A soma de todos os medos circulo do livro ltda



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TOM CLANCY
A soma de todos os medos
CIRCULO DO LIVRO LTDA.

Caixa postal 7413

01065-970 São Paulo, Brasil

Edição integral

Copyright © 1991 Jack Ryan Enterprises, Ltd. © 1992 Tom Clancy

Título original: The Sum of All Fears

Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos

Capa: Murilo Martins

Obra licenciada para o Círculo do Livro Ltda. pela Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A.

Venda permitida apenas aos sócios do Círculo

Composição: Círculo do Livro Impressão e acabamento: Gráfica Círculo
ISBN 85-332-1082-5
2 4 6 8 10 9 7 5 3 1

98 00 99 97

Como sempre acontece, há pessoas a quem agradecer.
Russ, por suas aulas de física, penosamente pacientes (os erros são meus, não dele);
Barry, por suas percepções;

Steve, por sua orientação;

Ralph, por sua análise;

John, pelo aspecto jurídico;

Fred, pelo acesso;

Gerry, por sua amizade;


Muitos outros que ouviram minhas intermináveis perguntas e idéias — até as estúpidas;
E todos os homens de boa vontade que esperam, como eu, que se possa finalmente dobrar a esquina, e se mostraram dispostos a conversar a respeito.

Para Mike e Peggy Rodgers, um marujo e sua dama e todos os homens e mulheres das Forças Armadas dos Estados Unidos, porque as idéias mais nobres sempre foram protegidas por guerreiros.

"Ora, você pode pegar o mais bravo marujo, o mais intrépido aviador e o mais audacioso soldado, reunindo-os a uma mesa — o que você tem? A soma de seus medos."


Winston Churchill

"Os dois contendores se encontraram, com todas as suas tropas, no campo de Camlan, para negociar. Os dois lados estavam bem armados e desesperadamente desconfiados de que o outro lado tentaria algum estratagema. As negociações corriam de um modo favorável, até que um dos cavaleiros foi picado por uma áspide e sacou a espada para matá-la. Os outros viram a espada ser desembainhada, e no mesmo instante se atacaram. Seguiu-se uma terrível carnificina. A crônica... ressalta o ponto de que a carnificina foi excessiva, em grande parte porque a batalha ocorreu sem preparativos e premeditação."


Herman Kahn, On Thermonuclear War

Prólogo


A flecha quebrada

"Como o lobo no redil." Ao relatar o ataque sírio às colinas de Golan, ocupadas pelos israelenses, às quatorze horas, horário local, do sábado 6 de outubro de 1973, a maioria dos comentaristas recordou automaticamente a famosa frase de Lorde Byron. Também não há muita dúvida de que é justamente o que os comandantes sírios de propensões mais literárias tinham em mente quando deram os retoques finais nos planos das operações que lançariam mais tanques e canhões contra os israelenses do que qualquer dos glorificados generais panzer de Hitler jamais sequer sonhou ter à sua disposição.

Contudo, as ovelhas encontradas pelo exército sírio, naquele sombrio dia de outubro, eram mais parecidas com carneiros de enormes chifres no cio do outono do que com o tipo dócil que aparece nos versos pastorais. Em inferioridade numérica, mais ou menos na base de nove para um, as duas brigadas israelenses em Golan eram unidades de elite. A T Brigada manteve o norte de Golan e mal se mexeu, sua rede defensiva um delicado equilíbrio de rigidez e flexibilidade. Os baluartes individuais foram defendidos com a maior obstinação, canalizando as infiltrações sírias para os desfiladeiros rochosos, onde as tropas inimigas poderiam ser isoladas e esmagadas pelos blindados israelenses, que se mantinham à espera por trás da Linha Púrpura. Quando os reforços começaram a chegar, no segundo dia, a situação ainda continuava sob controle... mas por pouco. Ao final do quarto dia, o exército de tanques sírio que atacara a 7ª Brigada se transformara em ruínas fumegantes.

A Brigada Barak ("Raio") defendia as colinas meridionais e foi menos afortunada. Ali, o terreno era menos apropriado à defesa, e ali também os sírios parecem ter sido comandados com mais competência. Em algumas horas, a Barak foi rompida em diversos fragmentos. Embora cada fragmento provasse mais tarde ser tão perigoso quanto um ninho de víboras, as vanguardas sírias apressaram-se em aproveitar as aberturas e partiram em disparada para seu objetivo estratégico, o mar da Galiléia. A situação que se desenvolveu durante as trinta e seis horas seguintes foi o mais difícil teste das forças israelenses desde 1948.

Os reforços começaram a chegar no segundo dia. Tiveram de ser lançados na área de combate fragmentados — tapando buracos, bloqueando estradas, e até mesmo concentrando unidades que haviam se dispersado sob a pressão desesperada da batalha, fugindo diante do avanço árabe, o que acontecia pela primeira vez na história israelense. Só no terceiro dia é que os israelenses conseguiram concentrar seu punho blindado, primeiro envolvendo, e depois liquidando as três penetrações profundas dos sírios. Seguiu-se sem pausa a mudança para operações ofensivas. Os sírios foram rechaçados de volta à sua capital, por um violento contra-ataque, deixando para trás um campo coalhado de tanques incendiados e cadáveres dilacerados. Ao final desses dias, os soldados da Barak e da 7'' ouviram pela rede de rádio de suas unidades uma mensagem do alto comando das Forças de Defesa de Israel: Vocês salvaram o povo de Israel.

E foi de fato o que aconteceu. Contudo, fora de Israel, exceto nas escolas em que os homens aprendem a profissão das armas, essa batalha épica foi estranhamente esquecida. Como na Guerra dos Seis Dias, em 1967, foram as operações mais desenvoltas no Sinai que atraíram o excitamento e admiração do mundo: a travessia de Suez, a Batalha da Fazenda "Chinesa", o cerco do 3" Exército egípcio — e isso apesar das terríveis implicações da luta em Golan, um lugar muito mais próximo do território israelense. Ainda assim, os sobreviventes dessas duas brigadas sabiam o que haviam feito, e seus oficiais podiam se satisfazer com o conhecimento de que, entre os soldados profissionais, que sabem da extensão de competência e coragem que uma resistência assim exige, sua Batalha das Colinas seria lembrada junto com as Termópilas, Bastogne e Gloucester Hill.

Cada guerra tem muitas ironias, no entanto, e a Guerra de Outubro não foi exceção. Como costuma acontecer com as mais gloriosas batalhas defensivas, aquela foi em grande parte desnecessária. Os israelenses haviam interpretado de forma errônea os relatórios dos serviços secretos; se tivessem agido de acordo com as informações apenas doze horas antes, poderiam executar os planos existentes e transferir reforços para as colinas de Golan, horas antes do início da ofensiva. Se isso acontecesse, não haveria nenhuma resistência heróica. Não haveria necessidade de que os soldados que guarneciam seus tanques e os homens da infantaria morressem em tão grande quantidade que se passariam semanas antes que os verdadeiros dados das baixas fossem liberados para uma nação orgulhosa, mas tristemente ferida. Se houvesse uma ação em decorrência das informações, os sírios seriam massacrados antes da Linha Púrpura, apesar de sua espetacular concentração de tanques e canhões... e há pouca glória no massacre. Esse fracasso do serviço secreto nunca foi explicado de modo adequado. O lendário Mossad fracassou totalmente, ao não perceber os planos dos árabes? Ou os líderes políticos israelenses não deram atenção aos avisos que receberam? Essas indagações foram formuladas na imprensa internacional, como não podia deixar de ser, mais particularmente em relação à ofensiva do Egito, com a travessia de Suez, que rompeu a gabada Linha Bar-Lev.

Igualmente grave, só que menos reconhecido, foi um erro mais fundamental, cometido anos antes pelo estado-maior israelense, quase sempre previdente. Apesar de todo o seu poder de fogo, o exército israelense não era fortemente equipado com artilharia de tubo, em particular pelos padrões soviéticos. Em vez de uma grande concentração de canhões de campanha móveis, os israelenses preferiram se basear num grande número de morteiros de curto alcance e no ataque aéreo. Isso deixou os artilheiros israelenses em Golan numa inferioridade de doze para um, sujeitos ao fogo implacável das baterias inimigas, e incapazes de proporcionar um apoio apropriado aos defensores assediados. Esse erro custou muitas vidas.

Como ocorre com a maioria dos erros graves, este foi cometido pelos homens dos serviços secretos, pelos melhores motivos. O mesmo caça de ataque que entrava em ação em Golan podia despejar aço e morte sobre Suez apenas uma hora depois. A FAI foi a primeira força aérea moderna a dispensar uma atenção sistemática ao "tempo de retorno". As equipes de terra estavam treinadas para agirem com a mesma rapidez dos mecânicos de carros de corrida num pit stop, e sua velocidade e eficiência dobravam o poder de ataque de cada avião, convertendo a FAI num instrumento extremamente flexível e contundente. E fazer um Phantom ou Skyhawk voar o dobro de vezes parecia ser mais valioso do que uma dúzia de canhões de campanha móveis.

Mas os planejadores israelenses não levaram em plena consideração que eram os soviéticos que armavam os árabes, e assim incutiriam nos clientes suas filosofias táticas. Empenhados em enfrentar o poder aéreo da Otan, que sempre pareceu melhor do que o seu, os projetistas dos mísseis soviéticos terra-ar (SAM) sempre figuraram entre os melhores do mundo. Os planejadores russos encararam a Guerra de Outubro como uma esplêndida oportunidade de testar suas mais novas armas e doutrinas táticas. Não a desprezaram. Os soviéticos deram a seus clientes árabes uma rede de SAM como as forças norte-vietnamitas ou do Pacto de Varsóvia nem se atreviam a sonhar na ocasião, uma barreira quase ininterrupta de baterias de mísseis e sistemas de radar interligados, disposta em profundidade, além dos novos SAMs móveis, que podiam avançar com as vanguardas blindadas, ampliando a "bolha" da proteção antiaérea, sob a qual a ação em terra poderia prosseguir sem interferências. Os oficiais e soldados que deveriam operar esses sistemas haviam sido treinados de forma meticulosa, muitos na própria União Soviética, com o total benefício de tudo o que os soviéticos e vietnamitas aprenderam das táticas e tecnologias americanas, que os israelenses esperavam corretamente imitar. Entre todos os soldados árabes na Guerra de Outubro, apenas esses realizariam seus objetivos fixados antes do combate. Durante dois dias, eles neutralizaram de maneira eficaz a FAI. Se as operações em terra transcorressem de acordo com os planos, isso seria suficiente.

E é nesse ponto que a história tem seu início apropriado. A situação nas colinas de Golan foi imediatamente avaliada como grave. As informações escassas e confusas provenientes das duas brigadas atordoadas levaram o alto comando israelense a acreditar que se perdera o controle tático da ação. Parecia que.o maior pesadelo acabara ocorrendo: haviam sido apanhados fatalmente despreparados; os kibbutzim do norte eram vulneráveis; os civis, seus filhos, se encontravam no caminho de uma força blindada síria, que poderia descer das colinas de um momento para outro. A reação inicial dos oficiais de operações do estado-maior foi bem próxima do pânico.

Mas o pânico é algo para o qual os bons oficiais de operações também planejam. No caso de uma nação cujos inimigos tinham o objetivo declarado de promover sua aniquilação física, não havia medida defensiva que pudesse ser considerada extrema. Já em 1968, os israelenses, como seus equivalentes americanos e na Otan, baseavam seu plano final na opção nuclear. As três horas e cinqüenta e cinco minutos, horário local, no dia 7 de outubro, apenas quatorze horas depois do início dos combates, as ordens de alerta para a Operação Josué foram transmitidas por telex à base da FAI nos arredores de Beersheba.

Israel não tinha muitas armas nucleares na ocasião... e nega ter qualquer uma até hoje. Não que fossem necessárias muitas, se a situação chegasse a esse ponto. Em Beersheba, num dos incontáveis depósitos subterrâneos de bombas, havia doze objetos de aparência comum, que não podiam ser distinguidos dos muitos outros itens destinados ao uso da aviação tática, exceto pelas etiquetas em listras prateadas e vermelhas nos lados. Não tinham barbatanas, não havia nada de excepcional no formato aerodinâmico do exterior de alumínio marrom, com algumas juntas quase imperceptíveis e uns poucos elos. Havia um motivo para isso. Para um observador destreinado ou superficial, poderiam passar facilmente por tanques de combustível ou tubos de napalm, e tais objetos quase nunca merecem um segundo olhar. Mas cada um daqueles objetos era uma bomba de fissão de plutônio, com uma carga nominal de sessenta quilotons, mais do que suficiente para abrir uma cratera no coração de uma grande cidade, ou matar milhares de soldados no campo, ou até mesmo, com o acréscimo de invólucros de cobalto — guardados em separado, mas podendo ser acrescentados â fuselagem de um momento para outro — envenenar uma área para todos os tipos de vida por muitos e muitos anos.

Naquela manhã, a atividade em Beersheba foi frenética. O pessoal da reserva ainda chegava à base, das devoções do dia anterior e de visitas à família por todo o pequeno país. Os homens de serviço se encontravam no plantão há tempo demais para o perigoso trabalho de equipar os aviões com o armamento letal. Até os homens recém-chegados haviam dormido muito pouco. Uma equipe de homens do serviço de material bélico, por razões de segurança não informada da natureza de sua missão, estava equipando uma esquadrilha de caças de ataque Skyhawk A-4 com armas nucleares, sob os olhos de dois oficiais, conhecidos como "vigilantes", pois essa era sua função, manter uma vigilância visual de tudo o que se relacionava com armas nucleares. As bombas foram transportadas em carrinhos para baixo de cada um dos quatro aviões, levantadas com todo cuidado por um guincho, depois presas por correntes no lugar apropriado. Os homens menos exaustos da equipe de terra poderiam ter notado que os artefatos de detonação e as barbatanas ainda não haviam sido instalados nas bombas. Se isso aconteceu, eles sem dúvida concluíram que o oficial designado para a tarefa estava atrasado... como acontecia com quase tudo naquela manhã fria e fatídica. O nariz de cada arma era ocupado por equipamento eletrônico. O mecanismo -de detonação e a cápsula de material nuclear — conhecidos coletivamente como "o pacote da física" — já se encontravam nas bombas, é claro. As armas israelenses, ao contrário das americanas, não eram projetadas para serem transportadas por aviões em estado de alerta em tempo de paz. Também careciam das sofisticadas salvaguardas instaladas nas armas americanas pelos técnicos na fábrica de montagem da Pantex, nos arredores da cidade de Amarillo, Texas. Os sistemas de detonação estavam contidos em dois blocos, um para ser preso no nariz, outro embutido nas barbatanas. Eram guardados separados das bombas. Em tudo e por tudo, eram armas bem pouco sofisticadas pelos padrões americanos ou soviéticos, no mesmo sentido em que uma pistola é muito menos sofisticada do que uma metralhadora, mas se torna igualmente letal a curta distância.

Depois que os blocos do nariz e barbatana eram instalados e ativados, o único procedimento de ativação restante era a instalação de um painel especial na carlinga de cada caça, e a fixação do plugue de energia do avião para a bomba. A esta altura, a bomba seria "liberada para controle local", entregue aos cuidados de um jovem e agressivo piloto, cuja missão era então elevar-se numa manobra conhecida como "O Loop do Idiota", lançando a bomba num curso balístico que provavelmente lhe permitiria e a seu avião escapar ilesos, quando a bomba detonasse.

Dependendo das exigências do momento e da autorização dos "vigilantes", o chefe do material bélico da base de Beersheba tinha a opção de instalar logo os artefatos de detonação. Felizmente, esse oficial não se sentia atraído pela perspectiva de ter nukes meio vivas numa linha de vôo, que algum árabe afortunado poderia atacar a qualquer momento. Um homem religioso, apesar de todos os perigos com que seu país se defrontava naquela madrugada fria, ele murmurou uma prece silenciosa de agradecimento, quando as cabeças mais frias prevaleceram em Tel Aviv, e deram a ordem para que Josué fosse suspensa. Os veteranos pilotos que voariam na missão de ataque voltaram à sala de instruções de sua esquadrilha, e esqueceram as instruções recebidas. O oficial no comando do material bélico ordenou imediatamente que as bombas fossem removidas e levadas de volta ao depósito.

A equipe de terra, exausta, começou a remover as armas, no momento em que outras equipes chegavam à pista, trazendo foguetes Zuni, com a missão de rearmar os Skyhawk. A ordem de ataque já fora transmitida: Golan. Atacar as colunas blindadas sírias que avançavam para o setor da Barak da Linha Púrpura, procedentes de Kafr Shams. Os homens se espremeram por baixo de cada avião, duas equipes ao mesmo tempo, cada uma tentando fazer o seu trabalho, a primeira empenhada em remover bombas que nem sabiam que eram bombas, enquanto a outra pendurava os Zunis nas asas.

Havia mais do que quatro aviões de ataque sendo preparados em Beersheba, é claro. A primeira missão sobre Suez, lançada no início da madrugada, retornava naquele instante... o que restava dela. O avião de reconhecimento

Phantom RF-4C se perdera, e seu caça de escolta F-4E voltou com um vazamento de combustível, de perfurações nos tanques, nas asas, e um dos dois motores parado. O piloto já transmitira o aviso pelo rádio: havia algum novo tipo de míssil terra-ar, talvez o novo SA-6; seus sistemas de rastreamento de radar não haviam se registrado no receptor de ameaças do Phantom; o aparelho de reconhecimento não tivera qualquer sinal de alerta; e apenas a sorte lhe permitira escapar aos quatro mísseis lançados contra seu avião. Esse fato foi prontamente comunicado ao alto comando da FAI, antes mesmo que o avião pousasse na pista, com a maior cautela. O piloto recebeu a ordem de taxiar até a extremidade da rampa, perto do lugar em que se encontravam os Skyhawks. Acompanhou o jipe, na direção dos caminhões dos bombeiros à espera. No momento em que parou, porém, o pneu principal estourou. A longarina danificada vergou, e vinte toneladas de caça arriaram na pista, como pratos de uma mesa desabada. O combustível vazando se incendiou, e um fogo pequeno mas mortífero envolveu o aparelho. Um instante depois, a munição de 20 mm do canhão do caça começou a explodir, e um dos dois tripulantes berrava dentro da massa de chamas. Os bombeiros entraram em ação. Os dois oficiais "vigilantes" eram os mais próximos, e correram para as chamas, a fim de tentarem salvar o piloto. Todos os três foram atingidos por fragmentos da munição explodindo, enquanto um bombeiro avançava friamente pelas chamas para o segundo tripulante, conseguindo retirá-lo, chamuscado mas vivo. Outros bombeiros pegaram os "vigilantes" e o piloto, levando seus corpos ensangüentados para uma ambulância.

O fogo próximo distraiu a atenção dos homens do material bélico sob os Skyhawks. Uma bomba, a que estava no aparelho número três, caiu um momento antes do previsto, esmagando as pernas do supervisor da equipe no guincho. Em meio à confusão e gritos, a equipe perdeu a noção do que estava sendo feito. O ferido foi levado às pressas para o hospital da base, enquanto as três armas nucleares desmontadas eram carregadas em seus carrinhos de volta ao depósito... e no caos de uma base aérea no primeiro dia de uma guerra total passou despercebido que o berço de um dos carrinhos estava vazio. Os chefes da linha de vôo chegaram um momento depois, a fim de iniciarem a checagem abreviada para a decolagem, logo seguidos pelo jipe que vinha do galpão de instruções. Quatro pilotos saltaram do jipe, cada um trazendo o capacete numa das mãos e um mapa tático na outra, cada um ansioso em atacar o mais depressa possível os inimigos de seu país.

— Mas o que é isso? — gritou o tenente Mordecai Zadin, de dezoito anos, chamado de Motti pelos amigos, alto e magro, com a falta de jeito típica de sua idade.

— Tanque cheio, ao que parece — respondeu o chefe da linha. Era um reservista que possuía uma oficina mecânica em Haifa, um homem gentil e competente, de cinqüenta anos.

— Mas que merda! — exclamou o piloto, quase tremendo de excitamento. — Não preciso de um tanque extra para ir a Golan e voltar!

— Posso tirá-lo, mas precisarei de alguns minutos.

Motti avaliou a situação por um momento. Um sabra de um kibbutz do norte, piloto há apenas cinco meses, ele via o resto de seus companheiros se acomodando nos aviões. Os sírios atacavam na direção da casa de seus pais, e ele experimentou um súbito horror diante da possibilidade de ficar para trás naquela primeira missão de combate.

— Que se foda! — berrou ele. — Pode tirar quando eu voltar!

Zadin subiu a escada como um raio. O chefe seguiu-o, ajustou as correias no piloto, verificou os instrumentos, por cima de seu ombro.

— Está pronto, Motti. Tome cuidado.

— Tenha um chá preparado quando eu voltar.

O jovem sorriu, com toda a ferocidade que uma criança pode demonstrar. O chefe da linha bateu com a mão em seu capacete.

— Só quero que traga meu avião de volta, menchkin. Mazeltov.

O chefe desceu para a pista e removeu a escada. Fez uma última verificação visual do aparelho, à procura de qualquer coisa errada, enquanto o piloto ligava o motor. Zadin acionou os controles de vôo, deixou o manete em ponto morto, enquanto checava os indicadores de gasolina e temperatura do motor. Tudo estava como deveria. Ele olhou para o líder do vôo e acenou com a mão, para indicar que se achava pronto. Puxou a coberta manual, lançou um último olhar para o chefe da linha, fez uma saudação de despedida.

Aos dezoito anos, Zadin não era um piloto particularmente jovem, pelos padrões da FAI. Selecionado por suas reações rápidas e agressividade de garoto, fora identificado como um provável candidato quatro anos antes, e se empenhara ao máximo para conquistar seu lugar na melhor força aérea do mundo. Motti adorava voar, queria ser piloto desde que era pequeno e vira um avião de treinamento Bf-109, que um destino irônico dera a Israel para iniciar sua força aérea. E amava seu Skyhawk. Era um avião de piloto. Não um monstro eletrônico como o Phantom, o A-4 era uma ave de rapina, pequeno e reagindo prontamente a seus comandos no manche. Agora, voaria numa missão de combate. Não sentia o menor medo. Nunca lhe ocorrera temer por sua vida — como qualquer adolescente, tinha certeza de sua imortalidade, e os aviadores de combate são escolhidos pela ausência de fragilidade humana. Contudo, ele destacava aquele dia. Nunca vira uma aurora tão bonita. Sentia-se excepcionalmente alerta, consciente de tudo: o café forte e saboroso na hora de acordar; o cheiro de poeira no ar matutino em Beersheba; agora os cheiros de óleo e couro na carlinga; a estática nos circuitos de seu rádio; e o comichar das mãos nos controles. Jamais conhecera um dia assim, e nunca ocorreu a Motti Zadin que o destino não lhe daria outro.

A formação de quatro aviões taxiou em perfeita ordem para o fim da pista zero-um. Parecia um bom presságio, decolar para o norte, na direção de um inimigo que se encontrava a apenas quinze minutos de distância. Ao comando do líder do vôo — ele próprio tinha apenas vinte e um anos — todos os quatro pilotos pararam seus aviões, soltaram os freios, e depois arremeteram pelo ar frio e sereno da manhã. Em poucos segundos, todos haviam decolado, subiram para mil e quinhentos metros, tomando o cuidado de evitar o tráfego aéreo civil do aeroporto internacional Ben-Gurion, que no louco esquema das coisas no Oriente Médio ainda permanecia em plena atividade.

O capitão deu as ordens lacônicas habituais, como se fosse um vôo de treinamento: verificar motor, material bélico, sistemas elétricos. Os quinze minutos para se voar de Beersheba a Golan passaram depressa. Os olhos de Zadin se contraíram no esforço para avistar a escarpa vulcânica pela qual seu irmão mais velho morrera, ao tentar tomá-la dos sírios, apenas seis anos antes. Os sírios não a tomariam de volta, disse Motti a si mesmo.



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