A saga dos foxworth 2



Baixar 1.5 Mb.
Página1/39
Encontro02.12.2017
Tamanho1.5 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39

A SAGA DOS FOXWORTH 2

PÉTALAS AO VENTO
V. C. ANDREWS
Autora de O Jardim dos Esquecidos

3.500.000 exemplares

2ª Edição

Tradução de Luís Horácio da Matta




PRIMEIRA PARTE

Livres, Afinal!
Como éramos jovens no dia em que fugimos! Como nos deveríamos sentir exuberantes por estarmos livres, finalmente, de um lugar tão sombrio, solitário  e abafado! Quão lamentavelmente satisfeitos deveríamos estar por viajarmos num  ônibus  que rumava vagarosamente para o sul! Entretanto, se estávamos alegres, não o  demonstrávamos. Ficamos os três calados, pálidos, olhando pelas janelas, muito  amedrontados  por tudo que víamos.

Livres. Haveria palavra mais maravilhosa que esta? Não, mesmo que as mãos  frias e esqueléticas da morte se estendessem para arrastar-nos de volta, caso  Deus  não estivesse em algum lugar lá em cima, ou talvez até no interior do ônibus,  viajando conosco e zelando por nós. Em alguma época de nossa vida tínhamos que  acreditar  em alguém.

As horas se passaram com os quilômetros. Nossos nervos se tornaram sensíveis porque o ônibus fazia freqüentes paradas para embarcar e desembarcar  passageiros.  Fazia paradas para descanso, para o café da manhã e, então, para embarcar uma  enorme senhora preta que o aguardava no ponto em que uma estrada de terra desembocava no piso de concreto da rodovia interestadual. A  mulher levou uma eternidade para subir no ônibus e, depois, puxar para dentro as muitas trouxas que trazia consigo. Quando, afinal,  ela se sentou numa poltrona, cruzamos o limite estadual entre a Virgínia e a  Carolina  do Norte.

Oh! Que alivio sairmos do estado onde fôramos prisioneiros! Pela primeira vez em muitos anos, comecei a relaxar-me um pouco.

Éramos os três passageiros mais jovens no ônibus. Chris tinha dezessete anos,  notavelmente bonito, com cabelos longos e ondulados que lhe tapavam os ombros e  se  curvavam para cima. Seus olhos azuis orlados por cílios escuros rivalizavam com  a cor do céu de verão e sua personalidade era como um cálido dia ensolarado -  tinha  no rosto uma expressão corajosa, a despeito de nossa situação desanimadora. O nariz reto e de conformação fina adquirira força e maturidade que prometiam fazer dele tudo o que nosso pai fora: o tipo de homem  que #4 fazia o coração de todas as mulheres palpitar quando ele as olhava - e mesmo quando não olhava. Tinha uma expressão confiante; parecia quase feliz. Se ele  não olhasse para Carrie, poderia até mesmo ser feliz. Entretanto, quando lhe viu  o  rosto pálido e doentio, franziu a testa e seus olhos se toldaram de preocupação.  Começou a dedilhar o violão que trazia a tiracolo. Chris tocou "Oh, Suzana",  cantando  baixinho numa voz doce e melancólica que me tocou o coração. Entreolhando-nos,  entristecemo-nos com as lembranças evocadas pela melodia. Éramos como um só, ele  e  eu. Não podia fitá-lo por muito tempo, pois tinha medo de chorar.

Encolhida em meu colo, estava minha irmãzinha. Não aparentava mais que três  anos, tão miúda, tão penosamente miúda e enfraquecida, embora já tivesse oito.  Em  seus grandes olhos azuis, marcados por olheiras, havia mais sofrimentos e  segredos sombrios do que uma criança de sua idade deveria conhecer. Os olhos de  Carrie  eram idosos, muito idosos. Ela nada esperava:

Nem felicidade, nem amor, nada - pois tudo o que houvera de maravilhoso em sua  vida lhe fora tomado. Enfraquecida pela apatia, parecia disposta a passar da  vida  para a morte. Magoava-me vê-la tão sozinha, tão terrivelmente solitária, agora  que Cory se fora.

Eu tinha quinze anos. Estávamos em novembro de 1960. Eu queria tudo, precisava de tudo, e sentia um medo horrível de que jamais em minha vida conseguisse encontrar  o bastante para compensar tudo o que perdera.

Sentia-me tensa, pronta para gritar se mais alguma coisa ruim acontecesse. Como  um estopim enrolado e ligado a uma bomba-relógio, sabia que mais cedo ou mais  tarde  eu explodiria e derrubaria todos os que viviam em Foxworth Hall!

Chris pousou a mão na minha, como se pudesse ler-me os pensamentos e soubesse que eu já planejava o modo de trazer o inferno a todos os que nos tinham tentado  destruir. Disse em voz baixa:

- Não fique assim, Cathy. Tudo dará certo. Estaremos bem.

Continuava a ser o eterno e incorrigível otimista, acreditando, a despeito  de tudo, que as coisas que aconteciam só podiam ser para o melhor? Oh! Deus! Como  podia ele pensar assim quando Cory estava morto? Como isso poderia ser para o  melhor?

- Cathy - sussurrou. - Precisamos aproveitar ao máximo o que nos resta,  isto é, um ao outro. Temos que aceitar o que aconteceu e partirmos daí. Temos que acreditar em nós mesmos, em nossos talentos; se acreditarmos, havemos de  conseguir o que desejamos. É assim que funciona, Cathy, pode crer. Tem que dar certo!

Ele desejava ser um médico insípido e sério, que passava os dias em consultórios, cercado pelas misérias humanas. Eu desejava algo muito mais fantasioso - e uma montanha disso! Queria realizar todos os meus sonhos  estrelados de amor e romance - no palco, onde eu seria a "prima ballerina" mais  famosa do  mundo; nada menos que isso me satisfaria! Isso mostraria a Mamãe!

Maldita seja, Mamãe! Espero que Foxworth Hall queime até os alicerces! Espero que você jamais consiga dormir uma noite tranqüila naquela grandiosa cama  de cisne  -nunca mais! Espero que seu jovem marido arranje uma amante mais jovem e bonita  que você! Espero que ele lhe dê o inferno que você merece!

Carrie virou-se para murmurar:

- Cathy, não me sinto bem... Estou com uma coisa engraçada no estômago...

Fui dominada pelo medo. O rostinho miúdo de minha irmã parecia doentiamente  pálido; seus cabelos, antes sedosos e brilhantes, escorriam em mechas sem vida.  Sua voz estava reduzida a um débil sussurro.

- Querida, querida - reconfortei-a, beijando-a. - Agüente firme. Logo nós a levaremos a um médico. Não demoraremos a chegar à Flórida e lá nunca mais  ficaremos trancados.

Carrie relaxou-se em meus braços, enquanto eu olhava desoladamente para o musgo espanhol pendente das árvores que indicava encontrarmo-nos agora na  Carolina do Norte. Ainda tínhamos que atravessar a Georgia. Seria uma longa  viagem até  chegarmos a Sarasota. Carrie teve um sobressalto violento, passando a engasgar- se e ter ânsias de vômitos.

Precavidamente, eu enchera os bolsos de guardanapos em nossa última parada,  de modo que pude limpar Carrie. Passei-a para os braços de Chris, de modo a  poder  ajoelhar-me no chão do ônibus e limpar o resto. Chris escorregou-se pelo assento  até a janela e tentou abri-la a fim de jogar fora os guardanapos sujos. Por mais força que ele usasse para puxá-la e empurrá-la a janela não se moveu. Carrie começou a chorar.

- Enfie os guardanapos no espaço entre a poltrona e a parede do Ônibus -  sussurrou Chris.

Mas o atento motorista devia estar observando pelo retrovisor, pois gritou:

- Vocês aí atrás, garotos! Livrem-se dessa porcaria de outra maneira!

Que outra maneira poderia haver senão esvaziar o estojo da máquina Polaroid de Chris, que eu estava usando como bolsa, e enfiar nele os fedorentos  guardanapos?

- Desculpem-me - soluçou Carrie, desesperadamente agarrada a Chris. - Eu  não queria vomitar. Agora, vamos para a cadeia?

- Não, claro que não - disse Chris com seu jeito paternal. - Em menos de duas horas estaremos na Flórida. Tente agüentar firme até lá. Se saltarmos agora, perderemos  o dinheiro que pagamos pelas passagens e não temos muito para desperdiçar.

Carrie começou a choramingar e tremer. Apalpei-lhe a testa: estava úmida.  Agora, o rosto não estava apenas pálido, mas branco! Como o de Cory antes de  morrer.

Orei a Deus para que, pelo menos uma vez, tivesse piedade de nós. Já não suportáramos o suficiente? Aquilo precisava continuar, interminavelmente? Enquanto  eu hesitava, sentindo também um melindroso desejo de vomitar, Carrie começou tudo outra vez. Eu simplesmente não podia acreditar que  ela ainda tivesse dentro de si algo para vomitar. Apoiei-me de encontro a Chris  enquanto  Carrie ficou inerte nos braços dele, parecendo estar angustiosamente próxima da  inconsciência.

- Creio que ela está entrando em estado de choque - sussurrou Chris, quase tão pálido quanto Carrie.

Foi quando um passageiro mesquinho e sem coração começou a reclamar em altos brados, de modo que os mais bondosos pareciam embaraçados e indecisos  quanto ao  que fazer para ajudar-nos. O olhar de Chris procurou o meu, numa indagação muda: que fazer em seguida?

Eu começava a entrar em pânico. Então, ao longo do corredor, balançando de um lado para outro ao avançar em nossa direção, surgiu a enorme mulher negra,  exibindo  um sorriso reconfortante. Trouxe sacos de papel e os segurou enquanto eu jogava  dentro deles os malcheirosos guardanapos. Com gestos, mas sem palavras, deu-me palmadinhas no ombro. acariciou o queixo de Carrie e  entregou-me um punhado de trapos tirados de uma das suas trouxas.

- Muito obrigada - murmurei, sorrindo desajeitadamente enquanto me limpava  da melhor maneira possível.

Depois, fiz o mesmo com Carrie e Chris. A mulher pegou os trapos, enfiou-os  num saco de papel e recuou um pouco, como se para proteger-nos.

Cheia de gratidão, sorri para a mulher imensamente gorda que enchia o corredor do ônibus com seu corpanzil coberto pelo berrante vestido estampado.  Ela piscou  para mim e sorriu também.

- Cathy - disse Chris, parecendo ainda mais preocupado que antes. -  Precisamos levar Carrie a um médico - e depressa!

- Mas pagamos a passagem até Sarasota!

- Eu sei. Mas trata-se de uma emergência!

A nossa benfeitora sorriu animadoramente e depois debruçou-se para examinar  o rosto de Carrie. Pousou a grande mão preta na testa úmida da menina e depois  tomou-lhe  o pulso. Fez com as mãos alguns gestos que me intrigaram, mas Chris disse:

- Creio que ela é muda, Cathy. Esses são gestos usados pelos surdos-mudos.

Sacudi os ombros, para indicar que não a compreendia. Ela franziu a testa e  depois tirou do bolso sob a pesada suéter vermelha um bloco de folhas de papel  multicor.  Rabiscou muito depressa um bilhete que me entregou em seguida. Escrevera:

"Meu nome é Henrietta Beech. Posso ouvir, mas não falar. A menininha está  muito doente, mesmo, e precisa de um bom médico.

Li o bilhete e tornei a olhar para ela, esperando que tivesse mais  informações.

- Conhece algum bom médico? - indaguei.

#7  Ela meneou vigorosamente a cabeça em afirmativa e logo rabiscou outro  rápido bilhete:

"Vocês têm sorte porque estou no ônibus e posso levá-los ao meu filho, que  é ótimo médico".

- Puxa vida! - murmurou Chris, quando lhe passei o bilhete. - Devemos ter mesmo uma boa estrela para encontrarmos alguém que nos indique tal médico!

- Escute aqui, motorista! - gritou o mais malvado dos passageiros do  ônibus. - Leve essa criança para um hospital! Macacos me mordam se paguei meu  bom dinheiro  para viajar num ônibus fedendo a vômito!

Os demais passageiros fitaram-no com ar de reprovação e pude ver, pelo  retrovisor, que o rosto do motorista ficou rubro de raiva ou, talvez, de  humilhação.  Nossos olhos se encontraram no espelho. Então, ele me disse, encabulado:

- Sinto muito, mas tenho mulher e cinco filhos. Se eu não cumprir os  horários, minha mulher e meus filhos ficarão sem comida, porque perderei o  emprego.

Calada, implorei-lhe com o olhar, ouvindo-o murmurar com seus botões:

- Malditos domingos. Os dias de semana correm muito bem. Então chegam os  domingos, malditos domingos.

Foi então que Henrietta Beech pareceu ter escutado o suficiente. Tornou a pegar o lápis e escreveu no bloco outro bilhete que logo passou a mim.

"Muito bem. O moço ao volante detesta os domingos. Se ele continuar  ignorando a menininha doente, os pais dela processarão os chefões da empresa de  ônibus por  uma indenização de dois milhões de dólares!”

Mal Chris teve tempo de ler o bilhete e Henrietta se afastou pelo corredor,  até enfiar o papel sob o nariz do motorista. Com um gesto impaciente, o  motorista  afastou o braço da negra, mas esta voltou a insistir e, desta vez, ele fez uma  tentativa para ler enquanto mantinha a atenção voltada para o tráfego.

- Oh! Deus! - suspirou o motorista, cujo rosto eu podia ver pelo espelho. -  O hospital mais próximo fica a trinta quilômetros fora de meu itinerário!

Chris e eu observamos enquanto a gigantesca senhora negra fazia gestos e sinais que deixaram o motorista tão frustrado quanto havíamos ficado. Mais uma vez, Henrietta foi obrigada a escrever um bilhete. E o conteúdo deste,  qualquer que fosse, levou o motorista a tirar o ônibus da larga rodovia e tomar  uma estrada  lateral que ia a uma cidade chamada Clairmont.

Henrietta Beech permaneceu ao lado do motorista, obviamente dando-lhe  instruções, mas voltava-se para nós a intervalos, exibindo um brilhante sorriso,  para mostrar-nos  que tudo correria bem.

Em breve percorríamos ruas largas e tranqüilas, orladas de árvores cujas  copas se curvavam graciosamente para formar uma espécie de toldo. As casas que  vi eram  grandes, aristocráticas, com pórticos e elevadas cúpulas.

#8 Embora nas montanhas da Virgínia já tivesse nevado uma ou duas vezes, aqui o  outono ainda não pousara sua mão gelada. Os bordos, faias, carvalhos e magnólias  ainda  mantinham a maioria das folhas de verão e algumas flores continuavam vivas.

O motorista julgava que Henrietta Beech não o orientava corretamente e,  para falar com franqueza, eu era da mesma opinião. Na realidade, não se  instalavam hospitais  naquele tipo de ruas residenciais. Entretanto, exatamente quando eu começava a  preocupar-me, o ônibus parou bruscamente diante de uma grande casa branca que se erguia no topo de uma colina baixa e arredondada, cercada por espaçosos gramados e canteiros floridos.

- Vocês aí, garotos! - gritou o motorista, virando-se para nós. - Peguem  sua tralha e entreguem as passagens para devolução do dinheiro, ou tratem de  utilizá-las antes que o prazo expire!

Então, saltou rapidamente do ônibus e abriu o bagageiro na parte interior  da carroceria, tirando cerca de quarenta malas antes de chegar às nossas duas.  Pendurei a tiracolo o violão e o banjo de Cory, enquanto Chris, muito devagar e  com extrema  ternura, erguia Carrie nos braços.

Como uma gorda galinha protegendo seus pintinhos, Henrietta Beech conduziu- nos ao longo da comprida alameda de tijolos que levava à varanda da frente. Ali  eu  hesitei, olhando para a casa e para as duplas portas pretas. À direita, um  pequeno aviso impresso dizia: EXCLUSIVO DOS PACIENTES. Tratava-se,  evidentemente, de um  médico que tinha consultório na própria residência. Nossas duas maletas foram  deixadas na sombra, perto da calçada de concreto, enquanto eu examinava a  varanda até  avistar um homem adormecido numa cadeira de vime branca. Nossa boa samaritana aproximou-se dele com um largo sorriso antes de tocar-lhe de leve no braço. Como o homem  continuasse a dormir, ela fez sinal para que avançássemos e falássemos por nós  mesmos.  Em seguida, apontou para a casa e fez sinais para indicar que entraria a fim de  preparar algo para comermos.

Eu teria preferido que ela ficasse para apresentar-nos ao homem e explicar- lhe o motivo de nossa presença em sua varanda num domingo. Enquanto Chris e eu  avançávamos  nas pontas dos pés, sentindo-me dominada pelo medo, eu aspirava o ar carregado  pelo perfume das rosas e tinha a impressão de que já estivera ali e conhecia o local. O ar fresco com perfume de rosas não era o  tipo de ar que eu me acostumara a esperar que alguém como eu merecesse.

- É domingo, maldito domingo - sussurrei para Chris. - Aquele médico pode  não gostar de estarmos aqui.

- Ele é um médico - replicou Chris. - Está acostumado a que lhe roubem os momentos de lazer... mas você pode tratar de acordá-lo.

Aproximei-me vagarosamente. Era um homem grande, usando um terno cinza  claro com um cravo branco na lapela. Tinha as pernas compridas esticadas e  apoiadas no  topo da balaustrada da varanda. Parecia um tanto elegante, apesar de  escarrapachado como estava, com as mãos pendentes dos braços da #9 poltrona de vime. Dava a impressão de estar tão acomodado que me pareceu uma  grande pena acordá-lo e arrastá-lo de volta ao trabalho.

- É o Dr. Paul Sheffield? - indagou Chris, que lera a placa com o nome do  médico.

Carrie jazia nos braços de Chris, o pescoço arqueado para trás, os olhos fechados, os compridos cabelos dourados balançando-se à brisa suave e cálida.  Relutantemente, o médico acordou. Fitou-nos durante longo intervalo, como se não  conseguisse  acreditar nos próprios olhos. Eu sabia que tínhamos uma aparência estranha, em  nossas muitas camadas de roupas. Ele sacudiu a cabeça, como se tentasse  focalizar  os olhos - eram olhos castanhos, muito bonitos, matizados por tons azuis, verdes e dourados sobre o fundo castanho  claro. Aqueles olhos notáveis me beberam, engolindo-me em seguida. O homem  parecia atordoado,  levemente ébrio e por demais sonolento para afivelar a máscara profissional que  o impediria de baixar os olhos do meu rosto para meus seios e descer até minhas  pernas,  antes de refazer lentamente o mesmo trajeto em direção inversa. Mais uma vez,  ficou como que hipnotizado por meu rosto, meus cabelos. Eu sabia que os cabelos  estavam  compridos demais, mal cortados no alto da cabeça, desbotado e frágil nas pontas.

- O senhor é o médico, não é? - quis saber Chris.

- Sim, é claro. Sou o Dr. Sheffield - disse o homem finalmente, passando a prestar atenção em Chris e Carrie.

Com surpreendente graça e rapidez, ergueu as pernas da balaustrada, postou- se de pé à nossa frente, muito mais alto que nós, passou os dedos esguios pelo  cabelo  escuro e depois se aproximou para examinar com atenção o rostinho miúdo e branco  de Carrie. Usou o polegar e o indicador para afastar-lhe as pálpebras fechadas e  fitou por um instante o que lhe revelava aquele olho azul.

- Há quanto tempo essa criança está inconsciente?

- Há alguns minutos - disse Chris, que quase já era um médico de tanto  estudar enquanto ficamos trancados no sótão. - Carrie vomitou três vezes no  ônibus e  depois começou a tremer e suar. Havia no ônibus uma senhora chamada Henrietta  Beech. Foi ela quem nos trouxe para cá.

O médico meneou a cabeça e explicou que a Sra. Beech era sua governanta e  cozinheira. Em seguida, fez-nos entrar pela porta reservada exclusivamente aos  pacientes,  conduzindo-nos a uma parte da casa onde havia um consultório e duas saletas de  exames, não parando de desculpar-se por não ter disponível a sua enfermeira de costume.

- Tire todas as roupas de Carrie, menos as calcinhas - ordenou-me ele.

Enquanto eu obedecia, Chris correu de volta à calçada para pegar nossas maletas.   Invadidos por mil e uma ansiedades, Chris e eu nos encostamos à parede e  observamos enquanto o médico verificava a pressão, o pulso e a temperatura de  Carrie,  auscultando-lhe o coração pela frente e por trás. A essa altura, Carrie já  recobrara os #10 sentidos, de modo que ele lhe pediu que tossisse. Tudo o que eu conseguia fazer  era indagar-me por que tudo de ruim nos acontecia. Por que o destino se mostrava  tão persistentemente contra nós? Éramos tão ruins quanto afirmava a avó? Carrie  morreria também?

- Carrie - disse jovialmente o Dr. Sheffield, depois que terminei de vesti- la outra vez. - Vamos deixá-la neste quarto por algum tempo, a fim de que você  possa  descansar - explicou, agasalhando-a com um cobertor leve. Agora, não tenha  receio. Estaremos aí ao lado, no meu consultório. Sei que essa mesa não é muito  macia,  mas tente dormir enquanto converso com seus irmãos.

Ela o fitava com olhos muito abertos e inexpressivos, sem realmente  importar-se com o fato de a mesa ser ou não macia.

Poucos minutos mais tarde, o Dr. Sheffield estava sentado à sua grande e impressionante mesa de trabalho, com os cotovelos apoiados sobre o mata-borrão.  Então, começou a falar com muita seriedade e alguma preocupação:

- Vocês dois me parecem embaraçados e pouco à vontade. Não temam estarem interrompendo minhas folias dominicais, pois não sou muito dado a elas. Sou  viúvo e, para mim, o domingo é um dia como qualquer outro...

Oh! Sim! Ele podia dizer aquilo, mas parecia cansado, como se trabalhasse  durante muitas horas a fio. Eu estava nervosamente sentada na beirada do macio  sofá  de couro marron, ao lado de Chris. O sol que se filtrava pelas janelas incidia  diretamente em nossos rostos, enquanto o médico permanecia à sombra. Minhas  roupas  causavam-me uma sensação úmida e desconfortável.

De repente, lembrei-me do motivo. Levantei-me depressa e abri o fecho da saia  externa. Fiquei bastante satisfeita ao ver o médico sobressaltar-se. Como saíra  da  sala quando eu começara a despir Carrie, não percebera que eu usava dois  vestidos por baixo da saia. Quando tornei a sentar-me ao lado de Chris, estava usando apenas um vestido azul, estilo princesa, que me caía bem e  estava limpo.

- Sempre usa mais de um vestido aos domingos? - perguntou ele.

- Só nos domingos em que fujo - respondi. - E temos apenas duas malas, de  modo que precisamos de espaço para guardar os objetos valiosos que poderemos  empenhar  mais tarde, quando houver necessidade.

Chris deu-me uma cotovelada rápida, numa advertência muda de que eu estava  falando demais. Contudo, eu sabia a respeito de médicos, principalmente por  intermédio  dele. Aquele médico sentado à mesa era digno de confiança - estava escrito em  seus olhos. Poderíamos contar-lhe qualquer coisa, tudo mesmo.

- Então, estão fugindo - comentou o Dr. Sheffield. - Fugindo de quê? De  pais que os ofenderam por negar-lhes alguns privilégios?

Oh! Se ele soubesse!   - É uma longa estória, Doutor - respondeu Chris. - E, no momento, só  desejamos saber a respeito de Carrie.

- Sim, tem razão - concordou ele. - Portanto, falaremos a respeito de  Carrie - acrescentou, assumindo uma atitude profissional. - Não sei quem vocês são, de  #11 onde vêm ou por que julgam que devem fugir. Mas aquela garotinha está muito,  muito doente. Se hoje não fosse domingo, eu a internaria num hospital para fazer  outros  exames que não tenho condições de fazer aqui. Sugiro que entrem imediatamente em contato com seus pais.

Exatamente as palavras certas para me causarem pânico!

- Somos órfãos - disse Chris. - Mas não se preocupe quanto a receber seus  honorários. Podemos pagar.

- É bom terem dinheiro - disse o médico. - Vão precisar dele.

Lançou-nos um prolongado olhar observador, avaliando-nos.

- Duas semanas num hospital seriam suficientes para descobrirmos o fator na doença de sua irmã que não consigo perceber neste momento.

E enquanto prendíamos a respiração, atordoados por sabermos que Carrie  estava tão doente, o médico fez uma previsão aproximada da quantia que aquilo  custaria.  Ficamos perplexos. Oh! Meu bom Deus! Nosso tesouro roubado não daria para pagar  uma semana de hospital, muito menos duas.

Meu olhar deparou com a expressão apavorada nos olhos azuis de Chris. O que faríamos agora? Não podíamos pagar tanto dinheiro!

O médico percebeu prontamente nossa situação.

- Ainda são órfãos? - indagou suavemente.

- Sim, ainda somos órfãos - declarou Chris em tom de desafio; em seguida, olhou firme para mim, indicando que eu deveria manter a boca fechada. - Uma vez órfãos, assim permanecemos. Agora, diga-nos o que suspeita haver de errado com nossa irmã e o que pode fazer para curá-la.

- Calma lá, meu rapaz. Antes, terá que responder algumas perguntas - disse  o médico com voz suave, mas firme o suficiente para nos mostrar que ele comandava  a situação. - Em primeiro lugar. qual o seu sobrenome?

- Sou Christopher Dollanganger e esta é minha irmã, Catherine Leigh  Dollanganger, e Carrie tem oito anos, quer o senhor acredite ou não!



  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   39


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal