A primeira dama do samba



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Encontro16.01.2018
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A primeira dama do samba



     Nascida em 15 de outubro de 1979, Ana Paula da Silva, que no mundo da música virou simplesmente "Aninha" um ícone na cidade quando o assunto é MPB e Samba. Ela sabe - como poucos - compreender a essência de cada canção.  Suas interpretações trazem muito mais que música. Trazem  poesia e sentimento. Aninha atendeu a equipe do programa Chora Cavaco para esta entrevista na terça-feira, dia 18 de novembro às 21:40. Logo após sua apresentação no Shopping Cidade das Flores, onde dá uma amostra de todo seu talento nas terças-feiras a partir das 18:30 horas.

     Simpática, alegre e extremamente sincera em suas respostas, Aninha provou que nem todo músico tem o ego maior que o coração. Sim. Porque ela faz música com o coração. Com a alma. Por isso ela é tão feliz no que faz. Confira abaixo uma pequena amostra de como é, e o que sente essa linda joinvilense que tem samba na veia e poesia no coração.



Chora Cavaco: Aninha, como nasceu sua tara pelo samba?
Aninha: Meu pai tocava cavaquinho e meus dois irmãos tocavam violão. E, eu sempre quis aprender, mas meu pai já tinha dito que não ia me ensinar. Para ele, era melhor eu entrar numa aula de violão. E aula eu não queria.
Meu pai tocava cavaquinho na cozinha, daí a gente ficava na maior bagunça. Eu lavava a louça e meu pai ficava tocando cavaquinho. Cantando Nelson Cavaquinho, Cartola, Paulinho da Viola. Eu lembro que eu subia num banquinho e ficava cantando com ele. Era muito legal. E, pelo que me lembro, veio daí minha tara pelo samba. Com 12 anos eu ouvia muita bossa nova, e comprava cds do João Gilberto.
Chora Cavaco: E quando o samba começou a fazer parte da sua vida?

Aninha: Eu sempre gostei de ouvir samba. Participava de rodas de samba com meu pai. A gente se reunia pra cantar samba. Muitas vezes eu cantava nas rodas de samba e o João, de Tubarão, um amigo do meu pai - que só tocava samba. Meu pai me colocava no colo e eu ficava cantando com eles.

Chora Cavaco: E quando você pode se considerar uma artista, propriamente dito?

Aninha: Eu ainda não sou artista (risos). Na verdade eu não me sinto artista. Isso tudo que estou fazendo é tão puro e verdadeiro de mim, que eu não me sinto artista.
Eu me sinto privilegiada de estar fazendo uma coisa que nem todo mundo faz. Que é fazer algo de que gosta e que se sente prazer. Porque é muito mais fácil você deixar de fazer algo que gosta por causa de grana, do que fazer aquilo que você gosta de verdade. Mas daí você vai viver uma história que não é sua. Eu me sinto feliz de estar fazendo o que gosto, de ser verdadeira. Porque nada mais me importa que não seja a música.

Chora Cavaco: E esse violão? Quando começou a fazer parte da sua vida?

Aninha: Com doze ou treze anos eu já arranhava alguma coisa no violão. Daí eu parei. Fiquei uns quatro anos sem pegar no violão. Em 2000 quando o meu Duo com o Juninho acabou eu comecei a me dedicar mais ao violão. Peguei uns sound books em casa e comecei a me emprenhar de verdade. Aí começou a história do violão. Mas eu tinha um amigo, o Carlos Nadario - que é um carioca que sabe tudo de samba - e que antes de eu tocar violão ele sempre me dizia: 
- Ana você tem que tocar violão porque você é violonista.
E eu tenho ele como um grande incentivador. Ele e o Beto Batera. E a partir de setembro de 2000 eu me empenhei com o violão. E deu no que deu. 
Chora Cavaco: E quando começou sua participação nas rodas de samba da cidade?

