A questão da açÃo moral em o ser e o nada de sartre



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A QUESTÃO DA AÇÃO MORAL EM O SER E O NADA DE SARTRE
Marcelo Prates de Souza (PAIC/Fundação Araucária) e-mail: marceloprates1@gmail.com, Manuel Moreira da Silva (Orientador)
Palavras-chave: Liberdade, ação, valor.
Resumo:

O objetivo dessa pesquisa foi analisar a possibilidade de uma ética na obra O Ser e o Nada de Jean-Paul Sartre, discutindo a moralidade da ação, uma vez que o homem é liberdade e tem essa liberdade efetivada na ação. Busca-se com esse trabalho ampliar o horizonte acerca da questão moral e do próprio ser humano.



Introdução

A primeira pergunta a que esta pesquisa se propôs foi em responder se há e qual é a possibilidade de uma ética na obra filosófica de Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada. Esta pergunta faz-se necessária pelo fato de o livro ser a princípio um ensaio de ontologia e fenomenologia. Com isso, pretende-se esclarecer a própria necessidade deste trabalho, ou seja, por que pensar uma ética a partir de O Ser e o Nada. Embora se tratando de um ensaio de ontologia fenomenológica, é possível aceitar, segundo Franklin (2004), que não há uma só afirmação em toda obra de Sartre que não possua uma ressonância ética.

É possível afirmar isso porque, sobretudo, O ser e o Nada é um ensaio sobre o homem, o projeto de pensar a realidade humana é em si mesmo de caráter ético. O uso da fenomenologia e da ontologia deve-se ao fato de estas poderem informar sobre os fundamentos e os fins últimos da realidade humana. Além disso, o autor apresenta uma perspectiva sobre a realidade humana sobre um novo viés: o homem é liberdade, ou como reza a máxima: o homem está condenado a ser livre.
Materiais e Métodos

O método empregado consistiu em uma pesquisa de cunho inteiramente teórico, bibliográfico e conceitual; tendo como objeto de estudo principal a obra O Ser e o Nada, outros textos do mesmo autor para complemento, e para apoio e complemento alguns comentadores.


Texto

A via utilizada para compreender essa reflexão moral em Sartre foi a questão da ação moral, ou seja, procurou-se colocar em questão a moralidade da ação, e o que isso significa. Isto devido o fato de o autor considerar o homem como ação. Primeiramente parte-se da análise da própria possibilidade da ação, e esta resulta em ser liberdade. A condição primordial da ação é a liberdade, e só é possível considerar uma ação qualquer partindo do princípio de que ela foi livremente escolhida.

É necessário, então, compreender o conceito de liberdade empregado pelo filósofo. Liberdade é autonomia de escolha e não liberdade de obter, porque a partir do momento no qual posiciono meus fins sobre um objeto, este objeto se torna o pólo condutor de minhas ações. A liberdade é anterior aos fins por ela posicionado, e por isso, o êxito não importa em definitivo para a liberdade. Sendo assim, o que está em jogo é o poder autônomo do sujeito em decidir por ele mesmo, o qual se efetiva na ação. Por isso toda ação é intencional, ou seja, visa um determinado fim livremente escolhido, e esta ação só pode ser consciente, pois toda ação é consciente por ser livre.

Por que uma pessoa, dentro de um campo de possibilidades, escolhe isto ou aquilo?

Claro é que Sartre nega todo determinismo, nenhum estado de fato pode motivar qualquer indivíduo a uma ação. “Um ato é uma projeção do Para-si rumo a algo que não é” (SARTRE, 2003, p. 539), ou seja, o indivíduo pode apreender dada situação histórica em sua plenitude, mas só estará agindo de fato quando projetar por si mesmo, fins livremente escolhidos. Uma situação é sempre plena, a percepção de suas contradições e das possibilidades de modificação só são percebíveis pela liberdade humana, por isso o agir é sempre consciente, visa um fim e uma modificação tanto no indivíduo como na situação. Em outras palavras, a liberdade é a fonte de todos os valores e do próprio mundo; o mundo é humano, os valores são humanos. “Assim, a consciência reflexiva pode ser chamada, propriamente falando, de consciência moral, uma vez que não pode surgir sem desvelar ao mesmo tempo valores” (SARTRE, 2003, p.146). Logo, toda ação é, por princípio, moral. E as implicações ainda vão além, porque a conseqüência da ação não pode ser outra senão a responsabilidade total que carrega cada escolha, pelo fato de que esta é a única forma de constituição do ser do sujeito. O homem é o que ele faz de si mesmo, e por isso carrega toda a responsabilidade de seu ser.
Resultados e Discussão

Através dessa análise, pode-se dizer que Sartre resgata certa dignidade ao homem, pois revela que o mundo nada mais é que uma construção humana, e que todas as ações por mais insignificantes que possam parecer, carregam um teor axiológico. As grandes objeções e complicações que esta teoria moralista encontra são a fundamentação de uma hierarquia de valores e o de uma intersubjetividade, uma vez que para Sartre todas as relações com o outro resultam em um inevitável conflito.


Conclusões

Dois são os pontos fundamentais e de extrema contribuição para a discussão da ética diante da análise da questão da ação moral presente em O Ser e o Nada de Sartre: primeiro que só é possível admitir a responsabilidade total do indivíduo partindo da premissa de que ele é totalmente livre. E aqui não há lugar para um meio termo para a liberdade, pois ou o homem é inteiramente livre, ou não é. Segundo, sendo o homem livre, o mundo é humano, pertence ao homem e por ele é construído; a liberdade é a fonte de todos os valores. Essa ética que se encontra em Sartre é uma ética da libertação, ou seja, a conquista da própria subjetividade.



Referências

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Tradução: Paulo Perdigão. 12.ed. Petrópolis: Vozes, 2003.



SILVA. Franklin L. Ética e literatura em Sartre: Ensaios introdutórios. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

BORNHEIM, Gerd. Sartre: metafísica e existencialismo. 3.ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003.



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