A noite dos amantes



Baixar 0.54 Mb.
Página6/7
Encontro15.12.2017
Tamanho0.54 Mb.
1   2   3   4   5   6   7

CAPITULO DOZE

Seth tinha que ir embora logo após o almoço de do­mingo. Precisava se preparar para uma viagem à Ve­nezuela, a negócios. Marise lhe deu um abraço de despedida. Depois, partiu subitamente para brincar em meio aos arbustos. Lia o viu colocar a sacola no banco detrás do Porsche vermelho.

Não lhe dissera que o amava. Esse pensamento a aterrorizava. Mas quando será que voltaria a vê-lo?

—- Tenho uma sugestão. Por que não fica lá em casa essa semana enquanto estiver gravando? Ficarei fora até sábado. Você vai ficar à vontade — comen­tou Seth.

Lia poderia ver onde Seth morava. Talvez, saber um pouco mais sobre ele, o homem tão reservado pelo qual se apaixonara.

— Adoraria.

Seth não esperara que ela concordasse tão rápido. Ao lhe dar a chave extra, comentou:

— Sinta-se em casa. Talvez Marise pudesse apare­cer lá no próximo fim de semana. O que acha?

— Certamente.

— Meu pai adoraria conhecê-la.

— Ele vive com sua mãe. Não a quero perto de Marise.

— Não estou sugerindo que convide minha mãe.

— Vou pensar.

Seth anotou o telefone de Allan no próprio cartão e disse:

— Meu pai quer consertar as coisas, não estragar. Se Marise não estivesse brincando em meio aos ar­bustos, eu lhe daria um beijo aqui e agora. Vejo você no sábado.

Seth entrou no carro e foi embora.

Seis dias se passaram. Seth Talbot ficou quatro dias nos campos de petróleo da Venezuela. Ele tam­bém aproveitou para ir ao Peru e checar um projeto que a sua fundação começara há dois anos em Lima. Estava feliz por voltar para casa. Por fora, tudo pare­cia igual: as janelas, a porta. Mas, lá dentro, sabia que Lia e Marise o esperavam.

Não falara com Lia desde que deixara Meadowland, desde aquela noite de amor quando sentiu-se desarmado e amedrontado.

Emocional demais. Era essa a palavra. Seth abriu a porta e entrou em casa. A primeira pessoa que viu não foi Lia nem Marise, mas o pai. Com a camisa amarrotada e longe de estar limpa, Allan apareceu, dizendo:

— Filho! Só o esperávamos para daqui a uma hora. Então, Lia convidara o pai dele, pensou, sentindo gratidão e outra coisa que não sabia dizer o nome.

— O avião chegou mais cedo. Como está, pai? Allan sorriu e respondeu:

— Maravilha. Passei o dia com Lia e a minha netinha encantadora. Eu a levei até a minha livraria pre­dileta. Marise conversou muito.

Seth piscou e perguntou:

— O que é isso na sua camisa? Allan abaixou o olhar e respondeu:

— Tinta. Estamos na cozinha. Por que não se junta anos?

— Lia também está lá?

— É uma mulher adorável, filho.

Seth seguiu o pai até a cozinha. A bancada de granito estava coberta por folhas de papel que tinham sido pintadas de todas as cores, desde rosa até verde. No ar, cheirinho de biscoitos de chocolate.

Marise ergueu a cabeça e disse:

— Oi! Venha ver minha pintura. Pode imaginar o que é?

— Uma orquídea? — arriscou Seth. Marise riu e respondeu:

— É um flamingo... Veja, aqui estão as asas.

— Ah... Estou vendo. Oi, Lia.

Ela estava em pé, perto da bancada. Como sempre, ele ficou impressionado com a beleza dela.

— Posso comer um biscoito? — perguntou Seth.

— Claro — respondeu Lia, passando-lhe o prato. Logo, Seth se juntou à conversa. Se o pai parecia diferente, a casa do filho também. Havia vida, um tipo de algazarra familiar, algo que o herdeiro dos Talbot nunca conseguira.

