A psiquiatria contemporânea a Freud



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Psicopatologia Clínica Animal
Adalberto Tripicchio MD PhD

Introdução

Para deslindar no animal o normal, o anormal e o patológico, temos que recorrer, irremediavelmente, aos princípios da psicopatologia clínica humana. Este recurso não representa em princípio uma projeção antropomórfica, do mes­mo modo que tampouco o é a observação de que um animal tem febre.
O anormal engloba toda conduta que se afasta sensivelmente da con­duta do termo médio observada pelos animais da mesma espécie frente a uma situação determinada e que representa uma desorganização da existência animal, uma abolição normativa ou um contra-senso na adap­tação ambiental. Todo acentuado desvio do termo médio no sentido nocivo, indesejável e inferior fica incluído na série de variantes zoopsicóides anormais.

Pelo contrário, todos os atos que prevalecem na espécie zoológica, por estranhos e aparentemente absurdos que sejam, por exemplo, a morte por decapitação do "partner" sexual, pertencem às leis dos instintos e à esfera do normal. Tampouco devem incluir-se no anormal zoopsíquico nocivo os comportamentos produzidos pelo adestramento, por muito originais que eles sejam. O desenvolvimento de hábitos especiais e atitudes excepcionais, por conta do aprendizado, pode consi­derar-se como uma anormalidade favorável e superior, enquanto esteja em consonância com a norma ideal (antropomórfica) e não implique nenhuma desorganização psicóide e nem uma inadaptação ambiental.      


O anormal zoopsíquico fica definido por duas valorações sucessivas: uma valoração estatística e uma valoração ideal. A valo­ração estatística é objetiva e exata, sempre que se disponha de um conhecimento sobre os costumes da espécie zoológica corres­pondente. A valoração ideal, aplicada aqui só para discernir o nocivo do favorável, ainda que eminentemente subjetiva, não recai no antropomorfismo, posto que a estimativa do positivo e do negativo é feita frente ao animal, e à organização psicóide do animal. Contudo, não se pode evitar que o ideal valorativo de uma conduta animal tenha uma raiz antropomórfica. À medida que a compreensão do sentido da conduta zoológica e seu conhecimento objetivo sejam mais completos, a estimativa valorativa poderá ir tomando um caráter zooló­gico mais puro.

O patológico, o estritamente zoopsicopatológico abarca as alterações de comportamento animal que têm uma base corporal patológica apreensível. Semelhantes alterações podem referir-se à, vida instintiva, capacidade de aprendizado, inteligência, percepção ou motivação da conduta. Suas causas mais representativas são as lesões encefálicas de tipo inflamatório, tumoral e traumático.

Os capítulos menos discutíveis e menos discutidos da zoopsiquiatria são os que tratam das psicoses sintomáticas orgânicas e os das psico­patias. O sacrifício do animal seriamente enfermo impediu até o presente aprofundar os conhecimentos sobre as alterações psíquicas condicionadas por enfermidades corporais apreensíveis.

Entre os animais psicopatas figuram, por exemplo, os cães hiper-agressivos e ferozes e os galos apáticos, enquanto indivíduos portadores de uma anomalia constitucional em relação ao termo médio de sua respectiva subespécie (ou raça, ou variedade). Também se dispõe de uma casuística muito interessante na esfera das perversões e das aberrações sexuais. A Blin e colaboradores (1964) se deve uma revisão deste assunto.

A zoopsiquiatria não pode ainda resolver se nos animais existem ou não alterações psíquicas similares às chamadas psicoses endógenas (esquizofrenia e transtorno afetivo bipolar). Quase todo o exposto sobre este grande problema tem uma base conjetural pouco sólida. O problema é difícil de abordar. A patologia comparada se baseia no conhecimento da etiologia e da anatomia patoló­gica, a zoopsiquiatria não pode basear-se em saberes de ditas ordens para fazer frente ao estudo das possíveis alterações psíquicas funcionais do animal. Tem que restringir-se à observação da conduta. Por outro lado, o tomar a decisão de excluir a possível apresentação destes trans­tornos no animal, baseando-se em que este não pode conscientizá-los e comu­nicá-los verbalmente, significaria uma queda no anti-antropomorfismo.

O que devemos esperar da patologia veterinária é uma resposta à questão de se alguns animais, espontaneamente, apresentam uma semiologia da conduta análoga ou semelhante a do enfermo esquizofrênico ou ciclo­tímico. Sabe-se, por exemplo, que o cavalo pode ser afetado, espontanea­mente, por um estado permanente de imobilidade flácida, na qual conserva indefinidamente as posições que se lhe impõe. Finalmente, morre por inanição. A semiologia é bastante parecida à da esquizofrenia cata­tônica: estupor flácido, negativismo passivo (com recusa de ali­mentos) e catalepsia. Parece existir, então, uma autêntica síndrome catatô­nica no cavalo.

O capítulo que versa sobre as possíveis reações anormais do animal, deve tomar como ponto de partida a exposição das desorganizações reativas do comportamento do animal. Estas desorganizações podem ter lugar em três gêneros de situações: situações naturais, situações domésticas e situações experimentais.

Observa-se que o animal que vive livre em seu ambiente natural possui uma segurança e estabilidade relativas. De quando em quando, segundo Buytendijk (1964), se encontra imerso em uma situação de incerteza vivida.

