A publicação de mais uma abra do Prot



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Jornal A Tarde, sexta-feira, 17/08/1973

Assunto:


“O HOMEM NO VALE DO SÃO FRANCISCO”


A publicação de mais uma obra do Prof. Donald Pierson acrescenta mais um titulo à excepcional carreira desse sociólogo. Todos os que temos acompanhado essa trajetória dos seus serviços à Sociologia a ao nosso País, lastimamos que o autor e mestre não haja podido estar presente ao lançamento do seu mais recente livro, ausente do Brasil desde que, aposentado de sua cátedra em São Paulo, regressou aos Estados Unidos. Embora norte-americano de nascimento e formação acadêmica na Universidade de Chicago, onde se doutorou com uma tese preparada na Bahia e tendo as relações raciais em nossa região como tema. Pierson tem seu nome indissoluvelmente ligado ao Brasil, tanto pela atividade didática exercida durante mais de quinze anos, como um dos fundadores da moderna Sociologia científica entre nós, quanto pelo trabalho metódico o paciente de orientação de várias gerações de futuros colegas seus e pelos estudos que publicou, focalizando temas e questões da sociedade brasileira. Dedicando o melhor de sua competência e capacidade ao ensino, não se limitou ao labor nas salas de aula e nas tarefas de treinamento no campo, mas escreveu uma obra didática, o seu tratado sobre teoria e pesquisa que através quase vinte edições, tem sido o guia de outras sucessivas camadas de estudantes universitários, na Sociologia e nas Ciências Sociais em geral. Nenhuma outra obra do gênero teve até agora influência maior entre nós e assim continua. Outro dos serviços prestados ao conhecimento da sociedade brasileira além de numerosos artigos em revistas especializadas, é a investigação demorada de dois anos e minudente que, depois de editada nos Estados Unidos, veio à luz em Português sob o título de “Brancos e Pretos na Bahia”, já agora em duas edições nas duas versões, atualizada por meio de extenso prefácio em que faz perspicaz análise dos desenvolvimentos do problema e de indagação sobre o mesmo nos passados trinta anos. Esse é, por sua vez, ensaio fundamental e indispensável à interpretação do relacionamento das classes e dos grupos e pessoas de cor em nosso Estado e, por suas projeções teóricas, à grande parte do Brasil. Com Emílio Willems, seu contemporâneo em São Paulo e há muito professor na Vanderbilt University, e Herbert Blumer, o eminente investigador de Universidade da Califórnia em Berkeley, tive o privilégio de colaborar com Pierson, para a 2ª edição dessa obra, lendo e atendendo à sua solicitação de comentar aquele prefácio.

De uma energia admirável, Pierson prossegue trabalhando sobre material de suas pesquisas enquanto viveu em nosso País, em seu retiro nos Estados Unidos. Faz pouco mais de 20 anos, em sua faina de formação de novos sociólogos, esse incansável especialista empreendeu extenso programa de pesquisas ao longo da bacia do Rio de São Francisco, apoiado pela então Comissão do Vale. Desde Minas a Alagoas, viajou extensa e repetidamente, na direção de uma equipe de jovens alunos, que todos vieram ocupar posições de relevo nos domínios da Sociologia brasileira. Os resultados preliminares desse programa foram dados à luz em artigos seus e em artigos e monografias de seus colaboradores de então, os professores Otávio da Costa Eduardo, Levy Cruz, Fernando Altenfelder Silva, A. Trujillo Ferrari, Esdras Borges Costa, Alceu Maynard Araújo e outros, contribuições ao conhecimento particularizado da região estudada que constituem uma constelação em torno do pioneiro estudo de comunidade intitulado “Cruz das Almas”, nome fictício de uma localidade de São Paulo, com que o próprio Pierson havia sumamente enriquecido, em edições nas línguas inglesa e portuguesa e série iniciante de ensaios do mesmo gênero.



Poucos meses faz a Superintendência do Vale do São Francisco (SUVALE) publicou, em três volumes de primorosa feitura gráfica a síntese que Pierson elaborou dos dados de mencionada grande pesquisa. Mais uma vez liga-se o autor à Bahia, pela parte considerável de obra que se refere à Bahia e pelos estímulos que para a publicação de seus originais, recebeu e agradece a baianos insignes como Anísio Teixeira, que de perto seguiu e pesquisa em torno dos anos 50. Aloísio de Carvalho Filho, Nestor Duarte e felizmente prosseguindo em seu trabalho, Waldiki Moura “O Homem no Vale do São Francisco” condensa os materiais cientificamente colhidos em cinco diferentes áreas de bacia do São Francisco, selecionadas segundo características ecológicas e sócio-econômicas típicas, mais tudo que existia de relevante a respeito da região na esparsa bibliografia geográfica, histórica, sociológica, folclorística, econômica. Assim, o passado e o presente da região são submetidos a uma análise metódica sob diversificados ângulos: o rio mesmo e sua bacia, localidades estudadas, várias destas no Estado da Bahia, as raízes no passado, a sociedade e a cultura, a população e sua adaptação ao meio, a sociedade e a cultura, incluindo família, parentesco, compadrio, religião e outros rituais, comportamento político e, finalmente com algo pouco destacado na generalidade dos estudos do gênero, o ciclo vital do indivíduo, isto é o nascimento e a infância, a preparação para a vida, o namoro, o casamento, a paternidade, a morte, os funerais, o luto. Bem peculiar aos demais ensaios de Pierson, são a cópia e o detalhe dos dados significativos que reúne e analisa, a propósito de cada um dos temas investigados, descritos e interpretados. Não se reduz a um acervo de informações de teor cientifico, ordenadas e rigorosamente examinadas, essa extensa monografia: ao cabo do terceiro volume, encontra-se um sumário daqueles achados, em forma de avaliação do ponto de vista do cientista social de toda a problemática de importante região. E como procedeu em relação a outras questões que ocuparam sua atenção no Brasil o autor oferece aos cientistas de vários domínios uma série de sugestões para pesquisas a serem desdobradas no Vale. E ainda coloca em tela, com sensível percepção, o planejamento econômico, educacional e social da vasta faixa de terras ribeirinhas, antevendo já em 1960, quando terminou a redação desse tratado, certos dos programas depois excogitados ou postos em prática com promissora eficácia. Esse é, aliás, outro aspecto da obra que se faz digno de realce, porquanto em geral os estudos daquela natureza limitam-se a entregar aos cientistas e administradores os dados com que possam eventualmente atuar sobre as populações ou os problemas. Pierson, porém, não se satisfaz com isso: usa de sua competência e de sua visão, para explorar com inteligência e entusiasmo, as possibilidades do Vale do São Francisco e os modos de empreendê-las. Voltadas as vistas, mais uma vez, para a secção baiana do grande rio, com a próxima construção da barragem de Sobradinho, o novo livro será um roteiro e uma fonte de sugestões da mais alta valia por seu caráter como obra cientifica e pelo que traz de conhecimento minudente a exaustivo do seu objetivo. Dispõe pois, a Bahia de um instrumento essencial a todos os planos atinentes a uma região que, tão importante na história nacional, se bem que magnificamente aproveitada em Paulo Afonso e nas experiências de irrigação que ali se fazem, inda carece de maior atenção dos homens de ciência, dos planejadores e dos governantes.

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