A terra dos livres e o lar dos bravos



Baixar 47.16 Kb.
Encontro19.07.2018
Tamanho47.16 Kb.

"A TERRA DOS LIVRES E O LAR DOS BRAVOS"

PROMESSAS DE UM MUNDO MARAVILHOSO E RECONSTRUÇÃO SIMBÓLICA DOS ESTADOS UNIDOS NA OBRA 1602 DE NEIL GAIMAN
Lúcio De Franciscis dos Reis Piedade Filho

Universidade Federal de Juiz de Fora



luciusrp@yahoo.com.br

Introdução
Em consonância com as noções de liberdade e suas representações, o presente trabalho objetiva entender a reconstrução simbólica dos Estados Unidos na minissérie 1602, lançada entre 2003 e 2004, resultado da parceria entre a Marvel Comics, editora norte-americana de quadrinhos, e o escritor inglês Neil Gaiman. Segundo o historiador e crítico literário Peter Sanderson, em prefácio a 1602, a obra fala superficialmente sobre a Grã-Bretanha do século dezessete, pois na realidade é uma obra notável sobre os Estados Unidos e o agora. Além disso, Gaiman teria engendrado uma saga de riqueza temática inesperada ao propor à Marvel uma inovação no que se refere à cronologia do enredo. Pretendendo fazer uso do maior número possível de personagens do universo ficcional da editora, Gaiman indagou-se sobre como a trama transcorreria se os mesmos assumissem os seus poderes no período elisabetano.

Dessa maneira, o argumento foi construído utilizando como pano de fundo o início do século dezessete. A narrativa, situada na Inglaterra em fins do reinado de Elisabeth I, explorou as primeiras migrações de protestantes ingleses para a América, o que se considera o marco de fundação dos Estados Unidos. O pano de fundo seiscentista escolhido por Gaiman despertou muita curiosidade. Mas a chave para a ambientação da trama parte de acontecimentos da história recente, do início do nosso próprio século.

A conjuntura política em que Gaiman se inseria ao escrever “1602” era marcada pelo período de incertezas nascido dos atentados terroristas do onze de setembro de 2001, em Nova Iorque, que abalaram estruturalmente os Estados Unidos. O ato de refundar a nação, em uma pluralidade de manifestações culturais que incluem literatura e arte sequencial, tem se mostrado uma necessidade advinda de momentos de tensão e de profundo abalo estrutural dos Estados Unidos. Nesse sentido, o onze de setembro serviu de inspiração para que o autor viesse a recuperar, através de parábola rica em fabulações simbólicas, os valores tradicionais da sociedade estadunidense que pareciam reduzir-se ao pó. Pretende-se abordar as múltiplas temporalidades nas quais a trama se desenrola e as mitologias norte-americanas existentes, e constantemente reforçadas, desde o período colonial.
Recurso à História
Na virada do século vinte e um, a Marvel Comics ensaiou significativas alterações em seu perfil editorial. O surgimento de novas editoras, aliado a resultados comerciais negativos, colocou uma das casas mais tradicionais no ramo dos quadrinhos diante do desafio de imprimir uma modernização em sua linha de revistas. Joe Quesada, editor-chefe da Marvel, acreditava que a editora poderia reformular completamente seu perfil editorial se conseguisse agregar aos seus quadros alguns dos nomes mais reconhecidos dos meios independentes. Dessa maneira, foi através da criação da Marvel and Miracles que a cúpula da editora identificou a oportunidade de contatar Neil Gaiman. O escritor inglês, de reputação já consolidada, seria responsável pela incomum abordagem seiscentista do universo Marvel anos mais tarde.