"Pode ser que ouça um ruído de noite, que veja uma forma ambígua na névoa ou que veja mover-se ‘alguma coisa' na folhagem." O animal, em todos estes casos, suspende suas atividades motoras. Esta inibição dos movimentos pode aparecer sob duas formas: uma atitude persistente ou uma paralisia.

A fixação de uma atitude é o chamdo "congelamento", ou freezer, que supõe a introdução a uma reação adap­tada ao padrão de fuga ou de ataque. A paralisia representa uma mostra da plena desorganização da existência animal e pode aparecer, segundo Buytendijk, quando um animal é surpreendido por um grave perigo em uma situação sem saída que dura algum tempo. "A observação de pássaros e mamíferos demonstra que a desorganização não está limitada a uma perda do tônus muscular. Comprova-se a existência de tremores, convulsões, ereção de pêlos ou penas, defecação e exoneração urinária. A paralisia alterna às vezes com uma agressividade cega, saltos, auto-mutilações etc." A paralisia reduz a forma visível, constituindo uma reação útil para a evasão da situação perigosa.

O animal selvagem recém-capturado está sujeito ao traumatismo do cativeiro. Penso que neste ponto podemos trazer à baila a imensa reação ao estresse que todo animal pode apresentar, selvagem ou não. A brusca mudança do modo de vida livre, a outro radicalmente dife­rente, e que ainda se impõe a presença do homem, o inimigo número um e maior estressor do animal; que não lhe permite a fuga nem o ataque, originando com freqüência compor­tamentos desorganizados e inadaptados.

O traumatismo do cativeiro é, sobretudo de ordem física e consiste em uma súbita mudança de seu Umwelt, expressão alemã vinda da análise existencial do homem e usada pelos etólogos, que significa as relações do animal com seu mundo circundante. O animal cativo se encontra totalmente desorien­tado e pode reagir de três maneiras: com um estado de super-excitação aguda, com um estado de prolongado estupor e com a recusa de alimentos. Os comportamentos suscitados pelo trau­matismo do cativeiro constituem a psicopatologia máxima no '''Zoo''. Todo o comportamento anômalo aí encontrado, é reativo ao estar fora de seu habitat e pode ser monitorado por dados sanguíneos bioquímicos mostrando a sua situação de extremo estresse.

O animal em situação de domesticidade está habituado a lugares muito estáveis e à sucessão de acontecimentos precisos. Domina mais que nunca em seu entorno a categoria da segurança. Ficam excluídas as situações ambíguas e pouco claras e a possibilidade de surpresas. A vida do animal doméstico está absorvida peIa realização automática de hábitos adquiridos. A incerteza, como assinala Buytendijk (1964), se introduz nas situações de domesticidade no trato humano e afetivo àqueles animais que se ligam facilmente à nossa familia­ridade.

Esta relação afetiva pode conduzir a uma desorganização existen­cial de tipos distintos. "São reações de agressividade inexplicável, de sub­missão, de inibição, de timidez, de depressão, de humor selvagem, de hiper-atividade, de transtornos do apetite e de sintomas vegetativos (inclusive exantemas), cuja instabilidade expressa a relação rota com um mundo seguro."


Da atmosfera de familiaridade e de afeto à irrupção de uma situação afetivamente ambígua ou confusa, suscita um comportamento equiparável ao modelo neurótico do homem. Essas reações de caráter neurótico aparecem, sobretudo nos cães e nos jovens chimpanzés. As crises convulsivas histéricas provocadas por uma situação de solidão e abolidas peIa aparição do respectivo dono, aparecem somente nos animais domésticos, especialmente nos cães.

Existe, finalmente, uma desorganização da conduta do animal provocada por situações experimentais de conflito. A iniciação desses experimentos, como é sabido, se deve à escola russa. A descoberta dos reflexos condicionados por Pavlov se produz em 1901. Pavlov apresentou ao Congresso Internacional de 1903, em Madri, uma comunicação de "Psicologia e psicopatologia experimental sobre os animais".


Para Liddell, o método pavloviano se caracteriza essencialmente por impor ao animal uma restrição motora e uma repressão de suas atividades naturais. Esta interpretação só se ajusta realmente a uma minoria de casos das chamadas "neuroses" experimentais. Também, pensa Liddell que se deve prestar uma especial consideração à história individual do animal e das relações artificiais que se criam entre ele e o homem ao longo dos meses e anos de experimentos.

O traço essencial das situações de conflito produzidas experimentalmente consiste em fazer o animal perder a categoria de segurança. Esta categoria está montada sobre as significações claras do campo perceptivo. A chamada "neurose experimental", segundo Massermann pode ser por significações confusas do campo perceptivo ou por motivações em conflito. Nesta linha interpretativa se situa, também Cain, que considera toda situação experimental traumatizante como uma integração de três elementos: o elemento surpresa, que consiste em uma situação brusca e inesperada; o elemento opressor, por não existir uma possível escapatória ou saída, e o elemento temporal, que aparece nas situações conflitivas que persistem certo tempo ou que são repetidas várias vezes. Em definitivo: as situações experimentais de surpresa que produzem no animal insegurança e incerteza podem implicar uma desorganização do comportamento.