Uma hora depois, todos caminharam três ou qua­tro quadras até uma cantina que Seth freqüentava. No trajeto, encontraram uma equipe da imprensa. Embo­ra Marise estivesse extasiada com as câmeras e as perguntas, Seth a conduziu rapidamente por entre eles, dizendo:

— Estou faminto. A última vez que comi foi em Miami. Já lhe contei sobre o cachorro no aeroporto?

— Era um dálmata?

— Era um Scottie com pernas bem curtinhas.

— É outra história?

— Acredito que sim.

— Gosto da forma como conta histórias. Como devo chamá-lo?

— Poderia tentar dizer papai. Se quiser. Ou, então, Seth, tudo bem.

— Papai é melhor. O que aconteceu com o cachor­ro?

— Estamos perto da cantina. Não é melhor aguar­dar até nos sentarmos? Aí, então, conto a história?

Allan seguiu adiante com a neta. Seth virou-se para Lia, percebendo o quanto ela ficara tão quieta. Então, perguntou:

— Como você está?

— Senti sua falta — respondeu. Era verdade. Sen­tira falta dele, dia e noite. E, ao vê-lo de mãos dadas com a filha, se apaixonou ainda mais por ele.

— Gostaria de estar fazendo amor com você agora.

— Eu também.

— Por que sentiu minha falta?

— Vou lhe contar mais tarde.

Sim, você vai fazer isso, pensou ele, e sentou-se à mesa da cantina. Mas, naquela noite, depois que Marise foi dormir, Allan disse:

— Filho, posso ter uma palavrinha com você? Em particular.

Então, Lia comentou:

— Vou tomar um banho demorado e depois vou para a cama. Vejo vocês dois de manhã.

Lia o evitava, Seth pensou. Isso vinha ocorrendo desde que ele chegara em casa. O que será que estava acontecendo?

Tentando conter a frustração, Seth a viu deixar a sala. Precisava tocá-la, segurá-la em seus braços. Dessa forma, descobriria o que estava acontecendo.

Enquanto isso, Allan andava de um lado para ou­tro. Assim que Lia fechou a porta, ele disse:

— Deixei sua mãe.

O quê? — indagou Seth, surpreso.

— Eleonore ficou furiosa ao saber que eu planeja­va vir a Manhattan para conhecer Marise. Me proibiu até de pensar nisso. Uma coisa levou a outra... E, pela primeira vez em anos, não recuei. Mantive a minha vontade.

— Bom para você.

— Sua mãe disse que, se eu viesse a Manhattan hoje, nunca mais falaria comigo. Então, eu a avisei que ela estava certa, não falaria mais, porque não iría­mos mais viver juntos... Me mudei para uma suíte no Ritz-Carlton.

— Estou orgulhoso de você, papai.

— Obrigado. Sua mãe não é uma mulher fácil. Mas nunca lhe contei sobre o passado dela... Eleono­re não queria que ninguém soubesse, muito menos você. Então, me fez jurar que manteria segredo. Ago­ra que a deixei, não me sinto mais preso a essa pro­messa... Ela teve uma infância terrível. O pai era um imigrante e, quando bebia, o que fazia com freqüên­cia, pegava o cinto e batia na criança que estivesse mais perto. Sua mãe fugiu de casa aos 14 anos, con­seguiu um trabalho como doméstica e não voltou mais a vê-lo. Desde então, nunca mais confiou em ninguém. Até em mim que a amo. Mas por causa da­quela menininha magricela que colhia uvas, quando deveria estar na escola, eu a perdoei. Emocionado, Seth comentou:

— Não sabia de nada.

— Talvez eu devesse ter lhe contado há muito tempo, apesar do desejo contrário de Eleonore. Mas, de alguma forma, a ocasião nunca surgiu.

Seth fez diversas perguntas. Em meia hora, passou a conhecer mais sobre o difícil casamento dos pais do que soubera ao longo dos seus 37 anos. Allan termi­nou dizendo:

— Nem mesmo por Eleonore vou me privar da mi­nha neta. Nem por ela, nem por ninguém.

— Marise é um doce.

— Assim como a mãe.

Seth não queria falar sobre Lia.

— Parece cansado, papai, e sei que estou exausto. Trabalhei muito semana passada. Podemos parar por aqui?

— Fico feliz que tenhamos tido essa conversa, filho.

— Também. — Seth abraçou Allan e o viu deixar a sala. A cabeça girava, uma mistura de fuso horário, excesso de informação e muita emoção. Queria dor­mir. Contudo, mais do que isso, desejava Lia, que dormia no quarto de hóspedes, junto da filha.

Na manhã seguinte, Seth se levantou antes de to­dos. Desceu e serviu-se do café-da-manhã num recanto feito com vista para o jardim. Como de hábito, primeiro, passou os olhos pelos jornais para ter uma idéia geral do que acontecia no mundo.

Na sétima página da segunda seção havia uma enorme foto colorida de Seth, Lia, Marise e Allan. "Uma saída em família", dizia a legenda, dando os nomes dos Talbot. Lia d'Angeli era citada como companheira de Seth, Marise como filha dela. Os olhos dele e os da filha tinham sido impressos em um verde idêntico, surpreendente.

Companheira, ele pensou. Que tipo de palavra era aquela? A legenda não precisava dizer nada mais. O problema já estava ali. Lia como amante, Marise como a filha ilegítima. Ele como o pai que não se in­comodava em legalizar a situação.

Não iria tolerar aquilo. Bastara o que vivenciara em Viena. Mas Viena era do outro lado do Atlântico. Nova York era onde Seth Talbot vivia, a base da em­presa. Dessa vez, a imprensa tinha ido longe demais. Porém, isso não aconteceria mais.

Não era um momento oportuno para Lia vagar pela cozinha. Ela usava um roupão de seda comprido, amar­rado na cintura. Sentiu o cheirinho no ar e comentou:

— Café. Você é um anjo.

— Meu pai e Marise ainda estão na cama? A moça abriu bem os olhos e indagou:

— Qual o problema?

— Eles estão na cama?

— Sim. Por quê?

Seth jogou o jornal em cima dela, apontou para a foto e comentou:

— Não vou permitir isso. Não vou deixar que sub­metam Marise a comentários maldosos e insinua­ções. Vamos nos casar e colocar um ponto final nessa história.

Lia pegou o jornal e leu a legenda. Franzindo as sobrancelhas, explicou:

— Marise já disse a todos na escola que você é o pai dela. Então, isso não importa.

Seth se levantou e retrucou:

— Isso importa para mim. E deveria importar para você também.

— Vivi com o fato da ilegitimidade da minha filha por sete anos. E não ouse me dizer como devo me sentir — disse Lia, esticando-se para pegar uma ca­neca no armário da cozinha.

Seth tirou-lhe a caneca das mãos e a colocou em cima da bancada. Em seguida, puxou Lia para si e a beijou. No início, ela ficou chocada. Porém, depois, ce­deu, beijando-o com paixão. Com o corpo vibrando de desejo, Seth acariciou-lhe os seios, e perguntou:

— Quando podemos nos casar? O mais rápido possível?

— Está me pedindo em casamento ou me dizendo que vou me casar com você?

— Não há negociação.

— É o que pensa.

— Sim.


— Você me ama?

— Não.


— Como pode dizer que vamos nos casar?

— Gosto de você, eu a admiro, a respeito, e a dese­jo loucamente. Não é um começo ruim.

— Não é suficiente.

— Você é romântica.

— Não faça pouco caso dos meus sentimentos!

— O que está querendo dizer?

— Me apaixonei por você.

— Quando isso aconteceu?

— Percebi na última vez que fizemos amor... em Meadowland. Talvez tenha acontecido muito tempo atrás, em Paris, quem sabe. Não importa. O fato é que não vou me casar com você se não me ama.

— Amor é a palavra mais violada do idioma.

— É a sua opinião... Não é a minha. Mereço um marido que me ame, e Marise merece pais que se amem. Fim da discussão.

— Meu pai amava minha mãe. E veja no que deu.

— Meus pais amavam a música, as próprias carrei­ras. Também amavam um ao outro e a mim. Não ne­cessariamente nessa ordem. Podemos fazer tudo, é isso que estou tentando dizer.

— Você é otimista.

— Sou realista. Afinal, amamos Marise. É um co­meço maravilhoso.

— É maravilhoso. Mas não é começo de nada. Para mim, é apenas isso.

— Não vou ceder. Quero tudo a que tenho direito. Um marido que ame a mim e a nossa filha.

— Fusões corporativas não são nada quando com­paradas a você.

— Esperava por isso — comentou Lia.

— Parece que vai me devorar no café-da-manhã e se livrar de mim antes do almoço.

Primeiro, preciso tomar meu café.

Seth se aproximou, passando os braços ao redor da cintura dela. O corpo de Lia parecia deliciosamente quente e suave, as curvas voluptuosas sob a seda fina.

— Se ao menos pudéssemos ir para a cama juntos — murmurou ele.

— O sexo não substitui o amor. Não no meu mun­do.

— Quando o sexo é com você, chega bem perto.

Lia puxou-lhe a cabeça para baixo e selou os lá­bios dele com os dela. O beijo o atingiu em cheio. Deleitando-se com toda a doçura daquela boca sensual, ele a puxou para mais perto.

Som de passos nas escadas. Lia empurrou Seth e, rapidamente, endireitou o roupão.

— É Marise — disse Lia, com a voz entrecortada. Seth não estava em condições de encarar a filha.

Virou-se na direção da bancada e se ocupou, servindo uma caneca de café para Lia. Um negócio interminá­vel, pensou. Bem-vindo à paternidade. O problema era que Lia voltaria para Meadowland essa noite. De­pois, durante a semana, iria para Praga. Enquanto isso, amanhã cedo, ele partiria rumo a Londres e à Malásia.

A data do casamento não tinha sido marcada. Lia d'Angeli vencera essa rodada.



CAPÍTULO TREZE

O táxi deixou Seth em frente ao Rudolfinum, a sala de concertos, estilo neo-renascentista, em Praga. Es­tava chovendo. Ele correu em direção à entrada, os sapatos pretos chapinhando nas poças de água suja.

Estava atrasado. Teria sorte se conseguisse chegar no intervalo. Não planejara ir a Praga. Havia pensado justamente o contrário: manter distância de Lia por um tempo, deixá-la retomar o juízo até que decidisse se casar com ele.

O lanterninha o conduziu até o melhor camarote da casa. Seth o conseguira graças à enorme influência que tinha. A porta do camarote se fechou. As calças estavam coladas às pernas, o cabelo molhado. Mas chegara a tempo de ouvir Lia tocar.

A audiência e a orquestra voltavam aos assentos originais. O camarote dele tinha uma vista completa do palco. Será que Lia o veria?

Os dois não fizeram mais amor desde aquela noite em Meadowland. Parecia uma eternidade. Não era por isso que ele estava ali? Para fazer amor com Lia?

Estava ali para fazê-la mudar de idéia com relação ao assunto do casamento. Sua reputação era de soltei­rão. No início da carreira, as revistas fizeram de tudo tentando juntá-lo a uma beleza glamourosa atrás da outra, todas sem proveito. Ainda assim, agora, estava determinado a se casar com uma mulher a quem não amava e que resistia a ele.

As cortinas se abriram e Lia surgiu no palco. A platéia aplaudia. Ao olhar ao redor, de repente, ela o viu. Quase vacilou. Seth notou o choque estampado em seu rosto. Depois, sumiu como se nunca tivesse existido. Lia assumiu seu lugar e sorriu para o maes­tro.

O vestido era escarlate, sem alças, e reto. Os lábios pintado da mesma cor. O cabelo estava puxado para trás preso por dois grampos cintilantes. Seth sentiu um aperto no estômago ao perceber que Lia usava os brincos que ele lhe dera. Antes do maestro erguer a batuta, ela olhou na sua direção.

Um olhar íntimo, intenso, desafiador. Como pode­ria descrever aquele olhar? Tinha sido direto para ele, sabia muito bem disso.

A orquestra tocou um simples acorde. Então, ela começou a sua procura solitária, lírica e melancólica. Seth ficou sentado, imóvel. Lia tocava apenas para ele, tinha consciência disso. E, conforme os minutos passavam, ela soltava todo o amor, a paixão e a dor em uma música que o atingia, tocando-o profunda­mente.

O acorde final encheu o saguão principal. Aplau­sos. Sentindo-se como se tivesse sido desnudado diante de cada alma ali presente, Seth se levantou, deixou o camarote e foi ao escritório do gerente.

— Poderia fazer com que Lia d'Angeli recebesse esse bilhete? — perguntou. E lhe entregou um enve­lope com uma cédula embaixo.

— Certamente, senhor. Será um prazer.

Seth agradeceu e pegou um táxi de volta ao hotel. O próximo passo deveria ser dado por Lia. Ou viria até ele por vontade própria, ou não.

Seth tomou banho, trocou de roupa e serviu-se de um drinque. A recepção após o concerto demoraria. Tudo o que tinha a fazer era esperar. Quando foi que sentou-se em um quarto de hotel, e esperou por uma mulher? Jamais.

Os minutos passavam. Com o controle remoto nas mãos, Seth passeou pelos canais da tevê. Depois, de­sistiu. Era quase meia-noite. Será que Lia já não de­veria estar ali?

Então, o telefone tocou. Seth atendeu, dizendo:

— Sim?

— Sou eu, Lia. Estou no saguão.



— Suíte 700. Pegue o elevador até o último andar.

— Vou subir agora — disse ela e desligou o tele­fone.

Mas, por um momento, Lia permaneceu aonde es­tava, fitando a decoração. Sabia o que aconteceria se fosse à suíte. Era isso que queria? Se não era, por que estava ali? Então, caminhou rumo ao elevador.

Quando ia bater à porta da suíte, Seth a abriu e co­mentou:

— Entre. Molhou-se com a chuva?

— O taxista me protegeu com um guarda-chuva. Depois, estacionou embaixo do toldo do hotel.

— Gostaria de um drinque?

— Não, obrigada. Não depois do que aconteceu em Viena.

— Gostou do concerto?

— Sim. E você?

— Como não poderia ter gostado se você tocou só para mim?

— Outra forma de lhe dizer que o amo.

— Acha que sou tão cabeça-dura que não percebe­ria isso? Eu a ouvi. Ouvi amor, desejo e lágrimas.

— Não posso me transformar em outra mulher. Sou quem sou. Impaciente. Apaixonada. Intransigen­te. Não pode me amar dessa forma?

— Jamais me apaixonei. O amor nunca teve ser­ventia.

— Sou igual às outras?

— É diferente... Mas não posso me apaixonar!

— Não irá se apaixonar, quer dizer.

— Disse que não posso.

— Sendo assim, não vou me casar com você.

— O que é isso? Uma batalha para medir quem tem mais resistência?

— Do jeito que está agora, somos perdedores. Você, eu, Marise.

— Está jogando sujo.

— Esperava algo diferente?

— Quero ir para a cama com você.

— Eu também.

— Isso é muito melhor do que discutir.

— Nem mais uma palavra. Me leve para a cama. Faça amor comigo, me faça esquecer de tudo.

Seth a carregou até a cama. Lá, deitou-a e se jogou sobre ela.

— Você me deixa louco — murmurou. Depois, beijou-a. As línguas se entrelaçaram. Lia mordiscou-lhe os lábios, uma dorzinha que serviu para deixá-lo ainda mais excitado. Ela se contorcia embaixo dele, boca e mãos tão famintas que Seth per­deu qualquer tipo de comedimento. Então, puxou o zíper do vestido, despindo-a.

Os seios nus, o tecido de seda sobre os quadris... Será que, um dia, se daria por satisfeito? Ela tirava os grampos do cabelo, jogando-os no chão, de forma que a cabeleira se espalhasse como cetim negro pelo travesseiro. Os olhos negros enevoados de desejo.

As unhas dela arranhavam-lhe as costas, os dentes mordiscavam um dos ombros. Lia era parceira, com­binando com ele de todas as formas, desejo com de­sejo em uma dança primitiva. Saboreando, provocan­do, despertando, Seth viajava por cada centímetro do corpo dela.

Lia era dele. Porém, não a amava. Quando a to­mou, ela arqueou o corpo. Então, Seth mergulhou ainda mais fundo.

Ela atingiu o clímax, ficando sem ar. Ele abaixou a cabeça, sentindo um frio úmido nas costas nuas. Não tinha a menor idéia de como se livrara das roupas. Ou aonde estavam. Não que isso tivesse importância.

Seth virou-se, enterrando o rosto entre os seios de Lia. Era isso que queria. Lia em seus braços. O que mais poderia haver? Como saíra da Malásia bem cedo naquela manhã, depois de três dias de intensas reuniões, ele adormeceu.