Mas por que o autor de 1602 recorreu à História para ambientar a sua trama? Por que o retorno ao passado? Em primeiro lugar, Carlos Eduardo Sarmento aponta como principais fatores os condicionantes sociais da atualidade que Gaiman vivenciava. Ao estabelecer contato com Joe Quesada, o escritor inglês associava diretamente o noticiário da época à formulação da premissa básica do enredo que desenvolveria. Segundo o próprio Gaiman, a idéia para a história surgiu, em parte, porque ele a estava esboçando em um período imediatamente subseqüente ao onze de setembro. Portanto, os atentados terroristas em Nova Iorque serviram como referências para a formulação das premissas narrativas de 1602.

Tão logo as viagens aéreas foram retomadas, após a paralisação dos aeroportos que seguiu os atentados, o escritor participava de um evento de Quadrinhos e Ficção Científica em Trieste, no norte da Itália. Naquele momento, conseguiu passar um dia a sós em Veneza, apenas para sentar e planejar o que iria desenvolver para a Marvel. Devido ao seu estado de espírito na época, decidiu que o projeto não incluiria arranha-céus, bombas ou aviões. Na edição encadernada de 1602, o autor declarou que
Então aconteceu o onze de setembro, e embora eu não soubesse o que queria fazer, rapidamente descobri o que não queria. Nenhum avião. Nenhum arranha-céu. Nenhuma bomba. Nenhuma arma. Eu não queria que fosse uma história de guerras, nem escrever uma história em que o poder fosse algo decisivo – ou em que o poder fosse capaz de fazer qualquer coisa (GAIMAN, 2007).
Em segundo, por mais que Neil Gaiman e a Marvel desejassem transmitir a idéia de que a parceria representava um novo patamar no modelo de produção, fica evidente que a “marca” Gaiman estava sendo comprada pela editora, que a operava em conformidade com seus interesses empresariais. Por mais que relutasse diante da idéia de ter que desenvolver um enredo baseado em um amplo grupo de personagens com características fixas, rígidas e sacralizadas, o roteirista inglês não transgrediu a orientação editorial e desenvolveu, para 1602, um enredo em que as diretrizes da contratante foram integralmente respeitadas (SARMENTO, 2007, 10-1).

Ao inaugurar a revolução da Marvel em 1960, Stan Lee perguntou-se como seriam os super-heróis se eles existissem no mundo real. Na virada do século a indagação de Lee foi retomada e a Marvel continuou a perseguir esse questionamento. Enfim, passou a ocorrer uma interpenetração das narrativas da editora com eventos do mundo real. No mesmo ano dos ataques terroristas, por exemplo, o onze de setembro foi rememorado em história especial do Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man # 36). Escrita por J. Michael Straczynsky e ilustrada por John Romita Jr., a narrativa leva o protagonista da revista, ao lado de inúmeros outros personagens, às ruínas do World Trade Center. Em estado de choque, os super-heróis ajudam a remover os entulhos e percebem que nem mesmo eles podem salvar a todos.

Além dessa história especial, a Marvel dedicou outro álbum ao onze de setembro. Heroes (2001) teve como objetivo prestar tributo ao heroísmo de bombeiros e policiais mortos e surgiu como resultado da união de escritores e artistas de quadrinhos. Nele, uma figura colossal do Capitão América, símbolo do patriotismo norte-americano, ergue-se sobre o fumegante cenário do Ground Zero.

Sarmento sugere que muitas das formulações de Gaiman para a publicação apresentam íntimo enraizamento com os temas levantados pelo debate em torno dos ataques em solo americano, considerando suas implicações e conseqüências. Ao recorrer à História, Gaiman assume a posição do autor que deseja distanciar-se dos referenciais contemporâneos. Dessa forma, sua negação a lugares-comuns tecnológicos do universo Marvel, como bombas e aviões, o inclinaria a formular um enredo no qual a estratégia discursiva do deslocamento temporal o blindaria em relação a esses símbolos. “No entanto, por mais que Gaiman insista em tratar de um ‘outro mundo em um outro tempo’, sua narrativa enlaça os eixos referenciais da América maculada pelo impacto das explosões em Washington e Nova Iorque” (SARMENTO, 2007, p. 11).

[...] O roteirista defende que os atentados terroristas de onze de setembro de 2001 tiveram efeito direto sobre suas opções. Identificamos, através das próprias declarações de Gaiman, que a influência da ressonância dos atentados implicou a escolha por uma ambientação da trama em uma era histórica na qual aeronaves, explosões e grandes edifícios não poderiam fazer parte do enredo (SARMENTO, 2007, p. 23).

Sarmento continua a sua argumentação, atentando para outro ponto: o processo criativo de Gaiman não se limitou a uma chave simplista. A princípio, expurgar a conjuntura do século vinte e um representaria um distanciamento em relação às questões e dilemas suscitados pelos atos de violência em solo estadunidense. Mas o que se observa não é um desejo do autor em afastar-se dessas questões que, no ano de 2001, passaram a ser atreladas ao conceito de América. Pelo contrário, Gaiman busca obstinadamente trazê-las para seu campo ficcional de maneira a poder reformulá-las, retrabalhá-las e reconstruí-las. Nesse sentido, 1602 serviu de objeto para o restabelecimento dos símbolos e das mitologias básicas associadas à América.

No intuito de recompor alguns dos sentidos que julgava perdidos, Neil Gaiman empenhou-se na reconstrução simbólica do ideal democrático de América livre, cuja decomposição fora catalisada pelo cenário de conflagração do onze de setembro.

Situar o enredo da obra no século dezessete também possibilitou reconstruir a mitologia fundadora dos Estados Unidos, pela qual os vetores de liberdade, democracia e extraordinário puderam ser combinados de maneira a reconfigurar o imaginário acerca da América. “Desta maneira, na confluência destes eixos, Gaiman opera para que, diante de uma conjuntura marcada por incertezas e inconstâncias, a simbologia da América possa traduzir um ideal utópico de sociedade” (SARMENTO, 2007, p. 30).

Este exercício ficcional e de simbolização da definição de um modelo compatível ao conceito de América tem suas motivações associadas à experiência pessoal do autor em seu próprio campo referencial. Neil Gaiman insiste em traçar a origem da idéia da obra aos atentados de onze de setembro. Logo, sua obstinada busca por uma América, que parece se dissolver ante seus olhos, pode ser pensada como reação aos novos condicionantes sociais, políticos e ideológicos que emergiram da nuvem de pó que soterrou o Ground Zero (SARMENTO, 2007, p. 28-9).
Na perspectiva de Carlos Eduardo Sarmento, 1602 pode ser visto como uma tentativa de conciliação entre interesses mercadológicos. O autor atenta também para a preocupação em desenvolver temáticas caras com relação à produção e ao meio social e cultural em que o escritor momentaneamente se inseria.

Entretanto, deve-se tomar cuidado com essa óptica. A escolha de Gaiman por ambientar a sua narrativa no século dezessete não pode ser restringida apenas a um mero jogo de interesses mercadológicos. As motivações que o levaram a formular 1602 estão diretamente ligadas ao lugar social de produção da obra. A obstinada reconstrução da América-símbolo, que se ergue de forma tênue e gradativa, estaria associada, finalmente, ao possível sentimento de perda dos cânones da simbologia e dos valores tradicionais da sociedade norte-americana.


A Reconstrução Simbólica dos Estados Unidos
Sabe-se que as histórias em quadrinhos não podem ser afastadas do tempo em que foram escritas ainda que intencionem representar épocas passadas. Reafirma-se que, em 1602, Neil Gaiman utilizou-se de ambientação seiscentista no intuito de recuperar os valores tradicionais que os Estados Unidos pareciam perder no início do século vinte e um, em virtude dos atentados terroristas do onze de setembro.

Em primeiro lugar, Gaiman buscou restaurar o conceito de terra da liberdade, presente desde a fundação das colônias inglesas na América do Norte. Era segundo esse ideal que se efetivava, como discurso, tudo o que não podia ser expresso pelo rígido cânone das monarquias absolutistas cristãs. No Novo Mundo, portanto, se manifestariam as potencialidades reprimidas no Velho Continente, uma vez que a América, entendida como espaço extraordinário das maravilhas, também se caracterizava enquanto campo do ilimitado, do incontido e da liberdade. Sarmento indica os exemplos desse discurso presentes na obra de Gaiman.

No início do século XVII, os protestantes ingleses se voltam para o Novo Mundo em busca da possibilidade de livre exercício de culto. Na ficção de Gaiman, é na América que o personagem Stephen Strange retorna da morte para orientar seus aliados após ter sido condenado e executado na Inglaterra de James I. Nesse mesmo espaço, a expectativa da liberdade leva Donal, ancião anacoreta guardião da tradição templária, a admitir a hipótese de assumir definitivamente o avatar de uma divindade nórdica (de um deus antes temido em função da rigorosa obediência aos princípios cristãos que consideram a manifestação de uma entidade pagã como um evento anômalo ao modelo de representação cosmológica da religião). Em outras palavras,
Ao constituir o referencial do Novo Mundo como o de um campo no qual se manifestavam fenômenos que escapavam aos modelos cognitivos europeus, o roteirista direciona todos os elementos possivelmente “desviantes” em relação ao padrão hegemônico para a vivência do “maravilhoso” nas terras de além-mar. Desta maneira, os personagens que reproduzem os parâmetros referenciais do cânone Marvel, só vem a assumir plenamente seus poderes através da travessia do “Mar Oceano”. Desta maneira, os quatro aventureiros perseguidos pelo Conde Otto von Doom se tornam seres de poderes extraordinários, a bordo da nau “Fantásticko”. O efeito fênix [...] associado a um dos pupilos de Javier, terá lugar ao se aproximarem do Novo Mundo. [...] em terras americanas, David Banner assume as feições do Hulk, o ancião Donal empunha o martelo asgardiano e é revestido do poder de Thor e Peter Parquagh sofre a icônica picada de um estranho aracnídeo que, como sabemos pelo modelo tradicional dos quadrinhos da editora, o transformará em um ser de habilidades incomuns (SARMENTO, 2007, p. 25-6).
O crítico e historiador Peter Sanderson explica que o método adotado pela Marvel para revolucionar o gênero dos super-heróis foi apresentá-los como renegados e até proscritos. A mesma premissa é utilizada por Gaiman em 1602. Os heróis da obra migram para a América para fundar uma nação livre de monarcas, na qual fugitivos da opressão política, religiosa e racial poderiam reiniciar suas vidas. Uma nação em que todos, não importando as suas diferenças, ainda que mutantes e monstros, teriam chance de viver em paz e com prosperidade. Com isso, o texto de Gaiman liga o sonho do Professor Charles Xavier (líder dos X-Men) ao dos fundadores dos Estados Unidos. De acordo com o prefácio de 1602, considerando os super-heróis ícones da liberdade individual, “uma comunidade de super-heróis se torna uma metáfora da própria democracia” (GAIMAN, 2007). Essa ideia será desenvolvida adiante.

Em alguns casos, a representação seiscentista dos personagens só reproduz os elementos referenciais que os especificam na cronologia regular da Marvel após a travessia do “Mar Oceano”. Os quatro tripulantes da nau Fantastick, por exemplo, apenas se tornam seres de habilidades especiais após penetrarem em uma cortina de luz incomum no mar dos Sargaços. Além disso, é em terras americanas que David Banner assume as feições do Hulk e Peter Parquagh sofre a icônica picada do aracnídeo que, como se sabe pelo modelo tradicional da editora, o atribuirá de poderes incomuns. Já o “efeito fênix”, surpreendente manifestação sobrenatural associada a um dos sanguebruxos (classe de seres de poderes especiais), também terá lugar no momento em que os heróis se aproximam da costa do Novo Mundo.

