhos percorreram o quarto de uma ponta a outra, fixando-se nos delicados candelabros dourados, nos brecados lu­xuosos e nas borlas de veludo. Sobre o enorme assoa­lho de madeira, antigos tapetes feitos à mão.

— Há até uma varanda — comentou Lia, suspiran­do.

— Com uma vista maravilhosa da Torre Eiffel. Gostaria de vê-la? — perguntou Seth.

— Mais tarde, talvez — respondeu ela, e ficou na ponta dos pés, beijando-o com um ardor comovente devido à falta de experiência.

— Diga-me uma coisa... Não é a sua primeira vez, é? — indagou Seth.

— Claro que não. Mas só estive com um homem, e isso foi há três anos. Não por luxúria da minha parte, e sim por curiosidade. E talvez tenha sido por isso que não me tocou, corpo ou alma.

— Entendo. Vamos ter que recuperar o tempo per­dido — disse Seth e a beijou.

Lia gemeu de prazer, moldando o corpo ao dele, entregando-se ao desconhecido e ao novo com a ou­sadia que lhe era tão característica. Ao colocar as mãos sob a capa preta, abraçando-o, Seth a puxou para perto.

A excitação dele era tão arrebatada e im­perativa que ela sentiu a emoção de um poder feminino puro.

O beijo se aprofundou, exigindo de Lia mais ardor naquele instante que queria lhe dar tudo o que estava dentro de si, todo o desejo apaixonado pela vida. A língua de Seth era quente e persuasiva, o corpo firme e masculino. Ela colocou os dedos no cabelo sedoso, puxando-lhe a cabeça para baixo. Os joelhos se cur­varam às ondas de desejo que pulsavam por entre as coxas.

Seth murmurava por entre os beijos que lhe dava no rosto, no queixo, no pescoço:

— Devemos ir devagar... Foi um tempo muito lon­go para você e quero lhe dar...

Lia puxou a camisa dele, implorando:

— Não lute contra o que há entre nós dois. Quero você agora.

Seth jogou a capa no chão e despiu a camisa. A respiração dela ficou presa na garganta.

— Você é tão bonito — a borboleta mascarada co­mentou com a voz embargada, e pousou o rosto na­quele peito másculo. O coração de Seth batia forte. A pele dele tinha o cheiro de uma essência masculina que, apesar de ser um estranho, Lia sabia conhecer.

— Como consigo tirar você dessa fantasia? — in­dagou Seth.

— Há um zíper nas costas — respondeu e curvou a cabeça.

Com a boca, ele traçou a suavidade da nuca de Lia, saboreando cada centímetro, provocando-lhe o desejo por todo o corpo. Então, Seth, com um único mo­vimento, abriu o zíper, desnudando-lhe as costas. Lia virou-se e, com os olhos brilhando, retirou os braços das mangas apertadas da fantasia, deixando cair até a cintura.

— Você é adorável — comentou Seth, o olhar se­dutor fazendo com que os mamilos dela se enrijeces­sem. Primeiro, acariciou-lhe os seios. Depois, os bei­jou.

Lia logo gemeu, uma reação instintiva. O corpo arqueando na direção do de Seth; os olhos fechados em êxtase. E, enquanto isso, as mãos másculas, aquelas mãos maravilhosamente sensíveis, traçavam a curva do abdome e o delicado arco das costelas. A respira­ção de Lia acelerou. O calor por entre as coxas cres­cia. Como se soubesse, Seth Talbot a tocou, só uma vez, e Lia, em êxtase gritou seu nome.

— Eu nunca... isso não... — comentou Lia.

— Há mais, minha pequena borboleta — disse Seth, e a pegou ao colo, carregando-a pela sala até o quarto. Deitou-a na cama enorme, cobrindo-a com o corpo, beijando-lhe os seios, os ombros, a boca.

Após livrar-se dos sapatos, Lia arrancou a fanta­sia. Desejava apenas ficar nua. Dentro dela, uma sen­sação jamais experimentada aflorou diante do desejo estampado no rosto de Seth enquanto ele se dava con­ta de seu corpo esguio. Então, Lia disse:

— Sou só eu.

— Você é tão bonita e corajosa.

— Você está com roupa demais.

— Tire sua máscara, por favor.

Lia mordeu os lábios, sentindo-se fraca diante do pedido apaixonado daquele homem que, ela podia apostar, raramente implorava por alguma coisa.

— Já lhe mostrei muito. Temos apenas uma noite, porém, uma noite pode ser uma vida inteira, sabe dis­so tão bem quanto eu.

Lia d'Angeli não podia lhe dizer quem era. No ín­timo, sabia que Seth Talbot tinha o poder de mudar sua vida.

Desde os cinco anos, quando, pela primeira vez, teve um violino nos braços, Lia trabalhara sempre com a mente fixa em um único objetivo: ser uma das melhores do mundo. Ainda não conseguira. E sabia que tinha um longo caminho a percorrer.

Lia também descobrira, há cerca de uma hora, que um homem chamado Seth Talbot podia impedi-la de alcançar esse objetivo. E ela não podia deixar que isso acontecesse. Não permitiria que ninguém fizesse isso.

— Peça qualquer coisa, exceto a minha identidade — disse Lia, em voz baixa.

Enquanto tirava as botas de couro e as calças, Seth indagou:

— Qualquer coisa? Tem certeza?

— Sim, tenho.

Lia inclinou-se para a frente e, delicadamente, Seth acariciava-lhe um dos mamilos com a língua. Ela o ouviu arfar de prazer. Ele jogou a cabeça para trás. De repente, empurrou-a e caiu na cama, por cima dela.

— Não consigo pensar em nada a não ser em que­rer você — disse Seth, com a voz entrecortada.

