A vendedora de romance



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A VENDEDORA DE ROMANCE

JANIFER AMES


Odette Cosway tinha uma vida perfeita, era uma atriz famosa e estava noiva de Lance Furner, o ator que todos admiravam e era seu par nos filmes românticos que estrelava. Nem mesmo Paul Hershaw, o famoso diretor que não acreditava em romantismo e duvidava do amor de Odette e Lance poderia fazer com que ela duvidasse deste amor. Mas um segredo terrível faz com que Odette se envolva em uma teia de mentiras que pode acabar com todos os seus sonhos e destruir a vida que ela construiu. Quando uma tragédia acontece, Odette é obrigada a reconstruir sua vida e encarar o amor de forma diferente.



Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização: Marina

Revisão: Josi

Do original inglês: "ROMANCE FOR SALE'

1955

Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela COMPANHIA EDITORA NACIONAL — São Paulo — que se reserva a propriedade desta tradução.



Tradução de Sílvia Mendes Cajado

Impresso nos Estados Unidos do Brasil Printed in the United States of Brazil

BIBLIOTECA DAS MOÇAS

VOLUME 123



CAPÍTULO I
I

PAUL HERSHAW manifestou o desejo de ser apresentado a Odette Cosway. Luke Grimsby, seu diretor artístico, encolheu os ombros e avisou-o: "Te­remos de abrir caminho para chegar até ela. Hoje to­do mundo quer conhecê-la. Apresentá-lo-ei mais tarde".

Encontravam-se na sala de recepção anual dos Ali Star Studios, um tanto isolados do resto dos convidados. As figuras mais proeminentes do mundo ar­tístico e do cinema estavam, nessa noite, ali presentes: estrelas de primeira grandeza, diretores famosos, auto­res cinematográficos e novelistas, todos reunidos no grande hall profusamente guarnecido. A orquestra, numa das extremidades do salão, executava música em surdina, tornando o ambiente favorável às palestras: provinham da sala de jantar contígua o espocar de ro­lhas de champanha, vozes alegres, risos.

"Que multidão", observou Paul recostado a uma coluna, acendendo um cigarro. "Tenho ganas de citar o velho Gilbert: "Onde todos são alguém, ninguém é alguém".

Luke franziu as sobrancelhas e retrucou: "Pen­so diferente de você".

Paul esboçou um sorriso e fixou o olhar na pon­ta acesa do cigarro: "Você discorda sempre, Luke. É um marmanjo com idéias românticas de criança de doze anos. Não fosse isso — de novo o leve sorriso — não lhe seria possível dirigir com tanto êxito os fil­mes de Odette Cosway e Lance Furner. Pois ter em mente os futuros sucessos dos Namorados Mais Per­feitos do Cinema Britânico é uma séria responsabili­dade”.

Luke contraiu agressivo as bochechas balofas. Era um hábito seu quando percebia ser alvo de motejos, o que se sucedia com freqüência. Luke Grimsby era demasiado importante. Era o diretor de maior suces­so no Ali Star Studios.

"Fosse você mais romântico que não seria nada mau", comentou secamente. "Seria útil ao seu traba­lho. Olhe Paul, não quero ser impertinente com seus filmes. Considero-os, no gênero, bastante bons, mas excessivamente realistas. É a razão por que não che­gam a ser... pois é... tão bons quanto deviam. Ora, o que o público deseja..."

"Poupe-me esta noite, por favor, dos desejos do pú­blico!" interrompeu-o Paul num risinho sardônico. "É o assunto obrigatório de todas as reuniões da di­retoria. Diga-me uma coisa: Odette Cosway e Lance Furner são realmente tão amigos como dizem?"

"Acredito que sim", replicou Luke entusiasmado. "Os mais perfeitos namorados britânicos, tanto na tela como na vida real".

"Peço-lhe, não repita chavões de propaganda", im­plorou Paul, "provocam-me arrepios. É verdade que são noivos?"

Luke ergueu as espessas sobrancelhas: "Lógico, estão noivos e querem-se tanto..."

"Ah..." suspirou Paul. "Já li a respeito. Para estar-se a par das novidades da tela é preciso ler. Mas é verdade?"

Luke atirou o cigarro, esmagou-o com o salto e olhou desdenhoso para o homem alto e magro a seu lado. "Se não é verdade, então tudo é mentira", res­mungou. "Ela chega a adorar o chão onde ele pisa. E veja a maneira romântica como o idílio começou. Odette estava de férias no norte do país, quando o des­cobriu numa companhia teatral de terceira classe, em tournée. Os estúdios procuravam-lhe um novo galã, e Lance era exatamente o tipo requerido. Desde então, tornaram-se inseparáveis. O próximo filme será o oita­vo em que ambos são protagonistas. E o último é sem­pre melhor que os precedentes."

"Que tal esse Furner? Esquisito, não conheço nem um nem outro", disse Paul.

"É porque passa a maior parte do ano fora da In­glaterra, ensaiando coros de legítimos pingüins para Sagas do Norte, pelas quais ninguém se interessa", riu Luke. "Longe de mim a idéia de criticá-lo", acres­centou.

De novo o sorriso singular iluminou o rosto chu­pado de Paul. "Talvez", e continuou veemente, "mas com os diabos, não será preferível mostrar aos homens a vida como ela realmente é?"

"Enquanto o Gelway Studios estiverem dispos­tos a financiá-lo, irá tudo muito bem", ironizou Luke. "Como pagam caro os sucessos artísticos! Ainda as­sim, outros estúdios os imitam, por propaganda". E, como o silêncio se prolongasse: "Quer saber a respei­to de Furner? É rapaz correto, as mulheres apreciam-no. Não lhe pus os olhos em cima, esta noite. Será que não veio? Pensando bem, é curioso. Não veio com Odette, pois a vi chegar sozinha. Estará doente?"


II

O mesmo pensava Odette. Levara a noite a cis­mar enquanto agradecia os grandes olhos sorriden­tes, os lábios bem desenhados, murmurando: "É mui­ta amabilidade de sua parte. Agradeço-lhe ter apre­ciado meus filmes", sempre o mesmo meigo sorriso, no rosto oval delicado: sorriso que a tornara célebre. Mos­trava uma covinha brejeira na face. Sorria espontanea­mente, revelando a criança mimosa e idealista que ain­da era. O triunfo encantara francamente Odette, mas não a viciara. Era como bola dourada e luzente que atirava a Lance com as mãozinhas finas e alvas e que ele lhe devolvia. Adorava-o e ao trabalho que os reu­nira, unindo-os sempre mais com o passar do tempo.

Nessa noite Odette deveria sentir-se ainda mais feliz que habitualmente. No dia seguinte Lance e ela assinariam o novo contrato, com o salário do ano an­terior quase dobrado. Uma noite festiva, certamente. Haviam combinado jantar em seu moderno e encanta­dor apartamento e virem juntos depois à recepção. À tarde, porém, ele mandara-lhe uma mensagem tele­fônica, desculpando-se por não vir jantar, que se en­contrariam mais tarde. Odette pensou à última hora em convidar alguém, mas desistiu. Lance não poden­do vir, era preferível ficar só. Jantara, pois, solitária, à elegante mesa de vidro com pernas circulares de me­tal. Distraiu-se com os pratos deliciosos encomenda­dos, os preferidos de Lance. Provou do champanha especial, erguendo o copo numa saudação ao noivo ausente.

"Ao nosso sucesso... ao nosso amor, querido", murmurou.

E teve a impressão de que os profundos olhos cas­tanhos de Lance lhe correspondiam ao sorriso. Co­nhecia-lhe o rosto de perto; podia vê-lo nitidamente: a abundante cabeleira negra, ondeada, parecendo que acabava de sair do chuveiro, a testa larga, atraente, o nariz aquilino, lábios cheios, o queixo que, sorrindo, for­mava uma covinha, algumas sardas no rosto, duas mais pronunciadas sob o olho esquerdo. O corpo perfeito, corpo de atleta: ombros largos, cadeiras finas. Não era de admirar que as mulheres se apaixonassem por ele. Perguntavam muitas vezes a Odette se não era ciumenta.

"Não, por quê?" respondia rindo. "Lance e eu nos compreendemos. Nada de mau nos poderá acon­tecer". Naturalmente, batia na madeira... Tinha as superstições tolas das naturezas intensamente român­ticas. Mas acreditava no que dissera convencida de que nada de mau lhes pudesse acontecer.

Sua ausência prolongada nessa noite não lhe da­va motivos de preocupação. Ocorriam-lhe explicações lógicas. Mesmo assim, com o passar das horas, sen­tiu-se colhida por uma estranha sensação de desastre iminente. Deixou-se tomar por uma inquietação esqui­sita e, quem sabe, pela primeira vez em sua carreira, impacientou-se com a multidão atraída pelo seu suces­so. E resolveu: "Darei uma fugida para telefonar a Lance. Não está doente, espero."

Com dificuldade conseguiu escapar dos admirado­res. Fez a ligação de um dos escritórios comerciais do primeiro andar e, com os nervos à flor da pele, esperou ser atendida. Lance, entretanto, não estava no apar­tamento. Disse-lhe o criado não o ter visto o dia todo. Não, nem sequer voltara para trocar-se, para a re­cepção.

"Então é porque não vem", pensou Odette. Recolo­cou o fone no gancho, apoiou-se contra a enorme se­cretária de mogno, sentindo um mal-estar indefinível.

