A postura Corporal nos Programas de Educação Física



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Texto de apoio ao curso de Especialização

Atividade física adaptada e saúde

Prof. Dr. Luzimar Teixeira

A Postura Corporal nos Programas de Educação Física
TEIXEIRA, L.R. & VANÍCOLA, M.C. A Postura Corporal nos Programas de Educação Física.Revista da Escola Superior de Educação Física de Pernambuco.v.1,n.1, ( 7 – 14), 2001

Resumo

A postura corporal faz parte do conteúdo de ensino da maioria dos programas de Educação Física Escolar e não-escolar. Apesar disto, estudos epidemiológicos têm demonstrado que uma grande parcela da população sofre com patologias associadas à má postura corporal. Os professores de Educação Física necessitam ter um maior acesso à conhecimentos atualizados da mecânica corporal, das sobrecargas impostas a coluna vertebral e do controle motor associados a postura, o que possibilitará a criação de novas estratégias no desenvolvimento deste tema em aula. Desta forma, aspectos teóricos relevantes da postura corporal e sugestões para aplicação prática dos conceitos são abordados neste artigo.


Abstract
Statistics have shown in the last years that the number of people suffering from postural disorders in the society is too high. The knowledge about body mechanics, motor control e loads in the spine involved in the complex area of human posture, has evolved a lot recently. It will allow Physical Education teachers with new strategies to improve classes about this subject. In this paper, relevant aspects of human posture are presented and practical suggestions are made to help teachers.


Palavras-chave: Educação Física, postura e prevenção

  1. Introdução

Dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia indicam que atualmente, as lombalgias representam a segunda maior causa de afastamento do trabalho. Este e outros problemas posturais estão associados a diversos fatores, como o sedentarismo, os postos de trabalho mal adaptados e o stress. Acredita-se, entretanto, que a aquisição de conhecimentos a respeito da postura corporal em suas diversas dimensões pode minimizar o efeito destes problemas na idade adulta, como tem demonstrado a escola de postural ou escola de coluna.

A escola postural é um programa de reabilitação realizado em instituições de saúde, que procura ensinar aos pacientes como lidar com sua dor no cotidiano, através do conhecimento da etiologia de sua dor, da modificação de hábitos posturais e da prática de exercícios físicos compensatórios (KNOPLICH ,1986). Durante as aulas, os pacientes aprendem noções de anatomia e biomecânica da coluna vertebral, além de aspectos relacionados à patologia e à dor. Os pacientes realizam exercícios físicos compensatórios de alongamento e de relaxamento. As escolas de posturas surgiram desde a década de sessenta na Europa e algumas pesquisas têm evidenciado a eficiência destes programas (HURRI, 1989; SCHUCH, 2000). Na área preventiva os programas de Educação Física deveriam assumir este papel de educação postural dos indivíduos.

Apesar da postura corporal ser sempre citada nos conteúdos da Educação Física, nota-se que este aprendizado não tem sido muito eficiente, haja vista o grande número de pessoas que apresentam lombalgias, tensões cervicais e maus hábitos posturais na idade adulta. Esta falta de conhecimentos a respeito da postura corporal pode estar associada ao próprio currículo de graduação em Educação Física, que muitas vezes apresenta de forma inconsistente temas referentes a postura para os futuros professores e também à própria aula de Educação Física Escolar, onde são enfatizados jogos e atividades esportivas, em detrimento da utilização de temas como noções sobre o corpo e cultura corporal.

Em contrapartida, verifica-se que o estudo de aspectos relacionados a postura corporal humana evolui constantemente nas diversas áreas do conhecimento humano fornecendo subsídios para os profissionais da educação e saúde. Em comportamento motor, pesquisas são direcionadas ao entendimento dos mecanismos que envolvem o controle postural em toda sua complexidade. Na biomecânica, são analisadas as oscilações do centro de pressão na manutenção da postura ereta, assim como caracterizações da sobrecarga imposta a coluna e outros segmentos corporais na manutenção da posição estática. Estudos em reabilitação têm apresentado bons resultados no tratamento de desvios posturais com biofeedback.

Este ensaio procura suprir alguns conhecimentos fundamentais sobre a postura corporal que podem ser aplicados a Educação Física Escolar e a programas de Educação Física não-escolares, além de apresentar sugestões a respeito de estratégias que podem ser utilizadas pelo professor na abordagem destes conteúdos em suas aulas.