— Não posso acreditar que eu... — Lia começou a dizer. Então, se esqueceu de tudo quando ele voltou a dominá-la.

As investidas de Seth Talbot, o calor da receptivi­dade de Lia... Descontrolada, a borboleta se contorcia sob aquele corpo másculo. Uma possessividade, primitiva e furiosa a conduziu ao ápice.

Lia ouviu Seth gemer. Viu o rosto másculo con­trair-se. E sentiu dentro de si a força e a entrega dele. E então também se entregou.

Lia o conduziu a deitar-se sobre ela. A testa de Seth enterrou-lhe a máscara no rosto enquanto sua respiração refrescava-lhe o pescoço. Ao recuperar a voz, a borboleta mascarada sussurrou:

— Nunca senti nada parecido com isso.

— Nem eu.

— Também foi diferente para você?

— Não percebeu?

— Não sou muito experiente.

— Meu segundo nome é controle. Mas o perdi com você.

— Também perdi o controle — murmurou Lia.

— Eu notei — confirmou Seth.

— Talvez pudéssemos ir mais devagar da próxima vez.

— Não faço a menor idéia. Se tem uma coisa que aprendi na última hora foi que não dá para prever nada em relação a você. Tentar é inútil.

— Deve ter tido muitas mulheres... Não vejo como posso ser diferente.

— Não vivi trocando de mulher, não e o meu esti­lo Nem permito que alguma chegue perto demais. Você é diferente porque não tive escolha.

— Isso é tão assustador... Nem eu tive escolha.

— Quero você de novo, agora. Quero aproveitar o tempo, explorar cada centímetro do seu corpo e des­cobrir o que lhe dá prazer... Quero deixar minha mar­ca de forma que nunca me esqueça.

— Nunca vou esquecê-lo.

— Mas você não vai me dizer quem é.

— Sabe mais a meu respeito do que qualquer um! Tem que se contentar com isso.

— Veremos — disse Seth e passou uma das mãos pelo quadril da borboleta mascarada, comentando:

— Sua pele é tão sedosa, suave...

Seth pegou a pontinha de um dos seios de Lia e, gentilmente, o puxou perguntando:

— Gosta disso?

— Sim.

Lia teria jurado que cada carícia dele estava im­pregnada de ternura e do simples desejo de lhe dar prazer. Então, carinhosamente, trilhou o corpo de Seth até cercar-lhe a masculinidade, observando os olhos verdes ficarem sombrios, e ouvindo a respira­ção dele acelerar.



— Não tão rápido — disse Seth, arfando, ao erguê-la.

Ela fechou os olhos enquanto os dois corpos se fundiam, tornando-se um só. Então, Seth arrastou o corpo dela para baixo até poder lhe beijar um dos seios. Atônita e encantada, Lia enterrou os dedos no cabelo louro do peito másculo e jogou a cabeça para trás. Dessa vez, o clímax veio tão devagar quanto o calor de um dia de verão que surge com o amanhecer. O coração de Lia acelerou. Só então, Seth começou a se mexer dentro dela, carícias longas e lentas que a faziam chegar cada vez mais perto do limite.

Com um tempo primoroso, Seth esperou pelo pró­prio momento de alívio até que gemidos provenientes da sensação de plenitude irrompessem pelos lábios de Lia. Ele foi ao encontro dela e juntos sentiram aquela sensação que era tanto um presságio de morte quanto uma alegria de renascimento.

Dessa vez, era Lia quem estava por cima de Seth, a máscara enterrada no peito másculo. Por um lado queria se livrar do adorno por ser desconfortável. Por outro queria que Seth pudesse ver-lhe os olhos, ator­doados diante da satisfação que sentia.

Mas ela não devia fazer isso. Não podia. Tinha uma vida fora daquele quarto. E perderia qualquer habilidade de focar-se nessa vida se permitisse que Seth Talbot se tornasse parte dela. Lia d'Angeli não seria nem capaz de pegar o próprio violino e tocá-lo. Não podia abandonar seu objetivo, de 17 anos, ape­nas por causa de um homem.

— Você está bem? — indagou Seth, um dos bra­ços apertando-a de forma que ela só pudesse interpre­tar aquele gesto como um exemplo de pura possessividade.

— Sim. Não. Você faz perguntas complicadas.

— Você me lisonjeia.

— Acredite, não tem nada a ver com bajulação.

— Então, gosta de fazer amor comigo.

— Não há necessidade de elogios. Não dá para descrever como me sinto. Mas sabe do que mais?

— Nem posso imaginar.

— Não comi nada antes pois esperava comer algo no baile. Estou com fome.

— De comida? Quando tem a mim?

— Sim. Me desculpe.

— Há uma invenção maravilhosa chamada serviço de quarto. Do que gostaria?

— Crepes de frutos do mar e sobremesa — respon­deu Lia.

— Feito — retrucou Seth.

Então, apanhou o telefone e falou rapidamente, com um francês impecável. Depois, levantou-se e espreguiçou-se com sensualidade, dizendo:

— Me sinto muito bem.

— Parece muito mais do que apenas bem. E não deveria vestir algo antes de abrir a porta?

— Isso não chocaria a direção. — respondeu Seth e desapareceu rumo ao banheiro. Momentos depois, voltou com dois roupões brancos.

— Um é para você. Não quero que ninguém, exce­to eu, veja a sua beleza — comentou Seth, e jogou o roupão no colo de Lia.

Quero deixar minha marca em você... Não foi isso que aquele homem disse? Lia não podia lidar com tanta possessividade. Ainda assim, o simples pensa­mento dele com outra mulher não a deixava enciuma­da? Explique isso, Lia d'Angeli, pensou. Mas sabia que não podia.



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