Era ridículo sentir-se assim, pois ela e o noivo viam-se freqüentemente; todos os dias até, quando fil­mavam. No entanto, para Odette, uma festa sem Lan­ce não era divertimento.

As paredes do escritório estavam cobertas de inú­meras fotografias suas e de Lance. Ali estavam como tinham aparecido no último filme de sucesso A Princesa que Amou um Cigano. Como fora maravilhoso e como estava belo o seu Lance, namorado cigano! Não mais belo nem mais maravilhoso, no entanto, que na vida real, cogitou sincera, e ficou a imaginar porque sentira arrepios.

Pegou o casaquinho de lamê dourado e deixou o escritório. Era uma bela criatura, Odette Cosway: al­ta e esguia, tão fascinante na tela como fora dela. Seus grandes olhos azuis, pontilhados de cinza irradiavam alegria e sinceridade; a boca, cheia e generosa; os can­tos dos lábios erguiam-se deliciosamente, quando sor­ria. Seu corpo era o desespero das mulheres de trin­ta anos e o da maioria das mais jovens. Esbelta e grácil, ainda assim sugeria curvas suaves e redondas. Aos dezenove anos atraíra pela primeira vez a atenção de um diretor de cena; agora, aos vinte e três, era um su­cesso garantido. Ignorava-se quanto de sua atual po­pularidade era devido à feliz associação com Lance e quanto a ela própria.

Odette não quis voltar ao abarrotado salão de festas. Empurrou a porta e saiu para o jardim dos fundos do estúdio. Era noite de luar. E o luar debruava de prata os arbustos que o circundavam. Vá­rias mesas haviam sido dispostas para a ceia, mas es­tavam desertas, as alvas toalhas brilhantes esvoaçando à brisa, os talheres em desordem.

Ao descer por um caminho pedregoso, encontrou-se frente a frente com um homem de estatura alta, ma­gro, que voltava, era evidente, de um passeio. Esperou que se afastasse para deixá-la, passar, mas enganou-se.

"Que sorte!" ele estacou e sorriu-lhe. "Passei a noite procurando conhecê-la, Miss Cosway. Pedi a Luke que me apresentasse, mas aproximar-me há essa hora seria como abrir uma picada em densa floresta. Meu nome é Paul Hershaw."

"Paul Hershaw?" Ela sorriu-lhe e franziu a tes­ta de leve. "Já ouvi falar em seu nome, não me lem­bro onde."

"Não procure saber; sou o diretor dos Gelway Studios". E com um risinho acrescentou: "Dirigi pro­vavelmente tantos fracassos financeiros quantos a se­nhora representou com sucesso."

"Já sei", tornou ela acentuando o sorriso, dirigiu: “A Voz do Norte, não foi?"

Ele aquiesceu: "Gostou?"

"Muito impressionante, muito real e artístico, mas..."

"Deprimente" sugeriu ele irônico.

Odette riu. "Sim, um tanto deprimente e cruel. Não pensa como eu?"

Ele sacudiu a cabeça e o sorriso malicioso acen­tuou-se. "Não tem metade da crueldade de seus fil­mes que, francamente, me abatem miss Odette Cos­way."

Odette assustou-se, os olhos azuis arregalados de espanto. "Deprimentes? Meus filmes cruéis e depri­mentes?" Não acreditava no que ouvia. Ele sorriu.

"Surpreendeu-se, não é verdade? Para mim são cruéis e deprimentes por serem demasiado irreais. Fa­zem-nos crer o que a vida não é... Bela e romântica, tudo sempre acabando bem."

"Mas é como é", insistiu ela, o rubor ligeiramen­te aumentado. "A vida é assim".

Paul sacudiu a cabeça devagar. E falou como se confortasse uma linda criança. "Bem sabe que não é. E, em minha fraca opinião, seríamos mais felizes e melhores, se encarássemos a realidade em vez de es­condermos a cabeça como o avestruz, numa avalanche de romance". Subitamente sorriu. "Perdoe-me estar a fazer-Ihe sermões. Quer sentar-se a uma destas me­sas e fumar um cigarro?"

Ela aceitou. Aquele homem alto, magro, a fron­te larga e inteligente, o sorriso levemente irônico nos olhos cinzentos, intrigava-a. Desde início sentiu-o di­ferente dos outros.

"A senhora é romântica, não é?" murmurou. "Uma esbelta vendedora de romances de cabelos dourados, a tanto por página. Diga-me, acredita sinceramente nos filmes tolos que representa?"

Odette corou ainda mais, amuada. Ele combatia algo que lhe era precioso. "Claro que sim", disse-lhe secamente. "Eu, pelo menos, não os julgo tolos. Con­sidero-os histórias bonitas... e não creio estarem di­vorciados da vida real".