Aniinha: Eu cheguei a fazer back vocal no cd do grupo Koisaboa, mas minha história de envolvimento com o samba aconteceu efetivamente no Mercado Municipal de Joinville, em 2000, quando eu cantava todo sábado com o grupo "Entre Amigos". Essa foi pra mim a maior vitrine aqui em Joinville. Eu amava cantar lá, porque eu gosto muito dessa coisa de samba, chorinho e seresta.

Chora Cavaco: Porque essa história acabou?
Aninha: Eu fui buscar um outro caminho, outras idéias. Eu queria ter um repertório legal, fazer ensaios, eu só não queria estacionar. Eu amo aquele lugar, mas como lá eu não tinha oportunidade para ficar ensaiando eu fiquei um ano cantando as mesmas coisas. E isso me atrapalhou um pouco. Mas eu respeito muito eles, sobretudo o Sr. Nelson que é parte da história do Mercado.

Chora Cavaco: Já que estamos falando em Mercado Municipal me diga: O que o mestre Bera o que representa para você?
Aninha: O mestre Bera tem umas histórias muito engraçadas. Eu sou fanzoca dele, mas eu não tive muito contato com ele, quer dizer, ele nem chegou a me ouvir cantando.
Eu ia em todo pagode que ele tocava nas sextas-feiras, e ficava dançando a noite toda daí ele passava por mim e dizia:
- Ô bailarina...
Ele não sabia que eu cantava, logo depois veio a triste notícia do falecimento dele. Que foi mais uma dor para essa cidade. Está mais que na hora de valorizar essa história. Porque o Bera foi mais um dos instrumentistas que morreu sem ser valorizado. Mas eu acho que valeu, porque ele cumpriu a missão dele. Ele foi original.

Chora Cavaco: E a música em Joinville tem alguma perspectiva?

Aninha: Eu acho que não dá de culpar Joinville porque a história dela não chega a ser de cultural. Aqui o negócio é trabalho mesmo. A rota casa-empresa. Aquela velha história de acordar as 5 da manhã e trabalhar até as 2 da tarde.
E tem a TV e a sociedade impondo um monte de coisas. A globalização totalmente fora da cultura. Santa Catarina é lugar que não é forte na música. Nunca foi. Isso a gente sabe. Temos ótimos músicos, mas é assim, nunca teve uma coisa forte. Quando se fala de música no sul do Brasil se lembra do Rio Grande do Sul e pula Santa Catarina.
Mas eu acho que Joinville por incrível que pareça ainda esta muito atrás de outras cidades do estado. Você vai para Jaraguá, Blumenau, Itajaí, Camboriu e você sente que lá tá rolando uma história que as pessoas estão apreciando, curtindo a música.
Na verdade o Brasil não conhece o Brasil. Mas eu só tenho a agradecer a Joinville porque ela me deu tudo que eu tenho. Mas precisa melhorar muito. Os donos de casa noturna tem que ter uma noção maior de cultura. Eles só querem encher o bar para ganhar dinheiro e esquecem de visar a música e a literatura. Juntar num bar, livros, poetas...
A gente não tem um happy hour legal, por exemplo.

Chora Cavaco: E como podemos mudar isso?

Aninha: A gente precisa ocupar os espaços. A praça por exemplo. Joinville é a cidade da dança, mas dança você só vê no festival. Daí tá tudo lotado as praças, os shoppings, mas durante o ano inteiro não tem dança. Então imagina pra música e para as outras artes.
Porque que domingo de manhã não tem música na praça? Porque não tem um Duo voz e piano, ou sei lá, uma banda de rock nacional tocando para as pessoas estarem vendo? Porque precisa ter um evento político pra isso acontecer? Isso não é necessário. Porque no evento político que os artistas vão cantar eles vão para ver o evento e não a música. Por isso eu acho que mais que certo seria se tivesse música na praça, teatro na praça, poesia na praça. Pô vamos fazer pelo menos um domingo de cultura em Joinville.

Chora Cavaco: Você tem algum projeto neste sentido?

Aninha: Eu tenho 3 projetos que não foram aprovados ainda. Um projeto com musicalização nas escolas rurais, que é um tipo de criança que não tá ligada na globalização, que pode pegar uma música bem pura e raiz. E outro projeto de músicas nos asilos e nos hospitais. E outro projeto que é do CD.

Chora Cavaco: Conta melhor essa história do CD:

Aninha: Graças a Deus eu tenho um aviso a dar para as pessoas que gostam da nossa música: Nós fomos convidados a gravar um cd depois de nossa apresentação no show de abertura da Elza Soares em Itajaí. Um estúdio de lá nos convidou para gravar com grandes músicos. Aliás, quero agradecer o baixista Arnol de Melo de Itajaí, que faz um monte de coisa a anos pela cidade, e tá sempre batalhando pela musica verdadeira e brasileira. O Edinho é um dos grandes músicos que vai estar neste CD que nós vamos começar a gravar no inicio do ano.
 
Chora Cavaco: E como funciona essa sintonia entre você e o Edinho Santanna. Quando isso tudo começou? 

Aninha: Um dia eu cheguei no Casa Blanca, e vi aquele menino tão novinho tocando um monte já. Daí a gente só se falou e depois se conversou de novo uns 4 meses depois num chalé. Eu dou graças a Deus por ter encontrado o Edinho em Joinville. Porque essa coisa de Duo é muito difícil de manter. Porque você precisa ter muita afinidade musical. Você tem que saber a hora de ficar em silêncio. Você tem que perceber a hora que a pessoa tá fazendo um solo maravilhoso e curtir essa história toda. E o Edinho vocês podem prestar atenção ele ainda vai ser "O Cara" na música de Joinville. E eu me sinto felicíssima de encontrar ele aqui nesta cidade.

Chora Cavaco: E a sua fase de compositora?

Aninha: Ser compositora é muito engraçado. A gente nunca gosta do que a gente compõe. Eu tive uma fase muito boa com o parceiro Serginho Almeida, que foi jornalista do A Notícia por muito tempo. Com ele, eu fiz a música "Samba da Bicicleta" que ganhou o prêmio do Festival do SESC, fizemos "Faz de Conta", "Cara e Coroa". Daí ano passado eu retornei a compor. Fiz uma instrumental e duas canções. E neste ano eu estou feliz, porque faz pouquíssimo tempo que eu fiz um novo samba, e esse sim ou gostei. Foi um filho lindo que eu fiz. Ele é assim: (cantando e batucando na mesa)
Olha lá / Vê se para de gostar / Entra noutra saí pra lá / Vê se vai pro mar desandar / olhar bem / Não consigo ser meu bem / desse jeito tão vulgar / outra data quem sabe...  
Essa música vai para o CD.
 
Chora Cavaco:
E o samba em Joinville?

Aninha: Joinville não tem morro, então já começa por aí. O samba não rola. (risos) Salvo a gente que tenta manter essa história. Tem o Mercado Municipal que tenta manter essa tradição. Tem muita gente querendo fazer samba e não tem vez. Eu vejo muita gente fazendo samba bom, montando grupo bom e não tem onde tocar não tá recebendo. Mas pode melhorar.
 
Chora Cavaco:
E o chora Cavaco?

Aninha: Haaa... O Chora Cavaco é uma ponte para que o samba não morra nessa cidade, e isso eu acho interessante. Eu lembro de uma história quando eu era mais nova. (risos) Eu sou nova (risos). Quando eu tinha uns 10 ou 12 anos e eu ia pra casa de uma amiga minha pra gente ir pra praia e o pai dela adorava escutar o Chora Cavaco. Daí eu lembro de uma música do João Nogueira que eu sempre ouvia que é assim: 
Gripe cura com limão / Jurubeba é pra asia / Do jeito que a coisa vai o boteco do Arlindo vira drogaria...
E esse refrão ficou na minha vida, e toda vez que eu escuto essa música eu lembro do Chora Cavaco. Parabéns ao chora cavaco.




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