Dentro do conceito de liberdade, o “efeito fênix” surge no texto como metáfora e constitui um ponto importante. Na página dezessete do tomo VII de 1602, o corpo da falecida Jean Grey é lançado aos céus por John Storm. Os sanguebruxos e os demais tripulantes do navio com destino à América, em estado de profunda melancolia, observam a jovem em queda. Com uma poderosa rajada óptica que lhe escapa dos olhos lacrimosos, Somerisle alveja o corpo da sua amada e o incendeia. Instantaneamente, Jean fumegou e brilhou, e irrompeu em luz e ardeu com força impressionante. Foi o suficiente para Werner, o sanguebruxo com asas angelicais, imaginar algo. Que na luz da jovem morta, queimando, algo abria as asas. “Algo imenso”, “estranho” e “lindo”, que se estendeu no firmamento até nada mais restar além de cinzas. Na mente do rapaz, a falecida Jean transmutara-se na descomunal figura de uma fênix, ave de esplendor sem igual, dotada de extraordinária longevidade. Segundo o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier, o pássaro egípcio tem o poder de renascer das cinzas depois de se consumir em uma fogueira. Pela sua associação com o ciclo quotidiano do sol e com o ciclo anual das cheias do Nilo, os aspectos simbólicos que evoca são a ressurreição, a regeneração da vida, o reaparecimento cíclico e a imortalidade. Aquilo em que Jean Grey se transformou, sobre as águas do Atlântico, ergueu-se da mesma maneira que “esse pássaro magnífico e fabuloso levantava-se com a aurora sobre as águas do Nilo, como um sol (...) e depois renasce das cinzas” (CHEVALIER, 1989, 421-2). Logo, surge interessante correlação entre as intenções de Gaiman e a figura do pássaro mítico: a hipótese é de que o autor de 1602 tenha intentado expressar, através dessa referência, que os Estados Unidos “renasceriam das cinzas” após os ataques do onze de setembro.

Gaiman escolheu para protagonizar o seu modelo de reconstrução ideal dos Estados Unidos um personagem altamente controverso no panteão de heróis Marvel: o Capitão América. Nascido em plena época de politização dos personagens dos quadrinhos norte-americanos e com origens na propaganda antinazista do período da Segunda Guerra Mundial, o personagem permaneceu no repertório da editora como representação de um ideal extremado do patriotismo. Segundo capítulo dedicado a ele no livro Shazam!, organizado por Álvaro de Moya, o Capitão América é o valoroso defensor dos ideais norte-americanos à antiga, mais ou menos correspondentes àqueles dos primeiros desbravadores para quem um índio bom era um índio morto (SOARES, 1972, p. 100).


Ao esconder sua verdadeira identidade sob a figura desajeitada e pouco marcial do recruta Rogers, o Capitão América dá a entender claramente que [...] o último lugar onde poderia se esconder um bom americano é atrás de um mal soldado. Nota-se assim nesse herói uma preocupação guerreira, sendo ele possivelmente o mais agressivo dos vigilantes. A própria escolha de seu uniforme, listado e estrelado como a bandeira americana, deixa transparecer as suas intenções, assim como a preocupação de deixar bem claro: America for Americans (SOARES, 1972, p. 100-1).
No entanto, é estranho que um herói tão agressivo tenha escolhido para si um instrumento defensivo, o escudo estrelado. Talvez ele queira, através do escudo, insinuar simbolicamente que só ataca para se defender. “Esta imagem pode parecer paradoxal, mas de certa maneira sintetiza todas as desculpas e tomadas de posição da política internacional norte-americana frente aos conflitos em que participa” (SOARES, 1972, p. 101).

Em seu nome, em seus trajes, em suas batalhas, Steve Rogers denota a percepção de uma equivalência simbólica com a nação. Sarmento aponta que essa característica também fez dele alvo da crítica, no momento que um modelo arcaico e altamente conservador de expressar a dinâmica das relações Estado-sociedade foi identificado no discurso nacionalista do personagem. “Ao buscar o Capitão América para representar o seu ensaio de edificação simbólica do ideal da Nação Americana, Gaiman não o faz de forma acrítica” (SARMENTO, 2007, p. 28).

Além disso, não se encontra no Rogers/Rojhaz de 1602 um mero mimetismo do discurso que esteve associado ao personagem ao longo das muitas décadas de sua existência no mercado editorial. Em Rojhaz, Gaiman acentua o sentido da democracia não como expressão da rotinização da liberdade, lembra Sarmento. Democracia não como esgarçada bandeira de combate ou inócua figura retórica, mas enquanto expressão sintética da capacidade das sociedades humanas em lidar com a diversidade e a tolerância de forma sistemática. É nesse sentido de democracia, nesse modelo referencial do conceito, que Gaiman orienta sua visão ideal do símbolo da América.

Na página 25 do tomo VIII de 1602, Rojhaz se refugia no ambiente silvestre e de lá ressurge com uma pintura tribal que emula a máscara tradicional do herói. Antes de ser devolvido ao “futuro” (à sua temporalidade de origem), para evitar a destruição de todas as coisas, o personagem comumente identificado como o arauto do militarismo acredita ser um erro a opção pelo confronto e apresenta a sua fé na restauração dos ideais fundadores da sociedade americana. Estas são as suas últimas palavras:


[...] Este é o meu país. Eles precisam de mim. Não posso deixá-los. Não precisamos cometer os mesmos erros de novo. Estamos no nascimento de uma nação... de um sonho. Ninguém precisa morrer. Podemos trabalhar juntos para protegê-los. O meu povo [...] Eles são a América. Um dia serão. E eu... eu lhes darei o orgulho de serem americanos (GAIMAN, 2007).
A democracia idealizada por Gaiman, em resposta ao mundo incerto e turbulento do século vinte e um, não é um símbolo bélico, e sim um conceito que busca associar-se aos princípios da harmonia, da tolerância e da solidificação dos meios de convívio interpessoal. Partindo desse pressuposto, é curioso o autor de 1602 ter utilizado como porta-voz do seu conceito de democracia o Capitão América, personagem intimamente ligado ao militarismo. Contudo, o aparente contra-senso resultante dessa escolha deve ser entendido enquanto crítica ao padrão belicista e intervencionista da pax americana.

Outro tema recorrente em 1602 é a questão da intolerância religiosa. Vasta gama de linhas narrativas ao longo da obra tratam dessa problemática. Inquisidores em caçada a supostos infiéis, magos silenciados pela regulação institucional da Igreja, velhos religiosos que condenam o paganismo com veemência. Em suma, tendo em vista os acontecimentos contemporâneos que levaram Neil Gaiman a formular a obra, uma leitura simplista poderia situar a sua proposta no cerne do embate estabelecido entre os dois eixos: Estados Unidos versus terrorismo islâmico.


Gaiman esboçou alguns indícios que nos poderiam remeter a esta direção [...] No entanto, retornando ao modelo de simbolização operado por Gaiman, identificamos para além da questão do conflito o tema da intolerância. Se Gaiman fala das disputas operadas em nome de Deus, o faz com intuito de valorizar o convívio harmônico e tolerante entre as diferentes formas de expressão da fé. É isto, por exemplo, que o corpo astral de Stephen Strange insinua aos seus aliados quando desembarcam nas costas americanas (SARMENTO, 2007, p. 29).

Em decorrência do período que vivenciava após o onze de setembro, Gaiman formulou a seguinte indagação: será possível pensar em uma comunidade em que os credos não constituam motivações para os homens se lançarem à espada? Reafirma-se a conexão entre o sonho do telepata Charles Xavier, na sua visão otimista de um mundo de igualdade e de possível coexistência entre homens de origens distintas, e o desejo primordial dos fundadores dos Estados Unidos, de buscar a liberdade, a harmonia e a felicidade. Dessa maneira, o escritor desenvolveu a sua representação ideal e utópica dos Estados Unidos enquanto uma nação livre da opressão religiosa, racial e política e da intolerância, em que todos, não importando as diferenças que os distanciam, têm a chance de conviver em paz e com prosperidade.


Apontamentos Finais
O historiador Peter Sanderson considera 1602 uma reinterpretação surpreendente dos clássicos super-heróis de Stan Lee. Na obra estudada, Neil Gaiman explora as bases lendárias da mitologia dos heróis Marvel e da própria mitologia norte-americana. O escritor inglês queria desenvolver um trabalho que tivesse a característica de um mundo em nascimento, a mesma que observara há anos, e continua a perceber com saudosismo, nas primeiras revistas da Marvel Comics.

Entretanto, Gaiman optou por seguir um caminho diferente. Decidiu alojar a sua narrativa no mundo do início do século dezessete, adaptando para os seiscentos os principais personagens criados entre os anos de 1960 e 1970 por Stan Lee e seus colaboradores. À primeira vista, o recorte temporal selecionado pode causar certo estranhamento. Porém, ao longo do texto foi possível compreender o porquê da excêntrica e aparentemente inusitada escolha de Gaiman.

Por um lado adequando-se às inovações que a Marvel pretendia conferir à sua linha editorial, e em parte abalado pelos atentados terroristas de 2001, foi exatamente o impacto gerado pelo onze de setembro que definiu a escolha do autor. Após observar as feridas estruturais infligidas aos Estados Unidos pelos ataques, Gaiman optou por desenvolver a sua trama em uma temporalidade passada.

Em suma, Neil Gaiman buscou a matriz primitiva do discurso fabuloso sobre o Novo Mundo para sustentar sua formulação da América maravilhosa. O autor recorreu à História e aos símbolos para refundar a nação e reconstruir os valores basilares dos Estados Unidos, visivelmente abalados pelos atentados em Nova Iorque. Nesse sentido, 1602 contém a essência do tempo em que foi escrita, uma vez que ao longo das páginas da obra, o interesse na reconstrução simbólica dos Estados Unidos está ligado aos acontecimentos contemporâneos vivenciados por Neil Gaiman.


Referências
CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos, 1989, p. 421-2.

CHOMSKY, Noam. 11 de setembro. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

FICHOU, Jean-Pierre. A civilização americana. São Paulo: Papirus, 1990.

GAIMAN, Neil, KUBERT, Andy. 1602. Tomo I-VIII. 2ª edição. São Paulo: Panini, 2007. (1ª. Edição de 2004).

GREENBLATT, Stephen. Possessões maravilhosas: o deslumbramento do Novo Mundo. São Paulo: Edusp, 1996.

HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções: 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2007.

LOPES, Fernando (ed.). Enciclopédia Marvel. São Paulo: Panini, 2005, v. 1.

McCABE, Joseph. Passeando com os sonhos: conversas com Neil Gaiman e seus colaboradores. São Paulo: HQ Maniacs, 2008.

MEIHY, José Carlos S. B. 11 de setembro: a queda das torres gêmeas de Nova York. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005.

MOORE, Michael. Cara, cadê o meu país? São Paulo: Francis, 2004.

MOYA, Álvaro de (org.). Shazam! São Paulo: Perspectiva, 1972.

SARMENTO, Carlos Eduardo. 1602 – A refundação da América: uma leitura da obra de Neil Gaiman. História, imagem e narrativas, nº 5, set. 2007.

SOARES, Jô. Os dilemas do Fantasma e do Capitão América. In: MOYA, Álvaro de (org.). Shazam! São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 97-102.

TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América – Livro I: leis e costumes. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

TREVOR-ROPPER, H. R. Religião, reforma e transformação social. In: Religião, reforma e transformação. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1981.



WALLERSTEIN, Immanuel. Os Estados Unidos e o mundo: as Torres Gêmeas como metáfora. Estudos avançados, nº 16, 2002, p. 22.

Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal