A relaçÃo entre o luteranismo oitocentrista e o



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A RELAÇÃO ENTRE O LUTERANISMO OITOCENTRISTA E O

PROCESSO DE COLONIZAÇÃO NO RIO GRANDE DO SUL:

OS ESTATUTOS COMO DOCUMENTO

Dr. Roberto Radünz

Professora da UCS/UNSIC

rradunz@ucs.br


No Brasil Meridional é como encontrarem-se os luteranos divididos em comunidades sinodais distintas tendo, no entanto, a mesma matriz confessional – o Luteranismo. As razões dessa distinção remontam ao último quartel do século XIX, com a estruturação do Sínodo Riograndense, de um lado, e com a vinda dos primeiros missionários norte-americanos ligados ao Sínodo de Missouri de outro.. Antes dos sínodos, porém, existiam comunidades e paróquias luteranas, aliás, estruturas eclesiásticas autônomas. O objetivo desse artigo é analisar, a partir dos estatutos paroquiais, o papel das comunidades luteranas independentes como espaços de normatização das relações sociais nas colônias teuto-gaúchas do Vale do Rio Pardo no século XIX.
PALAVRAS-CHAVE : luteranismo / relações de poder / estatutos

A Província de São Pedro do Rio Grande do Sul recebeu no século XIX grande levas de colonos europeus para ocupar as terras devolutas segundo o entendimento da época. A partir de São Leopoldo, em 1824, colonos alemães começaram a produzir alimentos com vistas a abastecer os centros urbanos desenvolvendo uma economia diversificada pautada na policultura, na mão-de-obra familiar e no minifúndio. Passada a Revolução Farroupilha, outras frentes de colonização foram abertas, em especial em direção as regiões do Vales dando seqüência à lógica inicial desse processo. Esses imigrante/colonos trouxeram uma bagagem cultural que se desenvolveu em terra novas, onde se destacou a questão religiosa, aliás, teuto-gaúchos católicos e protestantes.

Os colonos católicos estavam num Império que tinha no catolicismo sua religião oficial segundo a Constituição de 1824. Os imigrantes protestantes tiveram que se organizar religiosamente sem vínculos com qualquer estrutura superior.

Entre os protestantes, uma das características marcantes desse período foi a formação de comunidades, com estrutura própria, com vistas a sanar a lacuna sócio-espiritual. Nelas o atendimento religioso não raras vezes era realizado por um dos membros escolhidos dentro do próprio grupo, que assumia a função de “Pfarrer”.1 A escolha, aceita e homologada por todos os membros, encontrava respaldo teológico a partir da doutrina do “Ofício das Chaves”. Na tradição luterana o “poder das chaves” é dado à comunidade, ou seja, “atribuem este poder de chamar a todos os verdadeiros crentes, visto que aos mesmos confiou Cristo o ofício das chaves...” (MUELLER: 1960, p.250). Nisso difere da perspectiva católica, na qual é concedido ao padre pela imposição das mãos desde os tempos apostólicos.

É preciso salientar que no início do processo de colonização, em meados do século XIX, não houve uma preocupação mais sistemática das “igrejas-mães” protestantes com a sorte espiritual de seus pares emigrados para o Brasil. Essa situação fez com que os próprios colonos tivessem que se organizar internamente para atuar nesse espaço importante da vida cultural-religiosa.

A fundação das comunidades independentes seguiu uma lógica própria. Primeiramente os colonos estruturaram o grupo religioso constituindo diretorias e construindo as igrejas. Em segundo tiveram a preocupação com as questões espirituais, como atividades cúlticas numa perspectiva mais ampla. A organização espiritual já fazia parte da cultura do grupo, sendo apenas retomada e reforçada através das atividades cúlticas.2



ESTATUTOS: reflexo da organização comunitária

Uma vez supridas as necessidades primárias, fazia-se necessário organizá-las em termos de funcionamento interno, e é neste contexto que são criados os Estatutos, os quais tinham por finalidade lançar os parâmetros de funcionamento das comunidades.



"A relativa independência das comunidades evangélicas e a diversidade de seus estatutos foram a expressão da espontaneidade de sua constituição, assim como a aspereza de suas desavenças traduzia a importância que os colonos davam às questões religiosas” (ROCHE: 1969, p. 678).

O primeiro estatuto da Comunidade de Picada Ferraz3, datado de 1874, logo após o término da construção da igreja, tratou exclusivamente de questões de ordem material. Este estatuto era composto de apenas dez artigos, com o seguinte conteúdo: 1- Todo homem casado deverá “pagar a quantia de Rs 32$000” para ser membro; 2- “os filhos dos membros não precisam pagar”; 3- em caso de não contribuição num período de 2 anos em razão de mudança, “os direitos de sócio serão revertidos para a comunidade”; 4- quando um membro vender ou quiser vender sua colônia, e se estiver devendo para a comunidade – o dinheiro da jóia, ou o pagamento do pastor, ou outras despesas –, “estará obrigado a pagar estas dívidas”; se o comprador quitar esta dívida, poderá se fazer membro; 5- nenhum membro poderá alienar terrenos ou casas da comunidade, nem poderá requisitar de “volta os pagamentos feitos caso queira se retirar”; 6- se um membro vender sua colônia e se mudar e “não quiser vender o direito à comunidade, poderá não fazê-lo, porém não poderá vendê-lo a outro nem mesmo presenteá-lo voltando estes direitos a comunidade;” 7- todo membro deverá contribuir a mais, caso haja alguma necessidade “de reparações, novas construções ou para o pagamento do pastor”; 8- todo o dinheiro arrecadado pela comunidade deverá ser aplicado pela diretoria “para proveito da comunidade”; 9- a diretoria poderá dispor da quantia de Rs 25$000 para despesas, “sem precisar consultar a comunidade”; 10- deverão todos os “membros da comunidade Ferraz abaixo-assinados”, assumir essas considerações.4

Essas disposições, aparentemente tão severas, são compreensíveis na medida em que foi somente com grande esforço que os membros da comunidade conseguiram construir aquilo que lhes parecia mais necessário. Por uma questão de lógica buscavam dispositivos que obrigassem, por um lado, os novos membros a fazerem o mesmo esforço, e que, por outro, garantissem aquilo que já haviam conseguido.

Um dos preceitos bastante marcantes nesse estatuto refere-se a dívidas de membros, e à necessidade de saldá-las para se poder realizar qualquer transação financeira na Picada. Isso reforça o papel ordenador desempenhado pelas comunidades religiosas, na medida em que elas assumiram, por força de um pacto interno, o papel que, pelo menos em tese, o Estado deveria assumir. Também chama a atenção a relação estabelecida entre o direito de membro e a necessidade da propriedade. Se o colono vendesse sua propriedade e não quisesse vender o direito de participação na comunidade, ele perderia esta prerrogativa de membro. Não poderia vendê-la a outro e nem mesmo presenteá-la.

O segundo Estatuto da Comunidade, mais abrangente, sob orientação do pastor W. Osterkamp, estava estruturado da seguinte forma: 1- Sobre a Comunidade; 2- Sobre os membros da comunidade; 3- Sobre as posses da Comunidade; 4- Sobre as contribuições; 5- Sobre os emolumentos; 6- Sobre a Assembléia da Comunidade; 7- Sobre a Diretoria da Comunidade; 8- Sobre a eleição da Diretoria; 9- Sobre o pastor; 10- Fim.5

Os Estatutos da Comunidade da Vila Germânia, além de estarem estruturados da mesma forma, acrescentam, em termos de considerações, mais três capítulos: do músico; do sacristão; e da ordem do culto. Esse acréscimo é compreensível na medida em que a comunidade era maior em termos numéricos, tinha maiores recursos financeiros, e necessitava de ajuda em termos cúlticos.6


ESTATUTOS: língua e confissão

As comunidades coloniais, via de regra, partiam do mesmo princípio de designação: “Die Deutsch-evangelische Gemeinde in...”.7 O modelo de comunidade estava calcado na identificação chamada “Deutsch-evangelische” - que foi reafirmada em ambos os estatutos, em seu artigo primeiro, parágrafo 3º: “A língua falada no culto é e será, por todos os tempos, a alemã”.8

Sobre a relação entre Igreja e Germanismo, Dreher chama a atenção para o fato de que nos primórdios da colonização não havia um projeto preestabelecido de incentivo à germanidade por parte da “igreja” (DREHER: 1983, p. 61). É neste contexto que precisa ser compreendida a afirmativa estatutária, ou seja, como “fator de identificação cultural”, e não como um projeto de implantação do germanismo nas comunidades independentes.

"Religiosidade se expressa, entre outros modos, por meio da língua. O caráter da língua influencia a forma da expressão religiosa, às vezes, também o conteúdo. Palavras perdem e ganham os seus significados no processo de tradução”. (DROOGERS: 1994, p. 29)

A língua, sem dúvida, era um fator de identificação. Um povo que fora desalojado de sua pátria de origem por razões econômicas, transladado para uma terra onde a religião era professada de forma diferente, fazia da língua o grande vínculo de identificação. Por isso, nestas comunidades sociais a língua alemã era falada no armazém, na oficina, na escola, na alfaiataria e, principalmente, na igreja.



"A fé vem pela pregação. A prédica só pode mover a fé quando entendida. É, pois, dever do pregador cristão de todas as confissões cristãs pregar na língua que os ouvintes entendam e na qual são edificados”. (DREHER: 1983, p. 168).

Em termos de confissão religiosa, os estatutos são bastante claros ao afirmar que a Comunidade aceitava "somente como fundamento a Escritura Sagrada, em concordência com o Credo Apostólico, e as confissões principais da Reforma”.9 O princípio desta confissão da Reforma é assim descrito:



"Que somente a Escritura Sagrada serve de norma para nossa fé e nossa vida. Que o homem será justificado através da fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, nosso Senhor”.10

Esse artigo fundamentava toda a atuação da igreja na qualidade de entidade que determinava os parâmetros de convivência dentro da comunidade. A “Sagrada Escritura serve de norma”, e a igreja, enquanto representante de Deus na terra, é que sistematizava essa mensagem para os fiéis. Esse parece ser o grande papel da congregação, ou seja, o de ordenar as relações dentro da sociedade a partir de um conteúdo preestabelecido. O que se dizia de “cima do púlpito” passava a ter força de lei por ser considerada “a voz de Deus na terra”. Essa mensagem, pelos aspectos espirituais, reforçava a necessidade de se viver uma vida que agradasse a Deus. “Num certo sentido, o que não se faz (vícios) é mais importante do que aquilo que se faz (caridade, etc)” (DROOGERS: 1994, p. 13)

Nos Estatutos da Comunidade Evangélica de Santa Cruz os artigos preliminares eram bem mais brandos no que se refere à definição doutrinária. Os Estatutos de 1886, quando tratavam a respeito do “sentido da comunidade”, apontavam que ela deveria “manter firmemente unidos os cristãos evangélicos”.11 Além disto, “deveria conservar o sentimento religioso (...) e divulgar sempre mais o bom costume e a moral”.12

Esses estatutos refletiram um problema que ocorreu na Comunidade de Santa Cruz. Em meados dos anos 70, houve uma cisão interna e o surgimento de uma nova congregação. Ela se manteve separada por quatro anos. Em 1878, os dissidentes solicitaram permissão de retorno, logo após a saída do pastor Falk, que havia sido o estopim do conflito. O estatuto refletiu esta conjuntura, ou seja, a necessidade de absorver os membros. Qualquer determinação mais ortodoxa poderia se colocar como um problema.13

Interessante essa distinção confessional. Enquanto nas comunidades “pomeranas” da Vila Germânia e Ferraz houve uma determinação clara em termos confessionais – “somente como fundamento a Sagrada Escritura, em concordância com o Credo Apostólico, e as Confissões principais da Reforma...”14 na Comunidade de Santa Cruz, híbrida em termos de origem regional e confessional15, falava-se em “conservar o sentimento religioso (...) e divulgar sempre mais o bom costume e a moral”.
ESTATUTOS: os sócios da comunidade

Para fazer parte do rol de membros da comunidade, era necessário aceitar primeiramente os dogmas de fé descritos acima e estar em dia principalmente com as suas obrigações enquanto membro. Normalmente, essas obrigações resumiam-se a contribuições financeiras.

Outro aspecto importante é que somente os homens (“männliches Geschlecht”) eram considerados membros reais, não havendo referência, por exemplo, ao caso de mulheres não-casadas. As viúvas foram referidas no sexto parágrafo: “As viúvas da Comunidade pagarão somente a metade das contribuições anuais para oordenado do pastor”.16

As posses da comunidade, como igreja, escola, casa pastoral, deviam ser usados somente para o “sentido do culto”, conforme capítulo 1º, que dispõe sobre a fé.

No capítulo das “Contribuições” encontram-se alguns aspectos importantes em termos da descrição de uma comunidade. Aquele que quisesse vincular-se (“anschliessen”) à Comunidade deveria pagar uma “jóia” no total de Rs 30$00017, o que o tornava membro (sócio) da comunidade. Este conceito traduz, com muita propriedade, a concepção que estes colonos criaram com respeito à participação numa comunidade. A tradição luterana emprega, para referir-se às pessoas que participam de uma comunidade o termo “membro”, conceito definido nos escritos paulinos. 18

De acordo com esse preceito estatutário, para se fazer parte da comunidade, havia a necessidade do pagamento de um valor, o que o tornava o indivíduo sócio (“Teilhaber”). A forma como as comunidades se ordenaram, considerando-se todo um esforço feito para se organizarem materialmente, fez com que desenvolvessem um conceito próprio no que se refere aos “membros”. Uma espécie de religiosidade própria. O que os “adeptos fazem com a sua religião é o que determina a sua atitude, o seu comportamento, a sua maneira de pensar.” (DROOGERS; 1994, p.7)

Os “sócios” (Teilhaber) elaboraram um conceito de Comunidade muito próximo ao de sociedade19, onde ao se pagar o que é devido, tem-se os direitos assegurados, principalmente os direitos cúlticos - o batismo, a confirmação, o casamento e, especialmente, o enterro. Todos socialmente necessários.

Nas comunidades, via de regra, não se concebia um enterro não realizado por um religioso (com exceção de suicídio), ou uma criança não batizada. A confirmação era encarada como um rito onde a criança era apresentada socialmente ao “poder dançar”. Nesse contexto, o próprio casamento, para ser aceito socialmente, precisava do aval religioso.20 Essa elaboração religiosa, fruto de uma religiosidade própria, fez das comunidades espaços sociais necessários no processo de adequação dos imigrantes à nova pátria.

Cada um dos direitos cúlticos, denominados estatutariamente de “emolumentos”, deveriam ser pagos.

"Os emolumentos para as funções eclesiásticas custarão para os membros da comunidade: batismo na igreja Rs 2$000, casamento na igreja Rs 4$000, a confirmação Rs 3$000, enterro Rs 3$000”.21

Quando realizadas em casa, tais funções eclesiásticas importavam no dobro do valor. Caso alguém que não fosse membro quisesse fazer uso de algumas dessas funções eclesiásticas deveria pagar a quantia de Rs 30$000 e ainda o dobro do emolumento ao pastor. Os atestados religiosos em língua portuguesa importavam na quantia de Rs 1$000; em língua alemã, 500 réis.


ESTATUTOS: as assembléias e o culto público

As Assembléias da Comunidade aconteciam uma vez ao ano, preferencialmente em janeiro, quando havia a prestação de contas, a eleição da nova diretoria, e assuntos gerais. Nas assembléias quem dirigia a reunião era o pastor, salvo quando o próprio fosse foco do assunto, situação em que a reunião seria dirigida por outro membro da diretoria.22

As decisões da assembléia deviam ser anunciadas sempre no culto seguinte. Ser membro da diretoria da comunidade representava um status social. Para esses cargos, somente poderiam ser eleitas pessoas “que se destacam por sua sobriedade e pela observância conscienciosa dos deveres religiosos”.23 O simples fato de ser membro da diretoria era aval de boa conduta e, evidentemente, de reconhecimento social.24 Esse reconhecimento social materializava-se também em lugares especiais no culto público. "O pastor e sua família, assim como a diretoria, têm na igreja, no culto público, suas cadeiras especiais”.25

Com respeito à organização do culto os Estatutos são bastante meticulosos, chegando inclusive a determinar o lugar a ser ocupado no culto público por cada grupo da comunidade.


"Ninguém tem o direito de ocupar a cadeira do pastor exceto ele. A fila de bancos da direita está reservada nos cultos dominicais ao sexo masculino, a da esquerda, por outro lado, para o feminino (...). No culto deverão os jovens sentar-se nos primeiros bancos. Quem necessariamente precisar trazer crianças para o culto, deverá, quando possível, sentar-se nos últimos bancos; no caso de elas chorarem e

causarem perturbação, deverão ser retiradas rapidamente e, se possível, sem ruído (...). Quem quiser participar do culto da comunidade deverá se portar como pessoa civilizada (...). Quem chegar atrasado ou se alguém precisar sair durante o culto ou assembléia, deverá ocupar os bancos próximos à porta. Ao terminar o culto, deverão os homens dar preferência às mulheres”.26
Chama a atenção nesse capítulo dos Estatutos toda a ordenação no que se refere ao culto público, em razão de ser um momento especial de vinculação com Deus Todo-poderoso. No momento cúltico era necessária uma resignação a uma ordem preestabelecida, que não ocorria somente em termos de ocupação espacial. O culto como um todo seguia uma ordem.

A liturgia prevista nos antigos hinários seguia uma ordem fixa. Primeiramente, na confissão dos pecados, o membro era convidado a reconhecer sua inteira dependência de Deus, para posteriormente estar apto a participar dignamente do culto. Desta forma, a ordem cúltica também identificava as pessoas ao ritual. Nada se fazia de diferente. Tudo estava previsto. Este modelo permitia uma certa segurança aos membros, na medida em que jamais seriam comprometidos de forma inesperada. Mesmo aquelas pessoas que não sabiam ler podiam participar de todo culto em razão do princípio da repetição. A ordem cúltica era impregnada na mente dos fiéis. Através da repetição este modelo também era constantemente reforçado como verdade. Gramsci, apesar de não referir-se especificamente aos protestantes, afirma que "toda a religião se sustenta na medida em que mantém permanente e organizadamente a própria fé, de modo especial repetindo enfaticamente a sua apologética”. (GRAMSCI: 1987, p. 27)


ESTATUTOS: o desconforto do suicídio

O suicídio causava desconforto nas comunidades. Alguns registros oficiais27 mencionam essa razão como causa mortis. Nos Estatutos da Comunidade da Vila Germânia no ano de 1883 claramente se definiu que “nenhum suicida poderá ser enterrado pelo pastor da comunidade”.28 Cinco anos depois, este parágrafo foi subtraído dos estatutos. “Segundo decisão da assembléia da Comunidade de 29 de janeiro de 1888, deverá ser desconsiderado o parágrafo 16 do capítulo IX e não mais lembrado”.29

O suicídio se tornou um problema social a ser tratado pela Comunidade de forma mais branda. Não importava a causa da morte; havia a necessidade de um enterro socialmente aceito, principalmente se o suicida fosse alguém influente na comunidade. Esse parece ter sido o argumento para derrubar o parágrafo que proibia o enterro de suicidas. No entanto, essa causa mortis recebia um tratamento diferenciado quando da entrada no cemitério. A regra, nessa situação, era de se suspender o caixão por cima do muro ou da cerca lateral. Isto quando não era enterrado do lado de fora do cemitério.

Após o cerimonial do enterro, a vida deveria continuar. Principalmente porque a desorganização do mundo, patrocinada pela morte, estava resolvida. O mundo novamente estava organizado pela atuação da comunidade religiosa, com todas as suas pompas e crenças.


ESTATUTO: documento histórico

Os estatutos de uma sociedade tem como função normatizar as relações sociais dentro do grupo. Muitas vezes, no caso das comunidades religiosas, os estatutos não apresentam maiores especificidades sendo visto com cópias de modelos com poucas singularidades locais. No entanto, a simples comparação entre esses estatutos do século XIX com os que vigoram contemporaneamente mostram grandes diferenças na organização comunitária refletindo processos históricos distintos. A comparação feita nesse artigo entre estatutos de comunidades diferentes numa mesma região objetivou mostrar as singularidades na organização desses grupos.

As comunidades surgidas em solo gaúcho refletiram também uma situação bem especial – a vontade dos membros de construírem suas paróquias com autonomia respeitando interesses do próprio grupo. Diferentemente das experiências em solo germânico, onde via de regra as conhecidas Landes Kirche (igrejas territoriais) estavam subordinadas ao poder político dos nobres e dos grandes proprietários de terra, em terras da Província de São Pedro as comunidades passaram a estabelecer uma relação horizontal de poder - os estatutos refletiram isso.

REFERÊNCIAS

DREHER, Martin. Igreja e Germanidade. São Leopoldo: Sinodal, 1983.

DROOGERS, André. Religiosidade Popular Luterana. São Leopoldo: Sinodal, 1984

FISCHER, Joachim. A luta contra os pastores-colonos no Rio Grande do Sul no século XIX. In: Ensaios Luteranos. São Leopoldo: Sinodal, 1986.

GRAMSCI, Antônio. Concepção dialética da História. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.

MUELLER, John Theodore. Dogmática Cristã. Porto Alegre: Concórdia Editora, 1960.

PFEIFFER, Johannes. Auf Luthers Spuren in Lateinamerika. Verlag der ev.-luth. Mission Erlangen, 1969

RADÜNZ, Roberto. A terra da liberdade Caxias do Sul/ Santa Cruz do Sul: Educs/Edunisc., 2008.



ROCHE, Jean. A Colonização Alemã no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1969.

1 “Pfarrer” termo alemão para pastor ou sacerdote. Sobre as Comunidades Livres e escolha de pastores confira: (FISCHER: 1986, p. 33-52; e PFEIFFER: 1969, p. 35).

2 No que se refere às atividades cúlticas, convém salientar que elas centralizavam a vida religiosa, ou seja, o culto dominical era o ponto central da relação homem/comunidade. Nestes cultos dominicais era repassado para o conjunto da comunidade uma série de preceitos a serem seguidos pelos fiéis. O próprio ordenamento do culto vinha a reforçar as estruturas aceitas socialmente.

3 Os Estatutos aqui analisados são das comunidades do Vale do Rio Pardo, em especial no entorno da Paróquia de Santa Cruz e da Paróquia de Vila Germânia.

4 “...von 32$000 Milreis Eintrittsgeld bezahlen muss (...) Kinder der Mitglieder haben nichts zu bezahlen (...) ihr Recht auf Mitgliedschaft wenn die betreffenden Gemeinde Ausgaben (...) so ist er verpflichtet die Schuld noch vorher zu entrichten (...) zurück zu verlangen wenn sie aus der Gemeinde austreten wollen (...) und will dem Käufer sein Gemeinderecht nicht mit verkaufen, so kann er es auch keine Anderen verkaufen, oder schenken (...) an Reparaturen, Neubauten oder Pfarrbesoldung (...) der Gemeinde ihren Vorteil anzuwenden (...) ohne die Gemeinde zu fragen (...) Mitglieder der Gemeinde Ferraz unterschreiben...”. ACEF: Protokoll der Jahresversammlung von 19/02/1874. Na introdução deste Estatuto encontra-se a seguinte descrição: “Da nun sämmtliche Bewohner der Picada Ferraz aus ihren eignen Mittel diese Gebaulichkeiten hergestellt haben so haben sie desshalb beschlossen...”. “Como todos os moradores da Picada Ferraz possibilitaram, com a sua participação, essa construção, decidiram...”. Arquivo da Comunidade Evangélica de Ferraz: ACEF: Protokoll der Jahresversammlung von 19/02/1874.

5 “Von der Gemeinde (...) Von den Gemeindegliedern (...) Von dem Gemeindevermögen (...) Von den Beiträgen (...) Von den Gebühren (...) Von der Gemeinde Versammlung (...) Von dem Gemeinde-Vorstand (...) Von der Wahl des Gem.Vorstands (...) Vom Pfarrer (...) Schluss.” ACEF: Gemeinde Ordnung der Deutsch-evangel. Gemeinde Ferraz von 01/04/1875.

6 “ Von dem Vorsinger (...) Von dem Küster (...) Von der Ordnung bei den Gottesdienst”. Arquivo da Comunidade Luterana de Candelária: ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... – 1883.

7 “Comunidade Evangélica Alemã em...”

8 “Die Sprache im Gottesdienst ist und bleibt für alle Zeiten die Deutsche”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... – 1883. Cap. I/3

9 “Die Gemeinde bekennt, auf dem alleinigen Grund der Heiligen Schrift und in Übereinstimmung mit dem apostolischen Glaubensbekenntnis, - und den Hauptbekenntnissen der Reformation”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1883: Cap. I/1.

10 “Dass die Heilige Schrift die alleinige Richtschnur für unsern Glauben und Leben sei; Dass der Mensch gerechtfertigt werde durch den Glauben an Jesum Christum dem Sohn Gottes, unserer Herr”. ACEF: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... 1875: Cap. I/2

11 “Die Deutsche evangelische Gemeinde hat den Zweck die evangelischen Christen zu einem festen zusammenhalten...”. Arquivo da Comunidade Evangélica de Santa Cruz: ACESC: Statuten der deutschen evangelischen Kirchengemeinde zu Santa Cruz – 1886. Cap. I/1.

12 “...den religiösen Sinn zu erhalten (...) und gute Sitte um Moral immer mehr verbreitet werden”. ACESC: Statuten der deutschen evangelischen Kirchengemeinde zu Santa Cruz – 1886. Cap. I/1.

13 Postura semelhante adotou o Sínodo Riograndense que foi constituído na metade dos anos 80. Havia a necessidade de congregar as comunidades num Sínodo, por isso a constituição institucional foi bastante branda em termos confessionais.

14 “...Grund der heiligen Schrift und in Übereinstimmung mit dem apostolischen Glaubenbekenntnisse und dem Hauptbekenntnisse der Reformation”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... – 1883. Cap. 1 / 1.

15 A comunidade de Santa Cruz recebeu colonos de várias lugares do território germânico. Eles eram tanto do leste quanto do oeste; luteranos, reformados e unidos compuseram essa congregação.

16 “Die Witwen in der Gemeinde zahlen nur die Hälfte der jährlichen Beiträge zum Pfarrgehalt”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... – 1883. Cap. IV/6.

17 Este valor pode variar um pouco de comunidade para comunidade.

18 O apóstolo Paulo, na sua carta ao Coríntios, refere-se aos membros dessa comunidade da seguinte forma: “Ora, vós sois corpo de Cristo, e, individualmente, membros deste corpo”. (BIBLIA SAGRADA: 1969, 1 Co 12.27).

19 O termo sociedade aqui utilizado é análogo ao sentido das sociedades culturais, esportivas e recreativas que se desenvolveram nas colônias teuto-gaúchas.

20 No Império era obrigatório o aval religioso para ter validade civil.

21 “Die Gebühren für kirchliche Amtshandlungen betragen bei Gemeindegliedern für Taufen in der Kirche 2$000 Rs, für Trauungen in der Kirche 4$000 Rs, für Konfirmation 3$000 Rs, für Begräbnis 3$000 Rs”. ACEF: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1875: Cap. V/1.

22 “so hat er einen der Gemeindevorsteher den Vorsitz zu ubergeben”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... -1883. Cap. IX/9.

23 “ die sich durch Nüchternheit in ihrem Betragen, und durch gewissenhafte Beobachtung ihren religiösen Pflichten auszeichnen”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1883. Cap. VII/2.

24 “O cargo na diretoria é um cargo de honra”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1883. Cap. VII/19.

25 “Der Pfarrer und seine Familie sowie die Kirchenvorsteher haben in der Kirche bei dem öffentlichen Gottesdienst ihre besonderen Stühle”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1883. Cap. XII/2.

26 “Den Stuhl des Pfarrers hat ausser ihm Niemand das Recht zu besetzen. Die rechte Reihe der Bänke in der Kirche ist bei dem sonntäglichen Gottesdienst für das männliche, - die linke Reihe dagegen ist für das weibliche Geschlecht bestimmt (...) Bei dem Gottesdienst soll die Jugend die vordersten Bänke besitzen. Wer genöthigt ist Kinder mit in die Kirche zu nehmen, soll sich mit denselben wenn möglich, in den hinteren Bänken niederlassen, damit wie Angehörigen der Kinder, im Falle diese durch Weinen und der gleichen Störungen verursachen, sie bald und möglich geräuschlos entfernt werden können (...) Wer an den Gottesdienst der Gemeinde theilnehmen will, ist verpflichtet, sich auf andächtig zu verhalten und kein gesitteter Mensch wird (...) Wer unter der Predigt in die Kirche kommt, oder wer genöthig ist während des Gottesdienstes sich aus der Versammlung zu entfernen, soll dieser möglichst geräuschlos thun und bei der etwaigen Wiederkehr sich auf einen der Sitze in der Nähe der Thür niederlassen. Beim Ausgang der Gemeinde aus der Kirche, soll das männliche Geschlecht dem weiblichen dem Vorzug lassen”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1883. Cap. XII/2,3. A tradução acima omitiu alguns aspectos do texto em alemão.

27 ACLC: Toten Register – 1874-1900.

28 “Kein Selbstmörder darf von dem Gemeinde Pfarrer beerdigt werden”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1883: Cap. IX/16.

29 “Laut Beschluss der Gem. Versammlung von 29. Januar 1888, wurde der 16. Paragraf des IX Kapitel gestrichen und soll daran nicht gedacht werden”. ACLC: Gemeinde Ordnung der deutsch-evangel. Gemeinde... - 1883: Cap. IX/16.


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