Lia permaneceu quieta. Pela primeira vez, não se sentia completa depois de fazerem amor. Fisicamen­te, estava saciada. Mas a alma se encontrava vazia. No momento do clímax, quisera gritar o quanto o amava. Entretanto, não o fizera. Ele não queria ouvir essas palavras porque não as compartilhava.

Como era estranho se sentir sozinha quando um dos braços de Seth estava caído por cima do quadril dela. E sentia a respiração dele soprando sobre seu peito.

Lia esperou mais alguns minutos antes de se livrar daquele abraço. Seth murmurou algo durante o sono, procurando-a. Paralisada, agachou-se na cama. Ape­nas quando a respiração dele voltou a normalizar, se levantou. Havia dois roupões no banheiro. Vestindo um, sentou-se perto da janela. As luzes da cidade de Praga piscavam através das vidraças, parecendo no veludo negro.

Sempre se sentira em casa naquela cidade devido à música. Mas, agora, a sensação era de exílio. Ao to­car para Seth, lhe dera o próprio coração. Ainda as­sim, falhara, não conseguira tocá-lo ou mudá-lo. Abaixando a cabeça até os joelhos, Lia deixou as lá­grimas escorrerem pelo rosto.

Ela chorou em silêncio até escoar toda a emoção. Levantando-se, foi ao banheiro, lavou o rosto e cami­nhou devagar de volta ao quarto. O vestido estava amarrotado, no chão. Vermelho como sangue, pen­sou. E, com um tremor supersticioso, o pegou. A roupa íntima estava do lado de Seth na cama, emaranha­da nas calças dele. Mexendo-se com o máximo de cuidado, sem fazer barulho, vestiu-se.

Porém, ao se esticar para pegar os grampos do ca­belo, tropeçou em um dos lados da cama. Seth se me­xeu e murmurou:

— O que está fazendo?

Em seguida, acendeu a luz da mesinha-de-cabeceira.

— Vou voltar para o meu hotel — respondeu Lia.

— Está fugindo, da mesma forma como fez em Pa­ris.

— Muito tarde para isso. Por causa de Marise, es­tou ligada a você. Tenho que voar para Basel de ma­nhã... Um último concerto antes de voltar para casa.

— Por que está indo embora agora, no meio da noite?

— Não posso fazer isso. Eu o amo. Não posso ficar com você assim, sabendo que não me ama... E muito doloroso. Isso me destrói.

— Veio ao meu hotel ciente do que aconteceria.

— Não sabia como ia me sentir depois... Como po­deria? Me diga, por que veio ao concerto?

— Não conseguia ficar longe. Precisava tocá-la, segurá-la em meus braços. Quase enlouqueci com você na minha casa, sabendo que não podia levá-la para a cama. Não podia nem mesmo beijá-la da forma como queria.

— Fazer amor não envolve apenas o físico. Sabe como me senti hoje à noite? Por que não consegui dormir? Me senti terrivelmente só. Não consigo separar as coisas: fazer amor e estar apaixonada. É sim­ples e, ao mesmo tempo, complicado.

— Então, se não me apaixonar, não poderemos mais ir para a cama juntos?

— Você fala como se eu o estivesse chantageando! Só estou tentando me proteger.

Seth levantou-se e caminhou na direção dela, sem se dar conta da própria nudez.

— Venha para a cama comigo agora... Precisa dor­mir. Não sei o que vamos fazer. Mas, certamente, po­demos pensar em algo.

— Não posso. Isso machuca muito. Está me dando todos os presentes do seu corpo... Mas está contendo o resto.

— Não estou contendo nada... Não há o que dar.

— Vou ficar fora do seu caminho quando for a Meadowland ver Marise. E quando ela for a Manhat­tan, para ficar com você, Nancy pode levá-la.

— Marise é uma criança muito inteligente. Acha que podemos agir como um casal de estranhos sem que ela perceba? Nossa filha merece pais que possam estar juntos na mesma sala.

— Pare! Farei o melhor que puder por Marise... Prometo.

— Então, case-se comigo.

