A nova Traição de Judas James Rollins



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A Nova Traição de Judas

James Rollins
tradução

Marcos José da Cunha e Alexandre Martins


Ediouro
Para Carolyn McCray, que leu todos os meus primeiros rabiscos e não desatou a rir
Agradecimentos

São muitas pessoas, e o espaço é insuficiente.

Primeiro, a todos da Harper Collins, a quem devo um agradecimento atrasadís­simo pela última década de orientação, trabalho árduo e competência:

Aos manda-chuvas Michael Morrison e Lisa Gallagher, obrigado por todo o apoio e confiança — no passado, no presente e no futuro.

Aos diretores de arte, Richard Aquan e Thomas Egner, obrigado por fazerem os li­vros se destacarem com tanta elegância. Eu não poderia me sentir mais orgulhoso.

Aos diretores de marketing, Adrienne DiPietro e Tavia Kowalchuk, obrigado por sua contínua liderança em fazer com que os livros sejam bem-sucedidos... e comentados!

À melhor equipe de relações públicas do mundo, Pam Spengler-Jaffee e Buzzy Porter, obrigado por não me fazerem saltar de um pequeno avião no Alasca.

Às três mulheres que me colocam em evidência e nas livrarias — Lynn Grady, Liate Stehlik e Debbie Stier —, meu muitíssimo obrigado (e estou escrevendo isso de joelhos).

À força indômita por trás do departamento nacional de vendas e contabilidade — Carla Parker, Brian Grogan, Brian McSharry e Mark Gustafson —, obrigado por toda a sua energia e esforços extras para fazerem os romances chegarem às livrarias e às prateleiras.

A Mike Spradlin, obrigado pelas vendas e pelos coquetéis de rum (sem ordem específica).

E a centenas de outras pessoas que deixei de mencionar, mas de quem não gosto menos — obrigado!

Vindo para perto de casa, devo agradecer ao meu sinistro grupo de conspira­dores, que criticou severamente cada capítulo e o aprimorou: Penny Hill, Steve e Judy Prey, Chris Crowe, Lee Garrett, Michael Gallowglas, Leonard Little, Kathy L'Ecluse, Debbie Nelson, Rita Rippetoe, Dave Murray, Dennis Grayson, Jane O'Riva e Caroline Williams. E eu gostaria de mandar um cumprimento especial a Steve Prey pelo mapa do livro e a Penny Hill por todos os almoços de trabalho. A Cherei McCarter, pela excelente série de artigos sobre armas avançadas. E a David Sylvian, por ouvir ad nauseam enquanto eu lia em voz alta algumas partes (seus ouvidos hão de parar de sangrar).

E, mais uma vez, às quatro pessoas fundamentais em todas as etapas de pro­dução: minha fantástica editora, Lyssa Keusch, e sua resoluta colega May Chen, e meus indómitos agentes, Russ Galen e Danny Baror. Todos vocês são simplesmente 0 máximo!

Por fim, devo enfatizar que todo e qualquer erro relacionado com fatos ou detalhes é da minha inteira responsabilidade.


Nota extraída do registro histórico
Há um mistério nisto. No ano de 1271, um veneziano de 17 anos chamado Marco Polo partiu com o pai e o tio para uma viagem aos palácios de Kublai Khan, na China. A viagem duraria 24 anos e daria origem a histórias de terras exóticas situadas a leste do mundo então conhecido: relatos assombrosos de desertos in­termináveis e rios repletos de jade, de cidades fervilhantes e enormes esquadras de navios a vela, de pedras negras que queimavam e dinheiro feito de papel, de eras inacreditáveis e plantas bizarras, de canibais e xamãs místicos.

Depois de servir por 17 anos nas cortes de Kublai Khan, Marco regressou a Veneza em 1295, onde sua história foi registrada por um romancista italiano cha­mado Rustichello de Pisa, num livro intitulado em francês antigo Le Divisament dou Monde (ou A descrição do mundo). A obra arrebatou a Europa. Até mesmo Cristóvão Colombo levou consigo um exemplar do livro de Marco em sua viagem ao Novo Mundo.

Mas existe uma história dessa viagem que Marco se recusou a contar, referin­do-se a ela apenas de maneira indireta em seu texto. Quando Marco Polo partiu da China, Kublai Khan havia concedido ao veneziano 14 navios imensos e 600 homens. Mas, quando Marco finalmente chegou ao porto, após dois anos no mar, restavam apenas dois navios e 18 homens.

O destino dos outros navios e homens continua um mistério até hoje. Terão sido naufrágio, tempestades, pirataria? Ele jamais contou. Na verdade, em seu leito de morte, quando lhe pediram que acrescentasse detalhes à sua história ou se retratasse, Marco respondeu de maneira enigmática: "Eu não contei metade do que vi.”



A peste chegou primeiro à cidade de Kaffa, no mar Negro, onde os poderosos tártaros-mongóis sitiavam os genoveses, mercadores e comerciantes italianos. A praga atacou os exércitos mongóis com furúnculos que ardiam e perda de sangue. Tomados de grande malícia, os senhores mongóis usaram suas catapultas de cerco para lançar os mortos vitimados pela doença sobre as muralhas genovesas e disseminar a praga, numa confusão de corpos e destruição. No ano da encarnação do Filho de Deus de 1347, os genoveses fugiram a todo o pano em 12 galeras de volta para a Itália, para O porto de Messina, trazendo a peste negra às nossas praias.

- DUQUE M. GIOVANNI (1356), trad. por Reinhold Sebastien em Il Apocalypse (Milão: A. Mondadori, 1924), p. 34-35



Permanece uma incógnita o motivo pelo qual a peste bubônica começou de repente no deserto de Gobi, na China, durante a Idade Média, e dizimou um terço da população mundial. Na verdade, ninguém sabe por que tantas pragas e gripes do século passado — a síndrome respiratória aguda grave, a gripe aviária — surgiram na Ásia. Mas o que se sabe com relativa certeza é que a próxima grande pandemia surgirá de novo no Oriente.

- Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, Compêndio de doenças infecciosas, maio de 2006



1293
Meia-noite 

Ilha de Sumatra, Sudeste Asiático
Os gritos finalmente haviam cessado.

Doze fogueiras ardiam na enseada à meia-noite.

Il dio, li perdona... — seu pai sussurrou ao seu lado, mas Marco sabia que o Senhor não lhes perdoaria aquele pecado.

Um punhado de homens esperava ao lado de dois escaleres puxados para a praia, as únicas testemunhas das piras funerárias sobre a lagoa escura. Quando a lua nasceu, todos os 12 navios, imensas galeras de madeira, foram incendiados com os tripulantes ainda a bordo, tanto os mortos quanto os poucos desgraçados que ainda viviam. Os mastros das embarcações apontavam dedos de acusação flamejantes na direção do céu. Flocos de cinza incandescente caíam como a chuva sobre a praia e aquelas poucas testemunhas. A noite recendia a carne esturricada.

— Doze navios — murmurou seu tio Masseo, apertando o crucifixo de prata num punho —, o mesmo número dos apóstolos do Senhor.

Pelo menos os gritos dos torturados haviam terminado. Agora, apenas o crepitar e o rugido baixo das chamas chegavam à margem arenosa. Marco queria desviar o rosto da visão. Outros não eram tão corajosos e ajoelharam-se na areia, com as costas voltadas para a água e o rosto pálido como osso.

Todos estavam nus. Cada um deles havia revistado quem estava ao seu lado à procura de qualquer sinal da mancha. Até mesmo a princesa do Grande Khan, que por recato estava em pé atrás de um pedaço de pano de vela, usava apenas seu adorno de cabeça enfeitado com jóias. Marco notou a forma graciosa dela através do pano, iluminado por trás pelas fogueiras. As criadas da princesa, também nuas, haviam-na revistado. Seu nome era Kokejin, ou princesa Azul, uma virgem de 17 anos, a mesma idade de Marco quando ele partiu de Veneza. Os Polo haviam sido incumbidos pelo Grande Khan de entregá-la em segurança ao seu noivo, o Khan da Pérsia, neto do irmão de Kublai Khan.

Isso fora em outra vida.

Haviam se passado apenas quatro meses desde que a tripulação da primeira galera adoecera, exibindo vergões nas virilhas e nas axilas? A doença propagou-se como óleo se queimando, desprovendo as galeras de homens capazes e fazendo-os dar àquela ilha de canibais e feras estranhas.

Mesmo agora tambores soavam na selva escura. Mas os selvagens tinham bom senso suficiente para não se aproximar do acampamento, como o lobo que se afasta de ovelhas doentes, sentindo o cheiro de putrefação e decomposição. Os únicos sinais de sua intromissão eram os crânios, entrançados através das órbitas oculares com trepadeiras e pendurados dos galhos das árvores, protegendo contra uma invasão ou incursão mais profunda.

A doença mantivera os selvagens à distância.

Mas não por mais tempo.

Com a fogueira cruel, a doença fora afinal vencida, deixando apenas aquele punhado de sobreviventes.

Aqueles que não exibiam os vergões vermelhos.

Sete noites atrás, os enfermos restantes haviam sido conduzidos acorrentados aos navios ancorados, abastecidos com água e comida. Os outros haviam ficado na praia, atentos a qualquer sinal de novos casos da doença entre eles. O tempo todo, os que haviam sido banidos para os navios gritaram através das águas, implorando, chorando, rezando, amaldiçoando e dando berros estridentes. Porém, o pior era a gargalhada ocasional, incitada pela loucura.

Teria sido melhor ter cortado a garganta deles com um punhal misericordioso e rápido, mas todos receavam tocar o sangue dos enfermos. Por isso eles haviam sido enviados para os navios e aprisionados com os que já estavam mortos ali.

Então, quando o sol se pôs naquela noite, um brilho estranho apareceu na água, acumulado em torno das quilhas de dois barcos, espalhando-se sobre as águas ne­gras e paradas como leite derramado. Eles já tinham visto o brilho antes, nos tanques e canais sob as torres de pedra da cidade amaldiçoada da qual haviam fugido.

A doença procurava escapar de sua prisão de madeira.

Ela não lhes deixara escolha.

Os navios — todas as galeras, exceto a que fora reservada para a partida deles — foram incendiados.

Masseo, o tio de Marco, andou por entre os homens que sobreviveram. Acenou para que eles voltassem a cobrir sua nudez, mas um simples pano e lã tecida não podiam encobrir sua vergonha mais profunda.

— O que nós fizemos... — disse Marco.

— Nós não devemos falar sobre isso — retrucou seu pai, e estendeu uma túnica em sua direção. — Diga uma palavra que seja sobre peste, e todos os países nos evitarão. Nenhum porto nos deixará entrar em suas águas. Mas agora queimamos completamente o que restava da doença com um fogo que purificou nossa frota e as águas. Temos apenas de voltar para casa.

Enquanto Marco vestia a túnica, seu pai notou o que o filho havia desenhado antes na areia com uma vara. Contraindo os lábios, o pai rapidamente desfez o desenho com um dos calcanhares e encarou o filho. Um olhar suplicante fixou-se em seu rosto.

— Nunca, Marco... nunca...

Mas a lembrança não podia ser desfeita tão facilmente. Ele havia servido ao Grande Khan como erudito, emissário e até cartógrafo, mapeando os muitos reinos que este conquistara.

Seu pai voltou a falar:

— Ninguém jamais deve saber o que nós descobrimos... é uma coisa amal­diçoada.

Marco fez um aceno positivo de cabeça e não comentou sobre o que desenhara. Apenas sussurrou:

Città dei Morti.

A fisionomia de seu pai, já pálida, empalideceu ainda mais. Porém, Marco sabia que não era só a praga que amedrontava seu pai.

Jure para mim, Marco — insistiu ele.

Marco ergueu o olhar para o rosto enrugado do pai. Naqueles quatro últimos meses, ele havia envelhecido tanto quanto durante as décadas passadas com o Khan em Xanadu.

— Jure para mim, pelo abençoado espírito de sua mãe, que você jamais voltará a falar sobre o que nós descobrimos e fizemos.

Marco hesitou.

Uma mão segurou seu ombro, apertando até o osso.

— Jure para mim, meu filho, para o seu próprio bem.

Ele reconheceu o terror refletido nos olhos do pai, iluminados pelo fogo... e a súplica. Marco não pôde recusar.

— Eu guardarei segredo — prometeu afinal. — Até o meu leito de morte e além. É o que eu juro, meu pai.

O tio de Marco finalmente se juntou a eles, ouvindo por acaso o juramento do rapaz.

— Nós jamais deveríamos ter entrado ali, Niccolò — ele censurou o irmão, mas suas palavras acusatórias eram, na verdade, dirigidas a Marco.

Fez-se silêncio entre os três, carregado de segredos comuns. O tio dele tinha razão.

Marco imaginou o delta do rio quatro meses antes. O ribeirão negro desagua­va no mar, ladeado por densa folhagem e trepadeiras. Eles procuravam apenas renovar seus suprimentos de água doce enquanto dois navios eram consertados. Jamais deveriam ter se arriscado a ir mais longe, porém Marco ouvira histórias de uma grande cidade além das montanhas baixas. E, como o conserto dos navios deveria demorar dez dias, ele se arriscara, com quarenta homens do Khan, a subir as montanhas e ver o que havia além. Do topo de uma delas, Marco avistara uma torre de pedra nas profundezas da floresta, estendendo-se alta, brilhante à luz da aurora. Como sempre fora curioso, ela o atraiu como um farol.

O silêncio enquanto eles caminhavam pela floresta na direção da torre, no entanto, deveria tê-lo advertido. Não houvera nenhum som de tambores, como agora. Nenhum pio de aves, nenhum guincho de macacos. A cidade dos mortos simplesmente estivera à espera deles.

Foi um terrível erro penetrar na floresta.

E isso lhes custou mais do que apenas sangue.

Os três olharam fixamente enquanto as galeras ardiam lentamente na linha-d'água. Um dos mastros tombou como uma árvore cortada. Duas décadas atrás, pai, filho e tio haviam partido da Itália, sob a chancela do papa Gregório X, para se aventurar pelas terras dos mongóis, até os palácios e os jardins do Khan em Xanadu, onde haviam permanecido por tempo demais, como perdizes engaioladas. Como favoritos da corte, os três Polo se viram presos — não por correntes, mas pela imensa e sufocante amizade do Khan, incapazes de partir sem insultar seu benfeitor. Assim, finalmente se julgaram afortunados por estarem regressando a Veneza, liberados do serviço ao grande Kublai Khan para escoltarem a dama Kokejin até seu noivo persa.

Quem dera que a frota deles jamais tivesse partido de Xanadu...

O sol vai nascer logo — disse o pai de Marco. — Vamos embora. É hora de ir para casa.

E se chegarmos àquelas praias abençoadas, o que diremos a Teobaldo? — per­guntou Masseo, usando o nome original do homem, outrora amigo e defensor da família Polo, agora chamado de papa Gregório X.

Não sabemos se ele ainda está vivo — respondeu o pai. — Nós nos ausen­tamos por muito tempo.

Mas, e se ele ainda estiver vivo, Niccolò? — insistiu o tio.

Nós lhe contaremos tudo o que sabemos sobre os mongóis, seus costumes e suas forças, conforme fomos instruídos há tantos anos, de acordo com o edito dele. Mas sobre a praga aqui... não resta nada sobre o que falar. Acabou.

Masseo suspirou, mas havia pouco alívio em sua exalação. Marco interpretou as palavras por trás de sua profunda carranca.

A praga não havia ceifado a vida de todos aqueles que foram perdidos.

O pai repetiu com mais firmeza, como se falar fizesse com que as coisas sim­plesmente fossem assim.

— Acabou.

Marco ergueu o olhar para os dois homens mais velhos, seu pai e seu tio, emol­durados por cinza incandescente e fumaça contra o céu noturno. Aquilo jamais terminaria, não enquanto eles se lembrassem.

Marco olhou para os pés. Embora a marca tivesse sido removida da areia, ela ainda ardia intensamente por trás de seus olhos. Ele havia roubado um mapa pintado em cortiça laminada. Pintado com sangue. Templos e torres espalhados pela selva.

Todos vazios.

A não ser pelos mortos.

O chão estava coberto de pássaros, caídos nas praças de pedra como se tivessem sido atingidos no céu em pleno vôo. Nada fora poupado. Homens, mulheres e crianças. Bois e animais do campo. Até mesmo grandes serpentes pendiam frouxas dos galhos das árvores, com a carne cheia de furúnculos embaixo das escamas.

Os únicos habitantes vivos eram as formigas.

De todos os tamanhos e cores.

Fervilhando em pedras e corpos, elas lentamente devoravam os mortos. Mas ele estava errado... alguma coisa ainda aguardava o pôr-do-sol.

Marco repeliu aquelas lembranças.

Ao descobrir o que Marco roubara de um dos templos, seu pai queimou o mapa e espalhou as cinzas no mar. Ele fez isso antes mesmo de o primeiro homem a bordo dos navios adoecer.

— Esqueçamos isso — advertiu então seu pai. — Isso não tem nada a ver co­nosco. Deixemos que seja tragado pela História.

Marco honraria sua palavra, seu juramento. Jamais falaria sobre aquela história. Todavia, ele tocou uma das marcas na areia. Aquele que havia narrado tanto... era certo destruir aquele conhecimento?

Se houvesse outra forma de preservá-lo...

Como que lendo os pensamentos de Marco, seu tio Masseo expressou em voz alta os temores de todos eles.

- E se o horror ressurgir, Niccolò, será que algum dia chegará às nossas praias?

- Se isso acontecer, será o fim da tirania humana neste mundo — respondeu o pai com amargura. Ele bateu de leve no crucifixo sobre o peito nu de Masseo. — O frei estava mais bem informado do que todos nós. Seu sacrifício...

A cruz pertencera outrora ao frei Agreer. Na cidade amaldiçoada, o dominicano dera sua vida para salvar a deles. Eles haviam feito um pacto sinistro. Haviam-no deixado lá, haviam-no abandonado, cumprindo uma ordem dele.

O sobrinho do papa Gregório X.

Marco sussurrou enquanto as últimas chamas se extinguiam nas águas escuras.

— Que Deus nos salvará da próxima vez?


 22 de maio, 18:32h

Oceano Índico 

10°44'07.87"S / 105°11'56.52"E
— Quem está a fim de outra garrafa de Fosters? Aproveitem enquanto estou aqui embaixo! — gritou Gregg Tunis do convés inferior.

A dra. Susan Tunis sorriu ao ouvir a voz do marido enquanto passava da es­cada de mergulho para o convés aberto na popa. Ela tirou seu colete equilibrador e arrastou o equipamento de mergulho até a prateleira atrás da cabine do piloto do iate de pesquisa. Seus tanques tilintaram quando ela os colocou na prateleira ao lado dos outros.

Livre do peso, ela pegou a toalha do ombro e secou os cabelos louros, quase brancos de tão descorados pelo sol e pelo sal. Assim que terminou, abriu o zíper de seu traje úmido com um único e longo puxão.

— Iabadabadu... iabadabadu... — os gritos ecoaram de uma espreguiçadeira atrás dela.

Ela nem sequer olhou para trás. Era óbvio que alguém passara tempo demais nos clubes de strip-tease de Sydney.

— Professor Applegate, o senhor precisa sempre fazer isso quando estou tirando meu equipamento de mergulho?

O geólogo de cabelos grisalhos, com um livro sobre história marítima aberto no colo, equilibrou os óculos de leitura no nariz.

— Não seria nem um pouco cavalheiresco ignorar a presença de uma jovem saudável se livrando de tanta roupa.

Ela sacudiu com os ombros o traje de mergulho e baixou-o até a cintura, exi­bindo o maio. Aprendera da maneira mais difícil que o sutiã do biquíni tinha a tendência de soltar-se com um traje úmido. E, embora não se importasse que o professor aposentado, trinta anos mais velho do que ela, a devorasse com os olhos, ela não lhe proporcionaria aquele show gratuito.

Seu marido subiu com três garrafas de cerveja suando, presas entre os dedos de uma das mãos, e abriu um enorme sorriso ao vê-la.

— Eu pensei ter ouvido você se chocando contra alguma coisa aqui em cima.

Ele subiu para o convés, alongando o corpo alto. Usava apenas um calção de banho branco Quicksilver e uma camisa folgada e desabotoada. Empregado como mecânico de barcos em Darwin Harbor, ele e Susan haviam se conhecido oito anos antes, durante um dos consertos em dique seco em outro barco da Uni­versidade de Sydney. Apenas três dias atrás, eles haviam comemorado o quinto aniversário de casamento a bordo do iate, ancorado a 100 milhas náuticas do atol de Kiritimati, mais conhecido como ilha Christmas.

Ele passou uma garrafa para ela.

— Você teve sorte com as sondagens?

Ela tomou um longo gole da cerveja, apreciando a umidade. A sucção num bocal salgado a tarde inteira deixara sua boca pastosa.

— Até agora não. Ainda não consegui encontrar uma origem dos encalhes.

Dez dias atrás, oitenta golfinhos Tursiops aduncus, uma espécie do oceano Ín­dico, haviam encalhado ao longo da costa de Java. A pesquisa dela se concentrava nos efeitos de longo prazo da interferência dos sonares em espécies de cetáceos, a origem de muitos encalhes suicidas no passado. Em geral, sempre havia uma equipe de assistentes de pesquisa com ela, um misto de estudantes de graduação e pós-graduação, mas ela viajara em férias até ali com seu velho mentor. Fora pura coincidência o fato de aquele encalhe maciço ter ocorrido na região — daí a prorrogação da estada no local.

- Poderia ser alguma outra coisa que não o sonar fabricado pelo homem? — ponderou Applegate, desenhando círculos com a ponta do dedo na condensação de sua garrafa de cerveja. — Microterremotos estão constantemente sacudindo a região. Talvez um terremoto de subdução em alto-mar tenha atingido a nota tonal certa para fazê-los entrar em pânico suicida.

- Houve aquele horrível terremoto alguns meses atrás — disse o marido dela. Ele se acomodou numa espreguiçadeira ao lado do professor e bateu de leve no assento para que ela se sentasse com ele. — Não seriam, talvez, alguns terremotos secundários?

Susan não pôde argumentar contra as opiniões deles. Entre a série de intensos terremotos nos últimos dois anos e o grande tsunami na área, o fundo do mar fora muito agitado. Isso era o suficiente para assustar qualquer um. Porém, ela não estava convencida. Alguma outra coisa estava acontecendo. O recife abaixo estava estranhamente deserto. Parecia que as pequenas formas de vida que estavam lá embaixo haviam se retirado para nichos nas rochas, conchas e buracos na areia. Era quase como se a vida marinha ali estivesse em expectativa.

Talvez as criaturas sensíveis estivessem reagindo a microterremotos.

Ela franziu o cenho e juntou-se ao marido. Enviaria uma mensagem pelo rádio para a ilha Christmas a fim de verificar se eles haviam detectado qualquer atividade sísmica incomum. Até então, a dra. Tunis tinha notícias que seguramente fariam seu marido entrar na água de manhã.

— Eu descobri o que parecem ser os restos de um antigo naufrágio.

— Não pode ser. — Ele sentou-se empertigado. Em Darwin Harbor, Gregg oferecia excursões aos navios de guerra naufragados durante a Segunda Guerra Mundial que se espalhavam pelos mares próximos à costa norte da Austrália. Ele tinha um ávido interesse nessas descobertas. — Onde?

Ela apontou distraidamente para trás, para além do outro lado do iate.

— A cerca de 100 metros a estibordo de onde estamos. Algumas vigas, negras e que se projetam diretamente da areia. Provavelmente ficaram livres durante o último grande terremoto, ou, talvez, foram expostas quando o lodo que as cobria foi removido durante a passagem do tsunami. Não tive muito tempo para explorar. Acho melhor deixar isso para um perito.

Ela deu um beliscão nas costelas dele e voltou a reclinar-se em seu peito.

Em grupo, eles observaram o sol desaparecer no mar com um último brilho tímido. Era o ritual deles. Exceto em caso de tempestade, eles jamais perdiam um pôr-do-sol quando estavam no mar. O barco oscilava suavemente. A grande distân­cia, algumas luzes de um navio-tanque que passava brilhavam intermitentemente. Mas, por outro lado, estavam sozinhos.

Um latido agudo assustou Susan, fazendo-a estremecer. Ela não sabia que ainda estava um pouco tensa. Aparentemente, o comportamento estranho e cauteloso da vida no recife abaixo a havia contagiado.

— Ei! Oscar! — gritou o professor.

Só então Susan deu falta do quarto tripulante do iate. O cão tornou a latir. O atarracado cão pastor de Queensland pertencia ao professor. Já velho e um pouco artrítico, ele costumava ser encontrado esparramado em qualquer nesga de luz do sol que pudesse encontrar.

— Eu vou me encarregar dele — disse Applegate. — Vou deixar os dois pombi­nhos aconchegados. Além disso, eu poderia fazer algo que estimule a mente. Deixar um pouco mais de espaço para outra Fosters antes de ir dormir.

O professor gemeu enquanto se levantava e seguiu para a proa, com a intenção de dar a volta para o outro lado, mas parou e olhou fixamente para o leste, para o céu mais escuro.

Oscar voltou a latir.

Applegate não o repreendeu dessa vez. Em vez disso, chamou Susan e Gregg com a voz baixa e séria.

— Venham ver isso.

Susan levantou-se rapidamente, seguida por Gregg, e os dois juntaram-se ao professor.

— Puta que pariu... — murmurou seu marido.

— Acho que você descobriu o que expulsou aqueles golfinhos do mar — disse Applegate.

Ao leste, uma ampla faixa do oceano brilhava com uma luminescência fantas­magórica, erguendo-se e baixando com as ondas. O brilho prateado revolvia-se e turbilhonava. O velho cão ficou em pé junto à amurada de estibordo e latiu, mas seu latido foi se transformando num rosnado baixo diante da visão.

— Que diabo é aquilo? — perguntou Gregg.

Susan respondeu enquanto se aproximava.

Já ouvi falar dessas manifestações. Elas são chamadas de mar luminoso. Navios relatam brilhos como esse no oceano Índico desde a época de Júlio Verne. Em 1995, um satélite chegou a registrar uma das florações, que cobria centenas de milhas quadradas. Essa é uma pequena.

- Pequena uma ova! — resmungou seu marido. — Mas o que é isso exatamente? Algum tipo de maré vermelha?

Ela sacudiu a cabeça.

— Não exatamente. Marés vermelhas são florações de algas. Esses brilhos são causados por bactérias bioluminescentes, que provavelmente se alimentam de algas ou de algum outro substrato. Não há perigo. Mas eu gostaria de...

Eles ouviram uma súbita pancada embaixo do barco, como se alguma coisa grande o tivesse atingido vindo de baixo. Os latidos de Oscar intensificaram-se. O cão dançava para a frente e para trás ao longo da amurada, tentando enfiar a cabeça através das grades.

Todos os três juntaram-se ao cão e olharam para baixo.

A extremidade brilhante do mar luminoso envolveu a quilha do iate. Vinda das profundezas, uma grande forma tornou-se visível, de barriga para cima, mas ainda se contorcendo, os dentes rangendo. Era um enorme tubarão-tigre, com mais de seis metros de comprimento. As águas brilhantes espumavam sobre a sua forma, borbulhando e transformando a água leitosa em vinho tinto.

Susan deu-se conta de que não era a água que borbulhava sobre a barriga do tubarão, mas sua própria carne, desfazendo-se em grandes pedaços. A visão horrível afundou. Mas, através do mar luminoso, outras formas vieram à superfície, debatendo-se ou já mortas: toninhas, tartarugas, centenas de peixes.

Applegate afastou-se da amurada.

Parece que essas bactérias encontraram mais do que apenas algas para se alimentar.

Gregg virou-se para a esposa.

— Susan...

Ela não conseguia desviar os olhos daquela cena terrível. Apesar do horror, ela não podia negar uma pontada de curiosidade científica.

— Susan...

Ela afinal se voltou para ele, ligeiramente irritada.

— Você mergulhou — ele explicou e apontou — nessa água o dia todo.

— E daí? Todos nós estivemos na água pelo menos por algum tempo. Até Oscar nadou um pouco.

O marido não a olhou nos olhos. Ele continuou concentrado no ponto em que ela estava coçando o antebraço. O traje úmido às vezes lhe esfolava os membros. Mas a preocupação no rosto tenso dele atraiu a atenção dela para seu antebraço. Sua pele estava áspera, com uma grave erupção, que havia piorado com o ato de coçar.

Enquanto ela olhava fixamente, vergões vermelhos como equimoses brotaram-lhe na pele.

— Susan...

Ela ficou boquiaberta de descrença.

— Deus do céu...

Ela, porém, também soube da horrível verdade.

— Isso... isso está em mim.







capítulo 1



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