A veracidade



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AFIRMAÇÃO : DEUS EXISTE

"A fé é o fundamento da esperança, a certeza daquilo que não se vê." Hb 11,1


Todos nós procuramos a certeza absoluta da existência de um ser superior,

criador de tudo. Creio que não há um ser humano que nunca se perguntou: Quem

criou o mundo em que vivo?
Muitos desistem dessa procura, pois se acham incapacitados de encontrar a

Verdade que está diante de nós, só que as riquezas mundanas não permitem que

vejamos a Sua existência com os olhos da fé, mas sim com os olhos da razão.
A fé, como já foi dito logo acima na epístola de Paulo, é a certeza daquilo que não

vemos, podendo ser encarada de modo irracional (com os olhos da fé) ou racional

(com os olhos da razão). Vejamos:
A fé é irracional, pois como cremos no invisível, não temos razões físicas para

provar sua existência, mas graças ao poder de Deus, podemos sentir sua

presença através de prodígios que só Ele pode realizar em nossas vidas.
A fé é racional, pois mesmo que não possamos vê-lo, temos a certeza por razões

lógicas da sua existência. Exemplo:

Muitos "ateus" acreditam em outras idéias que explicam a criação do universo,

como por exemplo a idéia do "Big-Bang", que consiste em uma grande explosão

fazendo com que as partículas de um todo se espalhassem por todo o planeta.

Mesmo com esta idéia científica, seria necessário que Alguém agisse para

ocasionar a grande explosão. Esse Alguém que menciono é Deus.
Só um Ser muito poderoso poderia fazer coisas tão bonitas e perfeitas (como por

exemplo: o corpo humano, os animais, os astros, etc.); obras tão perfeitas como o

próprio Construtor.
A Bíblia nos explica de uma maneira simbólica a criação do mundo feita por Deus,

onde nos ensina que Deus é o único e verdadeiro criador, que usa de nós como

instrumento para o aperfeiçoamento de suas obras.
Através dos fatos mencionados, podemos chegar a uma magnífica conclusão:

DEUS EXISTE!


Basta que abramos os nossos corações para que esse Deus que tudo criou por

Amor Eterno aos seus filhos, faça de nós obras divinas cheias de fé e felizes em

saber que Deus está no meio de nós.
DEUS EXISTE?
A existência de Deus é um fato admitido não somente pela revelação, como pela

evidência material dos fatos. Nem sempre é necessário ter visto uma coisa para

saber que ela existe.
Todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente. A Natureza pela harmonia

de suas obras, verificamos que não pode ser controlada pelo homem e muito

menos produzida. Há os que contestam dizendo que são produzidas por forças

materiais, que agem mecanicamente em conseqüência das leis de atração e

repulsão.
As plantas nascem, brotam, crescem e multiplicam-se sempre do mesmo modo,

cada uma dentro de sua espécie, em virtude dessas mesmas leis. Os astros se

formam pela atração molecular e movem-se em suas órbitas por efeito da

gravitação. Tudo isso é exato, porém essas forças são efeito que devem ter uma

causa. Citemos como exemplo o relógio, a engenhosidade do mecanismo,

demonstra a inteligência e o saber do relojoeiro, e afirma que nunca ninguém

lembrou de dizer: aí está um pêndulo muito inteligente!
Dá-se o mesmo com o mecanismo do Universo:

Deus não se mostra, mas afirma-se mediante suas obras.

No livro "Que é Deus" seu autor Eliseu F. da Mota Júnior, iniciou o capítulo 3ºcom

uma frase do bacteriologista francês, criador da pasteurização, além de inúmeras

vacinas, Louis Pasteur (1822-1895). "Um pouco de ciência nos afasta de Deus.

Muito, nos aproxima. "Essa colocação induz a idéia de que um conhecimento

científico superficial serve apenas para distanciar o homem de Deus e, em sentido

oposto leva à conclusão de que todos os profundos conhecedores da Ciência

estão próximos de Deus. O professor Eliseu discorre no seu livro com muito

brilhantismo os mais variados pensamentos de grandes cientistas

contemporâneos. Cita trechos do livro de Stephen W. Hawking, coloca também

vários trechos do livro "A Mente de Deus" do conceituado cientista inglês,

doutorado em física Paul Davies,: -"Não posso acreditar que nossa existência

neste Universo seja uma mera peculiaridade do destino, a espécie física Homo

não pode importar para nada, mas a existência da mente em algum organismo em

algum planeta do Universo é certamente um fato fundamentalmente significativo".