— Agora sei como chegou ao topo... Você é cruel, não se importa com os sentimentos dos outros. Quan­do chegar em casa, vou conversar com Nancy. Você e Marise vão poder se ver quantas vezes quiserem.

— Não posso evitar. A forma como fui criado... Aquela noite, quando ouvi minha mãe contando ao meu pai sobre o aborto... Isso matou algo dentro de mim. A habilidade para amar. Não consigo me entre­gar a uma mulher.

— Está querendo dizer que devo aceitá-lo como é?

— Sim, acho que é isso que estou dizendo. Serei fiel a você, o melhor pai para Marise que eu puder ser... Mas é o máximo a que posso chegar.

— Já ama Marise. Você e seu pai estão recuperan­do os anos em que ficaram afastados. E você ama a música. Como pode dizer que é incapaz de amar?

— Estou falando de você, não de Marise ou do meu pai. Vivi sozinho por muito tempo... Deveria sa­ber do que sou capaz.

— Está deixando que o medo domine sua vida.

— Gostaria que fosse simples assim. É um vazio. Ora, nem sei como descrever.

— Então, me fale sobre isso. Faça com que eu en­tenda.

Seth sentou-se à beira da cama e começou a con­tar.

— Eu tinha oito anos. Aquela noite, eu tinha ido sorrateiramente até a biblioteca para pegar um livro quando ouvi meu pai vindo e me escondi atrás do sofá. Ele sentou-se à escrivaninha e começou a ver al­gumas contas. Então, minha mãe veio corredor abai­xo, falando com um dos empregados. Papai a chamou e lhe entregou um pedaço de papel, perguntando o que ela fizera na clínica onde sempre ia.

Seth fez uma pausa, perdido na lembrança.

— Minha mãe disse que fizera um aborto. Nunca vou esquecer o choque estampado no rosto de meu pai. Ele perguntou se havia um motivo médico. Não, ela disse, simplesmente não queria outra criança. En­tão, meu pai perguntou se era um menino ou uma me­nina. Uma menina, disse ela com indiferença, como se estivesse falando de um vestido que descartara. Meu pai chorava... Isso me deixou aterrorizado. Eleonore, você sabe, sempre quis uma filha, disse ele.

Seth esfregou a mandíbula, tentando diminuir a tensão.

— Eu não sabia o que significava um aborto, mas tinha consciência de que minha mãe fizera algo terrí­vel. Então, meu pai disse, Como pôde fazer isso? Mi­nha mãe raramente perdia a calma. Para ela, era mui­to importante manter o controle. Mas o perdeu. Aí, gritou, dizendo que nunca traria uma menininha ao mundo, jogou uma estátua de cristal em uma das es­tantes e saiu da biblioteca. Mais tarde, meu pai se le­vantou, cambaleando... Ele caminhou corredor abai­xo e ouvi a porta do quarto se fechar. Foi quando subi correndo e fui para a cama.

— Que história terrível — balbuciou Lia e o abra­çou.

— Não, nada de compaixão — disse ele, abaixando-lhe os braços.

— Não pensei isso. No último fim de semana, con­versei com o seu pai... No domingo, depois que você foi embora, ele me contou um pouco sobre a criação violenta que a sua mãe teve. Apesar das carreiras dos meus pais, tive uma infância feliz, repleta de música e das constantes demonstrações de amor. Não consigo imaginar uma infância como a de Eleonore. Isso me fez entendê-la um pouco... Talvez até tenha feito com que eu começasse a perdoá-la pelo mal que me causou. Não poderia fazer o mesmo?

— Não se trata de perdão. Queria que você enten­desse o porquê de eu não me interessar por casamen­to, só isso. Meu pai amava minha mãe. Ele lhe deu a própria alma e ela a menosprezou. Então, aprendi bem cedo que o amor significa traição e sofrimento.

— Não tem que ser assim!

— Uma barreira se impôs naquela noite. Era muito pequeno para compreender e as emoções, terríveis demais para suportar. Tudo continua lá. E sempre vai continuar.

Foi o tom final na voz dele que destruiu o último vestígio de esperança de Lia.

— Obrigada por me contar. É melhor eu ir — disse ela.

Seth não fez nenhum movimento para detê-la. Sentindo como se o próprio coração tivesse se que­brado, Lia saiu do quarto apressada.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal