A sensualidade feminina revelada no tango



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A SENSUALIDADE FEMININA REVELADA NO TANGO


  1. Washington Luiz Passos Júnior

Graduação em Educação Física pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná

E-mail: washingtonluizpassos@yahoo.com.br




  1. Diego Ebling do Nascimento

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal de Pelotas

E-mail: digue_esef@yahoo.com.br



A SENSUALIDADE FEMININA REVELADA NO TANGO
RESUMO
Este estudo teve como principal objetivo compreender como as professoras e alunas praticantes de tango relacionam-se com a sensualidade que esta dança estimula. Foi realizada uma pesquisa qualitativa, utilizando como ferramentas de coleta a entrevista semiestruturada e o diário de campo. Participaram do estudo quatro professoras e quatro alunas praticantes de tango, distribuídas em quatro espaços distintos de ensino da modalidade. Identificamos que a temática sensualidade é tratada de forma secundaria pelas profissionais entrevistadas que priorizam a técnica no processo de ensino-aprendizagem. Questionamos, também, o estereótipo da bailarina de tango que é nitidamente um padrão construído neste processo de ensino.
PALAVRAS-CHAVE: Tango; sensualidade; dança de salão.

ABSTRACT
This study aimed to understand how the teachers and tango practitioners students relate to the sensuality that this dance stimulates. A qualitative survey was conducted using as collection tools semi-structured interview and field diary. Study participants were four teachers and four tango practitioners students, divided into four distinct spaces mode teaching. We found that the theme sensuality is treated in secondary form by the interviewed professionals that prioritize the technique in the teaching- learning process. Question, too, the stereotype of tango dancer who is clearly a pattern built in the teaching process.
KEYWORDS: Tango; sensuality; ballroom dance.

INTRODUÇÃO

Entre os diversos ritmos da dança de salão temos o tango, dança cultural de origem argentina, nascido nos becos porteños sofreu influências de danças como o candombe, ritmo praticado pelos negros imigrantes em meados do século XIX. Esta influência da cultura negra somado aos primeiros locais de prática do tango, como os bordeis e os cabarés, colaborou para a existência da sensualidade mundialmente conhecida e muito presente na modalidade argentina (ARCHETTI, 2003).

A dança tango muitas vezes é assumida como promotora do desenvolvimento da sensualidade. Esse trabalho visa contribuir com o meio acadêmico instigando pesquisadores e professores a se aprofundarem nas ações psicoemocionais dos seres humanos de forma que temas como a sensualidade tenham maior visibilidade.

No Brasil, há poucos estudos na área da sensualidade relacionada à dança. Isso pode estar relacionado ao preconceito e aos princípios religiosos e patriarcais que foram estabelecidos desde a colonização. Percebemos, então, que esta temática foi deixada de lado na pesquisa científica e o manteve-se apenas ligado à imagem do brasileiro (SARAIVA, 2005).

Sendo assim, este artigo se propõe a trabalhar questões ligadas ao corpo, a sensualidade e a dança. Fazendo com que os professores pensem sobre a possibilidade de trabalhar a sensualidade em aulas de forma lúdica e saudável, proporcionando em médio e em longo prazo corpos mais expressivos.

Desta maneira o objetivo deste estudo é compreender como as professoras e alunas praticantes de tango se relacionam com a sensualidade que esta dança estimula.


METODOLOGIA

Para desenvolver o objetivo proposto neste estudo, escolhemos a pesquisa de abordagem qualitativa-descritiva. Isto porque, segundo Moreira e Caleffe (2006), a principal característica do estudo qualitativo é a exploração de características e cenários de difícil descrição numérica. Os dados são de natureza verbal e são coletados por sistemas de observações e, consequentemente, descrições.

Participaram da pesquisa oito mulheres envolvidas com tango, sendo quatro profissionais especializadas e quatro alunas de tango em Curitiba. Optamos por selecionar as alunas que estavam fazendo aulas regulares há mais tempo, portanto, nossa mostra foi intencional. Acreditamos que desta forma teremos resultados relevantes para o estudo em questão. Foi utilizado na coleta dos dados o método de entrevista do tipo semiestruturada, contendo perguntas abertas, com a possibilidade de o entrevistado discorrer sobre o tema proposto sem as condições prefixadas pelo autor (MOREIRA; CALEFFE, 2006).

Para a coleta de dados contamos com dois principais instrumentos. O primeiro foi a entrevista semiestruturada. A entrevista foi registrada em um gravador para posterior transcrição e estudo dos dados. A escolha do gravador se dá ao fato de que este instrumento transparece detalhes contidos na voz do entrevistado, pausas, entonações e emoção (SCHRAIBER, 1995).

O segundo instrumento utilizado foi o diário de campo. Este instrumento de observação consiste em complementar as ferramentas convencionais de entrevista, nas suas mais variadas formas. A autora Minayo (1993, p.71) define esta ferramenta como “um caderninho, um arquivo eletrônico no qual escrevemos todas as informações que não fazem parte do material formal de entrevistas em suas várias modalidades”.

Depois de realizada as duas primeiras etapas, a próxima ação metodológica foi a transcrição dos dados coletados. Esta etapa consistiu em passar para o texto escrito uma reprodução honesta e correta da entrevista realizada neste estudo. “Esta transcrição deve ser completa e o mais rigorosa possível, registrando através de sinais gráficos a interrupção de palavras, frases ou parágrafos e outras características da entrevista” (GATTAZ, 1996, p. 139).

Tais instrumentos foram escolhidos com objetivo de descrever de forma mais densa as possíveis alterações na atitude sensual dos participantes da amostra.

Gostaríamos de ressaltar que, por motivos éticos, todos os nomes das entrevistadas são fictícios e tem como objetivo preservar a identificação das entrevistadas.

Nieves, Plebs, Castilla e Frigoli são as quatro professoras entrevistas e Menezes, Emmerich, Davoli e Gonzalez foram os nomes dados às alunas que fizeram parte do estudo. Os codinomes foram dados a partir de grandes nomes das bailarinas de tango da Argentina para as professoras e nomes de tangueiras brasileiras para as alunas.

MODOS DE SENTIR E DANÇAR O TANGO: ESPAÇOS, OLHARES E MOTIVAÇÕES.

O tango é praticado em locais específicos chamados de milongas. As milongas são definidas por Savigliano (2000) como

(...) botecos de tango – um espaço e um tempo quando e onde corpos de tango se reúnem para produzir “tanguidade”. São o lugar físico do encontro corpóreo e temporário dos praticantes do tango. (...) As milongas passam por transformações constantes em termos de onde se situam, do que parecem, de quem as freqüenta e de como operam. Não há milonga genérica exceto pelo fato de que, para ser identificada como milonga, tem que acontecer uma reunião de dançadores de tango de alguma espécie. Milongueiros e milongueiras de fato fazem as milongas onde quer que vão e se acomodem por algum tempo. Os requisitos físicos do local (localização na cidade, condições materiais do prédio, tamanho da pista de danças, qualidade do equipamento musical, etc.) são muito elásticos. O que importa é quem vai e com que freqüência. As figuras cruciais são o organizador da milonga e o disc-jóquei, que têm o poder de convocar a clientela milongueira, um grupo pequeno e cheio de caprichos (SAVIGLIANO, 2000, p. 92).

Para que pudéssemos entender melhor este contexto, averiguamos os locais de prática do tango em Curitiba.

A maioria da entrevistadas apontou a falta de locais próprios para o “baile” de tango, sendo destacado apenas um espaço para realização desta prática em Curitiba.

Como forma alternativa de praticar o tango, os bailes de danças de salão foram colocados em destaque. Estes bailes acontecem nas próprias escolas de dança e integram os alunos como forma complementar às aulas.

Durante as festas “Tum e Tum¹” muitos se sentam em seus lugares quando começam a tocar o tango, pois preferem assistir aos casais que têm mais familiaridade com a técnica e “outros parecem não fazer a mínima questão de arriscar o pouco que sabem diante dos pouquíssimos casais que têm grande domínio da dança” (RODRIGUES, 2011, p. 15). Segundo a mesma autora as danças mais estudadas em aula são as que ganham maior espaço durante as festas.

De acordo com Gobbo (2005) a dança de salão é considerada uma dança popularizada por todo o mundo, sendo caracterizada como uma dança social e com objetivos de diversão e socialização, porém, segundo relatos das entrevistadas o tango é o ritmo menos solicitado nos bailes, ou como diz a professora Nieves “... nos bailes de escolas de dança de salão mesmo [...] não há muitos lugares para praticar tango...”. É provável que isto aconteça devido a uma questão cultural, pois o tango não é uma dança nacional, diferente do samba e do forró que são danças populares brasileiras.

Então podemos sugerir que Curitiba precisa de novos espaços para se dançar tango comparado à diversidade de locais para prática de outros estilos. Espaços estes, que contemplem as expectativas dos amantes dessa arte latina.

Através das entrevistas notamos uma forte relação do tango com o “abraço”, que seria a forma como o casal se abraça na prática do tango. Elas descrevem o abraço como um elemento essencial de conexão entre o casal, para que se realise os movimentos da dança.

Em um dos relatos a aluna Menezes coloca que “... no tango o abraço é extremamente personalizado, não tem certo nem errado”. A professora Plebs destaca esse abraço do tango como sendo “coração com coração” ou ainda “um corpo só e quatro pernas”. Segundo Vieira (2009, p. 71) “rompendo com certas contradições encontradas nesta dança, o abraço torna-se, então, outro elemento preponderante na dança”. O mesmo autor trata, ainda, o abraço como o desejo guardado na memória do corpo.

Os sentimentos que nos marcam durante a vida são resgatados em um simples abraço, sentimentos estes que refletem companheirismo, cumplicidade e aceitação não deixando de estar relacionado à nossa sexualidade. Para Gradim, Sousa e Lobo (2007, p. 212) “a sexualidade não é expressa somente no ato sexual. Ela flui naturalmente na vida de qualquer pessoa e é marcada pela intimidade, pelo amor, pelo carinho e pela doação”.

Através de nossas anotações em diário de campo e das observações percebemos na prática a importância que a linguagem corporal tem na relação dos pares no bailar o tango. Percebemos também, a forte relação da estética das movimentações que o tango prega com o seu histórico sociocultural. É importante destacar que esta dança em sua essência, esta relacionado aos cabarés de Buenos Aires que servia como um ponto de fuga aos homens imigrantes que, atrás de fortuna, encontravam-se ali ao desconhecido e longe de suas famílias. Para Almeida e colaboradores (2013) o tango vai além do seu caráter erótico, é uma arte de leitura passível de ser analisada com foco na multiplicidade e intersecção que rege em seu passado.

A bailarina de tango Menezes afirma que a sensualidade é uma característica importante na vida da mulher, e ainda completa dizendo que “esta muito ligada à autoestima dela”. Já para a professora Plebs a mulher sensual está ligada ao seu “potencial feminino ao máximo”. A aluna Emmerich diz que “toda mulher se sente bem, se sentido sensual, se sentindo bem consigo mesmo”, o que reforça a ideia de que nós vivenciamos continuamente a imagem corporal, de uma forma especial, sendo que o foco está no nosso eu (TAVARES, 2001).

Em nosso diário de campo, percebemos a diferença do autoconhecimento do corpo entre alunos iniciantes e avançados no processo de ensino-aprendizagem do tango. Fonseca (2001, p.38) afirmam que “o movimento é essencial para construção da imagem corporal sendo que somente através dele se pode adquirir conhecimento sobre o próprio corpo”. Os mesmos autores avaliaram as mulheres praticantes de danças de salão nas suas primeiras aulas e após um período de prática, e concluíram que ouve um aumento na satisfação dessas mulheres com a sua própria silueta corporal.

Quando questionamos se o tango proporcionou mudanças positivas na vida das praticantes, grande parte citou a socialização. A professora Castilla, quando questionada sobre as possíveis contribuições do tango em sua vida, responde que “muitas pessoas depois que entram na dança mudam de vida, às vezes a pessoa estava em depressão, sem muitos amigos. E a dança é isso, você socializar”. Este fato é nitidamente visto nas observações em diário de campo, o pré e pós-aula eram momentos de descontração, conversas e relações entre as pessoas.

Temas como estilo de vida e autoconhecimento também são apontados, como a entrevistada Emmerich que diz ser “um estilo de vida, um vício” ou a professora e bailarina Castilla que completa “mudou a forma de me vestir, de me comportar em um ambiente social, as pessoas que convivo”. Almeida e colaboradores (2013) corroboram com o tópico afirmando a sensualidade e elegância como elementos de grande importância na estrutura do figurino de tango. As autoras ainda colocam que “a roupa permite ao bailarino incorporar e vivenciar o personagem transmitindo o envolvimento pela música”. Podemos notar, diante dos relatos e das observações registradas em diário, a forte relação da vestimenta com aspectos culturais anteriormente citados nesta discussão.

Outro aspecto que merece destaque é a visão do tango como atividade física. A aluna Gonzalez afirma que dançar é “um jeito de me exercitar com prazer” ou ainda “acho que a questão do equilíbrio e postura ajuda” explana a aluna Davoli. São muitos os benefícios da dança de salão na qualidade de vida dos indivíduos, tendo destaque à promoção da saúde, à melhoria da autoestima, à socialização e integração de seus adeptos, contemplando também benefícios motores e cognitivos (TONELI, 2007; SANTANA, CORRADINI e CARNEIRO, 2011; ROCHA e ALMEIDA, 2007; ABREU, PEREIRA e KESSLER, 2008).

As praticantes entrevistadas parecem entrar num consenso quando afirmam que as pernas da mulher tem grande destaque no tango. Uma delas relata a importância da forma de caminhar durante a dança neste trecho “esta caminhada é muito vigorosa, muito forte”. Para Calamaro apud Vieira (2009, p. 70) o tango apresenta elementos de improvisação, formas e figuras que se utilizam, principalmente, da parte inferior do corpo, sendo “o centro de gravidade baixo onde a pélvis, as coxas, as pernas e os pés ressoam como elementos preponderantes e expressivos na coreografia do tango”.

Para a professora Nieves, a sensualidade esta intrínseca nas pernas e ainda relata que “as pernas estão sempre aparecendo, e meio que não querendo aparecer, e aparecendo muito ao mesmo tempo [...] não é aquela coisa totalmente exposta”. A aluna Menezes ainda completa “no tango aquelas pernas expostas com uma saia que não é curta, uma saia longa [...] se tornam extremamente chamativas...” e afirma que ao mesmo tempo em que a dama se entrega para o cavalheiro ela se impõe.

A autora Savigliano (1995) vai de acordo com estes relatos afirmando que a sensualidade da dança não é instintiva, e sim, um processo de sedução que se da com o controle dos impulsos eróticos entre o casal, o que nos remete a um “jogo sensual”. Em um estudo, a respeito das obras de Dalton Trevisan e erotismo, Gomes e Cordeiro (2010) dividem o jogo de poder em duas situações: o uso do poder para se ter o erotismo (o que tradicionalmente acontece com os homens) e o uso do erotismo para se chegar ao poder (o que tradicionalmente acontece com as mulheres).

No entanto, notamos que a palavra sensualidade raramente foi dita durante as aulas pelas professoras. Percebemos também, que elas utilizavam outras formas de chegar ao sensual, sem precisar recorrer diretamente a palavra, como por exemplo, quando a professora pediu que as damas caminhassem de forma mais “graciosa” ou quando ela deu um exercício de adornos, em que as damas praticavam movimentos que “enfeitam” sua técnica.

Quando perguntamos as profissionais do tango como passavam a sensualidade em suas aulas, obtivemos respostas como: “eu falo para elas se sentirem lindas, se sentirem uma rainha” ou “ser belas, ser leve”. Já a professora Frígoli procura explorar a liberdade de suas alunas, a criatividade e que elas desenvolvam sua personalidade. A professora define a sensualidade como “a maneira que você consegue colocar para fora algo que esta para dentro”. As quatro profissionais entrevistadas parecem compartilhar da ideia de que a sensualidade deve ser trabalhada de forma indireta, sem padronizar nem interferir na individualidade de cada aluna.

TANGO E FEMINILIDADE: DA TÉCNICA A SENSUALIDADE, SERÁ?


A relação da sensualidade com a técnica de movimentação do tango foi um questão relevante neste estudo. É unânime a opinião de que a técnica é uma ferramenta que possibilita a transposição da sensualidade. Plebs pensa que a técnica esta inserida no contexto da dança, e por consequência, o movimento vai ser “limpo” e bem executado. A professora Castilla compartilha desta ideia dizendo que a técnica vem antes da sensualidade e é prioridade.

Já a professora Plebs trás a sensualidade do tango com outros elementos, afirmando que as mulheres praticantes de tango, ou as “tangueiras”, dançam de olhos fechados demonstrando certa confiança no seu partner. Outro fator importante como gatilho da sensualidade para a professora é a técnica, segunda ela “se você não tiver uma técnica de trabalhar o seu pé, de trabalhar a sua postura [...] tudo vai ser desastroso”. Esta referência à técnica está ligada a aplicação de estruturas de danças mais antigas, como o balé clássico. Podemos encontrar esta relação no estudo de Goellner (2013) que cita a importância de outras técnicas na evolução da dança de salão no estado do Rio Grande do Sul, influência esta, que teve como principal incentivador o professor e coreógrafo Jaime Arôxa. Para Santos (2013, p. 5) a dança de salão e o balé tem semelhança na “manutenção de uma postura específica durante o treino e coordenação motora para desempenhar os passos técnicos, sendo por isso considerada uma prática capaz de exercer influência na postura corporal de suas praticantes”.

Muitos são os benefícios da técnica clássica para a dança, entre eles encontramos meios para realizar os movimentos de uma forma mais eficaz e funcional evitando lesões e tendo uma melhor execução. Porém, Marques (1999) lembra que é perigoso tratar a técnica clássica como base para se dançar, visto que se estrutura uma

hierarquia no mundo da dança, reforçando-se o eurocentrismo e o etnocentrismo em relação àquilo que pode ser considerado ‘boa dança’. [...] O ensino do balé como base traz consigo resquícios e marcas, valores e significados [...] representando (ou voltando a representar) um ideal fortemente enraizado de ensino, de corpo, de mulher e de Arte [...]. Um corpo preparado, treinado, concebido e modelado [...] (MARQUES, 1999, p. 67).

Em entrevista, a professora Nieves diz que a técnica do tango pode vir a ajudar pessoas que possuem mais dificuldade de se expressar pelo movimento. Porém, ela afirma que “se a pessoa já é sensual [...] ela pode fazer outras coisas e ser sensual também”.

Essas características técnicas e posturais da dança usadas em todas as suas ramificações vão muito além dessa arte. Isso nos remete a questões políticas e sociais que há séculos vêm, persistentemente, sendo introduzidas no formato de disciplinas em nossos corpos.

Os corpos jovens, esbeltos, longilíneos, altos, saudáveis e ativos de hoje são aqueles que há muito tempo encarnaram a retidão. A aparência externa tornou-se uma prega subjetiva mais profunda, que potencializa o sujeito a exterminar em si mesmo todo o tipo de desvio que o desalinhe física e moralmente (SOARES e FRAGA, 2003, p. 87).

Diante disso, fica clara a ideia de que a busca pela estética e culto ao corpo encontram-se presente nas práticas corporais em nossa sociedade e na dança a dois isso não é diferente.

Desde a antiguidade existem práticas sociais que estimulam as mulheres a demonstrar preocupação com a beleza e aparência física. Para Castro (2003), baseada nas ideias de Lipovetsky, na idade média as mulheres tinham como prioridade cuidar de sua aparência, e toda sua estética externa com o foco na sedução do masculino. Partindo deste ponto, nos deparamos com a construção da imagem feminina, que atualmente, é tema de uma grande mídia publicitária que encoraja o feminino a cuidar do seu corpo (RADNER, 1995).

Em nossas observações percebemos que as alunas com mais tempo de prática se sentem mais confortáveis em fazer adornos e enfeites durante a prática do tango, sem deixar de responder de forma eficaz à condução do cavalheiro. Isso acontece, pois elas já automatizaram muitos códigos corporais e respondem com antecipação aos estímulos dos cavalheiros, sobrando mais tempo para que elas completem com suas próprias variações, pés e pernas.

A professora Plebs também cita os adornos, que para Almeida e colaboradores (2007, p. 31) são “os arranjos da dança, diversificações que enfeitam os passos básicos do tango, deixando-os assim, mais graciosos”. Nossas bailarinas de tango participantes deste estudo revelam que, é possível praticar seus movimentos e adornos sem precisar do par. Apesar do tango ser dançado a dois, elas se sentem livres e a música provoca estímulos que se estendem em movimentos criativos. Outra vantagem, segundo elas, é a ausência da condução, pois sozinhas se torna possível criar sua própria dança.

Outro relato importante é o da professora Nieves, ela destaca as pessoas que parecem ter mais facilidade do que outras, que possuem uma “sensualidade natural²”.

A maioria das pessoas não apresenta essa facilidade, pois vivemos em uma sociedade que educa nossos corpos ao ócio, não nos deixando desenvolver uma consciência e expressão corporal, nos privando o movimento. Essas ideias já eram discutidas por Foucault (1977) que apontava o controle disciplinar como uma forma específica de educação do corpo.
CONCLUSÕES

Quando se realiza pesquisas a respeito da sensualidade, dentro de um senso comum, o resultado é a soma de vários materiais relacionados à pornografia e a vulgarização da imagem feminina, restando poucas opções de estudos acadêmicos tratando dessa temática. Dessa forma, sente-se a necessidade de realizar mais estudos que explorem a questão do ser humano sensual, de maneira séria e não preconceituosa, para que essa tendência vulgar sobre a temática seja modificada e trabalhada com mais “naturalidade” nos meios culturais, vindo a contribuir em vários aspectos psicossociais.

É possível perceber que a dança é uma forma de desmistificar estes preconceitos e possibilitar a descoberta de um trabalho que gere oportunidades para que cada um tenha uma vivência com mais liberdade da sua sensualidade.

Foi possível observar que o tango, na cidade de Curitiba, possui pequena difusão quando comparado a outras vertentes das danças de salão. Porém, estes praticantes são fãs convictas da modalidade e descrevem suas experiências com o tango com muito carinho e paixão.

Ao decorrer da discussão, vimos que a sensualidade do tango esta intimamente ligada com o seu passado histórico e que este o influenciou em suas características que refletem em sua estrutura do ponto de vista cultural. Elementos como o abraço, o figurino e as pernas entre outros tiveram grande destaque nos relatos das professoras e alunas participantes do estudo. Vimos também que o referencial teórico vai de acordo com estas características a respeito do tango enquanto manifestação cultural.

Diante do consenso das profissionais e nossas observações identificamos que a sensualidade está muito relacionada à técnica do tango que, por sua vez, está relacionada à técnica clássica. Porém, aos no depararmos com o referencial teórico podemos entender que a sensualidade deve ser estimulada de diferentes formas, não se limitando apenas às técnicas. Respeitar o tempo e a individualidade de cada aluno é fundamental, pensando em estratégias de aprendizagem que estimulem a sensualidade de forma criativa sem que haja uma padronização da sensualidade.

Além dos benefícios fisiológicos que a prática regular do tango nos trás, parece contribuir também para a melhora da autoestima, da autoimagem e do bem estar de seus adeptos, pois ela relaciona, também, fatores psíquicos, sociais, emocionais, motores e cognitivos.

Podemos concluir que as aulas de tango contribuem para o desenvolvimento do ser sensual, visto que estes fatores – autoestima, autoimagem e bem estar – estão associados à sensualidade.

Os dados empíricos nos demonstraram também que as profissionais tem certa dificuldade em falar a palavra “sensualidade” em suas aulas, recorrendo a um caminho indireto, tratando o ser sensual como um padrão pré-estabelecido construído e aceito socialmente, referindo-se aos papéis sociais ditos femininos: ser bela, ser graciosa, ser leve, entre outras. Porém, concluímos que restringir a sensualidade apenas as características citadas limita que outras formas de manifestação da sensualidade sejam expressas.

Finalizamos essa pesquisa com a ciência de que ela foi realizada por pesquisadores – homens – e, desta forma, a visão sobre a sensualidade feminina parte de um olhar masculino, podendo apresentar diferenças se vista por pesquisadoras.


Notas explicativas

1) Nessas festas tocam vários estilos de danças a dois. A origem do nome “Tum e Tum” vem dos primeiros passos de dança ensinados aos alunos e alunas de danças de salão, esta expressão remete ao ritmo do bolero por ser, geralmente, o primeiro estilo de dança trabalhado nas aulas regulares (nota dos autores).


2) Entendemos que o que está sendo nomeado como natural relaciona-se a uma série de fatores que constroem o que vem a ser uma pessoa. Neste sentido, por exemplo, a história de vida e as experiências de cada uma destas mulheres tem grande influência no que está sendo chamado de “sensualidade natural”.
Financiamento

Bolsa de apoio à execução de Trabalhos de Conclusão de Cursos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Campus Curitiba.


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