A saga dos foxworth jardim das sombras



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A SAGA DOS FOXWORTH - JARDIM DAS SOMBRAS

V.C. ANDREWS

PRÓLOGO


ADENDO AO ÚLTIMO DESEJO E TESTAMENTO DE OLÍVIA WINFIELD FOXWORTH.

PARA SER ABERTO VINTE ANOS APÓS A MINHA MORTE.


Fui forçada a deixar isto escrito, pois, caso outros não tenham decidido contar minha história, partindo de seus próprios pontos de vista, os segredos dos Foxworths estariam enterrados comigo se eu mesma não os tivesse contato. A crueldade vem sob muitas formas - a ignorância é uma delas. Por causa da ignorância, tenho sido julgada e condenada. Agora estou perto de Deus, o único cujo veredicto importa, e aceitei seu julgamento em minha alma. Aqueles de vocês que ainda se lembram do passado só agora saberão da verdadeira história. E conhecendo a verdade, condenem-me se forem capazes.
Olívia Winfield Foxworth

PARTE 1
1

O PRIMEIRO BOTÃO DA PRIMAVERA
QUANDO EU ERA GAROTINHA, meu pai presenteou-me com uma rica casinha de bonecas. Era um mundo mágico em miniatura, com pequeninas bonecas de porcelana, móveis, quadros e até candelabros e cortinas, tudo era pequenino e feito à mão. Porém, a casa era fechada dentro de uma cúpula de vidro e eu nunca pude tocar a família que vivia lá dentro; e não era só isso, eu não tinha permissão de tocar sequer no vidro, pois temiam que meus dedos deixassem manchas. Coisas delicadas sempre estiveram em perigo em minhas mãos grandes; por essa razão, a casa de bonecas estava ali somente para que eu a admirasse. Tocá-la, jamais.

Guardava-a no meu quarto, sobre uma mesa de madeira que ficava debaixo de uma janela de vidros coloridos. O sol que se filtrava por esses vidros produziam um delicado arco-íris no céu do pequenino universo e iluminava de felicidade as faces das bonecas que compunham a família em miniatura. Todos tinham um ar de alegria, os empregados da cozinha, o mordomo vestido de branco que ficava perto da porta de entrada e até mesmo a cabritinha no cercado.

Aquela casinha era a perfeição, era o mundo que, fervorosamente, sonhava para mim. Não havia nela sombras; mesmos nos dias nublados, quando as nuvens espalhavam trevas, os vidros coloridos da janela transformavam luzes cinzentas em arco-íris como mágica.

O mundo real, o meu mundo, parecia estar sempre cinzento, não havia arco-íris. Cinza para meus olhos, que sempre foram vistos como sombrios, cinza para minhas esperanças, cinza para uma moça envelhecida com a qual ninguém se importava. Aos vinte e quatro anos eu era uma jovem velha, uma solteirona. Dir-se-ia que, com minha inteligência e altura, eu intimidava futuros pretendentes. Parecia que o colorido mundo do amor, casamento e crianças estaria sempre tão fechado para mim quanto aquela casinha de bonecas que tanto admirava. Por isso, apenas no mundo do faz-de-conta as minhas esperanças tinham asas.

E em minhas fantasias eu era bonita, serena, alegre, charmosa como as outras jovens que conhecia, mas que jamais fui amiga. Eu vivia solitária, alimentada apenas por livros e sonhos. E, embora não falasse sobre isso, apegava-me a pequena esperança que minha mãe me deixara antes de morrer.

“A vida se parece com um jardim, Olívia. As pessoas são como pequenas sementes nutridas de amor, amizade e carinho, se receberem cuidado e amor suficientes, crescerão e se transformarão em belas flores. Algumas vezes, mesmo a velha e desprezada planta esquecida no canteiro, de repente floresce. É o florescer mais precioso de todos. Você será este tipo de flor, Olívia. Levara algum tempo, mas o seu desabrochar chegará”.

Como sinto falta do otimismo da minha mãe. Eu tinha dezesseis anos quando morreu. Era justamente quando mais precisava dela e daquelas conversas de mulher para mulher que teriam me ensinado a conquistar o coração de um homem; que me teria ensinado a ser como ela: respeitada, competente e, acima de tudo - mulher. Estava sempre envolvida com uma missão ou outra e sempre ocupada. Atravessava as crises ao seu jeito, e quando uma terminava havia sempre outra para resolver. Meu pai parecia satisfeito em vê-la ocupada, não importava com o que. Dizia freqüentemente que o fato de as mulheres não se envolverem com problemas sérios não significa que deveriam ser ociosas. Elas tinham as “coisas de mulher” para fazer.

Mesmo assim, quando chegou o tempo, ele me encorajou a fazer um curso de Administração de Empresas. Parecia lógico e evidente que seria sua contadora particular. Esperava que ele me desse um lugar em seu gabinete, que era uma sala máscula, com uma parede cheia de revólveres e outras fotos de suas caçadas e pesarias, uma sala que sempre recendia a cigarro e uísque, e que tinha tapetes mais escuros e mais velhos da casa. Deu-me um espaço em sua mesa de carvalho para que contabilizasse meticulosamente suas contas e despesas, pagamento de empregados e até gastos da casa. Trabalhando com ele, sentia-me mais como um filho que sempre desejara e que nunca teve do que como uma filha que de fato era. Eu não era o tipo de pessoa que ficava o tempo todo querendo agradar, sempre me pareceu que nunca seria o que as pessoas desejavam que eu fosse.

Meu pai costumava dizer que eu seria de grande utilidade para qualquer marido, e eu acreditava que justamente por isso havia determinado com tanta convicção que eu iria receber uma educação no campo das ciências contábeis, como a Administração de Empresas, e adquirir uma experiência prática no assunto. Sabia que, no fundo apesar do meu pai não falar sobre o assunto, ele achava que uma mulher de um metro e oitenta precisava de algo mais pra fisgar o amor de um homem.

Sim, tenho um metro e oitenta de altura. Quando era apenas uma adolescente, disparei a crescer e, para meu desalento, cresci em proporções exageradas. Eu era o pé de feijão no jardim do Joãozinho; o gigante. Não havia nada de frágil ou delicado em mim. Tinha os belos cabelos avermelhados de minha mãe, mas meus ombros eram largos e meu peito enorme. Costumava olhar-me no espelho desejando que meus braços fossem mais curtos. Meus olhos cinzentos eram muito grandes e pareciam olhos de gato, e o nariz era estreito demais. Os lábios eram finos, e minha pele, pálida e acinzentada. Cinza, cinza, cinza. Como desejei ser bela e brilhante! Mas quando me sentava em frente à penteadeira de mármore caramelo e tentava piscar os olhos como se estivesse flertando com alguém, tudo que conseguia era parecer com uma boba. Não queria ser vista como imbecil, e não podia fazer nada exceto sentar em frente à casa de bonecas e observar a delicada beleza da face da pequena esposa de porcelana. Como desejei ter aquele rosto; talvez assim o meu mundo também fosse daquele jeito.

Mas não era. Então, deixei minhas esperanças trancadas com as bonecas de porcelana e segui meu caminho. Se meu pai realmente esperou transformar-me numa mulher mais atraente, me proporcionou uma educação prática no mundo dos negócios, deve ter ficado muito desgostoso com os resultados. Os rapazes vinham e iam através de manipulações - o que descobri mais tarde - e eu continuava ali, esperando ser amada e cortejada. Sempre tive medo de que meu dinheiro, o dinheiro de meu pai que eu herdaria, trouxesse a minha porta um homem que me fingisse amar. Acho que meu pai também temia a mesma coisa, pois me disse um dia:

- Dispus no meu testamento que qualquer dinheiro que você receba será exclusivamente seu, para fazer com ele o que bem entender. Nenhum marido jamais terá o controle sobre a sua fortuna simplesmente porque casou com você.

Disse isso e saiu sem que eu pudesse sequer comentar. Começou então a selecionar os pretendentes cuidadosamente, apresentando-me tão-só aqueles da alta classe, que possuíam suas próprias fortuna. Devia ainda ser alguém pelo menos da minha altura e que não levantasse as sobrancelhas, um obvio sinal de mau humor em relação às coisas que eu dissesse. Parecia-me que iria morrer solteirona. Contudo, meu pai não pensava assim.

- Um jovem virá jantar conosco está noite - começou ele naquela manhã de sexta-feira, no final do mês de abril. - E devo dizer que, dos rapazes que conheci, este foi o que mais me impressionou. Quero que ponha aquele vestido azul que usou na ultima páscoa.