E terminamos este estudo ainda com Paul Davies: -"Sem Deus a Ciência não

poderá completar os seus estudos acerca da origem do Universo, da matéria, da

vida e do próprio homem".
Você não vê o Oxigênio mas por certo ele existe.

Você não vê o Vento, mas por certo que o sente.


http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/estudo/provas-da-existencia-dedeus.html
DIÁLOGO COM UM ATEU
por Rubem Queiroz Cobra
Foi um encontro casual, em uma tarde, no alto do Cabo de Santo Agostinho, um

penhasco na fímbria do mar, no extremo nordeste do Brasil. Voltando de uma

longa caminhada pela mata, decidi descansar por alguns instantes no forte

português abandonado, gozando a brisa fresca, nas sombras da tarde. Um

homem de idade aparentando uns 60 anos, vestindo uma bermuda branca e uma

camisa de seda azul que o vento agitava velozmente nas suas costas, estava

sentado sobre um velho canhão. A peça de ferro, recém-pintada em preto luzidio,

apontava para o horizonte na posição, talvez, de seu último tiro contra as

esquadras holandesas.
Acercando-me do homem – provavelmente um turista de recursos, e uma pessoa

excêntrica, por estar ali completamente só –, comentei, para iniciar uma conversa:


— As caravelas portuguesas disparavam salvas, quando passavam à vista deste

cabo, para saudar a Imagem na ermida junto ao farol...

Ele, que já me fitava, respondeu com vagar:
— Gastavam pólvora assim? Pobre gente! – disse. – Tipos supersticiosos, aqueles

nossos avós. Corajosos no mar e ao mesmo tempo medrosos do destino; hoje

somos escravos de crenças ridículas transmitidas por esses nossos ancestrais

incultos.

— Não tem religião? – perguntei-lhe.

— Sou ateu, respondeu ele. – Mas não sou esse ateu comum, que nega sem

pensar e sem refletir. Eu refleti muito para chegar à convicção de que Deus não

existe.


— Sou cristão – disse eu.

— Ah!... Humm... A maioria é... – murmurou o ateu, observando-me enquanto eu

me acomodava sobre a muralha, onde também coloquei minha mochila. Lá em

baixo, as ondas avançavam com violência e estrondo sobre as rochas do

penhasco, para recuar mansamente espalhando sua espuma branca entre

labirintos de pedras negras. O céu ganhava tintas alaranjadas, reflexos do sol que

se punha do lado oposto, oculto pela mata luxuriante. Tanto poder e beleza, não

seria uma prova de que Deus de fato existe?

Era a primeira vez que eu falava com um ateu convicto. Encarei-o com um sorriso
– para evitar qualquer suspeita de antagonismo da minha parte – e indaguei que

razão tinha para não crer. Sua fisionomia permaneceu calma e amistosa,

enquanto respondia:
. Acompanhe o meu raciocínio – pediu ele. – Se Deus existe, não poderia existir

sem ter criado este mundo que conhecemos. E neste mundo predomina o mal, ele

está cheio do mal. Portanto ou – primeiro –, Deus criou o mundo e também o mal

que nele vemos, e então não é um deus perfeito; ou, – segundo –, criou o mundo

e não tem poder bastante para afastar o mal, logo não é infinitamente poderoso;

ou – terceiro –, colocou propositadamente o mal no mundo para nos afligir e,

nesse caso, não é sumamente bom e misericordioso.

Ensaiei interrompê-lo para protestar, mas ele se me antecipou:


. Não me diga, como o seu filósofo Agostinho, que o mal não tem existência

própria, e apenas significa a ausência do bem. Não concordo. Ele mesmo

considerava como mal alguém agir contra as Tábuas da Lei. Portanto, o mal existe

e pode ser praticado. Ora, se Deus criou o bem e o mal para ver qual dos dois

vence na alma de uma pobre criatura, isto ainda é pior.

. Você falou de alma... Acredita que o homem seja corpo e espírito?

. Não acredito em almas, retrucou. – Apenas citava o seu filósofo. E posso dizer

que, se existem almas e Deus perde uma delas, esta perda é um mal que atinge a

Deus, e ser atingido pelo mal não vai bem com a idéia de perfeição e infinito

poder. O que me diz?

. Posso facilmente responder-lhe, por partes, porque são duas as conseqüências

de haver Deus dado ao homem a vontade livre. A alma somente é perdida quando

exerce sua vontade para pecar. Seria uma contradição se Deus a impedisse de

pecar, pois teria criado uma falsa vontade livre, e um falso livre arbítrio. Portanto,

não é uma imperfeição de Deus que Ele perca uma alma.

. Mas, e o sofrimento? Um mundo que, como lembrou Voltaire, sofre tragédias

como a de um grande terremoto, com perda de milhares de vidas, não é um

mundo impregnado do mal?

. Ora! Você sabe que ele criticava o relativismo de Leibniz e de São Tomás, para

os quais do mal podia resultar algum bem e neste caso o mal era bom. Mas eu

vejo o mal por um ângulo muito diverso: ele em hipótese alguma é bom ou pode

ser tolerado. Deixa-me dizer por quê: Deus criou as leis que regem o universo, as

quais, seguidas à risca pela natureza, surpreendem os homens a todo instante e,

quando as desconhecemos ou não podemos vencê-las, elas são a origem do

sofrimento para nós. Porém, essas leis eram necessárias! Não seria possível a

vontade livre se nada se movesse, se o mundo fosse rígido, imóvel; e também não

seria possível exercê-la se, ao contrário, o mundo fosse completamente caótico.

Dito isto, pensei: se não existissem as leis naturais, os milagres também não

aconteceriam!... – mas prossegui:
. Talvez o homem conhecesse perfeitamente essas leis naturais – esse

conhecimento explicaria sua felicidade e sua pureza no Paraíso -, mas tenha

perdido sua sabedoria devido a um primeiro pecado; não por praticar o mal, mas

por orgulho...

. No paraíso?... – perguntou o ateu com polida ironia. Era evidente que a

questão o interessava. Talvez não fosse um ateu tão convicto quanto acreditava

ser.

. Sim – respondi-lhe –, e tem, na Terra, que lutar para redescobri-las, a fim de



dominar a natureza, evitar o sofrimento, e reconquistar sua felicidade. Porém,

quando descobre uma dessas leis, não a conhece completamente. Precisa

procurar também os princípios dos quais ela deriva e chegar a princípios e leis

anteriores, de modo que busca incessantemente as causas das causas. A ciência

cada vez mais sente a necessidade de uma fórmula universal, um princípio que

ela não possa desmontar e reduzir a outros princípios. Assim, a ciência, sem o

saber, está procurando Deus, que é essa causa última.

. Aristóteles parece que foi o primeiro a falar de uma causa suficiente das coisas.

Mas isto não é uma prova da existência de Deus – alegou o ateu. – Em todo efeito

permanece alguma coisa do que foi a sua causa, e nas coisas do mundo não

vemos nada que tenha pertencido a algo ou alguém senão ao mundo mesmo.

Existem os princípios da física, os princípios da química, eles, sim, princípios

perfeitos e eternos, leis imutáveis, indiferentes ao bem e ao mal.

. Não há nenhum vestígio de Deus no mundo por que Deus não se confunde

nem é parte da coisa por Ele mesmo criada. Se você olha um quadro pintado a

óleo, também não encontra nada do pintor, se ele não deixar seu nome escrito. Se

você não quisesse acreditar na existência do pintor, você teria que supor que o

pincel que deixou as marcas na tela seria a única razão do quadro existir. A ação

do pincel estaria muito bem explicada pelos princípios da química e da física.

Estes princípios lhe diriam, por exemplo, a força com que o pincel atingiu cada

parte da tela. A disposição das linhas lhe permitiria descobrir as leis da estética

aplicadas à pintura. Porém, a rigor, o quadro jamais lhe provaria a existência do

pintor mais que as coisas do mundo provam que Deus existe.

O velho ergueu-se da ponta do canhão, bateu alguma poeira de sua bermuda

branca e veio apoiar-se na muralha, fitando o mar. De perto, deu-me outra

impressão. Talvez seu rosto não tivesse tantas rugas quanto seria de esperar

devido à aparência alquebrada e gasta de sua figura. Já não lhe daria mais que

uns cinqüenta e poucos anos de idade. Parecia disposto a continuar a me ouvir.


. Retornando à questão do bem e do mal, é quando cremos em Deus e na

palavra revelada – continuei –, que podemos distinguir o que pode ser o

verdadeiro bem e o verdadeiro mal para nós. Então se torna importante o

problema da conduta moral. É incerto o que esperar de quem não tem Deus como

referência moral!
. Não diga isso, por favor! protestou o ateu. – A filosofia pode nos fornecer regras

para a boa conduta. Temos um dever natural que é usar nossa razão para

fazermos somente o que for mais adequado, e fazê-lo segundo um raciocínio o

mais amplo possível. Deus fica totalmente fora disto. Há, portanto, como ser um

bom ateu desde criança – arrematou ele.

. Porém sem incluir Deus, o raciocínio não será cabalmente completo e

abrangente, não será “o mais amplo possível” como você exige. Seria, como no

exemplo que dei, raciocinar sobre um quadro sem levar em conta o seu autor.

Afinal, quem fez o homem? Quem lhe deu consciência? Foram os princípios da

física? Isto, sim! é impossível. E se você sabe que existe um Criador, você quer

conhecê-Lo e ouvir Sua palavra.

Ambos falávamos sem nos exaltar – a serenidade em nosso diálogo permitia que

fizessem parte do momento sensações várias que estimulavam nossa reflexão: a

visão do mar azul, a brisa morna, o borrifo das ondas que vez por outra nos atingia

sobre a muralha.
. Deixa-me devolver-lhe a pergunta – disse ele no mesmo tom bem humorado

que mantivera em toda a conversa. – Você tem algum motivo que não aquele da

“causa última das coisas” ou “porque fui educado na santa fé católica” e coisas do

gênero, para acreditar em Deus?

Sua pergunta levou-me a sorrir.
. Sou um geólogo! – respondi. – O estudo da Terra leva qualquer um a refletir

sobre um Criador. Imagina aqueles que estudam os astros!...

Foi só então que finalmente nos apresentamos, sem que ele dissesse muito a seu

respeito. Apenas que era do Sul, estava num programa de turismo de grupo e que

os companheiros haviam decidido ir até São José da Coroa Grande, e o

apanhariam ali no retorno.


. Está hospedado na pensão? – perguntei-lhe. – Lá poderemos continuar a

discutir o assunto, esperando pelo jantar. Talvez Dona Baixa nos ajude com

alguma luz sobre a questão.

Descemos a senda do penhasco sem pressa, alcançamos o baixio que ia dar na

praia norte e, pelo caminho entre os coqueiros, fomos nos acercando do

aldeamento de pescadores, nos últimos momentos da luz da tarde. A pensão era

um casebre um pouco mais amplo que os demais, numa posição privilegiada na

longa fileira de choupanas, com um extenso coqueiral e a ampla praia bem à sua

frente. Entre os coqueiros havia um pequeno coreto de paus roliços, com uma

lanterna a gás pendurada no centro do teto de palha. No mar, as ondas rolavam

sua longa faixa de espuma já sem brilho, em um vasto arco que atingia ao mesmo

tempo as areias ao longo de toda a praia próxima e distante.

No trajeto havíamos conversado sobre os hábitos daquele povo simples e ao

jantar, tendo o sulista se interessado pelo que lhe falei do meu trabalho, não

retornamos ao assunto de nosso debate anterior.
À noite houve um ensaio de música para uma festa tradicional que estava

próxima. Alguns músicos, sentados nos bancos toscos do coreto, tocaram pífaro e

uma rabeca, e alguns pescadores cantaram versos ligeiros de muita rima, um

canto meio gritado e aflito, até que as rodadas de cachaça reduziram o canto a

conversas arrastadas e muito riso. Já havíamos nos recolhido aos nossos

pequenos quartos quando as vozes cessaram e apenas o ronco das ondas vez

por outra se fazia ouvir no silêncio da noite. No entanto, eram apenas 9 horas!
Na manhã seguinte, levantei-me cedo, e saí para fazer observações no penhasco

e nas rochas vulcânicas circunvizinhas cobertas pela mata. Após um dia de

trabalho, caminhando para oeste até onde principiava o canavial, e retornando

pelo sul ao cair da tarde, foi com verdadeiro prazer que, depois de um mergulho

no mar e um banho de caneco para retirar o sal, voltei a encontrar o ateu na

pensão. Como eu, ele ia passar ainda uma noite no local.


Ao jantar, depois de trocarmos algumas palavras sobre o nosso dia, de

prosearmos um pouco com Dona Baixa e saborearmos o seu pirão de peixe,

voltamos ao assunto da véspera:
— Você ficou me devendo a resposta à minha pergunta – disse-me ele. – Além de

uma conjectura sobre a “causa última”, ou do fato de ter sido educado católico,

existe na verdade algo que o convença da existência de Deus? Nos distraímos

com outros assuntos e você não chegou a expor suas razões.

— Bem... Uma coisa que me impressiona muito são os milagres – respondi. – Eu

os tomo como a principal, e talvez a única prova direta que se pode ter da

existência de Deus, e também dos Santos, de Maria e de Cristo.

— Fale-me apenas de Deus – atalhou ele.

— Mas você certamente considera ridículo alguém acreditar em milagres...

— Oh, não! Não considero essa crença ridícula. Na verdade, porque a idéia da

bondade infinita faz parte da idéia de perfeição, a um ser que fosse perfeito não

poderia faltar o deixar-se provar concretamente. Se Deus existe como os judeus e

os cristãos o idealizam, como um ser perfeito e misericordioso, negar Ele próprio a

prova de sua existência haveria de contrariar Sua perfeição. Apenas não entendo

porque os milagres seriam prova, uma vez que não passam de fatos mal

interpretados, como está definitivamente demonstrado.

A conversa que iniciamos à hora do jantar, continuamos depois à beira da praia,

sob a luz de intenso luar, sentados na borda de uma jangada deixada na areia ao

pé dos coqueiros.

. Não seria possível provar Deus somente no campo físico, como se prova em

laboratório a pressão dos gases, a dilatação dos metais. As provas da existência

de Deus precisam ser buscadas onde a Sua natureza e a natureza do homem se

tocam, ou seja, onde a espiritualidade e acontecimentos extraordinários ocorrem

juntos. E também não seria possível essa prova, sem que fosse vontade Dele. E,

para mim, os fatos que representam essa convergência das duas naturezas e das

duas vontades são principalmente os milagres. Deus se deixa provar numa

relação de sua vontade com a vontade humana, justamente quando concede omilagre. É uma relação íntima em que apenas o indivíduo que recebe o milagre

tem absoluta certeza de que é um ato extraordinário em que Deus se manifestou,

e somente para ele trata-se de uma resposta às suas súplicas e à sua fé.

Esperei por uma objeção que não veio. Meu companheiro, curvado e algo absorto,

desenterrava uma pequena concha da areia. Vez por outra pequenos caranguejos

emergiam de seus buracos e saíam a andar de lado; alguns se detinham para nos

fitar.
Como o ateu nada dissesse, prossegui:
– Para me fazer mais claro, deixa-me dar um exemplo. Um colega meu, passando

por um lugar ermo ao norte da serra da Bocaina, em Minas, soube de uma criança

que fora mordida por uma cascavel. Tomou a criança dos braços da mãe e a levou

em seu carro para um hospital distante algumas centenas de quilômetros, em

tempo de salvar-lhe a vida. Ora, somente para a mãe da criança o acontecido foi

um milagre em resposta às suas orações. Qualquer outra pessoa dirá que não foi

nada de particular entre Deus e aquela mãe, e que foi apenas sorte.

. Então, Deus apenas manipula probabilidades?

. Não digo isso, mas, ainda que Ele intervenha e inverta a ordem natural, o

milagre é sempre contestável, sempre é explicável como simples fenômeno físico,

ou como um fenômeno psicológico ou simplesmente atribuível à sorte, a uma certa

probabilidade estatística, como se nenhuma lei da natureza houvesse sido

transgredida.

O ateu objetou:


– Mas o significado de Milagre é, sabidamente, o contrário do que você diz: de

acordo com a palavra latina miraculum, é alguma coisa maravilhosa, que é

evidente para todos.

. Perfeitamente! O indivíduo se maravilha e em grande emoção paga uma

promessa difícil, quando ele ou a sua família recebem um milagre como clara

resposta às suas preces.


. Mas teria que ser algo inquestionável, como um homem que não tivesse as

duas pernas e de repente se apresentasse com elas! – impacientou-se o ateu. –

Uma coisa assim jamais aconteceu... Que eu saiba!

. Veja! Se tal fato acontecesse, estaria claramente e perante todos violada a lei

natural. Não sobraria para ninguém aquela margem de dúvida que, em minha

opinião, caracteriza o milagre. O poder de Deus estaria claramente manifestado a

todos, o que tornaria completamente dispensável uma fé previamente existente.

Para acontecimentos assim, capazes de despertar a fé naqueles que não a têm,

deveríamos reservar a expressão testemunho.

. O milagre – prossegui – resulta de uma súplica feita com fé, enquanto o

testemunho é um ato espontâneo de Deus. O milagre é secreto; o testemunho, ao

contrário, é público e precisa ser investigado. O milagre, mesmo quando pedido

simultaneamente por muitos, é para cada pessoa um entendimento particular com

Deus. O testemunho apenas raramente é dirigido a um só homem, como foi

excepcionalmente no caso do apóstolo Tomé. Enquanto o milagre inunda de

felicidade, o testemunho infunde respeito e temor.

. Fico surpreso! – disse o outro. – Os fatos que estão no chamado Novo

Testamento, em que a natureza teria sido claramente contrariada, assim como

Cristo caminhar sobre as águas ou elevar-se ao céu ou, no que é dito ser o Velho

Testamento, a travessia do Mar Vermelho pelos judeus, são narrados como

milagres.

. O filósofo David Hume faz uma crítica aos fatos bíblicos dessa natureza –

respondi. – Mas lhe faz falta essa distinção que eu faço, entre milagres e

testemunhos. Apesar de que ele se refere indistintamente às duas coisas, seu

texto é dirigido mais ao “testemunho”, e neste caso está também São Tomás, de

quem se pode ver que Hume tomou parte da sua definição de milagre.

. Entendo seu ponto de vista – disse o ateu. – Resumindo: não se prova a

existência de Deus com a evidência própria do método científico, porém está ao

alcance do homem encontrar essa prova de modo particular, nos milagres...

— E como todo aquele que procura tal prova com certeza a encontrará, ela tem a

universalidade necessária a toda demonstração científica – completei sem vacilar.

A lua cheia trouxera a maré alta; franjas de espuma arrojavam-se aos nossos pés.

A aldeia estava adormecida; já passava muito das nove horas!
Ergui-me, mas o ateu permaneceu sentado. Olhava o mar que se avolumava mais

a cada onda, como se estivesse hipnotizado pela massa negra que agitava

tentáculos para nos alcançar. Surpreendeu-me o tom amargo de suas palavras

quando disse, a voz embargada pela emoção:

. Sabe?... Eu e minha esposa nos separamos, por culpa minha! meus filhos não

me perdoam. Viajo a fim de esquecer a coisa toda.

Ao ouvi-lo percebi, consternado e surpreso, que ele realmente sofria. Já o

considerava um amigo. Diante do seu abatimento, esvaiu-se de súbito o meu

entusiasmo pelas minhas teses. Porém, forçado a ser coerente com tudo que

havia dito, ainda lhe disse, hesitante: – Confie em Deus!


Ele baixou a cabeça e nada disse, talvez resignado a fazer uma concessão

absurda.


Retornamos à pensão, passando pelos casebres brancos, fechados e silenciosos.

A noite havia esfriado. A maré trouxera um vento frio; o farfalhar das palmas do

coqueiral agora era mais forte e opressivo, e no céu a lua começava a ser oculta

por farrapos de nuvens escuras que se moviam ligeiro para o continente.


*
Passado não muito tempo, tive notícias do meu amigo. Sobre a mesa em meu

escritório, no Recife, estava um envelope com carimbo do Sul. Continha uma

fotografia em que, bastante rejuvenescido, ele tinha um braço sobre os ombros de

uma mulher, olhando-a com ternura, os dois ladeados por um casal de jovens,

todos sorridentes. No verso havia apenas uma frase: “Caro geólogo, anote este

milagre!”


http://www.cobra.pages.nom.br/ctp-mil-teste.html


THE END






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