A nota de incerteza no método pavloviano é o resultado de contrariar as reações do animal, sejam as reações naturais ou as instaladas pelo método dos reflexos condicionados. Pro­duz-se desta forma, um conflito entre uma excitação e uma inibição que operam no mesmo ponto. Quanto ao elemento surpresa, sua intervenção teve lugar, acidentalmente, ao inundar-se o laboratório de Pavlov. Este acontecimento traumatizante ocasionou uma perturbação nos reflexos condicionados estabelecidos anteriormente. Seria uma verdadeira síndrome de estresse pós-traumático nos cães.

A observação de Pavlov, de que o tempo necessário para a produção de uma neurose experimental varia de um para outro animal, demonstra a participação em sua gênese dos fatores individuais. Deve ficar finalmente esclarecido que as mal chamadas "neuroses experimentais" consistem simplesmente em estados de excitação e agressividade ou de sono­lência e estupor. Em alguns animais também aparecem movimentos anor­mais semelhantes aos tiques.

Como pode inferir-se do exposto, os estados neuróticos e histéricos espontâneos só se instalam nos animais em situação de domesticidade estressante. A relação com o dono é o elemento prevalente na etiologia destes transtornos. Posto que a relação intensiva com um ser humano é o agente causal operante, podemos considerar estas neuroses, aparentemente espontâneas, como neuroses experimentais, como neuroses produzidas artificial­mente.

Nos animais domésticos, a epilepsia espontânea, segundo se aprecia na comunicação de Fontaine e Leroy (1964), tem as mesmas caracte­rísticas clínicas e eletroencefalográficas que no homem. Nos cães, por exemplo, se dão as três modalidades já conhecidas: a epilepsia centro­encefálica (ou generalizada, ou grande mal, ou tônico-clônica), a epilepsia parcial focalizada (não há perda da consciência) e a epilepsia psicomotora (comportamento, automático ou não, epilético). A epi­lepsia de grupo ou coletiva é interpretada pelos autores como um estado patológico particular intermediário entre a epilepsia espontânea indi­vidual e a histeroepilepsia.

Esta interpretação não parece nada convin­cente. A histeroepilepsia só pode admitir-se hoje como uma associação de histeria e epilepsia. Entre a histeria e a epilepsia não pode existir uma graduação por tratarem-se de fenômenos heterogêneos. Aquela associação, em troca, é relativamente freqüente no curso das epilepsias temporais profundas. A desorganização da personalidade ativa a propensão ao comportamento histérico. Assim, as epilepsias de grupo que aparecem, sobretudo nos cavalos e na matilha de cães a partir do ataque epiléptico de um indivíduo, sempre o mesmo indivíduo, representam essencialmente uma conduta de imitação. Para Schmidt (1966), estas crises de grupo são análogas à histeria coletiva.

Psicopatologia Comparada

Pensando-se que a base dos fenômenos simples pode ser a mesma dos fenômenos mais complexos, se vem esperando da zoopsiquiatria uma contribuição positiva à psiquiatria humana. A organização psíquica do homem é muito mais complexa que a do animal (nem sempre!). Suas alterações neuróticas e psicóticas também o são. A contribuição zoopsiquiá­trica previsível estava referida exclusivamente à vertente natural da psiquiatria. A vertente histórica ficou à margem desta previsão.

Contra toda previsão, a psiquiatria humana tem trazido mais luzes à zoopsiquiatria que vice-versa. O complexo do homem permitiu ver com mais clareza o simples do animal. A ordenação das alterações psíquicas do animal se baseia nos saberes sobre o homem psiquicamente anormal ou doente.

Vejamos um exemplo das influências exercidas pelos estudos da psicologia do homem sobre as interpretações zoopsicológicas. Von Uexkuell (1909 e 1936) chamava "sinais" às percepções chave do animal, isto é, aos estímulos ambientais elaborados em cada espécie animal. Estes sinais foram convertidos peIa terminologia psicológica em "dados sensoriais elementares". Ao descobrir-se no campo das percepções humanas a estruturação em "formas" ou "figuras", se realizaram estudos desta orientação gestáltica nos animais. Os resultados destes estudos assinalam que também alguns animais percebem formas. Tinbergen (1951) demonstrou a validade deste dado para os pássaros e às abelhas.

A influência no sentido inverso tem sido muito escassa e parcial. A direção zoomorfa de certas correntes psiquiátricas constitui o único setor da psiquiatria onde a zoopsicopatologia tem feito impacto. Os capítulos das neuroses e das psicoses do homem não se beneficiaram em nada de importante das observações zoopsiquiátricas. Isso não significa que no futuro não possam aparecer influências benéficas deste gênero. Para isso há que se aprofundar previamente nos conhecimentos zoopsiquiátricos. Além disso, muitos ensaios publicados neste sentido, infelizmente, mais desvirtuam os saberes psiquiátricos vigentes.

A tentativa de Ploog (1964) no "Ensaio de interpretação etológica da conduta psicótica endógena", se encontra nesta linha de incompati­bilidade com a clínica psiquiátrica. Estas desiludidas considerações não se referem à investigação experimental, neurofisioIógica, e psicofarmacológica, cujas positivas contribuições estão na mente de todos.

Para Ploog (1964 e 1968), a conduta social e o processo de comunicação experimentam alterações tão importantes, que chegam até suas raízes ontogênicas. Para a psiquiatria (humana) seria primordial confrontar as investigações da conduta e da sociometria, os estudos da expressão e da linguagem enquanto expressão do humor, independentemente da sin­taxe, do vocabulário e do conteúdo. Esta resposta não encerra um deslocamento da perspectiva e da metodologia psiquiátricas para os instrumentos da personalidade? A colocação da personalidade do psi­cótico entre parênteses não representa uma violação do esta­tuto fundamental da psiquiatria enquanto ciência médico-antropológica?

Os estudos de Ploog (1964 e 1968) sobre a conduta social dos pri­matas não-humanos não carecem de interesse psicológico e psiquiátrico. O que parece totalmente inadequado é a simples extrapolação dos métodos e dados zoopsiquiátricos à clínica psiquiátrica humana.

Entre o homem e o animal existem diferenças radicais, uma barreira intransponível, inclusive no plano biológico. A psiquiatria antropo­lógica se move plenamente sobre essa base. Que pode dizer-se então a cerca da psiquiatria pavloviana? Pavlov pretendia identificar os dois tipos de neuroses experimentais: o tipo de excitação e o tipo de inibição, como uma neurastenia e uma histeria, respectivamente. Mas entre os fenô­menos neuróticos do homem e as manifestações incorretamente deno­minadas "neuroses experimentais" não há uma relação de homologia nem de identidade, mas uma semelhança aparente. A recusa da psiquiatria pavloviana, não deixando por isso de reconhecer seus pontos valiosos e válidos em alguns aspectos particulares, se pode condensar em duas notas:

1ª. A expressão "neuroses experimental" não passa de uma metáfora.

2ª. A psi­quiatria estruturada sobre os estudos dos reflexos condicionados está im­pregnada de zoomorfismo.

Que nos desculpem os colegas da Reflexologia.

Minkowski (1957) acusa: "Não fazemos agravo a Pavlov por consignar que ele não conhecia suficientemente a psiquiatria; não se pode conhecer tudo. Mas lhe  recusamos haver querido penetrar neste domínio sem ter adquirido antes as experiências clínicas que formam o psiquiatra e que somente podem provir do contato direto com os doentes". "Contudo, a fecundidade da doutrina de Pavlov é evidente; que o digam os partidá­rios da teoria do aprendizado; o neopavlovismo é a musa da doutrina do aprendizado".

Nota:

1ª. Os cães, por acompanharem a milhares de anos o homem, ao longo da Evolução Biológica, têm direito a algumas considerações especiais. Certamente houve aí uma troca de hábitos e costumes que, a meu ver, influenciaram a evolução tanto do cão quanto do homem. Penso que o cão saiu perdendo, e muito, nessa associação. Tanto quanto o homem, o cão perdeu o contato mais íntimo com seus próprios instintos. Tornou-se "civilizado" demais. Um cão, tipicamente doméstico, se for jogado às ruas, morre logo. Ou por falta de alimento ou por ataques de outros cães mais selvagens (cães sem dono, cães de rua). É curioso observar-se nos cães algumas patologias de seus donos, em especial seus tiques. Os veterinários têm usado a fluoxetina (Prozac) no tratamento do que seria um "TOC Canino". Dizem eles, que com sucesso. Os veterinários-homeopatas também falam de seus sucessos terapêuticos com cães.



2ª. Nossas homenagens ao cavalo Incitatus, nomeado por seu dono, o Imperador Calígula, Senador Romano. Calígula era neto de Tibério. Evidentemente, era uma atitude desmoralizante ao Senado. Aqui, em terra Tupiniquim, seria uma desmoralização ao gênero Equus.

3ª. A bibliografia deste artigo encontra-se em poder do Autor.



A Heautoscopia
Adalberto Tripicchio MD PhD

Aristóteles informa sobre um viajante, que estava há tempos sem dormir. Uma noite em que cavalgava através de uma neblina muito espessa, viu repentina­mente cavalgar a própria imagem a seu lado. Esta imagem imitava todos os seus mo­vimentos e ações. Quando teve que atravessar um rio, o fantasma fez o mesmo. Por fim, quando a neblina diminuiu, a aparição esfumaçou-se.

Esta observação de Aristóteles é a primeira descrição de vivência heautoscópica que veio à luz. Uma referência posterior sobre a vivência heautoscópica figura na obra Malleus maleficorum, de Nider, publi­cada em 1614: um habitante de Colônia, tão logo se deitava na cama, começava a ver ao seu lado uma imagem de si mesmo. O fenômeno se prolongou durante algum tempo, apesar de que o próprio indivíduo o considerava como algo impossível.

Goethe diz como viu sua própria imagem "não com os olhos do corpo, mas com os, do espírito". Observe-se aqui a ausência de elementos aluci­natórios.

A heautoscopia enquanto conceito psiquiátrico tem uma história longa e uma bibliografia desconcertante, dados que se contrapõem às escassas referências existentes sobre o delírio dos sósias ou síndrome de Capgras (vide Artigo na RedePsi). O bombardeio bibliográfico, segundo anotações de Flournoy (1902), inicia-se em França por Bonnet em 1760, e continua na Alemanha por Hagen em 1837.
Posteriormente se ocuparam do tema: Féré (1891), Leroy (1898), Flournoy (1902), Sollier (1903), Bain (1903), Schilder (1914), Henschen (1925), Schroeder (1925 e 1926), Menninger-Lerchen­thal (1935), Haug (1939), López Ibor (1950, 1957 e 1966), Hecaen e Ajuriaguerra (1952), Conrad (1953), Lippman (1953), Critchley (1953), Pearson e Dewhurst (1954), Russel e Whitty (1955), Leischner (1961) e outros mais.

A Hagen (1837) se deve a primeira tentativa de quebrar a unidade descri­tiva da aparição do próprio duplo. Distingue dois modos de aparecer o duplo próprio: um duplo de figura e feições idênticas às do indivíduo, e um duplo de forma corpórea diferente da do indivíduo. A irrupção de um duplo do primeiro tipo pertence ao que se chama heautoscopia. O segundo tipo de duplo foi chamado por Hagen deuteroscopia.

Féré (1891) aplica a designação de "autoscopia" à experiência de um médico gravemente enfermo que acreditava ver sua própria imagem como em um espelho. Menninger-Lerchenthal (1935) recusa esta designação,    cuja significação etimológica estrita corresponde ao ato de "olhar-se a si mesmo", e a significação clínica, ao ato de "examinar os próprios órgãos", aplicando-se especialmente em laringologia ao exame da garganta, e a substitui por "heautoscopia", já que o fenômeno consiste em uma "percepção enganosa da figura de si mesmo".

Sollier (1903) distingue nas experiências pessoais de duplicação: a duplicação da pessoa física, a duplicação da pessoa intelectual e a duplicação da pessoa moral. E chama "autoscopia" ou "alucinação autoscópica" à duplicação sensorial.

Sollier (1903) apresenta o primeiro sistema classificatório das "aluci­nações autoscópicas". Divide-as em internas e externas. Nas internas, o indivíduo vê seus órgãos interiores. Nas externas, vê seu corpo exterior ou partes do mesmo. Na "autoscopia interna" não há uma verdadeira aluci­nação visual, mas uma "verdadeira sensação objetivada". A "autoscopia externa" é mais uma representação, que pode considerar-se como uma verdadeira alucinação visual. Distribui estas alucinações autoscópicas em positivas e negativas. Nas positivas, o enfermo se vê a si mesmo; nas negativas, o paciente não pode ver-se a si mesmo, ainda que se contemple no espelho.

As "autoscopias positivas", segundo Sollier se subdividem nas va­riantes: autoscopia especular ou alucinação especular; autoscopia díspar ou deuteroscópica, na qual o duplo não tem a forma do indivíduo, mas espiritualmente é idêntico a ele; e a autoscopia cenestésica, onde o duplo não é visto, mas somente experimentado em forma de sentimento e reconhecido como idêntico ao sujeito.

Os conceitos da "autoscopia negativa" e da "autoscopia interna", a meu ver, devem excluir-se do que hoje se chama heautoscopia. Por um lado, a autêntica heautoscopia negativa é muito rara que Leischner (1961) e outros autores a estudam juntamente com o fenôme­no que consiste na apreciação visual de uma metamorfose corporal própria; fenômeno que em realidade pertence às vivências de desrealização corporal, isto é, às vivências de estranheza referidas ao próprio corpo enquanto objeto. A título de exemplo, eis um caso descrito por Lhermitte (1951), que aparece incluso na heautoscopia negativa no trabalho de Leischner:

- Um homem que se barbeava viu, de repente, suas feições completa­mente alteradas. Assustou-se tanto que jogou o aparelho de barbear longe e fugiu co­rrendo.

Por outro lado, o conceito de "autoscopia interna" foi muito criticado. Para Bain (1903), é um fenômeno cenestésico, uma percepção real que só é acessível aos indivíduos em transe hipnótico e às histéricas graves. Certas histéricas podem tomar consciência não somente da estrutura macros­cópica de seus órgãos internos, mas, às vezes, sua estrutura microscópica, como também, elas podem perceber seu funcionamento e dominá-lo voluntaria­mente.

Algumas experiências desta espécie foram inventadas peIas pacientes histéricas ou apareceram nelas sob a pressão das sugestões do clínico. É sabido peIa observação de histé­ricas, que elas, para atraírem mais a atenção dos clínicos, simulam a capacidade de ver através da pele. Menninger-Lerchenthal (1935) adota uma postura cética ante a "autoscopia interna". As escassas descrições existentes de casos deste fenômeno, a meu ver, representam quase sem exceção um produto psicógeno artificial. Ao contrário da heau­toscopia, que prevalece nos homens, a "autoscopia interna" foi  descrita somente em mulheres histéricas.

Deste recorte das "autoscopias" de Sollier, só se confirmam as "autoscopias externas positivas". Aqui está incrustado o núcleo da atual heautoscopia. Poderia falar-se, em princípio, seguindo a cla­ssificação de Sollier, de heautoscopia especular, díspar e cenestésica, onde os tipos díspar e cenestésico correspondem plenamente a vivências de des­personalização. Torna-se surpreendente que esta pista tenha sido perdida por grande parte dos autores modernos. Por exemplo: Mennlnger-Lerchenthal (1935) define unicamente a heautoscopia como "uma alucinação óptico-cenestésica do esquema corporal, cujo desdobramento é produzido por processos psíquicos e mecanismos ligados ao sistema vestibular, tronco cerebral e córtex parieto-occipital". Define, então, este fenômeno "como um esquema corporal alucinado". E destaca que o "eu" central, pelo qual o homem toma consciência de si mesmo, permanece incólume.

O próprio Menninger-Lerchenthal (1935), ao abordar o estudo do condicionamento psicológico e psicopatológico da heautoscopia, admite, apesar de sua concepção unitária do fenômeno heautoscópico, a influên­cia de uma ampla série de fatores:

- Determinadas situações afetivas que reforçam a capacidade de auto-observação e auto-análise.

- Certa turvação da consciência que pode tomar a forma de sonho, da sonolência em estado vigil ou de uma breve interrupção da consciência lúcida, por exemplo, nos estados de fadiga ou de hiperatividade da fantasia. Em outros casos há uma leve alteração da consciência secundária a um transtorno do sistema vestibular.

- Uma disfunção do esquema corporal que conduz à dissociação deste esquema em forma de uma alucinação global óptico-cenestésica ou em forma de uma fusão de fenômenos ópticos e cenestésicos anormais. O fato de que o vestuário do indivíduo e outros objetos ligados a ele circunstancial­mente possam ser incluídos na aparição heautoscópica, representa uma confirmação de que pertençam ao esquema corporal.

- Uma alta capacidade de auto-observação ou a freqüente observação da imagem própria em um espelho. (Este dado está em flagrante contradição com a nítida prevalência masculina da heautoscopia).

Para Menninger-Lerchenthal (1935), a heautoscopia tem certo parentesco com a despersonalização, o déjà vu, o transitivismo e a voz alucinatória que chama o indivíduo por seu próprio nome. A aparição de todos estes fenômenos tem uma base comum: a alteração fundamental da consciência do "eu" e dos transtornos do esquema corporal (o eu físico). Pode-se des­crever a heautoscopia como uma "aparição transitivista", como uma projeção exterior do "eu".

A heautoscopia, a meu ver, é uma síndrome que não só varia amplamente em sua etiologia correlata, mas também, em seu condicionamento psíquico e em sua sintomatologia. Atendendo a seu modo de aparecer, podem distinguir-se três variedades aparentes:

(1) a despersonalização heautoscópica,

(2) a alucinação heautoscópica, e

(3) a vivência delirante heautoscópica.

As duas primeiras varie­dades correspondem, respectivamente, à "autoscopia cenestésica" e a "au­toscopia especular" da clasificação de Sollier. À autoscopia deuteroscó­pica de Sollier, na qual o indivíduo se sente ligado psiquicamente a um duplo de figura corporal diferente da sua, também se deve incluir a des­personalização heautoscópica. O delírio heautoscópico de nossa classificação atual não aparece representado nas modalidades de Sollier.

A heautoscopia ou o próprio duplo, segundo Karl Jaspers (1953), consiste em perceber ou em representar-se o próprio corpo no mundo exterior, como uma espécie de segundo "eu". Acrescenta Jaspers que o fenômeno não é unitário; pode tratar-se de uma alucinação, uma vivencia delirante, uma cognição corpórea ou uma representação. O sinal idêntico consiste em que o esquema corpo­ral próprio cobra sua realidade no espaço exterior. Foi López Ibor (1957) quem formulou com toda clareza os íntimos vínculos existentes entre a heautoscopia e a despersonalização.

A ordenação hierárquica das três variedades aparentes de heautoscopia, de acordo com o critério fenomenológico, permite distinguir duas moda­lidades primárias de heautoscopia:

(1) uma modalidade muito freqüente, a des­personalização heautoscópica; e

(2) uma modalidade rara, a vivencia de­lirante heautoscópica.

A alucinação heautoscópica deve considerar-se como um produto secundário da despersonalização. A modalidade nuclear e pura da heautoscopia corresponde, pois, à experiência de despersona­lização.

A aceitação da despersonalização heautoscópica como fenômeno heautoscópico básico, obriga a modificar notoriamente as explicações que se vinham incorporando ao gênero das heautoscopias. Como López lbor (1957 e 1966) pontifica, deixam de ter vigência os conceitos de cenestesia e de esquema corporal e passa ao primeiro plano o "eu" corporal.

O "eu" corporal, sinônimo de corporeidade e de vivência do corpo, diz López Ibor, é uma experiência primariamente única. "Não existe um esquema corporal como síntese a agregação de todas as sensações que integram a cenestesia". (O conjunto das sensações internas ou orgânicas constitui a cenestesia). "A experiência do ‘eu' corporal, continua López Ibor, não se oferece como uma notícia passiva; é um erro acreditar, como no antigo conceito da cenestesia, que se trata de uma espécie de telegrama que vai enviando cada órgão, e, por que não cada célula, a um centro onde habita essa percepção do ‘eu' corporal que se chama cenestesia."

Pensava-se assim mesmo que os elementos sensoriais da cenestesia eram localizados em virtude de uma função do vestibular, "o nervo do espaço", e que o esquema de nosso corpo era, assim, uma função vestibular. "Todas estas idéias acerca do modo de constituir-se em esquema corporal - acrescenta López Ibor - estão montadas sabre uma psicologia de tipo associacionista, no qual os conteú­dos psíquicos superiores provêm da agregação de elementos". Em defi­nitivo: a vivência de nossa existência corporal não provém de uma sínte­se de sensações, mas constitui uma experiência global unitária. Sua tonalidade nos é dada por essas sensações globais da corporeidade que cha­mamos "sentimentos vitais" (Scheler).

A despersonalização heautoscópica é uma experiência de estranhamento referido ao "eu" corporal. "O ‘eu' - diz López Ibor - se sente como um corpo astral emigrado do corpo." Sollier (1903) descreve a "au­toscopia cenestésica" não como uma alucinação visual nem como um fenômeno visual de qualquer tipo, mas como a projeção exterior objetivante das sensações cenestésicas. Assim tem lugar a duplicidade da pessoa sensível. Este duplo sensível pode ser revestido dos atributos atuais exteriores ou dos atributos morais. López Ibor (1957 e 1966) analisa estes conceitos de Sollier à luz de sua concepção e distingue uma experiência primária e una experiência secundária.

"A experiência primária de estranhamento, tem um caráter compacto, simples e unitário e está referido ao ‘eu' corporal. O processo secundário, de revestimento, por parte do indivíduo da experiência primária, é o que tem lugar nos casos complicados".

Esta simples e clara formulação do problema permite suspeitar que muitos dos casos refe­ridos pelos respectivos autores como alucinação heautoscópica, perten­cem realmente à despersonalização heautoscópica. A alucinação ou a pseudoalucinação visual representa um elemento sobreposto secundaria­mente à experiência primária de despersonalização corporal.

A despersonalização heautoscópica está vinculada à vivência de angústia. López Ibor (1950 e 1966) se refere a estes vínculos: "A angús­tia consiste na experiência da ameaça da dissolução do eu, que pode realizar-se em vários planos, e um deles é o de sua fusão com a corporei­dade. Na experiência angustiosa aguda todos os planos se recorrem rapida­mente, e o que o indivíduo sente é a angústia sem saber o porquê, isto é, sem um sistema de referência.

Quando a experiência se desenvolve mais lentamente, oferece sua autonomia interna, e uma de suas regiões topográficas está constituída peIa fusão do "eu" com a imagem corporal. Na ameaça da dissolução, esta - a imagem corporal - se aliena, converte-se em algo estranho, às vezes como totalidade, às vezes como parte, segundo o "eu" se sinta total ou parcialmente ameaçado. Por isso, o paciente diz: "Este corpo não é meu", e ao lhe contestarmos, modifica sua ex­pressão dizendo: "Como se não fosse meu."

As descrições da heautoscopia que se baseiam, a meu ver erroneamente, na noção do esquema corporal, supervalorizaram a par­ticipação genética do mecanismo vestibular. Esta supervalorização se de­riva da identificação das vertigens timopáticas ou subjetivas dos pacientes com heautoscopia, como vertigens vestibulares ou objetivas. Nas vertigens vestibulares o que está alterado é a percepção do espaço.

Nas vertigens timopáticas (ansiedade patológica), a representação do espaço. "Seus casos, diz López Ibor, referindo-se a Bonnier, que foi o primeiro autor que destacou a in­tervenção das perturbações vestibulares na alteração do "esquema corporal heautoscópico", mais que exemplos de vertigens típicas vestibula­res, são exemplos de vertigens timopáticas ou agorafóbicas, idênticas no fundo à chamada por Barré anxiété vestibulaire. Assim, tais crises vertiginosas são algo diferente que a expressão de um distúrbio labiríntico: são equivalentes de crises ansiosas. Angústia e vertigem são duas modalidades de apresentação do mesmo fenô­meno, como o demonstra a leitura das mesmas observações de Bon­nier e a, das contidas no livro A angústia vital, de López Ibor.

Em outras ocasiões, a despersonalização heautoscópica se deriva de uma queda do nível da consciência. López Ibor (1966) descreve este me­canismo genético: "Na crise de ansiedade aguda pode observar-se certa turvação da consciência; no pré-sonho, na aura epi­lética, também se acha outra forma de consciência turva ou que esteja turvando. É natural que a consciência do eu, que é um círculo ou setor da consciência geral, sofre o impacto desse véu que lhe cobre. Em episódios leves da mesma, a ruptura com a realidade se manifesta como uma espécie de estado com tendência às elaborações fantasmáticas e oniróides. A vivência simples, em princípio, da percepção da corporeidade, se elabora a este nível oniróide, e então os perfis do fenômeno aparecem projetados com um tamanho monstruoso. O paciente sente seu corpo cortado peIa metade, ou algo parecido. Também tem lugar as realizações plásticas da síndrome de desperso­nalização, nas quais o pitoresco chega aos limites da credulidade.

Para Hecaen e Ajuriaguerra (1952) os três fatores genéticos fun­damentais na heautoscopia são:


  • (1) a ansiedade,

  • (2) os transtornos vestibulares, e

  • (3) a alteração da consciência de tipo hipnagógico.

O curioso é que estes autores, seguindo a linha interpretativa de Menninger-Lerchen­thal (1935) consideram que a forma típica da heautoscopia é a alucinação heautoscópica, e a forma atípica, a despersonalização heautos­cópica. A discrepância entre esta opinião e os pontos de vista aqui expos­tos, até o momento, talvez se deva a que uma ampla série de alucinações, pseudoalucinações e representações visuais do duplo não são, um sinal primário, mas que se sobrepõe à experiência primária da despersonalização corporal.

Esta suspeita se baseia em que a maior parte das observações de ca­sos de visão do duplo, referem que este duplo, ainda que mudo, mantém uma comunicação afetiva e ideativa com o indivíduo que a vivencia. A experiência primária de despersonalização culmina aqui secun­dariamente em um desdobramento sensorial do "eu". Não tem isso nada de particular: os diversos transtornos do "eu" exercem uma poderosa ação transfiguradora sobre as percepções. Os exemplos estão na men­te de todos: a desrealização e as mudanças na percepção do próprio corpo que temos, do corpo como objeto, são derivações da des­personalização; a metamorfose persistente da imagem corpórea de si mesmo pode acompanhar à quebra da identidade do "eu"; uma meta­morfose intermitente e parcial (de alguns traços corporais) acontece em certos momentos da duplicação do "eu" integral, da perda da unidade do "eu".

Por outro lado, a experiência de estranheza do "eu" corporal, elemen­to definidor da despersonalização heautoscópica, implica uma ruptura da unidade do "eu". Esta ruptura pode continuar regular ou irregularmente a hipotética linha de articulação entre o "eu" corporal e o "eu" psíquico. Se a segue regularmente, só se desdobra a corporeidade. Se a ruptura, pelo contrário, segue uma linha irregular, a duplicação afeta à corporeidade e ao "eu" psíquico: na vivência do duplo se incrustam alguns frag­mentos da própria vida psíquica do indivíduo. Em qualquer caso, estes trans­tornos do "eu" tendem a forçar ao indivíduo a materializar visualmente o duplo.

A impressão experimentada por um indivíduo normal ou com um transtorno psíquico sobre a presença de alguém em sua proximidade é descrita por Parhon-Stefanescu e Procopiu-Constantinescu (romenos) (1967) como "impressão de presença". A fadiga, o isolamento e os estados afetivos negativos, como a tristeza e a ansiedade, integram a etiologia deste fenômeno nos indivíduos sem transtorno psíquico. Os indivíduos normais, geralmente, estão conven­cidos de que a impressão de presença não corresponde à realidade.

Nos pacientes psíquicos, a impressão de presença pode acompanhar-se ou não da crença na realidade da existência de certas pessoas em suas imediações. A impressão de presença acompanhada da firme certeza sobre a realidade da mesma deve ser considerada, quase sempre, como uma inspiração delirante da variedade chamada por Jaspers de "cognição delirante".

O delírio do próprio sósia (vide artigo na RedePsi) representa um fenômeno de transição entre a vivência delirante heautoscópica e o delírio de sósia alheio. A pre­sença, intuída ou vista, do duplo de si mesmo no espaço objetivo é o sinal comum ao delírio do próprio sósia e à heautoscopia. As diferenças entre ambos os fenômenos são qualitativas e absolutas. No plano descri­tivo: o duplo heautoscópico é "inventado" peIo indivíduo, enquanto que o duplo do delírio dos sósias é o produto de um falso reconhecimento: uma paciente de Dietrich (1962) acreditava que as mulheres que passeavam peIa rua eram seu próprio duplo, e outro, de Gluck (1946) dava a outras pessoas sua própria identidade. No plano fenomenológico: a vivência de­lirante heautoscópica é uma inspiração, ou intuição, delirante, enquanto que o delírio do próprio sósia - da mesma forma que ao sósia alheio, que é muito mais freqüente - pode ser uma percepção delirante ou uma interpretação deliróide.

A diferença entre o delírio do próprio sósia e o delírio de sósia alheio ou síndrome de Capgras; em troca, tem um significado escasso e alude exclusivamente ao conteúdo da vivência; vale dizer, que o duplo vivenciado seja o do próprio indivíduo ou o de outra pessoa. Em ambos os casos tratam-se de um falso reconhecimento que pode ter a estrutura vivenciaI da interpretação deliróide ou da percepção delirante. A pessoa ob­jeto do falso reconhecimento no delírio do sósia alheio pode ser uma pessoa conhecida. O falso reconhecimento que constitui o delírio do próprio sósia, em troca, se refere sempre a uma pessoa desconhecida para o indivíduo que vivencia o fenômeno. 

A casuística dos fenômenos heautoscópicos já é bastante ex­tensa e abarca um setor de pessoas sadias e outro de doentes mentais. Como agentes responsáveis da apresentação da heautoscopia nos sãos, figuram: a introspecção, a fadiga, o pré-sonho, os sonhos, os rápidos deslocamentos para cima ou para baixo em um elevador, por implicar, segundo Menninger-Lerchenthal, um transtorno da função vestibular, e, em casos recolhidos por Lhermitte (1951) de "heautoscopia voluntária".

A experiência heautoscópica pode apresentar-se nos seguintes campos nosológicos: neuroses dissociativas (histéricas), neuroses de diferentes tipos, círculo timopático, psicoses esquizofrênicas, epilepsias, paralisia geral (sífilis), encefa­lites, meningites, atrofias cerebrais, alterações cerebrovasculares, lesões cerebrais focais, transtornos pós-traumáticos, doenças infeccio­sas (sobretudo a febre tifóide, o tifo exantemático e a "gripe"), intoxi­cações (por álcool, cocaína, heroína, haxixe e mescalina) e a cegueira por atrofia óptica (Conrad, 1953).           ­

A topologia das lesões cerebrais focais e das epilepsias que podem condicionar uma experiência heautoscópica, segundo Hecaen e Aju­riaguerra, está especialmente vinculada às regiões basais e à região parieto-occipital. Contra a opinião de Menninger-Lerchen­thal (1935) de que a heautoscopia aparece preferentemente, mas não ex­clusivamente, nas lesões focais do hemisfério direito, sobretudo da região parietal, Hecaen e Ajuriaguerra (1952), baseando-se em sua experiên­cia, não admitem essa Iateralização hemisférica, e Hecaen e Green (1957) e Leischner (1961) indicam que tanto as lesões temporais como as pa­rietais podem produzir heautoscopia.




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