Postura Corporal
A postura corporal, definida por LEHMKUHL (1989) como uma posição ou atitude do corpo, o arranjo relativo de suas partes para uma atividade específica, ou a maneira característica de alguém sustentar seu corpo é conteúdo das aulas de Educação Física escolar. Isto pode ser verificado através dos parâmetros curriculares nacionais (PCNS) para a Educação Física no ensino fundamental, por exemplo, que apresenta a postura corporal como conteúdo referente a conhecimentos sobre o corpo. Neste documento fica estabelecido que bons hábitos posturais e atitudes corporais eficientes devem ser ensinados nas aulas regulares de Educação Física para crianças de sete a quatorze anos (MEC, 1997). Entretanto, a preocupação com o conteúdo de postura corporal nos currículos de Educação Física escolar não é tão recente. Em 1994, o Ministério da Educação e do Desporto juntamente com a Unicamp lançou uma cartilha sobre educação postural para os professores de Educação Física do ensino público. A idéia central do documento era trazer mais informações para o professor de Educação Física, já que a cartilha continha informações a respeito de fatores biológicos, sociais e culturais relativos a postura.(MEC, 1994).

Nos próximos tópicos deste ensaio serão analisados os diversos aspectos da postura corporal, com o intuito de auxiliar através de fundamentos teóricos e exemplificações, como o tema educação postural pode e deve inserir-se nos programas de Educação Física.



1. Sistema Musculoesquelético no controle postural.
De acordo com WOOLLACOTT (1995), o controle postural caracteriza-se pelo controle da posição do corpo para o propósito de orientação e estabilidade. Estas duas tarefas dependem de uma complexa interação dos sistemas musculoesquelético e neural. É necessário compreender como estes mecanismos atuam no estabelecimento da postura corporal para que o professor de Educação Física possa desenvolver estratégias de aula que possibilitem um desenvolvimento e manutenção de posições corporais mais eficientes e que determinem menores desgastes para o aparelho locomotor.


  1. Alinhamento de Estruturas Corporais

Muitos fatores estão envolvidos na determinação da atitude postural de um indivíduo. RASCH (1973) destaca entre eles, a existência de traumatismos, hábitos, debilidades musculares, herança e atitude mental. A estrutura morfológica da coluna vertebral é outro fator que, segundo AMADIO (1995), determina diferenças posturais entre indivíduos. Para KENDALL (1993), variações nas formas corporais causam instabilidade, dificultando não somente a manutenção da postura, bem como o deslocamento do corpo.

Apesar das diferenças individuais, acredita-se que do ponto de vista fisiológico existe uma boa postura para cada indivíduo e que esta é caracterizada por um alinhamento corporal que determina uma máxima eficiência fisiológica e biomecânica do organismo (WHELLER apud MORO, 1994). O alinhamento de estruturas corporais refere-se ao alinhamento de alguns centros articulares em relação a linha da gravidade. Segundo KENDALL (1995), quando há um alinhamento ideal de determinadas estruturas anatômicas, o corpo apresenta sua eficiência máxima com um mínimo de stress e esforço. Quando não há um alinhamento adequado de certas estruturas do corpo, surgem os desvios posturais como hipercifoses e escolioses, acarretando sobrecargas maiores em alguns segmentos corporais para compensar a disfunção de outros. Além disso, ocorre um aumento de tensão, maior gasto energético e redução da percepção, diminuindo assim a eficiência do uso do corpo (GONÇALVES, 1989).

De acordo com diversos autores (ADAMS, 1978; MATHEWS, 1980; DANIELS, 1983; KENDALL, 1995; WOOLLACOTT, 1995), o corpo mantém-se mais equilibrado se a projeção da linha de gravidade numa pessoa na posição ereta, passar sobre o centro de algumas articulações. No plano sagital são considerados os seguintes centros articulares para o alinhamento: o lóbulo da orelha na cabeça; o centro da articulação nos ombros; o centro da articulação no quadril; um ponto posterior à patela no joelho e um ponto anterior ao maléolo da fíbula no pé. No plano frontal, numa vista posterior, os pontos considerados são: a linha média do corpo, o centro da cabeça, o centro das protuberâncias espinhosas das vértebras, as pregas glúteas e um ponto eqüidistante nas extremidades inferiores (ADAMS, 1985).

Além de facilitar o equilíbrio estático, o alinhamento corporal pode determinar um menor gasto energético e um menor desgaste articular de todo o aparelho locomotor na manutenção da postura. PAUWELS (1980) explica porque o alinhamento de certas estruturas corporais é importante em termos de sobrecarga para o organismo. De acordo com este autor, se o corpo está equilibrado na sua linha de gravidade, as cargas impostas ao aparelho locomotor são distribuídas e anuladas, mas se o corpo está fora de alinhamento ocorrerá mais sobrecarga numa região provocando danos para determinadas estruturas. Woolacott (1995) também argumenta que um alinhamento ideal na posição estática, permite que o corpo seja mantido em equilíbrio com um menor gasto energético interno. LEMKHUL (1989) cita que o alinhamento esquelético pode indicar o alongamento ou encurtamento muscular, desequilíbrios de forças entre as musculaturas agonistas e antagonistas ou defeitos esqueléticos que promovem estas mudanças musculares.
1.2. O Professor de Educação Física e o alinhamento corporal
Em sua atuação profissional, o professor de Educação Física pode desenvolver atividades de avaliação do alinhamento corporal dos alunos e atividades que contribuam para a otimização deste alinhamento.Em relação a avaliação é interessante observar que em alguns países como o Japão e os Estados Unidos o teste de flexão do quadril para verificar incidência de escoliose em escolares foi instituído como uma triagem obrigatória nas escolas (SANTOS, 1988).

Neste exame, as crianças flexionam o tronco, mantendo os pés unidos, os joelhos estendidos e as mãos unidas à frente do tronco. A partir desta posição, o avaliador observa a coluna, comparando o lado direito e o lado esquerdo para verificar a existência ou não de uma assimetria. (ROTHMAN, 1992). Na existência de assimetria, o aluno é encaminhado para um exame radiológico. O estudo de NISSEN (1993), verificou uma grande correlação entre o teste realizado na escola com o surgimento da escoliose idiopática do adolescente anos depois, demonstrando a importância desta avaliação para a prevenção e a possibilidade de um tratamento conservativo mais precoce.

Além da avaliação da escoliose, o alinhamento corporal pode ser verificado através de diferentes instrumentos e medidas, como tem sido observado nos estudos realizados no Brasil com escolares (BRIGHETTI, 1986; GONÇALVES, 1989; ROSA NETO, 1991; PINHO, 1995). Estes estudos geralmente analisam a postura estática da criança, procurando verificar qual desvio postural é mais encontrado naquela população especificamente.

Em relação a otimização do alinhamento corporal, os professores de Educação Física devem estimular a prática de exercícios de alongamento e de resistência muscular localizada para as regiões do corpo onde encurtamentos e falta de resistência muscular são mais comuns. A prática bilateral de habilidades esportivas deve ser estimulada também pois alguns trabalhos têm verificado uma possível tendência a desvios laterais da coluna quando um membro é mais solicitado do que o outro. De acordo com WATSON (1997), esportes como tênis e remo estão associados com uma alta incidência de escolioses, ombros assimétricos e coluna assimétrica, sendo necessários uma compensação para que estas alterações sejam minimizadas.


2.Sobrecargas mecânicas.
O aparelho locomotor humano está constantemente exposto às sobrecargas mecânicas que são geradas pelas atividades que ele realiza. A própria manutenção de posturas inadequadas por um longo período de tempo pode significar aumento da sobrecarga imposta a alguma estrutura corporal. Quando estas sobrecargas são de grande magnitude, o aparelho locomotor pode sofrer danos como fraturas e lesões. Neste ensaio serão abordados os principais tipos de sobrecarga mecânica a que está exposta a coluna lombar, devido a grande incidência de lombalgias e hérnias de disco que surgem nesta região da coluna vertebral, na população de adultos em idade ativa.



  1. Coluna lombar.

No mundo todo, as lombalgias representam um grave problema de saúde pública, gerando um grande ônus aos setores previdenciário e de saúde, que arcam com os custos de reabilitação e de readaptação dos cidadãos ao seu local de trabalho. No Brasil, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia, as lombalgias são a segunda maior causa de afastamento do trabalho.

Existem muitos fatores que explicam esta alta incidência de dores na região lombar. De acordo com KAPANDJI (1980), a idade está diretamente ligada ao aumento da propensão as dores lombares. O envelhecimento do tecido que compõe o disco intervertebral, torna-o menos espesso devido a alterações em sua nutrição normal, o que determina a diminuição da capacidade deste disco de suportar cargas. PANJABI (1997), afirma que as dores ocorrem principalmente na região lombar porque esta coluna suporta cargas geradas pelo peso corporal superposto, interagindo com forças adicionais geradas por levantamentos de pesos e outras atividades que envolvem forças poderosas dos músculos lombares. Então, hábitos posturais incorretos que podem determinar um aumento da sobrecarga na coluna lombar estão diretamente relacionados a uma exposição mais precoce do indivíduo às dores nesta região. Torna-se importante verificar quais são as posturas corporais e os exercícios físicos que geram maior sobrecarga para a coluna lombar, para que o professor de Educação possa prevenir o surgimento de dores nesta região em seus alunos.
2.1.1. Sobrecarga na coluna lombar durante atividades cotidianas.


  • Sobrecarga ao sentar-se.

A pressão no disco intervertebral lombar aumenta significativamente quando, ao sentar-se, a pessoa inclina o tronco a frente e trabalha sem apoiar os membros superiores. A menor sobrecarga no disco lombar é verificada na posição sentada com o apoio das costas a uma inclinação de 120o e quando há, além disso, um suporte específico para a coluna lombar de 5 centímetros. (ANDERSSON, 1977)



  • Sobrecarga ao ficar em pé.

Na posição em pé, há um aumento da sobrecarga em relação à posição deitada e esta é maior ainda quando ocorre uma inclinação do tronco à frente ao carregar-se um peso. Em situações onde a posição em pé deve ser inevitavelmente mantida por alguns minutos, PANJABI (1990) sugere que uma das pernas seja apoiada numa superfície a alguns centímetros do chão. Nesta posição, ocorre uma flexão do quadril e consequentemente, a redução da tensão do músculo psoas e da lordose lombar, resultando numa compressão menor da coluna lombar.


  • Outras atividades:

  • Carregar pesos:

De acordo com PANJABI (1990) quando se carrega um peso longe do eixo principal do corpo, o braço de alavanca para a realização do movimento aumenta, gerando em contrapartida maior sobrecarga nos discos lombares, para que o movimento seja realizado. Desta forma, quanto mais próximo o peso a ser carregado estiver próximo do corpo, menos sobrecarga será imposta à coluna lombar.

2.1.2. Sobrecarga na coluna lombar durante a realização de exercícios físicos

Nachemson (1981), realizou um estudo muito interessante a respeito das forças internas a que estão expostos os discos intervertebrais lombares, em diferentes posturas cotidianas e também em posições corporais utilizadas na realização de exercícios físicos. Neste estudo foram inseridos transdutores de força no terceiro disco lombar dos sujeitos, que deveriam realizar diferentes tarefas. Este autor mostra, por exemplo, que o exercício abdominal clássico de flexionar o tronco a partir da posição deitada, com os joelhos flexionados apresenta uma sobrecarga significativa para o disco intervertebral em relação a outros movimentos como até mesmo um salto.

O quadro 1 apresentado abaixo, reúne os principais resultados dos trabalhos de Nachemson a respeito da sobrecarga no disco intervertebral em diferentes posições corporais.
Sobrecarga no terceiro disco lombar durante várias posições e atividades
Atividade Sobrecarga (N)

Permanecendo em pé 700

Andando 850

Flexionando o tronco lateralmente 950

Sentando ereto, sem suporte 1000

Tossindo 1100

Exercício Isométrico para músculos abdominais 1100

Saltando 1100

Rindo 1200

Hiperextensão ativa da coluna, pronada 1500

Exercício abdominal com pernas estendidas 1750

Exercício abdominal com pernas flexionadas 1800

Flexionar o tronco 20o com 10 kg em cada mão 1850

Leavantamento de 20 kg, coluna reta, joelhos flexionados 2100

Levantamento de 20 kg, coluna flexionada, joelhos estendidos 3400
Quadro 1. Sobrecargas no Disco Lombar (adaptado de Panjabi,1990)

2.1.3. O professor de Educação Física e as sobrecargas da coluna lombar


A partir de conhecimentos anatômicos, fisiológicos e biomecânicos da coluna vertebral, o professor de Educação Física deve criar estratégias que contemplem as necessidades de realização de movimentos da faixa etária com que atua, sem criar sobrecargas excessivas para a coluna vertebral de seus alunos. Assim, o professor de Educação Física deve incluir em sua aula, exercícios compensatórios às solicitações mecânicas exigidas pelos movimentos realizados naquela sessão. Alongamentos de músculos paravertebrais, exercícios de tração e relaxamento são muito adequados para minimizar a sobrecarga da coluna vertebral, principalmente na região lombar. Para grupos de terceira idade, isto torna-se mais necessário ainda, já que há uma grande correlação entre nutrição do disco intervertebral e idade. Para estes grupos e para pessoas que já apresentam dores na região lombar, além dos exercícios compensatórios deve-se evitar também os movimentos que geram maior sobrecarga.

Segundo KISNER (1998), os bons hábitos posturais são importantes nos adultos para evitar síndromes dolorosas posturais e nas crianças para evitar sobrecargas anormais nos ossos em crescimento e alterações adaptativas em músculo e tecido mole. Então, para todos os grupos, é indispensável que o professor de Educação Física ensine bons hábitos posturais para situações do cotidiano, como por exemplo, qual a melhor posição corporal para dormir, para carregar pesos, para manter-se em pé e outras. A mecânica corporal correta destas posturas corporais deve ser realizada em aula, para que o professor possa corrigir possíveis erros e para que seja feita uma adequação dos diferentes padrões de movimento de cada aluno. Além disso, o professor de Educação Física pode colaborar na adaptação do ambiente escolar e da casa dos alunos, verificando possíveis adaptações das carteiras escolares e do mobiliário de casa, como mesas do computador, sofás, cadeiras e colchões.


3. Controle postural

A tarefa de controle postural envolve o controle da posição corporal no espaço para o propósito de estabilidade e orientação, o que requer uma integração da informação sensorial para acessar a posição e o movimento do corpo no espaço e a habilidade para gerar forças que controlem esta posição (WOOLACOTT, 1995).


3.1. Ativação muscular nas posturas estáticas.
BASMAJIAN (1985) realizou diversos estudos com eletromiografia para entender o comportamento dos músculos em diversos movimentos e posturas corporais. Numa análise da postura ereta vertical do ser humano foi verificado que alguns grupos musculares mantém uma certa dureza (stiffness) que é mantida através de uma ativação muscular constante de algumas musculaturas. Quando parados em pé, a maioria dos sujeitos requer pouca atividade e às vezes somente uma atividade reflexa intermitente dos músculos intrínsecos da coluna. (BASMAJIAN, 1985). Portanto, a fadiga de manter-se em pé não é devida a constante ativação muscular. Na posição sentada, verificou-se que na maioria dos sujeitos, os músculos lombares estão inativos durante o sentar relaxado mas mostram alguma atividade no sentar-se reto e na posição em pé.

3.2 Informações sensoriais no controle postural.

Os sistemas sensoriais são um conjunto de sistemas neurais cuja função é detectar alterações que ocorrem no ambiente e no próprio corpo, gerando informações que permitam sua identificação e medida (AIRES, 1988). Cada um dos sistema sensoriais constitui um canal diferenciado para detectar uma modalidade específica de alteração. As informações sensoriais que controlam a manutenção das posições corporais, advém dos receptores visuais, dos receptores musculares, tendinosos e articulares e do aparelho vestibular.

Segundo TEIXEIRA (1993) os receptores visuais fornecem informações sobre o ambiente e também sobre o próprio corpo pois estabelecem qual é a posição dos olhos e, consequentemente, qual é a posição da cabeça e do corpo no espaço. O aparelho vestibular, por sua vez, indica a posição do corpo em relação a força da gravidade e a aceleração linear da cabeça e sua inclinação. Já os receptores musculares são as fibras intrafusais, que se localizam no próprio ventre muscular mas são sensitivas ao estiramento muscular e sua magnitude. Os receptores tendinosos, ou órgãos tendinosos de Golgi detectam e sinalizam a tensão num tendão e os receptores articulares parecem atuar mais efetivamente quando ocorrem posições extremas de flexão e extensão. Estas informações sensoriais, também chamadas de feedback, são determinantes para a aprendizagem motora, pois é através destas informações que o executante reconhece e compara o movimento realizado com o movimento esperado e assim garante as correções na próxima execução deste movimento.

Para TEIXEIRA (1993), a postura também passa por um processo de aprendizagem. Segundo este autor, no estágio inicial de aquisição de uma postura, ainda não há um programa motor bem formado indicando os pontos de equilíbrio entre os músculos agonistas e antagonitas dos diversos segmentos corporais envolvidos. Esta condição impõe um controle consciente dos graus de liberdade que fazem parte desta postura, exigindo que toda correção seja elaborada pelos mecanismos centrais de processamento, ou seja, através de processos cognitivos conscientes. A partir da prática, o controle postural passa a ser mais automatizado e os ajustes para esta postura são controlados abaixo do nível consciente, através de mecanismos reflexivos. Quando um executante tem que aprender uma nova postura, como por exemplo, a posição invertida da ginástica artística, provavelmente ele terá que passar pelo estágio mais consciente de controle postural, pois aquela postura é ainda nova para ele.


3.3 O professor de Educação Física e o controle postural
Com relação aos mecanismos de controle postural, o professor de Educação Física deve conhecer quais são estes mecanismos e de que forma atuam, para poder utilizar melhor o feedback como estratégia de aprendizagem, tanto para o ensino de posturas de difícil execução, como a parada de mãos na ginástica artística, como na melhoria do padrão da postura ereta do aluno.

É interessante observar que muitos autores da área de reabilitação (KISNER, 1998; BASMAJIAN, 1987; LEMKHUL, 1989) sugerem procedimentos para treinar percepção cinestésica e proprioceptiva para a correção postural. Isto nada mais é do que estimular os pacientes a executarem diferentes posições corporais e a reconhecerem, através das sensações proprioceptivas as posições mais equilibradas, alinhadas e confortáveis para o corpo. Neste caso, os indivíduos aprendem uma nova postura corporal. O professor de Educação Física deve também possibilitar esta aprendizagem em suas aulas. Através da realização de diversos movimentos da coluna vertebral, o aluno melhora sua consciência corporal e descobre os movimentos que provocam desconforto. Outra estratégia é a execução de diversas tarefas que exijam equilíbrio corporal e a manipulação dos receptores sensoriais envolvidos na postura como os visuais, os táteis e os auditivos. A idéia é que o aluno passe pelo maior número de posturas possíveis com e sem o auxílio de seus sistemas sensoriais para que ele aprenda a controlar sua postura de diversas maneiras e através de diferentes canais de sensação.

Ainda na área de reabilitação, encontram-se estudos onde o biofeedback ou bio-retroalimentação é utilizado no tratamento de desvios posturais como as escolioses. Segundo BASMAJIAN (1989) biofeedback é a técnica de utilizar-se um equipamento, usualmente eletrônico, para revelar aos seres humanos, alguns de seus eventos fisiológicos internos, normais e anormais na forma de sinais visuais e auditivos de forma a ensiná-los a manipular estes eventos involuntários ou insensíveis através da manipulação dos sinais emitidos. Para este mesmo autor, é conservador dizer que a estabilidade postural e os movimentos voluntários normais dependem de uma retroalimentação cinestésica exata (que pode incluir informação proveniente tanto de receptores tácteis como de estiramento, uma vez que é possível controlar a posição dos membros baseando-se estritamente em sensações tácteis.).

Um estudo muito interessante foi realizado por DWORKIN (1985), que utilizou um artefato de biofeedback que proprocionava informação contínua sobre a postura em crianças escolióticas. O artefato era composto por um circuito integrado que produzia um tom audível quando uma postura incorreta era assumida por mais de 20 segundos. Este tom ficava mais alto se a criança mantinha a postura incorreta por mais de 20 segundos. Os resultados indicaram, que a média da mudança foi de um grau na melhoria no ângulo da escoliose medido, determinando a interrupção da progressão do desvio. BIRBAUMER (1994), encontrou resultados semelhantes com indivíduos cifóticos no uso do biofeedback para a minimização da curva.



Desta forma, fica ainda mais evidente que as informações sensoriais relevantes no controle postural devem ser estimuladas pelo professor de Educação Física através realização de atividades que estimulem a propriocepção da postura corporal e através do próprio feedback que o professor dá ao aluno quando ele executa tarefas onde a postura corporal é o enfoque principal.
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