"Não?" perguntou ele calmo. "Então confia que a criadinha que adora um príncipe acabará casando com ele?"

"Exatamente isso, não". Mordeu de leve o formo­so lábio inferior, pensativa. "Mas que mal faz que ela o acredite? Devemos conservar as crenças que nos tornam felizes".

"Mesmo que no fim nos façam ainda mais des­graçados?"

"Isso não é obrigatório". Havia exasperação em sua voz. "Não há motivo para que os romances da vi­da real não sejam belos e felizes como os dos filmes".

"Não há?" indagou ele. Atirou o cigarro longe, dentro da noite. "Perdoe-me fazer-lhe uma pergunta confidencial: acha o seu romance tão maravilhoso como aqueles em que trabalha Miss Cosway?"

Ela sacudiu a cabeça, baixou o olhar para as mãos alvas e finas, cruzadas no regaço. Calou-se um ins­tante, depois um meigo sorriso lhe recurvou os lábios. Résteas de luar lhe envolviam os cabelos de um louro acinzentado, dando-lhes o brilho da prata. Hershaw jamais vira nada tão belo como Odette naquele instante.

Então ela ergueu a cabeça e fitou-o de frente. "Sim", respondeu, e Paul notou que sua voz vibrava intensamente, "muito, muito superior a qualquer dos romances vividos em meus filmes".

"Tenho prazer em sabê-lo", disse Paul, desta vez sem ironia. "Faço votos para que seja sempre assim".

"Será assim a vida toda, asseguro-lhe", declarou ela com fervor apaixonado. "Há de ser. Se não fosse, morreria".

Por um momento ambos guardaram silêncio. Odet­te estava um tanto contrafeita pelo seu arrebatamento. De um modo estranho, inexplicável, esse homem magro, de rosto fino e interessante a constrangia, como se ainda fosse criança.

"Alegra-me sabê-la sincera", disse ele afinal. "Era de esperar que fosse assim. Pode-se tentar o su­cesso fazendo coisas extravagantes, mas não creio que dê resultado. A melhor divisa na vida é: "A sincerida­de acaba vencendo". E acrescentou sorrindo: "Tam­bém eu sou sincero".

"Como é amarga a vida que descreve!" protes­tou ela.

Paul inclinou-se, braços cruzados sobre a mesa. "Nunca achou a vida amarga?"

Meneando a cabeça Odette protestou: "Nunca. Já fui pobre, naturalmente. Cresci num casebre, no campo..."

"Coberto de sapé, com rosas trepadeiras e uma lagoa ao lado, onde nadavam patos, não?" Do outro lado da mesa os olhos cintilavam, maliciosos.

Surpreendida ela encarou-o: "Como é que sabe?"

Ele explicou: "Adivinhei. Qualquer outro gêne­ro de pobreza a tornaria amarga. E há pouco tempo comprou o casebre e deu-o a um velho, antigo serviçal? E de vez em quando foge da cidade intoxicada e es­conde-se lá?"

Arregalaram-se os olhos azuis de Odette. E com voz imprecisa: "Não é crível que saiba disto. Nem nas entrevistas deixei entrever esse particular".

"Pura adivinhação", disse Paul sorrindo. "É o que faz toda moça romântica. Eu, crescido numa choupana, rogo a Deus nunca mais vê-la, neste, nem no outro mundo".

A moça perturbou-se: "E por quê?"

Ele ficou a refletir, martelando a mesa com os punhos magros, bronzeados. "Porque não nasci num casebre igual ao seu. O meu era sujo, feio, com re­polhos em lugar de roseiras e um chiqueiro substituin­do a lagoa dos patos". Riu com azedume. "A vida, para mim, não foi romântica. Talvez por isso não su­porte sentimentalismos".

Impulsivamente, sem saber por que o fazia, ela pediu: "Conte-me a seu respeito".

Paul sacudiu a cabeça e enrijou os lábios. "Ago­ra, não. Conservei-a muito tempo afastada de seus adoradores. Um dia, talvez, se me permitir, irei visi­tá-la e conversaremos".

"Com prazer. Sabe meu endereço?"

"Quem ignora o seu endereço, Miss Cosway? São os ossos do ofício, por ser estrela. Aborrece-a?"

Odette também sorriu vagarosa, infantil e en­cantadoramente. "Não, não creio. Na realidade, é-me um prazer. Nada tenho que ocultar. Agrada-me sen­tir o mundo compartilhar de minha felicidade".

"É ainda a menina romântica, cheia de ideais", disse ele com doçura. Sorriu-lhe e prosseguiu: "Fi­carei à espera, ansioso, da oportunidade de discutir­mos sobre romance. Talvez a converta ao meu modo de pensar. Quem sabe?"

Ela meneou a linda cabecinha loira, brilhante de luar, os cachinhos reunidos na nuca. "Não o con­seguirá".

"Esperemos que não", disse ele sereno.
III

Odette não voltou ao imenso estúdio transforma­do em salão de festa. "Não posso mais conversar es­ta noite", pensou. "Sinto-me cansadíssima. Não sei por que". O que sabia não ser verdade. Que acon­tecera a Lance Furner?

O porteiro fez sinal ao chofer e, minutos depois, o enorme Rolls-Royce, propriedade sua, parou rente à calçada. Raios de luar, tombando-lhe sobre a contextura de metal transformavam-no em prata pura. Dir-se-ia o carro mágico de alguma princesa dos con­tos de fadas.

O chofer abriu a porta e ela entrou. Não acen­deu a luz; recostou-se a um canto e cerrou os olhos. Estava deveras cansada. Semanas havia que já andava preocupada, mas não queria admiti-lo. Pareceu-lhe que, ultimamente, estivesse a agarrar com mais força o manto brilhante de sua felicidade, temendo que escapasse se, por descuido, afrouxasse a vigilância. Lance andava esquisito: tristonho, mal humorado, abatido. Não que isso modificasse de maneira algu­ma o amor que lhe votava. Nada, jamais, o conse­guiria.

Quando o carro parou, abriu os olhos assustada. O imenso edifício branco de apartamentos, onde mo­rava, com suas torres e terraços, também parecia, ao luar, um palácio encantado. Entrou, tomou o eleva­dor e subiu ao luxuoso apartamento no último andar do prédio.

A criada abriu-lhe a porta. "Mr. Furner está aqui, senhora, esperando há mais de uma hora. Disse pre­cisar vê-la hoje".

"Mr. Furner!" exclamou Odette ofegante. Uma onda de sangue quente lhe coloriu as faces. Lance esperava por ela! Iria vê-lo essa noite, apesar de tu­do. Mas, por que não fora à recepção?

Deu a capa de arminho à empregada e entrou na sala de estar — espaçosa, deslumbrante, de teto alto. Grandes janelas envidraçadas tomavam toda uma parede. Os móveis, ultramodernos. Mesas de cris­tal de formatos esquisitos, baixas, com pernas de me­tal. Grandes sofás quadrados, cobertos de cetim ne­gro; estantes em ângulos, cadeiras que semelhavam círculos de metal, com assentos de couro preto; aqui e ali, sobre o piso de linóleo preto, lustroso, macios tapetes de lã, brancos.

Recostado a um aparador, Lance fumava. O cin­zeiro cheio ao seu lado dizia quanto ele fumara ao es­perá-la. O belo rosto abatidíssimo, quase cinza, os ombros retos, elegantes, ligeiramente curvos.

"Lance!" A moça deteve-se à soleira da porta, mãos estendidas. Sob a luz suave do abajur de pergaminho de formato bizarro, estava deliciosamente lin­da: uma figurinha delicada, num jogo de luz e som­bra nos cabelos claros, quase prateados, e o azul anilado, brilhante do vestido, uma criação de Chanel, es­pecial para ela. Faiscavam-lhe os olhos azuis, a res­piração acelerada como de costume, ao divisar Lan­ce novamente, por mais curta que fosse a separação. "Meu velho bobinho" riu ela meiga, ao entrar na sa­la. "Passei a noite preocupada por sua causa. Onde esteve?"

Ele, porém, não lhe correu ao encontro, como ha­bitualmente, não a tomou nos braços num movimen­to impulsivo e rápido, o que nos filmes era um su­cesso e tornava todas as mulheres descontentes com os amantes. Continuou imóvel e, depois de um rá­pido olhar, não mais a fitou. Fitava os próprios pés, a sala, qualquer lugar, menos ela.

"Não estava disposto a ir à recepção", disse de­sajeitado, quando o silêncio se prolongou.

"Você está doente, Lance?" perguntou Odette an­gustiada.

Ele deu uma risada áspera, curta, e passou a mão pela cabeleira escura, crespa como penas molhadas de um pássaro. "Não, não estou doente".

Odette respirou aliviada e afundou na poltrona à sua frente, sentando-se e enrolando-se como garotinha. "Dê-me um cigarro". Sorriu-lhe ao estender a mão. "E, por favor, não faça cara tão fúnebre".

Não obteve resposta. Ele estendeu-lhe o cigar­ro que pegou de uma cigarreira de cristal; depois ti­rou outro para si. Não procurou acender nenhum. Continuou de pé, uns instantes, batendo a ponta do cigarro no aparador.

"Que tal a recepção?” perguntou afinal.

Ela começou a contar, mas percebeu, antes de ultimar a primeira frase, não estar sendo ouvida. Pa­rou de falar e, quando o silêncio se prolongou, vol­tou-lhe, e com maior intensidade, a estranha sensação de desastre que já provara naquela noite.

"Lance" exclamou afinal, quando não mais pôde suportar o silêncio. "Aconteceu alguma coisa?"

Novamente ele riu áspero. "Alguma coisa? Tudo, isso sim. Uma miséria, Odette. E... nem sei corno dizer-lhe".

Ela arregalou os olhos, com medo indisfarçado. "Que poderá acontecer se temos um ao outro?" pro­testou.

Lance ergueu a cabeça e, à luz da lâmpada, Odet­te percebeu que ele havia chorado.

"É o que é", disse ele afoito, "não temos mais um ao outro. Sacrifiquei meus direitos a você. Não a censuraria se não mais me falasse. E é o que você fará, depois de ouvir o que tenho a dizer-lhe. Ah! Odette". Sua voz engasgou num soluço e ele atirou-se de joelhos diante dela, num gesto que seria teatral, se não fosse sincero. "Ah, Odette!", tornou a mur­murar, "não sei como contar-lhe".

"Lance, meu bem, não se angustie dessa manei­ra, por favor,", disse ela baixinho, os dedos alvos a alisar-lhe a cabeleira crespa. "Não pode ser tão gra­ve assim e mesmo que seja — sua voz firmou-se — não o abandonarei. Amo-o demais".

Ele exalou um gemido. Agarrou-se a uma de suas mãos, como se não pudesse largá-la. Levantou-se de­pois e, trôpego, atravessou a sala. A cortina estava semicerrada. Ficou a observar as luzes faiscantes como olhos de gato, dos automóveis no parque; as lu­zes bruxuleantes das residências aristocráticas, diante dele; as que brilhavam docemente na sala, atrás de si; luzes, luzes por toda parte e, em seu coração, apenas caos e trevas.

"Meu Deus" pensou pela centésima vez, "como fui fazer isso? E, nas circunstâncias em que me en­contrava que mais poderia fazer?"

Odette, imóvel, esperava na poltrona. Estava co­mo que perdida. A coberta de cetim negro dava-lhe relevo à cabeleira loira. Esperava, segurando o fôle­go, de tal maneira, que o peito lhe doeu.

"Odette" confessou Lance finalmente, "casei-me hoje".


IV

Ela continuou calada muito tempo, dando a im­pressão de não ter ouvido.

"Disse-lhe que me casei hoje", repetiu ele brusco.

"Já ouvi", disse ela, e ele pasmou ante a sereni­dade de sua voz — serenidade não natural, como raja­da fria naquele quarto superaquecido.

"Ah, está bem!" tornou ele zangado, "se você pouco se incomoda."

Então ela desatou a rir — riso estranho e sufo­cado — enquanto imaginava: "Um de nós está ma­luco. Não é verdade. Claro que não é verdade". Lu­tava desesperada contra si mesma, para não acreditar. Se desse crédito à infâmia inverossímil, estaria per­dida. Lance que ela adorava de alma e coração, Lan­ce que a convencera que também a adorava, casado com outra? Era grotesco, impossível.

A risada de Odette tornou-se-lhe intolerável. Fa­ziam vibrar seus nervos tensos demais, os sons agu­dos, dissonantes. Lance atravessou a sala e sacudiu-lhe os ombros. "Pare com isso. Que é que você tem, está louca?"

"Não", respondeu ela ofegante. "Mas você deve estar... dizendo ter-se casado".

"Mas é fato, casei-me. Casei-me hoje".

"Ah, não!" E, subitamente como começou, seu riso cessou. Envolveu-a de novo a estranha quietude. "Não, você não pode estar falando sério".

"Se estou! Deus tenha pena de mim". Então, com voz embargada, acrescentou: "Odette, meu bem, que hei de fazer?"

Ela fitou-o longamente e, vendo o desespero es­tampado em seu rosto tão belo, nos olhos escuros, afi­nal convenceu-se.

"Ah!" Afundou na cadeira e fechou os olhos. Sentiu-se desfalecer de angustia e aflição. O sangue gelou-lhe nas veias. Pensou: "Quero morrer, meu Deus, permiti que eu morra". A morte pareceu-lhe iminente. Não podia sobreviver e encarar a nefanda realidade. Lance casado com outra. O seu Lance.

Percebeu então vagamente que ele falava, tentan­do explicar-lhe a desgraça em frases entrecortadas e curtas, para ela inconcebíveis. De vez em quando com­preendia algumas palavras — palavras que a enchiam de terror.

"... tive de casar-me com ela, compreende, Odet­te, fui obrigado... o pai, homem de grande influên­cia nos jornais, jurou que, se o não fizesse, contaria a história pela imprensa, mostrando o quanto eu era canalha e ordinário... ameaçou dar-me um tiro; não que eu tivesse medo, mas que fazer? Hoje à tarde arrumaram uma licença especial. Não tive outra al­ternativa. Compreende Odette, que eu não tinha outra alternativa?" A voz embargada de soluços implo­rava-a. "Fui um doido, bem sei. Chame-me do que quiser que o mereço. E é você a quem amo Odette. A desgraça é essa. Amo-a, Odette!"

Ela estremeceu qual estátua gelada ao retornar à vida.

"Mas, se me ama", gaguejou ela, e debruçou-se na cadeira, enterrando o rosto nas mãos que tremiam. "Ah, Lance!" murmurou. "Ah, Lance!"

Ele ajoelhou-se ao seu lado e procuro tirar-lhe as mãos do rosto, mas não conseguiu. Abraçou-a compungido e sentiu os soluços a lhe torturarem o cor­po. "Não, meu benzinho, não", murmurava os lábios próximos à sua face. "Isto, isto me mata!"

Ela afinal se acalmou um pouco. Levantou a ca­beça, os olhos azuis marejados de lágrimas, as longas pestanas úmidas, grudadas. Ainda de joelhos, Lance puxou do lenço e enxugou-lhe as faces gentilmente. Era tão natural que lhe enxugasse as lágrimas quando brigavam que ela recomeçou a chorar. "Ah, Lance", gemeu, "não tenho forças para suportá-lo. Como é que você fez isso?"

"Como é o que, que me casei?"

"Não... a outra coisa". Tremia de fazer dó. "Se você me amava..."

"Mas amo-a, Odette", insistiu ele, desolado. "Amei-a sempre, sempre. Mas... pois é... os ho­mens comportam-se às vezes como imbecis, como cre­tinos e fracos. Ela é bonita, lisonjeava-me e ama­va-me. Não tive intenção alguma. Era namoro passa­geiro. Perdi a cabeça, uma vez, só uma vez... É difícil, meu bem, resistir, quando vocês mulheres dão em cima".

"Sei disso", murmurou ela. Sua mão tocou-lhe a cabeça escura, reclinada. Gesto tão habitual; não po­dia evitá-lo. Ele tomou-lhe a mãozinha e beijo-a vo­razmente.

"Compreendo", repetia. "É duro para mim tam­bém, quando as mulheres o perseguem".

"Procurei não lhes corresponder", resmungou Lance. "Mas Irene, confesso, enfeitiçou-me algum tempo; ela é bonita".

"Irene?"


"É o seu nome", explicou áspero. "O nome de minha mulher".

"Não diga isso!" "Desculpe". Ele levantou-se. "Onde está ela?"

"No Palace Hotel, à minha espera. Disse-lhe pre­cisar ir à recepção. Que se tratava de negócios. Mas não fui. Era-me impossível ver você em meio à mul­tidão. Precisava vê-la sozinha, primeiro".

"Ainda bem que agiu assim".

"Que fazer agora, Odette?"

Ela teve um gesto vago, com a mão. "Não há nada que fazer..."

"É que..." insistiu ele e, após uma pausa, em que umedeceu os lábios: "A respeito da assinatura do contrato, amanhã".

Ela fitou-o atônita, sem compreender. O contra­to? Como lembrar-se de contratos quando tudo o que prezava lhe jazia aos pés como vaso precioso espati­fado aos pedacinhos? Uma dor violenta sufocava-a, ao contemplar-lhe as ruínas. As lágrimas que não dei­xava correr ardiam-lhe no coração, na garganta.

"Que contrato?" murmurou.

"O que assinaremos juntos, amanhã, no Ali Star Studios".

"Ah, sim..." disse como voltando de muito lon­ge, para responder-lhe. "Já não poderemos assiná-lo". "O que?"

"Há uma cláusula que reza que, se um de nós fi­car noivo ou casar-se com outro, o contrato se des­faz automaticamente". Seus lábios torceram-se com amargura. "Não consentiriam que um dos Namora­dos Mais Perfeitos do Mundo casasse com outra pes­soa!"

Lance enfiou as mãos nos bolsos. "Que desas­tre!" resmungou. Após uma pausa prosseguiu com voz curiosamente animada: "Mas suponha que nin­guém saiba Odette". .

Olhos esbugalhados, ela repetiu: "Que ninguém saiba?"

"A respeito do meu casamento".

"E ninguém sabe?"

Ele sacudiu a cabeça. "Ninguém, exceto Irene, o pai e duas testemunhas que juraram segredo. Ex­pliquei-lhes na ocasião como era o contrato. Fiz compreender a ambos, a Irene e ao pai, convir a eles, tanto quanto a mim, guardarem sigilo a respeito do casamento". Deu uma risadinha e acrescentou: "Dis­se-lhes não possuir meios para manter uma mulher, se o contrato não se realizasse".

Ela voltou-se para ele: "Mas Lance, você deve ter dinheiro guardado".

Ele ergueu os ombros, sombrio. "Não tenho. Per­di minhas economias recentemente, numa mina hipo­tética da América do Sul que, ao que se dizia, "ia fa­zer minha fortuna". E tenho cometido extravagân­cias. Maços de contas por pagar. Além do que, um galã cinematográfico precisa manter sua posição, o que custa dinheiro".

Odette inclinou vagarosamente a cabeça. Lance sempre fora extravagante, o que às vezes a aborrecia, conquanto não pesasse em absoluto em seu amor por ele.

"Está vendo", explodiu o rapaz desesperado, "se você me denunciar, será a minha ruína. Os diretores enfurecer-se-ão mais que dez cascavéis reunidas. Per­co as possibilidades de obter novos contratos". E com uma nota de súplica na voz: "Sem você, Odette, nada poderei fazer. Separados, ambos perderemos o nos­so público. Já nos tornamos instituição nacional. Não creio que separados nos apreciem. Odette Cosway e Lance Furner — queridinha, os nossos nomes num programa tornaram-se a maior atração do mundo ci­nematográfico. Será um pecado desmanchá-la".

"Por que não pensou nisso antes?" perguntou ela tristemente.

"Pelo amor de Deus, Odette, não repise no caso. Já lhe expliquei. Admito que fui idiota — tudo quanto quiser pensar de mim. Mas, por favor, não faça dis­so um cavalo de batalha".

"Não é meu intento, Lance. Não mais do que posso evitar", concluiu num triste sorriso.

"Então concorda?" Vibrara-lhe na voz um pou­co de animação. "Não lhe causará prejuízos guardar silêncio sobre este desastrado casamento".

Ela não replicou imediatamente. Levantou-se va­garosa da poltrona, aproximou-se da caixa de cigar­ros sobre uma das mesas de vidro. Quase não fuma­va, mas tinha agora necessidade de um cigarro para acalmar-lhe os nervos. A mãozinha branca tremia ao riscar o fósforo, que se apagou. Lance atravessou a sala, riscou outro fósforo e acendeu o cigarro. E não se afastou. Continuou de pé, encarando-a, os olhos negros infelizes a perscrutá-la.

"Como você é linda!" murmurou-lhe. "Até ago­ra nunca o percebi como esta noite".

"Lance, por favor,", protestou ela num fio de voz. "Isso agora se acabou".

"Amo-a, amo-a... a outra nada significa para mim".

"Não diga isso... é maldade. Não quero ouvi-lo". "Pois bem... mas permite que o contrato seja assinado?"

"Não creio possível... e o nosso noivado? Uma vez que rompemos, provavelmente suspeitarão".

"Odette... será preciso rompermos?" implorou ele. "Por que não fingir que tudo continua como sem­pre, pelo menos algum tempo? Será vantajoso para ambos — vantajoso comercialmente".

"O que significa", atalhou Odette, a voz rouca e incrédula, "que os de fora continuam a supor que ainda somos noivos, quando você está casado com outra?"

"E por que não? É a única saída. Tudo mais será fatal à nossa carreira". Segurou-a pelo braço puxando-a delicadamente para si. "Se me ama ao me­nos um pouquinho, você concordará".

Odette fechou os olhos. As lágrimas ali estavam novamente, queimando-lhe as pálpebras. Procurou afastar-se, mas o contato da mão dele em seu braço era magnético, tirava-lhe a resistência. Poderia con­cordar? Se o não fizesse, talvez nunca mais o visse. Poderia afastar-se dela inteiramente, nada lhe deixan­do. Só a idéia dessa eventualidade a aterrorizava. Seria preferível morrer... se concordasse, ele ainda con­tinuaria seu, de alguma maneira. A alegria de vê-lo, de estar junto dele, de trabalhar a seu lado. "Sou uma boba", pensou dolorosamente, "mas não posso perdê-lo!"

"Odette, que decidiu?" Conseguira arrastá-la pa­ra mais perto. Ela não lhe oferecia resistência, e quan­to se maldizia por isso. Deveria detestá-lo, odiá-lo, desprezá-lo... ele que a traíra e a tudo quanto para ela era sagrado...mas, ao seu contato, não conse­guia odiá-lo. "Você não deixará minha cretinice ar­ruinar as nossas carreiras?" insistiu Lance.

Houve uma longa pausa.

"Nada direi. Vamos fazer de conta", murmurou Odette afinal.



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