A questão da biblioteca em memórias póstumas de brás cubas



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A QUESTÃO DA BIBLIOTECA EM MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS


  1. Realidade e ficção: a viagem ao redor dos livros

O âmbito comum que se verifica ao longo da obra de Machado de Assis é o papel dado à discussão sobre a biblioteca em seu próprio texto. De Ressurreição ao Memorial de Aires, sem nos esquecermos dos contos e crônicas, o escritor carioca insere na narrativa suas próprias impressões de leitura, seja pelo recurso da citação ou da alusão a determinados autores. Por sinal, o uso das citações é um procedimento que, desde a antiguidade, tem acompanhado a história da literatura. O fragmento seis de Empédocles, por exemplo, é citado tanto por Hipólito quanto por Sexto Empírico e Aécio, ambos de maneira bastante diversa. Isso ocorre porque, nessa época, as obras antigas não são livros impressos. São antes volumina, ou seja, manuscritos enrolados, de peso e tamanho que dificultavam o manuseio e o transporte. Logo cedo se substituiu os volumina por compendia, extratos e resumos, muito mais fáceis de se consultar. Como o meio de comunicação nesse tempo era predominantemente oral, geralmente as citações dos resumos e extratos eram feitas de memória, sem a consulta direta às fontes. As falhas desse método eram encontradas quando se comparavam duas ou mais citações de um mesmo fragmento, como no caso de Empédocles1.

Se na chamada “primeira fase” de sua obra, Machado de Assis se serve das citações ipsis litteris, veja-se o caso do conto “Miss Dollar”, do volume Contos Fluminenses (1870), a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), seu método de leitura passa a deturpar as citações, sempre no intuito de subvertê-las à situação em que se encontram suas personagens. Essa deturpação não pode ser explicada por uma falha na memória do autor, como no caso dos historiadores antigos, Hipólito, por exemplo. Se Machado filia-se a uma linha de escritores que exploram a ligação estreita entre escrita e leitura, ou seja, que dão à biblioteca um papel preponderante - transformando a própria narrativa em um espaço que se constrói a partir de relações intertextuais entre diversos livros -, não se pode esquecer que o leitor assume, com a publicação das Memórias, uma posição muito distinta daquela que lhe cabia antes da obra do defunto autor. Como salienta Hélio de Seixas Guimarães, em Os leitores de Machado de Assis, a atitude de Brás Cubas é agredir o leitor, enganá-lo, desafiá-lo, fazê-lo motivo de chacota, portando-se “ora como um ser superior ora como um vizinho malcriado” (GUIMARÃES, 2004, p. 175).

A importância dada ao leitor, como uma personagem intrínseca ao próprio romance, teve sua maior difusão mais de dois séculos antes de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Seu universo não é o Rio de Janeiro oitocentista de Machado de Assis, às vésperas da República, mas a Espanha contrareformista de Felipe III. O mundo da Mancha, cenário das aventuras do Engenhoso fidalgo Dom Quixote, encontra-se muito distante de nós, mas o cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, preexistem à própria leitura do romance de Miguel de Cervantes. Não é preciso que tenhamos lido suas mais de mil páginas para se ter em conta o caráter do quixotismo, já que as personagens da obra cervantina alçaram a esfera do mito, tornando-se uma filosofia de vida que existe para além do texto. Porém, só com a leitura minuciosa desse marco fundamental da literatura, podemos ter consciência do papel do leitor, e, também, da atitude quixotesca em relação à biblioteca, que são os pontos basilares do projeto estético de Machado.

Carlos Fuentes, no importante artigo “Machado de la Mancha”, situa o autor carioca como um herdeiro direto, entre os escritores latino-americanos, da lição de Cervantes. Fuentes destaca que o autor de Brás Cubas não esqueceu, como a Europa pós-napoleônica e a literatura brasileira antes dele, que o livro, como professava Cervantes, pode se construir a partir de outros livros mediante a inscrição das leituras na superfície do texto, ou seja, que sobre a própria realidade se imprime a letra, que assume o lugar da vida. Don Alonso de Quijana, tornado Dom Quixote, é uma letra, esquálido grafismo que evoca uma época que nunca chegou a existir, a era dos cavaleiros andantes, duplicando, desde então, o problema do ficcional, pois se recupera não um passado heróico real, mas a ficção, ou ainda, um desejo utópico, de que um dia pudesse haver defensores da lealdade e da justiça.

A tradição pós-napoleônica, aliás, é denominada por Carlos Fuentes em seu artigo como a “tradição de Waterloo”, em oposição à “tradição da Mancha”. Enquanto a primeira se caracteriza por “personagens reais”, a segunda se distingue por “leitores ideais”. No entanto, o escritor alerta para determinada rigidez nesta divisão, lembrando que a “loucura da leitura”, motivo da ação de Dom Quixote, transcende o plano do realismo num romance como Madame Bovary, já que a heroína de Gustave Flaubert perde o equilíbrio entre a realidade psicológica e a realidade social e medíocre de Yonville ao ler histórias românticas2. Mesmo assim, a diferença básica da “tradição da Mancha” para a “tradição de Walterloo” é que Dom Quixote reconhece ser uma personagem impressa e lida (FUENTES, 2001, p. 14), já que a Segunda Parte da obra de Cervantes, de 1615, só pôde existir após a publicação apócrifa de Avellaneda, de 1614. Nessa Segunda Parte, Don Alonso de Quijana, ao partir pela terceira vez de sua aldeia, reconhece que diversos habitantes da Mancha já sabem da história do cavaleiro da triste figura, pois a versão de Avellaneda encontra-se inserida no próprio enredo.

Não só na Segunda Parte Dom Quixote é admirado por ser uma personagem da ficção. Já na Primeira Parte, de 1605, Cervantes desenvolve o problema do que é ficcional e do que é real: na introdução, apresenta poemas de elogio a Dom Quixote, atribuídos a personagens de obras clássicas anteriores ao romance. Desse modo, Urganda a Desconhecida, Amadis de Gaula e Orlando Furioso, dedicam sonetos ao Quixote, como se os mesmos houvessem lido a obra de Cervantes antes de sua publicação. A questão da autoria também é problematizada, pois o texto original de Dom Quixote, no Capítulo IX, da Primeira Parte, é atribuído ao autor árabe Cide Hamete Benengeli, que alguns críticos, como D. Fermim Caballero, supõem ser um anagrama incompleto do nome de Cervantes (SAAVEDRA, 1960, p. 125).

Ao dar o salto da Mancha de Cervantes para o Rio de Janeiro oitocentista de Machado de Assis, Carlos Fuentes é particularmente profícuo em seu artigo, ao salientar a influência do escritor espanhol no escritor carioca. No entanto, Fuentes não se atém ao fato de que, mesmo sendo um herdeiro da “tradição da Mancha”, ao se servir de inúmeras relações intertextuais que estabelece um espaço virtual de leituras, Machado propõe um método diverso do de Cervantes ao discutir o papel da biblioteca. Se Don Alonso de Quijana parte do espaço dos livros para o espaço da realidade, procurando imprimir a esta suas leituras, acontece com Brás Cubas uma situação diversa. O cinismo e a atitude mordaz do defunto autor troçam do saber convencional. A biblioteca é objeto de pilhéria, mas também se adapta às intenções do texto, e todos os seus livros inscrevem-se nas páginas para dizer que a literatura pode se subordinar à situação vivida. Mas com a característica de que a vida já não mais pertence à personagem. Na condição de defunto, expõe-se com liberdade tudo aquilo que se tem por idéia feita:


O olhar da opinião, esse agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados (ASSIS, 1977, p. 147).

É no espaço da morte que Brás Cubas escreve suas memórias. No intervalo que antecede seu falecimento, o defunto autor procede reiteradamente à comparação da vida com edições de livros. No capítulo VII, “O delírio”, sente-se transformado na Summa Theologica de São Tomás de Aquino. Inúmeras vezes Machado irá se servir do mesmo artifício. Assim, no capítulo XXII, “Volta ao Rio”: “Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... (...)”; capítulo XXVII, “Virgília?”: “Cada edição da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes”; capítulo XXXVIII, “A quarta edição”: “(...) estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no tipo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa”; capítulo LIII, “. . . . . . .”: “(...) mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona a agitação e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo”; capítulo LXXI, “O senão do livro”: “Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios (...)”; capítulo CXII, “A opinião”: “Isso, e a atividade externa, e o prestígio público, e a velhice depois, a doença, o declínio, a morte, um responso, uma notícia biográfica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma página de sangue”. Desse modo, se estabelece por um lado a referência a um arquivo das edições humanas e por outro se constrói a biblioteca das citações. Através de uma breve análise do meio pelo qual Machado de Assis articula as citações em sua obra, será possível desenvolvermos a hipótese de como Memórias Póstumas de Brás Cubas pode dialogar com a obra do escritor espanhol, estudando com mais pormenor a diferença fundamental do papel da biblioteca no romance do escritor brasileiro e no romance de Cervantes3.





  1. Palimpsestos: entre o texto e o vivido

Por meio do recurso das citações, Machado de Assis estabelece que uma das maneiras da personagem relacionar-se com o saber dos livros, ou, de necessitar inscrever na realidade o escrito, é o “procedimento da errata”, como proposto por Bluma Waddington Vilar4. Assumindo a liberdade de ler e transler o original, Machado desafia a autoridade dos livros, questionando a verdade instituída. Mas, de igual modo, a partir desta estratégia, compõe um espaço virtual, uma camada que se sobrepõe ao tecido do enredo, na qual dialoga consigo mesmo, como autor-leitor, e transfere esse modo de leitura para seus leitores. O que ocorre é uma refração do modo estilístico de Machado de Assis no próprio modus operandi de quem o lê, ou seja, um ato de leitura5.

Este dispositivo se alicerça na sobreposição de camadas do texto e na necessidade de decodificação das citações pela consulta às fontes originais. Trata-se de processo semelhante à leitura dos palimpsestos, como já foi proposto por Luiz Costa Lima em relação à obra de Machado de Assis6. Como se sabe, o palimpsesto era um tipo de pergaminho cuja obra havia sido raspada para receber um texto novo, já que o custo do material era caríssimo. Ao ler as citações retificadas, verifica-se, com o cotejo à obra de referência, a subversão empreendida por Machado, descontextualizando o sentido inicial e condicionando-o à situação do romance. Tal método de escrita é concretizado por meio das correções explícitas ou implícitas, ou, ainda, à alusão a determinados autores.

Com relação ao primeiro caso tomemos como exemplo o capítulo CXLII, “O pedido secreto”, em que o filósofo Quincas Borba corrige o fragmento de Pascal, o qual diz que o homem tem “uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o completamente”. Quincas Borba substitui o trecho “sabe que morre” por “sabe que tem fome”. Tal conclusão corresponde a um desenvolvimento da teoria do filósofo iniciada no capítulo anterior “Os cães”, em que ele e Brás Cubas assistem à disputa de dois cachorros por um osso nu. Brás Cubas adverte da falta de valor que teria para um homem vulgar o simples espetáculo de uma luta dessa natureza. Mas para a “sagacidade” do filósofo Borba, o episódio serve-lhe como mais um alimento para suas idéias a respeito da humanidade. Deriva daí o papel da luta como condição necessária da existência humana, considerando-se que a conquista por meio da disputa potencializa o mais forte. A partir da correção do fragmento de Pascal, Quincas Borba expõe seu ponto de vista a este respeito:


Porquanto, o fato da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consciência da extinção dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vai nisso alguma imodéstia), que a fórmula de Pascal é inferior à minha, sem todavia deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem (ASSIS, 1977, p. 286).
Ao admitir a importância de Pascal como “um grande homem”, não deixa de confirmar sua “imodéstia”, expondo a preponderância de seu pensamento sobre o do filósofo francês. O caráter orgulhoso de Quincas Borba corresponde também ao de Brás Cubas. Ele mesmo admira o amigo filósofo pela presunção, arrogância, por sua defesa inatacável do Humanitismo. No capítulo CXVII, é exposta a doutrina de Humanitas que termina com a seguinte afirmação: “Pangloss, dizia-me ele ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire” (ASSIS, 1977, p. 267).

Tal referência à obra Cândido ou o otimismo, de Voltaire, é elucidativa do caráter da filosofia do Humanitismo. A personagem Pangloss, filósofo que procura ensinar ao jovem discípulo ser esse o melhor dos mundos possíveis, é concebido por Voltaire como um ataque direto ao sistema lógico de Leibniz, que admitia, a partir de uma teoria do mal, o sofrimento necessário para o equilíbrio de seu otimismo. Ao se referir à personagem do escritor francês, Quincas Borba, pela voz de Machado, confirma o aspecto limitador de todo pensamento totalitário, baseado em verdades incontestáveis. Ele mesmo não possui consciência de que sua doutrina filosófica se caracteriza como crítica ao próprio dogmatismo. A última parte da filosofia de Humanitas, correspondente a um tratado político, se une à máxima defendida pelo “sábio” Pangloss. Reorganizando a sociedade sob seus princípios, não deixa de demonstrar que os flagelos são elementos intrínsecos para o equilíbrio universal. Assim, não ficam eliminados nem a “guerra”, a “insurreição”, o “simples murro”, a “facada anônima”, a “miséria”, a “fome”, as “doenças”: “(...) destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existência não impediria a felicidade humana” (ASSIS, 1977, p. 262).

Ao assumir a verdade do melhor dos sistemas possíveis, Quincas Borba parte da leitura e correção dos filósofos, como é o caso de Pascal, para chegar a um modelo de pensamento doutrinário que passa então a ser o meio mais útil de se ditar a vida7. Sob esse aspecto, o caráter de Quincas Borba faz par com o de Brás Cubas: o defunto autor possui o mesmo orgulho do filósofo, desautoriza todos os pensadores, apesar de aceitar sem réplicas as idéias do amigo.

No caso da correção implícita da citação, reportemo-nos, como exemplo, ao capítulo XXXV, “O caminho de Damasco”. Brás Cubas, dirigindo-se à casa de Eugênia, diz escutar uma voz misteriosa, que lhe adverte: “Levanta-te, e entra na cidade”. Trata-se, em tal caso, do mesmo fragmento encontrado no capítulo IX dos “Atos dos apóstolos”, escrito por Lucas. Saulo, que vinha perseguindo a Igreja de Cristo, após obter cartas de recomendação do Sumo Sarcedote para as sinagogas de Damasco, com o intuito de levar presos todos os homens e mulheres que cultuassem a doutrina do cristianismo, dirige-se à cidade em questão. No meio do caminho vê-se envolvido por uma luz vinda do céu. Cai em terra e é interpelado pela voz de Jesus, que primeiro lhe pergunta por que o persegue, e depois lhe ordena que se dirija a Damasco. Saulo perde a visão e, chegando à cidade, é recebido pelo discípulo Ananias, que o cura da cegueira. A partir daí Saulo torna-se pregador do cristianismo.

Sem alterar a citação diretamente, Machado de Assis a insere num contexto totalmente diverso da história bíblica. Primeiramente não é Cristo que se dirige a Brás Cubas, mas sua própria voz interior que lhe sussurra as palavras da Escritura. O narrador aponta as duas origens de tal voz: uma piedosa e outra alimentada pelo terror de vir a desposar uma mulher coxa. Essa última opinião é corroborada pela própria Eugênia, restando a Brás Cubas desculpar-se com toda sorte de “hipérboles frias”, como ele mesmo diz. Por fim, desce da “cidade”, no caso o bairro da Tijuca, entre amargurado e um pouco satisfeito.

O efeito cínico-desmascarador que obtém Machado ao descontextualizar a citação sem alterá-la, porém inserindo-a numa situação que nada tem em comum com o caráter sagrado do texto original, pertence a determinada corrente da literatura da qual o escritor brasileiro é um de seus cultores. Trata-se do gênero menipeu, que provém de Menipo de Gádara, escritor de língua grega, que foi um dos primeiros a desenvolver tal estilo, no século III a.C. Neste contexto, vale mencionar que, Enylton de Sá Rego, na obra O Calundu e a Panacéia: Machado de Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica, dedica dois capítulos a um resumo histórico-crítico da sátira menipéia e à influência de Luciano de Samósata na obra de Machado.

Tal influência da menipéia em Memórias póstumas de Brás Cubas, com relação a Luciano de Samósata, deve-se particularmente ao seu Diálogo dos mortos. Os 30 diálogos se passam no Hades, o inferno grego, que coloca em posição de igualdade todos os homens: nele convivem heróis ilustres, deuses, filósofos, artistas que se encontram e entram em contato familiar em pé de igualdade. No diálogo XVI, “Diógenes e Hércules”, Luciano de Samósata recorre a uma citação, exatamente um fragmento do verso 602, do canto XI da Odisséia, de Homero, em que Ulisses desce ao Hades e encontra a sombra de Hércules: “com os deuses imortais”. A intenção de Luciano é dessacralizar o contexto original do verso homérico, já que Diógenes, num discurso irônico, questiona a duplicidade do espírito do semideus grego, ao mesmo tempo humano e divino. Esse é um exemplo de uma correção implícita da citação, como se pôde ver do mesmo modo em Machado.

O procedimento alusivo fica bem explicitado no capítulo LXVI, “As pernas”. Trata-se de uma referência ao capítulo VII de Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre (1763-1852), como já foi apontado com agudeza por Antonio Candido8. Nos dois casos trata-se de um passeio realizado por ambas as personagens, Brás Cubas e o narrador da viagem. Em Maistre, a personagem diz que toma o caminho da corte, em Machado, Brás Cubas anda a esmo, pensando em Virgília e Luís Dutra. No primeiro exemplo, o narrador de Viagem ao redor de meu quarto comenta sobre a desobediência de suas pernas, que ao invés de obedecerem à ordem anteriormente expressa de seguirem para a corte, tomam o caminho da casa de Madame de Hautcastel. Essa atitude pode ser mais bem explicada se levarmos em conta a teoria apresentada no capítulo anterior, em que Maistre expõe o problema da incompatibilidade entre a alma e a besta, ou seja, o espírito e a matéria. A crítica do escritor francês evidencia o caráter inferior do ser sensível, distinto da alma, “verdadeiro indivíduo”, e que se encontra acima dos animais apenas por possuir uma educação elevada e ser provido de órgãos mais desenvolvidos. Tal crítica não coaduna com a reflexão de Brás Cubas. Sem ter nenhuma meta final a atingir, deixa que as pernas o levem até a porta do Hotel Pharoux, onde poderá saciar a fome. O fato de imortalizá-las no capítulo e aludir que cumpriram à risca seu propósito, reforça, ainda mais, o problema da relação “anjo” e “besta” exposta no capítulo XCVIII, “Suprimido”, a respeito da leitura distorcida do fragmento pascaliano, defendendo a dualidade irredutível e simultânea do homem.

A evidência desses métodos de composição do palimpsesto em Memórias Póstumas de Brás Cubas: a correção implícita ou explícita (por vezes um procedimento híbrido) e a alusão (no caso de Maistre, sem nenhuma referência ao nome do autor ou da obra) caracterizam o modo como se estabelece o diálogo entre a biblioteca machadiana e a tradição literária. Também, de modo ainda mais evidente, demonstra a relação que se constrói entre a realidade e a ficção. A partir desta breve análise, continuemos com o desenvolvimento da hipótese inicialmente formulada: a maneira pela qual Memórias Póstumas de Brás Cubas se relaciona com a idéia de “quixotismo”.

3 – Brás Cubas, um anti-Quixote
Ao falarmos da biblioteca de Don Alonso de Quijana não podemos nos esquecer de que ela representa, em nível literário, a materialização do progresso dos livros impressos, que após Guttenberg, no final do séc. XV, possibilitou o alargamento do público da cultura escrita. Até então, as bibliotecas possuíam um número bastante escasso de livros, basicamente restritos ao clero, às universidades e à aristocracia. O crescimento dos acervos de livros familiares, após a invenção da imprensa, torna-se responsável por um novo tipo de público. No prólogo ao seu romance, Cervantes se dirige a um modelo específico de leitor, aquele que, no recesso de sua casa, é livre para opinar, a seu gosto, sobre o que lê:
(...) e porque não és seu parente nem seu amigo, e tens a tua alma no teu corpo, e a tua liberdade de julgar muito à larga e a teu gosto, e estás em tua casa, onde és senhor dela como el-rei das suas alcavalas, e sabes o que comumente se diz “que debaixo do meu manto ao rei mato” (SAAVEDRA, 1960, p. 56).
É a partir desse jogo de espelhos que Miguel de Cervantes constrói seu romance: como Don Alonso de Quijana, também leitor, seu público-alvo deve se encontrar, na maior parte dos casos, em sua casa, no conforto de uma biblioteca, lendo as aventuras do cavaleiro andante. A diferença é que, se o fidalgo da Mancha sai de um espaço fechado para imprimir suas leituras sobre o real, assumindo a ficção como verdade, cabe ao leitor uma viagem íntima, acompanhando não só as peripécias do cavaleiro da triste figura, mas também tomando conhecimento das diversas obras de cavalaria que Dom Quixote inscreve sobre o cenário da Mancha.

A viagem íntima através dos livros pode ser considerada como o procedimento com que Brás Cubas se relaciona com a biblioteca. Ao contrário de Dom Quixote, em que o espaço dos livros é concreto, em Memórias póstumas de Brás Cubas podemos considerar um espaço que se edifica a partir da própria memória. No processo de reconstrução de seu passado, na região da morte, Brás Cubas interage com os livros, pelo recurso da citação, sendo que a leitura dobra o lido à situação anteriormente vivida. Os textos não saem da biblioteca e passam a regular as atitudes da personagem; ao contrário, Brás Cubas, mesmo considerando muitas vezes a importância desses escritos e de seus autores, como no caso de Pascal, subverte-os à sua própria opinião, derivando daí a sucessão de palimpsestos na superfície do romance. Fugindo a uma análise ipsis litteris, de cunho linear, Brás Cubas conduz suas leituras por um princípio diverso. Luiz Costa Lima, no ensaio “Machado de Assis: mestre de capoeira”, aponta tal princípio como “constelacional”, que corresponde a uma “conexão de blocos proposicionais diversos, que, entretanto, se interligam por um motivo comum; este motivo os ‘ilumina’ por uma luz diversa da que seria apropriada a cada bloco” (LIMA, 2002, p. 335). O crítico sublinha uma possível conexão entre este procedimento discursivo e aquele encontrado nos Ensaios, de Montaigne. Lembremos, apenas como exemplo, o capítulo XXXI, Livro I, “Os canibais”, da obra do filósofo francês. Partindo do princípio de que a barbárie, considerada pelos povos civilizados como traço fundador do selvagem, é um espelho de duas faces, Montaigne deriva toda uma constelação de problemas advindos desta perspectiva atrofiada. Comentando textos extraídos de livros de diversos escritores que tratam do mesmo tema, somado à sua própria impressão da sociedade, Montaigne demonstra a fragilidade do discurso instituído, terminando por dizer que, apesar do selvagem não usar calças, tem muitas vezes princípios mais nobres do que o civilizado (MONTAIGNE, 2000, p. 192-203).

Este potencial crítico, descentralizador da verdade, é o meio pelo qual o defunto autor destrói, mediante a leitura distorcida do original, a posição do saber da biblioteca. Num sentido oposto ao de Don Alonso de Quijana, Brás Cubas se apóia na situação vivida para diagnosticar que a leitura não se imprime sobre a realidade para modificá-la. Por seu lado, Cervantes, ao escrever Dom Quixote de la Mancha, parece ainda tomar partido da crença de que a literatura pode modificar o mundo. Este idealismo, caráter inseparável do “quixotismo”, é a nós apresentado nos recorrentes diálogos de Dom Quixote, em que defende a cavalaria andante como savaguarda do bem-estar universal. Mas se levarmos em conta as personagens que o assistem em suas aventuras incongruentes, detectamos a outra face do espelho que, num primeiro momento, nos apresenta Cervantes: trazer a biblioteca para a luz do dia termina por descambar em ridículo sob o ponto de vista de seus expectadores. A inscrição da biblioteca na realidade só existe, de início, no delírio de Quixote. Porém, à medida que a loucura do fidalgo consegue vencer, pela persistência, a atitude escarninha da sociedade da Mancha, suas personagens passam a acreditar, de fato, que o sonho é preferível ao real. Em seu leito de morte, Don Alonso de Quijana recupera a sanidade, denunciando suas aventuras como loucura. Só então seus parentes e amigos desconfiam que agora o fidalgo tornou-se realmente louco.

Mas retomando o foco de análise nas Memórias, não é difícil encontrarmos uma alusão direta ao romance de Cervantes. Ela vai ser encontrada, por exemplo, no capítulo XV, “Marcela”. Dirigindo-se à casa da amante, Brás Cubas diz que quem o guia não é mais o “corcel do cego desejo”, mas o “asno da paciência”. É com esse asno que Brás Cubas chega à casa da amante, “um asno de Sancho, deveras filósofo”, sem nada dever, segundo ele, ao corcel. Importante notar que a personagem dá ao animal de Sancho Pança um caráter elevado, filosófico, ponderado, em oposição ao desejo que foge ao controle. A série de valores “valor-fé-idealismo-utopia-liberarismo-progresso”, por conseguinte o “cego desejo”, casa, a princípio, com Quixote; já a série “covardia-ceticismo-realismo-pragmatismo-conservadorismo”, casa com Sancho. No entanto, as criações de Cervantes, também simbolizadas por seus animais, Rocinante e Ruço, não devem ser discernidas como pólos antagônicos da existência humana. Ian Watt, em Mitos do individualismo moderno, defende esse ponto de vista, apontando que Dom Quixote e Sancho Pança não são opostos, mas cada um deles adquire traços do outro no decorrer do romance (WATT, 1997, p. 88). Lembrando o crítico Salvador de Madariaga, Watt salienta que Sancho é em larga medida “quixotizado”, ao passo que Quixote é “sanchizado”, principalmente na Segunda Parte da obra, em que o ceticismo do escudeiro passa a contaminar as reflexões do cavaleiro da triste figura, levando-o a acreditar que todas as suas aventuras não são mais que fantasias. No capítulo XV, por sua vez, Machado demonstra uma compreensão perfeita do caráter não monolítico das criações de Cervantes, pois é o burro “ponderado” e “filosófico”, ou seja, pragmático, que leva Brás Cubas à casa de Marcela, onde mora o desejo. Daí se infere o caráter instável da alusão de Machado a Cervantes: não é o corcel do cego desejo que transporta a personagem à residência da amante, mas sim o asno, o que corrobora a duplicidade da natureza humana, simbolizada pelo autor por meio dos animais.

Já no capítulo XII, “Um episódio de 1814”, o ideal de quixotismo parece ser levado a sério. Brás Cubas, então com nove anos, recebe a notícia da morte de Napoleão. Ao mesmo tempo, lembra ao leitor que, por essa época, acabara de ganhar do padrinho um espadim novo, dizendo que lhe interessa muito mais o espadim do que a queda de Bonaparte:
Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita página rumorosa de grandes idéias e maiores palavras, mas não sei porque, no fundo dos aplausos que me arrancavam da boca, lá ecoava alguma vez este conceito de experimentado:

- Vai-te embora, tu só cuidas do espadim. (ASSIS, 1977, p.121)


De fato, este aparenta ser o único momento das Memórias em que a “lição da Mancha” é tomada ao pé da letra: o sonho, como veículo de liberdade frente às exigências do real, é celebrado. Daí que, o caráter de anti-quixotismo de Brás Cubas ainda guarda determinados resquícios positivos do herói de Cervantes? A eficácia do devaneio é aludida pela própria personagem. Porém, nesse mesmo capítulo, ao contrário de Dom Quixote, Cubas tem “consciência” da superioridade do sonho em relação ao real. Ele não crê cegamente no sonho, mas reflete sobre o mesmo, tirando deste uma filosofia. A consciência do próprio devaneio é ainda mais explorado no capítulo VII, “O delírio”, em que Brás Cubas relata uma alucinação de que foi acometido diante de Virgília, quando estava enfermo e às vésperas da morte: “Que me consta, ainda ninguém relatou o próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá” (ASSIS, 1977, p. 108). Ao referir-se à ciência, a personagem nos dá a entender o sentido irônico de sua assertiva, pois o sonho de Cubas é examinado por um viés racional, em que a Natureza é apresentada como algo cruel, que a tudo devora, e que só faz acelerar a morte. Em verdade, o delírio não serve como um ideal benéfico que se inscreve sobre a realidade, mas se presta a uma reflexão sobre a mesma, prevalecendo a amarga conclusão do caráter de desamparo dos homens, e que termina com a transformação do hipopótamo que trouxera Brás Cubas até a Natureza em seu gato, Sultão.

Portanto, a partir destas constatações, torna-se inócuo falarmos de idealismo com relação a Memórias póstumas de Brás Cubas. Tomando mais um exemplo, reportemo-nos à invenção do “Emplasto”, possível erradicação da melancolia universal. Ele é ansiado por Brás Cubas como um veículo para alimentar sua vaidade. Por meio do bem-estar dos homens a personagem conquistaria as primeiras páginas dos jornais e os aplausos da medicina.



É nesse sentido que podemos sustentar a hipótese segundo a qual, a partir de sua personagem Brás Cubas, Machado de Assis age de maneira distinta à criação de Cervantes. Ou, melhor dizendo, este procedimento diverso constrói-se por meio de mais uma distorção das fontes. Recorrendo a Pierre Menard, o autor borgiano das aventuras do cavaleiro de triste figura, inferimos que a tarefa do autor, reescrevendo um “novo” Quixote, exatamente como o original, é o modo com que Borges salienta o caráter lábil da crítica das obras e da atemporalidade dos clássicos. Sob a lente de Machado de Assis, o conceito de “quixotismo” sofre o mesmo processo de distopia, porém de outro modo. Inscrevendo como cerne de Memórias póstumas de Brás Cubas a questão da leitura, o escritor brasileiro, empreendendo no final do século XIX uma “técnica do anacronismo deliberado e das atribuições errôneas” (BORGES, 1972, p. 58), exuma a biblioteca de seu lugar preconizado de um saber instituído, operando ao mesmo tempo a crítica ao próprio gênero romance. Machado de Assis, no “Prólogo da quarta edição” das Memórias, estabelecendo o diálogo com seus antecessores, Xavier de Maistre e Laurence Sterne, diz-nos que, talvez, Brás Cubas tenha viajado à roda da vida. Não se faz oportuno também dizermos que, como “cavaleiro andante”, viajou à roda dos livros?

Notas Explicativas





1 Hipólito alerta para a infidelidade da memória em relação ao fragmento seis de Empédocles, acrescentando à citação as seguintes palavras: “dizendo, de alguma maneira, assim”. Cf. Emmanuel Carneiro Leitão, “Introdução a Os pensadores originários”. In: Os pensadores originários: Anaximandro, Parmênides, Heráclito, p. 18.


2 O romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary, influenciou de maneira decisiva o pensamento do filósofo francês Jules Gualtier. No texto “O bovarismo” (“Le bovarysme”), de 1902, Gualtier define a expressão como o “poder dado ao homem de se conceber como outro”. Importante notar que Lima Barreto conhecia muito bem as idéias de Jules Gaultier, a ponto de sua preocupação com o tema ser levantada no artigo “Casos de bovarismo”, escrito em 1904 e publicado em Bagatelas. Em sua relação com o quixotismo, o bovarismo apresenta uma determinada peculiaridade, que não deixa de ser o caráter trágico de sua influência: a imagem de embriaguez provocada pela leitura dos livros leva à derrocada das personagens. Se o Major Quaresma, herói do romance de Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma, pode ser considerado um herdeiro nacional do Quixote, há uma diferença fundamental em relação à obra de Cervantes: a de que seus devaneios nada influem sobre a realidade, levando a personagem a ser motivo de ridículo e à morte. Por seu lado, o quixotismo de um romance como o de Lima Barreto, apesar de seu caráter pessimista, age ainda de maneira inversa ao das Memórias, pois o Major Quaresma procura imprimir as leituras de sua biblioteca, ipsis litteris, sobre a sociedade da época, enquanto Brás Cubas amolda todos os fragmentos dos livros às situações que melhor lhe favoreçam, descontextualizando-os de seu sentido original. Quanto à questão do bovarismo e sua influência sobre a obra de Lima Barreto conferir o artigo de Alice Áurea Penteado Martha, “O bovarismo em Lima Barreto”, in: Revista UNIMAR: Ciências Humanas e Sociais, v. 19, Maringá, Universidade Estadual de Maringá, 1997,pp. 61-70.

3 Devo a sugestão da hipótese a João Cezar de Castro Rocha, durante uma das reuniões de seu grupo de estudos sobre a história do romance.

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4 Bluma Waddington Vilar, em Escrita e Leitura: citação e autobiografia em Murilo Mendes e Machado de Assis, estabelece a distinção entre citação explicitamente retificada e implicitamente retificada, utilizadas por Machado de Assis. Para exemplificar o primeiro caso reporta ao capítulo XCVIII, “Suprimido”, em que o escritor brasileiro explicita o problema da dualidade em Pascal, l’ange et la bête, contida no fragmento XIII (artigo X, Parte I dos Pensamentos). Por meio de uma leitura distorcida, Brás Cubas subverte a hipótese pascaliana, que acredita na dualidade irredutível e simultânea do homem, ao contrário do que propõe o defunto autor. No segundo caso, a autora dá o exemplo contido no capítulo XI, “O menino é o pai do homem”. Na verdade, o título do capítulo corresponde ao verso original de William Wordsworth, “The child is the father of the Man”, cujo contexto recai na linearidade autobiográfica, já que o poema sugere uma vida sem sobressaltos e desvios. Tal interpretação vai contra a “teoria das edições humanas”, proposta por Brás Cubas, segundo a qual cada época da vida é “uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também”. Ao retificar citações, Machado de Assis parte, segundo a autora, do “princípio da errata”. Cf. Bluma Waddington Vilar, “Citação e Autobiografia: Memórias Póstumas de Brás Cubas”. In Escrita e leitura: citação e autobiografia em Murilo Mendes e Machado de Assis, p. 118-51


5 Segundo Wolfgang Iser, a relação entre o leitor e o texto literário parte de uma dialética entre sujeito e objeto: “(...) se o leitor realiza os atos de apreensão exigidos, produz uma situação para o texto e sua relação com ele não pode ser mais realizada por meio da divisão discursiva entre Sujeito e Objeto. Por conseguinte, o sentido não é mais algo a ser explicado, mas sim um efeito a ser experimentado”. Cf. Iser, O ato da leitura: uma teoria do efeito estético, vol. I, pp. 33-4.


6 Cf. Luiz Cota Lima, “O Palimpsesto de Itaguaí”. In Pensando nos trópicos: (dispersa demanda II), p. 253-4.


7 Em Bouvard e Pécuchet, romance que critica a tolice universal, Gustave Flaubert expõe através dos personagens do título a questão do ceticismo em relação a melhor doutrina filosófica para se reger a existência, como pode ser observado no seguinte diálogo: “– Então tu pensas que o mundo vai mudar, graças às teorias de fulano ou sicrano?/ – Pouco importa! disse Pécuchet. Já basta de egoísmo! Procuremos o melhor sistema!/ – Então esperas encontrá-lo?/ – Certamente!/ – Tu?”. Cf. Gustave Flaubert, Bouvard e Pécuchet, p. 134.


8 Numa mesma linha, Antonio Candido, em “À roda do quarto e da vida”, In Recortes, p. 125-9, analisa o diálogo intertextual no episódio das pernas em Machado de Assis e Xavier de Maistre.

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