A procissão do encontro



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Encontro08.04.2018
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A PROCISSÃO DO ENCONTRO
Antonio Ribeiro de Almeida
Ao Pe. Henrique Cláudio de Lima Vaz, S.J., amigo em Cristo, que, em vida foi um modelo de sacerdote e filósofo.

Quinta-feira Santa, em Serrana, naquele ano de 1950, amanheceu bela e esplendorosa. A natureza contrariava o drama da Paixão que a Igreja vivia e a cidade, ao contrário das Lamentações de Jeremias, não parecia ter chorado sem cessar durante a noite. A noite de quarta-feira não fora nada santa. O carteado correu, como sempre, no Éden Clube. E os jogadores profissionais, como Quincas e Mulatinho, haviam, em dupla, ganhado muitas mãos de pôquer dos incautos. O movimento na Esquina do Pecado não cessara até o amanhecer, e o entra- e- sai na casa da Rita Pé Grande e Gertrudes havia sido muito grande. Rita, apesar de ser uma “mulher da vida”, era respeitada pelas outras mulheres casadas porque nunca atrapalhara um casamento e até aconselhava homens que iam à sua procura. Quando ela percebia que um freguês começava a enrabichar, buscava logo uma maneira de não atendê-lo mais. Rita mantinha suas crendices, e, no seu quarto, uma lamparina de azeite iluminava um quadro de São Jorge e a imagem do Sagrado Coração de Maria. Padre Raul de há muito havia desistido de parte desse rebanho rebelde

que só aparecia na sua igreja nos batizados, casamentos ou missas de corpo presente. Confessar e receber a eucaristia não era com eles. Reservara, contudo, uma surpresa para Rita . Na terça-feira, havia posto no correio um santinho para ela com os seguintes dizeres: “Querida Filha, Nosso Senhor não esqueceu de você, e muito menos eu, nas minhas orações. Você está convidada a acompanhar Nossa Senhora das Dores na procissão do encontro. Que Deus a abençoe. Pe. Raul de Faria Cunha”. Quando recebeu aquela carta, Rita ficou feliz, mas temerosa ao mesmo tempo. Olhou a imagem do Sagrado Coração de Maria e intimamente disse “Obrigada, minha Mãe. Mas como posso eu, pobre pecadora, acompanhar a Senhora?” Retirou da sua velha bolsa um maço do cigarro Clarim e buscou numa tragada diminuir a ansiedade que aquele convite lhe causara. Tomou uma decisão. Naquela Semana Santa, não receberia nenhum homem para a prática do sexo. Havia economizado alguns cruzeiros e eles eram suficientes para o armazém e para a compra do Sal de Fruta Eno que tomava contra a azia que a incomodava havia algum tempo. Para a procissão, usaria o vestido mais discreto que possuía e carregaria, como os outros fiéis, uma vela branca.

Na quinta-feira, Pe. Raul começara a usar o alto-falante logo depois das oito horas da manhã. De meia em meia hora, ele anunciava para os quatro cantos da Praça da Matriz que o famoso Frei Tauzin, cujas orações sacras atraíam multidões, estaria pregando na Procissão do Encontro logo mais à noite, e que as duas bandas de música iriam acompanhar a procissão de Nosso Senhor dos Passos e a de Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor sairia da capela de Santo Antônio e Nossa Senhora da igrejinha do Barreiro de Baixo às dezoito horas em ponto, e ele acentuava com sua voz grave e firme que os católicos não se atrasassem. O encontro se daria na Praça da Matriz por volta das vinte horas. .

Em Serrana, as bandas “Teodolino Soares” e “Maestro Chiquinho Perón” disputavam as preferências do povo. Tinha paroquiano que acompanhava uma procissão, não tanto por causa da sua devoção ao Senhor Jesus ou a Nossa Senhora, mas seguia a banda de sua preferência. Antes daquela Semana Santa, as duas bandas haviam ensaiado durante muitas noites. Elas se esmeravam na execução de hinos sacros e de preferência populares, como o “Queremos Deus” e “Sete Palavras” que todo povo cantava com emoção e alguma desafinação. Durante os ensaios, a molecada corria da sede de uma banda para a sede da outra, ouvindo e palpitando que a do “Maestro Chiquinho Perón” estava melhor e que ninguém alcançava a altura e a sonoridade que ele tirava do seu pistom de ouro. Outra atração da meninada era ver o Caburé baquetar o tarol e jogar para o ar as baquetas que apanhava com extrema destreza. Durante a Semana Santa, Caburé se transformava e deixa va de ser o jardineiro que perseguia no Jardim Público os meninos que pisavam na grama ou arrancavam rosas. Orgulhoso do seu uniforme e do tarol, ele brilhava aos olhos da molecada na Banda do Maestro Chiquinho Perón e parecia menos feio do que era.

Quando as procissões partiam das igrejinhas, era o pistom de cada banda que dava a entrada do hino que os fiéis iam cantar. O pistom solfejava a melodia do primeiro verso: “Queremos Deus, homens ingratos” e em seguida a banda entrava com o povo todo cantando “Ao Pai Supremo, ao Redentor. Zombam da fé os insensatos, Erguem-se em vão contra o Senhor” Banda e povo se fundiam num só canto que subia aos céus da noite estrelada de Serrana.

Durante os preparativos, os Irmãos do Santíssimo e a Irmandade do Carmo haviam examinado, com o máximo cuidado, a imagem em tamanho real do Cristo carregando sua cruz. Retocaram a pintura do sangue que lhe escorria da coroa de espinhos e verificaram se a cruz e a imagem estavam seguramente fixadas no andor. As Filhas de Maria cuidaram com o mesmo esmero da imagem de Nossa Senhora. O rosto da Mãe de Jesus mostrava todo o sofrimento que lhe causava a Paixão do seu Filho. Representando isto, um punhal estava cravado em seu peito. Os dois andores pesavam bastante e somente homens e mulheres fortes os carregavam sem dispensarem, contudo, as muletas de apoio.

A quinta-feira foi um dia dedicado às confissões individuais e mais de seis sacerdotes atenderam os fiéis que procuravam se livrar dos pecados que haviam cometido durante o ano, seja contra os mandamentos do Decálogo ou os da Igreja. Padre Raul não se cansara de ouvir os pecados contra o sexto e o nono mandamento que pediam aos católicos que guardassem castidade nas palavras, obras, pensamentos e desejos. Desejar a mulher do próximo, adulterar e masturbar eram os pecados mais freqüentes e eles já haviam cansado os seus ouvidos. Mesmo assim, não desistia dos seus paroquianos e depois de um breve e amigo conselho proferia, em latim, a absolvição. Padre Raul, formado no Seminário de Mariana, obedecia rigorosamente às três partes da absolvição. Os penitentes colocavam o ouvido à tela do confessionário para ouvirem o final daquele rito que Pe. Raul traduzia para o português: “Que Nosso Senhor Jesus Cristo te absolva; e eu, por Sua autoridade, te absolvo de todo o vínculo de excomunhão e de interdito, enquanto eu posso e tu necessitas.” Depois de ouvir isto e a penitência, o fiel ia ,de alma nova, para um dos bancos da Matriz cumprir sua penitência.

Para colaborar com a procissão, o comércio de Serrana fechou suas portas às duas horas da tarde. Todo mundo foi para casa se preparar para os acontecimentos da noite. As mulheres viriam com os seus vestidos de manga comprida e o véu de renda branca a cobrir a cabeça. Os homens, como de costume, de terno escuro e gravata. Os Irmãos do Sagrado Coração de Jesus vestiriam suas opas vermelhas e fariam a guarda de honra junto ao Cristo. Logo depois do andor, viria a banda de música executando num andamento lento e triste os hinos programados.

Por volta das cinco horas da tarde o povo foi se aglomerando, tanto na capela do Barreiro de Baixo, como na Capela de Santo Antonio. As Filhas de Maria andavam para cima e para baixo tomando mil e uma providências. Ã frente de todas, a catequista Zilá Passos orientava, dava um último arranjo na imagem de Nossa Senhora e escalava os diferentes grupos de mulheres que iriam carregar o andor ao longo da procissão que percorreria um trecho de mais de quatro quilômetros. Rita chegou meio acanhada, como não desejando ser vista. Mas a catequista, logo que a enxergou no meio das mulheres, a chamou:



- “Rita, vem para cá, minha irmã. Você ficará ao meu lado e preciso de sua ajuda durante a procissão para que os fiéis não deixem espaço entre as filas e para levar meus recados para a banda sobre o hino que deverá tocar”.” Ela não teve outra alternativa a não ser dizer” Sim, senhora! “e ficou ao lado da catequista.

Enquanto isto, na capela de Santo Antonio, os homens se organizavam e Chico “Gordo” tomava a frente na tarefa de escalar os homens que carregariam o andor do Senhor dos Passos. Chico era um católico que Pe. Raul usava como “pau para toda obra”.Apesar da cachacinha que tomava nos finais de semana, ele conservava da juventude uma musculatura invejável e , quando se tratava de carregar móveis ou alguma tarefa pesada dentro da Matriz , o padre mandava chamar o Chico. Sua força era invejada e era bem o modelo dos primeiros cristãos que enfrentavam os leões no Coliseu de Roma e que quebravam suas queixadas com mãos poderosas antes que fossem devorados.



Às seis horas, como programado, as filas dos homens e das mulheres, nas duas igrejas, começaram a se deslocar. Logo atrás do andor de Nosso Senhor dos Passos, vinha a banda do maestro “Chiquinho Perón”e não demorou muito para que o som do seu pistom cortasse o ar com as notas iniciais do “Queremos Deus”. Logo em seguida, a “Furiosa” - como carinhosamente era chamada – atacou o hino com todos os seus instrumentos e os fiéis cantaram, em alto e bom som, os oito versos que compunham esse hino tradicional.

Entre os hinos, nas duas procissões, os fiéis rezavam no Terço os Mistérios Dolorosos da vida de Jesus. Na procissão da Mãe de Jesus, era a Dica, que, com sua voz fanhosa e estridente, declamava os mistérios, e, na procissão do Senhor dos Passos, era o Mário sacristão que puxava o terço. Depois de cada terço rezado, as bandas tocavam mais um hino e lentamente as duas procissões se deslocavam pelas ruas de Serrana em direção à Praça da Matriz. Três vezes ,o Senhor dos Passos caiu sob a pesada cruz, quando os homens faziam um grande esforço para colocar o andor sobre o chão, e, depois, levantá-lo. Na subida da rua do Quebra, o Senhor parou mais uma vez e o seu rosto ensangüentado foi enxugado no sudário da Verônica que entoou uma pequena parte da Paixão. Finalmente, às vinte horas, as duas procissões se encontraram na Praça da Matriz. Jesus e Maria estavam frente a frente. Milhares de fiéis se espalhavam ao longo da Praça, enquanto os meninos, para melhor avistarem Frei Tauzin, se empoleiravam nas árvores. Num púlpito, armado nas escadarias da Matriz, divisava-se o pregador dominicano envolto no seu hábito branco e um capuz que lhe cobria a cabeça. Naturalmente, sem que ninguém pedisse, o silêncio foi tomando conta daquela massa de fiéis. Frei Tauzin, que estava ajoelhado no fundo do púlpito, levantou-se. De estatura mediana, cabelos louros mostrava um rosto forte e suave ao mesmo tempo. Com sua voz poderosa e clara, proclamou: “Mulier, ecce filius tuus. Mulher, eis aí o teu filho. Mães de Serrana, olhai para a Mãe do Deus feito homem. Ela tem cravado no seu peito um punhal e dos seus olhos rolam lágrimas de pena e dó ao ver assim, tão maltratado, tão desfigurado, o seu Filho Amado. “ E durante uma hora, Frei Tauzin mostrou porque suas pregações comoviam, se fosse possível comparar, até as pedras. Muitos homens e mulheres tiravam os seus lenços e enxugavam as lágrimas que o arrependimento dos pecados faz nascer. Rita, perdida na multidão, buscou a sombra de uma árvore aonde as luzes não chegavam, e, talvez, como Pedro, chorou amargamente de arrependimento por sua vida de pecadora pública. Por volta das nove horas da noite, Frei Tauzin arrematou sua pregação ,exortando os fiéis : “ Fixai em vossas memórias a Cruz que Nosso Senhor Jesus Cristo carrega. Carrega sem lamentações, sem reclamações e sem imprecações. Meus filhos e filhas, cada um de vós tendes também uma Cruz para carregar. Carregai-a com coragem, fé e esperança. Ela está em vossas vidas sob muitas formas. Às vezes, de uma doença, de um problema na família, da perda de um ente querido. Quando ela vos pesar, voltai os vossos olhos para o Cristo e Ele, disto tenho certeza, virá vos ajudar e aliviar o peso da vossa Cruz. ‘ E assim falando, Frei Tauzin ajoelhou mais uma vez e rezou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria que a multidão acompanhou. Em seguida, os dois andores se movimentaram em direção à Matriz, e, tendo Jesus à frente, as duas imagens penetraram na Igreja apenas iluminada pela luz das velas. As portas da Matriz se fecharam e o povo, pouco a pouco, refluiu para as suas casas como refluem as ondas do mar depois de avançarem sobre a praia.

Rita foi uma das últimas a deixar a Praça que ficou deserta. Retomou o caminho de sua casinha na Esquina do Pecado. Chegando lá, olhou demoradamente a imagem do Sagrado Coração de Maria e disse à Senhora: “ Mãe, rogai por mim!. “ E, com uma determinação que nunca experimentara na vida, foi colocando seus vestidos mais simples numa velha mala. Iria embarcar no trem Misto das cinco horas da manhã com destino a Ponte Nova. Resolvera aceitar o convite que sua tia vivia lhe fazendo para ir morar com ela e ajudar no trabalho de um pequeno sítio. Voltava à sua origem rural. Não se despediu de nenhuma companheira da Esquina do Pecado. Antes que o dia amanhecesse ela tomou o Misto, e à medida que a velha “maria - fumaça” da Leopoldina Railway avançava em direção a Ponte Nova, a neblina que ainda cercava Serrana foi se esvanecendo para que nascesse um novo dia.

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