- Mas papai... - Tinha a resposta na ponta da língua, mas ele antecipou minha reação.

- Chateada por quê? E, pelo amor de Deus, não comece com aquela conversa sobre movimento das mulheres pelo voto feminino quando estivermos a mesa. Meus olhos flamejaram. Meu pai sabia que eu odiava ser amordaçada como um de seus cavalos.

- Um homem não mostrara interesse por você tão cedo, se não parar de reivindicar o mais privilégio masculino. Pode acreditar. O vestido azul - repetiu, deu meia volta e saiu sem me dar tempo para uma resposta.

Cumprir os rituais em minha penteadeira parecia inútil. Ensaboei os cabelos e sentei-me para escová-los cem vezes, amaciando-os e caprichosamente prendendo-os atrás com o pente de marfim que meu pai me dera no ultimo Natal. Meu pai não sabia, não tinha a menor idéia de que eu havia encomendado o “vestido azul” porque queria um modelo que se parecesse com aqueles que as mulheres usavam nas fotos das revistas de moda. O corpete era raso o suficiente para expor um pouco da exuberância do meu busto, e a cintura era justa, lembrando uma ampulheta. Era feito de uma seda excepcionalmente macia, que lhe conferia um brilho completamente distinto de tudo o mais que eu possuía. As mangas, terminando acima do cotovelo, faziam com que meus braços parecessem menores. Coloquei o pendente de safira azul de minha mãe; pois achava que ele tornava meu pescoço mais esbelto. Havia um avermelhado nas maças de meu rosto, e eu não sabia se era devido a minha saúde ou ao meu nervosismo. Sim, eu estava nervosa. Já havia passado por muitas daquelas noites e, de fato, elas não me agradavam. Os rapazes sempre abaixavam a cabeça, envergonhados, depois de me cumprimentarem e constatarem que eu era bem mais alta que eles.E agora estava simplesmente ensaiando outra tragédia.

Quando desci ao primeiro andar, o convidado já havia chegado. Estavam no gabinete. Escutei a gargalhada alta de meu pai e depois a voz do cavalheiro, baixa mas profunda e ressonante, a voz de um homem com certa segurança. Corri as mãos contra os quadris, para enxugar a umidade, e avancei em direção a porta do gabinete. No momento que apareci, Malcolm Neal Foxworth levantou-se. Meu coração disparou. Ele tinha quase dois metros de altura e era o rapaz mais bonito que havia vindo a nossa casa.

- Malcolm - disse meu pai - tenho o orgulho de lhe apresentar minha adorável filha.

Ele segurou minha mão.

- Encantado, Srta Winfield.

Eu olhava diretamente dentro dos seus olhos azuis, e ele também olhava fixamente dentro dos meus. Jamais havia acreditado nessas coisas românticas de garotas de escola, tais como o amor a primeira vista, porém senti seu olhar firme deslizando sobre meu coração e se alojando na boca de meu estomago. Ele tinha cabelos louros, um pouco mais compridos, atrás, do que a maioria dos homens usava. As pontas eram bem penteadas e tinham um ar de leveza. Seu nariz era do tipo romano, bem definido, e os lábios finos e retos. Os ombros largos e os quadris estreitos lhe conferiam um ar atlético. Podia dizer, pela maneira que olhava em meus olhos e pelo ligeiro sorriso que seus lábios insinuavam, que devia estar acostumado com o fato de fazer as mulheres tremerem. Bem, pensei, não havia nada em Olívia Winfield que pudesse interessá-lo. É claro, um homem como aquele dificilmente me daria uma hora de seu tempo, e eu continuaria tendo de aturar outra noite daquelas, pois era a sina casamenteira que me impunha meu pai. Apertei a mão do rapaz com firmeza, sorri, depois desviei os olhos para o outro lado, rapidamente.

Após ter-nos apresentado, meu pai explicou que Malcolm viera para New London depois de ter assistido a uma reunião em Yale. Ele estava interessado na indústria de construção naval, pois acreditava que, com o final da Grande Guerra, o mercado de exportação iria se desenvolver muito. Do que ouvi sobre ele naquela noite, compreendi que era dono de algumas fábricas de roupas, tinha participação e influência em alguns bancos e possuía fazendas de criação de ovelhas na Virgínia. Malcolm trabalhava com seu pai, que apesar e ter apenas cinqüenta e cinco anos, estava perturbado. Só mais tarde compreendi o que significava esta perturbação.

Durante o jantar tentei ser a educada e quieta observadora que meu pai queria que eu fosse, exatamente como minha mãe costumava ser. Nossos criados, Margaret e Philip, serviram um elegante jantar cujo prato principal, escolhido por meu pai, era carne a Wellington. Ele só escolhia esse menu para ocasiões especiais. Achei que estava sendo demasiado obvio quando disse:

- Olívia é formada, você sabe. Ela tem um diploma em Administração e faz a maior parte da minha contabilidade.

- Verdade?

Malcolm parecia ingenuamente impressionado. Seus olhos azuis celeste brilhavam com interesse e intensidade. Senti que estava me olhando pela segunda vez, agora com mais seriedade.

- Gosta desse trabalho, Srta Winfield?

Dei uma olhada para meu pai, que estava sentado numa cadeira com encosto alto observando-me com a cabeça meio curva, como se estivesse instigando minhas respostas. Eu estava querendo muito que aquele rapaz gostasse de mim, mas também estava determinada a ser o que era.

- Acho bom preencher o tempo com algo produtivo, mesmo sendo uma mulher - respondi.

O sorriso de meu pai murchou, enquanto o de Malcolm se abriu.

- Concordo plenamente - disse ele, sem olhar para meu pai. - Acho a maioria das mulheres conhecidas pela beleza, enfadonhas e até tolas. É como se a beleza fosse suficiente para encher suas vidas. Prefiro mulheres inteligentes que saibam pensar por si mesmas e que sejam verdadeiros trunfos aos maridos.

Meu pai pigarreou.

- Sim, sim e disse, e se pôs a discorrer sobre a industria naval.

Ele obtivera informações através de boas fontes, de que a frota da marinha mercante, construída para a guerra, seria brevemente oferecida a particulares. O assunto deteve a atenção de Malcolm por quase todo o jantar; contudo, às vezes sentia seus olhos sobre mim, e, quando eu o olhava também, ele sorria. Jamais me sentira tão maravilhada com um convidado de meu pai. Jamais me sentira tão bem-vinda a mesa. Malcolm mostrava-se educado com meu pai, mas era claro que preferia estar conversando comigo.

Comigo! O homem mais bonito que viera a nossa casa estava interessado em mim? Mas ele poderia ter centenas de garotas para adorá-lo para sempre. Por que estaria interessado numa garota comum como eu? Oh! Como queria acreditar que não era imaginação minha todos aqueles olhares, às vezes em que me pedia para lhe passar alguma coisa que poderia facilmente pegar sozinho, a maneira de tentar puxar conversa comigo. Ah, talvez por apenas umas poucas horas, pude deixar que meu pequeno botão de esperança desabrochasse. Somente por essa noite! Amanhã deixaria que voltasse a ser cinza.

Após o jantar, Malcolm e meu pai retiraram-se para o gabinete onde foram fumar seus charutos e discutir mais sobre o investimento que Malcolm iria fazer. Com a saída deles, minha esperança recém florida rapidamente murchou. Malcolm não estava interessado em mim, mas sim em negociar com meu pai. Ficariam ali pelo resto da noite. Eu também deveria ir para meu quarto e ler aquele novo romance de Edith Wharton do qual tanto se falava - A idade da Inocência. Porém, ao invés disso, decidi trazer o livro para baixo e ler sob a luz de um delicado abajur. Estava feliz por poder ver Malcolm de novo, mesmo que fosse só para lhe dizer até logo.

Naquela hora da noite a nossa rua ficava muito calma. Havia um casal de braços dados caminhando por ela; fiquei a observá-lo. Moviam-se do jeito que o casal da casa de bonecas o faria se pudesse escapar dali. Fiquei olhando para eles até desaparecerem na esquina. Como gostaria de poder caminhar com um homem daquele modo um dia; um homem igual a Malcolm. Mas isso não me aprecia possível. Deus não ouvia minhas preces. Suspirei. Voltando ao livro, compreendi que tudo que podia vir a saber sobre o amor e a vida viria dos livros.

Foi então que deparei com Malcolm no vão da porta. Por que estaria me observando? Estava muito reto e imóvel, com a cabeça erguida e os ombros para trás. Havia um ar de cálculo em seu olhar, como se estivesse, inconscientemente, me avaliando.

- Oh! - minha surpresa foi tanta que as maçãs de meu rosto ficaram vermelhas e meu coração disparou a bater tão alto que pensei que ele pudesse ouvir as batidas do outro lado da sala.

- Está uma noite muito agradável - disse ele. - Posso acompanhá-la numa volta por aí?

Brilhei por um momento. Ele queria me levar para uma caminhada!

- Sim - respondi. - Irei correndo pegar meu casaco.

Percebi que havia respondido rápido demais. Tentei não piscar ou agir de maneira imprópria, pois não queria que interpretasse mal a minha precipitação. Queria sair sim, queria muito caminhar com ele. Além disso, estava contente por ter uma razão para sair de casa e retomar o fôlego. Se tivesse esperança de que o que parecia ser interesse por mim viesse um dia a florescer, agiria exatamente como estava agindo.

Quando retornei, Malcolm esperava por mim na porta da frente. Philip entregara-lhe o sobretudo e se mantinha ao seu lado, esperando para abrir a porta. Fiquei imaginando onde estaria meu pai e se tudo aquilo fora tramado por ele. Entretanto, apesar de mal ter conhecido Malcolm, sabia que era o tipo de homem que só faria o que queria fazer.

Quando Philip lhe abriu a porta, notei um brilho de satisfação em seus olhos; tinha aprovado aquele cavalheiro. Malcolm segurou minha mão e ajudou-me a descer os seis degraus da entrada. Ambos permanecemos calados enquanto nos dirigíamos ao portão. Ao chegar, Malcolm o abriu e deixou que eu passasse primeiro. Era uma noite de abril e havia apenas uma insinuação de primavera no ar. As árvores, perto do portão, quase alcançavam o céu com seus galhos, que ainda estavam cinzentos, embora cobertos de pequenos brotos à espera da primavera para nascer. A friagem do inverno ainda pairava no ar, ainda dentro de mim. Por um momento, desejei me atirar nos braços de Malcolm, algo que com certeza não faria com outro homem, nem mesmo com meu pai. Caminhei em linha reta, seguindo em direção ao rio, com determinação.

- Se formos até o fim desta rua e virarmos a esquerda, teremos uma bela vista do rio Thames - disse eu.

- Ótimo - ele respondeu.

Sempre foi uma fantasia caminhar ao longo do rio com um homem que estivesse apaixonado por mim. Estava tomada pela emoção. Pelo meu corpo moviam-se esperanças e temores, confusão e sentimentos contraditórios. Sentia-me confusa e atordoada. Contudo, não podendo permitir que Malcolm percebesse minha agitação enquanto caminhávamos, tratei de manter a postura, a cabeça erguida. Numa noite tão escura quanto aquela, o reflexo das luzes distantes na água parecia vaga-lumes presos numa teia de aranha.

- Linda vista - disse ele.

- É verdade.

- Como seu pai ainda não a casou? - perguntou ele. - Não insultaria sua inteligência dizendo que é bonita, mas você é muitíssimo atraente e tem uma mente notável. Como é que nenhum homem ainda a capturou?

- Como é que você ainda não tem esposa? - respondi.

Ele sorriu

- Respondendo uma pergunta com outra não é? Bem Srta Winfield - disse ele - se quer saber, acho que a maioria das mulheres de hoje, com seus esforços para se mostrarem divertidas e interessantes, são entediantes. Acredito que um homem que encare a vida com seriedade, que queira construir algo de sólido para si e sua família, deve evitar este tipo de mulher.

- E você conhece esse tipo de mulher? Não tem procurado encontrar outros tipos? - perguntei. Não pude ver com precisão, mas acho que ele ficou vermelho.

- Não, tenho estado muito ocupado com meus negócios.

Paramos, e ele olhou para os barcos.

- Sem querer ser rude - disse - sinto que temos algumas coisas em comum. A partir do que seu pai me disse e do que observei, você é uma pessoa séria, pragmática e ativa. Você aprecia o mundo dos negócios e como conseqüência, está bem acima da maioria das mulheres deste país.

- As mulheres ficam assim por causa do modo pelo qual os homens as tratam - assegurei rapidamente.

Quase mordi o lábio. Não queria expressar minhas opiniões controvertidas, mas as palavras pareciam formar-se por si próprias em minha boca.

- Não sei. Talvez - assentiu ele - o problema seja este. É verdade. Você sabe - continuou, pegando-me delicadamente pelo cotovelo para continuarmos andando - temos outros coisas em comum. Ambos perdemos nossas mães muito cedo. Seu pai contou-me em que circunstâncias sua mãe morreu - acrescentou - Logo, espero que não me considere intrometido.

- De modo algum. Você perdeu sua mãe ainda muito jovem?

- Tinha cinco anos - informou num tom sombrio e triste.

- Deve ter sido duro.

- Algumas vezes as coisas ruins que nos acontecem tornam-se boas de certa forma; quero dizer, elas nos fortalecem.

Na verdade, ele não me pareceu forte ao dizer isso. Foi tão frio que temi fazer outras perguntas.

Caminhamos bastante aquela noite. Ele falou sobre seus inúmeros empreendimentos e conversamos também sobre as próximas eleições presidenciais. Malcolm ficou surpreso ao ver o quanto eu estava bem informada sobre os candidatos que concorriam pelos republicanos e democratas. Lamentei termos chegado em casa tão cedo. Em todo caso, pensei, pelo menos tive meu passeio com um rapaz bonito. Presumi que aquilo seria o fim. Porém, quando chegamos em frente a porta de casa, ele perguntou se podia me procurar de novo.

- Sinto se falei muito durante a noite, gostaria de ouvir você da próxima vez - disse ele.

Será que estava ouvindo bem? Um homem queria me ouvir, queria conhecer minhas idéias?

- Ligue amanhã - eu disse. Acho que pareci tão ansiosa quanto uma adolescente e ele se manteve sério, não sorriu.

- Ótimo. Há um restaurante de frutos do mar perto de onde estou hospedado. Talvez possamos jantar lá.

Jantar - o tipo de encontro firme. Claro que concordei. Gostaria de tê-lo visto entrar no carro e partir, mas não podia fazer algo tão obvio. Ao entrar em casa, deparei com meu pai a porta do gabinete.

- Jovem muito interessante, não? - disse ele - Me parece uma espécie de gênio dos negócios. Além disso, é bastante vistoso, não é?

- Sim papai - respondi.

Ele deu um risinho.

- Malcolm me ligara amanhã, iremos jantar juntos - continuei.

Seu sorriso se desfez. Ficou sério, e em seus olhos apareceu aquele brilho de esperança que eu já conhecia.

- É verdade? Bem, o que mais tem a me dizer?

- Não sei o que lhe dizer mais, papai.

Sem conseguir me acalmar, pedi licença e subi para o quarto. Por um instante simplesmente sentei e comecei a me olhar no espelho. O que havia de diferente? Meus cabelos eram os mesmos. Puxei os ombros para trás, pois tinha a propensão a curvá-los para frente porque os achava muito grandes. Sabia que tinha uma péssima postura e que Malcolm era bem elegante; a postura era impecável e transmitia segurança. Ele pareceu não reparar nos meus defeitos, e foi ótimo falar com alguém sem ter que olhar para baixo.

Além de tudo, ele havia dito que eu era muito atraente, sugerindo, com isso, que eu era uma mulher desejável. Talvez eu tenha me subestimado durante todos aqueles anos, aceitando um destino cruel, sem a menor necessidade. Claro que eu estava tentando me punir, me censurar. Um homem jantou comigo e me convidou para sair; isso não significa que tivesse intenções românticas. Talvez estivesse apenas se sentindo só. Não, pensei, iremos jantar, conversar mais um pouco, e depois ele irá embora. Talvez, algum dia, numa ocasião especial, como o Natal, por exemplo, eu receba um cartão dizendo “Agradeço, com certo atraso, sua gentil companhia. Feliz Natal, Malcolm”.

Meu coração estremeceu. Fui até a casa de bonecas e procurei minha esperança, que estava trancada lá dentro. Dormi sonhando com as bonecas de porcelana. Eu era uma delas, a esposa feliz, e Malcolm, era o belo marido.



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