A saga dos Foxworth 1 o jardim dos Esquecidos



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A SAGA DOS FOXWORTH 1 –

O JARDIM DOS ESQUECIDOS

V. C. ANDREWS

Francisco Alves

Este livro foi digitalizado por Vera Lúcia Figueiredo, para uso exclusivo de deficientes visuais, de acordo com as leis de direitos autorais.
Novembro de 2004
No sótão estão escondidos quatro segredos: segredinhos louros, bonitos, inocentes e que lutam para sobreviver.
O Jardim dos Esquecidos é um romance de terror, traição e salvação através do amor. De grande força narrativa e maravilhosa imaginação, V.C. Andrews oferece ao leitor uma visão da vontade e adaptabilidade de crianças envolvidas numa situação bastante bizarra.

O Jardim dos Esquecidos ficou mais de 14 meses na lista de best-sellers nos Estados Unidos e já vendeu mais de 2.000.000 de exemplares. Ele faz parte da “A Saga dos Foxworth.”

V.C. Andrews era pintora profissional até começar a escrever O Jardim dos Esquecidos, seu primeiro romance. Reside em companhia da mãe, na Virgínia.
V. C. Andrews

O Jardim dos Esquecidos

Tradução de Luis Horácio da Matta

LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S. A.

Copyright (c) 1979 by Virgínia Andrews

Título Original: Flowers in the Attic

Capa: Jader Marques Filho

Revisão: Luiz Augusto Pires Mesquita

Impresso no Brasil/ Printed in Brazil - 1980
Desenho da 4ª capa: Cathy Carucci.
Ballerina, poema lírico de Bob Russell, música de Carl Sigman. Editores,

TRO - The Cromwell Music, Inc. & Harrison Music. (ASCAP).

Reimpresso com permissão.
ESTE LIVRO É DEDICADO À MINHA MÃE.
Todos os direitos desta tradução reservados à LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S. A. Rua Sete de Setembro, 177 – Centro - 20.050 - Rio de Janeiro, RJ

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PRIMEIRA PARTE
"Porventura dirá o barro ao oleiro: O que fazes?" Isaías, 45:9
Prólogo
É muito adequado colorir a esperança de amarelo, como o sol que tão pouco vemos. Quando começo a copiar as anotações dos diários que guardei por tão longo tempo, um título me vem à mente, como uma inspiração:

“Abra a janela e fique ao sol”. Não obstante, hesito em dá-lo à nossa história, pois costumo pensar em nós como se fôssemos flores no sótão. Flores de papel, nascidas com um colorido tão brilhante e desbotando com o decorrer de todos aqueles longos dias sombrios, sinistros, de pesadelo, em que fomos prisioneiros da esperança, mantidos em cativeiro pela cobiça. Todavia, jamais colorimos de amarelo uma de nossas flores de papel.

Charles Dickens freqüentemente iniciava seus romances com o nascimento do protagonista e, como era um de meus autores prediletos, assim como também de Chris, gostaria de imitá-lo, se pudesse. Todavia, Dickens era um gênio; nasceu para escrever com facilidade, enquanto para mim é penoso escrever cada palavra, porquanto as escrevo com lágrimas, sangue amargo, bile azeda, misturados com vergonha e remorso. Julguei que jamais me sentiria envergonhada ou culpada, que tais cargas só pesassem sobre ombros alheios. Passaram-se anos e hoje estou mais velha, mais sábia e resignada. A tempestade de raiva que outrora me rugia no íntimo amainou, de modo que posso escrever (ao menos assim espero) com mais verdade e menos ódio e preconceito do que seria o caso alguns anos atrás.

Portanto, à semelhança de Dickens, ocultar-me-ei nessa obra de “ficção” sob um pseudônimo, viverei em lugares fictícios e pedirei a Deus que as pessoas que merecem sofram ao lerem o que tenho a dizer. Certamente Deus, em sua infinita misericórdia, fará com que algum editor compreensivo transforme minhas palavras num livro e me auxiliará a manipular o punhal que espero empunhar.
Adeus, papai
Em verdade, na década de 50, quando ainda era muito jovem, eu acreditava que minha vida inteira seria um longo e perfeito dia ensolarado de verão. Afinal, foi assim que começou. Não existe muito que eu possa dizer a respeito de nossa infância, senão que foi muito boa e, por isso, deveria sentir-me eternamente grata. Não éramos ricos nem pobres. Se nos faltava algo necessário, jamais percebi; se tínhamos luxo, também não me dava conta disso sem comparar o que tínhamos com o que tinham os outros; e, no bairro residencial de classe média onde morávamos, ninguém tinha mais nem menos do que nós. Em outras palavras, simples e concisas, éramos apenas crianças comuns, como quaisquer outras.

Nosso pai era o homem de relações públicas de uma grande fábrica de computadores localizada em Gladstone, na Pensilvânia, uma cidade com 12.602 habitantes.

Era um homem muito bem-sucedido, pois seu patrão freqüentemente vinha jantar conosco e elogiava o trabalho que papai parecia desempenhar tão bem.

— O que dobra todo mundo é essa cara tão tipicamente americana, sincera, bonita, somada às suas maneiras encantadoras. Por Deus, Chris, que pessoa sensata conseguiria resistir a um sujeito como você?

Eu concordava entusiasticamente. Nosso pai era perfeito. Tinha um metro e oitenta e cinco de altura, pesava quase noventa quilos, com bastos cabelos louros e ondulados; seus olhos, de um azul cerúleo, cintilavam de riso, do seu grande entusiasmo pela vida e por divertir-se. Tinha um nariz reto, perfeito, nem comprido, nem estreito ou largo demais. Jogava tênis e golfe como um profissional; nadava tanto que se mantinha bronzeado o ano inteiro. Estava sempre viajando de avião, a negócios, para a Califórnia, Flórida, Arizona, Havaí ou mesmo para o exterior, enquanto permanecíamos em casa aos cuidados de nossa mãe.

Quando ele entrava pela porta da frente no final das tardes de sexta-feira; todas as sextas-feiras (declarava-se incapaz de ficar longe de nós por mais de cinco dias seguidos) o sol brilhava quando sorria largamente para nós, cheio de felicidade, mesmo que estivesse chovendo ou nevando.

Sua sonora saudação ecoava tão logo ele largava no chão a mala e a pasta:

— Se vocês me amam, venham receber-me com beijos!

Meu irmão e eu nos escondíamos em algum lugar perto da porta e, depois que papai pronunciava a saudação ritual, saíamos correndo detrás da poltrona ou do sofá, e nos atirávamos naqueles braços abertos que nos envolviam de imediato, apertando-nos, enquanto nos aquecia os lábios com seus beijos. Sextas-feiras eram os melhores dias da semana, pois traziam papai de volta para nós. Ele carregava nos bolsos pequenos presentes para nós; na mala, vinham os maiores, a serem distribuídos depois que ele saudasse nossa mãe, que se mantinha um pouco afastada e esperava pacientemente até que ele terminasse de nos abraçar.

Depois de tirarmos os pequenos presentes dos bolsos de papai, Christopher e eu recuávamos, a fim de observarmos mamãe avançar lentamente, com os lábios abertos num sorriso de boas-vindas que provocava faíscas nos olhos de nosso pai. Este a tomava nos braços, fitando-lhe o rosto como se não a visse há pelo menos um ano.

Às sextas-feiras, mamãe passava metade do dia no salão de beleza, lavando e penteando o cabelo, fazendo as unhas e, ao voltar para casa, tomava um demorado banho de imersão com sais perfumados. Eu me aninhava em seu quarto de vestir e aguardava que ela saísse do banheiro envolta num negligé transparente. Sentava-se à penteadeira e aplicava cuidadosamente a maquilagem. E eu, tão ansiosa por aprender, bebia avidamente com o olhar tudo o que ela fazia para transformar-se de uma mulher simplesmente bonita numa criatura de tão estonteante beleza que chegava a parecer irreal. O mais espantoso naquilo tudo era papai pensar que ela não usava maquilagem! Acreditava que a devastadora beleza de mamãe fosse natural.

Amor era uma palavra usada e abusada em nossa casa:



“Você me ama?... Porque eu amo você de verdade... Sentiu falta de mim?... Teve saudades?... Está feliz por ter-me de volta?... Pensou em mim enquanto estive fora? Todas as noites? Ficou rolando na cama, querendo que eu estivesse a seu lado para abraçá-la? Se não fosse assim, Corrine, eu preferiria morrer...”

Mamãe sabia exatamente como responder a tais perguntas: com os olhos, com suaves murmúrios, com beijos.

Um dia Christopher e eu chegamos da escola correndo, com o vento de inverno praticamente nos empurrando para dentro de casa.

— Tirem as botas no vestíbulo — disse mamãe da sala de visitas, onde estava sentada diante da lareira, tricotando um pequeno suéter que caberia numa boneca.

— Eu pensava que a suéter fosse presente de Natal para mim, a fim de vestir uma de minhas bonecas.

— E tirem também os sapatos antes de entrarem aqui — acrescentou.

Tiramos as botas e os pesados casacos com capuz no vestíbulo. Depois, calçando apenas meias, corremos para a sala forrada com um espesso tapete branco. Na maior parte do tempo, éramos proibidos de entrar naquela sala decorada em tons pastéis para realçar a beleza loura de nossa mãe. Era a nossa sala de cerimônia, a sala de mamãe, e nunca nos sentíamos realmente à vontade no sofá de brocado damasco ou nas poltronas de veludo cote lê. Preferíamos a sala de papai, com as paredes forradas de lambris escuros e o robusto sofá em grosso tecido escocês, onde podíamos brincar e lutar sem preocupação de estragar alguma coisa.

— Lá fora está um gelo, mamãe! — exclamei sem fôlego, estirando-me aos pés dela e estendendo as pernas na direção do fogo. — Mas a volta para casa de bicicleta foi linda. Todas as árvores estão cobertas de cristais de gelo em forma de diamantes, e os arbustos, de prismas de gelo. Lá fora parece um país de fadas, mamãe. Por nada desse mundo eu moraria no sul, onde nunca neva!

Christopher não falou no tempo nem na beleza do panorama gelado. Era dois anos e meio mais velho que eu e muito mais sábio; hoje, eu sei. Aqueceu os pés gelados, como eu, mas fitou o rosto de mamãe e juntou as sobrancelhas escuras, a testa franzida de preocupação.

Também olhei para ela, imaginando o que ele vira para ficar tão preocupado. Mamãe tricotava com rapidez e habilidade, lançando olhares ocasionais às instruções do modelo.

— Mamãe, você está passando bem? — indagou Chris.

— Sim, é claro — respondeu ela com um sorriso suave e carinhoso.

— Parece cansada.

Ela deixou de lado o minúsculo suéter.

— Hoje, fui ao médico — declarou, debruçando-se para acariciar o rosto rosado e frio de Christopher.

— Mamãe! — exclamou ele, alarmado. — Está doente?

Ela riu baixinho, passando os dedos compridos e esguios pelos cabelos louros e encaracolados de meu irmão.

— Ora, não me venha com essa, Christopher Dollanganger. Tenho percebido você olhar para mim com a cabeça cheia de idéias desconfiadas!

Em seguida, pegou a mão de meu irmão e a minha, colocando-as sobre seu ventre avolumado.

— Sentem alguma coisa? — perguntou, com aquela expressão misteriosa e feliz voltando-lhe ao rosto.

Christopher retirou bruscamente a mão, com o rosto muito vermelho, mas eu deixei a minha onde estava, esperando, tentando adivinhar.

— O que você sente, Cathy?

Sob minha mão, por debaixo das roupas de mamãe, algo estranho acontecia. Leves movimentos faziam-lhe estremecer a carne. Ergui a cabeça e olhei para o rosto dela; até hoje me lembro de como parecia tão bela, como uma madona de Rafael.

— Mamãe, seu almoço está andando aí dentro, ou você está com gases.

O riso provocou faíscas em seus olhos azuis e ela me pediu que tentasse outro palpite.

Depois, num tom suave e cheio de preocupação, revelou-nos a novidade:

— Meus queridos, vou ter um bebê no início de maio. Na verdade, quando fui ao médico hoje, ele declarou ter escutado dois corações baterem. Portanto, isso significa que terei gêmeos... ou, Deus me livre, trigêmeos. Nem mesmo seu pai sabe disso, de modo que não lhe digam nada até eu ter uma oportunidade de contar a ele.

Perplexa, lancei um olhar a Christopher para ver como ele estava reagindo. Parecia divertido e ainda embaraçado. Fitei novamente o belo rosto de mamãe, iluminado pelo fogo da lareira. Então, levantei-me de um salto e corri para o meu quarto!

Atirei-me de bruços na cama e chorei, de verdade! Bebês! Mais dois! Eu era o bebê! Não queria ver bebês chorões chegarem para roubar-me o lugar! Solucei e esmurrei o travesseiro, desejando machucar algo, senão alguém. Então, sentei-me na cama e pensei em fugir de casa.

Alguém bateu de leve na porta fechada e trancada.

— Cathy — disse minha mãe. — Posso entrar para conversar com você sobre o assunto?

— Vá embora! — berrei. — Já odeio seus bebês!

Sim, eu sabia o que me estava reservado: a filha do meio, para quem os pais não ligam. Eu seria esquecida. Não haveria mais presentes às sextas-feiras. Papai só pensaria em mamãe, em Christopher, e naqueles detestáveis bebês que me roubariam o lugar.

Meu pai veio procurar-me naquela noite, logo após voltar para casa. Eu destrancara a porta, para a eventualidade de ele querer falar comigo. Lancei-lhe um olhar de esguelha, porquanto o amava muito, Papai parecia triste e trazia uma grande caixa embrulhada em papel de presente, com um enorme laço de fita de cetim cor-de-rosa.

— Como vai a minha Cathy? — perguntou suavemente quando o espiei por debaixo do braço. — Não correu para me receber quando cheguei em casa. Não disse alô; nem mesmo olhou para mim. Cathy, eu sofro quando você não corre para me abraçar e me beijar.

Não respondi, mas girei o corpo na cama e encarei ferozmente meu pai. Não sabia ele que eu deveria continuar sendo a filha predileta a vida inteira? Por que ele e mamãe tinham mandado buscar mais filhos? Dois já não eram suficientes?

Ele suspirou, sentando-se na beirada da cama.

— Sabe de uma coisa? É a primeira vez na vida que você me olhou assim, com tanta raiva. É a primeira sexta-feira em que não correu para me receber com abraços e beijos. Talvez você não acredite, mas só começo a viver quando volto para casa nos fins de semana.

Petulante, recusei-me a ser conquistada. Ele já não precisava mais de mim. Já tinha o filho e agora um monte de bebês chorões por chegar a qualquer momento. Eu ficaria esquecida entre a multidão.

— Sabe outra coisa — prosseguiu ele, observando-me com atenção. — Eu talvez fosse bastante tolo para imaginar que, se eu chegasse em casa às sextas-feiras e não trouxesse um presentinho para você e seu irmão... ainda assim vocês correriam como loucos para dar-me boas-vindas. Eu acreditava que vocês amavam a mim e não aos presentes. Julguei, erradamente, ser um bom pai que, de algum modo, conquistara o amor dos filhos e que vocês sabiam que sempre existirá no meu coração uma enorme fatia reservada para vocês, mesmo que eu e sua mãe tenhamos uma dúzia de filhos.

Fez uma pausa, suspirou, e seus olhos azuis ficaram sombrios.

— Pensei que a minha Cathy soubesse que continua sendo sempre a minha garota especial, porque foi a primeira.

Lancei-lhe um olhar raivoso e magoado. Então, exclamei com um nó na garganta:

— Mas se mamãe tiver outra menina você dirá o mesmo a ela!

— Direi?

— Sim! — solucei, com um ciúme dilacerante que me fazia capaz de gritar. — Poderá até gostar mais dela do que gosta de mim, porque será pequeninha e engraçadinha!

— Posso amá-la tanto quanto amo você, mas não mais do que a amo — replicou ele, estendendo os braços fortes.

Não consegui resistir por mais tempo. Joguei-me naqueles braços como se me agarrasse à própria vida.

— Sshhh — acalmou-me ele enquanto eu chorava. — Não chore. Não sinta ciúmes. Além disso, Cathy, bebês de verdade são mais divertidos que bonecas. Sua mãe terá mais trabalho do que pode fazer sozinha, de modo que dependerá de você para ajudá-la. Quando eu estiver longe de casa, ficarei mais tranqüilo se souber que sua mãe pode contar com uma filha amorosa, que fará todo o possível para ajudar a melhorar a vida da família inteira.

Com os lábios cálidos colados ao meu rosto molhado de lágrimas, concluiu:

— Agora, vamos abrir sua caixa. Diga-me se gosta do que está lá dentro.

Antes eu tive que cobrir o rosto dele com dúzias de beijos e abraçá-lo com força, para compensar a ansiedade que lhe provocara: no olhar. Na enorme caixa havia uma linda caixinha prateada de música, fabricada na Inglaterra. Enquanto a música tocava, uma bailarina vestida de cor-de-rosa fazia lentas piruetas em volta de um espelho.

— Serve também como caixa de jóias — explicou papai, enfiando-me no dedo um minúsculo anel de ouro com uma pequena pedra vermelha que ele chamou de granada.

— No instante em que avistei essa caixa, adivinhei para quem ela fora feita. E, com este anel, faço o juramento de amar eternamente a minha Cathy, um pouquinho mais do que amarei outra filha, desde que ela me prometa jamais falar com alguém sobre o assunto.

Chegou uma ensolarada terça-feira de maio em que papai ficou em casa. Havia duas semanas que ele não se afastava muito de casa, esperando que os bebês aparecessem. Mamãe parecia irritada e nervosa. A Sra. Bertha Simpson estava na cozinha, preparando nossas refeições e olhando Christopher e eu com uma expressão zombeteira. Era a nossa baby-sitter mais confiável. Morava na casa ao lado e estava sempre comentando que mamãe e papai pareciam mais irmãos que marido e mulher. Era uma pessoa carrancuda e mal-humorada, que raramente tinha um comentário agradável sobre qualquer pessoa.

Além disso, estava cozinhando nabos. E eu detestava nabos.

Por volta da hora do jantar, papai entrou correndo na sala de jantar a fim de dizer a meu irmão e a mim que iria levar mamãe para o hospital.

— Agora, não se preocupem. Tudo correrá bem. Obedeçam à Sra. Simpson, façam seus deveres de casa e talvez dentro de algumas horas fiquem sabendo se ganharam irmãos, irmãs, ou um de cada.

Papai só voltou na manhã seguinte. Tinha a barba por fazer, um ar cansado, as roupas amarrotadas, mas exibiu-nos um sorriso feliz.

— Adivinhem! Meninos ou meninas?

— Meninos! — gritou Christopher, que desejava dois irmãos aos quais pudesse ensinar a jogar bola.

Eu também queria meninos... nada de meninas para roubarem o afeto de papai pela filha mais velha.

— Um menino e uma menina — anunciou papai, orgulhoso. — As coisinhas mais lindas que vocês já viram. Vamos. Vistam-se e eu os levarei para verificarem pessoalmente.

Fui, rabugenta, ainda relutando em olhar quando papai me ergueu de modo que eu pudesse enxergar através do vidro do berçário os dois bebês que a enfermeira exibia para nós. Eram tão pequeninos! As cabeças não eram maiores que pequenas maçãs e os pequenos punhos avermelhados esmurravam o ar. Um deles chorava como se picado por alfinetes.

— Ah! — suspirou papai, beijando-me o rosto e abraçando-me com força. — Deus foi bom para mim, enviando-me outro filho e outra filha tão perfeitos quanto os primeiros.

Imaginei que detestaria ambos, em especial a chorona Carrie, que choramingava e berrava dez vezes mais alto que o mais tranqüilo, chamado Cory. Passou a ser quase impossível ter uma noite inteira de repouso com os dois no outro lado do corredor, no quarto em frente ao meu. Não obstante, quando começaram a crescer e sorrir, os olhos brilhando quando eu me aproximava para pegá-los no colo, algo cálido e maternal substituía a frieza de meus olhos verdes. Quando dei por mim, corria para casa a fim de vê-los; de brincar com eles; de trocar fraldas, segurar mamadeiras e deixá-los arrotar no meu ombro. Eram mais divertidos que bonecas.

Logo aprendi que os pais têm lugar no coração para mais que dois filhos, e que eu também tinha lugar no coração para amá-los; até mesmo Carrie, que era tão bonita quanto eu, ou ainda mais. Cresceram depressa (como mato, dizia papai), embora mamãe costumasse olhá-los com ansiedade, pois dizia que eles não se desenvolviam tão depressa quanto Christopher e eu. Apresentou o problema ao médico, que se apressou em afirmar que é normal gêmeos serem menores que crianças que nascem sozinhas.

— Está vendo? — comentou Christopher. — Os médicos sabem tudo.

Papai ergueu os olhos do jornal e sorriu:

— Eis meu filho médico falando... Mas ninguém sabe tudo, Chris.

Papai era o único da família que chamava meu irmão mais velho de Chris.

Possuíamos um sobrenome engraçado, muito difícil de aprender a soletrar. Só porque éramos todos louros, com cabelos lisos e pele branca, à exceção de papai, sempre bronzeado de sol, Jim Johnston, o melhor amigo de papai, dera-nos um apelido: “As Bonecas de Dresden”. Afirmava que parecíamos as exóticas criaturas de porcelana, tão usadas para enfeitar prateleiras e aparadores de lareiras. Em breve, toda a vizinhança passara a chamar-nos “Bonecas de Dresden”, pois, certamente, era mais fácil que pronunciar Dollanganger.

No aniversário de papai, preparamos uma festa-surpresa para ele. Mamãe parecia uma princesa de contos de fadas, com os cabelos recém-lavados e penteados, as unhas brilhando de verniz, o longo vestido do mais tênue tom azul, o comprido colar de pérolas balançando de um lado para outro quando ela se movimentava para arrumar a mesa da sala de jantar, de modo a que tudo ficasse perfeito para a festa de aniversário de papai. Os inúmeros presentes estavam empilhados sobre o aparador do bufê. Seria uma festa pequena, íntima, apenas para a família e os amigos mais chegados.

— Cathy — disse mamãe, lançando-me um rápido olhar. — Importa-se de dar banho nos gêmeos para mim? Eu lhes dei banho antes de dormirem à tarde, mas foram brincar no jardim e estão precisando lavar-se outra vez.

Eu não me importava. Nossa mãe estava elegante demais para lavar duas crianças sujas e travessas com quatro anos de idade, que adoravam espadanar água por todos os lados e estragariam o penteado, as unhas e o lindo vestido de nossa mãe.

— Quando terminar com eles, você e Christopher pulem também na banheira. Cathy, ondule os cabelos e coloque o vestido cor-de-rosa novo. Christopher, por favor, nada de blue jeans. Quero que vista uma camisa social branca, com gravata, usando o paletó esporte azul-claro e as calças cor-de-creme.

— Bolas, mamãe! Detesto me arrumar todo — reclamou ele, arrastando os pés calçados de tênis e franzindo a testa.

— Faça o que estou mandando, Christopher, por seu pai. Sabe que ele faz muito por você. O mínimo que você poderia fazer por ele é dar-lhe orgulho da família.

Meu irmão se afastou com relutância, deixando a meu cargo correr ao quintal para pegar os gêmeos, que começaram a chorar no mesmo instante.

— Já chega um banho por dia! — berrou Carrie. — Já estamos limpos! Pare com isso! Não gostamos de sabão! Detesto lavar a cabeça! Não faça isso conosco outra vez, Cathy, senão contamos à mamãe!

— Aah! — repliquei. — Quem vocês acham que me mandou aqui para lavar esses monstrinhos imundos? Ora, ora! Como conseguem sujar-se tão depressa?

Tão logo os corpinhos despidos mergulharam na água morna, os brinquedos de borracha começaram a flutuar e eles puderam jogar-me água, os gêmeos aquietaram-se o bastante para serem lavados, ensaboados, vestidos e penteados. Pois, afinal, iam a uma festa. E, sobretudo, era sexta-feira e papai voltaria para casa.

Primeiro, vesti Cory num bonito terninho com calças curtas. Por estranho que pareça, ele sempre se mantinha mais limpo que à irmã gêmea. Por mais que tentasse, eu nunca arranjava uma maneira para dominar a teimosa ondulação do cabelo que lhe caía sobre a testa. E, inacreditavelmente, Carrie desejava que seu cabelo ficasse igual ao dele!

Depois de vesti-los e arrumá-los como bonecas que ganhassem vida própria, entreguei os gêmeos aos cuidados de Christopher, com severas recomendações para vigiá-los com a mais constante e total atenção. Então, foi minha vez de embonecar-me.

Os gêmeos reclamaram e choramingaram enquanto tomei um banho apressado, lavei os cabelos e os prendi com grossos rolinhos. Olhei para a porta do banheiro e avistei Christopher fazendo o possível para distraí-los, lendo para eles em voz alta a história da Vovó Gansa.

— Oi — disse Christopher quando saí do banheiro usando meu vestido, cor-de-rosa e os rolinhos na cabeça. — Não está nada mal.

— Nada mal? É o melhor que você pode dizer?

— É mesmo, irmã — disse ele. — O melhor para uma irmã.

Lançou um olhar ao relógio, fechou o livro, pegou os gêmeos pelos pulsos gorduchos e exclamou:

— Papai chegará a qualquer momento. Ande depressa, Cathy!

As cinco horas chegaram e passaram. Embora não parássemos de esperar, não vimos o Cadillac verde de papai entrar na alameda curva de acesso à casa. Os convidados sentaram-se pela sala, procurando conversar animadamente, enquanto mamãe levantou-se e começou a andar nervosamente de um lado para outro. Em geral papai abria a porta às quatro horas; às vezes até mesmo antes disso.

O maravilhoso jantar que mamãe levara tanto tempo preparando já secava por permanecer demais no fogão. Os gêmeos costumavam ir para a cama às sete e começavam a sentir fome, sono, perguntando a cada minuto:

— Quando papai vai chegar?

Suas roupas brancas já não pareciam tão limpas. Os cabelos meticulosamente ondulados de Carrie começavam a encaracolar-se e parecer desfeitos pelo vento. O nariz de Cory começou a escorrer e ele o limpava com as costas da mão, até que corri para pegar um lenço de papel e enxugar-lhe o lábio superior.

— Bem, Corrine — pilheriou Jim Johnston. — Acho que Chris conseguiu encontrar outra super-mulher.

A esposa lançou-lhe um olhar irritado pela brincadeira de tão mau gosto.

Meu estômago roncava e comecei a preocupar-me quando mamãe ergueu a cabeça. Ela estivera percorrendo ambos os sentidos da sala, até que parou junto ao amplo janelão olhando lá para fora.

— Oh! — exclamou, avistando um carro que entrava em nossa alameda orlada de árvores. — Talvez papai esteja chegando agora!

Todavia, o carro que parou diante de nossa porta principal era branco e não verde. Tinha na capota uma lâmpada giratória vermelha e trazia na porta um emblema com as palavras POLÍCIA ESTADUAL.

Mamãe abafou um grito quando dois policiais uniformizados de azul se aproximaram de nossa porta e tocaram a campainha.

Mamãe parecia congelada, com a mão pairando sobre a garganta; o que lhe ia no coração toldou-lhe o olhar. Algo selvagem e atemorizador martelava-me o coração só de observar as reações de mamãe.

Jim Johnston foi abrir a porta e permitiu que os dois patrulheiros estaduais entrassem. Olharam em volta, percebendo, estou certa, que a reunião se tratava de uma festa de aniversário. Bastava-lhes olhar para a sala de jantar e ver a mesa festiva, os balões pendurados no lustre, os presentes empilhados no bufê.

— Sra. Christopher Garland Dollanganger? — inquiriu o mais idoso dos policiais, correndo os olhos pelas senhoras presentes.

Mamãe assentiu rigidamente. Aproximei-me, acompanhada por Christopher. Os gêmeos estavam no chão, brincando com minúsculos carrinhos, e demonstrando pouco interesse pela chegada dos policiais.

O policial com aparência bondosa e rosto muito vermelho aproximou-se de mamãe.

— Sra. Dollanganger — começou, num com neutro que me causou imediato pânico no coração. — Sentimos muito, mas ocorreu um acidente na Rodovia Greenfield.

— Oh... — disse mamãe, estendendo os braços para puxar Christopher e eu para junto de si.

Pude senti-la estremecer da cabeça aos pés, como eu. Meus olhos pareciam magnetizados pelos botões metálicos do uniforme do policial; conseguiam ver mais nada.

— Seu marido estava envolvido, Sra. Dollanganger.

Um longo suspiro escapou à garganta estrangulada de mamãe. Ela vacilou e teria caído se eu e Christopher não estivéssemos ali apara sustentá-la.

— Já interrogamos os motoristas que testemunharam o acidente e não foi culpa de seu marido, Sra. Dollanganger — prosseguiu a voz despida de emoção. — Segundo os depoimentos, que tivemos o cuidado de registrar, um motorista ao volante de um Ford azul costurava pela faixa da esquerda, aparentemente alcoolizado, e chocou-se de frente com o carro de seu marido. Tudo indica que seu marido percebeu a iminência do acidente, pois desviou-se a fim de evitar uma colisão frontal, mas uma peça de máquina caiu de outro carro, ou caminhão, impedindo-o de completar a manobra evasiva correta que, lhe teria salvo a vida. Na verdade, porém, o carro de seu marido, sendo muito mais pesado que o outro capotou várias vezes. Talvez ele tivesse conseguido sobreviver, mas um caminhão que passava não pôde parar e bateu no carro; mais uma vez, o Cadillac capotou... e então... pegou fogo.

Jamais uma sala cheia de pessoas silenciou tão depressa. Até mesmo os pequenos gêmeos ergueram os olhos de sua inocente brincadeira e fitaram os dois policiais.

— Meu marido? — murmurou mamãe com voz tão fraca que mal se fazia ouvir. — Ele... não está... morto...?

— Madame — disse, muito solene, o patrulheiro de rosto vermelho. — É muito doloroso para mim trazer-lhe a notícia em meio ao que parece uma ocasião especial.

Interrompeu-se e olhou em volta, embaraçado.

— Sinto muitíssimo, madame... Todos fizeram o possível para retirá-lo... mas, madame, bem... ele, bem, morreu instantaneamente, pelo que afirmou o médico.

Alguém sentado no sofá gritou.

Mamãe não gritou. Seus olhos ficaram vazios, escuros, assombrados. A despeito da cor radiante de seu belo rosto, dava a impressão de uma máscara mortuária. Fitei-a, tentando dizer-lhe com os olhos que nada daquilo era verdade. Não papai! Não o meu papai! Não podia estar morto... não podia! A morte era para pessoas velhas e doentes... não para um homem tão amado, tão querido, tão jovem!

Não obstante, ali estava minha mãe, o rosto cinzento, os olhos esbugalhados, as mãos torcendo invisíveis roupas molhadas. A cada segundo que eu a encarava, seus olhos afundavam-se ainda mais nas órbitas.

Comecei a chorar.

— Madame, temos alguns pertences dele que foram atirados longe pelo impacto. Salvamos o que foi possível.

— Vá embora! — gritei para o guarda. — Saia daqui! Não é meu papai! Não é ele, eu sei! Papai parou numa loja para comprar sorvetes. Chegará a qualquer momento. Saia daqui!

Avancei correndo para esmurrar o peito do patrulheiro. Ele tentou esquivar-se e Christopher se aproximou, puxando-me para um lado.

— Por favor — disse o policial. — Alguém quer fazer o favor de ajudar essa menina?

Os braços de minha mãe envolveram-me os ombros, puxando-me de encontro a ela. Pessoas conversavam em murmúrios, num tom chocado. A comida no forno começava a cheirar a queimado.

Esperei que alguém viesse tomar-me a mão e dizer que Deus jamais tirava a vida de um homem como meu pai; todavia, ninguém se aproximou de mim. Só Christopher veio abraçar-me pela cintura e ali ficamos os três, num grupo isolado: mamãe, Christopher e eu.

Foi Christopher quem, afinal, conseguiu recobrar a voz e falar num estranho tom rouco:

— Tem certeza de que foi nosso pai? Se o Cadillac verde pegou fogo, o motorista lá dentro deve ter ficado muito queimado. Portanto, poderia ser outra pessoa e não papai.

Soluços profundos e ásperos saíam da garganta de mamãe, embora nem uma só lágrima lhe caísse dos olhos. Ela acreditava! Achava que os dois policiais diziam a verdade!

Os convidados, que tinham colocado roupas tão elegantes para a festa de aniversário, reuniram-se à nossa volta, pronunciando as frases de consolo que as pessoas costumam usar quando não encontram palavras adequadas.

— Sentimos tanto, Corrine... Foi um choque... É terrível...

— Que tristeza, acontecer isso a Chris...

— Nossos dias estão contados... É sempre assim, desde que nascemos: temos os dias contados.

Aquilo prosseguiu, interminável; pouco a pouco, como água infiltrando-se em concreto, o fato impregnou-se no meu consciente. Papai estava realmente morto.

Nunca mais voltaríamos a vê-lo vivo! Só voltaríamos a vê-lo num caixão; estendido num caixão que acabaria enterrado no chão, sob uma lápide com seu nome, a data de seu nascimento e a de sua morte. O mesmo dia e mês; apenas os anos seriam diferentes.

Olhei em torno, a fim de verificar o que ocorria aos gêmeos, que não deviam estar sentindo o mesmo que eu. Uma pessoa bondosa os levara à cozinha, onde lhes preparava uma leve refeição antes de levá-los para a cama. Meu olhar se cruzou com o de Christopher, que parecia mergulhado no mesmo pesadelo que eu, a fisionomia jovem pálida e chocada. Uma vaga expressão de sofrimento ensombrecia-lhe os olhos, tornando-os mais escuros.

Um dos patrulheiros estaduais fora ao carro da polícia e, agora, voltava com uma trouxa de objetos que ele espalhou cuidadosamente sobre a mesinha de centro.

Fiquei petrificada, observando a exibição de tudo o que papai tinha nos bolsos: uma carteira de couro de crocodilo que mamãe lhe dera como presente de Natal; a caderneta de anotações e a agenda encapadas com couro; o relógio de pulso; a aliança de casamento. Tudo enegrecido e chamuscado de fumaça e fogo.

Finalmente, os bichinhos destinados a Cory e Carrie, encontrados, segundo explicou o patrulheiro, espalhados pela estrada. Um gordo elefantinho com orelhas de veludo cor-de-rosa, um cavalinho escarlate, com sela vermelha e rédeas douradas... oh, aquilo tinha que ser para Carrie. Então, o mais triste de todos os objetos: as roupas de papai, que tinham saído das malas quando os fechos estouraram.

Eu conhecia aqueles ternos, camisas, gravatas, meias. Ali estavam a mesma gravata que eu lhe dera como presente de aniversário.

— Alguém terá que identificar o corpo — anunciou o patrulheiro.

Agora, eu sabia com certeza. Era verdade: nosso pai nunca mais voltaria para casa com presentes para todos nós; nem mesmo no dia de seu aniversário.

Saí correndo daquela sala, fugindo daqueles objetos espalhados, que me dilaceravam o coração e provocavam-me uma dor tão forte como eu jamais sentira. Corri da casa para o jardim, onde fiquei esmurrando um velho bordo. Bati até que os punhos começaram a doer e o sangue brotou de inúmeros cortes pequenos; então, joguei-me de bruços na grama e chorei. Chorei dez oceanos de lágrimas por papai, que deveria estar vivo. Chorei por nós, que precisaríamos continuar vivendo sem ele. E pelos gêmeos, que nem mesmo tiveram oportunidade de saber o quanto ele era ou fora maravilhoso. E quando as lágrimas terminaram, deixando-me os olhos inflamados e vermelhos de tanto esfregá-los, escutei passos macios que se aproximavam: minha mãe.

Ela se sentou na grama ao meu lado e tomou-me a mão nas suas. A lua minguante surgira no céu e milhões de estrelas cintilavam; a brisa era gostosa, trazendo consigo os novos perfumes da primavera.

— Cathy — disse mamãe eventualmente, quando o silêncio entre nós prolongou-se de forma a parecer interminável. — Seu pai está no céu, olhando para você. E você sabe que ele desejaria que você fosse valente.

— Ele não está morto, mamãe! — neguei com veemência.

— Faz muito tempo que você está aqui fora; talvez não tenha percebido, mas já são dez horas. Alguém precisava identificar o corpo de seu pai e, embora Jim Johnston tenha se oferecido para fazê-lo, tive que ir sozinha. Porque, assim como você, também achava difícil acreditar. Seu pai está morto, Cathy. Christopher está na cama, chorando; os gêmeos já dormiram; ainda não entendem direito o que significa a palavra “morto”.

Envolveu-me com os braços, descansando-me a cabeça em seu ombro.

— Vamos — disse ela, pondo-se de pé e puxando-me para cima, ao mesmo tempo em que mantinha o braço em torno de minha cintura. — Passou tempo demais aqui fora. Pensei que estivesse dentro de casa, como os outros. E eles pensavam que você estivesse em seu quarto, ou comigo. Não é bom ficarmos sozinhas quando nos sentimos desorientadas. É melhor procurar a companhia de outras pessoas e desabafarmos nossas angústias, em vez de mantê-las trancadas dentro de nós.

Disse todas essas palavras com os olhos secos, sem derramar uma só lágrima, mas, em algum lugar de seu íntimo, ela chorava e gritava. Percebi o fato por seu tom de voz, pela absoluta falta de expressão que lhe velava os olhos fundos.

Com a morte de nosso pai, nossos dias foram tornados sombrios por um pesadelo. Eu fitava mamãe com reprovação, pensando que ela nos devia ter preparado previamente para uma situação assim, porquanto jamais tivemos permissão para possuir mascotes que morressem de repente e nos ensinassem um pouco da perda causada pela morte. Alguém, algum adulto, devia prevenir-nos de que os jovens, os bonitos e os necessários também podem morrer.

Como dizer tais coisas a uma mãe que dava a impressão de ser puxada pelo destino através de uma abertura estreita, esticando-se, ficando fina e chata? Como falar francamente com alguém que não deseja escutar, nem comer, nem escovar os cabelos, nem vestir as lindas roupas que lhe abarrotavam o armário? Ela nem mesmo queria cuidar de nossas necessidades. Foi bom que as caridosas senhoras da vizinhança viessem tomar conta de nós, trazendo-nos comida preparada em suas próprias cozinhas. Nossa casa transbordava de flores, de comida caseira, presuntos, pãezinhos quentes, bolos e tortas.

Vinham aos bandos, aquelas pessoas que amavam, admiravam e respeitavam nosso pai; admirei-me ao perceber que ele era tão querido. Não obstante, detestava cada vez que alguém indagava como ele morrera e comentava ser uma pena que alguém tão jovem morresse, quando tanta gente inútil, desajustada, que só constituía um peso para a sociedade, continuava viva.

Por tudo o que escutei e ouvi dizer, o destino era um ceifador implacável, desprovido de bondade, que não respeitava quem fosse amado ou necessário.

Os dias de primavera se tornaram verão. E a tristeza, por mais que se procure cultivar-lhe o lamento, possui o dom de diminuir até que a pessoa tão real e tão querida se transforme num vago vulto ligeiramente fora de foco.

Certo dia, mamãe sentou-se com o rosto tão triste que parecia incapaz de lembrar-se como sorrir.

— Mamãe! — disse eu alegremente, esforçando-me por animá-la. — Vou fingir que papai está vivo, numa de suas viagens de negócios, e logo voltará para casa, entrará pela porta e gritará como costumava: “Se vocês me amam, venham receber-me com abraços e beijos!” E... você não entende?... todos nos sentiremos melhor, como se ele estivesse vivo em algum lugar, onde não podemos vê-lo, mas podemos esperá-lo de volta a qualquer momento.

— Não, Cathy! — replicou mamãe, inflamando-se. — Você deve aceitar a verdade. Não deve procurar refúgio numa ilusão. Está ouvindo bem? Seu pai está morto e sua alma foi para o céu. Na sua idade, você deve compreender que ninguém jamais retorna do céu. Quanto a nós, faremos o melhor possível sem ele e isso não significa fugir à realidade, recusando-nos a encará-la.

Observei-a levantar-se da cadeira e começar a tirar coisas de geladeira para preparar o café da manhã.

— Mamãe... — recomecei, tateando cautelosamente o caminho, a fim de evitar que ela se zangasse outra vez. — Conseguiremos prosseguir, sem ele?

— Farei o possível para providenciar nossa sobrevivência — replicou ela com indiferença, desanimada.

— Agora terá que trabalhar, como a Sra. Johnston?

— Talvez sim, talvez não. A vida nos reserva todas as espécies de surpresas, Cathy, e algumas delas são desagradáveis, como você está aprendendo a perceber. Contudo, lembre-se sempre que recebeu a bênção de possuir, durante doze anos, um pai que a considerava algo muito especial.

— Porque me pareço com você — interpus, ainda sentindo aquela pontinha de inveja que sempre me fustigava por estar em segundo lugar em relação a ela.

Mamãe lançou-me um olhar de esguelha ao mexer o conteúdo da geladeira.

— Agora, Cathy, vou contar-lhe uma coisa que nunca lhe contei antes. Você se parece muito comigo quando eu tinha a sua idade, mas tem uma personalidade bem diferente. É muito mais agressiva e muito mais decidida. Seu pai costumava dizer que você era como a mãe dele e ele adorava a mãe.

— Todo mundo não adora a mãe?

— Não — replicou ela, com uma expressão esquisita. — Existem mães que simplesmente não podemos amar, pois não desejam o amor dos filhos.

Tirou o toucinho e os ovos da geladeira. Depois, Virou-se para tomar-me nos braços.

— Querida Cathy, seu pai e eu tínhamos um relacionamento íntimo muito especial e acredito que você deva sentir mais falta dele por causa disso. Mais que Christopher sente, ou os gêmeos.

Solucei em seu ombro.

— Detesto Deus por ter levado meu pai! Ele devia continuar vivo até envelhecer! Não estará presente quando eu dançar a valsa ou Christopher formar-se em medicina! Agora, que ele se foi, nada mais parece ter importância.

— Às vezes, a morte não é tão horrível como você imagina — respondeu ela com voz tensa. — Seu pai jamais ficará velho ou enfermo. Permanecerá sempre jovem; é assim que você sempre se recordará dele: jovem, forte, bonito. Não chore mais, Cathy, pois, como seu pai costumava dizer, existe um motivo para tudo e uma solução para cada problema. E eu estou tentando, desesperadamente, fazer o que julgo ser melhor.

Éramos quatro crianças andando a esmo, tropeçando nos cacos de nosso sofrimento e perda. Brincávamos no quintal, tentando encontrar consolo no sol, totalmente despercebidos de que nossas vidas em breve sofreriam alteração tão drástica, tão dramática, que palavras como “quintal” e “jardim” adquiririam para nós o significado de “paraíso” e estariam tão remotas quanto este.

Uma tarde, pouco após os funerais de papai, Christopher e eu estávamos sentados, com os gêmeos, no quintal. Os gêmeos estavam na caixa de areia, brincando com minúsculas pás e baldes. Numa repetição infindável, transferiam a areia de um balde para outro, tagarelando naquele estranho idioma que só eles eram capazes de entender. Cory e Carrie, embora não fossem gêmeos idênticos, formavam uma unidade, mutuamente satisfeitos um com o outro. Erguiam em torno de si uma muralha, transformando-se em castelos bem protegidos, que guardavam ciosamente seus segredos ocultos. Cada um tinha o outro e isso lhes bastava.

A hora do jantar chegou e passou. Agora, tínhamos medo de que até mesmo nossas refeições fossem canceladas, de modo que, mesmo sem a voz de nossa mãe a chamar-nos para dentro de casa, pegamos as mãos gorduchas e cheias de covinhas dos gêmeos, puxando-os na direção da casa. Encontramos nossa mãe sentada à grande mesa de trabalho de papai; redigia o que parecia ser uma carta muito difícil, se a evidência de vários rascunhos iniciados, interrompidos, amarrotados e deixados de lado servia de indicação. Franzia a testa ao escrever, parando freqüentemente para erguer a cabeça e fitar o espaço.

— Mamãe — chamei. — Quase seis horas. Os gêmeos estão ficando com fome.

— Um minuto, um minuto — respondeu ela, entre afobada e indiferente. — Estou escrevendo para seus avós, que moram na Virgínia. Os vizinhos trouxeram-nos comida bastante para uma semana. Você poderia colocar uma das caçarolas no forno; Cathy.

Foi a primeira refeição que preparei praticamente sozinha. Arrumei a mesa, esquentei a caçarola, servi o leite e então mamãe chegou para ajudar.

Parecia-me que todos os dias após a morte de papai nossa mãe tinha carta a escrever, lugares aonde ir, deixando-nos aos cuidados da vizinha mais próxima.

À noite, mamãe sentava-se à mesa de trabalho de papai, com um grande livro de registros de capa verde aberto diante de si, conferindo pilhas de notas fiscais. Nada mais era bom; nada. Agora, muitas vezes meu irmão e eu dávamos banho nos gêmeos, vestindo seus pijamas, e os colocávamos na cama. Então Christopher retirava-se apressadamente para seu quarto, a fim de estudar, enquanto eu voltava rapidamente para perto de mamãe, a fim de buscar um modo de devolver-lhe a felicidade aos olhos azuis.

Algumas semanas depois chegou uma carta em resposta às muitas que nossa mãe enviara a seus pais. Imediatamente, mamãe começou a chorar, antes mesmo de abrir o grosso envelope creme. Manipulou desajeitadamente uma espátula de abrir cartas e, com dedos trêmulos, segurou as três folhas de papel manuscrito, relendo-as várias vezes. Durante todo o tempo, lágrimas escorriam-lhe lentamente pelo rosto, manchando a maquilagem com longas e úmidas marcas pálidas.

Chamara-nos do quintal tão logo pegara a correspondência na caixa postal próxima à porta de entrada e agora estávamos, os quatro, sentados no sofá da sala de visitas. Observei o rosto suave e claro de “Boneca de Dresden” transformar-se numa fisionomia fria, dura e resoluta. Um arrepio de frio percorreu-me a espinha.

Talvez fosse por ela nos encarar demoradamente demais. Em seguida, baixou os olhos para as folhas de papel seguras por seus dedos trêmulos e logo os desviou para as janelas, como se lá conseguisse encontrar alguma solução para o problema da carta.

Mamãe agia de modo muito estranho, que nos causava temor e nos deixava desusadamente quietos, pois já nos sentíamos bastante intimidados num lar sem pai e não precisávamos que uma carta de três páginas em papel creme viesse selar os lábios de nossa mãe e fazer surgir em seus olhos uma expressão tão dura. Por que olhava para nós de maneira tão esquisita?

Afinal, ela limpou a garganta com um pigarro e começou a falar, mas numa voz fria, totalmente diversa de sua costumeira cadência suave e amorosa:

— Afinal, sua avó respondeu minhas cartas — declarou naquele tom gelado. — Depois de todas as cartas que lhe escrevi... bem... ela concordou. Mostra-se disposta a permitir que moremos com ela.

Boas novas! Exatamente o que aguardávamos escutar, e devíamos estar felizes. Todavia, mamãe tornou a mergulhar naquele silêncio pensativo, limitando-se a permanecer imóvel, olhando para nós. O que haveria com ela? Não saberia que nós lhe pertencíamos? Que não éramos filhos de uma estranha, enfileirados como passarinhos empoleirados na corda do varal?

— Christopher e Cathy, com quatorze e doze anos vocês dois já devem ter idade suficiente para compreender e colaborar, ajudando sua mãe a escapar de uma situação desesperadora — disse ela, fazendo uma pausa para passar nervosamente os dedos no colar de pérolas e suspirar.

Parecia à beira das lágrimas. E senti-me tão penalizada da pobre mamãe, sem um marido...

— Está passando bem, mamãe? — perguntei.

— Sim, é claro, minha querida — disse ela, tentando sorrir. — Seu pai, que Deus o tenha, esperava viver até uma idade avançada e, nesse ínterim, adquirir uma volumosa fortuna. Vinha de uma família de pessoas que sabiam ganhar dinheiro, de modo que não me resta a menor dúvida de que teria alcançado seu objetivo, se dispusesse de tempo bastante para isso. Todavia, trinta e seis anos é muito pouca idade para morrer. As pessoas costumam acreditar que nada de horrível lhes acontecerá, mas apenas aos outros. Não prevemos acidentes nem esperamos morrer cedo. Ora, seu pai e eu pensávamos em envelhecer juntos e esperávamos conhecer nossos netos antes de morrermos juntos, no mesmo dia. Assim, nenhum de nós ficaria para lamentar sozinho o que partisse primeiro.

Suspirou outra vez.

— É forçoso confessar que levamos uma vida muito além de nosso padrão atual. Gastamos dinheiro antes mesmo de recebê-lo. Não o culpem; a culpa foi minha. Ele conhecia tudo a respeito da pobreza; eu não conhecia nada. Vocês se lembram de como ele costumava ralhar comigo? Ora, quando compramos essa casa, ele disse que precisávamos de apenas três quartos, mas fiz questão de quatro. Até mesmo quatro não me pareciam suficientes. Olhem em volta; sobre essa casa pesa uma hipoteca de trinta anos. Nada aqui é realmente nosso: nem

os móveis, nem os carros, nem os aparelhos eletrodomésticos na cozinha e na lavanderia. Nem um único objeto está totalmente pago.

Parecemos amedrontados? Assustados? Mamãe interrompeu-se, com o rosto muito vermelho, e seus olhos percorreram a linda sala que tão bem lhe realçava a beleza. Suas delicadas sobrancelhas se contraíram numa expressão de ansiedade.

— Embora seu pai me reprovasse um pouco, ele também queria viver assim. Fazia-me a vontade porque me amava e creio que, afinal, consegui convencê-lo de que o luxo era absolutamente necessário. E ele cedeu, pois tínhamos ambos uma propensão para satisfazer demais nossos desejos. Era outra dentre as muitas coisas que possuíamos em comum.

Sua fisionomia espelhou tristonhas reminiscências antes que ela prosseguisse naquele tom estranho:

— Agora, todas as nossas lindas coisas serão levadas. O termo legal é reintegração de posse. É o que fazem quando as pessoas não possuem dinheiro suficiente para pagar o que compraram a prazo. Tomem esse sofá como exemplo. Há três anos, custava oitocentos dólares. Já pagamos quase tudo; faltam apenas cem dólares. Mesmo assim, eles o tomarão de volta. Perderemos tudo o que já pagamos por cada objeto; não obstante, é legal. Não perderemos apenas a casa e os móveis, como também os automóveis; na verdade, perderemos tudo, exceto as roupas e os brinquedos de vocês. Permitirão que eu guarde minha aliança de casamento e escondi o anel de brilhante que seu pai me deu de noivado. Portanto, façam o favor de não mencionar um anel de noivado a qualquer pessoa que venha realizar uma inspeção.

Nenhum de nós indagou quem eram “eles”. Não me ocorreu indagar, naquele momento. E mais tarde, não me pareceu fazer qualquer diferença. Os olhos de Christopher encontraram os meus. Senti-me afundar no desejo de compreender e lutei para não me afogar na compreensão. Já estava afundando, afogando-me no mundo adulto de mortes e dívidas. Meu irmão estendeu o braço e pegou-me a mão, apertando-me os dedos num raro gesto de conforto fraternal.

Seria eu uma vidraça, tão transparente que até mesmo Christopher, o meu algoz de todas as horas, tentava confortar-me? Tentei sorrir, a fim de lhe provar o quanto eu era adulta e, dessa forma, zombar daquele ente trêmulo e frágil no qual me tornava porque “eles” iam levar tudo. Não queria que outra menina morasse em meu lindo quarto cor-de-rosa, dormisse em minha cama, brincasse com os brinquedos que eu adorava: minhas bonequinhas com biombos, minha caixa de música feita de prata de lei, com a bailarina cor-de-rosa... “Eles” as levariam, também?

Mamãe observou com grande atenção a troca de gestos e expressões entre meu irmão e eu. Retomou a palavra, deixando transparecer um pouco de sua antiga personalidade:

— Não fiquem tão acabrunhados. Na verdade, o quadro não é tão feio quanto o descrevi. Devem desculpar-me se não raciocinei direito e me esqueci do quanto vocês ainda são jovens. Dei as más notícias em primeiro lugar, guardando as melhores para o final. Agora, prendam a respiração! Não acreditarão no que vou lhes dizer... pois meus pais são ricos! Não ricos da classe média, ou ricos da classe alta, mas muito, muito ricos! Podres de ricos! Incrivelmente, pecadoramente ricos! Moram numa bela e enorme mansão na Virgínia; uma casa como vocês jamais viram antes. Eu sei, pois nasci e fui criada lá. Quando avistarem aquela casa, esta aqui parecerá um barraco, em comparação. E eu não disse que vamos morar com eles, minha mãe e meu pai?

Ofereceu-nos aquela palha de ânimo com um sorriso nervoso e hesitante que não foi o bastante para dissipar-me as dúvidas causadas por sua fisionomia e pelas informações que acabava de fornecer. Não me agradava a maneira pela qual seus olhos desviavam-se com ar de culpa sempre que eu procurava encará-la. Julguei que ela ocultasse algo.

Mas era minha mãe.

E papai se fora.

Peguei Carrie e a sentei no colo, comprimindo-lhe o corpo miúdo e quente contra o meu. Alisei para trás os úmidos cachos dourados que lhe caíam na testa arredondada. Os olhos de Carrie se fecharam e seus lábios carnudos se uniram para formar um botão de rosa. Olhei para Cory, recostado em Christopher.

— Os gêmeos estão cansados, mamãe. Precisam jantar.

— Haverá tempo bastante para isso, mais tarde — replicou ela, irritada e impaciente. — Temos planos a fazer, roupas a arrumar, pois precisamos pegar o trem esta noite. Os gêmeos podem comer enquanto arrumamos a bagagem. Tudo que vocês quatro usam deve ser enfiado em apenas duas malas. Quero que levem apenas suas roupas prediletas e os brinquedos pequenos que não desejam deixar para trás. Levem apenas um jogo. Comprarei uma porção de jogos quando vocês chegarem lá. Cathy, escolha as roupas e brinquedos que julga agradarem mais aos gêmeos... mas apenas alguns. Não poderemos levar mais que quatro malas e preciso de duas para as minhas coisas.

Oh, meu Deus! Era verdade! Tínhamos que partir, abandonando tudo! Eu precisava enfiar tudo em apenas duas malas, que seriam compartilhadas também por meus irmãos. Só a minha boneca Ann ocuparia metade de uma mala! Não obstante, como poderia abandoná-la... minha boneca mais querida, que papai me dera de presente aos três anos? Solucei.

Assim, permanecemos chocados, fitando mamãe. Ela se mostrou terrivelmente nervosa, pois se ergueu de um pulo e começou a andar de um lado para outro.

— Como eu disse antes, meus pais são extremamente ricos — declarou, lançando para mim e para Chris um olhar de esguelha, antes de virar-se depressa para ocultar novamente o rosto.

— Há algo errado, mamãe? — quis saber Christopher.

Espantei-me de que ele pudesse fazer tal pergunta, quando era por demais óbvio que tudo estava errado.

Mamãe continuou a andar de um lado para outro, as pernas bem torneadas aparecendo pela abertura na frente do negligé transparente. Mesmo em seu sofrimento, trajando luto, era linda, com rosto abatido, olhos fundos e tudo mais. Era tão bela e eu a amava; oh, como eu a amava!

Como todos nós a amávamos!

Bem em frente ao sofá, nossa mãe girou nos calcanhares e a gaze negra do negligé rodopiou como a saia de uma bailarina, revelando-lhe as belas pernas desde os tornozelos aos quadris.

— Queridos — disse ela. — O que poderia haver de errado em morarmos numa ótima casa como a de meus pais? Nasci lá; lá cresci e fui criada, exceto durante os anos que passei interna na escola. É uma casa grande, bonita, à qual estão sempre acrescentando novos quartos, embora só Deus saiba quantos ela já possui.

Sorriu, mas havia algo falso em sua expressão.

— Contudo, preciso dizer-lhes uma coisinha antes de apresentá-los ao meu pai, que é seu avô.

Mais uma vez, vacilou e exibiu aquele sorriso estranho e sombrio.

— Há alguns anos, quando eu tinha dezoito anos de idade, fiz algo muito grave, que seu avô reprovou; minha mãe também não aprovou, mas como se recusou a ficar contra mim, de qualquer maneira, isso não conta. Todavia, por causa do que fiz, seu avô mandou retirar meu nome de sua herança e, portanto, estou deserdada. Seu pai, em termos galantes, dizia que eu “caíra em desgraça”. Seu pai sempre viu as coisas pelo lado bom e disse que não fazia diferença.



“Caíra em desgraça”? O que significaria isso? Não consegui imaginar minha mãe cometendo um erro tão grave a ponto de fazer seu pai voltar-se contra ela e tomar-lhe o que lhe pertencia por direito.

— Sim, mamãe, compreendo o que quer dizer — interpôs Christopher. — Você fez algo que seu pai desaprovou e, portanto, embora seu nome constasse do testamento, meu avô, em vez de pensar melhor, mandou que o advogado a eliminasse do documento. Agora, você não herdará nenhum de seus bens materiais quando ele passar desse mundo para o além.

Sorriu, satisfeito por saber mais do que eu. Sempre tinha resposta para tudo. Em casa, andava sempre com o nariz enfiado num livro. Lá fora, a céu aberto, era tão levado quanto qualquer outro menino da vizinhança. Dentro de casa, porém, afastado da televisão, meu irmão mais velho era um rato de livros!

Naturalmente, tinha razão.

— Sim, Christopher. Nenhuma parte da fortuna de seu avô virá para mim quando ele morrer; ou para vocês, através de mim. Foi por isso que precisei escrever tantas cartas para casa, enquanto minha mãe não respondia — tornou a sorrir, desta feita com ironia. — Mas, como sou a única herdeira de ambos, tenho esperança de reconquistar a aprovação de meu pai. Entendam: outrora tive dois irmãos, mas ambos morreram em acidentes e agora sou a única que restou para herdar.

Cessou de caminhar nervosamente. Ergueu a mão para cobrir os lábios; sacudiu a cabeça e, em seguida, continuou naquele novo tom, semelhante a um papagaio:

— Acho melhor contar-lhes uma outra coisa. Seu verdadeiro sobrenome não é Dollanganger; é Foxworth. E Foxworth é uma família muito importante na Virgínia.

— Mamãe! — exclamei, chocada. — É legal falsificar o próprio nome e colocar o nome falso num certificado?

A voz de minha mãe se tornou impaciente:

— Pelo amor de Deus, Cathy, é possível mudar-se legalmente de nome! E o nome Dollanganger foi mais ou menos escolhido por nós. Seu pai o tomou emprestado de algum ponto de sua árvore genealógica. Considerava-o divertido, uma espécie de pilhéria, que atingiu plenamente o objetivo.

— Que objetivo? — indaguei. — Por que motivo papai mudaria um nome fácil de soletrar, como Foxworth, por outro comprido e difícil como Dollanganger?

— Estou fatigada, Cathy — replicou mamãe, deixando-se cair na poltrona mais próxima. — Tenho tantas coisas a fazer, tantos detalhes legais a tratar. Em breve vocês saberão tudo. Explicarei. Juro ser totalmente franca. Agora, por favor, permitam-me recobrar o fôlego.

Oh, que dia foi aquele! Primeiro ouvimos dizer que os misteriosos “eles” viriam tomar-nos tudo, até a casa. Depois descobrimos que nosso sobrenome não era realmente nosso.

Os gêmeos, encolhidos em nossos colos, já estavam meio adormecidos e, de todo modo, ainda eram pequenos demais para entenderem. Até mesmo eu, agora com doze anos e já quase uma mulher, não compreendia por que motivo mamãe não parecia realmente feliz por voltar à casa dos pais, os quais ela não via há quinze anos. Pais secretos, que julgávamos mortos, até depois dos funerais de papai. Só naquele dia ouvíramos falar de dois tios que haviam morrido em acidentes. Então, percebi nitidamente que nossos pais tiveram vidas cheias antes mesmo de terem filhos e que, afinal, não éramos tão importantes.

— Mamãe — disse Christopher devagar. — Sua linda e enorme mansão na Virgínia parece ótima, mas gostamos daqui. Nossos amigos moram aqui; todos nos conhecem, todos gostam de nós e eu não quero me mudar daqui. Não pode procurar o advogado de papai e lhe pedir para encontrar uma maneira de continuarmos morando aqui, com a nossa casa e os nossos móveis?

— Sim, por favor, mamãe, deixe-nos ficar — acrescentei.

Mamãe levantou-se rapidamente da poltrona e recomeçou a andar através da sala. Ajoelhou-se diante de nós, com os olhos no mesmo nível que os nossos.

— Agora, ouçam-me bem — ordenou, tomando a mão de meu irmão e a minha, comprimindo-as contra o próprio peito. — Eu tenho pensado muito a fim de encontrar uma maneira de conseguirmos permanecer aqui, mas não existe meio. Não existe absolutamente nenhum meio, porque não temos dinheiro para pagar as contas mensais e não possuo qualificações para ganhar um salário adequado a sustentar quatro filhos e eu. Olhem bem para mim — disse, abrindo os braços, parecendo vulnerável, linda, indefesa. — Sabem o que sou? Um enfeite inútil e bonito, que sempre acreditou que teria a seu lado um homem para cuidá-lo. Não sei fazer nada. Nem mesmo escrever à máquina. Não sou boa em matemática. Sei bordar muito bem, mas isso não serve para ganhar dinheiro. E é impossível viver sem dinheiro. Não é o amor que faz o mundo girar: é o dinheiro. E meu pai nem sabe o que fazer com todo o dinheiro que possui. Tem apenas um herdeiro vivo, eu! Houve um tempo em que dava mais importância a mim que aos dois filhos homens, de modo que não seria difícil recuperar-lhe o afeto. Então, ele mandará o advogado incluir-me outra vez no testamento e eu herdarei tudo! Ele tem sessenta e seis anos de idade e está morrendo de uma moléstia cardíaca. Pelo que minha mãe escreveu numa folha separada, que não foi lida por meu pai, seu avô não poderá sobreviver mais que dois ou três meses. Isso me proporcionará bastante tempo para agradá-lo e fazê-lo amar-me como outrora. E, quando ele morrer, toda a sua fortuna será minha! Minha! Nossa! Ficaremos livres para sempre de todas as preocupações financeiras. Livres para irmos aonde quisermos. Livres para viajarmos, para comprarmos o que quisermos, qualquer coisa que desejarmos! Não estou falando apenas de um milhão ou dois, mas de muitos, muitos milhões, talvez até mesmo bilhões! Gente que possui tanto dinheiro nem chega a saber o quanto realmente possui, pois está investido aqui e acolá, neste ou naquele negócio, incluindo bancos, companhias aéreas, hotéis, grandes lojas de departamento, linhas de navegação. Ora, vocês nem podem imaginar o tipo de império que seu avô controla, até mesmo agora, quando já tem um pé na cova! Ele é um gênio para ganhar dinheiro. Tudo o que toca se transforma em ouro.

Os olhos azuis brilhavam. O sol penetrava pelas janelas da frente, lançando faixas de luz cor de diamante em seus cabelos. Já parecia incalculavelmente rica.

— Mamãe, mamãe, por que tudo isso veio à tona depois da morte de papai?

— Christopher, Cathy, estão imaginando bem? Escutaram com atenção? O mundo, com tudo que nele existe, é de vocês! Entendem o que uma tremenda quantidade de dinheiro é capaz de fazer? Dá poder, influência, respeito. Confiem em mim. Em breve, recuperarei o amor de meu pai. Bastará um simples olhar para que ele compreenda de imediato que aqueles quinze anos de afastamento foram um desperdício. Está velho e doente; permanece num pequeno quarto ao lado da biblioteca, com enfermeiras para cuidá-lo dia e noite, empregados que lhe satisfazem todas as vontades. Todavia, só o próprio sangue e carne possuem algum significado. E sou a última que resta: só eu. Até mesmo as enfermeiras não precisam subir para tomar banho, porque possuem um banheiro particular. Uma noite, eu o prepararei para conhecer pessoalmente os quatro netos; descerei a escadaria com vocês, entraremos no quarto e ele ficará enfeitiçado, encantado com o que vir: quatro lindas crianças, perfeitas sob todos os aspectos. Ele terá que amá-los, cada um de vocês. Acreditem: dará certo, exatamente como estou dizendo. Prometo-lhes que farei qualquer coisa que meu pai exigir de mim. Pela minha vida, por tudo que considero sagrado e querido, e isso são os filhos que meu amor por seu pai gerou, prometo-lhes que em breve serei dona de uma fortuna inacreditável e que, por meu intermédio, todos os seus sonhos serão realizados!

Fiquei boquiaberta, perplexa ante a paixão de nossa mãe. Olhei para Christopher e percebi que fitava mamãe com incredulidade. Ambos os gêmeos já se encontravam nos suaves estágios iniciais do sono e não escutaram coisa alguma do que ali fora dito.

Íamos morar numa casa enorme e rica como um palácio. Naquele palácio tão grandioso, onde os criados serviam como escravos, seríamos apresentados ao Rei Midas, que morreria logo em seguida e, em breve, nós teríamos todo o dinheiro para colocar o mundo a nossos pés. Alcançaríamos uma riqueza incrível! Eu seria como uma princesa!

Ainda assim, por que não me sentia feliz?

— Cathy — disse-me Christopher com um amplo sorriso. — Você ainda poderá ser bailarina. Não acredito que o dinheiro possa comprar talento, nem transformar um playboy em médico. Mesmo assim, até chegar o momento de agirmos com seriedade, vamos farrear bastante, não é mesmo?

Não pude levar a caixinha de música de prata com a bailarina cor-de-rosa. A caixinha de música era dispendiosa e fora relacionada como objeto de valor a ser levado por “eles”.

Não pude retirar as molduras das paredes nem esconder as bonecas em miniatura. Na verdade, pouco pude levar do que papai me dera de presente, à exceção do anelzinho em meu dedo, com uma pedra semipreciosa lapidada em forma de coração.

E, como dissera Christopher, depois que ficássemos podres de ricos, nossa vida resumir-se-ia num suntuoso baile, numa festa interminável. Era assim que viviam os ricos: felizes para sempre, contando dinheiro e fazendo planos para divertimentos.

Divertimentos, festas, jogos, fortuna incalculável, uma casa enorme como um palácio, com criados que moravam em cima de uma imensa garagem com lugar para ao menos nove ou dez automóveis de luxo. Quem imaginaria que minha mãe vinha de uma família assim? Por que papai discutia com ela pela casa se pedisse, humildemente, algum dinheiro aos pais?

Caminhei devagar pelo corredor até a porta de meu quarto, onde parei diante da caixinha de música prateada na qual a bailarina cor-de-rosa em posição de arabesque fitava-se no espelho da tampa. Escutei a melodia: “Gire, bailarina, gire...”

Poderia roubá-la, se tivesse um lugar para escondê-la.

Adeus outra vez para você, papai, pois, quando eu me for, não mais poderei imaginá-lo sentado ao lado da cama, segurando-me a mão, nem o verei chegar do banheiro trazendo um copo com água. Na verdade, não sinto muita vontade de ir, papai. Prefiro ficar e manter sua lembrança junto de mim.

— Cathy! — Mamãe estava à porta. — Não fique aí chorando. Um quarto é apenas um quarto como qualquer outro. Você morará em muitos quartos antes de morrer. Portanto, trate de andar depressa. Arrume suas coisas e a bagagem dos gêmeos, enquanto eu arrumo as minhas.

Antes de morrer, eu ainda moraria em mil quartos, ou talvez mais. Uma pequena voz me sussurrou isso ao ouvido... e acreditei.



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