A noite dos amantes



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CAPÍTULO CATORZE

O verão chegou a Meadowland. Mãe e filha brinca­vam na piscina. Lia devia estar feliz. Marise estava de férias. Lia tinha apenas que participar de dois fes­tivais de verão e de um concerto beneficente no Carnegie Hall. Assim, estava disponível para passar ho­ras do seu precioso tempo com a filha.

Marise passara muito tempo com o pai. Seth tinha ido à festa de encerramento do ano letivo. E, nas últi­mas três semanas, levara a filha para a casa de vera­neio em Cape Cod. Lá, pela primeira vez, Marise ve­lejou e nadou no mar. Também aparecera duas vezes em Meadowland com Allan, ocasiões que colocaram à prova a serenidade de Lia.

Nem uma vez sequer, ele mencionou o casamento. Era como se tivesse se esquecido tanto do pedido quanto da recusa. Tratava-a com educação.

Marise amava o pai. Seth também amava a filha. E Lia sabia disso. Assim como sabia que ele nunca a amara.

A filha jogou água em Lia e disse:

— Mamãe, veja, vou mergulhar até o fundo! Papai me ensinou.

Lia voltou ao presente. Marise encheu os pulmões de ar. Em seguida, afundou. Momentos depois, quan­do voltou à superfície, com o rosto corado, a mãe co­mentou:

— Maravilha! Está nadando muito melhor do que no ano passado.

— Papai está me ensinando muitas coisas legais. Por que não vai a Cape Cod conosco?

Lia deveria estar preparada para essa pergunta. Po­rém, não estava.

— É melhor que você mesma construa seu relacio­namento com seu pai.

— Ele não a convidou?

— Seu pai tem que recuperar os sete anos em que ficou longe, querida. Não precisam de mim por perto para isso.

— Ia gostar da casa dele em Cape Cod. Há duas crianças na casa ao lado para brincar comigo... Vou pedir que a convide da próxima vez.

— Não deve fazer isso! — disse Lia com a voz entrecortada, engolindo água.

— Papai disse que eu poderia pedir o que quisesse. Amaldiçoando Seth mentalmente, Lia retrucou:

— Isso é diferente.

— Meu desejo é que você e o papai vivessem juntos.

— Oh, Marise...

— Os dois poderiam se casar. No jardim. Eu pode­ria ser a dama de honra. Há muitas flores lá agora, você nem precisaria comprar um buquê.

Lia mordeu os lábios e explicou:

— Doçura, não é tão simples assim.

— Não vejo por que não. Papai é bem legal. Pode­ria morar aqui... Ele disse que também gosta daqui.

Lia fitou a filha, uma palavra se sobrepondo a to­das as outras que permeavam, de forma confusa, o pensamento. Egoísta. Tinha sido completamente egoísta nas últimas semanas. Agindo como se o casa­mento com Seth apenas a afetasse.

Agora, Marise tinha pai e mãe, algo que ela sem­pre desejara. Por que não ia querer os dois casados? A maioria dos colegas de escola tinha uma mãe e um pai que moravam na mesma casa, dormiam na mesma cama, iam juntos às reuniões de pais e professores. Algo comum, normal. Claro que Marise queria a mesma coisa.

Então, Lia comentou, animada:

— Prometo que vou pensar sobre tudo o que me dis­se, querida. Agora, é melhor sairmos e nos enxugar­mos. Quero fazer geléia de morango antes do jantar.

— Tudo bem. Posso ajudá-la.

Por volta das nove horas da noite, Marise dormia. Lia permanecia na cozinha, observando os potes de geléia.

O telefone tocou. O número registrado era o de Seth. Ela atendeu.

— Lia. Como vai? Confusa. Triste. Aterrorizada.

— Bem — respondeu ela.

— Gostaria de saber se posso pegar Marise ama­nhã de manhã. Queria levá-la ao cinema à noite. Po­deria levá-la de volta no dia seguinte.

— Claro. Venha cedo, ela vai querer que você dê uma volta pelo jardim.

— Vejo as duas por volta das dez.

Lia ia dizer que precisava falar com ele, mas a co­nexão foi cortada. Aborrecida, bateu com o fone no gancho e tirou os potes de geléia de cima da bancada. Nancy estava de férias. Antes que pudesse mudar de idéia, pegou o telefone e combinou para que Marise brincasse com Suzy no dia seguinte pela manhã, até as 11 horas. Dessa forma, estaria sozinha com Seth. Mas apenas por uma hora.

O trânsito estava pior do que Seth imaginara, e já era 10h25 e ele ainda não chegara a Meadowland. Como sempre, a serenidade daquele lugar tocava-o no coração. Lia não poderia ter escolhido um lugar melhor para criar Marise, pensou, e se revestiu de co­ragem para o inevitável encontro.

Seth odiava aqueles encontros. Passara todos eles sendo extremamente educado, quando tudo o que queria era beijar Lia. Não podia fazer isso. Não na frente da filha.

Seth estacionou perto da porta da frente, subiu as escadas, bateu à porta e entrou, perguntando:

— Marise? Já está pronta? Lia surgiu e o cumprimentou:

— Olá.


Ela usava short amarelo e camiseta branca. O ca­belo estava amarrado em um rabo-de-cavalo. Estava descalça. As pernas esguias, ligeiramente bronzea­das, o deixaram tonto. Então, o coração dele acelerou ao notar o quanto Lia parecia tensa, nervosa, reserva­da e triste.

— Qual o problema? Onde está Marise?

— Eu a mandei para a casa de Suzy por alguns mi­nutos. Preciso conversar com você.

— Ela está bem?

— Sim... Fiz café. Venha até a cozinha.

— O que está acontecendo?

Lia serviu-lhe um pouco de café e comentou:

— Se ainda quiser, me caso com você.

— O quê?

— Você ouviu.

— O que a fez mudar de idéia?

— Marise. Ela quer que nos casemos. Quer uma vida normal... Pai e mãe debaixo do mesmo teto. Foi egoísmo meu pensar apenas nas minhas necessida­des, não enxergando as dela.

— Ainda está apaixonada por mim?

— Claro. É amor eterno.

Não havia emoção na voz dela. Parecia que estava falando sobre a lista do mercado. Então, sentindo a primeira pontada de raiva, Seth disse:

— Se não fosse por Marise, não se casaria comigo.

— Você entendeu.

Agora, Lia fitava a janela como se ele não estives­se ali. O rosto, normalmente expressivo, parecia páli­do, perplexo. Irritado,

Seth perguntou:

— Quando quer se casar?

— O mais rápido possível. Não há razão para adiar.

— Parece tão fria.

— Foi você que começou com essa farsa de se ca­sar comigo para deter os comentários.

— Mas agora está mudando para dar a Marise o que ela precisa. Por que não tentamos por duas semanas a partir de agora? Isso se encaixa na sua progra­mação?

— Vou tocar no Carnegie semana que vem. Fora isso, estou livre até o início de agosto.

A viagem de Seth para a Austrália podia ser adia­da. Então, ele perguntou:

— Quer um casamento pomposo?

— Não! Um simples. Aqui.

— Temos que deixar que a mídia saiba.

— Vamos deixar que saibam depois.

— Está tudo errado... Parece que estamos prepa­rando um funeral, não um casamento.

— Não sei como fazer isso.

— Quando contarmos a Marise, você poderia tentar parecer feliz com a notícia de que vai se casar comigo.

— Farei isso. Vou me encarregar do meu objetivo, e você do seu.

Seth queria que Lia brigasse com ele. Queria a Lia de antigamente, a de temperamento impetuoso, olhos brilhantes, o rosto iluminado pela paixão.

Era o que queria. Entretanto, não era isso que con­seguiria. Então, comentou como se fosse um robô:

— Vamos dormir juntos depois que nos casarmos. Isso é inegociável.

— Naturalmente. Marise já é bem grandinha para saber que a mãe e o pai de Suzy dormem no mesmo quarto.

— Vou providenciar a papelada.

— Vou pedir ao ministro da igreja daqui para rea­lizar a cerimônia. Quer uma aliança?

— Sim. E você.

— Acho que sim. Vai parecer melhor.

— Então, esse casamento é todo de aparências.

— E, não é?

— Acho que estou ouvindo Marise.

Através da janela aberta, Seth ouviu alguém largar uma bicicleta na varanda. Quando a porta se fechou, ele viu Lia se recompor. Era como se ela estivesse prestes a tocar em um concerto, voltando-se para dentro de si, ligando-se a todas as suas força*. Então, Marise veio correndo até a cozinha.

— Oi, papai! — disse, exultando de alegria e se jo­gando nos braços dele.

Seth a levantou do chão, rindo e perguntou:

— Oi. Pronta?

— Já arrumei tudo.

— Bom. Já disse à sua mãe que vou trazê-la de volta para casa amanhã à tarde.

— Marise, temos uma boa notícia e esperamos que fique feliz. Vamos nos casar, filha. Seu pai e eu.

— Papai vai morar conosco?

— Às vezes, tenho que viajar a trabalho, assim como a sua mãe. E, às vezes, podemos passar os fins de semana em Manhattan. Mas, na maior parte do tempo, vou estar morando aqui.

— Como um pai de verdade?

— Farei o possível — garantiu ele, sentindo um aperto na garganta.

Marise abraçou a mãe e comentou:

— Não vou me incomodar de dividi-la, não com papai.

Lágrimas cintilavam nos olhos de Lia. De repente, Seth colocou um dos braços ao redor dela, puxando-a para perto e disse:

— Podíamos nos casar no jardim.

— A Suzy pode vir? — perguntou Marise.

— Vai ser um casamento simples, com poucas pessoas — respondeu Lia, dando a Seth mais um da­queles sorrisos falsos.

— Será perfeito — cantarolou Marise e começou a dançar pela cozinha. Então, perguntou:

— Por que não vem ao cinema conosco, mamãe?

— Tenho que ensaiar para o concerto no Carnegie, doçura. Da próxima vez... Você deve se apressar. Seth, preparei alguns sanduíches e um pouco de suco.

— Obrigado. Quer colocar tudo no carro, Marise? Assim que a filha saiu da cozinha, Seth tomou Lia nos braços e, ignorando a resistência dela, beijou-a. Aquele beijo era uma mistura de raiva, frustração e desejo.

— Assim é muito melhor. Vou lhe dizer uma coi­sa... Não vai ser chato ser seu marido — comentou ele.

Então, saiu da cozinha e juntou-se à filha.

Quatro dias depois, Seth fazia parte da multidão que fora ao Carnegie Hall. Dessa vez, não trajava um smoking e não se dirigira a um camarote. Ele usava roupas casuais, sentou-se longe do palco, no fundo da platéia, junto com as outras mil pessoas.

Não queria que Lia o visse. Não tinha ido para a cama com a ela desde aquela noite em Praga. Seth a convidara para ir à casa dele naquela à noite, mas ela recusara. Era muito educada quando estavam sozi­nhos, e animada quando a filha estava por perto. Mas se a Lia impetuosa, argumentativa, retornasse, não se casaria com ele. Não dava para tê-la das duas formas.

Conseguira o que queria, mas conduzira Lia a um lugar onde ela se mantinha intocável. Seth sentia-se a quilômetros de distância dela, a mulher que se torna­ria sua esposa em menos de dez dias. Será que era por isso que estava ali? Para tentar, de alguma forma, que os dois voltassem a se unir?

Era patético, pensou, e se acomodou na poltrona para ler o programa. Ontem à noite foi ainda pior. Sem conseguir dormir, ele andou a esmo pela casa até as três da manhã.

Por que não podia se apaixonar por Lia? Essa era a única pergunta que tinha importância. E sempre vi­nha com a mesma resposta: a barreira que surgira, quando Seth tinha oito anos de idade, se mantinha fir­me. E ele permanecia atrás dessa barreira.

Conforme Lia d'Angeli subia ao palco, em um vestido preto de seda, Seth forçava a si mesmo a pres­tar atenção. Mas, no intervalo, levantou-se e foi em­bora. Com as mãos nos bolsos, caminhou de volta para casa.

Lia errara umas três vezes no início do concerto e a crítica seria feroz no dia seguinte. Ele sentia-se res­ponsável pelo ultimato que lhe dera. Entretanto, como podiam cancelar o casamento? Marise ficaria arrasada.

Seth entrou em casa e subiu as escadas correndo. Esperava que, durante o intervalo, Lia tivesse deixa­do uma mensagem na secretária eletrônica. Mas não fizera isso. E, embora tenha ficado acordado até bem tarde, já passava das duas da manhã, ela não ligou. Seth se levantou cedo na manhã seguinte, rezando para que Lia compartilhasse com ele seus sentimen­tos com relação a duas críticas bem indiferentes.

Às nove e meia, quando Seth estava saindo do chu­veiro, a campainha da porta tocou. Ele vestiu jeans, tentou ajeitar o cabelo molhado e desceu as escadas. Porém, ao abrir a porta, não era Lia que estava ali. Era Eleonore. O rosto dele empalideceu devido ao choque. Então, perguntou:

— Mãe... Algum problema?

— Vai me convidar para entrar? Ou vai me deixar aqui esperando?

— Claro... Entre. Quer um pouco de café?

Pelo amor de Deus, vista-se.

— Não a esperava. Sinta-se em casa. Desço já. Quando o filho voltou, Eleonore estava sentada.

Seth lhe serviu café. Eleonore bebeu um gole e colo­cou a xícara sobre a mesa. Parecia que não tinha nada a dizer. Então, ele comentou:

— Recebeu meu convite para o casamento?

— Sim, com a violinista. Pensei que fosse contra casamento.

— E sou. Marise quer que nos casemos... Então, vamos fazer isso.

Olhando pela janela, Eleonore perguntou:

— Seu pai vai estar lá?

Seth balançou a cabeça, positivamente.

— Ele e Marise são muito amigos.

— Você sabe. Ele me deixou. Nunca vai me per­doar. Aquela criança tantos anos atrás. E agora por ter mantido em segredo, por oito anos, a existência da neta.

— Poderia conhecer Marise, se quisesse.

— Nunca pensei que ele me deixaria!

O filho percebeu que a mãe envelhecera nas últi­mas semanas. Ou será que, simplesmente, perdera um pouco do formidável autocontrole?

— Foi uma surpresa para mim também — respon­deu ele.

Eleonore abaixou a cabeça e comentou:

— Sinto falta de Allan.

— Papai mudou. Nunca mais vai aceitar receber ordens suas de novo.

— Foi o que imaginei. Ainda não estou caduca.

— O que vai fazer?

— Estou com medo de ligar para Allan. Ele pode dizer que quer o divórcio.

— Papai me contou sobre a sua infância, como...

— Allan não tinha que lhe contar nada!

— Sim, ele tinha porque isso me ajudou a com­preendê-la. Não foi uma criança amada... não como deveria ter sido. Em vez disso, machucavam-na e a maltratavam. Desde então, passou a se proteger do amor. Recusava-se a dar a qualquer pessoa o que lhe tinha sido tão brutalmente negado.

Mas será que o filho não estava falando dele mes­mo? Durante anos, protegera-se da mesma forma.

— O amor é uma armadilha. Deixe-o entrar e ele destrói você — retrucou Eleonore.

— A falta de amor está destruindo você agora. Posso ver isso no seu rosto — comentou Seth.

— Como ousa falar comigo dessa forma? — ques­tionou a mãe, a voz trêmula.

— Ligue para o papai. Não acho que ele tenha dei­xado de amá-la... Por que não vê se estou certo?

Se estiver errado, terei agido como uma tola.

— Se não entrar em contato com ele, então, agirá como uma covarde — disse ele e, mais uma vez, sa­bia que estava falando para si mesmo.

— Depois que fugi de casa, jurei que nunca mais sentiria medo de ninguém.

— Então, me prove isso.

O filho ligou para o pai e colocou a mãe ao telefo­ne. Em seguida, saiu da sala.

Ele também tinha que dar um telefonema. Precisava ligar para Lia. Embora não tivesse a menor idéia do que diria. Poderia começar com Me desculpe por permitir que o passado lhe desse ordens, por magoá-la.

Cinco minutos depois, Eleonore se juntou ao filho na cozinha. Seth fitava o jardim. A mãe comentou:

— Seu pai e eu vamos nos encontrar daqui a quin­ze minutos na escadaria do Metropolitan Museum. Vamos dar uma caminhada pelo Central Park. Depois iremos almoçar.

— Um encontro — disse Seth, malicioso.

— Acho que deveria lhe agradecer — Eleonore disse.

— Acho que sim. — Seth sorriu, pegou a mãe no colo rodopiou. O semblante da senhora Talbot estava mais iluminado.

— Divirta-se. Não se esqueça de dizer ao papai que eu o amo.

— Me ponha no chão!

A mãe parecia tão escandalizada, Seth começou a rir. E viu, com grande satisfação, que Eleonore esta­va escondendo um sorriso.

— Quer que eu chame um táxi? — perguntou ele.

— Devo caminhar. Anos atrás, seu pai costumava me dar uma rosa amarela todo mês, no dia do nosso aniversário de casamento. Vou comprar uma para ele, no caminho.

Seth beijou a mãe no rosto e comentou:

— Boa idéia.

— Fiz uma coisa terrível... Quero dizer, o aborto. Mas quando eu era uma garotinha, minha mãe ficou grávida diversas vezes seguidas, e cada gestação aca­bava com ela... Também não deveria nunca ter des­truído aquelas cartas. Errei muito.

Os olhos da senhora Talbot estavam molhados. Então, Seth disse:

— Às vezes, lágrimas são mais preciosas do que pedidos de desculpas, mãe.

Eleonore o fitou e comentou:

— Joguei fora uma boa parte da minha vida. Não faça o mesmo.

Em seguida, ela foi embora. O aviso de Eleonore era formidável pela simplicidade. Tudo o que Seth Talbot tinha a fazer era segui-lo.

CAPÍTULO QUINZE

Ao entrar de volta em casa, o celular de Seth come­çou a tocar.

— Seth? — disse Lia, com a voz entrecortada.

— O que foi? Qual o problema?

— Estou em um terrível... só um minuto.

Dava para ouvir vozes ao fundo. Então, Lia voltou. —-Não sei...

— Aconteceu alguma coisa com Marise? Pelo amor de Deus, Lia, responda.

— Faria isso se parasse de me interromper! Marise está bem, ela está na casa da Suzy. Fiquei tão pertur­bada com as críticas que deixei meu violino no banco detrás de um táxi.

Aliviado por se tratar apenas do violino, Seth per­guntou:

— Onde você está?

— Em outro táxi, indo a uma casa de penhores. O primeiro táxi foi para lá depois que me deixou.

Lia lhe deu o endereço.

— Não vá sozinha... É uma área muito perigosa. Pare o táxi agora, vou me encontrar com você.

— De jeito nenhum! Nunca poderia substituir aque­le violino, o tom é esplêndido, indescritível. Além dis­so, custa uma fortuna... Tenho que encontrá-lo.

A Lia impetuosa que ele conhecera estava de vol­ta.

— Me dê o endereço da casa de penhores. Vou para lá o mais rápido possível. Me espere lá... É uma ordem.

— Isso vai depender se vou conseguir reaver o violino ou não.

— Meu carro está na oficina. Terei que pegar um táxi. Não se arrisque... É apenas um violino — dizia Seth enquanto saía de casa.

— Apenas? — repetiu ela, incrédula.

— Você é mil vezes mais importante para mim do que qualquer violino... Está me ouvindo? Estou ven­do um táxi, tenho que ir.

Ele acenou para o taxista e lhe deu o endereço da casa de penhores.

— Dou cinqüenta dólares a mais se me levar até lá em 15 minutos.

Recostando-se, Seth discou o número do celular de Lia. Uma voz impessoal disse:

— Impossível completar a ligação. Por favor, ten­te mais tarde.

Seth discou o número de novo e ouviu a mesma gravação. Lia desligara o celular. Ou será que alguém fizera isso contra a vontade dela? Será que estava com problemas?

Enquanto o táxi cruzava o trânsito rapidamente, duas palavras não saíam de sua cabeça: tarde demais. E se fosse tarde demais? E se alguma coisa tivesse acontecido a Lia? Não suportaria perdê-la. A vida não teria sentido sem ela.

Suando frio, Seth tentou ligar mais uma vez. Che­gou a odiar aquela voz. Onde estava Lia? Tinha que estar segura.

Em 13 minutos o táxi chegou, parando em frente à loja.

— Quer que espere? — perguntou o taxista.

— Sim... Volto já.

Seth entrou na loja e logo soube que Lia não estava ali. Então, disse:

— Uma mulher esteve aqui à procura de um violi­no. Para onde ela foi?

— O que isso lhe interessa? — retrucou o proprie­tário.

Seth deu um murro no balcão e disse:

— Me diga para onde ela foi.

— Tudo bem.

O proprietário deu o nome de uma rua em um bair­ro vizinho e comentou:

— Alguém comprou o violino.

— Se ela não estiver lá, vou voltar. É melhor que esteja.

O táxi continuava esperando. Seth deu o novo en­dereço. Ao chegarem, o taxista comentou:

— É aqui.

Seth saiu do táxi. Além da algazarra que vinha de um canteiro de obras e das vozes estridentes de crian­ças brincando na rua, ele ouviu o som de um violino. Então, disse ao taxista, jogando dinheiro pela janela:

— Mais cinqüenta dólares se esperar.

— Certamente.

Seth desceu a rua. O ritmo apaixonante de uma dança espanhola ecoava por entre os prédios com suas escadas de incêndio enferrujadas e calçadas tu­multuadas. Ele deu a volta por um lugar que vendia pizza e viu Lia em pé, com o adorado violino. Uma pequena multidão a rodeava: homens, mulheres e crianças, dançando e cantando.

Seth encostou-se ao muro mais próximo. Ela esta­va segura. Não tinha sido agredida, violentada, assas­sinada ou raptada.

Quem mais a não ser Lia tocaria, na rua, para pes­soas que não podiam pagar nem mesmo pelos assen­tos mais baratos de um dos concertos dela?

Endireitando-se, ele caminhou na direção dela. Lia o viu, sorriu e, com pompa, encerrou a dança. A multidão dava vivas e aplaudia.

— Oi, Seth. Recuperei meu violino.

— Conseguiu.

Mantendo o olhar dela preso ao seu, Seth se ajoe­lhou. Silêncio. Então, disse:

— Lia d'Angeli, eu amo você e a quero. Sempre a amei desde aquela noite em Paris, oito anos atrás. Eu a amo com todo o meu coração e toda a minha alma. Eu a amei ontem, a amo hoje e vou amá-la sempre.

Lia abaixou o violino e disse:

— Está brincando.

— Nunca falei tão sério em toda a minha vida.

— Mas você disse que jamais se apaixonaria.

— Estava errado, fui um tolo. Me dei conta disso essa manhã. Me diga que não cheguei tarde demais, que ainda me ama e vai se casar comigo.

Um suspiro de satisfação emanou da multidão. Lia agora estava corada.

— Você se apaixonou por mim? Está certo disso?

— Tenho tanta certeza que amo você quanto sei que essa calçada é dura. Tente não me manter em suspense por muito tempo.

— Você merece continuar em suspense. Tenho me sentido muito triste desde que concordei em nos ca­sarmos.

Seth pegou uma das mãos dela e a levou aos lá­bios, beijando-a com o amor que tinha, dizendo:

— Juro que farei o possível para fazê-la feliz todos os dias da minha vida.

Lia ficou ainda mais corada e perguntou:

— O que o fez perceber que me amava?

— Minha mãe veio me visitar essa manhã. Estava muito abalada, nunca a vira assim. De fato, ela disse que lamentava pelo que fizera, estava com lágrimas nos olhos... E, quando foi embora, pretendia comprar uma rosa amarela para o meu pai. Se ela pode fazer isso, posso destruir as barreiras atrás das quais venho me escondendo. Então, quando você me telefonou, pensei que algo terrível tinha lhe acontecido, e que já era tarde demais. Que nunca seria capaz de dizer que a amo.

Lia o ajudou a levantar-se e disse:

— Desejo ser sua esposa, querido.

— Finalmente, nos acertamos — comentou Seth, beijando-a com paixão.

Foi Lia quem se soltou. Os olhos resplandeciam de felicidade.

— Acho que eles merecem um bis — avisou e pôs-se a tocar uma música flamenca. Quando uma senho­ra ergueu os braços, tocando castanholas imaginá­rias, Seth começou a dançar com ela.

Será que alguma vez tinha sido tão feliz quanto agora? A dança terminou de forma arrebatadora, as­sim como começou. Seth curvou-se à senhora. Quan­do os aplausos cessaram, Lia disse:

— Esse cavalheiro tinha comprado meu violino para a filha dele.

A menina fitava Seth com olhos grandes, negros, muito parecidos com os de Lia.

— Vamos lhe comprar outro violino — retrucou Seth.

— E eu- vou lhe dar aulas — prometeu Lia.

— Querida, tenho um táxi a nossa espera. Gostaria que fosse um cavalo branco — comentou ele.

Lia guardou o violino, deu o cartão dela ao pai da menina e anotou o telefone dele. Então, de mãos da­das, ela e Seth caminharam pela calçada.

— Um táxi está bom. Um cavalo, não importa a cor, levaria muito tempo — comentou Lia.

— Está com pressa?

— Sim, quero ir para a cama com você. Seth virou-se e comentou:

— Lamento ter lhe causado tanto sofrimento... Es­tava tão convencido que não poderia me apaixonar.

— Ao menos isso o impediu de se apaixonar por outra pessoa.

— Talvez, lá no fundo, eu soubesse que você esta­va a minha espera.

— Vamos ser tão felizes!

— Suspeito que minha mãe e meu pai irão ao casa­mento. Juntos.

— Você a perdoou, não?

— Perdoá-la? Vou esquecer aquela noite na bi­blioteca. Abri meu coração para a mulher mais linda no mundo. Que manhã...

Lia riu e comentou:

— Aí vai o teste final... Marise pretende jogar margaridas e bocas-de-leão em todos os convidados. Aceita isso?

— Parece divertido. Que tal, no outono, uma festa no hotel em Paris onde nos conhecemos?

— Parece divertido também.

— Mas, primeiro, cama.

O taxista continuava atrás do volante, roncando alto. Seth aproveitou a oportunidade para beijar Lia de novo. Então, bateu no vidro do carro, e os dois en­traram e se sentaram no banco detrás. Ele deu o ende­reço e disse:

— Não precisa correr dessa vez. Encontrei a mu­lher por quem tenho esperado a vida toda.

— Deveria ganhar uma gorjeta extra por isso — comentou o taxista.

— E irá ganhar — retrucou Seth.

Vinte minutos depois, o taxista foi embora, muito satisfeito. Seth destrancou a porta da frente. Depois, pegou Lia ao colo, com violino e tudo.

— Praticando — comentou, trancando a porta.

— Então é por isso que quer me levar para a cama? Apenas para praticar? — indagou ela.

— Estou levando você para a cama porque parece uma eternidade desde a última vez que a tive em meus braços. Porque é esplêndida, sexy e eu a amo.

Lia riu e comentou:

— Também amo você, querido. E sabe o que di­zem... A prática leva à perfeição.

— Você já é perfeita — retrucou Seth, o olhar re­pleto de amor.



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