A roda da Vida



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Elisabeth Kübler-Ross

A Roda da Vida

Memórias do

Viver e do Morrer

2ª edição

SEXTANTE


Dedico este livro a meus filhos,

Kenneth e Barbara

Quando acabamos de fazer tudo o que viemos fazer aqui

na Terra, podemos sair de nosso corpo, que aprisiona

nossa alma como um casulo aprisiona a futura borboleta.

E, na hora certa, podemos deixá-lo para trás, e não sentimos

mais dor, nem medo, nem preocupações - estamos livres

como uma linda borboleta voltando para casa, para Deus...
- de uma carta a uma criança com câncer

Agradecimentos


Desejo aproveitar esta oportunidade para agradecer não apenas a meus amigos dos dias felizes, mas a todos que sempre ficaram a meu lado nos bons e nos maus tempos.

A David Richie, que encontrei nos "velhos tempos" da Polônia e da Bélgica e que, apesar da idade avançada, continua a manter contato comigo e visitar-me.

A Ruth Oliver, cujo amor sempre foi incondicional.

A Francis Luethy, que muito me ajudou durante os meus tempos na Virgínia.

Gostaria também de agradecer a Gregg Furth, Rick Hurst, Rita Feild, Ira Sapin, Steven Levine e Gladys McGarrey, por muitos e muitos anos de amizade.

A Cheryl, Paul e seu filho (meu afilhado) ET Joseph, por suas visitas frequentes.

Ao Dr. e à Dra. Durrer, por sua permanente amizade.

A Peggy e Alison Marengo, por adotarem sete bebês com AIDS e serem uma inspiração para todos nós. Assim como a minha afilhada Lucy.

E, naturalmente, a minhas duas irmãs, Erika e Eva, como também ao marido de Eva, Peter Bacher.

A Roda da Vida

"O CAMUNDONGO"

(primeiros anos de vida)



O camundongo gosta de entrar e sair de todos os lugares, é ativo e travesso, está sempre à frente dos outros.

"O URSO"


(início da meia-idade)

O urso vive satisfeito e gosta de hibernar. Reflete sobre os primeiros anos de sua vida e ri do camundongo que corre de um lado para outro.

"O BÚFALO"

(final da meia-idade)

O búfalo adora vagar pelas pradarias. Analisa a vida de uma posição confortável e espera um dia livrar-se da pesada carga e tornar-se uma águia.

"A ÁGUIA"

(últimos anos de vida)

A águia gosta de pairar nas alturas, acima do mundo, não para ver as pessoas de cima, mas para estimulá-las a olhar para cima.

CAPÍTULO 1


Nada acontece por acaso
Talvez isto ajude. Há anos tenho sido perseguida por uma certa má reputação. Na verdade, tenho sido perseguida por pessoas que me vêem como Aquela Senhora que Fala Sobre a Morte e o Morrer. Acreditam que o fato de ter passado mais de três décadas fazendo pesquisas sobre a morte e a vida depois da morte faz de mim uma especialista no assunto. Acho que não compreenderam bem.

O único fato incontestável em meu trabalho é a importância da vida.

Sempre digo que a morte pode ser uma das maiores experiências que se pode ter. Se você vive bem cada dia de sua vida, não tem o que temer.

Talvez este, que é certamente meu último livro, torne isso mais claro. Poderá também despertar algumas novas perguntas e talvez até mesmo fornecer respostas.

Hoje, aqui sentada nesta sala cheia de flores de minha casa em Scottsdale, Arizona, os últimos setenta anos de minha vida me parecem extraordinários. Aquela menina criada na Suíça que eu fui jamais poderia prever, nem em seus sonhos mais extravagantes - e eles eram bastante extravagantes -, que acabaria sendo a autora mundialmente famosa de Sobre a Morte e o Morrer, um livro que, ao explorar o trecho final da vida, lançou-me no centro de uma controvérsia médica e teológica. Nem muito menos poderia imaginar que em seguida passaria o resto de seus dias explicando que a morte não existe.

Com os pais que tive, eu deveria ter sido uma boa e piedosa dona de casa suíça. Em vez disso, acabei vindo para o Sudoeste norte-americano e sendo uma psiquiatra obstinada, escritora e conferencista, que se comunica com espíritos de um mundo onde acredita haver muito mais amor e glória do que no nosso. Acho que a medicina moderna se tornou uma espécie de profeta que oferece uma vida sem dores. Isso é absurdo. A única coisa que conheço capaz de curar realmente as pessoas é o amor incondicional.

Alguns dos meus pontos de vista são pouco convencionais. Por exemplo, ao longo dos últimos anos, sofri uma meia dúzia de derrames, entre estes um mais leve logo depois do Natal de 1996. Meus médicos primeiro me fizeram advertências e em seguida me imploraram que deixasse de fumar, tomar café e comer chocolate. Mas ainda me permito esses pequenos prazeres. Por que não? É a minha vida.

É como sempre tenho vivido. Se sou independente, aferrada às minhas opiniões e modos de ser, se estou um pouco fora dos padrões, e daí? É assim que sou.

Isoladas, as peças às vezes parecem não se encaixar bem umas nas outras.

Mas aprendi com a experiência que nada acontece por acaso na vida. Coisas que aconteceram comigo tinham de acontecer.

Era meu destino trabalhar com doentes terminais. Não tive escolha quando deparei com meu primeiro paciente de AIDS. Achei que precisava viajar mais de quatrocentos mil quilômetros a cada ano para coordenar seminários que ajudavam as pessoas a lidar com os aspectos mais dolorosos da vida, da morte e da transição de uma para outra. Mais tarde em minha vida, senti o impulso de comprar uma fazenda de trezentos acres numa região rural da Virgínia, onde criei meu próprio centro de tratamento, fazendo planos de adotar bebês contaminados pela AIDS e, embora seja difícil admitir, vejo que era meu destino ser obrigada a sair daquele lugar idílico.

Em 1985, depois de anunciar minha intenção de adotar bebês contaminados pela AIDS, tornei-me a pessoa mais desprezada de todo o vale de Shenandoah e, apesar de ter logo abandonado meus planos, havia um grupo de homens que fez de tudo, exceto me matar, para eu ir embora. Disparavam tiros em minhas janelas e alvejavam meus animais. Enviavam uma espécie de mensagem que tornava perigosa e desagradável a vida naquele lugar deslumbrante. Mas ali era o meu lar e eu teimosamente me recusei a deixá-lo.

Havia me mudado dez anos antes para a fazenda, que ficava em Head Waters, na Virgínia. A fazenda concretizava todos os meus sonhos e enterrei ali todo o dinheiro que ganhara com livros e conferências para transformar esses sonhos em realidade. Ergui ali minha casa, um chalé nas proximidades e uma casa de fazenda. Construí um centro de tratamento onde realizava seminários, o que me permitiu reduzir meu frenético programa de viagens. Estava planejando adotar bebês contaminados pela AIDS, que assim poderiam desfrutar dos dias que lhes restassem em meio ao esplendor da vida ao ar livre no campo.

A vida simples da fazenda era tudo para mim. Nada era mais relaxante depois de uma longa viagem de avião do que chegar ao caminho sinuoso que levava à minha casa. O sossego da noite tinha um efeito mais calmante do que o de uma pílula para dormir. Acordava com uma sinfonia de vozes de vacas, cavalos, galinhas, porcos, burros, lhamas... toda a barulhenta bicharada dando-me boas-vindas. Os campos desdobravam-se até onde minha vista podia alcançar, cintilando sob o orvalho fresco da manhã. Árvores antigas ofereciam sua sabedoria silenciosa.

Havia trabalho de verdade a fazer. Minhas mãos ficavam sujas. Tocavam a terra, a água, o sol. Trabalhavam com a matéria-prima da vida.

Minha vida.

Minha alma estava ali.

Então, no dia 6 de outubro de 1994, puseram fogo na minha casa.

Queimou inteira e foi considerada perda total. Todos os meus papéis foram destruídos. Tudo o que eu tinha transformou-se em cinzas.

Eu estava correndo pelo aeroporto de Baltimore, tentando pegar um avião de volta para casa, quando recebi a notícia de que tudo estava em chamas. A pessoa amiga que me contou isso insistiu que eu não fosse direto para lá, pelo menos por enquanto. Mas pela minha vida afora já me tinham dito para não seguir a carreira de médica, para não falar com pacientes terminais, para não começar um hospital especial para doentes de AIDS na prisão e, a cada vez, eu teimosamente fiz o que achava certo, em vez de fazer o que se esperava que eu fizesse. Dessa vez não foi diferente.

Todo mundo enfrenta momentos difíceis na vida. Quanto mais momentos difíceis enfrentamos, mais crescemos e aprendemos.

O avião seguiu zunindo. Em breve, eu estava no banco de trás do carro de um amigo, correndo pelas estradas escuras do campo. Era quase meia-noite. A uma distância de alguns quilômetros, vislumbrei os primeiros sinais da fumaça e das chamas. Destacavam-se contra o céu inteiramente negro. Dava para ver que era um grande incêndio. De perto, a casa, ou o que restava dela, mal se distinguia através das labaredas. Comparei a cena com estar no meio do inferno. Os bombeiros disseram que nunca tinham visto nada igual. O calor intenso manteve-os a distância a noite toda e pela manhã adentro.

Bem tarde, naquela primeira noite, procurei abrigo numa fazenda vizinha que costumava receber hóspedes. Preparei uma xícara de café, acendi um cigarro e refleti sobre aquela minha tremenda perda pessoal na fornalha enraivecida que um dia fora a minha casa. Era devastadora, atordoante, acima de qualquer compreensão. A lista incluía os diários que meu pai escrevera sobre a minha infância, meus papéis e diários pessoais, umas vinte mil anamnésias relacionadas à minha pesquisa sobre a vida depois da morte, minha coleção de arte nativa norte-americana, fotografias, roupas... tudo.

Por vinte e quatro horas, fiquei em estado de choque. Não sabia como reagir, se chorava, gritava, sacudia os punhos para Deus ou apenas ficava pasma com a dureza da mão do destino.

As adversidades somente nos tornam mais fortes.

As pessoas sempre me perguntam como é a morte. Digo-lhes que é sublime. É a coisa mais fácil que terão de fazer.

A vida é dura. A vida é luta.

Viver é como ir para a escola. Dão a você muitas lições para estudar. Quanto mais você aprende, mais difíceis ficam as lições.

Aquela experiência foi uma dessas lições. Já que não adiantava negar a perda, eu a aceitei. O que mais poderia fazer? De qualquer forma, era só um monte de coisas e, mesmo sendo importantes ou tendo valor sentimental, nada que pudesse ser comparado ao valor da vida. Eu estava ilesa. Meus dois filhos, crescidos, Kenneth e Barbara, estavam vivos. Um bando de idiotas tinha conseguido queimar minha casa com tudo o que estava dentro, mas não tinham conseguido me destruir.

Quando aprendemos as lições, a dor se vai.

Esta minha vida, que de certa maneira começou pelo mundo afora, foi muitas coisas - mas nunca foi fácil. Isto é um fato, não uma queixa. Aprendi que não há alegria sem dificuldades. Não existe prazer sem dor. Saberíamos o que é o bem-estar da paz sem as angústias da guerra? Se não fosse a AIDS, será que perceberíamos que nossa humanidade está ameaçada? Se não houvesse a morte, apreciaríamos a vida? Se não existisse o ódio, saberíamos que nosso objetivo supremo é o amor?

Como gosto de dizer: "Se protegêssemos os canyons dos vendavais, nunca veríamos a beleza de seus relevos.”

Confesso que aquela noite de outubro há três anos foi uma dessas ocasiões em que é difícil encontrar beleza. Mas no decorrer de minha vida já estivera em encruzilhadas semelhantes, buscando no horizonte algo quase impossível de se enxergar. Nesses momentos, ou você cai no negativismo e procura atribuir a culpa a alguém ou opta pela recuperação e por continuar a amar. Como acredito que o único propósito de nossa existência é crescer, não tive problemas para fazer uma escolha.

Assim, alguns dias depois do incêndio, dirigi-me à cidade, comprei uma muda de roupas e preparei-me para o que viria em seguida.

De certa forma, esta é a história de minha vida.

PARTE I
“O CAMUNDONGO”


CAPÍTULO 2


O casulo
Ao longo da vida surgem pistas que nos indicam para que direção devemos seguir. Se não damos atenção a essas pistas, fazemos opções erradas e acabamos levando uma vida infeliz. Se ficamos atentos, aprendemos nossas lições e temos uma vida plena e boa, assim como uma boa morte.

O maior dom que Deus nos concedeu foi o livre-arbítrio. O livre-arbítrio põe sobre nossos ombros a responsabilidade por fazer as melhores escolhas possíveis.

Eu estava no sexto ano escolar quando tomei minha primeira grande decisão inteiramente sozinha. Perto do fim do semestre, o professor deu uma tarefa à turma. Tínhamos de escrever uma redação sobre o que queríamos ser quando crescêssemos. Na Suíça, essa tarefa específica era um grande acontecimento. Era o que determinaria a nossa educação futura: receber treinamento para uma profissão ou passar anos dedicando-se a rigorosos estudos universitários.

Peguei no lápis e no papel com um entusiasmo fora do comum. Entretanto, embora eu acreditasse que estava definindo o meu destino, a realidade era outra. Nem tudo dependia da criança.

Bastaria que eu relembrasse a noite anterior. Na hora do jantar, meu pai empurrara seu prato para o lado e estudara os rostos de sua família antes de fazer uma declaração importante. Ernst Kübler era um homem forte e rijo, com opiniões coerentes com seu físico. Era muito severo e exigente com meu irmão mais velho, Ernst Júnior, e obrigara-o a seguir um caminho universitário rigoroso. Agora, estava prestes a revelar o futuro de suas filhas trigêmeas.

Uma sensação de suspense envolveu-me quando ele começou dizendo a Erika, a mais frágil das três, que ela seguiria um curso universitário. Depois disse a Eva, a menos motivada, que ela receberia uma educação não-especializada numa escola para moças. Finalmente, seus olhos voltaram-se para mim e rezei para que ele me permitisse realizar o sonho de tornar-me médica.

Que ele certamente não ignorava.

Mas nunca esquecerei o momento que se seguiu.

- Elisabeth, você vai trabalhar na minha empresa - disse ele. - Preciso de uma secretária eficiente e inteligente. É o lugar certo para você.

Fui tomada pelo desalento. Crescendo como trigêmea, uma entre três meninas idênticas, toda a minha vida tinha sido uma luta por minha identidade. Agora, mais uma vez, negavam-me o direito aos pensamentos e sentimentos que me tornavam única. Imaginei-me trabalhando na empresa dele. Faria um trabalho burocrático. Sentada o dia inteiro diante de uma mesa. Escrevendo números. Os dias seriam tão rígidos quanto as linhas de um gráfico.

Não me via fazendo aquilo. Desde cedo, tivera uma imensa curiosidade sobre a vida. Olhava o mundo com admiração e reverência. Sonhava tornar-me uma médica do interior ou, melhor ainda, praticar a medicina entre os pobres da Índia, como meu herói Albert Schweitzer fizera na África. Não sei de onde me tinham vindo essas idéias, mas sabia que não fora feita para trabalhar na empresa de meu pai.

- Não, muito obrigada! - retruquei bruscamente.

Naquela época, esse tipo de rompante vindo de uma criança não era apreciado, especialmente em minha casa. Meu pai ficou vermelho de raiva. As veias de suas têmporas incharam-se. Então, ele explodiu.

- Se não quer trabalhar comigo, então pode passar o resto da sua vida como criada! - gritou, e entrou furioso no escritório.

- Para mim, está bom - respondi com aspereza, e estava sendo sincera. Preferia trabalhar como criada e aferrar-me à minha independência do que deixar que qualquer pessoa, até mesmo meu pai, me condenasse a trabalhar como guarda-livros ou secretária para o resto da vida. Seria o mesmo que ir para a prisão.

Tudo isso fez meu coração bater mais forte e minha caneta correr rápida na manhã seguinte quando, na escola, tivemos de escrever nossas redações. A minha não fazia uma única referência a qualquer tipo de trabalho de escritório. Ao contrário, escrevi com grande entusiasmo sobre seguir o exemplo de Schweitzer e ir para a selva pesquisar as muitas e variadas formas de vida. "Quero encontrar o objetivo da vida.” Desafiando meu pai, também declarei que meu sonho era ser médica. Não me importava se ele lesse a redação e ficasse zangado outra vez. Ninguém poderia afastar de mim os meus sonhos. "Aposto que um dia poderei fazer isto por conta própria", eu dizia. "Devemos sempre tentar alcançar a estrela mais alta.”

As perguntas de minha infância: por que nasci trigêmea sem nenhuma identidade própria definida? Por que meu pai era tão severo? Por que minha mãe era tão amorosa?

Tinham de ser. Era parte do plano.

Acredito que cada pessoa tenha um anjo da guarda ou um espírito que a protege. Ele nos ajuda na transição entre a vida e a morte e também nos ajuda a escolher nossos pais antes de nascermos.

Meus pais eram um típico casal conservador da classe média alta de Zurique, na Suíça. Suas personalidades eram uma prova do velho axioma da atração dos opostos. Meu pai, o diretor-assistente da maior companhia de material de escritório da cidade, era um homem forte, sério, responsável e parcimonioso em suas despesas. Tinha olhos castanho-escuros e via apenas duas alternativas na vida: seus princípios e os princípios errados.

Mas também tinha um enorme entusiasmo pela vida. Organizava ruidosas cantorias em torno do piano da família e vivia para explorar as maravilhas das paisagens suíças. Como membro do renomado Clube de Esqui de Zurique, sua maior felicidade era fazer caminhadas, escaladas ou praticar esqui nas montanhas. Foi uma paixão que ele passou para seus filhos.

Minha mãe parecia sempre bem disposta, bronzeada e saudável, apesar de não participar de atividades ao ar livre com o mesmo entusiasmo de meu pai. Pequena e atraente, era uma perfeita e prática dona de casa que tinha orgulho de suas habilidades. Era ótima cozinheira. Costurava grande parte de suas próprias roupas, tricotava suéteres de lã, mantinha a casa organizada e cuidava de um jardim que atraía a admiração de muita gente. Era um trunfo excelente para a vida profissional de meu pai. Depois que meu irmão nasceu, dedicou-se a ser uma boa mãe.

Mas ela queria uma filhinha bonita para completar o quadro. Ficou grávida pela segunda vez sem nenhuma dificuldade. Quando entrou em trabalho de parto em 8 de julho de 1926, rezou por uma coisinha gorducha e macia de cabelos encaracolados que pudesse vestir como uma boneca. A doutora B., uma obstetra idosa, ajudou-a durante as dores e contrações. Meu pai, avisado no trabalho, chegou ao hospital para o apogeu dos nove meses de espera. A médica curvou-se e pegou um bebê, o menor recém-nascido que qualquer pessoa naquela sala de parto já tinha visto nascer vivo.

Assim foi a minha chegada. Eu pesava menos de um quilo. A médica estava horrorizada com o meu tamanho, ou melhor, com a minha falta de tamanho. Eu parecia um pequenino camundongo. Ninguém achava que eu sobreviveria. Entretanto, assim que meu pai me ouviu chorar pela primeira vez, disparou para o telefone do corredor e comunicou à sua mãe, Frieda, que ela tinha outro neto homem.

Quando correu de volta para a sala de parto, deram-lhe a informação correta.

- Frau Kübler - disse a enfermeira -, na verdade, deu à luz uma menina.

Disseram a meu pai que bebês tão pequenos assim às vezes não podem ser corretamente identificados na hora do parto. De modo que ele correu de volta para o telefone e contou a minha avó que ela ganhara a sua primeira neta. »

- Estamos pensando em chamá-la de Elisabeth - disse ele, orgulhoso.

No momento em que meu pai entrou novamente na sala de parto para confortar minha mãe, não sabia que uma outra surpresa o esperava. Uma segunda menina acabara de nascer. Era frágil como eu, tinha menos de um quilo. Quando acabou de dar as boas-novas adicionais à minha mãe, verificou que ela ainda sentia dores consideráveis. Ela jurava que ainda não havia terminado, que ia ter outra criança. Meu pai atribuiu aquela bobagem ao cansaço, e a velha e experiente médica concordou sem muita convicção.

De repente, minha mãe teve novas contrações. Começou a fazer força e minutos mais tarde deu à luz uma terceira menina. Essa era grande, pesava mais de três quilos, o triplo do peso das outras duas. E tinha a cabecinha coberta de cachos! Minha mãe estava exausta mas ficou entusiasmada. Finalmente, tinha a menina com que sonhara durante os últimos nove meses.

A doutora B., uma mulher idosa, considerava-se uma clarividente. Éramos as primeiras trigêmeas que ela ajudava a nascer. Examinou nossos rostos detalhadamente e fez previsões acerca de cada uma de nós para minha mãe. Disse que Eva, a que nascera por último, estaria sempre "mais perto do coração de sua mãe"; enquanto Erika, a segunda criança, sempre "escolheria o caminho do meio". Depois, a doutora B. fez um gesto em minha direção, observou que eu abrira caminho para as outras e acrescentou: "Vocês nunca precisarão se preocupar com essa aqui.”

Todos os jornais locais traziam a excitante notícia do nascimento das trigêmeas Kübler na edição do dia seguinte. Até ler as manchetes, minha avó pensava que meu pai havia feito uma brincadeira idiota com ela. As comemorações prolongaram-se por muitos dias. Só meu irmão não participou do entusiasmo geral. Seus dias de pequeno príncipe encantado tinham terminado abruptamente. Viu-se soterrado sob uma avalanche de fraldas. Logo estaria empurrando um pesado carrinho de bebê ladeira acima e vendo suas três irmãs sentarem-se em peniquinhos idênticos. Tenho certeza de que a falta de atenção que recebeu na ocasião foi a causa de seu distanciamento da família mais tarde.

Para mim, ser trigêmea era um pesadelo. Não desejaria o mesmo nem para o meu pior inimigo. Eu não tinha identidade sem minhas irmãs. Nós éramos parecidas. Recebíamos os mesmos presentes. Os professores nos davam as mesmas notas. Quando nos levavam para passeios no parque, os transeuntes perguntavam quem era quem. Algumas vezes, minha mãe admitia que nem ela mesma sabia.

Era um grande peso psicológico para carregar. Não só eu tinha sido uma coisinha insignificante de menos de um quilo ao nascer, com pouca chance de sobrevivência, como também passei toda a minha infância tentando entender quem eu era. Sempre tive a impressão de que teria de trabalhar dez vezes mais do que qualquer pessoa e fazer dez vezes mais coisas para provar que merecia... algo... que merecia viver. Era uma tortura permanente.

Só quando me tornei adulta percebi que aquelas circunstâncias tinham sido de fato uma bênção. Tinham sido as que eu mesma escolhera para mim antes de vir ao mundo. Podem não ter sido agradáveis. Podem não ter sido as que eu queria. Mas foram elas que me deram firmeza, determinação e energia para todo o trabalho que me esperava.

CAPÍTULO 3


Um anjo moribundo
Depois de quatro anos criando trigêmeas num apartamento atravancado de Zurique em que não tínhamos nem espaço nem privacidade, meus pais alugaram uma encantadora casa de três andares no campo, em Meilen, uma tradicional vila suíça à beira de um lago e distante meia hora de trem de Zurique. A casa tinha sido pintada de verde, o que nos fez chamá-la de "A Casa Verde".

Nossa nova casa ficava numa colina coberta de relva de onde se via a cidade. Tinha um aspecto bem característico do Velho Mundo e um pequeno pátio gramado onde podíamos correr e brincar. Havia uma horta que nos abastecia de legumes frescos que nós mesmos colhíamos. Cheia de energia, eu estava sempre ao ar livre, como digna filha de meu pai. Às vezes, passava o dia inteiro vagando pelos bosques e campinas à procura de pássaros e animais.

Guardo duas lembranças muito remotas desse tempo, ambas muito importantes para moldar a pessoa que eu viria a ser.

A primeira foi a descoberta de um livro ilustrado sobre a vida numa aldeia africana, que despertou para sempre a minha curiosidade sobre as diferentes culturas do mundo. Fiquei imediatamente fascinada pelas fotografias de crianças de pele escura. Tentei compreendê-las melhor inventando um mundo de faz-de-conta que eu podia explorar, inclusive com uma língua secreta que só eu e minhas irmãs conhecíamos. Atormentei meus pais para que me dessem uma boneca de rosto preto, que era impossível encontrar na Suíça. Cheguei a desistir de brincar com a minha coleção de bonecas até que me dessem uma de rosto preto.



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